Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Ao Diretor Geral

Não era, em nada, similar a um filme americano. Não havia a luz pendente, não havia o good-cop-bad-cop, não havia espelhos falsos na parede. Não havia, na verdade, parede. Na capoeira baixa e seca, pouco se via além do local iluminado pelos faróis. No contraluz uma silhueta insistia:

― Melhor ir falando. Isso pode levar a noite a toda e não tenho a menor pressa de ir pra depê. O café de lá é uma bosta, mesmo.

No chão, um outro vulto encolhido no capim seco. As mãos atrás das costas. De longe, nem seria visto. Àquela hora, de qualquer forma, não havia ninguém para ver coisa alguma. E o vulto sabia disso.

― Eu já disse, só fiz o que ele pediu. Foi o que disse o vulto. Que outra coisa não era, naquela situação, o sujeito. Apenas um vulto.

― Olha ― continuou a silhueta no contraluz ― eu não tô na minha hora de serviço, não tô de uniforme. Não tem nenhuma regra que eu tenho que seguir. Se você falar, você volta comigo, num pedaço só, inteirinho. Peixe pequeno assim, se se comportar, em um ano, dois, tá fora. Eu até dou um jeito de ajeitar o seu lado lá dentro, pra ficar sossegado. Agora, se me enrolar, eu tenho um saco preto no porta-malas que é o seu número. E daí você nem vai sentir o cheiro da porra do café da depê. Ca-dê-a-mer-da-da-gra-na?

― Eu não peguei nada. Só o que o velho me pagou. Como eu ia saber que a caixa era pra ele?

― Tá me achando com cara de otário? ― A silhueta no contraluz parecia perder um pouco da paciência. ― Você quer que eu acredite que o velho pagou pra acabar com ele mesmo? Você apagou o infeliz pra roubar alguma coisa. Se não era dinheiro era o quê?

― Não roubei nada, não. Numa dessas ele queria se matar e só não tinha coragem pra puxar o gatilho.

― Não, não, não. Eu conheço esse tipo de gente. Fresco e com grana assim, se ele fosse se matar ia tomar um punhado de comprimido com uísque num copo de cristal. Esse tipo nem gosta muito da idéia de uma arma, que é pra não estragar o enterro. Imagina receber uma carta bomba na cara. Caralho, a cabeça do velho tava do avesso! Os braços cortados no cotovelo. As mãos não deu nem pra achar. Gente assim nunca ia arrumar uma dessas pra se matar. Suicídio não cola. Você me diz onde tá a grana, eu pego – até deixo um pouco com você, se você cooperar – e a gente faz a prisão na boa. A hora que você sair, ainda vai ter uma grana te esperando.

― Mas eu já disse, eu mandei a caixa do jeitinho que ele pediu. E foi só. Não roubei nada, não. Não sei de dinheiro nenhum. Só tenho o que ele me pagou pra enviar a caixa.

― Tá certo, você não quer dizer, tudo bem. Já vi que não adianta insistir.

A silhueta no contraluz puxou o vulto do chão, deitou-o com o peito sobre o capô do carro, soltou-lhe das algemas, conferindo se não havia deixado nenhuma marca no pulso.

― Vaza. E fica sabendo que eu tô de olho. Se tu aparecer com alguma grana, eu vou ficar sabendo. Vaza. Corre!

Um vulto partindo, correndo na capoeira, tendo às costas a luz dos faróis de um carro solitário, uma silhueta com um trinta e oito apontado e duas balas. No contraluz, o cano curto fumegava. O corpo, entre o capim seco da capoeira, mais adiante, também. A silhueta saiu da frente do carro, abriu a porta, passou uma chamada pelo rádio acusando uma perseguição ao suspeito. Alguns minutos depois, uma nova chamava pedia uma ambulância. O fugitivo tinha sido alvejado.

― Esse café é uma bosta, hein?
― Não muda nunca. Você devia estar acostumado.
― E aí, alguma novidade da tal caixa?
― Esperando a perícia, ainda.
― Pra mim tá na cara que alguém mandou a bomba pro cidadão pra sair com alguma grana. Grana graúda.
― Sei lá. Tá muito estranho. Mas pode ser. O cara acaba de ganhar uma promoção, vira diretor geral, tá com a grana, alguém fica sabendo e resolve explodir com ele.
― Acho que sim.
― Cara, não fazia nem um mês que o infeliz tinha assumido o cargo.
― Nem deu tempo de aproveitar o dinheiro que tava ganhando.
― Pode dizer o que quiser, mas esse é um cargo que eu não queria ter. O cara que tava no cargo antes foi preso com um desvio de verba animal. E isso porque acabou não pagando o imposto de renda, senão ninguém ia descobrir. Aí vem esse velho, assume o lugar de uma hora pra outra, e recebe uma carta bomba de presente. Prefiro ficar aqui com esse café de bosta e manter a minha cabeça em cima do corpo.
― Mas e aí, chegou a ver a caixa antes de ir pra perícia?
― Pouca coisa. Normal. Toda parda, selo do correio, confidencial escrito na tampa, logo abaixo do nome do cargo. “A/C: Diretor Geral”. Tudo digitado na máquina, nenhuma caligrafia.
― Mas a perícia já não adiantou que as digitais bateram?
― Já, já. Parece que foi o cara que você pegou mesmo. Pena que não deu pra pegar o sujeito. Se espremesse ele, devia dar pra descobrir o que aconteceu, ou porque ele mandou a carta.
― Pode ser, pode ser.

Perto da capoeira, numa casa silenciosa, outra unidade de investigação fazia uma varredura na casa do principal suspeito de ter enviado a caixa. Mesmo à luz do dia, distante, era impossível ver a poça de sangue entre o capim seco lá fora. Do lado de dentro, sob a cama, numa sacola de lixo, uma pilha de dinheiro, separada em notas de cem e cinqüenta. Notas sequenciais, descuidadas. Coisa de amador. O investigador encarregado avaliou por cima algo em torno de uns cinco mil reais. Com uma margem de erro para mais ou para menos, caso algo sumisse ou passasse despercebido. Embaixo de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, na estante da sala, um pedaço de jornal rasgado que tinha, na margem, uma nota escrita à mão, com o endereço da empresa e instruções para o envio de uma encomenda ao Diretor Geral, em uma caixa confidencial, para garantir que não parasse na secretária. A digital, dificilmente poderia ser comparada com algum suspeito, visto que os dedos que ali se encaixavam haviam desaparecido sob uma explosão. No canto do jornal, um pedaço de foto de matéria desatualizada e a data de pouco mais de um mês atrás.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Do fracasso de "Imaculado" - Parte II

Retomando o post anterior, o Fábio, nos comentários, chegou no que eu queria com o texto. A ideia inicial era, realmente, tornar a mancha no pescoço dele imaginária. Fruto de uma culpa, como a mancha de sangue de uma Lady Macbeth de calças. Com essa referência em mente, algumas decisões foram rapidamente tomadas. A primeira, que todo mundo percebeu, foi ao estilo. Tentei forçar o texto a fugir do meu estilo - a minha mais puxando pro clássico - e tentei uma pegada mais contemporânea, tentando deixar mais o mind flow dirigir a narrativa em primeira pessoa (outra coisa q normalmente nao faço tanto). Distanciando o estilo do clássico, eu pretendia jogar o texto pro outro oposto, mantendo distante do cânone (e por consequencia de qq referencia direta a shakespeare). a ideia era fazer o texto menos classico ou rebuscado estilisticamento possível, num contraponto à referência de Macbeth. Daí tb a quase falta de diálogos e a inexistência de travessões. Claro, pra um texto escrito em poucas horas de madrugada e com uns chopes na cabeça, eu não podia esperar mto, mas obviamente, foi ainda pior. Talvez, pensado em rever o texto, se ele for, em algo, ainda válido para isso, eu deveria ter apresentado a culpa dele bem antes do personagem, logo no início do texto. talvez trazer alguma cena da festa, que talvez sugerisse mas nao deixasse claro se ele teria ou não um chupão. talvez uma conversa ou piada sobre isso justificaria, associado à culpa, que a mente dele criasse essa ilusão, que acabou ficando gratuita. Algo que poderia trazer volta e meia esse reflexo de culpa seria a lembrança ou a interferência, de alguma forma de Beth, avivando isso no texto.

A referência com a obra de Shakespeare deveria provavelmente aparecer de forma velada em alguns pontos, para sustentar uma comparação leve. Os nomes seguidos "marco/beth" foram mais um easter egg q um recurso literário (texto fraco nisso, diga-se). Provalvemento com mais alguns recursos ligando um texto ao outro, isso até poderia funcionar. E claro, a referência não era em si a obra Macbeth, mas à cena I do ato V mais especificamente, onde Lady Macbeth, sonâmbula, esfregava as mãos à lavá-las de um sangue inexistente que não desaparecia. Ali estava a mancha de Lady Macbeth. A minha, deveria estar num guardanapo do Butiquin. E era de chope.

Não devo retomar mto isso aqui, visto que não acho q seja algo que realmente valha. É mais para retornar a postar algo aqui e quem sabe, com o ritmo, retornem tb os textos que valham os bytes que os abrigam. Mas já estamos nós aqui e pra não perder a visita, nao custa peguntar: e vc, onde acha q o texto se perdeu? Q recursos o teriam salvo? Bom, me vou e deixo de manchar esses pixels por hora.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Do fracasso de "Imaculado" - Parte I

O texto do último post foi postado tb no Duelo de Escritores. Tanto aqui quanto lá, parece que o texto não cumpriu o seu papel. Provavelmente o autor, na verdade. Alguns desses erros até já sei quais são. O mais importante, é que o texto foi criado, na sua maior parte, na hora da postagem, na madrugada do data limite. Provavelmente eu poderia consertá-lo com mais tempo. Ainda assim, achei interessante trazer isso à tona e pretendo, nos próximos posts avaliar as tomadas de decisões no decorrer do texto que culminaram no seu fracasso. Se no final, achar que vale a pena retomar o texto e reescrevê-lo, o farei. Do contra´rio vale apenas como exercício de reflexão.

Qto a Imaculado, parece que não me fiz entender. E a culpa aqui é sim do texto mesmo, não dos leitores. Muita gente acho pouco verossível Beth não perceber a mancha do chupão no pescoço de Marco. O Félix, pode se encrencar achando que banho quente tira chupão. Não quero encrencar um amigo. Félix, banho quente não tira chupão. Abre o olho. E eu concordo que seria impossível alguém não ver um chupão no banho com outra pessoa. No próximo post pretendo avaliar algumas das escolhas possíveis que eu pudesse ter tomado pra melhorar o texto. As pistas que pus no texto, obviamente nao foram suficientes pra elucidá-lo. No texto, só mesmo o nome dos personagens, seguidos, na primeira linha do conto. Nos comentários da postagens no duelo, aqui, deixei outra pista. Não esclareci mais na hora, pra nao influenciar a votação.

No próximo post (ou seguinte a ele) a continuação desta malfadada história.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Imaculado

O celular tocou de manhã. Atendi: “Marco”. “Beth”, ela respondeu, tentando imitar o meu tom sério. Grunhi um “oi, amor”; ela riu um “te acordei?”. Confirmei o horário de chegada do vôo; ela me pegaria no aeroporto. Confirmei que tinha fechado a venda e avisei que depois tinha dado um porre nos chineses para comemorar. Ela me perguntou num ciúme fingido se eu tinha certeza que não tinha nenhuma chinesa. Não tinha. Só chineses velhos bêbados. As meninas eram todas brasileiras. Inclusive a baianinha pendurada no meu pescoço. “Sabe o que fica melhor no pescoço de um executivo do que uma gravata italiana? Uma baiana!” Foi o que eu disse aos chineses. E ele fizeram questão de me empurrar uma das meninas. Claro que não disse nada disso à Beth. Até porque não tinha acontecido nada demais. Era tudo parte do negócio com os chinas, afinal.

Desliguei o telefone, conferi os papéis assinados na mesa perto da cama, abri as cortinas e fui tomar um banho. Foi só quando limpei o espelho embaçado que vi a confusão em que tinha me metido. A filha da puta tinha me deixado com um chupão no pescoço. A Beth iria me matar. Ainda tentei passar água fria para ver se diminuía o roxo, mas não adiantou muito. Lembrei que um amigo tinha me dito, há muito tempo, que passar um pente com álcool resolveria o problema. Vendo a hora do meu vôo chegar e sem uma garrafa de álcool por perto, apelei pro minibar. No nicho de madeira na parede acima do frigobar as várias garrafinhas coloridas estavam perfiladas. Miniaturas perfeitas das garrafas originais. Comecei a selecionar. Campari me deixaria ainda mais vermelho, estava fora de cogitação. Isso me deixou mais inclinado entre a garrafinha de Jack Daniel’s e a de Absolut. Se a idéia era tirar a mancha, que fosse com a incolor. Baiana filha da puta. Eu nunca tinha comprado uma garrafa de Absolut na vida e agora estava esvaziando uma em cima de um pente de plástico com logotipo de hotel. Passei um pouco da bebida ainda sobre a mancha para ajudar e esfreguei o pente até o meu pescoço ficar todo vermelho. Esperei um pouco e repeti a operação. Nada. O chupão continuava lá. E o horário do meu vôo chegando. Teria que resolver o problema no caminho.

Guardei os papéis, peguei minhas malas e desci pro saguão onde já tinha mandado chamar um táxi. As pessoas olhavam o meu pescoço como se vissem uma ilustração do Kama Sutra. E o cheiro de bebida no meu colarinho também não ajudava muito. O funcionário do hotel abriu a porta do táxi e, com um sorriso sacana na cara, disse: “Seu taxi, senhor. Espero que tenha gostado da sua estada”. Filho de uma égua manca. Fez piadinha, se fodeu. Ficou sem gorjeta. O táxi me deixou no aeroporto, sem piadas dessa vez. Devia precisar da gorjeta.

No espelho do banheiro do aeroporto, conferi o roxo da baiana no meu pescoço. O cara que saiu do mictório disfarçou o olhar enquanto lavava as mãos. Mas antes de sair fez questão de ajeitar o colarinho da camisa, só de sacanagem. Mas não é que o puto, acabou me dando uma idéia? Passei numa das lojas do aeroporto e comprei uma camisa de gola alta. Troquei de roupa na loja mesmo e já saí com a gola escondendo mais da metade do meu pescoço e a mancha da baiana.

O vôo foi tranqüilo e, quando desci no aeroporto, Beth estava à minha espera. “Nossa, tudo isso é frio?”, ela estranhou. “Pois é, aquela garoa infernal de São Paulo”. Ela pareceu engolir a história. Fomos para o apartamento dela.

Deixei as malas num canto, ajeitei as coisas, ela perguntou se eu não queria tomar um banho. Disse que deixaria pra mais tarde. Ela não pareceu se importar e se pendurou em meu pescoço, me dando um beijo ao pé da orelha. Disse que tinha um presente de boas vindas, enquanto corria as mãos por baixo da minha camisa. Eu dei uma desculpa esfarrapada, dizendo que não me sentia bem, talvez tivesse febre, ou só um começo de gripe. Talvez fosse melhor mesmo tomar um banho, ela insistiu, e depois me enfiar em baixo das cobertas, sugeria. Ela concordou. “Vai lá que eu vou pegar uma outra roupa pra você”, ela quis ser amável. Insiste que não se preocupasse, que seria melhor eu por a mesma camisa, pra me manter aquecido. Ela disse “Você que sabe” e foi preparar um chá no fogão.

Entrei no chuveiro e liguei a água, deixando que caísse ruidosa sobre a minha cabeça, tentando esquecer do mundo e pensar numa solução. Só ouvia o som da água caindo na cabeça e escorrendo pelos ouvidos, pelo rosto. Só dei por mim quando ouvi o som da porta do box se abrindo e Beth entrando no chuveiro comigo. Nu. Desprotegido. À mostra. Ela se aproximou de mim, beijou o meu rosto, o meu pescoço, como se nada lá tivesse, e desceu devagar. “Sei de uma coisa que vai te fazer melhorar rapidinho”, ela disse.

Quando saí do banho, mal podia me olhar no espelho. Vergonha de mim mesmo. E ela tinha me aceitado de volta. Passei a mão pelo espelho embaçado para ver os meus olhos me recriminando e o meu pescoço sem marcas. Beth passou por trás de mim, enrolada em uma toalha. Me beijou a nuca e disse, “vem logo tomar o chá pra não esfriar”.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Do envelhecer

Envelhecer é um dessaturar lento de emoções.

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Certezas

Você acredita em amor?
Como é que é?
Acredita ou não acredita?
Por que a pergunta?
Não quer responder, é?
Tem certeza que quer ter essa conversa agora?
Por que não?
Não tá se divertindo?
O que uma coisa tem a ver com a outra?
A gente não pode simplesmente deixar as coisas seguirem o seu rumo?
E que rumo que elas estão seguindo?
Você não tá feliz?
Sabe o que falam da gente?
Desde quando você se importa com o que falam da gente?
Você não acha que a gente tá pronto pra um passo a mais?
Como assim?
Você não tem idéia mesmo?
Você quer dizer... casar?
Por que a surpresa? Você não pensa no futuro?
A gente não pode mesmo pensar no presente?
Isso te assusta muito, né?
E não é pra assustar?
Você me ama?
Desde quando uma coisa impede a outra?
Isso que dizer que sim ou que não?
E se for?
Qual dos dois?
Faz diferença?
Quando chegar a hora, você vai estar pronto pra escolher?
Entre os dois?
Quando tiver que escolher, o que vai ser? Vai encarar esse seu medo besta ou vai jogar fora tudo que a gente construiu?
O que a gente construiu?
Você nunca tem certeza de nada?
Você nunca fica na dúvida?
Quer saber do que eu duvido realmente?
Do que?
De que eu ainda ame você.

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Relato em azul

Percorreu a última letra com menos pressa. A bola metálica da esferográfica rolando sobre o papel com um ruído inaudível, deixando para trás um rastro azul, uma letra e, finalmente, um ponto. Embainhou com calma a caneta no porta-canetas inox. Releu com atenção a página. Amassou a folha até que se tornasse uma bola compacta de celulose e alguma tinta desperdiçada. Atirou-a, pela janela aberta, contra o fim de tarde mal cheiroso que o vento trazia do rio. No contraluz, silhuetas de hotéis luxuosos e centros empresariais milionários se erguiam do amontoado de casebres rotos e baixos espalhados ao redor. Ali, a distância entre a miséria e a riqueza se media em andares. Se se esforçasse, poderia ver um daiquiri sendo mexido no ofurô de uma das sacadas distantes. Muito mais abaixo, no rés do chão, uma poça servia de refresco para uma criança barriguda ou um cachorro magro. É tudo lixo, tudo é podre.

Já tinha atirado mais páginas pelas janelas do que colocado na rasa pilha sobre a mesa, quando um ruído abaixo da janela dispersou-lhe os pensamentos. Debruçado no parapeito pôde ver, dois andares abaixo, duas crianças, pouco menos que adolescentes, a revirar o seu lixo. A primeira estava abrindo as folhas, transformando as bolas de papel novamente em folhas mais ou menos planas. A outra as empilhava umas sobre as outras. Pôde jurar que um resto de sol tinha brilhado sobre os meninos, numa luz muito fraca para ser percebida por alguém além dele. Um dos garotos olhou para cima e, ao vê-lo, assustou-se. Juntou as folhas e partiu correndo, no que foi seguido imediatamente pelo outro.

Ele ficou observando até os garotos sumirem por entre os casebres escurecidos pela hora. Demorou-se na janela, ruminando algo que lhe nascia junto com a noite. Retornou à mesa, tomou mais uma folha em branco, desembainhou a caneta e fez a esfera metálica na ponta do artefato correr veloz pelo papel, cuspindo letras, palavras, personagens, amarrados por um fio azul que seguia a bola prateada de uma nova história. Escreveu três páginas de um conto breve de aventuras ribeirinhas juvenis. Amassou as folhas em uma bola frouxa de papel e tornou a abri-las. Apoiando-as sobre a mesa, passou-lhes a mão por cima duas vezes, para suavizar os vincos. Desceu com o conto nas mãos, entrou no beco ao lado do prédio e, bem abaixo de sua janela, pousou as folhas abertas sobre um caixote de madeira, calçando com uma carcaça quebrada de celular descartado. Subiu ao apartamento e escreveu mais algumas páginas. Desta vez, colocadas sobre a pilha de folhas escritas em sua mesa. Jantou satisfeito olhando pela janela a cidade escura onde, em algum lugar, havia alguém para quem escrever.

O cheiro do rio chegando pela janela denunciava o horário. Foi ao beiral e ficou espiando ao canto, escondido. Os dois vultos jovens não tardaram a aparecer, esgueirando-se rentes ao prédio. Um dos garotos começou a remexer o lixo quando o outro lhe chamou a atenção. Tomou as folhas, percorrendo rapidamente de cima a baixo, os olhos saltando rapidamente pelas linhas preenchidas à caneta. Os garotos se olharam com um início de sorriso trocado e logo olharam para cima, de repente. Da janela ele não pôde perceber se eles o haviam visto. Mas viu-os partirem correndo em seguida, com risos trocados e, se ele não se confundira, um pequeno e discreto saltitar de alegria. Respirou fundo o ar úmido de aroma duvidoso e retornou à escrita, colocando a esfera metálica na ponta da caneta para trabalhar novamente.

Mais um conto breve, de quatro páginas. Uma continuação do anterior, repetindo personagens em novas aventuras. Numa vida ribeirinha e difícil, mas cheia de esperança, descobrindo um caminho para além das dificuldades. Dessa vez não amassou as folhas. Desceu novamente à viela ao lado do prédio e pousou-as de novo sobre o mesmo caixote. Cobriu-as com a mesma carcaça de celular abandonado. A alvura das laudas perfeitas com as letras de azul vivo destoava do lixo triste, mas ele achava que isso já não assustaria os seus novos leitores.

Subiu devagar os degraus até o seu quarto, imaginando em que condições aqueles textos estariam sendo lidos. Surpreendeu-se com a mente percorrendo as vielas à procura de um abrigo onde folhas amassadas de uma história juvenil entretinham um par de crianças que ainda se permitiam sonhar além daquela planície, do rio, dos casebres e das torres luxuosas dos hotéis inacessíveis.

Entrou no quarto e debruçou-se novamente na janela aberta, olhando aquele marrom acumulado de madeira descartada e zinco velho que forma uma massa de casas e vidas e papelão empilhado. Do meio daquele emaranhado de vidas amontoadas, cresciam resplandecentes as paredes envidraçadas dos hotéis. Como se os primeiros fossem o adubo que, enterrado, alimentava o crescimento dos segundos. Nas paredes envidraçadas, o reflexo da podridão. Como a lembrar-lhes de quem eram. A esfregar-lhes nas fuças o cheiro que tinham. Enquanto, lá no alto da torre espelhada, as janelas eram só reflexo de sol, céu e nuvens.
Da sua janela olhava a planície com aquele cenário com o qual se acostumara, como tinha se acostumado ao cheiro forte do rio nos fins de tarde quentes. Baixou os olhos para o lixo na viela ao lado do prédio, onde viu as páginas do conto contrastarem brancas contra os rejeitos. E percebeu-se no segundo andar.

Foi como se uma lufada forte do vento fedido o tivesse golpeado. Desequilibrou-se levemente, a cabeça tonteou como quem se levanta rápido demais. Agarrou-se ao batente até recuperar a estabilidade. Levantou o olhar de novo para planície. Viu os casebres tristes e encontrou, refletido nos vidros de um dos grandes hotéis, o seu prédio. Na parede refletida cravejada de janelas, em uma delas, muito distante, pequena demais, um homem olhava-o de volta. Àquela distância, sem feições. Mas irremediavelmente familiar. Travou uma guerra com o homem refletido, que o fitava severo, como uma aparição que insiste em assombrar o assombrado. Encarou o antagonista distante por vários minutos, na esperança que ele desistisse ou se cansasse. Mas era irredutível, o homem reflexo. Não pôde suportar o confronto por muito tempo. Acabou por baixar o olhar às casas podres, às cercanias, à viela ao lado do seu prédio e, finalmente, ao lixo onde repousavam as folhas alvas marcadas de tinta azul.

Deu as costas à janela num movimento brusco, sentou-se à mesa de madeira e, com um acenar violento do braço, limpou-a de tudo que a cobria. Tomou o bloco de folhas brancas, resgatou a caneta que havia caído no chão, já fora do porta-canetas, arrancou a tampa com os dentes e a cuspiu longe. Baixou a cabeça sobre a primeira lauda, pousou a ponta da caneta na primeira linha e, com um leve impulso, pôs a esfera metálica em movimento, deixando para trás um rastro de azul pastoso. A esfera acelerou sozinha e foi ganhando velocidade. Deixando para trás letras, palavras, parágrafos. Personagens e histórias e críticas e idéias e sonhos impossíveis. Deixando para trás uma pasta azulada de pedaços de autor esmagados por uma minúscula esfera metálica que não cessava de rodar. Não percebeu o cheiro ribeirinho que vinha se esgueirando pelo ar, escalando as paredes do prédio e espiando pela janela aberta. Não percebeu a escuridão que o acompanhava ao encalço, esticando os dedos por sobre a planície, cobrindo os casebres, esgueirando-se pelas paredes, apartamento a dentro. Deu, instintivamente, um tapa no botão da luminária que havia se equilibrado na ponta da mesa, elevando uma redoma de luz que impediu a entrada da noite nas páginas que iam se preenchendo rapidamente. Não viu quando a noite recuou da sua janela para englobar o resto do mundo. Nem reparou nas poucas estrelas refletidas nas torres espelhadas e nas águas dos ofurôs das sacadas distantes. O tubo azul dentro da caneta ia diminuindo de tamanho enquanto as folhas se empilhavam ao lado, prenhas de algum gozo azulado que vertera o autor. Prenhas de um gozo estéril.

Não notou a luz amarelada que se ergueu do rio e escalou suas margens, se esgueirando por entre os casebres e se refletindo, já azulada, nas fachadas de vidros acordando. Não pensou se a viela ao lado do prédio havia recebido a visita de duas crianças na noite anterior, como não pensou se a luz acordara o homem refletido na janela distante na parede de vidro. Apenas olhava a folha branca se maquiando de azul e a mão dormente seguindo os movimentos constantes da caneta que obedecia às vontades de uma bola de metal rolando sobre o papel, a tinta e a luz já desnecessária da lâmpada fluorescente sobre a mesa.

De repente a esfera parou. A caneta estancou. A mão relaxou. Os olhos cansados acompanharam a última folha ser levada até o topo da pilha. Largou a caneta, desligou a luminária e, finalmente, levantou a cabeça para ver um dia amanhecendo pela janela aberta. Arrastou-se até a cama e deixou-se cair sobre as cobertas e num sono raso de sonhos vacilantes.

Acordou ao fim da tarde. Retornou à sala e ficou, da porta, admirando a pilha de folhas sobre a mesa. Preparou um café e deixou que o cheiro da bebida tomasse o apartamento, antes que o cheiro do rio o fizesse. Xícara em mãos, ficou de pé ao lado da mesa. Alternando o olhar entre as folhas escritas e a janela aberta. Pousou a xícara na mesa, abriu uma das gavetas e tomou um barbante com o qual envolveu as folhas amarrando-as em um fardo. Foi à janela, olhou para baixo e viu apenas lixo, com a carcaça de celular inútil diretamente sobre o caixote de madeira. Conferiu as horas, calçou um par de sapatos velhos e terminou o café. Pegou o fardo de folhas, saiu pela porta do apartamento e deu duas voltas na chave pelo lado de fora. Desceu as escadas até o térreo, saiu pela porta principal e entrou na viela lateral. Deixou o fardo sobre o caixote com o resto de celular em cima. Deixou a viela, atravessou a rua, afastou-se mais alguns metros e pôs-se a esperar, encostado em um muro forrado de cartazes sujos com imagens serigrafadas de jogadores de futebol.

Decidira deixar a torre de marfim. Não seria digno escrever, lá de cima, sobre ali embaixo. Era preciso estar lá. Onde a história era feita, onde a história era lida, onde os personagens se encontravam com os leitores. O cheiro do rio chegou lembrando-lhe das horas. O sol era agora só um reflexo alaranjado nas fachadas de vidro do alto dos prédios. Ali embaixo, a noite já chegava aos poucos. Não tardou, o cheiro do rio trouxe o que prenunciava. Os dois garotos entraram na viela correndo, agitados. Àquela distância poderia supor, felizes. Uns dois minutos passaram até que eles saíram, ainda mais agitados, com o volumoso fardo nas mãos e com sorrisos desenhados nos dentes protuberantes. Saíram saltitando, lépidos, com o mais recente volume de suas histórias. Muito maior que os anteriores.

Mantendo uma distância segura para não ser percebido, seguiu os dois jovens, disfarçando o melhor que podia sem perder os dois de vista. Percorreu ruas feias e estreitas, desviou dos olhares desconfiados, até que viu, de longe, os garotos se esgueirarem por uma portinhola estreita para dentro de um barraco muito pequeno para ser considerado mesmo um casebre. Passou vários minutos ponderando se deveria intervir, se deveria ter com os leitores antes da leitura. Se deveria esperar para retornar mais tarde para conversar só depois que a história tivesse sido lida. E se eles não gostassem da história? Talvez nem tivessem entendido as histórias desde o começo. Talvez pedissem para os pais lerem para os pôr a dormir. Talvez, ao contrário, tinham de ler escondidos, escapando à vista dos pais. Que diria, ao chegar? Não sabia como se apresentar. “Olá, eu sou fulano, sou eu que escrevi essa história. Vocês gostaram?”. “Como vai? Boa noite, gostaram da história? Eu tenho mais algumas, posso trazer”. Sem tomar decisão alguma, como se os minutos o empurrassem, como nos fazem os minutos fez por outra, a nos levar de cá para lá e a dirigir-nos assim como fôssemos pontas de canetas sobre papel, deu por si frente à porta de madeira emendada. Bateu duas vezes na porta, mas a segunda pancada não chegou a acertar a madeira. Ao primeiro golpe a porta se abriu devagar, revelando um interior humilde de um cômodo pequeno.

Numa parede lateral, uma portinhola coberta por uma cortina de tecido velho apenas, provavelmente um banheiro ou um quartinho. Na parede dos fundos, um pedaço de cartaz de jogador de futebol colado à madeira um tanto furada. Na outra lateral, três tábuas horizontais encostadas à parede faziam às vezes de bancos e camas. No centro um fogãozinho improvisado com tijolos, com o braseiro aceso e água borbulhando espumante numa panela de ferro enegrecido. Ao redor dela, além dos dois garotos, uma menina bastante mais jovem, com uma boneca manca nos braços, e outra, um pouco mais velha que todos. Essa, com o fardo de folhas numa mão enquanto, com a outra, arrancava as páginas colocando-as na sopa borbulhante. Um dos garotos, com uma colher, mantinha a infusão em movimento. O outro mastigava uma pasta esbranquiçada e úmida. A pequena mandíbula cessou o movimento ao surgir do visitante. As quatro crianças se refugiaram, abraçadas, junto às camas. Olhos temerosos, corpos tremendo, um chorar baixinho e assustado da mais jovem. Do lado da panela ao fogo, uma boneca manca caída e um fardo de papel prenhe de um gozo estéril.

Domingo, 10 de Maio de 2009

Poema às costas tuas



Poema às costas tuas



No teu verso

meu verso

que às tuas costas

aporta

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Prima Donna

Do alto do palco era difícil identificar os rostos da platéia. Certamente teria alguns conhecidos, sem dúvida os pais — a mãe de olhos chorosos orgulhosos— mas era-lhe impossível distinguir quais as cabeças enegrecidas pelas sombras lhe eram familiares. Sobre ela, a luz forte cintilava-lhe os cabelos louros espiralados. Um farol brilhante frente um mar de expectativas.

No silêncio que antecedia a primeira nota, permitiu — como se tivesse escolha! — à memória levar-lhe à primeira nota que lhe tocara o coração. Estava de quatro, os joelhos no azulejo, as mãos metidas na espuma, a esponja indo e vindo pelo chão. Um som agudo, poderoso, disparado por uma caixa de som em algum lugar, percorreu cômodos, corredores, adentrou a área de serviço, contornou a tábua de passar e tomou-a por trás. Pôde sentir a nota possuí-la, pondo-a de pé num susto. As notas seguintes a dardejaram quase fazendo-a tombar sobre a pilha de roupas a passar. A melodia envolvente, a potência do som, e, de repente, o silêncio completo.

Seguiu receosa em procura da origem do som. Passou pela cozinha até chegar na sala. Viu a patroa com a última edição da mais famosa revista de personalidades. Colado à capa vermelha de letras brancas, um encarte escuro, com letras douradas e uma daquelas pinturas antigas de homens de peruca e meias até os joelhos.

— Que música era aquela, Dona Marlene?

— Ah, veio nesse CD junto com a revista — disse a patroa atirando o encarte e o CD, recém tirado do aparelho de som, no sofá. — Que gritacêra, né?

— É mesmo. Que alto! Mas até que achei bonito.

— Mesmo? Quer ficar pra você?

— Pode mesmo, Dona Marlene?

— Pode sim, Carmen. Fica de presente. É muita gente gritando pro meu gosto — disse rindo.

— Puxa, ‘brigado, Dona Marlene. E pode deixar que eu já vou terminar o serviço. Depois eu ouvo isso.

— Ouço, Carmen. O certo é ouço. Ouvo não existe.

Voltou ao balde enquanto a patroa ria-se da sua ingenuidade e punha-se a par da nova gravidez da cantora-apresentadora-modelo-atriz de televisão.

O silêncio no palco se sustentava. A excitação da platéia no salão lotado, por pouco, faiscava. Como se houvesse uma eletricidade no ar. A arrepiar-lhe os pelos do braço, como a lembrança daquele dia em que chegou em casa com o CD de brinde da revista de personalidades.

Leu com certa dificuldade os nomes incomuns no verso do encarte — um até bem parecido com o dela — enquanto a música tomava conta do quarto apertado, escorrendo pelas caixinhas de som do portátil no chão, ao lado da cama. O quarto foi se enchendo pelo som que subiu pelos rodapés faltantes, pelos pés da cama, numa melodia fluida, densa, até transbordar-lhe pelos olhos. Naquele dia decidiu o que queria para si. Nos meses seguintes o quarto permaneceu alagado pelas vozes possantes e melodiosas, pelos acordes profundos, penetrantes, reverberantes. Foi à loja de usados em busca dos números passados da revista que também viessem com CDs. Procurou CDs usados dos nomes estampados no verso do encarte. Garimpou nos camelôs títulos semelhantes. E passou todas as suas noites ouvindo aquelas vozes, deixando-se inundar até que elas lhe transbordassem pela boca. Até que ela estivesse ali. No silêncio suspenso, no alto do palco, sob a luz.

Quando abriu a boca pôde ouvir a platéia prender a respiração. Até os cupins nas paredes carcomidas de madeira e as traças nas cortinas furadas de pano vulgar cessaram seu mastigar. O próprio palco de tampo de mesa sobre cavaletes arqueados parou de balançar. As cadeiras de palha trazidas emprestadas dos casebres próximos pararam de gemer. A luz sobre a cabeça iluminou o vestido reformado e fulgurou nos seus cabelos louros quebradiços e enrodilhados. E a primeira nota veio-lhe escalando a garganta, percorrendo o interior do pescoço, saltitando pela língua, apoiando-se nos dentes e, num último impulso, precipitou-lhe dos lábios. Cortou o ar uma nota e meia longe do tom, tremulou até quase chegar perto do tom desejado, e ali ficou. E foi seguida por outras notas rápidas, apaixonadas, igualmente imprecisas. A platéia atenta, a mãe às lágrimas em alguma cadeira nas sombras, o velho pai orgulhoso. O palco finalmente era dela.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

A Dama do Domo de Vidro

Aproveitando a onda das continuações, no final de agosto do ano passado postei aqui um conto chamado Emanuella e Leonardo. Na ocasião comentei que ele era parte integrante de uma outra narrativa, ainda que fosse um conto à parte. Bom, agora (quase um ano depois!) segue o primeiro conto, que completa (ou é completado) por aquela história.


A Dama do Domo de Vidro

A tal da diretora de arte ia chegar de Singapura lá pelas 15h. Ela e a assistente de arte que ia dar suporte na campanha. O diretor de criação queria que eu acompanhasse o atendimento até o aeroporto pra receber as princesas. Mandou ainda que levasse um buquê pra ela, como boas vindas. “Leva lá e não reclama”, ele disse brincando. “Aproveita pra fazer uma média, já que você vai duplar com ela mesmo. Com sorte, quem sabe a assistente dela não dá mole e você se dá bem? Há quanto tempo você se separou mesmo? Tá na hora de voltar pro jogo, campeão”. Até pensei em esmurrar aqueles óculos de acetato, mas só resmunguei um “dá cá” que mostrou a minha empolgação.

Antes de entrar no carro passei as flores pro atendimento:

— Ó, acho legal você levar isso. Sabe como é, uma gentileza pra moça.

— Bem pensado. Valeu.

— Curti a gravata, a propósito.

No carro, o papo não trouxe nenhuma novidade. O atendimento reclamando sobre o de sempre: porque a gente não consegue fazer um filme como o escritório de Buenos Aires? Porque a última campanha ficou tão parecida com a da W+C London? Porque a estagiária da mídia não quer dar pra mim? Da tal diretora de arte eu não sabia muita coisa. Só que tinha passado três anos numa hottop de Madrid, foi a Singapura fazer fama, e agora veio dar suporte pra campanha e ensinar os tupiniquins a fazer filme com cara de europeu.

No aeroporto, eu e o atendimento ficamos esperando com aquelas plaquinhas com o nome, até as duas aparecerem. Lá veio ela. Bonita, isso eu tive que admitir. Veio trazendo aquele corpinho espanhol e ao lado a assistente à tira-colo, como um cachorrinho. Antes de elas chegarem, virei pro atendimento:

— Você vai receber a moça assim? Ajeita a gravata. Aqui, deixa que eu seguro as flores pra você.

Assim que elas chegaram me antecipei estendendo as flores pra minha futura dupla enquanto o atendimento terminava de ajeitar a gravata roxa. Ela deve ter percebido a artimanha e recebeu as flores mais rindo do que sorrindo:

— Você deve ser o Leonardo, certo? Disseram que você vinha receber a gente.

No carro, voltando pra agência, só falamos de banalidades, pra quebrar o gelo. Ela agradeceu as flores e ficou perguntando sobre a cidade. Ficamos conversando enquanto o atendimento dirigia e a assistente observava. Na agência, Emanuella foi apresentada à equipe, conheceu a estrutura, teve o saco puxado pelo diretor de criação e ainda mais pelos sócios. De vez em quando ela me olhava no meio daquilo tudo e compartilhamos um pouco daquela encenação toda, no reservado de uns olhares.

Só no dia seguinte começamos o trabalho. O entrosamento foi rápido e a semana passou voando, com o trabalho rendendo mais do que eu esperava. Com freqüência ficamos até mais tarde na agência, mas isso já nem me incomodava muito. Aparentemente, nem a ela. As coisas só não iam melhor por causa da aliança na mão esquerda dela e porque a assistente de arte vivia grudada nela, quase que de vigia. Ao menos, se as minhas segundas intenções pareciam fora de cogitação, o trabalho ia cada vez melhor. Naquela noite, tinha decidido convidar ela pra sair e tomar um vinho, nem que pra isso eu precisasse convidar também a assistente mala pra ir junto. A assistente disse que não estava se sentindo muito bem e que era melhor elas irem direto pro hotel, de forma que a minha espanhola achou por bem acompanhar a moça e me deixar sozinho com as minhas idéias. Não sem antes deixar um olhar com um meio sorriso e um elevar de ombros que já me valeu a noite. Não fosse pela assistente doente, eu teria o meu vinho e sabe lá o que mais.

Era meia noite e pouco, um apito repetitivo e uma luz fraca interromperam o meu sono. Do lado da cama, no criado mudo de vidro, o celular vibrava barulhento. Um desenho de um envelope ilustrava a tela com um “1 mensagem recebida” piscando. Pressionei o botãozinho verde e o aparelho parou de vibrar pra me revelar a mensagem:

Boa noite. Vê se sonha com um final pra nossa campanha. Hehehe. Vai ajudar bastante”. O final da mensagem era assinado por um dois pontos seguido de um asterisco e o nome: Emanuella.

Devo ter sorrido sozinho na cama de casal. De pronto respondi: “Uma cena de beijo. Aí está um final interessante pro filme”. Terminei com um ponto e vírgula seguido de um fechar parênteses. Não era preciso assinar. E pus-me de novo a deitar, agora já sonhando com o dia seguinte e suas possibilidades. Nem bem peguei no sono o celular começou a vibrar nervoso de novo.

Hum... malandrinho. O problema desse final é que, pra saber se ele funciona, a gente precisa saber melhor o contexto”. Dessa vez ela não usou nenhum emoticon. Não esperava que ela fosse responder, mas resolvi ver aonde ia dar a história: “Então acho que é preciso criar um contexto...

Dessa vez não dormi. Fiquei olhando o teto escuro até ouvir o celular chamar novamente.

Mas aí teremos que ter personagens também... Estudar o enredo, um lugar, um plot bem amarrado pra criar essa história”. Ela jogou a bola pra mim. Mas e daí, o diretor de criação não havia dito que era hora de eu voltar pro jogo? Respondi, tentando preparar o terreno: “Essa campanha promete ser bem interessante! A gente devia mesmo pensar em criar essa história”. Dormi pensando em uma maneira de driblar o pessoal da agência e a assistente de arte para ficar a sós com Emanuella. No dia seguinte teríamos um brainstorm durante toda a tarde e logo em seguida ela iria retornar para Singapura para outra reunião e só voltaria em mais uma semana. Nesse meio tempo eu ficaria apenas com a companhia da assistente e uma campanha por fazer.

Durante o brainstorm, ela se sentou distante de mim. Mas no olhar, um quê de provocação relembrava as mensagens da noite anterior. Ao lado dela, a assistente parecia ter piorado. A cada dois minutos escondia o nariz vermelho remelento com um chumaço de lenços de papel, que tirava de uma caixinha em cima da mesa. A coitada estava um trapo. A reunião se estendeu muito mais do que todo mundo esperava, até que a assistente, que já tinha quase acabado com a caixa de lenços, resolveu que não tinha mais condições de continuar ali e decidiu voltar para o hotel mais cedo.

A reunião terminou e no meio do alvoroço Emanuella saiu correndo com o atendimento que a levaria ao aeroporto. Sem ter muito o que fazer, fui pra minha mesa arrumar as coisas para ir pra casa. No bolso, o celular começou a apitar de novo. No visor colorido, eu já sabia de quem seria a mensagem: “Talvez eu possa atrasar meu vôo. O final da história pode ser criado”. Já em seguida o celular apitou uma nova mensagem, acabando com a minha animação: “Infelizmente você não leu a tempo! Fica para a próxima”. Só então vi o horário das mensagens. Foram mandadas durante o brainstorm, no meio da tarde. Fui pra casa pensando em como processar a operadora de telefonia. Se não fosse pela demora na entrega da mensagem, àquelas horas eu já estaria de volta ao jogo.

Em casa, mordisquei um resto de queijo da geladeira e fiquei olhando o celular. Esperei alguns minutos e enfim liguei. Depois de me desculpar por não ter respondido a mensagem e explicar que só as tinha recebido atrasado, ficamos os dois, um de cada lado da linha, amaldiçoando a operadora. Falei mais para me convencer do que a ela:

— Bom, tudo bem, fica para a próxima então.

Ela lembrou prontamente que na próxima, a assistente não estaria doente e que ela, por conseqüência, não estaria sozinha. A brecha era aquela. Tudo havia conspirado a favor da situação. Tudo exceto a operadora de telefonia. Ficamos nos consolando com as possibilidades perdidas:

— O que você faria se eu desse um jeito de ficar mais algumas horas?

— Nem pensaria duas vezes. Estou com as chaves do carro na mão.

— Então acho que é o seu dia de sorte. O vôo atrasou. Pode vir me pegar.

Desliguei o celular, engoli à força o último pedaço de queijo, espremi o tubo de pasta de dentes na boca e sai correndo pro aeroporto. No caminho, uma parada na farmácia e segui viagem. Enquanto dirigia dei um jeito de tirar as camisinhas do pacote e aloquei as embalagens individuais na carteira. Quando cheguei, encontrei a minha espanhola com um sorriso maroto nos lábios, ao lado da mala de viagem. No caminho de volta à minha casa ela manteve-se sorridente, uma risada nervosa de quem surrupia alguma coisa escondido. Ela ficava bonita quando sorria nervosa. A fim de tranqüilizá-la puxei um assunto banal:

— Desculpa se demorei um pouco, mas esse horário sempre tem trânsito mesmo.

— Tudo bem. Ao menos aproveitei pra adiantar a leitura do meu livro.

—Ah, é? Tá lendo alguma coisa que eu conheço?

Ela parou por uns instantes, deu uma risadinha, e tirou da bolsa um Flaubert de capa dura azul, com um “Madame Bovary” escrito em letras douradas. Rimos juntos uma gargalhada cúmplice e divertida.

Chegando à minha casa, ela estava um pouco nervosa. Acendi as luzes e acomodei-a na sala. Ofereci uma bebida que ela felizmente não aceitou. Para variar não tinha nada que prestasse em casa. Sentamo-nos no sofá, lado a lado, bem próximos. Olhamos-nos com um “e então?” soando no ar.

— Quer criar o final daquela história? — Perguntei me aproximando um pouco mais.

Ela respondeu com um sorriso aparentemente tímido e um balançar afirmativo de cabeça. O tempo não abundava, mas o beijo foi sem pressa, desacelerado. Um roçar de lábios numa exploração cuidadosa, sem arroubos, como em um comercial comportado. As poucas horas que aproveitamos antes de partir o vôo foram preenchidas com beijos, abraços, conversas e risadas. Falamos de arte, viagens e livros. Ela disse que imaginava um redator com uma grande biblioteca na sala. Eu falei que tinha, sim, uma biblioteca, mas não estava na sala. Ficava no quarto, em uma estante ao lado da cama. A deixa era perfeita. Convidá-la para ver os livros era virtualmente levá-la para a cama. Mas apenas continuamos na sala com beijos de comercial comportado. Não a levando ao quarto naquele dia, teria mais um motivo para continuar a história. Só o faria em um próximo encontro, quando os beijos seriam menos comportados e o comercial só poderia ser veiculado depois da meia-noite.

Despedimo-nos no aeroporto e a vi partindo pro outro lado do mundo. Durante a semana nos falamos freqüentemente, com conversas às vezes provocativas, outras apenas falando sobre a campanha ou simplesmente sobre livros ou qualquer outro assunto que nos mantivesse conversando até acabar com as baterias dos celulares ou com a minha conta telefônica.

Quando ela voltou para o Brasil, não fui recebê-la no aeroporto. Encontramo-nos na agência com olhares furtivos e uma ou outra conversa mais reservada. Saímos algumas vezes para happy hours com a equipe, mas tudo o que podíamos fazer era trocar olhares e conversas discretas, um ou outro roçar por baixo das mesas ou alguma palavra ao pé do ouvido. Eu podia vê-la, mas em meio a toda a agência e da assistente, não podia tocá-la. E ver, sem poder tocar, estava se tornando cruel. Ela, percebendo, provocava ainda mais e se divertia com nossa história bovary. Duas semanas depois, ela precisou viajar e ficaria longe por quase um mês. Para que eu não sentisse sua falta, deixou uma lembrança. Na minha mesa, encontrei um desses domos de vidro, cheios de água, com uma bonequinha dentro. Balancei o enfeite e várias partículas coloridas e minúsculas se misturaram no líquido, como se estivesse nevando uma neve colorida dentro da abóboda. Fiquei olhando para a boneca dentro do domo de vidro e só depois vi o bilhete, escrito com a letra dela: “Pode ver, mas não pode tocar. Eheheheh Um beijo, Emanuella”.

Agora fico imaginando a cara dela. Recebendo, em Singapura, quase uma semana depois, o enfeite que me deixou. Só que agora, com a bonequinha exposta, sem o domo de vidro. Imagino a surpresa dela ao ver o bilhete: “Seu lugar é aqui, Ema”. Só não imagino a reação dela ao ver a passagem, só de ida, aqui para o Brasil.

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Invisíveis

Estacionou a minivan francesa sob uma árvore em frente à boutique de roupas da moda. Conferiu a maquiagem no retrovisor interno. O batom cor de pêssego delineando os lábios, a sombra discreta num tom acobreado-esfumaçado, os olhos contornados pela delgada linha negra donde partiam os cílios alongados à rímel. Acionou o alarme sem olhar para trás enquanto os scarpins cor de areia iam pisando o branco e preto da calçada arborizada. Cruzou a rua no final da quadra e entrou no terreno de gramado bem cortado. A porta de vidro embaixo do letreiro em preto e prata do estúdio refletia os cabelos alourados em salão, o tailleur sobreposto a uma camisete branca, o pescoço envolto por duas voltas de ouro branco, a saia pouco acima dos joelhos revelando as pernas recém depiladas que terminavam nos calçados que já pisavam o capacho. A porta se abriu fazendo soar uma campainha eletrônica. Não demorou muito o homem saiu de trás da cortina, tirou a máscara do rosto para revelar um sorriso e disse:

— Bem no horário, Amanda. Só uns cinco minutos e já atendo você, tá?

Ela sorriu de volta em consentimento, cruzou devagar as pernas e pegou uma revista de tatuagens para folhear. A agulha se fez ruidosa do outro lado da cortina sobre a pele de algum desconhecido. Em pouco tempo silenciou. Mais uns minutos depois e o tatuador saiu de trás da cortina com um rapaz jovem de alargador na orelha e o pulso inchado por uma recém terminada tatuagem. O tatuador acompanhou o rapaz à porta, despediu-se e tornou a fechar a porta. Conferiu o relógio na parede e falou:

— Prontinho. Você é o último horário da manhã, o próximo cliente é só lá pelo meio-dia. Agora eu sou todo seu.

Ela sorriu sincera e se levantou, deixando a revista sobre a cadeira. Ele a acompanhou ao outro lado da cortina, logo depois de lançar um último olhar à porta.

Do outro lado da cortina, mais quadros na parede branca, com corpos coloridos em molduras minimalistas. A parede do fundo era de um tom berinjela, as laterais brancas e o piso preto brilhante como o da recepção. Um cabide aguardava num canto próximo à maca e um grande espelho ocupava parte da parede ao lado da mesma. A mulher pendurou o tailleur no cabide, ao que o espelho refletiu um decote revelador na camisete. Pelo reflexo ela pôde ver os braços decorados a envolverem e o rosto sorridente aparecer, por trás, ao lado do seu. Ela sorriu para si mesma. Virou-se e, num movimento rápido, foi colocada sentada sobre a maca. Sentiu a mão habilidosa subir-lhe pelas pernas lisas e pelas ânsias comprimidas no peito. Um punho agarrou-lhe a lingerie por entre as pernas e puxou-a junto com repreensões arraigadas, e entulhos de expectativas não cumpridas. Sentiu a saia subir-lhe ao ventre carente e ofereceu o peito aberto, amplo e leve a outro peito livre. Sentiu um coração bater contra o outro, como dois corações deveriam bater, deixou-se penetrar além da carne. Sentiu a agulha entrar e sair seguindo seu traçado, deixou-se possuir pela arte, pelo artista, por ela mesma. Lançou o corpo para trás e, com as costas sobre a maca, pode ver-se no espelho, de ponta cabeça, os cabelos louros pendurados e o corpo seguro por braços de um colorido bonito. Viu-se sorrir um sorriso pêssego.

Fechou o botão aberto da camisete ajeitando a corrente de ouro branco. Conferiu a aparência no espelho e observou as marcas que ninguém via. Invisíveis, mas mais coloridas que os corpos na parede, mais brilhantes, mais vistosas. Olhou para o homem que retornava do banheiro, sorriu menina e fez um tchauzinho com a mão, depois de assoprar um beijo. Saiu pela porta de vidro pelas calçadas branquepretas sem olhar para trás.

O homem conferiu o relógio. Em meia hora arrumou o estúdio, higienizou todo o lugar, conferiu a agenda. Logo a menina estranha chegaria. Ele gostava dela. Garota bacana. Michaela – 12h15. Ouviu a porta abrindo e saiu de trás da cortina.

— Oi, Mica! Quanto tempo! Bem no horário.
— Oi, Denis. Ainda lembra de mim?

A única menina que ele conheceu ou ouvir falar que fazia tatuagens sem tinta. Assim, a sessão não demorou. Em duas horas a cliente olhava-se no espelho, com a saia levemente levantada. A menina pagou o tatuador, despediu-se com um beijo no rosto, e saiu feliz com a saia balançando pela calçada e os cabelos achocolatados vivos sob o sol. Percorreu as quadras até o prédio onde morava, cumprimentou o porteiro simpático e entrou no elevador no térreo. Apertou o botão do décimo primeiro andar e o aparelho se pôs em movimento. No display escuro apareceu em vermelho a sigla “G1”. A porta se abriu e a garota ruborizou-se à visão da mãe. A mulher hesitou por um instante e logo entrou no elevador.

— Oi, fofinha. Como foi lá na Renata?
— Tudo bem — Respondeu a menina com um sorriso franco.

As duas olharam para a frente e viram, no espelho do elevador, dois sorrisos largos refletidos. Um vestido de saia de pregas e uniforme escolar; outro de tailleur, ouro branco e lábios de pêssego.

No espelho do estúdio, o homem se perguntava que tatuador que se preza teria as duas clientes mais fiéis sem uma marca sequer no corpo. “Tatuador de bosta”, pensou divertido rindo pra si mesmo.

Sábado, 18 de Abril de 2009

No escuro

uma vela

no escuro

aquecia

no escuro

ardia

no escuro

derretia

no escuro

gemia

nu escuro

luzia

Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Invisível

O celular a acordou tocando uma música japonesa numa versão americana teen. Abriu os olhos levemente puxados de um castanho profundo e sonolento para ver, sobre a penteadeira, o uniforme passado e dobrado que a aguardava. A saia escura de pregas até os joelhos, a camisa branca de botões, as meias brancas acompanhando as sapatilhas pretas. Despiu o pijama e observou a pele alva e sem manchas no espelho. Quase imaculada, não fosse por uma minúscula espinha na testa, prontamente coberta com pomada. Vestiu-se olhando pela janela do décimo primeiro andar do edifício cor marfim a cidade abaixo dela, há muito acordada. Escovou os cabelos lisos cor de chocolate-quatro-ponto-sete-sete cortados à altura dos ombros e de franja impecável. Olhou-se novamente no espelho com um meio sorriso de contentamento, vendo a imagem do que a mãe categorizaria como “fofa”. Juntou os cadernos dentro da pasta a tiracolo e encontrou os pais para o café da manhã na cozinha branco-minimalista, com o sol filtrado pelo para-sol das janelas. Enquanto o pai lia o jornal do dia e a mãe via as notícias na tevê suspensa, comeu o mamão papaia descascado, tomou o iogurte com o cereal de marca e comeu meia fatia de pão de iogurte com manteiga light e geléia belga, terminando com o suco de laranja. Desceu os onze andares pelo elevador iluminado e sentou-se ao lado do pai no SUV alemão prateado. No rádio, as notícias relidas por um locutor traziam mais do mesmo outra vez. Despediu-se do pai com um beijo no rosto, saltou do carro parado em fila dupla na porta do colégio e entrou pelos portões alaranjados para as aulas do dia.

Sentou-se no mesmo lugar de sempre. Ouviu a mesma professora de toda segunda-feira. Naquela segunda, novamente, depois de já bastante tempo, olhava mais para o relógio do que para a professora. Os ponteiros dos segundos com dificuldade empurravam o dos minutos contra o irresoluto ponteiro menor. A perna saltitava num levantar-e-abaixar na ponta do pé. Rabiscava e desenhava na borda com caderno, com cuidado para não manchar a mão com tinta. Hoje queria a pele alva livre de qualquer mancha. No intervalo ligou do celular para a mãe, avisando que iria almoçar na casa da Renata. Não avisou Renata. Abriu a agenda e viu marcado o apontamento em caneta colorida: Denis - 12h15. Retornou à sala de aula para ver os ponteiros girarem sem saírem do lugar. E os professores, falando, fazerem o mesmo. Desfrutou do friozinho na barriga que não sentia há muito tempo. Não sentia, de fato, há muito tempo. Mas logo, assim que o relógio terminasse a última volta, mudaria isso de novo. O sinal soou avisando o fim das aulas e o início da correria do meio-dia. Os portões alaranjados vomitando infantes corredores nas calçadas, ruas, sinais, entre os carros parados em fila dupla de mães esperando os filhos que estavam recebendo alguma educação.

Saiu a passos rápidos. Seguiu pelas calçadas arborizadas com os cabelos achocolatados ao vento, a pele clara esquentando ao sol. Chegou ao estúdio às 12h13 e entrou rapidamente pela porta de vidro sob o letreiro preto e prata. As paredes brancas decoradas com certificados e fotos de corpos tatuados. Por trás de uma cortina saiu o homem sorridente em camisa sem manga e braços decorados.

— Oi, Mica! Quanto tempo! Bem no horário.
— Oi, Denis. Ainda lembra de mim? — perguntou sorrindo.
— Faz um tempo mas, dos meus clientes todos, de você eu não ia esquecer. —respondeu dividindo uma risada com ela.
— Ah, Denis, se todo mundo fosse igual não ia ter graça.
— O mesmo de sempre, então?
— Isso aí. Pode ser aqui na coxa, do lado de fora. — Ela disse, sentando na maca e levantando a saia que escondia a pela clara da perna jovem.
— Trouxe algum desenho de referência?
— Não, não. Hoje você pode ficar à vontade. Vou deixar o artista criar.

O tatuador ajustou as agulhas esterilizadas, já de luvas brancas, a máscara cobrindo a boca. Mesmo assim, pôde vê-lo sorrir com olhos quando disse “tem certeza que dessa vez não vai querer mesmo que eu use as tintas?” Ela sorriu de volta:

— Pode pôr esses potinhos pra lá! Você devia ficar feliz, ao menos economiza no material. Devia me fazer um desconto, isso sim!

Ele deu uma gargalhada e o zumbido da agulha soou metálico no estúdio. Ela franziu a testa aguardando a primeira estocada, prevendo a dor à qual nunca se acostumava.

A agulha se aproximou da pele macia. Se fosse possível observar de perto, seria possível ver o aço brilhante e delgado se aproximando veloz. Antes do toque, os mínimos pelos da coxa se eriçando, levantando guarda contra a lança tatuadora. Um arrepio percorreria a perna, galgando as costas, até erguer os cabelos da nuca. Só então a agulha tocaria a pele, que se curvaria para dentro oferecendo uma breve resistência que, logo após, cederia, rompendo-se e dando acesso à carne tenra escondida pela brancura. A agulha retornaria pelo mesmo caminho, batendo em retirada do orifício criado, deixando escapar em seu encalce um gota vermelha. Única tinta que mancharia a pela clara. Só aí um impulso percorreria a coxa que se contrairia, o sangue irrigando rápido, sob a pele, os vasos da região enquanto a agulha voltava a cargas por vezes e vezes seguidas, guiadas pelas mãos hábeis do tatuador. Tudo muito rápido. Valiosas frações de segundo.

O artista parava volta e meia para limpar uma área ou outra que estivesse sangrando, para deixar a cliente tomar um ar ou uma água, ou para fazer uma piadinha qualquer. Ela apreciava o momento. Observava de perto o trabalho quando conseguia, admirava o trocar de tom da perna. Via o desenho brotar-lhe pelos poros. Mordia o lábio quando a agulha tocava alguma área mais sensível, se segurava contorcendo-se de riso e dor. Xingou o tatuador duas vezes. Durante todo o trabalho tinha um espelho grande ao lado da maca para poder acompanhar o procedimento. Sem o uso de tintas, o trabalho foi rápido. Em duas horas havia terminado.

Levantou-se segurando a saia e olhou-se no espelho. Havia surgido algo sobre a pele imaculada, alva e sem manchas. Ainda um pouco inchado e manchado pelo pouco de sangue, mas bonito ainda assim. Sim, bonito. E ela sentira cada pequeno ponto. Cada linha, cada nuance. Em breve, invisível para os demais. Depois de um tempo, invisível mesmo para ela. Mas quando desaparece por completo dos olhos, ela sempre poderia retornar mais uma vez ao estúdio, se quisesse. Ela sentiria quando a hora chegasse outra vez.

Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Macaco Velho


Na falta de um novo texto, um macaco velho. Um rough colorido a facão e com o traço por arrumar, que nunca será arrumado.

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

O causo da Praia da Saudade

Sentindo nas costas a palha macia da cadeira, ouvia as ondas, longe, rebentando na praia. Olhava, sem pressa, a dança da fumaça do fumo enrolado na palha, dando gosto ao ar com cheiro de maresia. A vida na Praia da Saudade passava devagar.

A porta da rua se abriu de repente e o vulto da mulher passou correndo chorando pela sala. Desapareceu quarto adentro, onde a porta de madeira verde mal pintada bateu forte, fazendo balançar a santinha na parede acima do batente. Com o susto, o homem deixou o palheiro cair entre as pernas e afastou rápido a chama, com medo de que lhe queimasse a lenha. Jogou o palheiro na pia, fechou a porta de entrada, ainda escancarada, e foi ter com a mulher. Bateu de leve com os nós dos dedos nos nós da madeira velha e entreabriu uma fresta de um palmo na porta. “Mulher?” perguntou e enfiou a cabeça na fresta. Lá estava a pobrezinha, de bruços, chorando e soluçando com a cabeça enfiada nos travesseiros.

—Raimundinha, o que cê tem minha flor?

— Nós vai pro inferno, Tonho! Nós vai pro inferno. — Chorava a mulher entre os travesseiros.

— Mas como nós vai pro inferno se tu acabou de vir de se confessar? Tá tudo bem minha flor...

— Mas nós vai queimar, Tonho. O padre disse que nós pecâmo.

— Nós pecâmo? Mas quando mulher? Se tudo que nós faz é trabalhar, descansar, não fazemo mal pra ninguém.

— Nós pecâmo à noite, Tonho. Com o que a gente faz na cama.

— Mas ora, mulher! Se nós tamo casado! Que que tem de mais? É papel do marido fazer da mulher, mulher. E da mulher fazer do marido, homem. Onde já se viu pecado nisso?

Tirando a cabeça do travesseiro, Raimunda fungou fundo as lágrimas, olhou pro marido, e resmungou:

— Não, Tonho. Mas é do jeito que nós faz. — Baixou os olhos, envergonhada mais consigo mesma do que com o marido. — Do lado que nós faz.

— Do lado?

— É, que nem sábado. Lembra?

— Ora, mulher! Mas nós tamo casado! Ninguém tem que ver com coisa de marido e mulher.

— O padre Castro disse que não importa, que é pecado. E que nós vamo pro inferno! — falou e enfiou a cara nos travesseiros voltando a chorar.

Raimunda passou a tarde choramingando no quarto, orando pro crucifixo na parede sobre a cama. À noite, a mulher mal jantou. Antônio empilhou a louça na pia enquanto ela foi deitar. Em seguida também se recolheu. Deitou ao lado da esposa e percebeu-a, mesmo de costas para ele, tensa, os músculos retesados. Buscando passar um pouco de conforto e segurança, aproximou-se envolvendo a mulher com o braço de arrastar rede, amparando as costas dela com o peito dele. Ela se recolheu rápido com um gritinho escapado dos lábios, contra a própria vontade. Ele se afastou e saiu do quarto, nervoso. Não com a mulher, mas com o padre que atazanava a esposa e se metia no seu casamento. Ficou andando na cozinha de um lado para o outro, frenético, culpando o sacerdote. Ouviu um choramingo vindo do quarto, que lhe cortou o coração. Alterado com o sofrimento da mulher, tomou da peixeira em cima da pia e saiu, posto em pijamas e chinelos, noite a fora pela Praia da Saudade:

— Agora vamo ver quem vai pro inferno. É hoje que desembucho um padre que nem corvina!

O solado de borracha do chinelo não amorteceu o pé pesado contra a porta do Padre Castro, que se abriu de supetão. O homem de torso nu, com o rosto enrolado por uma camisa de pijama, avançou os cômodos com passos largos e lâmina pronta. Foi numa curva do corredor escuro que deu com o casto padre, despido da imponência do manto bordado de cruzes, posto apenas em um camisolão de tecido velho e folgado. A mão do agressor agarrou forte entre o pescoço e o ombro do padre e o fez girar sobre os calcanhares metidos em pantufas, de modo a impedi-lo de identificar o invasor. A lâmina brilhou fraca na pouca luz do corredor.

— Pode procurar e levar o que quiser — disse o padre com voz controlada.

A mão forçou o sacerdote a cair de joelhos, sentindo o fio gelado da peixeira no pescoço.

— Vou levar nada não seu padre. Senhor é que pode encomendar sua alma que vou ensinar a deixar as mulher da praia em paz e os casal sem seus conselho.

— Então é isso? Bando de pecadores! As mulheres todas umas promíscuas, os homens uns bárbaros. Sodoma!

— Pecado é ficar pondo coisa na cabeça das mulher! Destruir casamento e atazanar gente de bem. É hoje que tu vai encontrar o tinhoso.

— Eu sou um homem do Senhor, a morte não me assusta. Vou pro céu encontrar o Pai, e você não pode fazer nada contra isso.

— O senhor vai é pro inferno!

— Os homens santos vão pro céu. O inferno é pros impuros que se deixam macular o corpo.

— O senhor vai é pro inferno! — repetiu o homem em tom ensandecido que, com um empurrão, prostrou o padre que teve de apoiar-se nos cotovelos para não dar com os dentes no piso de madeira que já esfolava seus joelhos. O que a morte não assusta, só o inferno apavora. Mesmo sob as imprecações do padre Castro, sob a ameaça de excomunhão, sob as promessas de danação e gritos de sacrilégio, o invasor fez-se pesado sobre o sacerdote de dedos agarrados à madeira do assoalho, uma baba fina a escorrer pela boca, uma oração entrecortada nos lábios frouxos tremendo. E uma breve, involuntária, e discreta, ereção.

Antônio só deu por si quando se ergueu, ajeitando as calças do pijama, assustado, e fugiu em disparada. O padre, prostrado, camisolão erguido, corpo violado.

No domingo seguinte a comunidade da Saudade surpreendeu-se com uma pregação ainda mais exacerbada, cheia de imprecações à violação do corpo, acusando as mulheres da praia, fazendo, mesmo, as mais sensíveis chorarem. Era mais que um sermão, mais que uma vingança. Soava, isso sim, a um desafio. Na mesma noite, vendo a mulher novamente às lagrimas sob a ameaça do inferno, Antônio retornou à casa do padre. A porta com uma fresta estreita aberta. Entrou sem fazer barulho e vislumbrou o homem no mesmo camisolão folgado, de joelhos, voltado para um altar contra a parede. Parecia rezar. Sem a exasperação da última invasão, o pescador não teve coragem de repetir o intento e condenar o padre, santo, ao inferno. Por um instante o padre pareceu silenciar a oração, deixando o silêncio noturno mais audível. Abaixou-se em prostração em frente à imagem de Nossa Senhora, com o rosto quase tocando o mesmo chão que suportava os joelhos. Ficou naquela posição, em meditação, por muitos segundos. O silêncio e a escuridão assustaram o invasor, despido da coragem da raiva, que saiu correndo ruidoso.

A lua cheia iluminou um pescador correndo na praia, só um vulto longe na noite, e um padre silencioso, fechando a porta de casa com o olhar perdido no chão e um suspiro pendido no peito.