segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Impostor de Maicon Tenfen

É comum encontrar entre os jovens autores uma predileção ou tendência por desbravar o mundo das narrativas por meio do conto. A narrativa curta parece ser a porta de entrada ao mercado editorial para grande parte dos autores ficcionistas. O Impostor, livro lançado por Maicon Tenfen em 1999 e agora reeditado pela Editora La Ventana, não seguiu esse padrão. Foi apenas depois da publicação de três obras de narrativa mais extensa que Tenfen publicou seu primeiro livro de contos curtos.

O Impostor é composto por dez contos que se alternam entre temáticas de horror e suspense, policiais de narrativas urbanas e causos interioranos. O leitor é conduzido habilmente a experimentar um apanhado de emoções diferentes — e até contraditórias — ao passar de um conto a outro. E conduzido, talvez seja realmente uma palavra apropriada ao caso. O maior destaque do livro fica por conta das habilidades do autor de conduzir e de envolver o leitor. Tenfen demonstra, também nessas narrativas curtas, um hábil domínio da tessitura do texto. O Impostor é, antes de mais nada, um conjunto de histórias contadas com maestria. Percebe-se um aprumo técnico que suplanta com desenvoltura os desafios do espaço restrito de um conto.

O romance, enquanto gênero narrativo, ao mesmo tempo em que exige fôlego maior do autor em sua construção, permite-lhe, em contrapartida, resgatar o leitor após algum deslize, após um ou outro parágrafo não tão magistral. O conto, por sua vez, ainda que exija, em princípio, um menor período de composição, é implacável com habilidades do autor de arrebatar o leitor. Uma passagem mal desenvolvida ou um final mal resolvido podem, em uma história curta, mostrarem-se desastrosos e por todo um conto a perder.

Tenfen demonstra em O Impostor que consegue, mesmo em poucas páginas, atingir e tocar o leitor com narrativas bem construídas, sem perder de vista a história e quem a lê.

O Impostor presenteia o leitor com, além de narrativas bem construídas, momentos de destacada qualidade. É o caso de Diablo. Talvez o momento de maior relevância da obra, o conto, manejado com maestria, foi destaque no Prêmio Paulo Leminski em 1997. A história traça um retrato pungente das brigas de galo. Rinhas, treinadores, lutadores. E um galo, que dá nome ao conto, “que tinha o direito de lutar pela vida como se fosse um homem de verdade”.

Mais intimista e lírico, o sensível Sobre a arte de voar também merece nota. Um conto de abordagem oposta à de Diablo, que revela versatilidade na composição de O Impostor. Da narrativa crua, Tenfen passa, em Sobre a arte de voar, para uma história construída sobre um viés poético. Evoca imagens oníricas e lembranças de infância, deixando transparecer uma abordagem mais pessoal. Aqui, é a empatia que Tenfen recruta para conquistar o leitor.

O insólito é presença marcante no volume. Em Trevas Azuis um protagonista foge de si mesmo em uma narrativa que nos lembra de Quero ser John Malkovitch, do roteirista Charlie Kaufman. O Casarão da Esquina, dedicado à memória do pai do romance policial — Edgar Allan Poe — resgata os contos de suspense sobrenatural que ficaram famosos a partir do autor americano. Estilo similar aparece em Coceira, em Os crimes de Noé Gonçalves e em Canibal. O insólito ou o sobrenatural surgem como se remexidos do fundo de um baú repleto do universo das revistas pulp com suas aventuras de horror e suspense.

Merece nota ainda o conto Vergonha, que retoma uma narrativa interiorana salpicada com notas líricas, em que o autor consegue dar nova vida a um tema já repetido — a iniciação sexual de um menino de interior — ao redigir uma breve narrativa que mais orbita o fato do que se concentra sobre ele.

Encerra o volume o conto que dá título ao livro. O leitor que já tenha conhecido obras anteriores do autor irá reparar no resgate da narrativa urbana, na trama policiesca de reviravoltas mirabolantes, nos cantos escuros, nos personagens misteriosos, na violência da noite, lembrando passagens e estilo de Entre a brisa e a madrugada e Um cadáver na banheira.

Se, em alguns contos, é possível o leitor encontrar uma busca por criar uma composição mais rica de leituras, em outros encontra textos de pura fruição, onde a riqueza se encontra não na diversidade de leituras, mas no manejo dos elementos da narrativa. E isso, Tenfen demonstra que domina.

3 comentários:

Rodrigo Oliveira disse...

Resenha publicada no Sarau Eletrônico (o link está ali ao lado). Lá tem uma versão em PDF tb e mais uma porção de coisas interessantes. Se quiser dar uma espiada, vale o clique.

Rodrigo Oliveira disse...

Tá, não tem mais PDF, pelo visto. Mas tem uma versão cheia de links, com fotinhos da capa e tudo.

Viegas Fernandes da Costa disse...

Olá Rodrigo, tudo bem?
Estou em débito contigo. Problemas de saúde me afastarm da ativa, mas penso que na próxima semana as coisas começam a melhorar. Enfim, dentre os débitos, acabei não informando a publicação do teu artigo, que me foi enviada pelo Tenfen. A propósito, gostei bastante da tua análise, e para o programa Dicas de Leitura andei retomando teu artigo sobre "Um largo sete memórios", do Boos. Primoroso aquele teu texto, impecável. Só não concordei com a ponte que fizeste com a obra do Saramago (naquele artigo sobre o livro do Boos). Depois da entrevista com o autor, fica nítida a influência de William Faulkner, que talvez Saramago também tenha lido.
Cara, aproveitando a conversa, quero te dizer da minha ansiedade por ver teu livro pronto.
Abraço forte e fraterno,
Viegas.
Ps.: tiramos os pdf do Sarau. O Joomla, programa que gerencia o site, produzia o pdf automaticamente. Entretanto, a geração do pdf desformatava o texto e o transformava em "tijolão". Como não tínhamos autonomia sobre a extensão do arquivo (já que era gerado automaticamente), optamos por excluí-lo do sarão, permanecendo apenas com a versão html.