sexta-feira, 20 de maio de 2016

Pela flor caiçá

 
Pela flor caiçá

Deste rio
tão caudaloso
só quero a margem.

Só a margem
não corre.
E sem corrente
(de repente?)
se é livre.

Mas o rio ruge
tão perto!

[tão alto]

Voraz

Engole tudo:
troncopauepedra

Engole a capivara que pasta de cabeça baixa, perto demais.

Engoliu o barco que ali ficava.
Engoliu a ponte que nunca existiu.

E os patos de borracha,
que boiam sobre a torrente,
(ainda não o sabem)
há também de engolir.

Tão caudaloso esse rio,
tão barulhento
e barrento
corre,
sem perceber que não tem por destino outro
que dar de frente
com outra corrente
e, engolido, sumir no mar.

O rio correu
roeu
levou morro e rocha e a capivara que nele entrou.

Mas a margem,
ainda que roída,
moída
doída
e arranhada,
permanece.

E quando a água baixar
ali vai brotar
uma flor caiçá.















Escrito certamente influenciado por esse texto do @saobrabo.
Foto do Photobucket, aqui.

domingo, 15 de maio de 2016

A última folha


Sempre resta uma última folha que insiste em se agarrar ao galho, ainda que o outono há muito já se tenha ido e que o inverno se adense. Resta sempre uma folha a balançar no ocaso.

Ilustra em Photoshop

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Le Matin Gris


Le Matin Gris


Comment la pluie
qui tombe
je suis l'imminence
de la tristesse.
Je suis le visage
de le matin gris.

* Foto de Cleò Chiara (https://www.flickr.com/photos/cleochiara/3207199128)
** Se alguém pescar algum erro aí, por favor apontar, não sei o que to fazendo ;P

sábado, 19 de setembro de 2015

Raposa Violinista



terça-feira, 8 de setembro de 2015

Me acorde antes de anoitecer


Me acorde antes de anoitecer.

Me desperte antes de cair a noite,
para que eu possa ver o por-do-sol
sem a sensação de não ter visto
o dia.

Que eu esteja acordado antes da lua surgir
e quando ela chegar, que lá eu veja refletido o brilho do sol.
Me acorde antes de anoitecer
para que eu possa aproveitar
o que ainda restar da manhã e as últimas luzes da tarde.

Então,
mesmo que eu pareça
confortável
e aconchegado,
me acorde.
Me acorde antes de anoitecer.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Bandeiras Vermelhas


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Um Minuto para o Cárcere


Um Minuto para o Cárcere

Três e trinta e dois da madrugada de três de março. O relógio na parede havia parado no momento exato em que o projétil de zero ponto trinta e oito polegadas lhe varara a face entre os ponteiros e se instalara entre as engrenagens por trás do mostrador de números romanos. Ávila olhava o instrumento iluminado pela única nesga de luar que driblava as cortinas pesadas. O facho pálido de luz envolvia os ponteiros com uma aura quase mágica. Três e trinta e dois, de três de março. Três do três. Não resistiu a tornar o momento mais auspicioso. Com o dedo adiantou o ponteiro maior em um minuto. Agora sim: três do três, às três e trinta e três. Satisfeito, guardou no bolso interno da jaqueta o revólver e saiu sem deixar vestígios e, como únicas testemunhas, o relógio varado na parede e o cadáver atrás de si que também guardava, no peito, outro projétil calibre trinta e oito.

Duas semanas depois, o relógio marcava no mostrador digital ao lado da cama um horário sem graça: vinte e duas e cinquenta e sete. Ávila, sonolento, não chegou a lhe dar atenção. Foi o som da porta do quarto arrombada que o despertou a tempo de ver a luz de uma lanterna tática apontada para o rosto a ofuscar-lhe a visão. Quando os olhos se acostumaram ao novo ambiente e o sono lhe abandonara por completo pode divisar os canos das armas apontadas para si, as balacravas negras e os conhecidos coletes balísticos onde lia “polícia civil” em letras brancas.

Agora, na cadeira de réu, ouvia o promotor público recriar o serviço executado em uma versão aproximada. Achou irônico o fato de ter sido condenado a tanto tempo por causa de um minuto. De um auspicioso minuto que deixara sua digital entre os ponteiros de um relógio de parede transpassado por um projétil, às três e trinta e dois da madrugada de três de março.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

...


esse inverno tépido
que não congela o tempo
não arrefece o passo
do ponteiro

que feito lança avança
                   friamente

nesse inverno baço
de passo lasso
despedaço

sábado, 13 de junho de 2015

Draw4Atena


Atena Farghadani foi sentenciada a mais de 12 anos em uma prisão iraniana por desenhar parlamentares do país com cabeças de animais. Ela tem menos de duas semanas para a apelação. O quadrinista do Washington Post começou uma campanha para chamar a atenção ao problema por meio de charges, ilustrações e quadrinhos, em que vários artistas aderiram. Pega o lápis aí tb e #Draw4Atena.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Eles estão por toda parte


quarta-feira, 8 de abril de 2015

Luna



Luna

À hora mais tardia, quando a luz amarelenta dos postes já não se derrama sobre nada exceto o asfalto molhado, um cão hirsuto vem beber a água que se acumula nos buracos deixados expostos pela administração municipal. Metros acima, da sacada insone dum apartamento suspenso entre ressonares vizinhos, alguém conta os pingos que mergulham na tigela de asfalto lá embaixo, enquanto apaga uma lembrança entre a ponta do cigarro e a pedra do parapeito da sacada.

Caso o cão elevasse o olhar, não veria mais que um último e diminuto ponto vermelho ser engolido pela escuridão contra o céu sem estrelas. Mas vista da sacada, a noite nunca é de fato capaz de envolver por completo a cidade, que insiste com seu amarelo-triste em manter-se acordada à rebite, à trago, à pó. À beijo não dado, à palavra não dita.

Quantas sacadas se penduram na noite? Quantos cães de cabelos nodosos vagam de poça em poça sob a chuva à procura de água?

Quantas noites são necessárias para engolir uma cidade? Quantas noites são necessárias para engolir o que se entala na garganta e sufoca mais que a fumaça tragada de um toco de cigarro?

O cão se vai. Um piparote atira longe o cigarro consumido até o filtro. De algum lugar a cidade uiva de saudade da lua, sem lembrar que os próprios luminosos é que afugentaram os astros.

A noite, esquece-se, não se pode comprar.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Pardon moi


Pardon moi
ma belle
je ne veux pas
une nouvelle
passion
je veux seulement
boire
boire
et boire

je ne veux pas
la lune
je ne veux pas
l'ètoile
plus loin
je ne veux que
ma chère
boire
boire
et boire

Rien que
boire
boire
et boire

Toujours
boire
boire
et boire

Pardon moi

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Reflexos do Mekong


Ela tinha nos olhos a tristeza da Indochina. A cor do Mekong refletindo o céu de um dia estivo. Olhos pluviais que em noites abafadas traziam sonhos de monções. Naquelas noites, meu leito se confundia com o leito do Mekong.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Sorvo de Saudade


Sorvo de Saudade

Eu vejo os teus traços todos os dias,
onde sorvo a saudade a cada manhã.
Eu solto balões a todo momento, pra que eles se percam
                              se percam ao vento
até estourar em algum lugar
bem alto,
bem alto, onde ninguém possa ouvir.

Eu te vejo
    tatuada nas outras
Eu me queixo
    da toada das coisas
Eu me deixo
pensar um momento
na rima que não ouso fazer.

E grito bem alto,
bem alto,
onde ninguém possa ouvir.

Bem alto,
bem alto.

[...]

Que ninguém possa ouvir.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Promessa de ano novo


Promessa de ano novo

É dois mil e catorze e eu ainda não fiz um poema.
E se o mundo acabar
e o se o sol não raiar

amanhã?

E se o chão se abrir
antes de mim?

E se chover a última chuva
ou brilhar a última estrela?
Se a última lua cair

sobre mim?

Já é dois mil e catorze e eu ainda não
 [te]
fiz um poema.