domingo, 26 de julho de 2009

Silêncio

— Silêncio!

Acordou sobressaltado no escuro. Os olhos baços à meia luz, ouvindo murmúrios baixos. Esfregou com os dedos os olhos que arderam salgados e divisou as duas loiras juntas, lado a lado, nas poltronas vermelhas na escura platéia quase vazia.

— No. Hay. Banda!

O homem no palco declamava pausado e com potência. Um poderoso staccato à capela, num sotaque castelhano.

— There is no band.

Com os olhos, se acostumando a pouca luz e a mente à vigília, pôde melhor divisar as mulheres nas poltronas escuras.

— And yet, we hear a band — Continuou o apresentador sob acordes gravados.
E tudo escureceu numa tela preta e num chiado eletrônico que cessou baixinho. Silêncio. Já vira o filme por vezes sem conta. E sempre acabava por vê-lo de novo. Tentava sempre revê-lo, na esperança de outro final. De uma guinada na história. De um personagem que pudesse surgir e valer-lhe, de fato a audiência. Mas o filme sempre insistia em passar de novo. No hay banda. E de novo estava ele em Silêncio.

Levantou-se, derrubando a vasilha de plástico ao chão. Caminhou sobre os milhos em cima do tapete e abriu a janela da sala. O inverno entrou frio pelo apartamento. Lá fora, as ruas de luzes brancas, todas em silêncio. Por cima dos telhados pontiagudos, o inverno se estendia até o velho teatro. Viu as luzes, o movimento, as pessoas distantes. Mas tudo era silêncio. Subiu no beiral da janela, aguardou o vento frio e lançou-se na corrente, acompanhando o ar gelado por sobre os telhados germânicos. Sobrevoou a movimentação. Atores, músicos, poetas. Artistas. Quadro de esteta elaborada. No palco, um latino estendia a mão, ao que respondia um clarinete invisível. Estendeu o braço a outro lado. Respondeu-lhe um trombone, também invisível. Do alto, com o público e os outros artistas em volta, num grande círculo, a cena lembrava um ritual pagão. Todos vestidos de peles dançando ao redor da fogueira. The bonfire of De Palma. O vento soprou frio de novo e ele se deixou levar. Enrodilhou-se numa nuvem úmida e adormeceu no silêncio de um sussurro linchiano.

Acordou sobre o sofá com dor nas costas e atrasado. Saiu apressado para o compromisso. A cidade ensolarada, o velho teatro. Tomou o lugar à mesa. O discurso manso seguiu até que levantasse a cabeça para o público. Lá atrás, na última fila da platéia, um casal idoso o olhava com olhos famintos. Engoliu em seco, o ar frio. Um clarim fez-se soar distante. Mas não havia banda.

5 comentários:

Viegas Fernandes da Costa disse...

É Rodrigo, não há banda... não há Festival de TeaTRO neste nosso inverno em Blumenau.
Nesta colônia, os artistas gostam de se mostrar, mas não gostam de se olhar. Não há debate, não há crítica! Somos todos cordeiros oferecendo nossa lã, estamos sempre prontos para sermos tosquiados.
Parabéns pelo texto Rodrigo, uma das poucas manifestações lúcidas em meio a toda esta euforia.
Abraço,
Viegas

Cláudia disse...

Ao som de Rebecca del Rio "Chorando... chorando..."!
Muito bom!

Labes disse...

não haverá banda e estaremos todos ouvindo, balançando as cabeças, dançando talvez.

Rodrigo Oliveira disse...

Sim, Cláudia. Belíssima!
E Labes, é possível, sim... Que ao menos não tenhamos os velhinhos a nos perseguir.

m.r.mello disse...

hehe...fiz um comentário ali no duelo, mas lendo o que o viegas escreveu aí ficou bem mais clara a ironia do texto. queria ter estado presente aí com vcs no evento, é uma pena...