sábado, 28 de junho de 2008

Homens do Mar

Não tenho gostado mto das minhas ficções ultimamente. Acho q até por isso o número de ensaios e artigos vem crescendo aqui. Ando tb sem mto tempo e as ilustras tb rarearam por isso. Além do mais tem um povinho me azucrinando as idéias ;)
De qq forma, essa é uma tentativa de fazer qq coisa meio metaliterária, homenagem(?) a Melville e Hemingway. Foi pra rodada anterior do Duelo, então já sabem, prazo curto, tema proposto, aquela coisa toda. Sem mais delongas


Homens do Mar

A sacada de madeira se debruçava da areia sobre o mar. A tarde naufragava lentamente no oceano rajado de cobre. Poucas gaivotas sobrevoavam o que restava do dia e poucas velas arrastavam para a praia as últimas redes.

Dentro do copo, um oceano miniaturizado dava voltas impulsionado pela falange ossuda e calejada. Santiago apreciava o inevitável e já demasiadamente postergado ocaso, com memórias de esqueletos e sal e mar. Não deu conta do homem, anos mais jovem, que se sentou à mesa ao lado. Pele tisnada, olhar perdido no mesmo oceano.

Em silêncio, ficaram ouvindo o sol afogar-se.

Uma voz de menino despertou o velho: — “Uma bebida, senhor?”

O velho negou o pedido com um “obrigado, Manolin”.

Mas não era Manolin. Era apenas o garoto tomando o pedido do novo cliente. Só então, o velho apercebeu-se do novo companheiro na sacada. E do olhar de reprovação da criança, que anotava o pedido. Sem graça, voltou os olhos cansados e a barba branca para o oceano.

Ficaram os dois, olhando as ondas ao longe, parecendo buscar algo em comum nas vagas. Algo deixado para trás, devorado ou em destroços. Vendo bestas na espuma branca, ou memórias nas correntes.

— Quem é Manolin?

A voz partiu do rosto imberbe que ainda fitava o mar.

— O vento que enfunava a vela.

A resposta veio sem que o velho tirasse os olhos da água.

— Um amigo de Santiago. Mas agora sou só eu, velho, e o mar.

Só então o velho passou o olhar para o oceano dentro do copo e lhe sorveu o que restava, enquanto o mar sorvia o que restava do sol.

— E você? Qual o seu nome? — Perguntou o velho secando a barba com a manga da camisa.

— Chamai-me Ismael.

— Você também deixou algo lá, não deixou?

— Fui tudo o que restou. Fui o que o oceano não se dignou a tragar. Regurgitado Ismael.

Baixou a cabeça olhando as vigas de madeira do chão e continuou.

— Sabe, há muito tempo havia prometido jamais retornar ao mar. Jamais me tornar ao oceano outra vez. E agora aqui estou eu, lutando pra tirar os olhos das ondas.

— Nãos somos nós que escolhemos o mar. É o oceano que nos escolhe. E quando não nos deseja mais, não importa o que façamos, ele nos cospe à costa como um esqueleto, um resto de peixe devorado. Por maior que seja, a conquista é vazia se o seu tempo sobre as águas passou.

— Por maior que seja! Há! Por maior que seja... Era titânico! Por três dias nós tentamos. Três dias! E no final só restei eu. Nem derrotado o mar me quis. Fiquei mais dois dias esperando, pela baleia ou pelo oceano, pra terminar com aquilo. Mas nenhum deles o fez. O único que me estendeu a mão foi o Rachel. Logo ele a quem negamos ajuda... Enquanto isso a baleia continua lá. Alva, gigante, no oceano.

— É por isso que ela continua grande. Se fosse trazida à praia não seria mais que esqueleto esquálido. Branca cor de osso. Vê, olha as ondas. Mar adentro são grandiosas, imponentes. As vagas gigantes, tombando navios, erguendo-se contra tempestades. Mas aqui, na praia, são pequenas, débeis, fracas... inúteis. Nós estamos na praia, Ismael.

— Sim, Santiago. Nós estamos na praia.

2 comentários:

Viegas Fernandes da Costa disse...

Barbaridade, muito bom este teu texto, Rodrigo!
Abraço fraterno,
Viegas

Labes disse...

Belíssimo texto, sim. E não adianta: é o oceano que escolhe. :) E ali, onde tudo é pequeno, alguém sonha com a grandiosidade inominável. Essas coisas. Bom ler. Abraço.