quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Quando os morros caem


Foto do Informe Blumenau, de 2015
Esse foi de 2015, para o Willy e para a Irene. Não manjo dos paranauês, então só larguei uns três acordes ali, provavelmente teria que arrumar e arranjar direito, mas enfim, pra atualizar esse rincão aqui.

Quando os morros caem
Para Irene e Willy

(A7 E)

E        B7    A7
Quando o rio chamou
        E
O morro respondeu
        B7    A7
Quando o rio clamou
        E
O morro atendeu
        B7    A7
O morro rachou
          E
E o rio correu
            B7    A7
Por onde nunca andou
        E
Por onde escolheu
        B7         A7            E7
E nada restou (nada restou), só você e eu
        B7         A7            E
E nada restou (nada restou), só você e eu
E        B7    A7
Meu cachorro cego
    E
Rio levou
        B7    A7
O meu carro velho
         E
Rio carregou
        B7    A7
Quando o rio correu
    E
assoreou
B7              A7            E
//: Meu peito, meu chão; casa e refrão; canto e violão:\\
B7         A7        E
Peito, chão; violão
B7         A7        (A7 E)
Peito, chão

terça-feira, 9 de julho de 2019

Flame Writing

Image: pexels.com

Flame Writing

Write.
Write like your fingers are on fire.
Like your brain is a bursting scorching lake.
Like your heart is a blazing kiln, pumping in your chest.

Let it burn.

When all left is a pile of fuming ashes,
blow it all away,
until you find that remaining tiny ember, burning alive.

Blow it.
Blow it and throw it everything you've got,
'til the flames arise once more.

Then you write.
Write like your fingers are on fire...


segunda-feira, 10 de junho de 2019

fin de tarde andaluz


Imagem de Grupo Navega em Nautical News Today

fin de tarde andaluz

yo soñé
con el sol a morir
    [rojo
en el guadalquivir

hecho un miura
despacio a hundir
en un poema
de sangre y dolor

la gente a la margen
lanzava suspiros
    [en el agua
como si fueran rosas a la arena
como si fuera día de feria

la torre del oro a mirar
un cielo de oro a dorar
    [la invidia
de los techos de alcazar

yo soñé con el sol a salir
    [de tapas
con la luna a sonreír
dejando colores a engalanar
el sueño que soñé soñar

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O Paraízo-Paraguay de Marcelo Labes


 



Um legado é uma semente guardada em uma caixa de madeira.
Um olhar sobre o Paraízo-Paraguay de Marcelo Labes.

Paraízo-Paraguay chega como a obra de estreia da Caiaponte Edições, capitaneada pelo próprio autor do livro, Marcelo Labes. Nascida pelo financiamento coletivo on-line, sob a égide da contemporaneidade, resta ainda ver os próximos passos da editora, que promete ao menos mais duas obras. Quanto a esta inicial, a primeira do autor em forma de romance, a edição não deixa nada a desejar. Uma obra bem acabada, de composição elegante. A capa em tons quase sépia traz as ruínas da Igreja de Humaytá e assim já introduz o tom do livro. Um tom que, apesar da novidade da prosa mais extensa do autor, mantém ainda ecos dos versos de trabalhos anteriores de Labes. E o mesmo olhar sobre um vale úmido, cheio de memórias que se pegam às paredes (e pessoas) feito bolor.

Uma história de vergonhas de uma guerra da qual já não se lembra, de lembranças de um passado celebrado que não se viveu. Legados recriados para encobrir destroços que deixamos. O Paraízo-Paraguay de Marcelo Labes é repleto deles. Que se sobrepõem saturando as cenas e os personagens, até precipitarem-se feito chuva pelas encostas do vale, carcomendo a terra, criando valas, expondo vazios que, quando encarados, refletem na vala cheia de água o rosto de quem observa.

Paraízo-Paraguay nos conta a saga de uma família — a seu modo — desde a geração que chegou na Colônia de Blumenau não muito após a chegada dos primeiros colonizadores. Um olhar diverso do mito hegemônico da colonização germânica nas colônias do sul do Brasil. O mito, claro está, do puro e intrépido desbravador branco, batalhador, que dobra à sua vontade a natureza de uma terra selvagem, feito o Crusoé de Defoe. E como o próprio Crusoé, o ideário do colonizador europeu subjugando a nova terra e seus selvagens. Uma memória imaginada e reimaginada até virar História.

O romance exorciza, talvez, alguns destes demônios ao colocá-los à luz. O faz, primeiramente, nos levando junto aos praças forçosamente recrutados para ir combater pelo Brasil na Guerra do Paraguai, para saldar a cota de homens do administrador da Colônia. Alemães e brasileiros lado a lado. Alemães que negavam a brasilidade na qual estavam enfurnados. Como estavam, feito os brasileiros, enfurnados igualmente entre os mesmos morros, entre as mesmas plantas e animais, entre as mesmas valas na mesma terra. Saudosos de uma Alemanha d'além mar que ainda viam como sua. Uma saudade, parece, incurável; ainda que a língua alemã talvez não a possa traduzir à perfeição.

Paraízo-Paraguay escancara essas feridas e lembra das cicatrizes que escondemos entre as dobras de nossos morros. Lembra também os nosso vários flertes com o fascismo e alguns dos preços que pagamos e, certamente, nos esquecemos.

Resgata sobretudo a atração quase mística de um legado. Seja de um passado pintado glorioso no Velho Mundo, seja perambulando pelas docas da velha Itajahy atrás de redenção,  ou nas buscas para lá da fronteira paraguaia. Seja enterrado no nosso próprio quintal.

Para cada legado de administrador de colônia nas ruas principais, igrejas e registros oficiais, um sem-fim de outros legados serpenteia às margens do Itajaí-Açu. É quando ele transborda que todos se misturam. E Labes soube observar — e retratar — as marcas que deixam no lodo.

sábado, 6 de abril de 2019

Para sempre rio



Foto de Angelina Wittmann
Para sempre rio

De manhã cedinho o sol não chegava a tocar o chão da floresta, que dormia sob seu dossel de copas orvalhadas. O velho pisava macio, pés descalços, para não acordar a mata. Já desperto há algumas horas, sorria vendo o dia clarear. De um lado a montanha esticava o pescoço a quase mil metros para espiar o nascente, do outro o assobiar do rio num chamado que acostumara ouvir desde muito.

Fora há mais de meio século que o rio vira o velho pela primeira vez. Ainda um rapazote imberbe, sem rugas, trejeitos ou  as histórias que agora tanto cativavam as águas. Mas fora o suficiente para o rio se enamorar.

Cada vez que as pernas magras lhe penetravam o leito, o rio se contorcia em júbilo, lambendo-lhe as panturilhas, envolvendo-lhe em seus recantos. Mas logo o visitante ouvia o chamado da mata, de algum vizinho ou do fogão de chapa a crepitar em algum lugar. E o rio saudoso ficava ali, só lágrimas a correr por aqueles vales do sul.

Veio o tempo e com o seu condão transformou o menino em velho, arbusto em árvore, semente em planta. Só o rio continuava rio. Melancólico, saudoso e fluido, sempre a assobiar quando via o velho passar. Ao velho cresceu uma barba longa e prateada, que lhe cascateava queixo abaixo feito corrente brilhante à luz do sol. O rio se enamorou ainda mais.

Uma noite, saudoso, o rio não suportou e se ergueu do leito para procurar o velho. Chegou ao terreno, espiou a casa, mas não teve coragem de entrar. Chamou e esperou, mas o velho dormia, as barbas sobre o peito entre as paredes de madeira.

A gente da cidade não gostou do que viu:

— Rio assanhado, onde já se viu!?

Trouxeram uma máquina acordando a mata e construíram um muro para dar ao rio uma lição.

— É assim que se põe um rio nos prumos — disse o prefeitinho orgulhos.

O velho, de longe, trocando olhares com as águas, que espiavam lá do canto do seu cercado, feito criança que aprontou.

Mas a saudade, quando vem em ondas, não tem mar que aplaque, não há rio que aguente. Um dia, pouco antes do velho levantar, o rio se pôs a chamar. Foi tal a comoção que até o morro desceu para ver o que ocorria. E viu um rio que já não se continha. Sem resposta, o rio achou por bem bater à porta. Mas a emoção, em vagas, se transborda. E o rio pulou o muro e correu como nunca correra. Sem ligar para o que havia em frente veio tropeçando e saltando e arrastando o que via no caminho. A vizinhança assustada correu em debandada. O vizinho, o cachorro, o velho e quem mais podia. O rio alvorotado bateu à porta com tanta força que lhe arrancou dos batentes. Espiou à janela e a despedaçou. Procurou em cada canto e não encontrou o que tanto procurava. Nem velho nem paz para um coração turbilhante. Levou ainda, como lembrança, algumas coisas para embalar a saudade, enquanto na noite chorava a falta do velho que não encontrara.

Mas o que quer que carregasse, nada supria uma paixão de infância que ainda urgia. Logo o rio se cansou e devolveu às margens tudo o que pegou. Passou as noites a correr pelo vale em busca do velho. Pensando nas barbas caudalosas como um leito para se aninhar.

O tempo passou, o rio chorou, mas não cessou de chamar. Até  que um dia, de repente, sentiu o peito borbulhar.

— É o velho! É o velho quem vem lá!

O rio se ergueu e se pôs a chamar. Encontrou o velho na antiga ponte onde volta e meia o via passear. O rio, arrebatado, mal podia se conter. O velho lhe sorriu e sentou-se para conversar, as pernas pendendo da ponta, a cascata de barbas pendendo do queixo, a cara estampada com aquela vida encravada naquela senda do sul da cidade, entre morros, matas e o rio. O rio se animou caudaloso, as emoções lhe transbordando as margens.

Quem mais tarde cruzou pela ponte se assustou com um corpo de bruços embalado pelas marolas que ululavam numa canção de ninar. Apressado, o visitante saltou à água e, com a corrente pela cintura, tentou desvirar o velho. À primeira tentativa, o peso impediu a manobra, era como se algo agarrasse-se ao peito do homem tombado. Uma nova investida e o recém-chegado conseguiu desvirar o velho, caindo ele, por sua vez, sentado na água. Foi quando viu, saltando do rio, como se saído do peito do homem, uma carpa avermelhada, tão rara por aquelas bandas. Quando caiu novamente na água, o tremular da corrente lhe dava um aspecto pulsante e, mesmo ao lusco-fusco do fim do dia, era como se a sua cor emanasse uma luminosidade brilhante enquanto o peixe nadava contra a corrente, rio acima, pulsando em vermelho. Tudo ocorreu rápido e, tão logo quanto pôde, o homem já estava com o velho nos braços, agora tão leve, quase como se estivesse vazio. Lá longe, rio acima, ainda podia ver um ponto vermelho pulsando no escuro, enquanto ao seu lado centenas de pontos brancos se revelavam de ambas as margens, com flores alvas se abrindo, uma a uma, por toda a extensão do rio, exalando um aroma que cobriu todo o leito, se derramou pelas encostas e se adensou pelo vale em uma elegia perfumada.

Meses depois, ninguém soube ao certo ainda o que aconteceu. Mais tarde, se contou, foi que o rio nunca mais se ergueu e, nos seus trechos mais caudalosos, dizem, um novo arrulhar se pode ouvir, como uma segunda voz a sussurrar na língua das águas ao fim do dia. Quando isso acontece, juram, as flores brancas se abrem novamente e lançam em coro seu perfume sobre as águas, lembrando o vale que bem à tardinha ainda brilha, em algum lugar, um vermelho vivo e pulsante naquele rio.

Para o Willy, que passou por tudo, sempre rio.
Março de 2019.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Morpho


Morpho

Image by

Colours flapping in the sun, it came.
Lightly, as just brought by the wind,
as an idyllic and improbable idea.

It alighted right where the tree bark split
and opened its wings in blossom.

The wind stood still in awe
while bright and beauty tainted life in blue.

Bittersweetly, the creek whispered:
such hues live briefly,
not enough to paint a second december.

And yet, fair creek,
it did.

With beauty and poems,
with tomorrows
bathed in the reminiscences of bright blue wings
in a summer afternoon.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A Visita

A visita

Image: PxHere


Ele chegou no final do verão, vindo pela janela que deixei aberta para refrescar a tarde abafada. Quando dei por mim já estava ali, instalado sobre a minha mesa com os pelos brancos e os olhos amarelados de pupilas fendidas a me afrontar. O meu primeiro impulso foi enxotá-lo como quem afugenta uma praga. Mas ele me tratou com tanta indiferença e uma régia elegância, como se aquele fosse o seu sítio mais habitual e eu o intruso, que acabei não me dando ao esforço de espantá-lo. Apenas deixei a janela aberta para que ele pudesse sair quando se cansasse de ficar ali. Não era grande, é bem verdade, mas não deixava de ser um estorvo sobre a mesa. Ainda assim, evocava uma atmosfera quase mística, de um respeito devido. Ainda que eu não soubesse que respeito eu pudesse dever àquela coisa branca e esguia. Enrolei certo tempo pelo escritório, arrumando sem atenção alguns papéis de pouca importância. Organizei alguns volumes na estante de livros, que estavam fora de ordem. Volta e meia tornava a olhar a criatura sobre a minha mesa, pálida e me encarando com o olhar amalerado feito livro antigo. Resolvi ir à cozinha e pegar algo para beber, como quem evita encarar uma tarefa enfadonha, e deixei-o sobre a mesa, esperando que a janela aberta lhe convidasse a sair ao fim da tarde. Acabei me entretendo com algum programa na televisão e me esqueci de retornar ao escritório naquele dia.

Na manhã seguinte, ao cruzar pela porta do aposento, percebi que ainda estava ali. Estava justamente se espreguiçando, com as patas dianteiras estendidas e o dorso recurvado, como se acabasse de acordar. Olhando assim, até parecia combinar com o lugar. Claro, não mudava o fato de que tê-lo ali sobre a minha mesa era um incômodo, mas aos poucos me parecia que poderia ser um incômodo suportável. Aproximei-me, notei as orelhas apontarem para trás, na minha direção. Mas ele não se deu ao trabalho de virar a cabeça. Sentei-me na cadeira e só então ele voltou-se para mim. Ficamos alguns momentos nos encarando, como se fosse uma derrota abandonar aquele posto. Um à frente do outro. Ele inteiramente branco, alvo, pálido. Imóvel exceto pela cauda, que balançava intermitente para lá e para cá. Um pêndulo contando os segundos que duravam aquele embate silencioso. Desisti de ficar ali parado esperando que isso fosse contribuir para que ele simplesmente desaparecesse da minha mesa. Tentei espantá-lo novamente, mas ele não saía do lugar. Ou, quando eu conseguia movê-lo por uns momentos da minha mesa e da minha vista, não tardava, ele aparecia de volta ali. Eu o enxotava, ia preparar algo para comer e, quando voltava, lá estava ele. Retirava-o com cuidado e colocava-o no chão, esperando que isso ajudaria. Mas não passavam muitos minutos até que eu, bastando dar as costas, o encontrasse novamente sobre a mesa, lustrando sua alvura como para deixá-la mais brilhante. Foram algumas tentativas até que eu me resignasse. Sentei na cadeira em frente à mesa e depois de encará-lo algum tempo, estabelecendo uma trégua mútua, lhe estedi a mão vagarosamente e toquei-lhe carinhosamente com a ponta do dedo a brancura macia. Um ronronar ressoou baixinho e agradável, o dedo mergulhando num mar de fibras alvas, forçando-me a admitir um reconfortante prazer. Corri as mãos acompanhando o desenho das orelhas e percorrendo o dorso delgado. Dócil não era certamente a palavra precisa para descrevê-lo, não foram poucas as marcas que me deixou nas mãos e os arranhões que ganhei nos dias em que convivemos, mas apesar disso, era uma convivência da qual, só percebi depois, sentiria falta. Talvez já sentisse, mesmo antes de ele aparecer pálida e sorrateiramente sobre a minha mesa de trabalho. Ao fim do primeiro dia daquele contato é que notei, sob o pescoço que vibrava com o ronronar de uma tempestade em miniatura, uma pequena nódoa negra. Uma ilha de sombras naquele mar de outra forma imaculado. Podia jurar, pela primeira vez que o vi, que era completamente branco. Mas certo como aqueles olhos amarelos eram insistentes, ali estava, escura como uma noite sem lua mas cheia de possibilidades, uma diminuta, solitária e negra mancha brilhante.

Passaram-se alguns dias e a nossa relação avançou a passos lentos mas constantes. Meu pequeno e incômodo inquilino crescia devagar mas visivelmente. Seus modos não mudaram muito, no entanto. À medida que crescia, os arranhões se tornavam mais dolorosos, mas também menos frequentes. Começávamos a nos entender. O negror que no início parecia tão isolado, claramente crescia com ele. Já não era uma pequena mancha sob o pescoço, mas uma marca que se espalhava pelo peito, contrastando com toda aquela alvura. Já não se podia dizer que era totalmente branco. Por algum motivo, assim eu me afeiçoava ainda mais a ele. Passamos a conviver mais tempo diariamente, ainda que eu não pudesse dedicar a maior parte das minhas horas à criatura. Mas aos poucos ele foi se esgueirando a outras áreas da minha rotina. Às vezes, enquanto preparava meu café, podia sentir-lhe roçar minhas pernas com o dorso arqueado. Quando estava no sofá, aninhava-se ao meu colo, sem sequer atrapalhar, apenas me lembrando de que estava ali. Como esperando um momento para voltar a brincar, ou talvez estivesse apenas aproveitando para descansar a pelagem alvinegra na certeza de que eu já não o iria enxotar. O curioso, mais do que essa convivência, por vezes dócil por vezes repleta de arranhões, era que a cor da pelagem definitivamente mudava a olhos vistos. Cada dia que interagia com ele podia constatar o avançar das áreas negras, como se estivessem devorando ou cobrindo as brancas. Logo era um animal malhado e não demorou para que o negror tomasse conta de toda a criatura. Na minha mesa, lustrando os pelos até que brilhassem feito ônix, o par de olhos amarelos reluzia em contraste. Ardentes e vivos; acima de tudo, vivos.

Já tinha me acostumado com a sua presença, até que um dia entrei pela porta e vi a figura negra no batente da janela, a cauda de ébano balançando em seu movimento pendular. Ele olhava o sol do fim da tarde quente, quase um ano depois de ter entrado pelo mesmo caminho. Com o corpo escuro silhuetado em contraluz, olhou para trás, os olhos como um par de sóis a mais, e saltou para fora. A mesa do escritório parecia enorme com o vão deixado por aquela ausência, apenas uma caneta abandonada de entranhas vazias tentava cobrir o espaço. O sol se abaixava em silêncio. Fui até a janela e espiei para fora. A vegetação do vizinho e os postes da rua não permitiam que eu o visse, mas a sombra de uma pessoa passando a mão em um animal ia se alongando no cimento da calçada enquanto o sol mergulhava nas montanhas do horizonte. Com uma estranha satisfação mas a sensação de que ele não retornaria, voltei-me para dentro outra vez e deixei o escritório que resplandecia com os últimos momentos de uma luz dourada. Logo chegaria a noite, como ela sempre chegava, e encontraria novamente uma janela aberta e uma mesa vazia, esperando, quem sabe, um novo visitante.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Ilustra Balanço

Com o mundo meio de perna pro ar, mais uma ilustra.


Errei rude na perspectiva do balanço, mas tá valendo.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sketch

Na falta de um novo texto, uma ilustra.


quinta-feira, 14 de junho de 2018

Minha sina tua senda

Image: Danseuse de Maloya, de Isabelle Devin.



Minha sina tua senda

A senda que não segui
me acena
serena

A sina que não segui
me ensina
suprema

A sanha que não senti
me assanha
sereia

Acenda que não senti
a chama
lareira

/:Acena co'a chama
Me chama na senda
Me ensina a sanha
Me assanha, sereia:\

Me ensina, me acena
Me assanha serena
Minha sina, minha senda
Me acenda, sereia

Minha sina: tua senda
morena

/:Acena co'a chama
Me chama na senda
Me ensina a sanha
Me assanha, sereia:\

Minha sina: tua senda
morena

quinta-feira, 10 de maio de 2018

The birth of a poet

The birth of a poet.


Imagem de curiosityneverkilledthewriter.com

 A poet was born in the woods
(otherwise, a poet he wouldn't be).
He cried the shout of the streams,
he wept the twirls of the creeks.

He crawled amongst beasts over leaves,
rose grasping on roots.
Grew under the canopy,
dreamed under stars.

And dared.

To walk on unstepped paths,
to fall in the depths of ravines,
to gaze into where darkness dwells.

He flew with birds
and sang their songs.
He howled with wolves
and told their tales.
He ran with the stampede.

Then left it's trail.

A poet was born in the woods.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Poeta de repartição


Poeta de repartição

A nuvem cinzenta lá em cima
despencava cântaros enquanto
cá embaixo
outra nuvem cinzenta se acumulava
sob o guarda-chuva cheirando a alcatrão
do poeta, que via as gotas escorrendo pelas bordas
e se perguntava quando caralhos
aquilo havia se tornado o ponto alto do seu dia.

O céu cinza
a fumaça cinza
a calçada cinza sob o guarda-chuva escuro.
O único maldito ponto de cor
se equilibrava débil sobre a ponta do cigarro
que acendia vermelho por um segundo
antes de ficar
também
cinza.

E o poeta de repartição
deixou a bituca apagar
na água que corria junto ao meio-fio
rumo ao bueiro
e subiu com os pés molhados as escadas
para carimbar documentos e sonhar
com a poesia de um dia de chuva
em que pudesse colocar no papel
mais que carimbos
ou em que não precisasse arrumar um vício qualquer
para poder sair e ver a chuva cair
no meio da tarde
cinza.

Imagem retirada de: Yog La Vie!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

No meio da noite, à beira do rio.


No meio da noite, à beira do rio.
Ao lobo.

 

Image from Balaa


Quem visse o homem no meio da noite atirando poemas ao rio,
poderia estranhar. Mas não havia ninguém para estranhar o homem que atirava poemas ao rio no meio da noite.

                ***

A ponta da montanha acendeu-se dourada como se o sol acendesse uma vela na cabeceira antes de se deitar. O vale foi se recolhendo e cobrindo-se de sombras enquanto o silêncio ia se instalando baixinho, baixinho. Um grilo ninava as folhas com a sua canção enquanto as luzes se acendiam e se apagavam nas casinhas da cidade embalada pelo rio.

Ao sul dali, ao pé da montanha, o homem viu contra as nuvens violetas os últimos pássaros retornando aos ninhos. Partiu a última tora e conferiu o cume dourado que começava a se apagar, enquanto confiava à barba um último pensar. Deixou de lado o machado, empilhou as toras partidas e arrastou de volta para casa o carrinho com a lenha cortada.

Viu as paredes de madeira cortada, abriu a porta de madeira cortada e entrou na casa de madeira cortada a machado dia após dia, mês após mês. Atirou umas toras à lareira e fez o fogo crepitar, mais pela luz do que pelo calor. Luz, e calor, sabia, vinham da madeira cortada. Como a água quente para o banho e a comida quente sobre a mesa.

Imergiu na tina de água aquecida e deixou-se ficar até que o dia se lhe desimpregnasse do corpo e se diluísse no banho, até que murchassem-lhe os dedos e se arrefecesse a água. Até que ebulissem-lhe as ideias.

À mesa, partiu com a faca sobre uma tábua de corte, o queijo e o pão, e com a mesma faca apontou um lápis de carpinteiro. Acendeu uma vela na lareira e, ainda mastigando, sentou-se à escrivaninha junto à janela que servia de moldura para uma noite anil.

A primeira estrela despontou no céu quando o grafite desenhou a primeira letra no papel. Uma constelação então se seguiu preenchendo as linhas com letras grossas lideradas pelo grafite de ponta achatada. Sob o papel, as nervuras da madeira deixavam suas marcas e influenciavam cada letra. Cada pequena rachadura na tábua acabava sendo transferida para o papel. A vela chorava lágrimas de cera a cada verso de madeira, farpa e grafite. Visto do lado de fora, era só um quadro de luz pendurado na noite, ao pé da montanha, à margem da cidadezinha que dormia margeando o rio.

A vela encolheu, o lápis descansou e os dedos sujos de grafite ergueram a folha. Os lábios se moviam sem som enquanto os olhos saltavam de verso em verso na cadência do estalar de brasas. O homem levantou-se, acendeu uma lanterna no braseiro e meteu lápis e papel no casaco antes de sair porta a fora, noite a dentro. Lá longe a cidade de janelas escurecidas ronronava. A mata ao pé da montanha ressonava tão baixinho que já se podia ouvir o rio cantando na noite lá adiante. Seguiu o caminho iluminando a escuridão até chegar à beira das águas. Pousou a lanterna ao chão e tirou do bolso a folha pobremente adornada pela caligrafia bruta, marcada pelas ranhuras da madeira mal trabalhada. Com uma solenidade afetada, finalmente atirou o poema ao rio.

Cada verso nadou um momento nas marolas antes de imergir nas águas frias. Cada palavra mergulhando e se diluindo nas águas que cortariam o vale enquanto a cidade dormia. Quando o sol nascesse já nenhum traço do poema restaria. A lanterna já não brilharia na escuridão, não haveria poeta, só um homem perdido na mata a partir as toras para queimar na noite. O rio levou embora cada verso, como tantas vezes fez antes daquela. E o rio, o homem sabia, corre em apenas uma direção. Leva a tudo e nada retorna. Era o último poema de farpa e grafite, na última noite à margem do rio. Meteu as mãos nos bolsos e olhou o céu, os lábios movendo-se em silêncio, não ao som das brasas agora, mas das águas. Saboreando o sabor dos últimos versos. Repetiu um pouquinho mais alto, só o suficiente para as palavras se ouvirem acima do arrulhar da corrente. Sem tirar os olhos das estrelas tirou o lápis gasto do bolso para uma última entrega ao rio. Baixou os olhos, e congelou.

Logo na outra margem, muito próximo, um lobo olhava com olhos brilhantes, intrigado. A luz da lanterna lhe caindo sobre a pelagem cor de cravo e canela. A surpresa sobrepôs-se ao medo com a presença do animal. Mesmo assim não ousou se mover. Ficou estático enquanto o visitante espiava com um ar curioso, virando a cabeça de lado, farejando o ar enquanto tateava com as patas a relva. O animal sentou-se sobre as patas traseiras, mirou as estrelas e lançou aos céus um uivo que ecoou acima das copas por todo o vale. Que sobrepujou as margens, as madeiras mal cortadas, as janelas escurecidas e a cidade sonolenta. Que estremeceu o homem e lhe arrepiou os pelos como a lembrar-lhe que também os possuía. Que lhe crispou os dentes como para que não esquecesse que também os tinha. E que lhe palpitou o coração como para certificar-se de que ainda batia. O suor frio preencheu-lhe as ranhuras do rosto como a cera da vela preenchera as ranhuras da escrivaninha, e o punho contraiu-se no susto, agarrando o lápis com a força de um torno.

Com cuidado, o homem andou lentamente de costas, sem tirar os olhos do animal que parecia arder na noite na outra margem. Foi se afastando, devagar, até o rio se perder entre as folhas, quando deu as costas à mata e correu pela noite sem pensar nos riscos de tropeçar na escuridão.

Rompeu porta a dentro e encontrou a cabana escura, apenas com o som do seu arfar. Recostado na porta percebeu como brilhavam as brasas por sob as cinzas e como contrastavam com a escuridão. Com o atiçador cutucou os pontos incandescentes, como quem se certifica se um animal ainda está vivo, e de pronto viu arder de novo as chamas. Então lançou um longo e demorado olhar pela janela, enquanto o punho ainda encerrava o lápis de carpinteiro de ponta romba.

No fim da tarde seguinte, quando o sol acendeu seu candeeiro no pico mais alto antes de deitar-se, o machado já estava guardado. O carrinho cheio de lenha recém cortada já voltava para casa seguindo os passos largos do homem. O lápis desgastado foi apontado mais uma vez e novamente correu sobre a folha, sem se importar com as rachaduras sob o papel. As estrelas já brilhavam fortes na noite quando o lápis descansou. O homem deixou a cabana e, sem a lanterna que ficara para trás na noite anterior, seguiu guiado pelas estrelas e pelas curvas do caminho que traçara outras tantas vezes sem se dar conta. Encontrou a lanterna apagada à margem das águas que refletiam a luz tênue dos astros, que driblava as folhas das árvores. Sacou do bolso o papel e começou a ler o poema em voz baixa. As palavras, atiradas à folhas, ao rio, à noite, ao mundo. Pouco importava se se perderiam entre os arbustos ou na corrente, pouco importava se para nada ou para algo. Os lobos, imaginava, tinham bom olfato. Certamente poderiam seguir o cheiro dos versos.

Não demorou muito, antes do fim da segunda leitura, um par de olhos amarelados surgiu na escuridão, feito um par de estrelas selvagens que se esgueiravam de dentro da vegetação. A pouca luz não permitia ver mais do que a silhueta negra que se aproximava. O homem hesitou por um momento, o animal meneou a cabeça, e o homem recomeçou, tentando manter o mesmo o ritmo e a falsa calma na voz. A figura finalmente se fez visível à margem do rio, sua sombra engolindo o brilho que salpicava na água. E ele ficou ali até o final da leitura. E da leitura seguinte, e da seguinte, em voz um pouco mais alta. O homem pousou o papel ao chão próximo às águas rasas que corriam, pegou a lanterna apagada e se afastou devagar.

As noites se repetiram, com poemas de farpas entregues a um lobo cor de cravo e canela. Nas noites em que chegava mais cansado do que o normal, após o dia ao cabo do machado, ou quando tinha as mãos feridas e o ânimo abatido demais para empunhar o lápis, o homem ouvia um uivo distante romper em meio à escuridão. E tomava a faca para apontar o lápis, e acendia a vela nas toras em brasas da lareira, e escrevia sobre o tampo imperfeito e cheio de ranhuras da escrivaninha junto à janela que emoldurava vale, noite e uivo.

Quem visse o homem no meio da noite atirando poemas ao lobo, poderia estranhar. Mas pouco importava que alguém estranhasse o homem que atirava poemas ao lobo no meio da noite.

Assim seguia, portanto, o homem atirando poemas ao lobo, no meio da noite, à beira do rio.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Férias em sessenta e quatro



Férias em sessenta e quatro


Nos sessenta,
havia muito barulho na cidade.
Nas férias,
então,
meus pais me enviaram ao campo.

Casa dos avós,
colher fruta
do pé,
comer fruta
no pé
de carambola no fundo de casa.

Brincar no rio,
pescar lambari sem pegar nada,
correr atrás de galinha,
brincar com cachorro.

Barulho, só de mato.

Sem estouro
(de escapamento, meu pai dizia),
sem choro
(de birra, minha mãe falava).

Sem corre-corre na rua.

No campo, só criança corria.
(sem bandeira na mão)

Esconde-esconde,
só com as crianças dos vizinhos
(e sempre a todos se achavam).

Podia deixar a luz acesa até tarde da noite
pra ouvir as histórias do avô à cor de lampião.

As aulas, lá longe.
Nem pensava nelas.
Sequer lembrava que talvez já houvessem começado.

Tinha aula com o avô
(de rosto triste)
a ensinar sobre as plantas.

Tinha aula de fazer pão com a avó
(de olhos marejados).

Tinha aula de saudade
tarde da noite,
quando ouvia a vó chorar baixinho no escuro
(sem saber por quê).

As férias se estenderam.
Estenderam-se os banhos de rio
e os passeios na relva.

À margem do riacho,
pés descalços na água,
perguntei ao rio:
do meu pai, você ouviu?

— Saudades do maroto.
Ainda garoto, vinha aqui me caçar as rãs.
Cabelo molhado, largava barquinho de papel
pra eu carregar.
Dizia que um dia iam chegar ao mar.
Lá bem lonjão, que nem aprendeu num livro.
Queria ser professor, dizia.
Mas faz tempo não dá as caras.
Ia ao pasto, colher margaridas
pra filha da vizinha.

O pasto amarelado pelo sol da tardinha parecia vazio.
Mas perguntei à margarida: meu pai, você viu?

— Vivia por essas bandas, o arteiro.
Os olhos eram diferentes, no resto, você inteiro.
Já faz um tempo não o vejo.
Da última vez, correu daqui para o potreiro.

Um baio velho, amarrado, não se fez de rogado:
— O seu velho eu não vi.
De mais novo me ajudava
com o trato do arado.
Mas parou pra estudar e me deixou o legado.
Se quiser vá procurar,
lá no sótão empoeirado.

No sótão, solitário,
um baú se escondia,
na poeira adormecido.

— Reconheço esse nariz,
que se metia em minhas folhas.
Os olhos já são outros,
mas da lembrança não destoas.
Daquele que veio antes,
lembro por um triz.
Faz muito, muito tempo,
partiu com uma atriz.

Mostrou-me um fotograma
de um rapaz e uma garota.
No rapaz, o meu nariz,
na garota os olhos meus.
Ainda eram jovens
quando pais se tornaram meus.

O baú adormecido
me acordou com contos vários.
Contaram outros causos,
velhos livros nos armários.

Atento a todos eles,
minhas aulas recebi.
Porque não revi meus pais,
finalmente compreendi.

O baú profetizou,
não havia o que fazer:
— A história se repete,
com o tempo você vai ver.

O baú me avisou
e voltou a adormecer.
Homem feito retornei
à cidade de meu nascer.

Dos meus pais nunca encontrei
nem causo nem história.
Diziam à boca miúda,
melhor deixar só na memória.

Depois de tanto tempo,
já quase me esqueci.
Dos tempos que passei,
das aulas que perdi.

Penso apenas no baú,
sonolento a ronronar.
Vendo as notícias, creio,
está prestes a acordar.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Silêncio no 32135



Silêncio no 32135



Photo by Steve Marcus | Las Vegas Sun | Reuters. Fair Use.

O som de botas ritmadas ecoava compassado. Ramblambam-ramblambam. As luzes coloridas das ribaltas rasgava o céu acompanhando os acordes. Se fossem vistos dos altos prédios ao redor, ouviria-se apenas as notas saídas das caixas de som, mas não as vozes que se faziam coro, riam e se entregavam, chapéus à mão, transformados em mutidão. Ramblambam-ramblambam, soavam as botas no palco. Ramblambam-ramblambam, respondiam as botas da plateia contra o chão. Vinte e dois mil pares de botas. Vinte e duas mil vozes.

Ramblambam-ramblambam.

A trinta e dois andares acima ninguém notou as janelas quebradas.

Ramblambam-ramblambam.

Um par de botas, deitado no chão.

Ramblambambadabambadabambadabam.

O som das botas desencontradas ecoava descompassado. Os clarões dos projéteis rasgavam o céu acompanhando o caos. Vistos dos altos prédios ao redor, não se podia ouvir as vozes de choro, os gritos, não se podia ver os chapéus ao chão, o vermelho ao chão, uma ideia ao chão. Tudo é transformado em turbilhão.

Ramblambam.
Clack-cla;
bam.

Quando as botas dos homens de uniforme entram no 32135 já não havia som. Nem nos palcos, nem na platéia, nem nas janelas, nem nas tribunas e palanques.

No silêncio alguém perguntou "o que se há de fazer?" E a resposta soou automática, novamente, como havia soado tantas e tantas vezes, em todos os silêncios após rajadas, também automáticas.

E os ouvidos moucos esperaram que mais uma vez ela se perdesse no silêncio, junto com quase sessenta pares de botas ficariam sobre as ruas.

O que acontece lá, afinal, lá permanece.