quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Silêncio no 32135

Silêncio no 32135

 

Photo by Steve Marcus | Las Vegas Sun | Reuters. Fair Use.

O som de botas ritmadas ecoava compassado. Ramblambam-ramblambam. As luzes coloridas das ribaltas rasgava o céu acompanhando os acordes. Se fossem vistos dos altos prédios ao redor, ouviria-se apenas as notas saídas das caixas de som, mas não as vozes que se faziam coro, riam e se entregavam, chapéus à mão, transformados em mutidão. Ramblambam-ramblambam, soavam as botas no palco. Ramblambam-ramblambam, respondiam as botas da plateia contra o chão. Vinte e dois mil pares de botas. Vinte e duas mil vozes.

Ramblambam-ramblambam.

A trinta e dois andares acima ninguém notou as janelas quebradas.

Ramblambam-ramblambam.

Um par de botas, deitado no chão.

Ramblambambadabambadabambadabam.

O som das botas desencontradas ecoava descompassado. Os clarões dos projéteis rasgavam o céu acompanhando o caos. Vistos dos altos prédios ao redor, não se podia ouvir as vozes de choro, os gritos, não se podia ver os chapéus ao chão, o vermelho ao chão, uma ideia ao chão. Tudo é transformado em turbilhão.

Ramblambam.
Clack-cla;
bam.

Quando as botas dos homens de uniforme entram no 32135 já não havia som. Nem nos palcos, nem na platéia, nem nas janelas, nem nas tribunas e palanques.

No silêncio alguém perguntou "o que se há de fazer?" E a resposta soou automática, novamente, como havia soado tantas e tantas vezes, em todos os silêncios após rajadas, também automáticas.

E os ouvidos moucos esperaram que mais uma vez ela se perdesse no silêncio, junto com quase sessenta pares de botas ficariam sobre as ruas.

O que acontece lá, afinal, lá permanece.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O som da goiaba


O som da goiaba

Image: Sounds of Saxophone, by Vakho Kakulia 2010.

Não havia muito que eu chegara em casa do trabalho, quando algo bateu de repente no vidro da sacada. Breve, quase a ponto de não ser percebido. Mas o som foi suficiente para me chamar a atenção. Abri a porta de correr e ela estava ali, recém caída no chão, ainda se debatendo. Não reconheci com certeza, mas acho que era um dó.

Quando me agachei para recolhê-la um som breve soou e algo me atingiu de leve as costas. Virei-me para encontrar o que, acredito, era um lá. E lá de baixo ouvi mais uma vez o som polido do ronronar de um gato de metal. Espiei sacada abaixo e, sob a goiabeira da calçada no outro lado da rua, escondido da luz amarelada do poste, o som embalava a árvore vibrando-lhe de leve as folhas na cadência de um jazz lento improvisado. Aqui e ali escapavam umas notas por entre as galhadas, que iam cair nas sacadas dos apartamentos mais baixos, com cheiro de goiaba e som de noites de New Orleans. Com os cotovelos apoiados no batente da sacada deixei o olhar perder-se nas folhas pintadas de amarelo sob o céu que escurecia, tentando perscrutar sob os galhos o ronco melodioso do saxofone. O vento assobiou e uma folha rodopiou na calçada, dançando para o poste cuja luz arrancava faíscas douradas por entre os galhos, feito veios de ouro entre flores de goiaba.

Um carro se aproximou e parou junto ao passeio, sob o poste que servia de ribalta. A música cessou e uma garota loira toda de preto surgiu por sob as folhas da árvore. Trazia à cabeça um gorro preto à francesa, tombado de lado feito uma nota em bemol. Ao pescoço, por sob as melenas loiras, um cachecol cor-de-goiaba-madura disputava com o saxofone dourado o protagonismo de cor. A garota desapareceu no carro, que sumiu na curva do fim da rua, deixando a goiabeira silente, uma calçada vazia e uma folha inerte no chão.

Quanto a mim, herdei apenas um resto de noite embalado pelos ruídos ásperos da cidade e o par de notas que guardei como lembrança da saxofonista do cachecol cor-de-goiaba.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Acostumar


Acostumar




Acostumar.
A costa, o mar.
Encosta
no meu ombro e vê
o sol raiar.

Vamos nos deitar
à costa, ao mar

Acostumar.
Acosta, o mar
à costa.
A onda vem
te ver chegar.

Vamos nos deixar
acostumar.

Acostumar
à costa, ao mar.


Uma cançãozinha besta pra tocar na areia só com um violão e um nascer de sol. (e pq foi só o que rolou pra ao menos atualizar issaqui)
 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Mais palíndromos


Mais uns palíndromos (aqueles textos de podem ser lidos de trás pra frente da mesma maneira que na ordem normal). Esses não sei se chegam a ser narrativas.

Palíndromo #5
A dívida? A diva ávida a divida.

Palíndromo #6
Se divido tapas, o sapato divides.

Palíndromo #7
Ué? Tão raro orar o ateu.


terça-feira, 27 de junho de 2017

Microcontos em Palíndromo


Microconto em palíndromo #1
A Leca a viu, a Roana corre e vê. Nana leva ave lá na neve. Erro, cana. Ora uiva à cela.

Microconto em palíndromo #2
Paro ao vê-la. Ô, azar! Razão a levo ao rap.

Microconto em palíndromo #3
A Reeva? Ah, levo-a aos ossos sós. Só soa a ovelha, ave e rã.

Microconto em palíndromo #4
O cão! A dor é ao vale! Ela voa e roda o aço.


palíndromo: frase ou palavra que se pode ler, indiferentemente, da esquerda para a direita ou vice-versa.

terça-feira, 9 de maio de 2017

The first rain of autumn


The first rain of autumn



The first rain of autumn
in a wet gray monday.
Sadness and beauty compressed in tiny droplets.

So much held inside.

But every season has,
someday, to let go.

So a drop rolls over my window
as monday morning mourns
on the first day of autumn.

20/03/2017

segunda-feira, 17 de abril de 2017

The humming bird


The humming bird


A humming bird came through my open window.
It flew to every corner of the living room
and landed on the back of an old rocking chair.
There, it stood still.
But somehow it looked
impacient
unbalanced
and awkward.
The tiny talons moving nervously, uncertainly.
The keen eyes reflecting my own.
Then suddenly it took flight.
Raised to the ceiling, dived close the carpet
and zigzagged like a spark fled from a bonfire.
And like a dart, it dashed to the door,
blasting through the wood leaving behind no more
than a tiny hole
in the shape of brave wings of unpleasantry.

terça-feira, 14 de março de 2017

...


Um cofre
guarda a fortuna
de quem puder
lhe abrir os segredos.

Vem o menino
e tenta uma senha,
o cofre se abre
com imprecisão.

Vem o velho
tentar os seus números.
O cofre se abre,
com sofreguidão.

Uma fortuna
para cada
combinação.

[clic-clac-cla]

Um poema é cifrado
com uma contrassenha
para cada leitor.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Conjuga-me


Imagem: "Quiero" por Marcos Radicella
Conjuga-me

queria eu
quisesses tu
quereres meus

quisera meus
quereres teus
quereria ainda
que em adeus

quisesses tu:
quereríamos

queiras tu
quando quiseres
que eu quero
se agora queres

queria eu
quisesses tu
a mim

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Charqueado


Charqueado

Hoje vi meu livro
numa estante pública,
pendurado feito carne
na vitrina de um açougue.

Queria eu, pingasse sangue.
Ver luzir o brilho das gorduras
    (posta exposta)

Queria ver o nervo
mais incômodo entre as fibras.
Queria o cheiro mais vermelho,
a gota mais viva
e o visco mais rico.

Sede de sebo.


Mas hoje só tem carne-seca.

A cerveja ajuda a descer.




Laura com Selenita, acho que não muito após o lançamento.