Recentemente tive a oportunidade de acompanhar dois eventos literários em duas diferentes cidades: o Fórum Brasileiro de Literatura de Blumenau e a feira do livro de Brusque.
Em Blumenau, o evento teve participação de diversas entidades locais contou com um programação de se dividiu em diferentes horários e locais, mas o principais debates e eventos aconteceram na Fundação Cultural de Blumenau. Talvez esteja aí, um dos motivos do desastroso fracasso do evento. Não desmerecendo a já tão maltrada, escanteada e mal cuidada Fundação, mas enconder os debates e a feira nos seus recônditos esperando adesão do público foi, para não ofender ninguém, no mínimo ingenuidade. Não bastasse estar escondida nos vãos da Fundação, quem quer que passasse em frente ao prédio nem saberia do evento. Sem sinalização, sem movimento, se a Fundação estivesse fechada não se perceberia diferença.
Em contrapartida, em Brusque, as lonas brancas da Feira do Livro de Brusque ocuparam a recém inaugurada Praça do Sesquicentenário. Não é preciso dizer que o movimento lá foi muito maior. Famílias passeando no parque, brincando nos playgrounds, observando a fonte e todo o movimento em torno das lonas. Todo o movimento gerado para a Feira? Obviamente não. Não obstante, a curiosidade impulsionou muita gente para baixo das lonas, o evento ganhou movimento, ganhou vida. É verdade que nos estandes empenhados nas vendas dos livros o destaque se manteve mesmo por volumes de auto-ajuda, livretos comerciais infantis de ilustração pasteurizada, mas com um número razoável de exceções.
Enquanto isso, no pátio interno da Fundação Cultural de Blumenau um estande apresentava um pouco de tudo, parecendo miúdo no pátio vazio. O mesmo expositor estava ao mesmo tempo nas duas feiras e, terminados os eventos, fiquei curioso em saber do resultado, de qual das duas lhe tenha sido mais interessante.
Fui em três dias no Fórum blumenauense. O primeiro apresentou um público de pouquíssimas pessoas e um fraco corpo de debatedores formado pelos organizadores/apoiadores do evento. As reflexões de maior contribuição neste dia vieram da minguada plateia. A segunda visita foi mais proveitosa, os debatores trouxeram visões e discussões mais proveitosas e algumas referências diferentes — a mesa nesse dia foi formada por Carlos Henrique Schroeder (creio que radicado em Jaraguá do Sul), Joca Terron (MT/SP) e Sérgio Fantini (MG). Na última oportunidade a plateia estava — de estudantes (de ensino médio suponho) de algum colégio da região. Um público díspar do tema do dia: "Mercado Editorial". Excetuando-se esses alunos, o mesmo público diminuto.
Em Brusque, a feira contava com um grande atração, com o nome de Moacyr Scliar capitaneando a Feira. Não fui à palestra de Scliar, agendada para o meio da tarde de um dia de semana. Mas pensando a feira como um evento de forma profissional, ainda assim o nome de uma grande atração nacional obviamente atrai alguma atenção e holofotes da mídia e reforça de certa forma a imagem do evento. No sábado, dia em que fui a feira, assistia a algumas contações de histórias, com destaque para Afrocontos, Afrocantos, com Toni Edson (Florianópolis). Ao fim um café com escritores com Alcides Buss, de Florianópolis, e outros escritores locais. Por mais que a Feira do Livro de Brusque tenha sido muito melhor organizada e executada que o Fórum de Literatura de Blumenau, esse café deixou um gosto amargo ao fim do evento. A plateia era quase toda formada por esses escritores — faço aqui um forte esforço para não colocar entre aspas a palavra. O debate começou com uma "breve" (dessa vez não resiste às aspas) apresentação de cada um. Talvez o mais breve tenha sido o convidado principal, Alcides Buss. O restante da apresentação se alongou em um mar de "eus" e "meus" pouco produtivo, seguido por sessões de auto-ajuda, motivação e aves cujos olhos falavam de amor incondicional (nem perguntem!). Buss ficou como uma boia de sensatez onde alguns tentavam se agarrar enquanto viam o tal café naufragar. Talvez aí identifique-se uma fragilidade dos eventos de escritores locais: a pobreza de matéria-prima. Ou a abundância de correlatos e "wannabes" que soprepujam as iniciativas de certa valia literária.
Ao fim das contas e avaliações há muito o que se fazer na região. As iniciativas são poucas e lembro que não tiro a valia desses esforços, ainda que acanhados a atrapalhados. Mas é preciso pensar o evento de forma profissional, traçar objetivos claros, pensá-lo mercadologicamente e como fomento cultural; como gerador de leitores, escritores e críticos; como fazer artístico e social. É preciso mais seriedade e bom senso e menos confetes e autoadulação.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Selenita - Novidades
Novidades: Selenita está impresso.
Falta a montagem final: colar a capa e refilar.
Em paralelo, as conversas sobre distribuição e lançamento também estão em andamento.
Não falta muito agora...
Falta a montagem final: colar a capa e refilar.
Em paralelo, as conversas sobre distribuição e lançamento também estão em andamento.
Não falta muito agora...
Marcadores:
Literatura blumenauense,
Rodrigo Oliveira,
Selenita
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Selenita - Andamento II
Opa, ilustres visitas por aqui! Fico feliz. E, oficialmente, agora, Selenita já está na gráfica. A primeira parte do pagamento do projeto, envolvendo diagramação, preparação, ilustração e outros que tais similares foi feita hoje. Toda movimentação deve ser documentada para a prestação final de contas, de modo que em breve o pessoal do Banco do Brasil pode me esperar de novo para um extrato.
Em tempo, acompanhei em parte e recentemente o Forum Brasileiro de Literatura de Blumenau e a Feira do Livro de Brusque. Impressões mais adiante por aqui (se eu não encontrar nada mais divertido para fazer).
Em tempo, acompanhei em parte e recentemente o Forum Brasileiro de Literatura de Blumenau e a Feira do Livro de Brusque. Impressões mais adiante por aqui (se eu não encontrar nada mais divertido para fazer).
Marcadores:
Literatura blumenauense,
Rodrigo Oliveira,
Selenita
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Selenita - Andamento
Como anda meio parado isso aqui, resolvi atualizar com algo que nem é um texto literário, nem uma ilustra, nem uma crítica. Uma notícia para os poucos que por aqui passam. Por hora passo apenas para relatar que Selenita está finalmente começando a dar os primeiros passos rumo ao prelo. Depois de algum tempo em esforços burocráticos necessários, revisões, diagramação, em breve os arquivos irão à pré-impressão. Mais adiante, provavelmente, vou postar como anda o processo. Ao menos é uma forma de manter esses bytes um pouco menos empoeirados. E se eu tiver um pouco mais de paciência, depois faço meio que um passo a passo de todo o processo do projeto para dar uma mão a quem se interessar por traçar caminho semelhante. Abraços por hora.
Marcadores:
Literatura blumenauense,
Rodrigo Oliveira,
Selenita
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Carta a Labes
Passamos um tempo àquele noite em papos ébrios virados pro ar. Lembra? Acho que estávamos nos pufes dum apartamento com piso de madeira gemente. O chão geme com prazer quando a gente pisa nele. A gente tem tanto do chão, tu disseste, entre uma baforada e outra. A pontinha do cigarro acendendo laranja-brilhante e depois ficando cinza de novo. Talvez seja por isso que a gente se arraste o tempo todo, tentei responder à altura da sua filosofada que cheirava a vinho e alcatrão, muito sem sucesso. Já viu como eu não consigo falar tu, como tu falas? Esse meu negócio de falar você é engraçado. É como se estivesse meio deslocado. Mais de trinta anos na beira desse rio e eu falo você em vez de tu. Se bem que se fala um tu errado por aqui, mas enfim. Sempre me perguntam de onde sou. Supõem, simplesmente, que não daqui. Mas eu sou daqui, rapaz. Desse chão que vez por outro se arrasta como a gente. Desse chão que geme quando a gente pisa nele. A gente acha que ele geme com prazer. Como geme a máquina de costura fazendo correr a linha. Todo mundo prefere pensar que é de prazer. Sonho besta esse de sonhar com você e com papos malucos. Outro dia me peguei pensando em outro amigo lá de lonjão. Ouvi o livro dele ecoando na minha cabeça. Te indiquei uma vez um poema dele. Naquele botequim maneiro te disse que poema nenhum nasce de parto normal, lembra? Pois é, lembrei dele. Tenho que te indicar de novo. Lançou o livro. Belíssimo, belíssimo. Há em áudio também, com a voz dele e de Laura. Saudades dos dois. Combina com um apartamento vazio e um merlot. O texto, mais tânico que o vinho. Marcelo ele também, veja só. No sonho você dizia com aquela cara de paisagem alguma coisa sobre não perder tempo. Como se fosse possível, Marcelo, perder algo que não te pertence. Só no sonho mesmo para eu chamar você de Marcelo. Vai entender. Mas só a gente acha que pode de algum jeito perder tempo. O tempo está aí e pronto. No máximo, ele é que perde a gente. Se não há porquê, não há porque se preocupar com perder tempo, também. Ou tentar aproveitá-lo ao máximo. Deixa estar. Fico pensando pra que serve tudo isso. Meu livro logo vai pro prelo, nem te disse. No sonho ele já estava pronto, mas não falávamos dele. O que faz certo sentido. Às vezes a gente fala pra uma parede esperando ouvir algum eco, mas o fato é que a gente fala pra uma parede, não obstante. Paredes e chãos. E um teto lá em cima. Lembro do teto do Saramago. Ao menos ele respondia. Eloquente aquele teto saramaguiano. O meu só me separa do arrastar de cadeiras do apartamento de cima. Não lembro se acordei logo depois do sonho. Mal sei se sonhei, na verdade, ou só pensei nisso tudo. Mas quando acordei, foi com um abraço no peito. Um sorriso na cara. E um texto de pouco sentido querendo nascer.
Marcadores:
Literatura - Prosa,
m.r.mello,
Marcelo Labes,
Rodrigo Oliveira
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Por um poema que marque
Por um poema que marque
arranha o meu verso
que eu
arranho um para ti
Marcadores:
Literatura - Verso,
Poema,
Rodrigo Oliveira
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Um verso por trás
Um verso por trás
deixa meu poema
[penetrar]
no teu verso
Marcadores:
Literatura - Verso,
Poema,
Rodrigo Oliveira
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Quasímodo Enxaimel
Quasímodo Enxaimel
não tenho gárgulas
nem sinos
pra badalar
tudo que me resta
são esses morros
que escondem a minha cara torta
e esta corcunda
dos teus olhos tão azuis
Marcadores:
Literatura - Verso,
Poema,
Rodrigo Oliveira
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Verso coxo
Verso coxo
entre tuas pernas
minha palavra
é coxa
entre tuas pernas
minha palavra
é coxa
Marcadores:
Literatura - Verso,
Poema,
Rodrigo Oliveira
sexta-feira, 25 de junho de 2010
A Divina Comédia Pós-Moderna no Especial José Saramago
O Sarau Eletrônico, da Biblioteca da Furb, está com um especial em homenagem ao escritor português José Saramago, que morreu há poucos dias. Além do meu ensaio A Divina Comédia Pós-Moderna, sobre Todos os Nomes, figuram artigos e textos dos escritores Viegas Fernandes da Costa — editor do Sarau Eletrônico — e Maicon Tenfen, além do discurso do próprio Saramago ao receber o Nobel de Literatura de 1998. Fica a recomendação.
E ainda aproveitando o autojabá, aqui tb tem mais um artigo sobre uma obra do autor (na verdade sobre uma cena específica de O Evangelho segundo Jesus Cristo, a Cena da Barca).
E ainda aproveitando o autojabá, aqui tb tem mais um artigo sobre uma obra do autor (na verdade sobre uma cena específica de O Evangelho segundo Jesus Cristo, a Cena da Barca).
Marcadores:
José Saramago,
Rodrigo Oliveira,
Todos os Nomes
quinta-feira, 17 de junho de 2010
O sonho do sem-cão
Um latido noiterrompeu-me os sonhos:
— Cãocãocão! Cãocãocão!
Desadormeci pispispiscando os olhos sob o luar. Atentei ao chamado.
— Cãocãocão! Cãocãocão!
Mirei o jardínscuro vazio, com olhos sonolentos. Nada havia. Apenas um sem-cão silente e a expiração do mundo nos sombrabaixos. Um mundormente e nada mais.
Sonambulava pupilargas pelo vidro, perscrutando a escuridão que mundormia janelafora. Ouvia o ronronar chiado do nada.
— Cãocãocão! — de repente, pelo vidro.
Madeixergui-me em sobressalto ao repentino alarma. Não via nada pelo vão vitrembaçado. Apenas o jardínscuro e o respirar próximo de um sem-cão e branquear a vidraça. Quase podia ouvi-lo rosnar, mas não havia nada para apaziguar minhas pupilargas curiosas.
Seguiram-se minutos latimudos de janelas opacadas.
Até que indespertei-me novamente na cadeira junto à janela sob a lualva já mais baixa e despedi-me da noite com um cerracenho cansado e um ganido baixinho.
— Cãocãocão! Cãocãocão!
Desadormeci pispispiscando os olhos sob o luar. Atentei ao chamado.
— Cãocãocão! Cãocãocão!
Mirei o jardínscuro vazio, com olhos sonolentos. Nada havia. Apenas um sem-cão silente e a expiração do mundo nos sombrabaixos. Um mundormente e nada mais.
Sonambulava pupilargas pelo vidro, perscrutando a escuridão que mundormia janelafora. Ouvia o ronronar chiado do nada.
— Cãocãocão! — de repente, pelo vidro.
Madeixergui-me em sobressalto ao repentino alarma. Não via nada pelo vão vitrembaçado. Apenas o jardínscuro e o respirar próximo de um sem-cão e branquear a vidraça. Quase podia ouvi-lo rosnar, mas não havia nada para apaziguar minhas pupilargas curiosas.
Seguiram-se minutos latimudos de janelas opacadas.
Até que indespertei-me novamente na cadeira junto à janela sob a lualva já mais baixa e despedi-me da noite com um cerracenho cansado e um ganido baixinho.
Marcadores:
Literatura - Prosa,
Rodrigo Oliveira
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Atualizando...
Uma suposta-possível-pouco-provável letra para uma ainda menos viável música que estava parada nos meus arquivos há mto tempo. Como não vou mais retomar e terminar isso, fica aqui o texto inacabado sem nem título. Mas ao menos, não dá pra dizer que eu não atualizei. Qq hora posto algo melhor acabado (espero).
Lavra a palavra
Leva a palavra
Livra a palavra
Leve
Para a palavra
Pare a palavra
Parte a palavra
Pária
Ave palavra
A vã palavra
Vaga palavra
Vala
Lavra a palavra
Pare a palavra
Vaga palavra
A vã palavra
Parte a palavra
Livra a palavra
Pétrea
Pária
Puta
Parva
Palavra Pagã
Liça
Lente
Leme
Láurea
Lábil leviatã
Vorme
Vício
O vulto
À vala
ávida vilã
Porto
Lacre
Vida
Pátria
Lume
Virgem
Lavra a palavra
Leva a palavra
Livra a palavra
Leve
Para a palavra
Pare a palavra
Parte a palavra
Pária
Ave palavra
A vã palavra
Vaga palavra
Vala
Lavra a palavra
Pare a palavra
Vaga palavra
A vã palavra
Parte a palavra
Livra a palavra
Pétrea
Pária
Puta
Parva
Palavra Pagã
Liça
Lente
Leme
Láurea
Lábil leviatã
Vorme
Vício
O vulto
À vala
ávida vilã
Porto
Lacre
Vida
Pátria
Lume
Virgem
Marcadores:
Literatura - Verso,
Rodrigo Oliveira
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Poema de vênus #2
Poema de vênus #2
revela teu monte
, amor
: que este poema
é de vênus
revela teu monte
, amor
: que este poema
é de vênus
Marcadores:
Literatura - Verso,
Poema,
Rodrigo Oliveira
segunda-feira, 3 de maio de 2010
O Impostor de Maicon Tenfen
É comum encontrar entre os jovens autores uma predileção ou tendência por desbravar o mundo das narrativas por meio do conto. A narrativa curta parece ser a porta de entrada ao mercado editorial para grande parte dos autores ficcionistas. O Impostor, livro lançado por Maicon Tenfen em 1999 e agora reeditado pela Editora La Ventana, não seguiu esse padrão. Foi apenas depois da publicação de três obras de narrativa mais extensa que Tenfen publicou seu primeiro livro de contos curtos.
O Impostor é composto por dez contos que se alternam entre temáticas de horror e suspense, policiais de narrativas urbanas e causos interioranos. O leitor é conduzido habilmente a experimentar um apanhado de emoções diferentes — e até contraditórias — ao passar de um conto a outro. E conduzido, talvez seja realmente uma palavra apropriada ao caso. O maior destaque do livro fica por conta das habilidades do autor de conduzir e de envolver o leitor. Tenfen demonstra, também nessas narrativas curtas, um hábil domínio da tessitura do texto. O Impostor é, antes de mais nada, um conjunto de histórias contadas com maestria. Percebe-se um aprumo técnico que suplanta com desenvoltura os desafios do espaço restrito de um conto.
O romance, enquanto gênero narrativo, ao mesmo tempo em que exige fôlego maior do autor em sua construção, permite-lhe, em contrapartida, resgatar o leitor após algum deslize, após um ou outro parágrafo não tão magistral. O conto, por sua vez, ainda que exija, em princípio, um menor período de composição, é implacável com habilidades do autor de arrebatar o leitor. Uma passagem mal desenvolvida ou um final mal resolvido podem, em uma história curta, mostrarem-se desastrosos e por todo um conto a perder.
Tenfen demonstra em O Impostor que consegue, mesmo em poucas páginas, atingir e tocar o leitor com narrativas bem construídas, sem perder de vista a história e quem a lê.
O Impostor presenteia o leitor com, além de narrativas bem construídas, momentos de destacada qualidade. É o caso de Diablo. Talvez o momento de maior relevância da obra, o conto, manejado com maestria, foi destaque no Prêmio Paulo Leminski em 1997. A história traça um retrato pungente das brigas de galo. Rinhas, treinadores, lutadores. E um galo, que dá nome ao conto, “que tinha o direito de lutar pela vida como se fosse um homem de verdade”.
Mais intimista e lírico, o sensível Sobre a arte de voar também merece nota. Um conto de abordagem oposta à de Diablo, que revela versatilidade na composição de O Impostor. Da narrativa crua, Tenfen passa, em Sobre a arte de voar, para uma história construída sobre um viés poético. Evoca imagens oníricas e lembranças de infância, deixando transparecer uma abordagem mais pessoal. Aqui, é a empatia que Tenfen recruta para conquistar o leitor.
O insólito é presença marcante no volume. Em Trevas Azuis um protagonista foge de si mesmo em uma narrativa que nos lembra de Quero ser John Malkovitch, do roteirista Charlie Kaufman. O Casarão da Esquina, dedicado à memória do pai do romance policial — Edgar Allan Poe — resgata os contos de suspense sobrenatural que ficaram famosos a partir do autor americano. Estilo similar aparece em Coceira, em Os crimes de Noé Gonçalves e em Canibal. O insólito ou o sobrenatural surgem como se remexidos do fundo de um baú repleto do universo das revistas pulp com suas aventuras de horror e suspense.
Merece nota ainda o conto Vergonha, que retoma uma narrativa interiorana salpicada com notas líricas, em que o autor consegue dar nova vida a um tema já repetido — a iniciação sexual de um menino de interior — ao redigir uma breve narrativa que mais orbita o fato do que se concentra sobre ele.
Encerra o volume o conto que dá título ao livro. O leitor que já tenha conhecido obras anteriores do autor irá reparar no resgate da narrativa urbana, na trama policiesca de reviravoltas mirabolantes, nos cantos escuros, nos personagens misteriosos, na violência da noite, lembrando passagens e estilo de Entre a brisa e a madrugada e Um cadáver na banheira.
Se, em alguns contos, é possível o leitor encontrar uma busca por criar uma composição mais rica de leituras, em outros encontra textos de pura fruição, onde a riqueza se encontra não na diversidade de leituras, mas no manejo dos elementos da narrativa. E isso, Tenfen demonstra que domina.
O Impostor é composto por dez contos que se alternam entre temáticas de horror e suspense, policiais de narrativas urbanas e causos interioranos. O leitor é conduzido habilmente a experimentar um apanhado de emoções diferentes — e até contraditórias — ao passar de um conto a outro. E conduzido, talvez seja realmente uma palavra apropriada ao caso. O maior destaque do livro fica por conta das habilidades do autor de conduzir e de envolver o leitor. Tenfen demonstra, também nessas narrativas curtas, um hábil domínio da tessitura do texto. O Impostor é, antes de mais nada, um conjunto de histórias contadas com maestria. Percebe-se um aprumo técnico que suplanta com desenvoltura os desafios do espaço restrito de um conto.
O romance, enquanto gênero narrativo, ao mesmo tempo em que exige fôlego maior do autor em sua construção, permite-lhe, em contrapartida, resgatar o leitor após algum deslize, após um ou outro parágrafo não tão magistral. O conto, por sua vez, ainda que exija, em princípio, um menor período de composição, é implacável com habilidades do autor de arrebatar o leitor. Uma passagem mal desenvolvida ou um final mal resolvido podem, em uma história curta, mostrarem-se desastrosos e por todo um conto a perder.
Tenfen demonstra em O Impostor que consegue, mesmo em poucas páginas, atingir e tocar o leitor com narrativas bem construídas, sem perder de vista a história e quem a lê.
O Impostor presenteia o leitor com, além de narrativas bem construídas, momentos de destacada qualidade. É o caso de Diablo. Talvez o momento de maior relevância da obra, o conto, manejado com maestria, foi destaque no Prêmio Paulo Leminski em 1997. A história traça um retrato pungente das brigas de galo. Rinhas, treinadores, lutadores. E um galo, que dá nome ao conto, “que tinha o direito de lutar pela vida como se fosse um homem de verdade”.
Mais intimista e lírico, o sensível Sobre a arte de voar também merece nota. Um conto de abordagem oposta à de Diablo, que revela versatilidade na composição de O Impostor. Da narrativa crua, Tenfen passa, em Sobre a arte de voar, para uma história construída sobre um viés poético. Evoca imagens oníricas e lembranças de infância, deixando transparecer uma abordagem mais pessoal. Aqui, é a empatia que Tenfen recruta para conquistar o leitor.
O insólito é presença marcante no volume. Em Trevas Azuis um protagonista foge de si mesmo em uma narrativa que nos lembra de Quero ser John Malkovitch, do roteirista Charlie Kaufman. O Casarão da Esquina, dedicado à memória do pai do romance policial — Edgar Allan Poe — resgata os contos de suspense sobrenatural que ficaram famosos a partir do autor americano. Estilo similar aparece em Coceira, em Os crimes de Noé Gonçalves e em Canibal. O insólito ou o sobrenatural surgem como se remexidos do fundo de um baú repleto do universo das revistas pulp com suas aventuras de horror e suspense.
Merece nota ainda o conto Vergonha, que retoma uma narrativa interiorana salpicada com notas líricas, em que o autor consegue dar nova vida a um tema já repetido — a iniciação sexual de um menino de interior — ao redigir uma breve narrativa que mais orbita o fato do que se concentra sobre ele.
Encerra o volume o conto que dá título ao livro. O leitor que já tenha conhecido obras anteriores do autor irá reparar no resgate da narrativa urbana, na trama policiesca de reviravoltas mirabolantes, nos cantos escuros, nos personagens misteriosos, na violência da noite, lembrando passagens e estilo de Entre a brisa e a madrugada e Um cadáver na banheira.
Se, em alguns contos, é possível o leitor encontrar uma busca por criar uma composição mais rica de leituras, em outros encontra textos de pura fruição, onde a riqueza se encontra não na diversidade de leituras, mas no manejo dos elementos da narrativa. E isso, Tenfen demonstra que domina.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Poesia espanhola
Poesia espanhola
acolhe
no peito a pena
..........[e aperta
até que te verta
um poema entre os seios
Marcadores:
Literatura - Verso,
Poema,
Rodrigo Oliveira
Assinar:
Postagens (Atom)