sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Verso no ventre nu

Verso no ventre nu

imprime
no meu ventre
o teu
verso
nu

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Gárgula de Saint Romain

Arquitetura Gótica do Interior da França - Gárgulas e Quimeras
Posfácio (ou, originalmente, Anexo III)

O presente posfácio é um adendo que me permiti acrescentar a este livro. Seria o Anexo III de minha monografia. Porém, junto a meu orientador, achei por bem suprimir este conteúdo do trabalho original, uma fez que carecia de bases científicas ou históricas comprovadas e tratava mais de uma interessante curiosidade do que, de fato, do corpus tratado por meu trabalho de conclusão de curso. Mas como uma publicação como esta, que agora tem às mãos o leitor, permite mais ao autor do que uma monografia acadêmica, deixo como um relato dos fatos que me chegaram, ao acaso, enquanto pesquisava as gárgulas e quimeras da arquitetura do interior da França.

Desde que me detive, nos primeiros semestres do curso de arquitetura, sobre a estética gótica da arquitetura francesa, especialmente sobre um impressionante slide da Catedral de Notre-Dame, fui arrebatado por aquela riqueza de detalhes e pelo mistério daquelas construções pontiagudas envoltas por ainda mais misteriosas esculturas. Durante todo o curso, guardei uma especial atenção àquelas construções e, muito tempo antes do esperado, já havia definido que o tema de minha monografia seria este. Com auxílio de meu orientador, reduzi meu foco com especial atenção às esculturas presentes na arquitetura gótica. Com auxílio do mesmo orientador, defini meu campo de atuação — um pouco a contragosto — excluindo o objeto mais óbvio para análise: a tão admirada Notre-Dame. Ao contrário, defini, pelo bem do projeto e buscando um pouco de ineditismo, estudar as esculturas das contruções góticas no interior da França para, posteriormente, fazer uma comparação estilística com aquelas presentes na capital. Terminadas as aulas regulares, então, com a ajuda de meus tios que moram próximo de Paris e bancado por meus pais, mudei por cinco meses para a França, que já havia visitado uma vez em férias, na casa desses mesmos tios.

O primeiro mês, não pude evitar passar na capital francesa e nas suas ruas e deslumbrantes construções. Logo, porém, decidi rumar para o interior e iniciar minhas pesquisas in loco. Conversando com conhecidos e pesquisando na internet, acabei chegando a um interessante relato, uma pequena lenda francesa que tocava no assunto das gárgulas muito por acaso. A tal lenda relata a história de Saint Romain, bispo de Rouen durante o reinado do rei merovíngio Clotaire II. Num breve resumo, a lenda relata como o bispo derrotara uma gárgula de Paris (na verdade um dragão que vivia no rio Sena, chamado Gargouille). Nas minhas conversas, ouvi da Igreja de Saint Romain, nos arredores de Rouen, que teria um profusão de gárgulas e quimeras que poderiam ser de valor para o meu estudo. Estimulado por um provável corpus de análise para o meu trabalho e pela peculiar lenda da gárgula, resolvi dirigir-me a Rouen para conhecer a tal igreja.

Não foi difícil encontrar o templo. Ficava um pouco retirado da cidade, mas foi fácil me informar e chegar até à bela construção em homenagem ao bispo matador de monstros. De fato, das trabalhadas cornijas e dos beirais, se projetavam rebuscadas gárgulas com ricos adornos, variando de formas animalescas, humanóides e monstruosas, guardando os pontiagudos telhados apontados para o céu.

Circundei a trabalhada construção com curiosidade e sem pressa, observando os detalhes de uma rica e belíssima escola arquitetônica. Fiz algumas fotos despretensiosas, mais para lembrança do que para análise e me deixei primeiramente apreciar a construção sem nenhuma ótica acadêmica ou analítica. Apenas de deleite. Aqui, a variedade de motivos das gárgulas e das quimeras era mais abundante do que nas construções da capital francesa. Além das características figuras das gárgulas de aspectos demoníacos ou animalescos, haviam algumas imagens mais humanóides. Nem dei por mim, estava observando com certo fascínio uma gárgula em formato de padre ou monge, dependurada do beiral com a cabeça raspada, olhar rapino e boca aberta, por onde certamente corria a águas das calhas do telhado em caso de chuva. A gárgula era cercada por duas quimeras, essas sim, mais ao estilo clássico-monstruoso que eu tanto admirava.

Um movimento próximo me capturou a atenção. Não muito distante, um sacerdote com um ancinho se aproximava com ar jovial. Cumprimentou-me com cordialidade e, percebendo o meu sotaque, acredito, perguntou se eu era português. Disse que era um estudante brasileiro de arquitetura, ao que ele sorriu com entusiasmo. Disse-me que não sabia falar português mas que havia morado muitos anos em uma comunidade espanhola e sabia falar um espanhol razoável, segundo ele. Eu disse que não seria necessário e ele, gentilmente, passou a falar um francês mais pausado. Perguntou-me se havia me interessado pelas gárgulas. Confirmei e perguntei-lhe, para certificar minhas suspeitas, se a imagem do monge na gárgula seria Saint Romain. Ele negou, sorridente. Disse que dentro da igreja sim, eu poderia ver uma imagem do santo bispo. Aquela gárgula era uma homenagem a um dos primeiros sacerdotes da igreja e um entusiasta do estilo arquitetônico da época. Irmão Fontaine, que buscava, com as gárgulas, trazer um pouco da mítica da grande Notre-Dame para o interior. Há muitos anos, o clero local achou por justiça erguer uma gárgula com a imagem do padre, em homenagem.

Tendo o pároco como guia, percorri todo o exterior da igreja, tirando fotos, tomando notas breves, observando detalhes e ouvindo histórias da vida nos arredores da Igreja de Saint Romain. Sobre a lenda do duelo entre o bispo que dava nome à igreja e a gárgula do Sena, o pároco confirmou que de fato Saint Roman havia acabado com muitos monstros da comunidade parisiense da época, mas que a gárgula — serpente do Sena, ele me corrigiu — era uma rica metáfora, para sempre lembrada como lição de nossos monstros internos, representados nas paredes dos templos góticos. Prevendo o fim da tarde, despedi-me do simpático padre e retornei a Rouen para o meu albergue, com a promessa de que voltaria outro dia para continuar as conversas e pesquisas. No chão, o sol poente projetava longilíneas sombras de gárgulas monstruosas ladeando a figura do Irmão Fontaine.

Na biblioteca local, encontrei mais algumas informações sobre a história da igreja e de Saint Romain. Algumas informações sobre a construção do templo em Rouen, sobre fundos de arrecadação para ornamentar o prédio, algumas pesquisas superficiais sobre a arquitetura na qual a igreja se inspirava — que muito me interessaram — e uma curiosa notícia que destoava das demais. Um garoto local, que servia de pajem ou algo que o valha nos serviços do templo, teria sido, ao menos a suspeita tinha sido levantada, vítima de abusos por parte de um padre local. Lendo a reportagem com mais calma, surpreendi-me em ver que o padre era justamente o irmão Thierry Fontaine, homenageado na fachada da igreja. A acusação havia gerado comoção pública na comunidade próxima à igreja. Os principais membros do clero local tomaram parte para esclarecer o ocorrido e, ao que parece, o garoto teria sido vítima apenas de um bom safanão do padre, por ficar brincando entre as gárgulas no beiral. A honra do padre tinha se mantido imaculada, tanto que, após o ocorrido e das desculpas dos pais da criança, de pronto aceitas pela congregação, o irmão Fontaine teria sido indicado para ocupar um posto na própria Notre-Dame, cuidando do conjunto arquitetônico do local. E na igreja nos arredores de Rouen, em sua homenagem, fora projetada a sua gárgula, para proteger a comunidade e, brincaram as pessoas na época, para espantar garotos levados do meio das estátuas, de onde poderiam cair ou danificar os ornamentos.

Decidi retornar a igreja para continuar o estudo das gárgulas e observar as variantes arquitetônicas de sua concepção, já pensando em perguntar ao pároco que havia me recebido no dia anterior sobre a história que eu havia encontrado na biblioteca. A questão que mais me intrigou, no entanto, foi que pesquisando o acervo sobre a Notre-Dame, especialmente nas questões de arquitetura, em nenhum momento foi encontrado o nome do padre Thierry Fontaine.

No dia seguinte, segui para os arredores da cidade e encontrei o mesmo sacerdote, que me recebeu com um "buenos dias" rapidamente respondido com um "bon jour" de minha parte. Admirei os detalhes arquitetônicos mais de perto desta vez e consegui consentimento de averiguar as gárgulas e quimeras com mais cuidado. Acompanhado do meu guia subi ao alto da contrução, próximo aos telhados, pontiagudos como chifres, e entreti-me com as detalhadas esculturas. Algumas gastas pelo tempo, mas em geral todas muito bem conservadas, ainda que, faça-se justiça, por mais bem executadas que fossem não poderiam ser comparadas estilisticamente à arquitetura da grande catedral de Paris. Fotografei algumas das estátuas e fiz alguns esboços no papel enquanto o padre, que já se cansara de me acompanhar, fazia suas tarefas ali próximo, livrando o campanário de alguma sujeira ou ninho de ave.

Quando me inclinava, apoiado em uma das quimeras, para conseguir uma foto em close do rosto da gárgula do irmão Fontaine, que certamente seria destaque do trabalho, vista a rica história que trazia, meu pé vacilou sobre a cornija e me vi precipitado do alto da igreja. Teria sido um trágico fim, espatifar-me no chão sob a sombra daquelas gárgulas me olhando, não fossem as garras da quimera em que eu me apoiava. Consegui agarrar-me ao pé do monstro e, ainda que assustado e bastante esfolado contra a pedra, evitei o pior. A minha câmera estilhaçou-se contra o chão e os meus papéis voaram ao redor da igreja. O padre, que limpava o sino, ao ouvir meu grito saiu em disparada ao meu socorro, deixando que o campanário soasse algumas badaladas não previstas e retumbantes. O padre, já não tinha o ar jovial de antes. Quando olhou por cima da amurada estava branco feito gesso, esperando me ver estatelado aos pés do prédio. Ao ver-me dependurado, mas firme, aos pés da quimera, ao lado da gárgula de Fontaine, deu um suspiro aliviado. E disse, passando os pés por sobre a amurada para poder me içar de volta à segurança:

— Parece que o irmão Fontaine está mesmo olhando por você.

Foi justamente sobre a gárgula do padre que ele caminhou para me alcançar. Foi quando ele se abaixou, agarrado com uma mão ao rosto de pedra da gárgula e estendendo a outra para mim, que ouvi o estalo. Durou um segundo entre o som e o esfarelar da base da gárgula. Pouco mais que isso para ver o rosto do irmão Fontaine passar por mim com o olhar de pedra, seguido pelo rosto do padre que viera me salvar, com olhar de pânico. Os dois passaram rente a mim, descendo rápido e ainda hoje sinto não ter podido fazer nada. Mas pendurado às garras da quimera, bastava que eu estendesse a mão para ter o mesmo fim do meu guia. Lá embaixo, sob o olhar das quimeras e das gárgulas que restaram, estava uma gárgula partida e um padre morto. Deu com a cabeça contra a cabeça de pedra da gárgula. Pior para a sua, que era de osso e agora esvaziava-se de sangue manchando a grama. Já sem forças para içar-me, fiquei lá pendurado por mais vários minutos vendo a vida do alegre padre ir-se rubra pelo crânio quebrado.

Na hora julguei que fosse pelo esforço, pelo susto ou pela vertigem, mas eu jurava que via dois crânios abertos ao chão. Alguns ossos expostos e muito sangue. Lembro de ter pensado que a gárgula teria atingido alguém. Assustado como estava, só lembro de ter sido içado, um pouco mais tarde, por um par de franceses jovens. Eles eram irmãos e haviam vindo instigados pelas badaladas fora de hora, que dera sem querer o padre ao vir me salvar. Ao verem a cena, correram ao meu resgate enquanto uma garota que estava com eles, que imagino sua irmã, foi chamar mais alguém. As pessoas já deveriam estar próximas porque quando cheguei ao lado de fora da igreja, amparado pelos rapazes que me tiraram das garras da quimera, já eram vários os que estavam ali, mais atrás chegando até alguma autoridade local. Só me aproximando do local da queda percebi que havia mais motivo de comoção. Haviam de fato dois crânios e vários osso em meio ao sangue. Mas muitos ossos e um dos crânios estavam, aparentemente há muito, descarnados. Era possível ver, de dentro da gárgula, ainda incrustado no interior da pedra, uma ossada de pernas recolhidas, braços cruzado junto ao peito protejendo um livro de couro velho com tranca, como os antigos diários, e um crânio, agora com a mandíbula partida e caída ao chão. A parte intacta da caveira ainda recoberta pela cabeça de pedra que fora a gárgula do irmão Fontaine. O sangue, esse parecia todo do já não tão jovial padre que me recebera.

Não soube muito mais sobre o ocorrido, uma vez que fui levado ao hospital e não pude acompanhar o desenrolar da história. Soube por meio de um jornal local, que li já na casa dos meus tios, que a ossada dentro da gárgula, era, segundo o DNA, do próprio Thierry Fontaine e o livro carcomido de capa de couro era seu diário pessoal, que havia sido enviado para análise. Nunca soube o que continha o tal diário. Disseram os meus tios, que corriam boatos em Rouen que o clero local havia reclamado o mesmo, visto que pertenciam, de certa forma, à congregação. Como a ossada do padre Fontaine foi parar dentro de sua gárgula, ninguém sabia, mas o delegado do distrito responsável já tinha iniciado uma investigação, mesmo sofrendo ameças de excomunhão por parte do clero local.

Até o fim deste trabalho, não recebi notícias do resultado dos inquéritos. Presteis os devidos depoimentos, consegui, obviamente completar minha monografia, e agora editá-la no formato deste livro que tem às mãos o leitor. Este posfácio traz estas palavras que não caberiam em um discurso acadêmico, mas que me pareceram importantes vir à tona. Termino este livro então, com esta breve narrativa, este Anexo III que, acredito, serve para reforçar a aura de mistério e mítica que envolve estes ícones arquitetônicos de uma época, estes seres de pedra e mito. Termino aqui um estudo. Começa aqui, parece, uma história.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Maria Fumaça




Maria Fumaça


maria fumaça
olho de brasa
boca de tição

maria fumaça
da cor do carvão

maria fumaça
boca de fornalha
corpo de carvão

maria fumaça
maria trovão

troveja maria
troveja

maria fumaça
(maria)
olho de brasa
(maria)
canto de névoa
(maria)
maria fumaça
(mania)

maria fumaça
cheia de graça
louca emotiva

locomotiva
maria pirraça

apita maria
apita

aperta maria
aperta

cospe fumaça
maria fumaça
anel de fumaça
maria da graça
maria fumaça
ameaça, desgraça
coração destroça
fumaça e troça
maria fumaça

queima quem brinca
com fogo, maria

anel de madeira
(anel de fumaça)
em cada orelha
(acima da telha)

maria fumaça
maria

(fumaça!)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Amor Pornô

Não fazia nem uma hora aquelas portas velhas e largas estavam expelindo os tipos habituais que, pouco antes, lhe habitavam as entranhas. Saíam aos borbotões, se distanciando rápido, se espargindo pelos arredores, ejaculados porta a fora. Alguns mais elétricos, outros mais leves, todos distantes de si e do mundo. Pequenas gotas brancas de ilusão. Velhos solitários com nada além de suspensórios e lembranças como companhia, tipos esquisitões engordurados, gordos demais, magros demais, sozinhos demais. Grupos de garotos espinhentos no cio, uivando de excitação verde não colhida. Umas poucas putas, travestis ou oportunistas esperançosos. Todos com a solidão viscosa a escorrer-lhes pelos rostos, pelos peitos a dentro, enquanto a palavra “privê” piscava em curto no letreiro iluminado do Cine L’amour.

O carro bordô subia a ladeira, agora menos movimentada, passando pelas paredes pichadas com sua carenagem de pintura queimada de sol. O interior, que havia sido luxuoso há uns dez anos, abrigava o homem de blazer apertado, perfume de pós-barba e careca mal coberta pelos cabelos molhados. O veículo parou em frente ao cinema e o potente motor silenciou. O homem conferiu as costeletas bem aparadas no retrovisor, saiu do carro, destrancou a porta da frente do velho prédio, e entrou no Cine L’amour.

Lá dentro, o funcionário ainda uniformizado arranjava os produtos na bomboniére, separando as balas, as camisinhas, os chocolates e refrigerantes. Deixava o hall pronto para a próxima sessão, que só viria algumas horas mais tarde. A mocinha recém contratada já terminara de limpar a sala de cinema — mais rápido que a funcionária anterior, faça-se justiça — e já tinha ido embora. Só mais tarde retornaria. O painel interno trazia elencados cartazes de clássicos que haviam desfilado nas telas do L’amour. Debbie does Dallas, com Bambi no característico chapéu de cowboy e um decote levemente insinuante sobre uma estrela azul; a gulosa Linda Lovelace destacando-se boquiaberta sobre o fundo amarelo vibrante do cartaz; Miss Jones em todo o seu esplendor tipográfico preto e vermelho; e um elenco de estrelas de penteados ultrapassados e beleza e lascívia eternizadas em vinte e quatro quadros por segundo.

O homem recém chegado cumprimentou o rapazote que terminava seu trabalho, chamando-o pelo nome que trazia no crachá preso à lapela. Gil, estava lá escrito. E Gil respondeu ao patrão com a mesma simpatia, e talvez mais uma inflexão quase imperceptível, mas que sempre há na voz quando esta parte de um jovem funcionário ao patrão. Patrão conferiu, muito por cima, o trabalho e parabenizou o rapaz com um tapinha nas costas. O rapaz disse que estava quase terminando e que já ia sair para sua folga. Voltaria depois para a outra sessão. Graça, ele lembrou, já tinha saído. Mas já terminara todo o serviço. “Rápida essa mocinha, não? Acho que foi uma boa contratação”. Foi o que disse Patrão, tanto para si quanto para o funcionário, que sorriu afirmativamente em retorno. “Então tudo certo. Se todo mundo já foi, pode ir para a sua folga. Eu fico aqui até vocês voltarem. Vai aproveitar a vida que depois que você ficar velho não vai dar mais”, Patrão disse rindo. “Tudo bem”, o jovem respondeu, “mas de qualquer jeito, o Seu Genaro ainda está aí, mesmo” e foi saindo em direção à porta. “Ainda?”. “É, deve estar na sala de projeção”, disse o rapaz sem ligar para o tom de surpresa na voz patronal. Nem ouviu o homem no terno apertado deixar escapar por entre os dentes um “outra vez?” E já estava do lado de fora quando, balançando a cabeça, Patrão falou em voz baixa “velho safado”.

O suculento lábio inferior escondia o seu vermelho por trás do branco dos incisivos superiores. Os olhos sombreados, levemente fechados, deixavam escapar por entre os cílios longos o verde das íris. Uma gota de suor escorria pelo pescoço esguio e feminino, até chegar a um peito arfante, pingado de suor que descia pelos seios nus, fartos, balançando ritmados pelo movimento imposto pelo rapaz fora de cena. A câmera abre revelando o casal. Ela reclinada para frente com os braços apoiados na penteadeira, rosto refletido no espelho que refletia também o rapaz, de pé, atrás dela. Os cabelos colados no suor das costas, cintura curvada para trás, nádegas empinadas, as pernas bem lapidadas, abertas. A cena era toda dela. Dois corpos engalfinhados num espetáculo particular para o deleite de um velho sentado numa cadeira de madeira ao lado do maquinário ultrapassado. Os cabelos grisalhos e o olhar vago repetiam a figura do crachá pendurado no bolso do uniforme bordado “Cine L’amour”. De dentro da penumbra da sala de projeção só nascia o som companheiro da película passando pelos rolos do projetor antigo, naquele gemido baixo tão conhecido e confidente. O auditório visto além da janela de projeção permanecia vazio e limpo, no escuro. A única luz provinha do telão iluminado pelos corpos nus gigantescos e por um lampejo rememorado na mente, como uma reprise por demais repetida. O áudio do filme vinha lá de fora, junto com a pouca luz do auditório, trazendo gemidos gulosos, pedidos libidinosos e memórias insaciáveis para a sala de projeção escura. A porta se abriu de repente, mas sem violência. O homem de terno apertado entrou e acendeu as luzes balançando a cabeça de um lado para o outro, mais para si do que para o velho, que rapidamente desligou o projetor interrompendo um gemido e uma cara de dor mal interpretada na grande tela.

"Outra vez, seu Genaro?" Foi com um suspiro que o patrão falou. E o velho soube na hora que aquele suspiro significava mais que a própria frase. Baixou a cabeça envergonhado, triste e saudoso. De um tempo que foi e de um tempo que estava para ir, para sempre. Patrão puxou uma cadeira, colocou-a à frente do mais velho funcionário e sentou-se. Os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos unidas em meditação, a cabeça baixa revelando para o velho uma careca ainda mais evidente desta posição. Inspirou o ar como se fosse pesado e deixou que lhe saísse pelas narinas com o mesmo peso, como se abandonasse uma carga por demais carregada. Levantou o tronco e falou para o velho, que mantinha o olhar baixo, fitando as pontas desgastadas dos próprios sapatos de bicos arredondados.

"Seu Genaro, há quanto tempo o senhor trabalha aqui? Sempre foi um funcionário tão exemplar! Discreto, sempre no horário. E eu não retribuí direitinho tudo isso? Sempre paguei o senhor em dia, sempre tratei com respeito, volta e meia até lhe dava um bônus, não é? E eu nunca liguei de o senhor, ou qualquer outro, vez ou outra assistir a um filme por aqui, desde que deixasse tudo limpinho, não incomodasse ninguém, que fosse sempre discreto. Mas já não está dando mais, seu Genaro! Esses últimos anos está demais. É todo dia, homem de deus! Nem deve ser saudável pra um homem da sua idade. Eu até entendo que um homem vez por outra precise relaxar, se divertir, se dar o direito. Às vezes a gente tá meio sozinho, eu sei como é isso. Mas já está afetando o trabalho! Eu já avisei o senhor outras vezes, mas agora não posso mais ficar fazendo de conta que não estou vendo. Eu vou acertar todas as contas certinho com o senhor, vou até lhe adiantar o salário cheio do mês, mas vou ter que dispensar o senhor, seu Genaro. Não tem outro jeito."

O velho manteve os olhos no chão durante todo o discurso. Não sabia o que dizer. Apenas largou, por sua vez, um suspiro longo, levantou a cabeça e olhou para o patrão com os olhos baços. "Olhe, se quiser lhe faço uma carta de recomendação", Patrão disse antes que se pronunciasse. "Obrigado, patrão". Foi tudo o que disse o velho. Patrão levantou-se da cadeira, apoiou a mão no ombro do funcionário e saiu, fechando a porta atrás de si. O velho ficou um tempo olhando pela janela de projeção a tela branca, imaginando na sua mente as cenas que vira ali tantas vezes. Os corpos, os gozos, os sexos. A saudade. Tirou o crachá do uniforme e o colocou ao lado do projetor. Tocou o corpo metálico do equipamento percorrendo-o com o dedo de unha comprida, como se fosse corpo de amante. Abriu a porta e deixou a sala apagando a luz. A porta se fechou devagar enquanto o velho Genaro descia os degraus, passando pelas cadeiras forradas de vinil, pela grande tela branca, pela porta dupla, pela última vez.

O vento lá fora trazia um cheiro de chuva que ainda não chegou. O dia estava cinza mas ainda seco. Genaro seguiu as paredes pichadas, as portas metálicas das garagens, as bancas dos ambulantes. Deu à rua principal com a cabeça baixa, parando na esquina esperando o sinal abrir. Olhou por sobre o ombro e viu, uma quadra abaixo, o Cine L'amour lhe piscando um adeus privê. O homenzinho verde apareceu e os carros pararam. Genaro se perdia entre as faixas brancas pintadas no asfalto, o cheiro de escapamento e o ronco dos motores. Caminhava até o ponto de ônibus mesmo sabendo que o seu já tinha passado e o próximo demoraria ainda uns quarenta minutos. Sentou-se no banco velho que o recebeu, como os velhos, com um rangido, que suas articulações prontamente responderam em reconhecimento. Assistiu os carros passarem, as pessoas passarem, a vida passar, como se fosse um filme sem graça, sem gozo. Barulhos demais, sussurros de menos. Saudades demais. Depois de quinze minutos viu, no outro lado da rua, a menina recém contratada do L'amour chegar. Graça, era o nome dela, parece. Que nada tinha a ver com a moça, pensou o velho Genaro — Seu Genaro — ela dizia. Ele não dizia nada, que graça não via na moça. Ela dobrou a esquina e desceu a rua pichada. Genaro via as pernas finas, as ancas magras balançarem forçadamente de uma lado para o outro. Trabalhadora, dizia Patrão. Gil também confirmava, dizia que seu Genaro é que estava ficando amargo. Genaro estava, é verdade, mas mesmo assim não simpatizava com a moça que trabalhava ligeiro.

Genaro conhecia o L'amour. De quando chegou, anos antes. Os negócios iam bem, Patrão tinha comprado um novo carro, tinha mais cabelo e um terno menos apertado. As costeletas, já as tinha bem aparadas àquela época. Genaro cuidava de tudo. Limpeza e projeção. Mas Patrão decidiu pôr alguém pra ajudar Genaro. "Seu Genaro, o senhor fique apenas com a projeção. Que eu vou arrumar alguém para lhe ajudar nos trabalhos mais pesados". Patrão arrumou. Deixou o velho Genaro mais folgado, cuidando dos filmes e das sessões apenas. E já contratou logo mais gente. Tinha um rapaz bem novo, no lugar de Gil. Genaro não lembrava mais o nome dele, lembrava que ele um dia não apareceu mais, simplesmente. Foi daí que Patrão contratou Gil. E tinha a Dona Cida. Maria Aparecida, o nome dela. Ela também, velha em idade mas não tão velha quanto Genaro. Devia ter uns quinze, dez anos menos, provavelmente. Genaro nunca havia perguntado. Uma pena.

O ônibus chegou ruidoso, despertando o velho com um susto. Com esforço subiu os altos degraus e embarcou, enquanto a luz dos postes começava a acender prematuramente, prevendo a noite que se adensava. Sentou num acento vago no fundo do ônibus. O mesmo de sempre, velho conhecido, que fazia o caminho aos bairros distantes que abrigavam velhos sozinhos em quitinetes de azulejos dos anos sessenta. Barulhento, expelia baforadas negras como dum cachimbo sujo enquanto vencia os buracos da cidade resmungando como um velho chato e rabugento. Lá dentro, nos últimos bancos, outro velho, menos rabugento, se perdia entre os demais passageiros. Nenhum tão velho quanto ele. Talvez aquela senhora dormindo, de cabelos brancos e rugas nordestinas nas faces, com a cabeça quase tocando a janela e uma roupa florida combinando com a bolsa de crochê. Será que iria ela também para uma quitinete de azulejos velhos? Genaro não se importava. Já mal reparava na mulher. Os primeiros pingos começavam a tocar de leve as janelas do ônibus que, embaçadas, lembravam uma tela branca.

Uma tela branca que recebia cenas obscenas e belas, ejaculadas de um projetor que gemia gracioso para uma platéia desconhecida. A sala, nunca muito cheia, como convinha. Bastante espaço para que os clientes aproveitassem o filme preservando suas identidades e seus pudores sem um cotovelo desconhecido ao lado ou o cruzar com um rosto não tão desconhecido. Raros casais sentados nos cantos com mãos ligeiras. Velhos sozinhos rememorando ou fantasiando. Garotos em hordas que não deveriam estar ali. Solitários e oportunistas na esperança de encontrar um par sob a luz dos pares - ou trios, ou grupos - que copulavam na tela iluminada. Lá embaixo, na porta ao lado da primeira fileira, vazia como sempre, Dona Cida aguardava com a vassoura, os panos e as luvas o fim da sessão, olhando a tela, disfarçadamente a plateia, ou o rastro de luz que entrava pela janelinha de projeção, atrás de todos, até tocar o projetor lá dentro, bem lá no fundo, assim.

A chuva aumentou e Genaro despertou de suas lembranças. Só então percebeu que a velha tinha acordado e ido embora. Seu olhar de velho despedido permanecia cravado na janela onde, há pouco, uma cabeça esbranquiçada e sonolenta quase batia. Aguardou mais uns minutos e saltou no mesmo ponto onde saltava todos os dias ao cair da noite. A cobertura de zinco fazendo barulho sob a chuva. Abriu o guarda-chuva e caminhou uma quadra até a entrada de sua casa. Subiu a escadinha externa anexa ao prédio, abriu a porta de sua quitinete e entrou, deixando do lado de fora um dia choroso que chegava ao fim.

O apartamento escuro lembrando uma sala de projeção vazia, onde poderiam estar sentados dois velhos uniformizados olhando uma tela branca onde uma loira de maquiagem borrada era penetrada por trás por um rapaz tatuado enquanto aplicava uma sessão de sexo oral a outro a sua frente, num sofá de couro ao som de suspiros, gemidos e um ou outro tapa de leve nas nádegas arredondadas. Assistindo aos esforços da moça, estariam os dois velhos lado a lado, em silêncio, apenas olhando a tela. Nenhum deles prestaria muita atenção ao filme. Os olhares perdidos nas cenas provocantes apenas disfarçariam os demais sentidos, conectados naquela presença eletrizante ao lado. Como uma fonte de calor ou uma estática que se percebe sem mesmo se ver. Disfarçando o indisfarçável. E nessa falsidade dividida, cientemente falsa e dividida, deixariam-se estar na prazerosa companhia um do outro. Até que a tira de filme chegasse ao fim e a tela se cobrisse toda de um branco viscoso. Naquele o tempo o prazer se alcançava com apenas trinta e cinco milímetros.

Mas ao acender do abajur, nada passava de uma quitinete escura de azulejos antigos. Genaro foi ao banheiro, retirou as calças de barras molhadas, ligou o chuveiro quente e deixou que a água lhe lavasse o resto de dia que escondia-se entre as rugas de seu corpo. Caminhou sua flacidez nua até a cama no quarto-sala-cozinha, vestiu o pijama e os chinelos apeluciados, num raro momento de prazer verdadeiro. No fogão requentou a sopa de ontem e foi tomar sua refeição no sofá em frente ao aparelho de tevê de poucos canais. A pequena tela brilhante lhe parecia débil quando comparada à enorme tela do L'amour, que preenchia de vida alguns corpos carentes, dela ou de algo mais. Esticou o cotovelo para o lado num movimento quase automático, esperando que esbarrasse em outro cotovelo. Esbarrou, ao contrário, numa ausência há um bom tempo presente.

Uma ausência que o acompanhava desde a última vez que teve alguém ao seu lado na sala escura do Cine L'amour. Quando todos iam-se embora e ela, Aparecida do nada, surgia a limpar as poltronas de vinil e os corredores de sal, pipocas e sujidades mais. Ele lhe sorria com os lábios murchos dele. Ela lhe sorria com os dentes falsos dela. E eram os sorrisos mais firmes e sinceros que aquela tela haveria de presenciar. Ele colocava o filme a passar de novo, com a desculpa de entreter o trabalho — e outro tipo de filme não havia no L'amour — e ela consentia com indisfarçado contentamento. Ele ficava ao seu lado, lhe fazendo companhia. Pouco conversavam. Conversar mal era preciso para quem já tinha conversado uma vida toda. Quando ela terminava, sentavam lado a lado na sala pouco iluminada até que o filme e os gemidos acabassem e que a tela orgásmica cobrisse-se novamente de branco. Ele então guardava os rolos, desligava o projetor e iam embora até despedirem-se no ponto de ônibus. Aos poucos a estática entre eles ia diminuindo e, instintivamente, aproximavam-se mais um pouco até que aquela vibração invisível ou aquele calor de corpo velho voltasse a se estabelecer entre eles. Um dia os cotovelos enrugados encontraram-se. Os olhares então deixaram a tela onde uma ruiva muito nova masturbava um homem de bronzeado artificial que devia ser bem mais atraente quando mais jovem. Cida, encabulada, mais pelo toque dos cotovelos do que pelo filme. Genaro lhe estendeu a mão, que ela aceitou. Ficaram de mãos dadas assistindo a ruiva receber aos seios o membro viril do homem bronzeado.

No televisor não havia ruivas nuas ou bronzeados depilados. Apenas uma apresentadora de telejornal comportadamente vestida. Quanto a Genaro, ao seu lado havia apenas aquela ausência tão presente nos últimos anos. Levou o prato fundo à pia e decidiu não lavá-lo, mesmo que fosse pouco o trabalho. Meteu-se embaixo das cobertas e apagou as luzes. Sentado ainda na cama, viu o televisor desligado, a pia com a louça suja, a janela da sala mostrando o riscar da chuva lá fora. Deitou com a chuva de dentro represada. Na manhã seguinte acordaria só. O Cine L'amour desaparecera de sua vida. Também.

Dormiu um sono agitado. Sonhou-se sentado nas poltronas de vinil, mãos dadas com Dona Cida. Maria Aparecida. À sua frente, sexos gigantes se encontrando, se penetrando, se lambuzando numa grande tela luminosa, com gemidos escorrendo densos e um calor nas palmas das mãos velhas e suadas de dedos entrelaçados. Sonhou que seu colchão velho tinha recebido o dorso manchado de uma velha de dentes falsos e sorriso verdadeiro. Com seu membro inerte mostrando alguma vida e rememorando a juventude perdida, entre pernas magras idosas. Depois com o descansar de dois velhos entregues novamente à companhia um do outro. Todos os dias de mãos dadas, numa cópula de dedos entrelaçados, de palmas confidentes. Sonhou com o primeiro dia em que reprisou o filme e o assistiu sozinho. Dona Cida não aparecera. Gil o ajudara na limpeza aquele dia. No dia seguinte também. No outro, novamente. Na semana seguinte, com Dona Cida desaparecida, Patrão teve de contratar Graça. Quase mês depois, veio saber, Dona Cida havia falecido. Foi visitar uma prima doente e nunca mais voltara. Acabou que Graça ficara em definitivo no L'amour. Rápida, a moça, de fato. Terminava o serviço quase na metade do tempo. Ainda assim Genaro não gostava muito dela. Depois que ela saía, ficava na sala de projeção escura e ligava o projetor que gemia baixo ao seu lado, acompanhando as cenas do último filme que assistira com uma mão na sua. E revia, todos os dias, na grande tela, a morena voluptuosa de cabelos negros ser possuída por um mexicano enquanto acariciava uma loira de seios enormes.

Acordou lembrando aquele último dia. As luzes acesas da sala de projeção, Patrão à sua frente, a sala do cinema limpa e vazia, no escuro. A tela, naquele dia, não havia ficado branca ao fim do filme. Naquele dia, após a limpeza, ao ter o filme interrompido, a tela do Cine L'amour havia ficado negra.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

À Mainha Morta

eu rio
do rio

pruquê
o rio tá na vala, mainha

padinho diz
que quâno rio inchê
vai dá di vê meu riflexo

mas já dá, padinho
que o rio é marrom e rachado
qui nem minha cara di sertão

até meus óio verve mais água qu'esse rio

eu cuspo
pelo buraco onde tinha um dente
pra vê se o rio enche di novo

ai di mim, mainha

o poço secô
tu já morreu
painho sumiu

padin diz que foi pro rio

mas eu tô no rio
e
o rio secô
o rio rachô
e painho não tá
no rio, mainha

'que o rio tá seco
e velho
que nem eu
vazio

domingo, 4 de outubro de 2009

Desmetrica Mente

tanto tempo
tantintento
tem totanto
me livrar

da forma
(a que dá forma)
........[a queda à forma]
que disforma
que deforma
que conforma
........com forma

transtorno
transtorno
transpiro
expiro
esporro

preso à pressa
à prece à prensa
preso à porra da madrerrima
spiritum sanctum do verso nostrum

........[vade-mécum
........(vá de retro)

Relicário velho
Relicário relho
Reles cárie
........(extração)

me afeta
o afeto
infecto
incerto inseto
inserto goelabaixo

e
me apego
me apago
no pirófagafago
de línguas de fogo
do verso pagão

enterro interno
o verso beato
com uma pá de terra
duas pás de cal

e um punhado de pretérita certeza

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Flores na cabeça

Começou quase imperceptível. Só uma vibração entre a estrada de terra cercada de flores e o céu azul primaveril. As casas de tijolos à vista à beira da rua guardavam segredos silentes cercados de pétalas e canteiros e aromas de bolos de banana com farofa. Foi muito aos poucos que a melodia se fez, de fato, audível. Um assobio que saltitava alegre nas notas de diapasão, embalando as flores numa dança discreta na brisa suave.

O assobio nascia num vão entre lábios volumosos de tom café, contornados por uma barba baixa que cobria um rosto de olhos curiosos. A mochila nas costas jingava com o andar cadenciado guiado por passos certeiros de botas de solado grosso e couro resistente. A camisa listrada retribuindo as cores das flores que escoltavam o caminho.

Parou à sombra de uma árvore próxima a uma casinha de tijolos aparentes e floreiras nas janelas, admirando o telhado pontiagudo. Cessou o assobio ouvindo com prazer o silêncio da rua decorada e o som da brisa nas folhas. Sentou à beira da estrada, deitou ao chão a mochila e bebeu a água fresca de um cantil de alumínio, dividindo o espaço com as borboletas nas flores logo ao lado.

Se perdeu na delicadeza das asas que nem percebeu a chegada da criança loura que saltitava saindo do jardim bem aparado da casa. Foi o riso da menina que o despertou. Quando a criança o viu, hesitou desconfiada.

- Oi. Foi ele quem cumprimentou, jovial.

A criança não respondeu e ficou brincando à distância. Ele riu e retornou a atenção às borboletas, que vinham lhe brincar nos braços. Tocou com a ponta do dedo as asas coloridas e viu o inseto levantar voo até pousar-lhe na cabeça. Mais uma risada infantil lhe chamou a atenção.

- Parece um laço.

Divertiu-se a menina loura, apontando para a borboleta na cabeça do forasteiro. Ele riu com o chiste e a menina se aproximou.

- Você é um vagabundo? - perguntou a criança.

Ele espantou-se mas riu mais uma vez. Mas não. Ele era um viajante.

- E o que faz um viajante?

- Viaja - respondeu sorrindo.

Colheu uma flor amarela e colocou no cabelo louro da menina.

- Pronto. Agora você também tem um laço.

Ela sorriu. Mas com olhar preocupado para a porta da casa de tijolos aparentes disse:

- Meu pai não vai gostar disso. Ele diz que as flores tem que enfeitar a estrada.

- As flores ficam bonitas nas estradas sim. Mas eu digo que elas deveriam enfeitar mais as cabeças - respondeu o rapaz com calma.

- Ora, onde já se viu flor na cabeça. Lugar de flor é na rua. Ou na frente de casa.

- Mas aí as borboletas não vão querer visitar a sua cabeça. No máximo vão passar pela sua rua, mas não vão pousar em você.

- Hum... Meu pai nunca falou nada sobre borboletas.

- Ele não tem flores na cabeça, tem?

- Não... Mas você também não tem flor na cabeça e a borboleta pousou em você.

- É que quando você põe uma flor na cabeça, um pouquinho dela fica ali pra sempre. Como se fosse o perfume. E as borboletas percebem.

- Eu queria ter mais flores na cabeça. Mas aí meu pai vai brigar. Elas tem que ficar na rua.

- Talvez, se mais gente colocasse flores na cabeça, não precisasse tantas flores na rua. As borboletas viriam da mesma forma. E o perfume ia estar sempre com a gente. E de tanto a gente andar por aí, com flores na cabeça, elas iam acabar espalhando pólen mesmo. E daí, sem a gente nem perceber, logo iam ter flores espalhadas por todas as ruas. E a gente nem ia perceber que plantou.

- Vou fazer como a minha mãe, então. Ela tem um arco de cabelo cheio de flores. Vou usar sempre!

- Mas aí não adianta. No arco as flores são de plástico. Não são de verdade. Elas só parecem flores. Mas se você olhar de perto, vê que elas não tem perfume. E as borboletas não vem.

- É melhor eu voltar pra dentro. Meu pai não gosta que eu fale com vag - estranhos.

- Tudo bem. Foi legal conhecer você, viu?

A menina saiu correndo em direção a casa. O rapaz levantou-se, colocou às costas a mochila e seguiu o caminho pela estrada de barro com algumas borboletas no seu encalço. Saiu assobiando a melodia alegre que ia desaparecendo da vizinhança das casas de tijolo à vista e cheiro de bolo de colono. A melodia foi baixando, baixando, sumindo, sumindo até deixar no ar só aquela vibração quase imperceptível, deixando ouvir o som do vento nas folhas e de uma criança levando bronca por ter arrancado uma flor do jardim.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Meus dias a bordo do Cirella - Parte Final (XII)

Não recebi nenhuma nova notícia sobre a contenção da inundação nos porões, mas parece que continuamos na mesma situação. O clima continua fechado e a chuva aumentou um pouco, mas ainda não há ventos para soprar para longe este nevoeiro que nos cerca. A temperatura continua baixa e, pela trajetória do Cirella à deriva, creio que devemos estar sob a ação de alguma corrente marítima. Nosso capitão passou por um período dando ordens quase que a esmo, até mesmo contraditórias, mas agora parece estar tentando ganhar novamente a confiança da tripulação e caminha entre os homens congratulando-os pelo trabalho, distribuindo pequenas bonificações e prometendo maior parte nos lucros. Eu mesmo tenho sido alvo freqüente destas iniciativas, mas as promessas continuam promessas, e o Cirella, ainda que sob os nossos esforços de reparação, continua à deriva. Rastani tem ficado mais tempo na cabine contabilizando nossos recursos restantes do que contribuindo para sanar os problemas e o Peregrino agora fica mais retirado do que nunca, e raramente dá as caras no convés ou junto aos marinheiros. Agora, para honrar as recentes baixas que tivemos e os companheiros que entregamos ao mar, devo retomar os meus relatos enquanto a efêmera estabilidade que nos acalenta se mantém presente.

Apesar dos ferimentos, dizia eu, continuávamos a postos encurralando os homens do Amret contra o restante de seus canhões, que miravam maliciosamente o Cirella. O impasse iluminado pelas tochas não dava sinais de ceder frente às negociações de nosso capitão com o comandante do Amret. Nós não abriríamos mão da conquista do porto e eles não aceitariam a derrota de mãos vazias. Naquela noite fora proclamado, sob as chamas inquisidoras das tochas, um acordo do qual jamais falaríamos novamente e do qual a ciência deveria ser sepultada ali, como um dos que padeceram em combate. O Amret e seus homens iriam poupar o Cirella do trágico fim e a nau inimiga não seria destruída por nossos adversários. Eles não mais ofereceriam resistência a nossa conquista do porto e nós poderíamos novamente nos pôr rumo ao nosso desejado destino. Em troca, o Capitão Tino cedera ao capitão do Amret parte da carga e das riquezas que transportávamos no Cirella e se comprometera em agraciar nossos antagonistas com a quinta parte de nossos lucros com as mercadorias do porto, mesmo os homens do Amret não tendo nenhuma participação nos trabalhos e viagens a nossa nova conquista. Um acordo que permaneceu obscuro naquele porão emprenhado pelo pó negro e por homens rubros e abatidos.

Lembro daquela aurora com um pesar ainda constante. Os raios do sol iluminaram o que restara de nossa embarcação e a fila de corpos cobertos pelos tecidos vulgares no nosso convés. Despedimo-nos de nossos companheiros silenciosamente e os deixamos aos cuidados do oceano para um sepultamento no leito daquele que fora o último campo de batalha em que eles adentraram. Passamos o restante do dia calados e tentando colocar o Cirella novamente em condições de navegar, ao menos até algum porto onde poderíamos fazer os reparos de forma mais segura. Naquele dia silencioso só se ouvia a voz de Sadiano se congratulando pela conquista e contabilizando as riquezas que iria tornar a acumular. Enquanto nós, silenciosos, contabilizávamos os danos sofridos pelo Cirella e pelos homens que por ele lutaram.

Acabo de retornar do convés. As novas que trago preencherão estas últimas linhas de mais infortúnios, como se ainda não tivesse relatado suficientes. Bogus reuniu os homens para dar a notícia. Nero sucumbiu há algumas horas. Nenhum de nós nutria muita esperança por sua recuperação, mas as histórias do velho marujo continuarão ecoando nos porões e entre os homens do Cirella.

Uma fina camada de cera separa agora a chama da mesa e o pavio negro pende torto, moribundo. Um silêncio percorre as câmaras restantes de nosso ataúde avariado, enquanto as ondas embalam o mudo Cirella. Um silêncio de luto. Não por aqueles que se foram, nem por aqueles que permanecem, mas pela chama que se extingue sepulta pela cera branca sobre o tampo amadeirado, deixando que a escuridão se apodere por completo da história do Cirella.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Meus dias a bordo do Cirella - Parte XI

O céu nublado trouxe uma escuridão precoce quando o sol se pôs, e apenas dois pontos brilhantes chamejavam sobre as ondas baixas que embalavam os dois archotes a uma distância pequena demais para propiciar um descanso tranqüilo aos seus tripulantes. Sabíamos que aquela seria uma aurora violenta. O sol se ergueria vermelho do oceano e se confundiria com o nosso sangue que certamente tingiria as águas se entrássemos em um combate aberto contra o bem armado Amret. Jamais chegaríamos próximos o suficiente para abordar a embarcação inimiga à luz do dia. Se chegássemos ao alcance dos canhões adversários nosso casco não suportaria os danos e não nos seria possível engajar ao combate corpo-a-corpo. E o Cirella não possuía poderio suficiente para suplantar os canhões de bronze de nosso adversário no combate à distância. Era preciso que tomássemos a iniciativa da ofensiva na esperança de surpreender nossos inimigos, mesmo que isso significasse o risco de uma navegação às cegas na noite sombria daquelas águas desconhecidas. Preparamos nossas armas sob o convés procurando manter uma aparente rotina para o caso de estarmos sendo observados à distância pelos homens do Amret. Preparamos além das armas, vários metros de cordas e ganchos para uma abordagem ao convés inimigo. Apagamos as lanternas a bombordo deixando apenas iluminada a lateral do navio voltada ao Amret, a boreste. Encobertos pela escuridão, baixamos os botes ocultos dos olhos de nosso antagonista e os enchemos com nossos melhores combatentes e com as cordas devidamente preparadas. Os botes foram levados em silêncio e completa escuridão para próximo da nau inimiga e aguardaram o momento de agir. Os outros dentre nós que ficaram a bordo preparam o melhor possível o Cirella para uma investida noturna na esperança de que os vigias, em meio à escuridão, não percebessem nossa aproximação há tempo de preparar sua defesa ou ao menos que a precisão da artilharia inimiga fosse prejudicada. Assim que todos se colocaram a postos, apagamos todas as lanternas a bordo, envolvendo definitivamente o Cirella na escuridão da noite, e mudamos o curso para interceptar nosso adversário que reluzia solitário sobre as águas escuras e frias que aguardavam silenciosas o embate.

Entramos no alcance dos canhões inimigos e nenhum alarma aparentemente fora dado. Enquanto isso os botes, também envoltos pela noite se aproximavam sorrateiramente do casco do Amret, prontos para desovarem no convés um pequeno enxame de combatentes. Nosso subterfúgio, no entanto não fora suficiente para uma surpresa completa e logo os vigias inimigos deram pela falta de nossas lanternas ao longe e perscrutando a noite localizaram o Cirella se dirigindo a eles como um aríete obscuro. O alarma fora dado e a movimentação no convés inimigo se intensificava com a artilharia se preparando para a primeira salva, e a infantaria toda a bombordo pronta para repelir nossas amarras e tentativas de abordagem. Enquanto isso, a boreste do barco adversário, os botes começam a liberar homens que escalavam, com o auxílio das cordas, rumo ao convés inimigo. A primeira saraivada rasgou a noite com um uníssono trovejar que despejou o aço quente nas águas a nossa volta. A escuridão que nos protegia também não nos permitia ver os projéteis que nos procuravam nas trevas e a expectativa do impacto se tornava tão angustiante quanto o próprio arrematar das esferas metálicas. A segunda descarga cruzou perigosamente o inconseqüente e destemido Cirella e uns dos projéteis transpassou uma de nossas velas secundárias deixando em seu lugar um vão negro preenchido pelo céu escuro.
Antes que a próxima bateria se preparasse nossos homens haviam deixados os botes e arremeteram contra a artilharia inimiga, que surpreendida cedia sob a fumaça das pistolas, o cheiro da pólvora e as lâminas velozes. Com o caos perpetrado na nau inimiga, reacendemos as lanternas do Cirella iluminando nosso único e ultrapassado canhão de retrocarga. As recargas estavam preparadas e arma posicionada no bordo do Cirella, que já se posicionava para o tiro. Enquanto nossos homens enfrentavam o contra-ataque da infantaria do Amret no convés adversário, o Cirella cuspia esferas de ferro contra o mastro e as velas inimigas a fim de aleijar nosso antagonista. Mesmo com a artilharia severamente debilitada os canhões de bronze do Amret ainda eram uma ameaça, e à curta distância não demoraram a mostrar seu poderio. Logo o impacto do fogo inimigo avariou nossa embarcação causando estragos tanto ao Cirella como aos homens a bordo, que caíam sob os estilhaços do navio que voavam aos montes. Nossos homens debilitaram nosso inimigo o suficiente para que pudéssemos nos aproximar para a abordagem e logo as amarras voavam de um navio ao outro e as pranchas de madeira eram estendidas entre os conveses.

Investimos com o restante de nossos homens sobre o convés inimigo unindo nossas forças àquelas dos nossos companheiros que iniciaram o ataque. Àquela distância o Cirella era presa fácil para os canhões inimigos e o casco se rompia ante a ferocidade das armas. Ao Amret, com o mastro partido e deitado sobre o convés, não restava muito a não ser tentar suportar nossas forças no convés e continuar a punir nossa embarcação e os homens que nela haviam ficado tanto quanto fosse possível com o restante de sua artilharia. Ao mesmo tempo em que sobrepujávamos as forças inimigas, o Cirella se esfacelava sob uma nuvem de fumaça e poeira e ameaçava, vagarosamente, entregar suas forças e mergulhar ao leito do oceano. Nosso antigo canhão, de ferro fundido, explodiu durante um tiro, arrancando parte do bordo de nosso navio e a vida de pelo menos dois de nossos homens. No entanto, a bordo do também castigado Amret, já havíamos suplantado as forças opositoras que se entrincheiraram no convés inferior, junto à segunda linha de artilharia. Com o convés principal seguro, o Capitão Tino abordou a nau inimiga para exigir a rendição ou comandar o último ataque contra os sobreviventes. Apesar das várias baixas que tivemos e das várias que ainda teríamos devido aos ferimentos desta batalha, tínhamos na boca o gosto da vitória misturado ao do sangue. Mas os rumores sobre os ardis de nossos adversários não eram despropositados. Quando abordamos o convés inferior do Amret nos deparamos com todos os homens armados de tochas incandescentes e com toda a força da artilharia inimiga pronta e apontada contra o agonizante Cirella. Ao redor deles, barris de madeira abarrotavam o compartimento e preenchiam o ar com o cheiro da pólvora. O Cirella não suportaria outra salva a esta distância e estaria condenado caso nossos inimigos disparassem. E eles estavam prontos para sacrificar a conquista do porto, para sacrificar sua própria embarcação, para não serem derrotados. A tensão se tornava palpável e o bruxulear das tochas sobre os barris mostrava que aquela batalha não teria vencedores.

O pó negro exalava um cheiro forte no convés abarrotado. Muitos de nós estávamos feridos, mas continuávamos a postos no convés inferior junto com nossos companheiros. Nosso Imediato, Bogus Napolle, tinha a perna lacerada por uma lâmina inimiga e mancava terrivelmente. Eu mesmo, que havia acompanhado a segunda investida sobre o navio inimigo, naquele momento ainda portava o chumbo adversário no antebraço esquerdo. Admirando agora o ferimento recém cicatrizado à luz da vela que se encolhe enquanto escrevo, penso se Nero resistirá aos ferimentos que lhe foram impostos.

Nero Marquesia é um dos tripulantes mais velhos do Cirella. Quando me juntei à tripulação desta remendada embarcação não o conhecia, e o espírito reservado do marinheiro fez com que só após algum tempo no mar ele passasse e me contar as suas histórias com o sotaque marcante característico. E com o passar deste tempo eu percebia que este era um dos seus maiores passa-tempos sobre as ondas. E maior parte dos companheiros de convés também se aprazia com as histórias do velho marujo. Nas noites de calmaria, à luz de uma lanterna, os causos do velho Nero eram o divertimento da tripulação. E agora ele passa os seus dias em um leito tentando suportar aos ferimentos sofridos naquela noite belicosa. Quando nosso canhão explodiu em combate lançou ao ar estilhaços de madeira e metal que se espalharam por boa parte do convés. Nero fora atingido em diversas áreas do corpo por esses estilhaços e ao que parece por uma das câmaras de recarga lançadas pela explosão da arma. Os ferimentos o puseram inconsciente e, se não fosse pelos cuidados de Frei Renalier, possivelmente já teria sucumbido. Agora ele oscila entre períodos de consciência e inconsciência e é acometido quase que constantemente pela febre, possivelmente decorrente da inflação de um dos ferimentos. Nosso Frei se divide entre os cuidados de um cirurgião e as preces de um sacerdote, enquanto o resto de nós apenas torce para que ele resista. Infelizmente parece que nosso companheiro fará mais uso das preces do que dos ungüentos e dá sinais de que pode não agüentar nem mais uma semana nas precárias condições em que nos encontramos.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Meus dias a bordo do Cirella - Parte X

Como o Peregrino ficava em sua saleta nos porões do Cirella, a tripulação não lhe dedicou muita atenção a princípio. À medida que parávamos nos portos, percebemos que Tino se dedicava cada vez mais à venda das ervas do Peregrino em detrimento das mercadorias do Cirella. E os lucros de tais vendas ficavam restritos ao Capitão, seu conselheiro e, obviamente, ao ruivo com voz de criança. A tripulação apenas ganhava seu percentual das especiarias normalmente negociadas pelo Cirella, que diminuíram aos poucos, uma vez que os espaços nos porões da embarcação foram sendo tomados pelas plantas. Aos poucos, o nosso novo tripulante começou a se infiltrar no dia-a-dia do Cirella. Em pouco tempo havia se tornado conselheiro de Tino Sadiano, acima mesmo de Bogus Napolle, o Imediato do navio. Apenas Rastani Cain estava acima dele na embarcação. Com astúcia e promessas de enormes recompensas foi envenenando a mente já frágil e perturbada de nosso capitão a ponto de convencê-lo de que sua sala na ponte de comando do Cirella não era necessária para ele. Seria melhor se ele passasse seus dias mais próximo dos marujos, entre eles, de forma a melhor vigiar e perceber qualquer movimentação que pudesse oferecer risco ao seu comando. E, já que o Capitão estaria junto aos homens e sua sala na ponte de comando ficaria vazia e ociosa, o Peregrino se disponibilizou a ocupar o lugar. Tudo, é claro, para melhor estudar suas ervas e controlar os negócios, visando maiores lucros para ele e para o Capitão. Com o consentimento do comandante máximo da embarcação, o Peregrino passa agora seus dias não mais nos porões do navio, mas sim na cabine de comando.

Acabo de voltar do convés. Ouvi gritos dos homens chamando por ajuda. A água que já havia tomado um dos compartimentos inferiores voltou a se alastrar em nossos porões. Felizmente conseguimos conter a inundação a tempo, mas com isso isolamos o compartimento anterior e não podemos mais bombear a água para fora do navio. Perdemos boa parte da carga nesse ínterim e algumas sacas das ervas que carregamos. Com a chuva que volta a cair esperamos conseguir água potável o suficiente para nos mantermos por mais tempo. Quanto aos mantimentos que nos restam, decidimos começar a racionar, pois não sabemos quanto tempo ficaremos nesta situação. O Capitão pareceu preocupado com o estado de seu navio e mandou levar o dinheiro guardado e seus itens mais valiosos para a parte mais segura do Cirella, que ainda não foi afetada pelos estragos. Penso que se talvez nos livrássemos de parte do ouro ou das ervas nos porões deixaríamos a nau mais leve e poderíamos tentar manobrá-la com mais facilidade ou ao menos o suficiente para conseguir fazer os reparos de emergência. Mas estou certo de que nosso capitão não aceitara tal proposta. Devo retomar agora minha história dos últimos eventos antes que a água volte a nos colocar em perigo e interrompa definitivamente essas breves e desditosas memórias.

Com os porões emprenhados pelas ervas e o Capitão se dedicando cada vez mais ao comércio destas mercadorias, deixando quase que de lado os negócios do Cirella, velejamos por vários mares e cruzamos dezenas de fronteiras. A cada porto parecia que Tino e o Peregrino ficavam mais abastados enquanto o Cirella cada vez mais carente de cuidados, tendo apenas a tripulação olhando por ele. Mas uma esperança surgiu, em um mercado de um porto continental. Rastani Cain negociava os lucros com um dos comerciantes, e este lhe contara uma notícia que poderia colocar novamente o Cirella nas grandes rotas comerciais.

Quase a totalidade das cargas que chegavam àquela localidade era proveniente de um único e distante porto. As embarcações que até então traziam de lá as mercadorias iriam se lançar ao outro lado do mundo, deixando a rota livre para novos barcos. Com a grande demanda de carga exigida, não seriam muitos os barcos que teriam condições de comercializar estes produtos. Eram necessárias grandes dimensões para armazenar carga o suficiente para as viagens e uma grande equipe para conduzir o barco pelas águas bravias que permeavam a rota. A oportunidade despertou o interesse de Sadiano, que via a possibilidade de grandes lucros, e da tripulação que vislumbrava grandes viagens e aventuras. A notícia arrebatou a costa como o vento das monções e logo várias embarcações estavam se preparando para zarpar rumo ao longínquo porto e suas promessas de riquezas. Entre elas, o Cirella.

Nas semanas que se seguiram, todas as embarcações se colocaram em uma corrida rumo ao novo porto. Sabíamos que a maioria daqueles que zarparam jamais chegariam até lá. Mas era preciso não só que lá chegássemos, mas que o fizéssemos antes de nossos concorrentes. Foram semanas de disputas ferrenhas e não raro a corrida se transformava em combate, tingindo o mar de sangue para o deleite dos peixes que seguiam as naus. Para aquelas rotas o Cirella não era um barco a se desprezar e seu porte nos salvou algumas vezes de embates mais diretos, especialmente com embarcações menores ou de tripulação menos numerosa, uma vez que mesmo não sendo militares, nossos homens se faziam às armas quando preciso quase com a mesma intensidade com que se faziam ao mar em busca de aventuras. Nas últimas semanas fomos tomando distância das embarcações menores que iam ficando para trás ou sendo abatidas pelas naus maiores. Felizmente o Cirella sofrera poucas avarias nesses embates, e assim nos víamos em condições favoráveis para a conquista do porto. Nas últimas semanas só havíamos avistado três naus além da nossa. Uma delas pouco conhecíamos, mas identificamos pela bandeira que era uma embarcação originária das terras às quais objetivávamos. Assim, mesmo sendo um pouco menor do que suas concorrentes, conhecia bem as rotas daquela região e nos seguia de perto. Chegaram inclusive a atingir a distância de combate, mas com uma manobra rápida, aproveitando a mudança do vento, alteramos a rota do Cirella e cortamos a frente de nossos adversários. Para um navio de porte maior isso não seria problema, mas para nosso diminuto concorrente, as ondas provocadas por nossa passagem foram o suficiente para desestabilizar o barco, enquanto nós, aproveitando a mudança repentina dos ventos tomávamos distância.

Restavam então apenas dois adversários. Atrás de nós vinha o Amret. Ao contrário da embarcação que já havíamos deixado para trás, este era um concorrente maior que o Cirella e melhor armado. Mantínhamos uma distância segura do navio mas nem por um momento deixamos de vê-lo em nosso encalço. Enquanto isso seguíamos em busca do Reef, que havia despontado a nossa frente sem deixar sinais. A grande embarcação era a maior de nossos mares. Com uma tripulação quase duas vezes maior que a nossa e um barco de porte muito mais avantajado, seria preciso muito esforço para que alcançássemos o Reef a tempo, e ainda assim teríamos de derrotá-lo em combate, um feito que não era impossível, mas tampouco simples. E sem dúvidas não sairíamos ilesos de um confronto tanto contra o Amret quanto contra o Reef. Quem dirá enfrentar a ambos. Sob a pressão constante do Amret às nossas costas e sem sinal do Reef à nossa frente, o clima no Cirella ficava cada vez mais tenso. O capitão esbravejava ordens e estipulava metas em milhas a serem percorridas a cada dia. E a cada dia a diferenças entre ele e a tripulação cresciam. Várias vezes farpas foram trocadas diretamente entre o capitão e alguns dos tripulantes. Sob pressão em nosso próprio navio e sob àquela imposta pela sombra de nossos adversários, os sussurros de motins recomeçavam. Alguns dos homens desejosos de abandonar o Cirella, outros cercados de dúvidas. Mas finalmente avistamos o Reef no horizonte. A imagem do adversário inflamou os marinheiros e a distância entre nós começou a diminuir rapidamente. Apesar disso, seguindo nosso rastro branco no oceano vinha a proa do Amret, como um perdigueiro farejando a presa. A distância entre nosso navio e o Reef diminuía rápido demais e não tardou para que estivéssemos perto o suficiente para identificar o motivo. O mar possui um senso de humor negro e irônico. E agora estava novamente pregando mais uma de suas ardilosas surpresas em nosso azarado adversário. O Reef havia encalhado, ironicamente, em um recife de corais, não oferecendo mais nenhum risco para nós. Um fim apropriado para aquele que trazia pintado no casco o nome do algoz. O Cirella e o Amret, de calado menor que o Reef, não tiveram problemas para passar sobre os corais e seguiram rumo ao porto. Não conseguimos manter por muitos dias a distância que nos separava de nosso perseguidor e logo o Amret se aproximava perigosamente. O embate era iminente, teríamos de rechaçar a embarcação adversária para chegar ao porto em segurança. Teríamos de abordar e derrotar o Amret. E teríamos de fazê-lo em breve.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Meus dias a bordo do Cirella - Parte IX

Ali mesmo alguns dos homens, incluindo o abalado Fernão, se despediram de seus companheiros e desapareceram entre as ruelas do porto para nunca mais voltarem ao Cirella. Alguns foram contratados por outras embarcações, outros juntaram seus parcos investimentos para comprar pequenos barcos mascates para rotas menos lucrativas e menos arriscadas, e ainda alguns desistiram de vez da vida no mar, buscando novos empregos que não exigissem a incerteza do mar agitado, as constantes mudanças entre calmarias e tempestades e as inevitáveis batalhas que travam aqueles que vivem sobre um convés. Ficamos em terra por vários meses e poucos de nós se dirigiam ao capitão com a naturalidade que faziam antes de nossa última viagem. A avareza e a cobiça tomaram Sadiano e mesmo alguns dos marinheiros que tomaram parte na última viagem não receberam sua parte nos lucros. Mesmo assim Sadiano precisava de sua tripulação para retornar ao mar em busca de mais riquezas. Mas seu barco estava praticamente destruído e sua reputação completamente abalada. O Capitão Tino precisava de um artifício que convencesse seus comandados a embarcar novamente. Apesar das perdas recentes, o capitão não teve outra escolha a não ser arriscar. Foi em busca de grandes comerciantes e, empenhando sua palavra e futuras riquezas, conseguiu dinheiro para uma nova embarcação. O Cirella II.

Uma nau duas vezes maior que o barco anterior. O casco azul escuro ostentava as cores da bandeira do pavão que tremulava sobre um grande mastro ornamentado por esculturas de longas plumas em todo o seu comprimento. Na proa, uma águia se pronunciava de asas abertas, com as garras envoltas em plantas e ervas esculpidas no próprio casco. O castelo de popa se elevada muito acima das pequenas construções portuárias e o leme era dourado, lembrando a todos a rota que perseguia nosso capitão. Os grandes porões do novo Cirella acomodavam mais que o dobro de carga de nossa antiga embarcação e acima do convés, as enormes velas cinzentas aguardavam ordens para zarpar. As famosas carrancas do Cirella continuavam a adornar a nau, mas agora em número bem menor e de menores proporções. A bandeira da embarcação tremulava no topo do mastro e, agora, abaixo do escudo cinza com o pavão azul, um listel com a inscrição Aurum Omnia Vincit rezava o credo de Tino Sadiano.

O estratagema surtiu efeito. Os homens que estavam em dúvida quanto a sua permanência vislumbraram uma esperança na imponência do novo Cirella e mais uma vez se uniram sob o pavilhão azul e cinza de Tino Sadiano. Uniu-se ainda a nossa tripulação Oséas Sisar. Um velho ex-marujo, que vivera quase todos os seus anos no mar e agora passava a maior parte do tempo junto ao cais olhando as ondas e contando histórias para os novos marinheiros. A função do Velho Oséas seria então intermediar a delicada situação entre a equipe e o capitão, além de com sua experiência, indicar mudanças na maneira como o Capitão comandava o navio, estocagem de mercadorias, assessorando de modo geral Tino. Para suprir os homens que haviam abandonado o Cirella, foram contratados mais alguns marinheiros e depois de tudo acertado e vários meses em terra, nos fizemos mais uma vez ao mar. O Cirella, agora muito maior, partiu em um amanhecer nublado onde o sol espiava aqui e ali por entre as nuvens. A maioria dos homens estava feliz de voltar ao mar, sentir o vento salgado no rosto e o balanço das ondas, de se lançar em uma nova viagem. Mas ainda assim tinham a expressão nublada como o dia de nossa partida. Evidentemente, a confiança da tripulação ainda não havia sido reconquistada. Os dias foram passando e o Velho Oséas andava por todo o navio, conversava com a tripulação e contava suas histórias de aventuras as mais diversas. A tripulação, já desconfiada com todos os acontecimentos, demorou um pouco para acolhê-lo, mas depois todos já estavam torcendo para que o velho marinheiro realmente conseguisse desempenhar as suas funções da melhor maneira. Uma das primeiras melhorias sugeridas por Oséas Sisar foi quanto aos rumos e modo de navegação. Era de praxe sob o comando de nosso capitão que, uma vez definido nosso objetivo e traçadas as rotas ideais para chegar até ele, essas rotas fossem com freqüência mudadas, quase que a esmo ou aleatoriamente. Por isso era comum levarmos muito mais mantimentos do que o necessário para a viagem, devido ao tempo extra que perdíamos nestes desvios.
Igualmente, era deveras trabalhoso manter os registros de bordo precisos, uma vez que, aparentemente sem prerrogativa ou objetivo, Sadiano nos levava a mares e rotas desconhecidas que nada tinham com nossos objetivos inicias. Objetivos esses que também eram mudados com a mesma facilidade com que mudam os ventos. A sugestão de Oséas foi de que uma vez definidas as rotas, com base nos estudos cartográficos, dos ventos, astros e marés, essas rotas se mantivessem inalteradas tanto quanto possível. Com alguma resistência de sua parte e pressão por parte da tripulação, Tino acabou acatando as sugestões de Sisar e, por algum tempo, o Cirella navegou veloz pelo oceano, nos permitindo atingir novos portos. Infelizmente as mudanças não foram duradouras e em pouco tempo estávamos novamente errantes pelas ondas.

Assim os meses se passaram, de porto em porto, com Oséas fazendo as mudanças no Cirella e o Capitão Tino comprometendo estas mudanças. A credibilidade de nosso capitão voltava a cair e sua sede por riquezas a aumentar. E quanto mais ela aumentava, mais ele se distanciava de sua tripulação. Mesmo Bogus fora deixado de lado e tratado como mais um dos marujos. Logo a desconfiança se instalou a bordo do navio e o capitão, junto ao seu conselheiro Rastani, começava a demonstrar sinais de paranóias e neuroses. Era como se fossem assombrados por fantasmas que eles mesmos criaram. E com o tempo esses fantasmas se tornaram reais. Suas dúvidas o tornaram recluso e taciturno, seu ouro o tornara arrogante e avaro, seus medos o tornaram agressivo. Não demorou para começar a ver nos conselhos do Velho Oséas ameaças de sabotagem ao seu navio. E não demorou para que o pobre e velho marujo fosse dispensado numa ilha qualquer acusado de traição. A ponte se tornara o seu reduto, de onde, pelas frestas das escotilhas ficava espionando os marinheiros em seus afazeres e horas de folga. Incentivado por Rastani, espalhava rumores pelo navio, colocando os marinheiros uns contra os outros na esperança, creio eu, de enfraquecê-los e evitar um motim. Com freqüência os marinheiros recebiam apenas parte de seus pagamentos pelas viagens, sendo o restante pago muito depois. Os marinheiros, em mares tão longe de casa, não tinham outra opção a não ser aceitar e aguardar. O Capitão acusava baixos lucros, mas enquanto os marinheiros aguardavam seus dividendos, a cabine de Tino Sadiano era ornamentada cada vez mais e não lhe faltavam vinhos ou carnes em suas refeições. Nesse período Áspero com freqüência voava pelo convés e depois à cabide do Capitão. De vez em quando Rastani passava pelo convés acompanhando o trabalho com olhos atentos e os lábios mudos. À noite, podíamos jurar ouvir passos furtivos e olhares dissimulados nas sombras. O Cirella estava sob vigia.

Dessa forma chegamos ao início do inverno a uma península para reabastecer-nos de provisões. O povoado era grande e sua economia se concentrava no comércio de ervas para os mais variados propósitos. Passamos apenas um ou dois dias em terra, se bem me lembro, mas esse tempo foi suficiente para o Capitão levar mais um tripulante a bordo. Um comerciante de ervas que Sadiano conhecera naquela ilha. Um homem baixo de cabelos ruivos e olhos pequeninos que vestia quase sempre roupas verdes e tinha uma voz quase infantil. Usava adereços diversos em torno dos pulsos, pescoço e nos cabelos, e trazia sempre consigo um estojo com as ervas que comercializava. Os ornamentos chamaram a atenção do Capitão, que via no pequeno homem uma grande oportunidade para vender nossas especiarias. Tino abordou o pequenino que se apresentou com sua vozinha fina apenas como Peregrino, e disse que vivia caminhando e vendendo suas ervas por onde fosse. Tinha mesmo, segundo disse, vários mascates que vendiam seus produtos por ele e que ele ganhava assim muito dinheiro. Nosso capitão disse que entendia perfeitamente, uma vez que também tinha vários marinheiros que trabalhavam no grande Cirella para seu próprio benefício. O pequeno Peregrino retrucou, dizendo que de forma alguma se tratava da mesma coisa. Segundo ele, os mascates que vendiam suas ervas não eram seus contratados. Eles lucravam diretamente com suas negociações, sendo que apenas enviavam parte dos lucros ao Peregrino, que cultivava as ervas em locais ermos longe do alcance de todos. Dessa maneira, segundo o herborista mercador, ganhava volumosas recompensas, assim como seus mascates. Seduzido pelos ornamentos, pelos argumentos e pela promessa de grandes lucros do Peregrino, nosso capitão, em vez de vender nossas especiarias, abarrotou os porões do Cirella com as ervas compradas do herborista e lhe concedeu livre tráfego em sua embarcação para levar suas ervas aos mais distantes portos. Assim, quando deixamos a península, boa parte da capacidade do Cirella fora comprometida com o espaço nos porões reservados para os novos negócios de Tino Sadiano, e uma pequena saleta foi improvisada nos porões de nossa nau para acomodar o novo tripulante. Enquanto isso Rastani fazia as contas dos possíveis futuros lucros.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Meus dias a bordo do Cirella - Parte VIII

Era como se o dia seguinte não houvesse chegado. A tempestade continuava e o sol não conseguia se mostrar entre as nuvens. No entanto, próximo ao meio dia, uma movimentação no cais nos chamou a atenção. Junto a alguns de meus companheiros segui os homens que corriam pelo porto e fomos surpreendidos pela imagem alquebrada do Pope Arug que chegava. O mar bravio e o estado lastimável do cais dificultavam a atracação. Aguardamos alguns minutos até que as amarras estivessem seguras e o barco bem preso, possibilitando o desembarque. Era surpreendente como depois de tantos golpes o navio conseguira retornar sozinho em tão pouco tempo. Logo fomos à procura de Fernão, mas os marujos não sabiam nada ao seu respeito. Bogus interpelou o capitão Arug e Frei Renalier o cirurgião da embarcação, mas nenhum deles sabia de nosso companheiro. Parecia que eles não haviam visto o que acontecera com Fernão e nós não poderíamos partir em uma operação de busca até que o mar estivesse menos revolto, pois teríamos que ir em barcos bem menores, uma vez que o Cirella não se encontrava em condições de navegar, tampouco o Pope Arug. A tempestade passou quando o crepúsculo já cobria o cais e não poderíamos nos fazer ao mar com barcos tão frágeis durante a noite. Era mais uma noite que Fernão passaria, na melhor das hipóteses, sozinho na ilha sem mantimentos.

Na manhã posterior, antes da aurora iluminar o dia, já estávamos todos a postos para partir em um pequeno barco pesqueiro. Nossa tripulação era composta de dois pescadores, que nos levariam até lá; eu, que havia marcado o ponto exato da queda e determinado as áreas de busca; Bogus e mais dois marinheiros, além de Frei Renalier, armado pelos seus instrumentos médicos e medicamentos. Chegamos ao local de nosso choque com o Pope Arug. Na esperança de que Fernão tivesse conseguido chegar à ilha, descemos um bote e remamos até os bancos de areia que fechavam a entrada do canal. As buscas felizmente não demoraram, e logo achamos nosso companheiro. Encontrava-se em uma situação lastimável, abatido, de olhos vidrados olhando fixo para o horizonte. Nem percebeu quando nos aproximamos. Estava sentado na areia, os joelhos recolhidos junto ao peito e abraçado em uma tábua de madeira, provavelmente um destroço do acidente. Quando chegamos não respondia a nossas vozes, parecia alheio a tudo. Só com algumas sacudidas conseguimos sua atenção, mas devido ao estado de choque, não conseguimos mais do que fazê-lo retornar conosco ao barco. Não dizia uma palavra e mal parecia nos reconhecer. Levamos Fernão até o pesqueiro e o envolvemos com um cobertor enquanto Frei Renalier examinava nosso amigo. Voltamos ao cais com a ajuda dos pescadores e com a culpa nos pesando sobre os ombros.

Fernão ainda ficou dois dias de cama e quando não estava dormindo ficava parado com os olhos abertos fitando o teto. Mal respondia a nossas perguntas, balbuciando apenas algumas palavras que frequentemente soavam desconexas ou frases inacabadas. O capitão Tino Sadiano passou uma vez para ver como estava seu marujo e para perguntar ao Frei Renalier quando ele poderia retornar a navegar. O frei respondeu que em mais dois dias poderia sair da cama, mas não poderia responder quando ele poderia voltar ao trabalho, o que chateou nosso capitão. Como se não bastasse, o prêmio da aposta que nos colocara naquela situação não estava em nossas mãos, como esperava Sadiano. Arug se recusava a ceder o mapa, acusando o Cirella de trapaça. A aposta dizia contornar a ilha e não cortar caminho por dentro dela. Por mais que pudéssemos tentar contestar essa afirmação, não seria possível contestar a de jogáramos nossa embarcação contra o Pope Arug, afinal nosso concorrente ainda tinha o casco adornado por uma de nossas carrancas que lá se cravara. Aqueles que foram chamados para presidir um júri concordaram em unanimidade que o Cirella havia trapaceado e que o vencedor seria o Capitão Arug (creio que vários destes votos se deram pela inimizade criada por nosso capitão, pela soberba com que tratara seu barco, pelo descaso com nosso companheiro e pela arrogância que demonstrara na noite da aposta). Ainda que a muito contragosto, Tino Sadiano entregou ao Capitão Arug o mapa e nós perdemos definitivamente nosso novo mercado. Ele agora pertencia ao Pope Arug.

Ficamos naquela ilha por dois dias a mais do que o necessário para a recuperação de Fernão, pois nossa nau precisava de uma recuperação também. Depois de quase uma semana de reparos, conseguimos deixar o Cirella em condições mínimas de regressar ao continente. Embarcamos todos no deplorável Cirella e iniciamos nossa viagem de volta ao lar. O barco navegava manco pelas ondas e a viajem demorou muito mais do que gostaríamos. Fernão passava seus dias em sua cabine sem falar com ninguém, os homens estavam mudos e o ar pesado. Muitos estavam decididos a não embarcar novamente ao Cirella uma vez que aportássemos. O capitão percebera o clima hostil que se criara entre ele e seus homens e temendo piorar a situação a ponto de ser amotinado, ficou recluso em sua cabine com Rastani. Só o bater de asas apressado de Áspero percorria o convés de um lado para o outro. Depois de cerca de dezoito meses no mar, regressamos ao nosso porto de partida. Fatigados, alquebrados e com um futuro incerto pela frente.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Meus dias a bordo do Cirella - Parte VII

Nestes mesmos dois dias, um outro acordo também selaria outra grande perda para nós. Através de mapas encontrados por acaso, o capitão Tino Sadiano achara uma nova rota para uma pequenina ilha vulcânica extremamente fértil. Seus moradores produziam de tudo. Era um verdadeiro celeiro. E uma grande oportunidade para qualquer bom mercador. Ainda que não fosse tão lucrativo, esse novo mercado garantia visibilidade ao Cirella com seus produtos exóticos e raros, desejados pela burguesia emergente. Na segunda noite de nossa estada, enquanto bebia com oficiais de outras embarcações, nosso capitão contou suas proezas com o Cirella, inclusive como driblara, ele mesmo, os recifes de corais, manobrando o navio. Um destes oficiais, no entanto, já havia ouvido sobre essa nossa história e fez um comentário que, ainda que indireto, era pouco elogioso ao nosso capitão. Comentou ainda que os danos que ele havia visto em nosso barco pareciam consideráveis, visto que a embarcação era relativamente pequena e o capitão não tão experiente. Tino Sadiano não se conteve ao ouvir tais palavras e começou a exaltar as qualidades de sua nau, que ela era muito superior a qualquer outra que se interpunha em suas rotas e que desafiaria qualquer um em velocidade e maestria nas manobras. Um dos oficiais na mesa, capitão de outro barco, disse-lhe em tom irônico que se não fossem as avarias no casco de nossa “pequena embarcação” ele aceitaria o desafio. Acuado frente à pilhéria nosso capitão ousou afrontar diretamente o oficial propondo a seguinte aposta. Na manhã seguinte, os dois zarpariam com seus barcos rumo a uma ilhota a um dia de distância. A primeira embarcação que contornasse a ilhota e retornasse ao cais seria a vencedora. O capitão da outra embarcação aceitou a proposta e disse ainda que se perdesse a aposta daria ao capitão Tino um mapa de um canal ao norte que levaria a uma mina de grandes riquezas. Para chegar lá era preciso navegar cuidadosamente por um pequeno rio de águas negras e, para tanto, seria necessário o tal mapa. Em troca, nosso capitão empenhou o mapa de nosso novo mercado. O vencedor levaria tudo. O perdedor deixaria o cais de mãos vazias. Tudo acertado, o capitão retornou ao Cirella atracado e mandou acordar todos os homens. As ordens eram claras: devíamos restaurar e preparar o Cirella para a manhã seguinte para zarpar na contenda.

O casco estava praticamente consertado, mas a quilha ainda precisava de reparos finais. Além disso, teríamos que virar a noite para deixar tudo pronto para a partida. Fernão, que já havia ficado de vigília na noite anterior, apresentava as olheiras de uma noite insone e mesmo ele não foi poupado. Desci à minha cabine e passei a noite sobre os mapas, estudando as correntes para tentar aproveitar ao máximo as chances que nos poderiam ser dadas pelo mar. Lá em cima eu ouvi as vozes dos homens trabalhando sob os gritos do capitão e o grasnar nervoso de Áspero. Rastani Cain enviou Frei Renalier para descobrir qual seria o barco adversário que enfrentaríamos. Quando retornou, o sacerdote parecia um pouco preocupado. O Pope Arug era um grande navio cuja tripulação era, na maioria, de homens do sul liderados por um experiente capitão chamado Arug. As informações que nosso bom frei conseguiu foram que o capitão não tinha tanta experiência quanto nós nestas águas, o que poderia nos dar uma vantagem por conhecer melhor o terreno e as armadilhas da rota. Mas o Pope Arug era visivelmente maior e mais preparado que o Cirella, além de contar com muito mais homens a bordo. A noite se passou ao som das marteladas e do preparo das velas e, na manhã seguinte, estávamos todos cansados — aqueles que ficaram de vigília, como Fernão, exaustos. Mas o Cirella estava pronto.

Com o reflexo do nascente sobre a água, os dois barcos deixaram o cais. Ao sinal as velas foram desfraldas e o vento soprando forte deu início à corrida. As primeiras horas nós fomos seguidos de perto pelo Pope Arug e a dianteira nos deixava confiantes e esperançosos. Mas, uma vez deixando as águas rasas, nosso adversário começou a ganhar velocidade e víamos a nau se aproximando em uma rota praticamente paralela a nossa. As velas latinas da nau impulsionavam a embarcação que ganhava terreno com velocidade. O Capitão ficava cada vez mais nervoso, andando de um lado para o outro, coçando repetidamente as costas da mão e outros locais os quais não me atrevo a relatar para preservar o próprio Sadiano. Menos de uma hora se passou até que o Pope Arug estivesse lado a lado com o Cirella, o casco rasgando as ondas a menos de cem metros de nós. Não demorou para que navegássemos perseguindo o leme de nosso adversário. Ao fim do dia chegamos à ilhota que marcava o ponto de retorno e perdemos de vista nosso concorrente, que já contornava a ilha. Bogus reuniu os homens para traçarmos uma estratégia para reverter nossa situação. Um estratagema igualmente ousado e arriscado. A ilha era cortada por um rio de águas salgadas que a singrava de ponta a ponta. Quando a maré enchia o mar avançava sobre o rio e era possível atravessar a ilha pelo rio. Quando a maré baixa, os bancos de areia se tornam aparentes fechando o canal. Nossa estratégia era entrar rapidamente no canal e, antes que a maré baixasse para fechar nosso caminho, atravessar a ilha saindo à frente do Pope Arug. Aproveitamos que nosso concorrente estava fora de vista para dar início a nossa estratégia.

Com a maré ainda alta não foi difícil adentrar a foz do canal, que era relativamente grande. Uma vez dentro deste rio, lançamos mão dos remos para impulsionar o barco. Era preciso fazer todo o percurso extremamente rápido, do contrário ficaríamos presos na ilha por mais um dia inteiro. Com as árvores que nos cercavam no leito do rio, os ventos perderam força, mas apoiado pela corrente, pelo pouco vento que nos restava e por nossos remos conseguimos imprimir um bom ritmo, o que nos dava esperanças novamente. Neste momento Bogus já não era um Imediato, apenas mais um marujo. Isso acontecia com freqüência e não me cabe aqui julgar se acontecia para melhor ou para pior. O fato é que realmente precisávamos de mais braços para remar, de modo que mesmo o leitor sendo um experimentado capitão, não iria censurar nosso Imediato naquela situação. O estandarte do pavão em azul e cinza ainda tremulava na noite e a única luz provinha de nossos archotes e das estrelas. Passamos a noite toda nestes esforços e a tripulação teve pouco descanso. Mesmo o Frei Renalier ajudou na propulsão do navio e, sob as ordens de nosso capitão, nosso cozinheiro veio gentilmente servir os homens que remavam para que estes não precisassem parar seu trabalho. Nas horas em que o Capitão se retirava para descansar, víamos vez por outro Áspero voando entre os remadores como se verificando a tripulação. Depois ele voltava ao seu poleiro para passados alguns minutos voar novamente pelo convés, com aquelas penas verdes espalhando migalhas de biscoitos sobre nós. Já havíamos vencido metade do rio quando um elevado de rochas se interpôs interrompendo de vez o vento. A velocidade do barco caiu vertiginosamente e a propulsão ficara apenas por conta da corrente e de nossos remos. Já víamos a foz do canal que nos daria passagem para o mar, mas as águas baixavam e, sem o vento, teríamos dificuldades em vencer os bancos de areia. Empregamos todos os homens e todas as forças para ultrapassar os rochedos e retomar os ventos enquanto o céu começava a trocar de cor, do negro para um azul escuro, prenunciando a manhã. Por sobre as árvores, Fernão, que estava no alto do mastro à procura de nosso adversário localizou o que pareciam ser as luzes da embarcação ao longe na noite. Até nosso cozinheiro passou aos remos deixando apenas o capitão, que controlava o navio e Fernão, que vigiava nossos adversários e os bancos de areia de fora.

Com muito esforço passamos os rochedos e os leves ventos começaram a encher nossas velas novamente. Apagamos nossas próprias lanternas para surpreender o Pope Arug na saída do rio e à medida que os ventos inflavam as velas, ganhávamos velocidade. A maré, porém, baixava rapidamente e o risco de ficarmos presos na ilha crescia a cada minuto. Na foz daquele rio saímos na escuridão quase lado a lado com nossos antagonistas. Eles navegavam rente à costa e estávamos perigosamente próximos deles a ponto de poder ver a cara de espanto de Arug ao ver o Cirella empinando por sobre os bancos de areia e se chacoalhando sobre as ondas que se encontravam com o rio sob seu casco. No momento em que cruzamos os bancos de areia, o vento matutino que soprava na costa golpeou as velas com tal violência que não pudemos controlar nossa embarcação que se lançava sobre nosso oponente. Manobrando o melhor que pudemos, conseguimos apenas evitar uma colisão frontal. O Cirella abalroou o casco de nosso adversário e o impacto acabou por danificar as duas embarcações. O Pope Arug, apesar do seu porte, sofreu mais com o acidente devido as carrancas gigantescas que ornamentavam o Cirella. Uma delas, em forma de uma águia grotescamente esculpida, rachou da amurada de nossa nau e cravou-se no casco de nossos adversários, causando grande estrago. Muito menos avariado que o que o barco do Capitão Arug, o Cirella foi ganhando terreno em meio as imprecações que ecoavam do Pope Arug e das comemorações do nosso convés. Só depois de alguns minutos e da euforia inicial é que nos demos por falta de Fernão, que no momento do impacto devia estar no alto do mastro. Avisamos Bogus assim que percebemos o que ocorrera e lhe dissemos que avisasse o capitão para que retornássemos e resgatássemos nosso companheiro que, imaginávamos, teria sido lançado de nosso mastro ou ao mar ou ao barco de nossos concorrentes. No entanto o capitão temia que o Cirella não agüentasse muito tempo com suas avarias e que devia levar nosso barco o quanto antes ao cais. Disse que Fernão estaria bem, uma vez que certamente os homens de Arug não deixariam um marinheiro no mar e que ele seria bem tratado até a volta, que faríamos no dia seguinte para resgatar nosso companheiro e nossos adversários.

Bogus ficou irremediavelmente irritado, dizia que era claro que a pressa de nosso capitão era em busca do prêmio e de derrotar seu adversário. Porém, ainda assim, ele não poderia ignorar as ordens do capitão sem ser acusado de começar um motim. Frei Renalier o acalmou o melhor que pôde e todos os homens se determinaram a levar o Cirella até o cais e imediatamente, com outro barco se necessário, partir para o resgate de Fernão. Com as avarias nosso retorno foi bem mais lento e durante todo o trajeto nenhum de nós dirigimos a palavra a Sadiano. Na maioria, evitávamos estar no aposento que ele. O clima era pesado e, se a palavra motim já havia passado pela cabeça de alguns, talvez já tivesse sido sussurrada por outros. Pouco antes de nossa chegada, uma tempestade se abateu sobre nós. Já víamos a costa e seguimos até ela com o Cirella fazendo água e rangendo em cada uma de suas tábuas. O mastro principal estava danificado e algumas das amarras das velas haviam se rompido. Com a amurada quebrada, várias partes do convés eram perigosas e manobrar o barco se tornou uma tarefa hercúlea. Chegando ao cais, em vez de atracarmos nos chocamos contra ele. Um dos pilares de sustentação cedeu danificando o cais e nosso casco. Com a ajuda de marinheiros e estivadores de outros barcos conseguimos nos pôr a salvos e fomos levados a algum lugar onde pudéssemos nos recompor. Aquela noite não havia mais nada a fazer por Fernão ou pelos tripulantes do Pope Arug. Apenas o capitão Tino Sadiano mantinha um brilho vivo no olhar, enquanto os outros estavam amuados. Nós chegáramos ao cais antes de nossos adversários.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Meus dias a bordo do Cirella - Parte VI

Um grito esganiçado acordou os homens aos sustos na manhã de nossa partida. Primeiro pensei que fosse o grito irritante de Rastani dando algum toque de alvorada desafinado, mas logo percebi que se tratava do grasnar de alguma ave. No momento atribuí ao sono, mas podia jurar que a tal ave gritava “oportunidades, grah, oportunidades”. Só quando me fiz ao convés com os homens é que fomos descobrir o motivo da algazarra. O grasnar era do novo animal de estimação que o Capitão havia conseguido naquela ilha (parece que trocara o bicho por meio garrafão de azeite). Era um papagaio magricela de penas verdes eriçadas, que corria de um lado para o outro em um poleiro instalado no convés. Pelas penas eriçadas que lhe davam um aspecto “espinhado”, e pelas migalhas de biscoitos que viviam em sua penugem, o pequeno grasnador foi apelidado pela tripulação de Áspero. Por vezes o papagaio parecia desaparecer da vista de todos, passando quase despercebido. E quando você se virava lá estava ele, com o pescoço magro esticado e os olhos curiosos vendo o que você estava fazendo. Chegou a correr um boato, mais tarde entre os marujos, que o capitão treinara a ave para vigiar a tripulação e lhe contar o que via. De minha parte não sei se creio em boatos, mas no mar não se descarta nenhuma história, pois algum dia ela pode voltar com a maré. Mas por fim, Áspero acabou de certo modo divertindo a tripulação. Quando alguém se aproximava da ave ela ficava visivelmente estressada. Começava a andar nervosamente de um lado para o outro em seu poleiro e, quando falavam diretamente a ele, o papagaio começava a dar pequenos grasnados. Os marinheiros divertiam-se falando rispidamente à ave, que parecia entrar em pânico e gritar palavras desconexas andando de um lado para o outro com as penas eriçadas e tremendo. Apesar da crueldade, realmente era uma cena deveras engraçada. Até hoje a ave vive em seu poleiro no convés e acompanha a nós, os condenados do Cirella, em nossa bem menos engraçada situação.

Há cerca de vinte minutos fui informado que entre nossas avarias perdemos a âncora e o leme está extremamente danificado. Alguns dos homens estão checando a situação e estamos torcendo para que haja alguma maneira de consertá-lo com o equipamento que temos a bordo. Por hora estamos totalmente à deriva, com o casco fragilmente remendado a bombordo e perdemos parte de nossa carga. O clima está esfriando e me pergunto se já não estamos sendo levados muito ao sul pelas correntes. Parte de meus equipamentos também se avariaram e o céu continua encoberto nesta águas desconhecidas. Com os mapas e os instrumentos que me restam posso apenas fazer suposições muito mal aproximadas de nossa localização. Ainda assim deixarei as anotações anexas a este diário para o caso que alguém o localizar e realizar uma busca por sobreviventes. O Cirella apenas bóia com seu casco inclinado, mas creio que temos mantimentos suficientes para nos mantermos ainda por um bom tempo nesta situação. A tripulação tenta se manter unida e firme, mas já é possível ver que alguns de nós começamos a fraquejar e dar sinais de perder as esperanças. Se o Cirella algum dia voltar a navegar suavemente pelas ondas ou a aportar em algum cais, creio que dificilmente todos ainda estejamos a bordo. Alguns já se foram. Vários deixaram a embarcação pelos portos por que passamos, outros não suportaram as agruras de nossas desventuras e outros poucos o mar recebeu. Não sei ao certo o que nos levou ao nosso atual e calamitoso estado. Creio que seria infiel à verdade se citasse apenas um motivo como responsável. Várias situações foram se somando até nos trazerem aqui. Já faz algumas horas que não tenho notícias de nosso capitão. A sua ausência vem como um alívio ao resto da tripulação, e ajuda a cada um de nós a recuperarmos um pouco de nossas forças e nos colocarmos novamente em condições de buscarmos uma solução para nossa delicada situação.

Voltando ao meu relato, não sei ao certo quando as coisas mudaram tão violentamente de rumo. Acho que aos poucos tudo foi mudando, as excentricidades de nosso capitão se acentuando, mas, como os fatos se desenvolviam lentamente, acho que nenhum de nós percebemos até que fosse tarde demais. Os primeiros sinais, creio eu, surgiram já ao final de 1666. Até então as manias do Capitão Tino haviam se limitado a colocar os homens para esculpir suas famosas carrancas cada vez maiores, adornando o barco com mais destas estátuas de madeira. Não havíamos perdido nenhum homem em combate ou por doenças e desde que eu ocupava meu posto a tripulação só crescera. Mas naquele final de ano tivemos nossas primeiras baixas como equipe. As ordens do Capitão começaram a destoar naquela época. Ele transmitia suas ordens ao seu Imediato, que as levava à equipe e, quando esta estava em plena atividade, o Capitão surgia dando novas ordens. Era evidente o descontentamento de Bogus nessas horas, mas ele acatava as novas ordens e a equipe era obrigada a redobrar seus esforços para cumprir a tarefa. Igualmente por mais de uma vez navegamos por rotas menos seguras ou desnecessariamente longas por motivo do capitão mudar meus traçados de navegação. Não que eu fosse avesso à intromissão de outros, com freqüência discutia as melhores rotas debruçado sobre os mapas com Bogus e o capitão, mas quando essas mudanças surgiam repetidamente era bastante complicado manter os registros do Cirella corretos e nosso barco no rumo adequado. Além do que o Capitão já me quebrara um compasso e um sextante tentando traçar rotas. A nossa primeira baixa foi justamente no final daquele ano. Saíamos de um canal desviando dos bancos de areia. Ainda era cedo, pouco depois da aurora. Mais adiante avistamos uma cadeia de corais perigosamente em nosso caminho. Minha sugestão era navegarmos a bolina contornando os corais para evitar manobrar entre eles, uma vez que eu temia que o calado do Cirella fosse demasiado profundo para uma passagem direta. O Capitão, no entanto, queria ganhar tempo e aproveitar os ventos para cruzar por entre os corais. E a sua vontade prevaleceu. Sob o comando de Bogus aproamos em direção dos corais e toda a tripulação se preparou para a empresa. Ouvíamos os gritos desesperados de Áspero que parecia prever o pior. Frei Renalier preparou seus aparelhos e praguejou baixinho contra Tino Sadiano, depois se benzendo para se redimir. À medida que nos aproximávamos dos corais a dificuldade de manter o rumo do Cirella aumentava. Os caminhos eram estreitos e o casco rangia ao toque sob a água. Era um jogo de azar. E as apostas não estavam favoráveis. Um bingo dourado sob o sol daquela manhã. Um bingo que iríamos perder. Era uma questão de tempo e não demorou a acontecer. A quilha do Cirella chocou-se aos corais danificando o casco e atirando ao mar um dos marinheiros. Felizmente o mar calmo facilitou o resgate de nosso companheiro e os danos não foram excessivamente grandes. Mesmo assim tivemos que parar no próximo porto para reparos adequados. O marinheiro foi avaliado pelo nosso bom frei e, fora algumas escoriações, não sofreu maiores ferimentos. O Capitão ainda teve a infelicidade de apelidar nosso companheiro de “Caimar”, pelo incidente. Nosso companheiro não achou a mesma graça no apelido que nosso capitão lhe dera e, acusando-o de descaso, deixou o Cirella naquele mesmo porto. No mesmo par de dias que ficamos a reparar nosso navio, Caimar, como apelidou o capitão, acertou seus serviços em uma nau muito maior que estava ancorada ali. Um grupo de boticários e alquimistas que comercializam uma fórmula acinzentada que produziam em uma aprazível ilha no atlântico. Depois daquele episódio nosso companheiro jamais tornara a embarcar no Cirella.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Meus dias a bordo do Cirella - Parte V

Com ventos tão favoráveis e com todos os meus instrumentos à mão, não me foi difícil manter o Cirella na rota, mesmo em águas desconhecidas. As noites estreladas facilitavam o uso do sextante e constância dos ventos foi tanta que não nos foi preciso nem mesmo navegar à bolina uma única vez. Nesse ritmo chegamos facilmente ao nosso primeiro destino, no qual seria decidido meu futuro em relação ao Cirella. Contornamos a ilha até uma enseada de águas calmas onde lançamos âncora. Dada às ordens para preparar o desembarque para o dia seguinte, pois atingimos a enseada já após o pôr-do-sol, fui chamado à presença do Capitão. Fui até a ponte onde o encontrei junto ao leme olhando para os luzeiros na costa. O capitão Tino me cumprimentou pelo trabalho realizado até então, mas me alertou que maiores desafios ainda estavam por ser enfrentados. Disse-me que falaria com Bogus a meu respeito e a respeito de meu trabalho nesta primeira viagem com a tripulação e que, junto com o Imediato, decidiria pela minha permanência ou não abordo do Cirella. Conversamos ainda alguns minutos e me despedi de meu capitão indo ajudar os demais a preparar o desembarque. A viagem havia sido tranqüila e acho que por isso eu acreditava que não teria motivos para que eu não continuasse junto aos meus novos companheiros. Ainda assim, confesso que a expectativa da decisão já sondava minha mente há alguns dias e adormeci esperando que a nova manhã trouxesse boas novidades.

Na manhã seguinte descemos os botes e fomos à terra depois de quase um mês no mar. O arquipélago era formado por três ilhas principais e mais algumas muito menores. A principal cidade era localizada às margens da enseada, uma vez que o arquipélago vivia quase que exclusivamente do comércio com barcos mercantes. Os grãos que compraríamos eram em parte trazidos por outros navios e em parte cultivados em uma das outras duas ilhas maiores. Da terceira ilha partiam os pescadores e baleeiros, dos quais esperávamos comprar boas quantidades de óleo a um preço justo. O primeiro dia em terra foi gasto com contatos nos mercados a procura de boas oportunidades de negócios. “Oportunidades, homens! Oportunidades!” bradava o capitão com olhos ávidos aos mercadores. Enquanto o capitão se concentrava na busca de oportunidades na cidade, um pequeno destacamento foi à outra ilha para negociar os barris de óleo. Frei Renalier foi em busca de um boticário conhecido seu para renovar seus estoques de alabastro, ainda que aquele arquipélago não pudesse muito oferecer neste quesito. Eu ajudei os marinheiros arranjando para que tudo estivesse preparado para as negociações e o carregamento e, depois, junto com o Imediato Bogus Napolle, fomos à estalagem mais próxima para conferir que distrações a cidade oferecia aos que nela aportavam. Rastani ficara a bordo contando e recontando as estimativas dos lucros.

Na própria estalagem nos reunimos para beber. Era a primeira vez que me reunia com os homens apenas para beber e matar tempo. Acho que foi ali que percebi que me daria bem com aquela tripulação. Já me sentia à vontade, talvez por causa dos copos de vinho que teimam em chegar, e me divertia com eles. Foi-me grata a surpresa de ver Bogus entre os homens. Ali ele era apenas Bogus. E não o Imediato Bogus Napolle, segundo em comando no Navio Mercante Cirella. Era um de nós. Claro, o gosto pelo mar lhe corria nas veias e, embalado pelas ondas do vinho e lembranças do mar, nos contava histórias de quando cruzara os mares até chegar ao porto do Cirella. O jeito ranzinza e a voz abafada se confundiam com um contador de histórias que era na verdade um homem do mar. Se sentia à vontade entre os marujos. Daí a receptividade com que eles seguiam seu comando. Provavelmente acima mesmo de nosso capitão. Ficamos algumas horas sendo regados pelo vinho e por histórias. O vinho, apesar de correr farto em nossa mesa, não parecia suficiente para aplacar a sede de todos. Especialmente de Fernão. Um sujeito típico das ondas. Provavelmente nativo de alguma costa meridional, ele tinha os traços de anos no mar, mesmo sendo um dos mais jovens dentre nós. A barba espessa encobria uma pequena cicatriz no queixo e meia dúzia de brincos reluziam na orelha esquerda, fazendo companhia a um dente de ouro que espiava para fora da boca quando ele sorria. E Fernão sempre sorria. Diziam os companheiros que certa vez enfrentaram uma tormenta que ameaçava virar o Cirella. Quando foram amainar, a vela principal não se recolheu, presa no alto do mastro. Com uma faca entre os dentes Fernão galgou o mastro sob chuva e ventos, em meio às ondas, e conseguiu cortar as amarradas para fazer descer a vela. Depois sentou-se lá no alto, com um dos braços agarrado ao mastro e o outro acenando com a faca para a tempestade. Gritava e cantava alguma das músicas barulhentas de seu povo, enquanto os marinheiros recolhiam a vela e lhe chamavam para a segurança do convés. Mas só após terminar a canção o jovem marujo, segurando a faca entre os dentes novamente, se fez mastro abaixo. Nos últimos metros, a embarcação foi sacudida por uma onda e ele golpeado no rosto pelo próprio mastro. Ganhara o dente de ouro para suplantar o que havia perdido neste golpe.

Já embriagado me despedi de meus companheiros e fui me recolher em um dos quartos da estalagem já preparados para nós, enquanto Fernão começava a subir numa das mesas para dançar.

No outro dia lembro de ter sido acordado por uma dor de cabeça logo de manhã. Juntei-me aos homens e fomos ao mercado onde as negociações estavam sendo feitas. O capitão Tino, assessorado por Rastani, checava as mercadorias de um dos comerciantes locais. Gesticulava exageradamente e imprimia um ar excessivamente solene ao seu discurso. Às vezes parecia mesmo que se esquecia do seu interlocutor. O mercador intervia em intervalos de alguns minutos entre uma fala e outra, mas passava a maior parte do tempo apenas ouvindo nosso capitão. Apesar de a distância me proibir de ouvir o que era dito, era clara a desenvoltura de nosso líder. Alguém que tanto tempo discorre sobre cinco sacas de cevada deve realmente conhecer seu ofício.

No período da tarde, após negociarmos várias outras mercadorias, retornaram os homens com o óleo da outra ilha. Barris e mais barris eram carregadas em uma pequena carroça puxada por um burro. O carregamento foi levado aos botes e depois enviado ao Cirella. Ficamos naquelas ilhas por quatro dias e nem o capitão Tino, nem Bogus haviam me chamado para dar uma resposta a cerca de meu destino. Começava a me preocupar, afinal precisava de uma resposta para providenciar um barco para retornar ao continente, caso fosse decidido que eu não seguiria com o Cirella. Achei por bem apenas aguardar uma resposta, afinal, neste um mês não pude me inteirar de todos os procedimentos do barco e a demora podia ser perfeitamente normal. Ao final do quarto dia ajudei no carregamento das últimas cargas e passei aos meus estudos com meus mapas e instrumentos, avaliando a melhor rota para que o Cirella seguisse para seus destinos, independente da minha presença ou não. Mais a noite o Capitão juntou os homens e disse que partiríamos com os primeiros raios da aurora. Ainda, nada a meu respeito. Dormimos todos abordo para garantir que não haveria nenhum imprevisto. Pelo visto eu ficaria mesmo com meus novos companheiros. Pelo visto eu fazia parte da tripulação do Cirella.