segunda-feira, 30 de março de 2009

O causo da Praia da Saudade

Sentindo nas costas a palha macia da cadeira, ouvia as ondas, longe, rebentando na praia. Olhava, sem pressa, a dança da fumaça do fumo enrolado na palha, dando gosto ao ar com cheiro de maresia. A vida na Praia da Saudade passava devagar.

A porta da rua se abriu de repente e o vulto da mulher passou correndo chorando pela sala. Desapareceu quarto adentro, onde a porta de madeira verde mal pintada bateu forte, fazendo balançar a santinha na parede acima do batente. Com o susto, o homem deixou o palheiro cair entre as pernas e afastou rápido a chama, com medo de que lhe queimasse a lenha. Jogou o palheiro na pia, fechou a porta de entrada, ainda escancarada, e foi ter com a mulher. Bateu de leve com os nós dos dedos nos nós da madeira velha e entreabriu uma fresta de um palmo na porta. “Mulher?” perguntou e enfiou a cabeça na fresta. Lá estava a pobrezinha, de bruços, chorando e soluçando com a cabeça enfiada nos travesseiros.

—Raimundinha, o que cê tem minha flor?

— Nós vai pro inferno, Tonho! Nós vai pro inferno. — Chorava a mulher entre os travesseiros.

— Mas como nós vai pro inferno se tu acabou de vir de se confessar? Tá tudo bem minha flor...

— Mas nós vai queimar, Tonho. O padre disse que nós pecâmo.

— Nós pecâmo? Mas quando mulher? Se tudo que nós faz é trabalhar, descansar, não fazemo mal pra ninguém.

— Nós pecâmo à noite, Tonho. Com o que a gente faz na cama.

— Mas ora, mulher! Se nós tamo casado! Que que tem de mais? É papel do marido fazer da mulher, mulher. E da mulher fazer do marido, homem. Onde já se viu pecado nisso?

Tirando a cabeça do travesseiro, Raimunda fungou fundo as lágrimas, olhou pro marido, e resmungou:

— Não, Tonho. Mas é do jeito que nós faz. — Baixou os olhos, envergonhada mais consigo mesma do que com o marido. — Do lado que nós faz.

— Do lado?

— É, que nem sábado. Lembra?

— Ora, mulher! Mas nós tamo casado! Ninguém tem que ver com coisa de marido e mulher.

— O padre Castro disse que não importa, que é pecado. E que nós vamo pro inferno! — falou e enfiou a cara nos travesseiros voltando a chorar.

Raimunda passou a tarde choramingando no quarto, orando pro crucifixo na parede sobre a cama. À noite, a mulher mal jantou. Antônio empilhou a louça na pia enquanto ela foi deitar. Em seguida também se recolheu. Deitou ao lado da esposa e percebeu-a, mesmo de costas para ele, tensa, os músculos retesados. Buscando passar um pouco de conforto e segurança, aproximou-se envolvendo a mulher com o braço de arrastar rede, amparando as costas dela com o peito dele. Ela se recolheu rápido com um gritinho escapado dos lábios, contra a própria vontade. Ele se afastou e saiu do quarto, nervoso. Não com a mulher, mas com o padre que atazanava a esposa e se metia no seu casamento. Ficou andando na cozinha de um lado para o outro, frenético, culpando o sacerdote. Ouviu um choramingo vindo do quarto, que lhe cortou o coração. Alterado com o sofrimento da mulher, tomou da peixeira em cima da pia e saiu, posto em pijamas e chinelos, noite a fora pela Praia da Saudade:

— Agora vamo ver quem vai pro inferno. É hoje que desembucho um padre que nem corvina!

O solado de borracha do chinelo não amorteceu o pé pesado contra a porta do Padre Castro, que se abriu de supetão. O homem de torso nu, com o rosto enrolado por uma camisa de pijama, avançou os cômodos com passos largos e lâmina pronta. Foi numa curva do corredor escuro que deu com o casto padre, despido da imponência do manto bordado de cruzes, posto apenas em um camisolão de tecido velho e folgado. A mão do agressor agarrou forte entre o pescoço e o ombro do padre e o fez girar sobre os calcanhares metidos em pantufas, de modo a impedi-lo de identificar o invasor. A lâmina brilhou fraca na pouca luz do corredor.

— Pode procurar e levar o que quiser — disse o padre com voz controlada.

A mão forçou o sacerdote a cair de joelhos, sentindo o fio gelado da peixeira no pescoço.

— Vou levar nada não seu padre. Senhor é que pode encomendar sua alma que vou ensinar a deixar as mulher da praia em paz e os casal sem seus conselho.

— Então é isso? Bando de pecadores! As mulheres todas umas promíscuas, os homens uns bárbaros. Sodoma!

— Pecado é ficar pondo coisa na cabeça das mulher! Destruir casamento e atazanar gente de bem. É hoje que tu vai encontrar o tinhoso.

— Eu sou um homem do Senhor, a morte não me assusta. Vou pro céu encontrar o Pai, e você não pode fazer nada contra isso.

— O senhor vai é pro inferno!

— Os homens santos vão pro céu. O inferno é pros impuros que se deixam macular o corpo.

— O senhor vai é pro inferno! — repetiu o homem em tom ensandecido que, com um empurrão, prostrou o padre que teve de apoiar-se nos cotovelos para não dar com os dentes no piso de madeira que já esfolava seus joelhos. O que a morte não assusta, só o inferno apavora. Mesmo sob as imprecações do padre Castro, sob a ameaça de excomunhão, sob as promessas de danação e gritos de sacrilégio, o invasor fez-se pesado sobre o sacerdote de dedos agarrados à madeira do assoalho, uma baba fina a escorrer pela boca, uma oração entrecortada nos lábios frouxos tremendo. E uma breve, involuntária, e discreta, ereção.

Antônio só deu por si quando se ergueu, ajeitando as calças do pijama, assustado, e fugiu em disparada. O padre, prostrado, camisolão erguido, corpo violado.

No domingo seguinte a comunidade da Saudade surpreendeu-se com uma pregação ainda mais exacerbada, cheia de imprecações à violação do corpo, acusando as mulheres da praia, fazendo, mesmo, as mais sensíveis chorarem. Era mais que um sermão, mais que uma vingança. Soava, isso sim, a um desafio. Na mesma noite, vendo a mulher novamente às lagrimas sob a ameaça do inferno, Antônio retornou à casa do padre. A porta com uma fresta estreita aberta. Entrou sem fazer barulho e vislumbrou o homem no mesmo camisolão folgado, de joelhos, voltado para um altar contra a parede. Parecia rezar. Sem a exasperação da última invasão, o pescador não teve coragem de repetir o intento e condenar o padre, santo, ao inferno. Por um instante o padre pareceu silenciar a oração, deixando o silêncio noturno mais audível. Abaixou-se em prostração em frente à imagem de Nossa Senhora, com o rosto quase tocando o mesmo chão que suportava os joelhos. Ficou naquela posição, em meditação, por muitos segundos. O silêncio e a escuridão assustaram o invasor, despido da coragem da raiva, que saiu correndo ruidoso.

A lua cheia iluminou um pescador correndo na praia, só um vulto longe na noite, e um padre silencioso, fechando a porta de casa com o olhar perdido no chão e um suspiro pendido no peito.

4 comentários:

Marina Melz disse...

Bah. Durante a leitura pensei em muitos comentários, mas o final calou minha boca. Muito bom.

Viegas Fernandes da Costa disse...

Rodrigo, o primeiro parágrafo, por si só, já dá um conto:

"Sentindo nas costas a palha macia da cadeira, ouvia as ondas, longe, rebentando na praia. Olhava, sem pressa, a dança da fumaça do fumo enrolado na palha, dando gosto ao ar com cheiro de maresia. A vida na Praia da Saudade passava devagar."

Não é a toa que o nome do padre é Castro, dada sua função castradora. Boa sacada!
O final surpreendeu. GRANDE sacada!
Gostei muito!
Abraço,
Viegas

Labes disse...

Nossa! Antológico esse conto. Deu pra rir e pra se solidarizar. Deu pra sentir muita coisa aqui. Grande texto mesmo! Abraço!

Rodrigo Oliveira disse...

valeu, moçada. demorou pra parir esse. nao queria sair de jeito nenhum. Abraço a todos.