quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Feiras, Fóruns e Livros

Recentemente tive a oportunidade de acompanhar dois eventos literários em duas diferentes cidades: o Fórum Brasileiro de Literatura de Blumenau e a feira do livro de Brusque.

Em Blumenau, o evento teve participação de diversas entidades locais contou com um programação de se dividiu em diferentes horários e locais, mas o principais debates e eventos aconteceram na Fundação Cultural de Blumenau. Talvez esteja aí, um dos motivos do desastroso fracasso do evento. Não desmerecendo a já tão maltrada, escanteada e mal cuidada Fundação, mas enconder os debates e a feira nos seus recônditos esperando adesão do público foi, para não ofender ninguém, no mínimo ingenuidade. Não bastasse estar escondida nos vãos da Fundação, quem quer que passasse em frente ao prédio nem saberia do evento. Sem sinalização, sem movimento, se a Fundação estivesse fechada não se perceberia diferença.

Em contrapartida, em Brusque, as lonas brancas da Feira do Livro de Brusque ocuparam a recém inaugurada Praça do Sesquicentenário. Não é preciso dizer que o movimento lá foi muito maior. Famílias passeando no parque, brincando nos playgrounds, observando a fonte e todo o movimento em torno das lonas. Todo o movimento gerado para a Feira? Obviamente não. Não obstante, a curiosidade impulsionou muita gente para baixo das lonas, o evento ganhou movimento, ganhou vida. É verdade que nos estandes empenhados nas vendas dos livros o destaque se manteve mesmo por volumes de auto-ajuda, livretos comerciais infantis de ilustração pasteurizada, mas com um número razoável de exceções.

Enquanto isso, no pátio interno da Fundação Cultural de Blumenau um estande apresentava um pouco de tudo, parecendo miúdo no pátio vazio. O mesmo expositor estava ao mesmo tempo nas duas feiras e, terminados os eventos, fiquei curioso em saber do resultado, de qual das duas lhe tenha sido mais interessante.

Fui em três dias no Fórum blumenauense. O primeiro apresentou um público de pouquíssimas pessoas e um fraco corpo de debatedores formado pelos organizadores/apoiadores do evento. As reflexões de maior contribuição neste dia vieram da minguada plateia. A segunda visita foi mais proveitosa, os debatores trouxeram visões e discussões mais proveitosas e algumas referências diferentes — a mesa nesse dia foi formada por Carlos Henrique Schroeder (creio que radicado em Jaraguá do Sul), Joca Terron (MT/SP) e Sérgio Fantini (MG). Na última oportunidade a plateia estava — de estudantes (de ensino médio suponho) de algum colégio da região. Um público díspar do tema do dia: "Mercado Editorial". Excetuando-se esses alunos, o mesmo público diminuto.

Em Brusque, a feira contava com um grande atração, com o nome de Moacyr Scliar capitaneando a Feira. Não fui à palestra de Scliar, agendada para o meio da tarde de um dia de semana. Mas pensando a feira como um evento de forma profissional, ainda assim o nome de uma grande atração nacional obviamente atrai alguma atenção e holofotes da mídia e reforça de certa forma a imagem do evento. No sábado, dia em que fui a feira, assistia a algumas contações de histórias, com destaque para Afrocontos, Afrocantos, com Toni Edson (Florianópolis). Ao fim um café com escritores com Alcides Buss, de Florianópolis, e outros escritores locais. Por mais que a Feira do Livro de Brusque tenha sido muito melhor organizada e executada que o Fórum de Literatura de Blumenau, esse café deixou um gosto amargo ao fim do evento. A plateia era quase toda formada por esses escritores — faço aqui um forte esforço para não colocar entre aspas a palavra. O debate começou com uma "breve" (dessa vez não resiste às aspas) apresentação de cada um. Talvez o mais breve tenha sido o convidado principal, Alcides Buss. O restante da apresentação se alongou em um mar de "eus" e "meus" pouco produtivo, seguido por sessões de auto-ajuda, motivação e aves cujos olhos falavam de amor incondicional (nem perguntem!). Buss ficou como uma boia de sensatez onde alguns tentavam se agarrar enquanto viam o tal café naufragar. Talvez aí identifique-se uma fragilidade dos eventos de escritores locais: a pobreza de matéria-prima. Ou a abundância de correlatos e "wannabes" que soprepujam as iniciativas de certa valia literária.

Ao fim das contas e avaliações há muito o que se fazer na região. As iniciativas são poucas e lembro que não tiro a valia desses esforços, ainda que acanhados a atrapalhados. Mas é preciso pensar o evento de forma profissional, traçar objetivos claros, pensá-lo mercadologicamente e como fomento cultural; como gerador de leitores, escritores e críticos; como fazer artístico e social. É preciso mais seriedade e bom senso e menos confetes e autoadulação.

3 comentários:

Rodrigo Oliveira disse...

Demorou mas saiu :)

Luzia disse...

Não resisti em pôr um comentário, a ave em questão era uma gaivota!!!

Viegas Fernandes da Costa disse...

Olá Rodrigo, buenas!

Bom que também escreveste a respeito, e com o diferencial da feira em Brusque. Podemos citar também Timbó, cuja feira do livro visitei na metade do ano, e que segue algo parecido com o que relatas a respeito de Brusque. Enfim, que aqui em Blumenau possamos aprender com nossos erros (persistentes erros). Quanto aos escritores da província, perpetuamos a mediocridade. Lima Barreto, em seu genial conto "O home que sabia javanês", já ironizava isso. Parabéns pela reflexão.
Quero te agradecer também as visitas e comentários no Alpharrábio. Valeu mesmo!
Ah... e lembra, o "Dica de Literatura" quer te entrevistar. Não esquece de avisar quando tivers o livro em mãos.
Abraço fraterno,
Viegas