quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Anjos de Barro


Anjos de Barro

As três figuras pálidas e esguias pareciam desconsoladas. Não que fosse possível ver-lhes as feições escondidas pelas máscaras de gás escuras. Sequer os olhos podiam ser vistos pelos vidros baços das escotilhas por onde supostamente deveriam enxergar. Sobre as bocas e narizes, as protuberâncias arredondadas das máscaras davam-lhes um aspecto entomológico — ao menos é o que havia dito a crítica na matéria do jornal local. Mas se as feições permaneciam ocultas, os corpos nus de pele levemente amarelada, como que desbotados, mostravam-se expressivamente lânguidos. Os membros longos pareciam carecer de força. Os traços delgados, tão frágeis quanto as figuras, numa mimese propositalmente débil das poses sacras do classicismo. Os sexos diminutos e impúberes como sem importância ou utilidade. Eram três as figuras. As duas masculinas à direita, de pé, de uma androgenia apenas quebrada pela exposição dos sexos. A da esquerda, quase ajoelhada, com a feminilidade apenas revelada pelo semidespertar das mamas ainda verdes, apontadas para fora do quadro. Eram altas, as figuras. Tinham nas extremidades do corpo um tom acinzentado de fuligem, sutil mas perceptível. Pregadas às costas curvadas, as asas finas suspendiam penas embaralhadas, sujas de um matiz amarelo-acinzentado, muitas caindo. A figura ajoelhada segurava algumas das penas na mão, como se as tivesse recolhido do chão, dando-lhes uma sepultura mais digna entre os dedos delicados. No solo alguns detritos e fuligem combinavam com o fundo cinzento de formas um tanto indefinidas. Fuligem, detritos e gases. A obra estava cercada por um passepartout branco e largo somado a uma moldura da mesma brancura minimalista, enquanto o vidro antireflexo lhe protegida das luzes altas da galeria. Abaixo dela, na parede branca, um papel cartão de dez centímetros de comprimento trazia em letras negras: “Anjos de Fukushima — Ariel Ângelo (2011)”

No recorte de jornal de mais de um ano atrás, nem todos esses detalhes podiam ser vistos com clareza. Mas estavam-lhe pintados na memória como se fossem uma têmpera milenar. Podia lembrar-se, inclusive, de várias das pinceladas. As mais significativas, as mais difíceis, as mais surpreendentes. Agora estava distante da galeria. Das matérias todas lhe restara apenas esse recorte fisgado no quadro de cortiça pendurado na parede.

Olhou distante o cavalete coberto pelo lençol claro e velho. Agora ele se encontrava mais ao centro da sala. No dia anterior havia sido retirado do canto onde estava para um lugar onde fosse visto por ele com mais frequência. Era mais uma tentativa. Quem sabe amanhã.

Acordou no dia seguinte mais disposto. O sol da manhã banhava a casinha de madeira no meio do mato, filtrado por árvores altas que desprendiam no vento folhas secas e um aroma fresco. O assoalho de madeira rangia baixinho, como se quisesse acordar alguém bem aos poucos, sem sustos. A chaleira despertou com um chiado e o café dentro do coador de pano foi banhado, retribuindo o cheiro das árvores com um perfume animador. O som dos pássaros entrou voando pela janela aberta, pintando rodamoinhos na fumaça branca do café.

Ângelo mirava por sobre a borda da caneca o lençol sob o qual o cavalete ainda dormia preguiçoso. Saiu da pequena cozinha deixando o forno à lenha crepitando umas poucas varetas. Caminhou pela sala, passou pelo cavalete como quem não quer nada e, com um gesto rápido, sacou-lhe o lençol descobrindo a tela vazia. Sem sequer olhá-la de relance, continuou seu caminho, caneca em punho, porta a fora.

O orvalho estava praticamente seco. A rodovia secundária que passava em frente à casa se perdia silenciosa na paisagem que revelava lagos ao longe, algumas plantações, uma floresta mais afastada e uma ou outra casinha aqui e ali. Junto à cerca, as flores se refestelavam ao sol macio da manhã. Estavam tão bem nutridas quanto ele. Bem podadas, regadas, adubadas. Era dia, inclusive, da aplicação do adubo. Ficou satisfeito com a lembrança. Seu Telúrio era um bom sujeito. Prepararia o mate que ele tanto gostava, trocariam uns causos e umas baforadas no fim da tarde. Seria um bom e calmo dia.

Uns quarenta minutos depois retornou à casa. Cruzou a porta e passou novamente pela tela. Desta vez parou. Por muito tempo não estivera ali. Virou-se devagar e encarou a tela branca. Procurou alguma coisa no fundo da xícara suja de resto de café. Devagar, como que para não afungentar um pássaro que canta num galho próximo mas que mal se enxerga, pegou o primeiro pincel ao alcance. Com o mesmo cuidado foi mergulhando-o na xícara, evitando tocar-lhe as beiradas. Deixou as cerdas descansarem no resto do líquido. Tirou o pincel com a atenção de um cirurgião e levou-o em direção à tela. Uma gota se agarrando às cerdas feito um ovo negro pronto a eclodir.

Triiiiiiiiiiimm!

O telefone tocou estridente. Um susto, o tremer da mão, a gota de café se espatifando no chão de madeira. A raiva. O pássaro voara. A frustração. Triiiiiiiiiiimm! Um suspiro longo antes de pousar o pincel inerte na base do cavalete. Triiiiiiiiiiimm! Correu até a pia e largou a xícara suja. Triiiiiiiiiiimm! Com passos pesados retornou à sala para calar o aparelho. Triiii — "Quem é?"

Era o agente. Queria saber como iam as coisas. Sim, sim, iam bem. Como estava o clima? Estava bom, agradável. Não-sei-quem estava com uma exposição em algum lugar, talvez quisesse dar uma olhada. Sim, sim, parecia interessante. Que bom.

Era evidente que ele estava circundando. Queria evitar uma pergunta direta, mas não sabia como. Não seria Ângelo que lhe daria a deixa. Logo o silêncio inevitável se instalou. Sem outra saída, o agente fez a pergunta, da forma mais vaga e menos agressiva que podia: "E você, conseguindo alguma coisa?"

— Alguma coisa. Bem no começo ainda, mas acho que já é alguma coisa.

Mentiu. Talvez o agente até soubesse mas isso não importava.

— Que bom. O refúgio aí no meio do mato está dando resultado, pelo visto.

A ideia havia sido dele. Coisa de agente.

— Pelo visto.

Não era uma má ideia, o lugar era até agradável. E foi bom estar sozinho, pelo menos.

— Bom, fico feliz. Vou deixar você trabalhar. Se tiver novidades ou precisar de alguma coisa, é só ligar.

Ficaram assim combinados. A tela branca no cavalete ouvira toda a conversa. Ele a olhou enquanto colocava o telefone no gancho. Aproximou-se, encarou-lhe a brancura. Mirou o pincel adormecido e saiu novamente deixando a porta da frente bater. No chão, a gota preta foi se infiltrando na madeira, se agarrando às ranhuras e se instalou entre os veios.

Horas mais tarde estava novamente frente à tela. Na mesa de apoio que puxou para perto do cavalete, a paleta permanecia inerte, mas já abrigava dois pequenos montes de tinta, ainda intocados. Os tubos recém abertos deitados ao lado. Com o pincel brincou com as cores na própria paleta. Apenas revolvendo a tinta como se averiguando a textura. Não tinha pressa. O som de um motor velho se fez ouvir à distância. De vez em quando uns estouros, e lá vinha ele, solavancando pela estrada como se acometido por um acesso de tosse. Ângelo sorriu para si. Tomou a paleta nas mãos mas continuou brincando com a tinta, olhando a tela e ouvindo o som se aproximar.

Dois estouros altos indicaram que a tobata velha dobrara a esquina da entrada do terreno e passara a porteira deixada aberta. O barulho estava bem perto, quase na porta da frente. Esperou até ouvir o último estouro e o motor silenciar. Pousou a paleta e o pincel novamente na mesa de apoio, foi ao fogão para atirar mais um pedaço de lenha ao fogo e saiu pela porta se sentindo mais leve.

"'Taaaaarde!" O cumprimento veio arrastado logo depois de uma cusparada no chão, e seguido de um sorriso de dentes amarelados e um acenar do chapéu de palha de abas largas. Ângelo se recostou no batente da porta e acenou de volta com um sorriso enquanto o velho apeava da tobata que trazia, à reboque, as sacas de adubo.

Era quase fim da tarde mas o sol permanecia forte. A pele tisnada e sulcada do velho brilhava com um suor que não escorria.

— Boa tarde, Seu Telúrio.

— Tá bão, Seu Ariel?

— Tudo bem. E com o senhor?

— Com a graça de deus. Trouxe as titica pras suas flor.

— E fica pra um mate?

— Se o senhor não deixar a água ferver dessa vez, eu fico.

Chaleira no fogo, Ângelo arrumava a erva com os dedos dentro da cuia de madeira enquanto o velho Telúrio enrolava outro tanto dentro de um cartucho de palha de milho, fitando meio curioso a tela ainda branca na sala. Com a chegada do anfitrião — cuia numa mão, garrafa térmica na outra — o velho disparou, depois de certificar a firmeza do cigarro recém-montado:

— Inda não conseguiu começar, né?

— Ainda não. É mais difícil do que parece.

— Deve de ser. O senhor tá há um tempão aqui e continua tudo numa brancura só.

A conversa continuou na varanda do lado de fora da casa. A água fazendo a cuia soltar baforadas brancas daqui, o fogo fazendo o palheiro soltar baforadas brancas de lá.

— O senhor tem razão, Seu Telúrio. Estou há um tempão aqui, né?

— Logo, logo volta o verão e isso aqui vai ficar quente de secar bosta outra vez. O senhor lembra como tava o clima quando chegou aqui?

— É verdade. Era inverno, um frio danado. O capim amanhecia todo branco.

— Agora tá verde — o velho soprou uma nuvem branca como para comparar as cores.

Ângelo suspirou um riso, tornou a encher a cuia e passou para o velho Telúrio.

— Ainda bem que a cabana já era climatizada. Tenho que lembrar de agradecer ao Hermes.

— Ele que mandou o senhor pra cá?

— É. Ele que deu a ideia. Disse que ia ser bom para espairecer. Só não disse que era tão frio no inverno. Não sei como o senhor aguenta.

— Ora, como todo mundo! — respondeu o vendedor de titica, passando o palheiro fumegante.

— Mas o senhor não sente frio, não?

— Sinto, sim, senhor. No inverno eu sinto frio. Quando tá quente eu sinto calor. Quando tem brisa, eu sinto o vento.

— Eu não... — e ficou um tempo olhando a fumaça que lhe saía dos lábios num cone nevoento — Frio ou quente, eu não sinto a menor diferença ali dentro. É como se estivesse sempre tudo igual.

— Quando a gente tá num lugar assim, só sente alguma coisa mesmo quando sai de casa.

— Pode ser, Seu Telúrio, pode ser.

— Inté porque, se o senhor tá procurando alguma coisa nova, de que adianta procurar no mesmo lugar de sempre?

— Mas eu não estou aqui desde o inverno? Não vim para um lugar diferente? Até agora não me pintou uma só ideia nova que preste, só merda!

— E o que tem de mais nisso? — Cuspiu no chão e devolveu a cuia.

Ângelo atirou o toco final do palheiro acabado no capim e tornou a encher o recipiente. O velho continuou:

— Se é só isso que o senhor tem até agora, tem que fazer brotar alguma coisa disso. Eu também já tava numa situação que só tinha me sobrado duas galinha poedeira e um quintal cheio de titica. Pois não tô eu aqui vendendo titica pro senhor e pra mais uma porção de gente? Os seus canteiro não tão mais bonito por causa dessa titica toda?

— O canteiro até está mais bonito com a titica, Seu Telúrio. Mas se a gente mexer com ela, vai feder.

— Mas se não mexer, vai secar. E daí não adianta nada. Só se mexer é que vai nascer alguma coisa. No final das conta, se não feder, não floresce nada.

Terminaram a conversa falando da aplicação do adubo nos canteiros, dos cuidados de poda e do controle de pragas. Seu Telúrio ficara de trazer algumas de suas galinhas temporariamente para que se alimentassem das pragas e de quebra já produzissem titica para que o canteiro florescesse. Assim, dividindo conversas de esterco, pétalas e beleza, assistiram a tela branca das nuvens ganhar as pinceladas rosadas do poente.

A garrafa térmica ficou leve, o sol ficou baixo e a tobata tornou a soar já no início da noite. O som do motor foi sumindo estrada abaixo, deixando no ar apenas o cheiro do adubo nos canteiros.

Meses depois, longe dali, não fazia nem frio nem calor. A brisa constante do ar condicionado mantinha o ambiente de paredes brancas a constantes vinte e dois graus. A tobata não mais se ouvia. No seu lugar um burburinho de gente falando. No lugar do mate dividido na bomba, taças de cristal e um espumante indicado por Hermes. No lugar dos canteiros floridos, eram admiradas telas nas paredes por pessoas com expressões compenetradas. No dia seguinte os jornais enalteceriam a nova exposição de Ariel Ângelo, destacando o contraste com seu último trabalho. Em "Anjos de Barro" o autor se distanciava do seu universo pós-apocalíptico e retornava a origens mais orgânicas. Os tons terrosos suplantando o cinza-amarelado de seus trabalhos anteriores. Os anjos buscavam um retorno à essência, diriam. No canto da sala, o pintor apreciava a paisagem. Rostos sorridentes, enfadados, admiradores, amigos, alguns empolgados outros mantendo uma presença protocolar. Notou com curiosidade a filha de um casal amigo, que olhava um dos anjos com perplexidade. Se afastava e se aproximava do quadro com um olhar curioso. Olhou a obra de frente, mirou de lado. Foi se aproximando da tela. O rosto levemente inclinado para cima, bem próximo das pinceladas. Ângelo riu quando a viu contorcer de repente o nariz e afastar-se rápido, com uma careta, olhando o anjo de tons terrosos perplexa. Imaginou se os jornais relatariam também, no dia seguinte, o aroma peculiar dos Anjos de Barro.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ilustra #1 - Passo a passo

Como prometido, aí vai o passo a passo da ilustra abaixo. Quem tiver umas dicas para melhor o processo, sou todo ouvidos. Como sempre, se clicar na imagem amplia. Daí, se clicar com o botão direito e em exibir imagem, dá pra ampliar ainda mais. No post de baixo tb.

Passo a passo


1. Um rough mais solto do traço, determinando as proporções e uma ideia geral da ilustra. Aqui eu dei uma roubada no jogo. Tenho ainda um problema com as proporções e, apesar de ter feito com uma foto referência pra posição, tiver que fazer umas correções colocando o traçado sobre a foto (é, eu sei). Mas em breve quero ver se rola sem precisar desse "redesenhar" sobre a imagem, mas fazer só no olho.
2. Blocando a "cor" (ainda que em PB), pra começar a dar volume.
3. Blocos de cor determinados, começo a dar as primeiras marcações de luz e sombra, desenvolvendo os volumes básicos (value, dizem os gringos). Já comecei as marcações das feições e a desenvolver um pouco mais o nariz.
4.  Boca.
5. Região dos olhos.
6. Acertando o rosto e o começando o pescoço. Aqui dá pra ver que eu tentei dar uma variada no traço, assumindo mais uma pincelada um pouco marcada. Mais adiante abandono a linguagem mantendo um mesmo estilo de acabamento em toda a ilustra. Até gosto do traçado, mas misturar ele com o acabamento mais suave ficou estranho demais.
7.  Definindo os valores do restante do corpo, trazendo o braço mais ao primeiro plano e detalhando os seios (u-lalá!)
8. Trabalhando os detalhes do cabelo. Aqui usei um pincel texturizado pra evitar ficar fazendo fio por fio. Com esse pincel criei os detalhes principais e o sentido em corriam as mechas. Depois, com um pincel mais simples me ative aos detalhes finos e fios mais soltos. Alternando os valores foram criadas as sombras mais profundas e as luzes.
9. A cor propriamente dita (com um fundo abstrato só pra dar um clima). Como os valores já estava definidos, a base da cor não foi muito complicada (variando o pincel em opacidade, e modos como color, overlay etc).
10. Refinamento da cor com uma camada extra de sombra (em multiply, se não me engano. ou algo parecido) e uma de brilho (em screen ou algo parecido).

Fui trabalho um pouco em partes usando quick masks pra isolar áreas pra agilizar o preenchimentoe proteção de áreas que eu não queria atingir. Mas pelo visto isso acabou atrapalhando um pouco o meu acabamento das "arestas" que não ficaram tão suaves como eu pretendia (dá pra ver no contorno do rosto, que ficou um meio impreciso, por exemplo).

E é isso. Agora é praticar pra melhorar. Se vc tiver alguma dica, mandaê!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ilustra #1


Primeira tentativa de ilustração com a Wacom no Photoshop. Demorou muito mais do que o esperado, mas saiu.  Assim que der eu posto um passo-a-passo com os estágios, do rough ao final. Não só pra mostrar como foi feita, mas pra expor o processo na esperança que alguém aí possa dar umas dicas tanto qto ao processo como qto ao resultado.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mug Art novo

Mais um par de canecas ilustradas! Dessa vez sem queimaduras no forno :) Essas foram para a Andressa e o Jean.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Mug Art


Caneca encomendada pela Michelle. Ao fundo minhas criaturinhas em isopor. Qualquer hora posto elas por aqui também. A Lílli e o Fábio também ganharam há uns tempos.

sábado, 19 de novembro de 2011

Poema Têxtil

Esse me caiu agorinha, do chuveiro, na cabeça. Provavelmente influenciado por essa leitura.


Poema Têxtil



há que se ver o rio
passar
vão entre os vãos

há que se dar as costas
(curvadas)
aos teares

deixa, em suspensão, a agulha!
mantém, inerte, a linha!
deixa a trama por tramar

que o algodão
inda não colhido
precisa balançar ao vento
uma última vez

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Baffo de cerveja, cachaça e Leminski

 
 
 
Baffo de cerveja, cachaça e Leminski
Delitos e deleites da poesia marginal de Giovani Baffo

Rodrigo Oliveira

Foi na Lapa, Rio de Janeiro, dividindo garrafas de cerveja e cachaças de gengibre que conheci Giovani Baffo. O poeta de rua paulistano é autor de Delitos e Deleites, publicado pela Edições Maloqueiristas. Um livro de trago rápido, para virar de uma só vez. Sirvo aqui uma dose curta, como aperitivo para o leitor.

Delitos e Deleites não é extenso. Nas suas menos de cinquenta páginas de breves poemas, é como um encontro fortuito numa calçada, do qual você se lembra com frequência e logo após o qual é impossível evitar um olhar por sobre o ombro, só para se certificar de que, de fato, aconteceu. Desses encontros, justamente, parecem ser feitos os poemas de Baffo. Duram só o tempo necessário para o poema capturar a poesia. Só o tempo necessário para registrar, feito Polaroid literária, um momento. Uma cena na rua, um drible no campo, um minuto no relógio da Central ou o passar de um camburão.

Baffo têm hálito de Leminski. No esforço da síntese, na quebra das aliterações, nas rimas e trocadilhos. Nos temas tratados leves mas carregados de ironia. Com a sabedoria de rua e a malandragem de poeta, o autor destila uma mistura de crítica social e humor sobre uma observação contundente do cotidiano.

Ousa olhar um outro que por muito passa ignorado, como no poema de abertura "Aos ex-presidiários":

"Mirem-se no exemplo da Lua
que permanece alta e brilhante
mesmo depois de os militares
lhe pisarem a face".

A ode aos ex-detentos revela, em seu lado escuro, a crítica ao status quo. Ao voltar o olhar ao excluído e ao marginalizado, desfere contra o Sistema um olhar enviesado. Não apenas pela valorização dos primeiros, mas também pela associação negativa à presença do segundo ("mesmo depois de os militares / lhe pisarem a face"). Ponto reforçado pelos contrastes da chegada na lua (marco de supremacia, especialmente se relembrarmos o período de fim dos 60, início dos 70) com os ex-presidiários subjugados, e da associação de adjetivos como "alta e brilhante" aos normalmente marginalizados. O olhar retorna, com igual ironia em:

"Quem mora na rua
anda o dia inteiro
de pijama".

e:

"Em casa
de menino de rua
o último a dormir
apaga a lua".

É com humor e leveza lírica que Baffo desnuda uma brutalidade cotidiana e convenientemente despercebida. O tom mantém-se ainda em retratos da periferia (“quantos poemas me deram? / Quantos me tomaram??”) em que “camburões vão às favelas (...) e eles anunciam em outdoors / liberdade é só um carro mais veloz”.

A estética contemporânea bastante leminskiana, aliada à temática que aborda, reforçam a sensação de atualidade da obra de Baffo. É facil imaginar seus textos figurando em menos de cento e quarenta caracteres, é fácil imaginar seus poemas consumidos entre o intervalo de uma aula e outra, é perfeitamente possível que surja entre um copo ou outro numa mesa de um bar qualquer. Numa declamação à luz dum poste na calçada ou sob um guarda-chuva no “menor sarau do mundo” nas ruas de Paraty. Nesse aspecto, a obra de Baffo encontra eco na Catequese Poética do catarinense Lindolf Bell, declamada na saída de fábricas, estampada em camisetas ou penduradas num varal. Ainda que as temáticas sejam destoantes entre os dois autores — até opostas —, alguns aspectos da estética e da visão do fazer poético soam bastante similares.

Os poemas de Delitos e Deleites são acompanhandos dos traços leves da ilustradora Aline Binns, que também assina a capa da edição. A delicadeza do traçado corrobora o tom da obra, flertando com a mesma síntese, em contraste com pontos mais carregados de detalhes. Deixa, por vezes, escapar uma lembrança simplificada e monocromática de algumas texturas de Klimt.

O poeta trata da arte com com a mesma nota, como em “Música” que diz que

“Depois que conhecemos
o jazz...
nada mais faz sustenidos”.

A estética se repete, breve e irônica. Como um drops que poderia ser consumido enquanto se espera um ônibus, mas cujo sabor se mantém. Com o gengibre da cachaça. Mais uma vez, a poesia se faz no não-dito. Feito eco do poema.

Não se restringe aos delitos, a obra de Baffo. Os deleites cotidianos marcam presença em “Carnal”:

“Não há faculdade
de anatomia no mundo
que ensine mais
que o mês de
fevereiro”

e

Amor

com
fusão”

Mais uma vez a intenção oculta, que exige a participação leitor, se faz presente. O jogo de palavras, o trocadilho.

Com alguns dos poemas já citados, deve ficar claro ao leitor o papel preponderante da urbe na obra do autor. É nos grandes centros que reside o material de que são feitos os poemas de Delitos e Deleites. Referências diretas ao Rio de Janeiro e a São Paulo são encontradas facilmente e todo o tom do livro retrata essa estética.

Baffo é, enfim, um autor contemporâneo. Sua poesia, marginal, dialoga com as ruas, flashes de urbanidade com toques de ironia e crítica, sintetizados em versos breves e certeiros. Um grato encontro sob os alvos Arcos da Lapa, que deixa o convite a conhecer essa

“Estátua de barro negro
com hálito de cerveja
usada nos bares da vida
para enfeitas as mesas”.

Fica a sugestão.

E um brinde.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Espresso



Espresso

saudade se mata
afogada
em café

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

certezas

certezas são nuvens
que um sopro
de virar de páginas
desfaz

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Reflexos de Adriana



Reflexos de Adriana

Um aporte sobre a protagonista de Aguardo, de Gregory Haertel
por Rodrigo Oliveira

Quando as águas sobem,
até as montanhas viram ilhas.


Enquanto lia Aguardo as águas do Itajaí-Açú subiam e desciam como se provocadas, pressentindo a evocação de memórias amarelecidas feito um fotograma antigo ou velhas marcas barrentas sobre paredes brancas. Na janela explodiam gordas gotas marcando o tamborilar de cada sílaba. Os vidros embaçados refletindo a turbidez deste primeiro romance de Gregory Haertel.

Para contextualizar o leitor menos familiar com a literatura catarinense, em especial a blumenauense (e, sejamos francos, são a maioria) Aguardo é dividido em 10 capítulos, cada um com nome de um personagem sobre o qual aquele momento da história se debruça. O romance não segue uma linha cronológica fixa. Alguns capítulos levam o leitor a alguns anos no passado, mas todos os personagens e acontecimentos são mais ou menos contemporâneos entre si. Esse entrelaçar de momentos e personagens, a característica de complementação que cada capítulo tem com os demais e a própria temática geral ressaltam uma grande semelhança com o conto Ensaio para Orquestra e Coro de Chuva, presente em Quarteto de cordas para enforcamento, do mesmo autor. A influência de uma obra sobre a outra é marcante.

Aguardo é um novelo tirado da lama, convidando o leitor a lhe desembaraçar os fios. Cada fio puxado revela um personagem e, impregnado nele, um pouco da história dessa provinciana cidade encravada no meio de um vale, cortada por um rio e nomeada segundo o sobrenome de seu fundador. É inevitável, ao ler o romance, ver na obra uma caricatura de Blumenau, cidade catarinense em que vive o autor.

O primeiro fio que desponta desse novelo é Adriana. É neste primeiro capítulo que encontramos a breve apresentação da cidade de Aguardo. A esse primeiro contato, alagada sob as águas de uma enchente que toma as ruas, encontramos nossa protagonista. Encolhida em um canto do apartamento, feito ilha em meio às águas e à chuva que cai sem pausa. Está sozinha. A mãe morrera vítima de tifo; o filho, caído pela janela do apartamento (em uma cena que lembra o prólogo do Anticristo, do cineasta dinamarquês Lars von Trier, ainda que sem a mesma beleza estética ou a mesma poética); pelo pai da criança, abandonada; o próprio pai, nunca teve. Uma ilha em meio a águas barrentas. Talvez essa seja de fato a imagem mais icônica do romance. Às vezes cercados pela água, sempre isolados. Pela água, pela lama — figurada ou não — pela frieza, pela sujeira. Quando as águas sobem, até as montanhas viram ilhas. Também as pessoas.

Essa primeira aparição de Adriana difere, em estrutura e função, da história dos demais personagens (são sete os de maior importância). É essa diferença, e a maneira como foi tratada no decorrer da história, que chamou-me a atenção e despertou-me a escrever esse aporte. Adriana — e todo o capítulo que leva seu nome — servem como cicerones do leitor. Sua história tem o objetivo inicial de nos apresentar a cidade de que trata o livro e alguns breves vislumbres de outros personagens, além de ditar o tom narrativo da obra. Nesse trecho, o texto parece ter um plano mais aberto (para usar uma linguagem cinematográfica) da história. Como se tivéssemos uma câmera de enquandramento amplo, que percorre, panorâmica, várias direções, nos revelando o cenário e o contexto. Os capítulos seguintes, mais centrados nos outros personagens, já lançam mão de planos mais fechados, a narrativa centrada em seus próprios “protagonistas”, ainda que exporádicas inserções de outros personagens ou passagens ainda aconteçam. Mas o texto, após o primeiro capítulo, cerca muito mais seus personagens, expõe-lhes as imperfeições, quase sufocando-os com a proximidade da presença do leitor. Em Adriana é diferente.

Esse estratagema literário teve sua importância para situar o leitor mais rapidamente na obra, para colocar as engrenagens da história em movimento e para evitar interrupções futuras no desenrolar da trama dos personagens que ainda viriam a aparecer. No entanto, reforço: o artifício cobrou seu preço da personagem anfitriã. Adriana, quando comparada com os demais personagens, é vista a uma distância muito maior pelo leitor. Não nos é possível, a altura do primeiro capítulo, uma maior aproximação. Essa própria situação se reflete metaforicamente no próprio texto. A cidade alagada, as pessoas ilhadas em suas casas. A recomendação das autoridades é o uso de cores vibrantes para facilitar a localização pelas equipes de resgate: “pendurar vestimentas de cores fortes no lado de fora da janela para que o resgate nos encontrasse.” (p.18). Adriana, deliberadamente, troca de roupas: “Troco a minha camisa vermelha por uma bege. Dispo o jeans. Coloco uma malha preta do tempo em que eu fazia ginástica. Fecho as cortinas” (p.18). A equipe de resgate se aproxima, ela se esconde. Evita o contato. Com a equipe, com o leitor. No canto da sala do apartamento usa suas memórias para desviar os olhos desse mesmo leitor para Aguardo. Por hora, ela permanece ilhada. Inacessível mesmo para quem lê sua história.

Essa falta de proximidade é, no entanto, “corrigida”, por assim dizer, mais adiante. Adriana participa em pontas aqui e ali nos capítulos dos demais personagens, permitindo que, bem aos poucos, o leitor vá se aproximando. Adiante começa a ganhar mais profundidade. O próprio sexto capítulo, nomeado Ricardo, parece muito mais uma desculpa para nos aproximarmos de Adriana. Ricardo — o pai do filho morto de Adriana — mesmo em seu capítulo, age mais como um “escada” para a atuação da anfitriã da história, do que como o protagonista de seu capítulo. A metáfora do isolamento-aproximação se repete. Aqui o leitor se aproxima mais enfaticamente de Adriana, o que se reflete nos elementos usados na construção do texto. No lugar da camisa bege e da malha preta que a ocultavam, encontramos a personagem trajando apenas um roupão semiaberto, deixando perceber parte de sua nudez. Não há sensualidade na cena, no entanto. Esse vislumbre de nudez reflete muito mais uma falta de proteção. Adriana permanece “Estática, perpendicular ao local onde a massa de Matias estivera [o filho], (...)” (p.112). É a falta que revela a personagem. Que faz com que ela não tenha mais como se ocultar do leitor.

O mesmo recurso de aproximação e aprofundamento na personagem se repete no último capítulo, com ainda mais ênfase. Tornando o contato do leitor com a personagem anfitriã finalmente mais intenso do que com os demais personagens. O leitor se aproxima definitivamente de Adriana. Sufoca-lhe com sua presença. Sente-lhe os odores. Pressionada, ela se revela e se despe como nenhum personagem o fez. Expõe-se e se entrega. Ao leitor e a si mesma.

Todo o último capítulo, nomeado “Matias” é mais um artifício para recolocar o foco sobre Adriana. Agora literal e figuradamente nua, coberta apenas pela lama, pelo mau cheiro, pela falta. Coberta apenas e, afinal, pela presença do leitor. Não há camisa bege, malha negra ou roupão semiaberto. Há apenas a exposição, a falta (de tudo) e o “cheiro dos porcos [que] inundava o quarto do mesmo jeito que as águas do rio haviam emporcalhado Aguardo”. (p. 173).

O livro orbita e se desenvolve ao redor da transformação de Adriana. Ao abrirmos Aguardo é ela a primeira personagem com quem nos deparamos. Ao fecharmos o romance é ela a última de quem nos despedimos. Quando a encontramos pela primeira vez, estava no apartamento reclusa, protegida, oculta. Quando deixamos Aguardo é com a imagem de uma Adriana na estrada, exposta e totalmente desprotegida. Sem nada. A transformação se dá não apenas aos olhos do leitor, mas aos da própria personagem. No início do romance, nas primeiras linhas, temos Adriana com os olhos refletidos na água turva. Temos aqui a turbidez da água como reflexo da personagem. Tão marcante quanto o fato de Adriana olhar para baixo. É olhando para baixo que ela vê (e vê-se) apenas turbidez. No último capítulo, Gregory Haertel encerra seu romance com um paralelo da cena de abertura. Temos novamente Adriana vendo a si mesma refletida. Agora no espelho do teto sobre a cama onde se encontra. Está nua. Agora, no lugar da tubidez, seus olhos no espelho refletem uma imagem muito mais nítida. Se agradável ou não, ao menos transparente. Para ver-se, já não olha para baixo. É olhando para si que se enxerga. Ergue os olhos e não vê mais turbinez. Vê-se em sua nudez e desproteção. Vê-se em sua falta. Mas vê-se lavada, vê-se nítida. Vê finalmente a si mesma.

Assim, Aguardo é-nos apresentada por essa protagonista. Que se apresenta distante e da qual o leitor só consegue se aproximar à medida em que ela se despoja de tudo, inclusive da lama que lhe cerca e lhe cobre. Quando não tem mais nada, apenas, se revela. Nesse momento derradeiro, encontramos finalmente nossa protagonista. Deitada numa cama, nua, refletida no espelho do teto de uma espelunca. Expôs-se tanto, que virou duas. Quem sabe agora, enxergando-se de frente e exposta, poderá encontrar-se.

domingo, 31 de julho de 2011

Poema em 10min

Boca de Lobo

ganiu baixinho
enquanto a chuva lhe lambia
....................................os pelos
....................................ralos
lombo marcado:
costelas expostas,
calha pr'água caindo
.....................(cá indo)

escorreu pelas ruas
..................velho vão
sumiu pelo vão dum bueiro

Feito em 10 min em tema sorteado numa oficina recente no Rio de Janeiro.

domingo, 3 de julho de 2011

Sem título (ainda)

seios
teus
sei-os
meus

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Lá vem o velho

Lá vem o velho, puxando carroça. Tem um cachorro, o velho. Ou o cão é que o tem. Pouca diferença faz, tem-os a rua. Disse-me — o velho, não o cão — que deixou a roça, a mulher que pariu o filho de outro, a enxada na terra que não era sua. Trocou a roça pela carroça que veio puxar pela cidade. Lá, ele ia em cima, a carroça puxada à cavalo. Aqui o cavalo ganha carinho da moça bonita de olho azul. Aqui, a carroça ele mesmo tem que puxar. Mas quando a lembrança roça, ele coça, e ela se vai. Como se foi a roça, como se vai o rosto, como irá o resto.

Disse-me — agora o cão, não o velho, com os olhos mais brilhantes que já vi na cara de qualquer um, de quatro ou duas patas — que não deixou nada. Nem saudades. É daqui. Nasceu debaixo d'alguma ponte, ao lado desse rio. Depois daquela curva, atrás daquele morro, sobre algum barranco ainda não levado leito adentro, manchete afora. Dividiu o concreto, a poça d'água, a luz dos faróis com mais um tanto de gente, de bicho, de bichogente. Foi levado para casa uma vez, contou. Cresceu, a menina mimada cansou. Passeio de carro, nunca mais voltou.

Encontrou o velho ganindo, todo molhado em dia de chuva. Adotou o coitadinho. Tão bonitinho! Estava que era só sorriso. Parcos dentes sorridentes entre bambos beiços balouçantes. E contou para ele as histórias das ruas. Onde arranjar um osso, onde encontrar um teto, onde escapar do mundo. Onde farejar um motivo para balançar o rabo. Lá vem o velho, puxando carroça, junto ao cachorro. Lá vai o velho, puxando carroça. Lá vai o cachorro. Aqui fico eu.

O sinal abriu, ninguém se mexeu. Algum animal fechou o cruzamento no fim de tarde. As mãos na buzina uivando pra lua querendo surgir. Carlos Gomes começa a tocar me lembrando de desligar o rádio pelos comandos ao volante. Como cansa esticar o braço até o painel! Além do mais, a mão está ocupada na buzina. A outra, no botão para levantar o vidro escuro coberto de insulfilm para esconder os meus olhos baços do cachorro e do velho que se vão puxando carroça.

*Crônica originalmente publicada no Jornal de Santa Catarina, edição de 26 de maio de 2011.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Constatação

Blumenau está cheia de buracos. Devem ter usado picareta.

Uma vela para Balzac

O século XIX certamente não teria sido o mesmo sem ele. Provavelmente, nem o XXI. Talvez, não fosse por ele, hoje nossas esposas, noivas e namoradas não se reuniriam no sofá ao redor de um pote de brigadeiro acompanhadas de um box de The Sex and the City. Senhores, a culpa por todos aqueles gritinhos, suspiros e risadas desenfreadas em frente à TV pode ser dele. O nome do irresponsável: Honoré de Balzac. Provavelmente mais conhecido por obras como “A Mulher de Trinta Anos” e “As Ilusões Perdidas”, o francês influenciou muito mais do que a possibilidade de séries de TV sobre novaiorquinas balzaquianas (entendeu agora de onde vem a expressão?).

Do compatriota Gustave Flaubert ao nosso brazuca Machado de Assis, muita gente passou por Balzac. O cineasta francês François Truffaut elevou o escritor ao ponto da idolatria juvenil no seu “Os incompreendidos” (Les quatre cents coups, 1959). Lá pelas tantas, no filme, o protagonista, um garoto de doze anos chamado Doinel, cria um altar em que acende uma vela para o autor, dentro de um pequeno apartamento. Resultado de tamanha dedicação: por pouco não põe fogo na casa inteira, é repreendido pelos pais e acaba desencadeando uma série de conflitos com as instituições estabelecidas da época, seja a família, a escola ou a polícia. Mas quem sabe essa seja possivelmente a melhor maneira de homenagear a um autor que incendiou as convenções da sociedade em que viveu, revolucionou a forma como a mulher era retratada e, principalmente, expôs a hipocrisia e a fragilidade moral da Paris de sua época.

Pergunto-me o que diria do nosso Vale que, se não se pretende Paris, então Munique, Berlim. O que escreveria se descobrisse que o nosso enxaimel tem telhado de vidro? Imagino a voracidade com que retrataria a nossa ânsia de não ser o que achamos que um dia já fomos. O volume da produção só seria equiparado à quantidade de antidepressivos saídos das nossas farmácias. Difícil considerar algo diferente nesse nosso Vale em que se consome muito mais Prozac que Balzac.

Amanhã é aniversário do escritor francês. Só não sei se devemos acender uma velinha ou atear fogo a alguma ideia.

* Crônica originalmente publicada no Jornal de Santa Catarina, no dia 19 de maio de 2011.