quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A primeira pedra

Antes que o mundo acabe, atualizo isso aqui. O texto abaixo foi publicado originalmente no Jornal de Santa Catarina, do dia 14/12, em um caderno especial sobre as profecias de fim de mundo.

A primeira pedra

Não aconteceu, em nada, como ele estava esperando. Lá no alto da montanha, sentado sobre a pedra olhando o vale de cima, não viu nada demais. Não ouviu Wagner soando seu Tristão e Isolda, não houve chamas, não houve luzes. Não soaram clarins. Ouviu apenas o zumbido dos últimos insetos na moita, que o vento logo soprou para longe. Quente e denso. A última lufada. Com uma pedra apanhada do chão rabiscou sobre a rocha antes que fosse tarde demais: "Queria ter escrito um poema". Fechou os olhos pela última vez e ouviu o mundo silenciar. O vento não soprou, os insetos não zumbiram. Nada. Talvez esta fosse mesmo a forma mais apropriada. Pelos instantes que lhe restaram chegou a imaginar, naquele resto de mundo no qual se agarrava, o leito barrento do rio passando pelas capivaras. Sentiu-se frustrado por ter sido essa a sua derradeira lembrança. Tinha vivido tantas coisas, havia tanta gente que lhe era querida e era disso que se lembrara em sua última saudade? Não um amor, não um beijo, nenhuma aventura. Mas um rio barrento que volta e meia enchia, passando pelas capivaras lá distantes, no fundo do vale que ele não mais veria. O silêncio e a escuridão do último suspiro do mundo viriam acompanhadas pelo ruminar de uma capivara à beira do rio corrente. Cada mundo, chegou a pensar, termina como merece. Num ímpeto de coragem tardia abriu os olhos de repente. Fosse para preencher o último momento com uma imagem mais condizente, fosse para encarar, ao menos uma vez, o mundo de frente. Mas era tarde demais. O mundo havia acabado. Não havia nada que pudesse reconhecer. Estava acima de tudo, pairando sobre um vale que já não conhecia. Olhou intrigado ao redor como quem abre pela primeira vez os olhos. Numa rocha, a epígrafe de um novo mundo: "Queria ter escrito um poema".  Encontrou um caminho apertado por entre os galhos e desapareceu.

2 comentários:

Ana Gabriela disse...

Quem sabe um rio barrento tendo como impedimento de seu fluxo várias capivaras não seja uma lembrança muito mais importante que um amor ou uma aventura, depende do ponto de vista.

Rodrigo Oliveira disse...

É, um novo ponto de vista às vezes parece poder mudar tudo. Até um fim de mundo. Valeu pela leitura :)