quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Carta a Labes

Passamos um tempo àquele noite em papos ébrios virados pro ar. Lembra? Acho que estávamos nos pufes dum apartamento com piso de madeira gemente. O chão geme com prazer quando a gente pisa nele. A gente tem tanto do chão, tu disseste, entre uma baforada e outra. A pontinha do cigarro acendendo laranja-brilhante e depois ficando cinza de novo. Talvez seja por isso que a gente se arraste o tempo todo, tentei responder à altura da sua filosofada que cheirava a vinho e alcatrão, muito sem sucesso. Já viu como eu não consigo falar tu, como tu falas? Esse meu negócio de falar você é engraçado. É como se estivesse meio deslocado. Mais de trinta anos na beira desse rio e eu falo você em vez de tu. Se bem que se fala um tu errado por aqui, mas enfim. Sempre me perguntam de onde sou. Supõem, simplesmente, que não daqui. Mas eu sou daqui, rapaz. Desse chão que vez por outro se arrasta como a gente. Desse chão que geme quando a gente pisa nele. A gente acha que ele geme com prazer. Como geme a máquina de costura fazendo correr a linha. Todo mundo prefere pensar que é de prazer. Sonho besta esse de sonhar com você e com papos malucos. Outro dia me peguei pensando em outro amigo lá de lonjão. Ouvi o livro dele ecoando na minha cabeça. Te indiquei uma vez um poema dele. Naquele botequim maneiro te disse que poema nenhum nasce de parto normal, lembra? Pois é, lembrei dele. Tenho que te indicar de novo. Lançou o livro. Belíssimo, belíssimo. Há em áudio também, com a voz dele e de Laura. Saudades dos dois. Combina com um apartamento vazio e um merlot. O texto, mais tânico que o vinho. Marcelo ele também, veja só. No sonho você dizia com aquela cara de paisagem alguma coisa sobre não perder tempo. Como se fosse possível, Marcelo, perder algo que não te pertence. Só no sonho mesmo para eu chamar você de Marcelo. Vai entender. Mas só a gente acha que pode de algum jeito perder tempo. O tempo está aí e pronto. No máximo, ele é que perde a gente. Se não há porquê, não há porque se preocupar com perder tempo, também. Ou tentar aproveitá-lo ao máximo. Deixa estar. Fico pensando pra que serve tudo isso. Meu livro logo vai pro prelo, nem te disse. No sonho ele já estava pronto, mas não falávamos dele. O que faz certo sentido. Às vezes a gente fala pra uma parede esperando ouvir algum eco, mas o fato é que a gente fala pra uma parede, não obstante. Paredes e chãos. E um teto lá em cima. Lembro do teto do Saramago. Ao menos ele respondia. Eloquente aquele teto saramaguiano. O meu só me separa do arrastar de cadeiras do apartamento de cima. Não lembro se acordei logo depois do sonho. Mal sei se sonhei, na verdade, ou só pensei nisso tudo. Mas quando acordei, foi com um abraço no peito. Um sorriso na cara. E um texto de pouco sentido querendo nascer.

3 comentários:

Labes disse...

sabe quando a voz embarga? tem como acontecer com os dedos, com os olhos, com a mente em si? emocionadíssimo com a carta, com a lembrança, com esse respeito mútuo que acho tão bonito. sinto-me lisonjeado e agradecido. grande abraço, meu caro.

m.r.mello disse...

confesso que fiquei à flor da pele, também. pena que no blog não há o abraço, nem o merlot. também é uma espécie de piso gemente. mas e essa de livro no prelo? que livro? que prelo? fiquei aqui como o galo do gullar: "onde? onde?"

Fábio Ricardo disse...

Bacana essa coisa do piso gemente. Às vezes nem dá de saber se quem geme é o piso ou a gente mesmo. Que geme por ter que pisar no piso, enquanto queria mesmo é estar sonhando.
Mesmo que, esse sonhando, de dormir tenha pouco.