quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A Antífona do Traidor

"Antes que o primeiro galo cante, um dentre vós me trairá." A sentença caiu sobre a mesa como um malho sobre uma bigorna. As centelhas se espalharam nos olhos faiscando bravios de um lado a outro. Como o choque de metal contra metal, o alarido ressoou nas vozes nervosas. A movimentação inquieta foi como o rufar de asas de mil pombos. E se imprecações fossem ali permitidas, teria havido uma chuva delas. Um misto de revolta, surpresa e negação tomou a mesa. Indignados, os presentes trocaram rápidos olhares inflamados e perscrutadores. Todos, exceto um.

Cujos olhos baixos não revelavam brilho algum, mas cujo peito ardia como se tentasse abrasar uma fogueira de chamas ágeis enquanto se esforçava para suportar o calor. Absorto em ideias inflamadas, não deu pela mão que se ergueu espalmada da cabeceira. Só voltou a si quando o silêncio retornou à mesa, como um convidado que chega atrasado. Todos tinham os olhos cravados na cabeceirada mesa. Da cadeira de espaldar alto, o mestre reforçou: "Esta é a última ceia em que estaremos todos reunidos. Em verdade vos digo: antes que cante o primeiro galo, um dentre vós me trairá". Não olhava diretamente para ele, apenas corria os olhos por todos, de maneira igual. "Um dentre vós me trairá e assim há de ser, antes que brilhe a luz sobre a Terra".

"Mas, mestre, tem de haver um engano. Quem dentre nós seria capaz?"

"Acaso antes enganei-me? Um dentre vós me trairá e assim será, para que o mundo seja mundo".

Podia sentir no peito o ardor crescer, como se um tição revolvesse-lhe as brasas fazendo subir-lhe chamas.

"Não temais. A aurora trará um novo tempo, de separação, mas glórias maiores. Para agora e todo o sempre, enquanto o mundo for mundo".

O pescoço já lhe ardia com o erguer das chamas, o ar ficava abafado à sua volta, o sangue lhe fervia. A cabeça lhe doía e o peito ameaçava explodir.

"Um dentre vós me trairá e com a traição virá a aurora. É chegada a hora".

Ergueu os olhos injetados e deu com os do mestre lhe olhando da ponta da mesa. Ardendo, levantou-se assombrando a todos. Sentia-se como se a pele fosse o barro do ventre de uma fornalha. Foi até a ponta da mesa — coxeava já um pouco da perna esquerda — inclinou-se sobre o homem na cadeira de espaldar alto e lhe beijou a face, fria ao contado de seus lábios quentes. Com os olhos chamejantes, imaginou um sorriso invisível e nos olhos dele, pensou ter visto compreensão.

Deu as costas à mesa e foi-se, coxeando rápido. O peito já se incendiando. As labaredas começavam a subir-lhe a pele em línguas de fogo a lamber-lhe os braços, as costas, as asas. Alguns dos outros que estavam à mesa se apiedaram. Levantaram-se e o seguiram. Alguns ainda capazes de lançar um olhar frustrado e rancoroso à mesa que ficava para trás. Miguel fez menção de levantar-se, a mão já à bainha, mas a mão que veio da cabeceira da mesa lhe tocou o ombro, conciliadora.

Coxeou com o corpo a queimar, seguido de longe pelos outros. As penas chamuscadas caindo ao chão, a testa latejando. Da beira da existência olhou para baixo e viu a Terra pequena, distante, perdida no escuro. Mal suportando o último passo, atirou-se no espaço enegrecido. Um lume na escuridão. Rebentou-se em chamas, ardeu e luziu como o fogo que se ergue do ferro quente golpeado. E na escuridão se fez luz. A Terra então, pela primeira vez, iluminou-se. Os outros, atrás dele, já se precipitavam também tomados pelo fogo dos caídos, mas próximos dele, que ardia em fulgor, eram ofuscados e pareciam apagados; brilhando apenas quando ele se distanciava, do outro lado do orbe. Assim, passou ele a ser. Uma luz na escuridão, a escuridão para a luz. E com a luz da primeira aurora, cantou o primeiro galo, a antífona do traidor.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A Última Geração

Quis a fortuna que optasse eu por passar meus últimos dias à beiramar. Não deve demorar agora, mas não há do que se arrepender e contento-me com a ideia de ter podido acompanhar estes últimos eventos. Se fosse de outra forma, creio, não faria muita diferença. Muito menos para mim. E aquilo foi a coisa mais assombrosa que vi. Você certamente não verá. Porque você provavelmente nunca vai existir para ler esta carta, seja lá que for você. Eu sou a última geração.

Acordei cedo naquele dia, como de costume. Tomei o desjejum e saí para caminhar na areia. Naquele dia vi o primeiro sinal. A areia ainda tinha a marca molhada da maré, que agora estava lá embaixo. Bem lá embaixo. Contei cinco barcos pesqueiros pequenos na areia, deitados de lado, quilhas à mostra. Mais alguns encalhados na maré baixa, mastros inclinados balançando quando as marolas estouravam sob os cascos quase completamente aparentes. Os pescadores reunidos em grupos tentando retornar os barcos à água ou imaginar o que havia acontecido. Aproximei-me aos barcos, as âncoras expostas atiradas na areia, e fiquei vendo o mar com os pescadores. A maré nunca esteve tão baixa. Caminhei até a espuma branca e deixei que lambesse fraca meus pés. Virando-me pude ver a sacada do meu apartamento de frente para o mar. A faixa de areia que nos separava estava com o dobro do comprimento habitual.

Lembrei da única história que já ouvira em que a maré havia recuado tanto do dia para a noite. Nesse caso, da noite para o dia. Olhei fixo no mar, além da rebentação, em busca de algum sinal, mas as vagas pareciam querer se retirar escondendo um segredo. Lembrei das polinésias, do Pacífico, daquelas cenas que abalaram o mundo em telejornais aproveitadores. Devo ter deixado escapar a palavra por entre os lábios numa expiração: “tsunami”. Olhei em volta. Dois pescadores me olharam com dúvida. Já havia juntado bastante gente para ver o mar. Aposentados, patricinhas, atletas, velhos de pulmões condenados que tossiam sangue antes de ir caminhar na areia. Por um momento, juro, pensei em não avisar. Deixar que viesse, aguardar a chegada no meio de toda aquela gente. Mas logo vi um casal de uns trinta e tantos, quarenta anos, discutindo a possibilidade. Eles perceberam que eu os olhava. A vantagem de ter poucos mas alvos cabelos à cabeça e muitas e profundas rugas à cara é que, se você consegue evitar uma aparência senil-babona, as pessoas acreditam que o você tem a dizer tem realmente alguma valia. Fiz cara de sábio pra justificar as expectativas deles e confirmei as suspeitas que levantavam. Acrescentei: “Para a maré já ter recuado tanto, já deve estar a caminho”. Depois de alguns segundos de choque, os gritos de tsunami correram a praia. Um pequeno grupo se organizou para evacuar o local e avisar os moradores próximos enquanto o restante correu em pânico para longe do mar. Mas se você tossisse sangue pela manhã e sua melhor perspectiva fosse uma cama de hospital, você também não teria tanta pressa.

Logo estava praticamente só na praia, a marola me tocando os dedos dos pés prenunciando o que estava por vir. Além de mim, apenas dois teimosos e ignorantes pescadores ainda mexendo nos barcos e um outro terceiro, tão teimoso quanto eles, tão velho quanto eu. Olhou-me com o que pensei ser cumplicidade — mas já não tenho tanta certeza — e ficamos, distantes um do outro, olhando o mar. Passou muito tempo. As ondinhas débeis já perdiam força a alguns centímetros de meus pés, nem os tocando. Depois de um tempo o velho acendeu um cigarro e saiu caminhando ao longo da faixa de areia, sem pressa. Quando deu dez horas mais ou menos os homens já tinham conseguido fazer os barcos ao mar. As vagas pareciam as mesmas de sempre, apenas mais distantes. Retornei ao apartamento perdido em pensamentos.

Preparei um almoço rápido e fui à sacada olhar as ondas ao longe, de cima. Apenas uma infinita planície verde espumante. Um ou outro barco percorrendo-lhe as trilhas atrás dos cardumes. Ao chegar da noite, os barcos que tinham os cascos levemente banhos por águas rasas já estavam completamente deitados na areia praticamente seca. As âncoras paradas no mesmo lugar. A dúvida dormiu comigo aquela noite.

Acordei mais cedo do que de costume. Mal percebi-me desperto, corri à sacada. Do meu apartamento se estendia uma enorme faixa de areia. Quatro ou cinco vezes maior do que havia na véspera. Quase duas dezenas de barcos estavam pousados na areia, distantes da água, qual uma carçassa ressequida. Na extensa praia, uma pequena multidão de pescadores e curiosos tentava decifrar o fenômeno. Desci à praia e fui ao mar afastado. Devo ter levado uns dez minutos até sentir a água fria nos pés. Com as mãos em concha capturei um pouco do líquido. Passei provei o gosto, lavei o rosto. Olhei para o apartamento, já pequeno. Olhei de volta para o mar, infinito como sempre. Agora mais do que nunca, um mar de dúvidas. A praia, cheia de indagações, com nenhuma solução ou conclusão. Na areia algumas poucas estrelas do mar, ouriços em pequeno número, aqui e ali. Uma rede de pesca estendida no seco com uns poucos peixes apanhados. Não demorou uma hora para que começassem a aparecer as câmeras, os microfones, as autoridades. Especulações.

Tomei o meu café na sacada, olhando o mar lá longe e a praia cheia. A tevê ligada na sala trazia especialistas e charlatões tentando analisar ou aparecer. Todos com o mesmo sucesso nulo em descobrir uma explicação. Fui buscar mais uma xícara quando vi na TV a imagem de uma enorme vala sobre a qual passava uma ponte cheia de gente. No fundo da vala um lodo lamacento e um fio de apenas dois palmos de largura, de água. Era a ponte que cruzava o rio que dividia a cidade do município vizinho. As estações de tratamento já não estavam sendo abastecidas. Poucos córregos e rios ainda tinha água suficiente para encher os tanques. O mar havia se recolhido em toda a costa. A água estava desaparecendo. E não como uma força de expressão ou papo de ambientalista. Ela estava, de fato e simplesmente, desaparecendo.

Fui ao mercado para descobrir que não fui o único que teve a ideia. Consegui levar apenas algumas garrafas entre uma turba em busca de água para estocagem. Na fila e na confusão ouvi que os outros afluentes do rio também estavam secando. Nas cidades vizinhas o mesmo acontecia em rios diferentes. Voltando para casa vi um grupo de cinco homens enchendo garrafões na fonte em frente à prefeitura. Voltei para casa, abri as torneiras e enchi baldes e panelas. Na TV, praias do mundo inteiro recuando. Rios desaparecendo. Lagos virando crateras. Não demorou muito e o mundo todo estava secando como seu um ralo tivessesido destapado.

Agora já faz bastante tempo. Mais de duas semanas. Do lado de fora do meu apartamento um grande deserto de areia se estende até o horizonte. Dezenas de barcos no meio da areia seca. Fora de vista, centenas, milhares. Alguns dos pescadores resolveram seguir o mar onde o mar fosse. Fizeram os barcos à água e ficaram sempre em águas rasas, próximas da costa. A medida que o mar recuava, eles avançavam. Hoje não sei onde estão. Na TV vi o Everest coberto de pedra. O gelo havia sumido. Os alpes andinos com estações de esqui sobre montanhas castanhas. As plantas, claro, começaram a morrer. Toda a cadeia alimentar logo começou a desmoronar. Fernando de Noronha tornou-se uma montanha. Gibraltar já podia ser cruzado a pé, como vários outros pontos. Imigrantes ilegais começaram a simplesmente andar a outros países. Em busca de água ou de um sonho inútil. O Mar Vermelho foi novamente atravessado. As religiões, não é preciso dizer, foram todas à loucura. O Mar Morto virou uma enorme cratera de sal. Os pólos praticamente sumiram e toda a confusão que os cientistas previram quando isso acontecesse, na maior parte aconteceu. Frio, calor, era glacial. Tudo está começando. Hoje, parece, poucos são os lugares que ainda tem alguma água, mesmo que salgada e não potável. Equipamentos para tornar o líquido potável trabalham sem parar. Pela manhã uma reportagem acompanhava um homem de jipe a caminho da África. Foi barrado por uma cadeira de montanhas, mas ao que tudo indica, se não fosse por isso até poderia ter conseguido. O maior reservatório de água que resta são as Fossas Marianas, guardadas pelo governo americano sob supervisão da ONU. Mostraram uma foto de satélite. A Terra vista do espaço está marrom. Entre os continentes, enormes desfiladeiros. Os rios quase todos se foram. O Brasil ainda guarda o que resta do amazonas, agora só um fiorde inexpressivo. O Nilo parece que foi assumido pela União Européia. O Yang-Tzé está cercado, da forma possível, por tropas chinesas, mas oferece ainda menos esperanças, mesmo para a China. Agora não há nada mais o que fazer. A água que me resta cabe em uma garrafa. Deixo essa carta apenas para mim. Ninguém mais vai lê-la. Não haverá mais ninguém. Eu vou, pela última vez, em busca do mar. Parto a pé, pelas areias que se estendem do lado de fora do meu apartamento. Uma última marcha de um planeta que se vai. A última geração.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A Obscura Morte do Sr. Poe

"Prezado Dr. Snodgrass,

Há um cavalheiro aqui no Ryan's 4th, em muito lastimável estado, que responde pelo nome de Edgar Allan Poe e que diz conhecer o senhor. Asseguro-lhe de que ele necessita de cuidados imediatos. Aguardo-o com urgência,

Joseph W. Walker.
03 de outubro de 1849"

Dentro do coche, Henry Herring relia a carta percorrendo a caligrafia apressada do Sr. Walker, imaginando o que agora estaria se passando com o sobrinho. Ao seu lado, o Dr. Snodgrass olhava-o com pesar, imaginando — ou tentando imaginar — o que se passava sob o cenho franzido do amigo. Os dois embalados pelos solavancos noturnos das ruas de Baltimore, iluminadas pelos candeeiros recém acesos. Do lado de fora, os prédios rentes às calçadas debruçavam toldos à sua passagem e um ar frio soprava da baía trazendo burburinhos arrulhados pelo vento. O Sr. Herring dobrou o bilhete com cuidado e, depois de um tempo, retornou-o ao seu destinatário.

— Fez bem em me chamar.

O Dr. Snodgrass tomou o papel e colocou-o no bolso da casaca, apenas acenando com a cabeça, em resposta. Seguiram o resto do caminho em silêncio. O coche começou a passar pelas bandeirolas vermelhas, brancas e azuis penduradas nos postes, das janelas e por sobre a rua. O barulho da baderna e bravatas já chegava e, longe, pode-se ouvir um estouro. Se de algum foguete de comemoração ou algo menos festivo, era difícil dizer. Logo as paredes dos comércios pelos quais passavam os viajantes começavam a revelar alguns cartazes de "vote" e palavras de ordem. Quanto mais se aproximavam do Ryan's 4th, mais o clima de eleição se acentuava do lado de fora das janelas abertas.

A taverna estava movimentada. Um entra e sai de todos os tipos, na maioria em grandes grupos. Membros de partido comemorando ou vociferando contra os adversários. O coche parou do outro lado da rua. Os dois passageiros desceram pelo lado da calçada. Sapatos lustrados de pontas arredondadas, chapéus escuros de aba curta e casacas até pouco acima dos joelhos. O Dr. Snodgrass ajeitou os óculos de aro redondo sobre o nariz enquanto o Sr. Herring conferiu o bigode bem aparado. Do outro lado da rua ouviu-se alguma imprecação contra os Whigs que rendeu alguma confusão com prováveis membros do partido citado. Os dois companheiros se olharam de lado mas, antes que pudessem tomar uma decisão, foram interpelados por um homem jovem, rosto imberbe, colete e boina de couro castanho, já com algum uso:

— Dr. Snodgrass?

Conferindo o bilhete que tinha no bolso, o Dr. Snodgrass respondeu com certa dúvida:

— Sr... Walker...?

— O Sr. Walker pediu para que eu viesse ao seu encontro. Ele está com seu amigo e parece preocupado. Sigam-me, por favor. É a casa aqui ao lado. As ruas estão muito confusas esta noite para aguardar do lado de fora com alguém... que não esteja tão bem de saúde — completou com cuidado ao ver os olhos interrogativos do Sr. Herring.

Os homens não comentaram nada mas seguiram seu guia. A casa realmente era próxima e logo estavam aguardando em um hall de madeira de cor canela, já com os casacos pendurados num cabideiro. Henry Herring tomou nas mãos uma bengala de corpo negro e esbelto, com ponteira de couro e uma cabeça de prata bem polida, que estava recostada junto ao cabideiro. A lateral do objeto estava coberta por uma leve crosta de lama já começando a secar, mas ainda pegajosa.

— É de Edgar?

— Já a usa há algum tempo, pelo que sei.

— Dr. Snodgrass. — Foram interrompidos por um homem de bochechas rosadas, bigodes fartos e olhos claros. A cintura larga amparada por suspensórios marrons que corriam sobre uma camisa social com as mangas compridas arregaçadas. Estendendo a mão cumprimentou o Dr. Snodgrass:

— Sou Joseph Walker. Fui eu quem encontrei o Sr. Poe. Por aqui, por favor.

— Obrigado, Sr. Walker — respondeu seguindo o homem — este é Henry Herring, meu amigo e tio de Edgar. Viemos assim que recebemos sua mensagem.

— Obrigado pelos seus cuidados com Edgar, Sr. Walker. E por sua presteza em nos chamar. Como ele está?

— Sr. Herring, receio que seu sobrinho não esteja bem. Veja bem, não sou médico, o que quero dizer é que não está nas melhores das condições. Por isso pedi que viessem com urgência.

Os homens percorriam os aposentos seguindo Walker.

— Agora o Sr. Poe está descansando. Acho que dormiu, finalmente. Encontrei-o ao lado do Gunner's Hall, digo, do Ryan's 4th, como devem conhecê-lo. Estava caído nas sombras na rua lateral, se levantando, quando o vi. Fui ajudá-lo ao que ele tentou me agredir com a bengala. Me confundiu, ao que parece, com um tal de Reynolds. Estava tão desorientado que o golpe não passou nem perto de me atingir. O teria deixado caído ali mesmo se não o tivesse reconhecido. Acompanhei alguns números do Broadway Journal — é uma pena, por sinal, que aquele projeto não tenha dado certo — mas, enfim, graças a isso reconheci o Sr. Poe e o trouxe para cá. Como ele estava sem carteira ou documentos, não havia outra forma de saber a quem chamar.

Pararam em frente a uma porta fechada:

— Apenas adianto aos senhores que o estado do Sr. Poe, como disse, não é dos melhores. Mas considerando as circunstâncias e o dia de hoje, não está muito pior que alguns dos estimados cidadãos de nossa cidade lá fora.

O chiste não despertou comentários e o Sr. Walker abriu a porta para um quarto pequeno com uma cama de solteiro e uma janela com uma fresta aberta. O Sr. Poe estava deitado sobre os lençóis. Numa cadeira ao lado da cama, um chapéu roto e mal acabado estava pendurado no encosto e, dobrado sobre o acento, um paletó já velho, desbotado e bastante desgastado. A calça, bastante larga, estava em igual estado, somada uma mancha de lama seca no joelho esquerdo. Os pés tinham sapatos de um couro opaco e sem vida, de um número claramente maior do que o necessário. Era como se o corpo dentro daquelas vestimentas tivesse de repente encolhido, murchado, como que minguando e desaparecendo para dentro de si mesmo. Lá fora uma noite agreste batia levemente nos umbrais.

— Pode ser uma bebedeira, só isto, e nada mais.

Os recém chegados não pareceram se sentir aliviados pelas esperanças gentis do Sr. Walker, vendo aquelas olheiras profundas no rosto pálido, ressaltando ainda mais a testa larga de cabelos pretos emplastrados em suor.

Quando o coche partiu, levou também em seu interior o Sr. Poe e seus pertences. Sr. Walker não aceitou qualquer recompensa por parte do Sr. Herring ou do Dr. Snodgrass. Solicitou, apenas, que, se não fosse muito incômodo, que o Sr. Poe lhe pudesse fazer uma visita após sua recuperação para que pudessem, os quatro cavalheiros, desfrutar de um chá ou café qualquer dia desses. Dr. Snodgrass sorriu afirmativamente enquanto o Sr. Poe era amparado pelo tio. O coche partia em direção ao Washington College Hospital, deixando para trás o Ryan's 4th e sua algazarra de dia de eleição.

A inconsciência do Sr. Poe continuava, mas parecia respirar sem dificuldades, apesar do suor excessivo. A febre não era muito, mas mantinha-se. Apesar do ar frio do lado de fora, as janelas seguiram completamente abertas. Em parte para refrescar o Sr. Poe, em parte para minimizar o odor desagradável que exalava de suas roupas e pessoa.

Foram recebidos no hospital pelo Dr. Moran. Antes de qualquer exame mais aprofundado, antecipou, solicitaria uma permanência mínima de vinte e quatro horas para o paciente. Depois de vários minutos e poucos papéis preenchidos pelo Sr. Herring, o paciente Edgar Allan Poe já repousava em um leito próximo a uma janela basculante por onde se insinuava um luar azulado sobre as pálpebras fechadas que escondiam órbitas fundas e inquietas, de olhos acelerados, remexendo-se em sonhos inquietos de um sono profundo de águas escuras.

***

Longe podia ver as luzes de Baltimore se aproximarem devagar. Apoiado no parapeito recebia o ar no rosto pálido. Os cabelos despenteados alvoroçavam-se sobre a larga testa. Confiava aos bigodes negros pensamentos ainda mais sombrios. As águas escuras da Curtis Bay recebiam o Pocahontas que avançava a fumegantes baforadas na noite. Richmond agora ficara para trás. Na empunhadura prateada da bengala lustrosa observava o seu reflexo deformado. Lembrou do julho anterior em que havia estado em companhia do Dr. Carter em Nova Iorque e que, por descuido, trocara de bengalas com ele. O grasnar fantasmagórico de um corvo fez com sobressaltasse-se, sentindo um frio gélido e mortal subir-lhe a espinha. Umas gaivotas, negras contra o céu noturno, sobrevoavam o navio de modo agourento, girando em círculos como que evocando um enorme redemoinho que engoliria nas águas escuras o barco com todos os seus tripulantes. Achou por bem deixar o convés e procurar um lugar mais seguro no interior da embarcação. Entrou em sua cabine, trancou a porta e atravessou a penteadeira logo atrás. No local onde estava a penteadeira havia ficado apenas, na parede um espelho de moldura oval, lembrando um retrato. A imagem evocou-lhe um quadro agourento de Virgínia morta. Afastou os pensamentos, pegou tremendo, de um frasco sobre o criado-mudo, dois comprimidos e engoliu-os a seco, mastigando o gosto amargo entre os molares, ouvindo o ranger dos dentes, o triturar das peças, imaginando a cor marfim de trinta e dois dentes roubados caindo chacoalhando ao assoalho. Cuspiu em horror os comprimidos esfarelados e sentou-se abraçando os joelhos, com as costas nas paredes e olhos fechados com força.

O descer a rampa do Pocahontas apresentou uma figura distinta, de trajes bem cortados, chapéu negro elegante e sapatos brilhantes. Uma gravata um pouco torta e bela bengala. Só destoavam da elegância os olhos insones vermelhos de olheiras profundas, um brilho de suor sobre a pele do rosto e os cabelos um tanto bagunçados para aquela hora do dia. Seguiu a rua portuária se afastando do píer. Vagou pela cidade, por muito tempo, aproveitando as horas belas do dia, deixando que a mente passeasse de novo por aquelas ruas largas, vendo as árvores, os comércios, o vai-e-vem da urbe. Deixou que o sol lhe aquecesse o corpo e o que carregava dentro dele, que lhe expurgasse as sombras das noites mal dormidas, dos dias, semanas — meses, talvez? — em que vinha vivendo naquele estado de nervos. Vagou por toda a manhã e decidiu que visitaria o bom Dr. Brooks à hora do almoço. Quem sabe lhe fizesse bem um pouco de companhia durante a refeição. Bateu à porta por repetidas vezes, sem resposta. Decepcionou-se e comeu sozinho uma refeição frugal e rápida em qualquer lugar.

Os cartazes das eleições decoravam os cafés, lojas e tavernas. Carros passavam pedindo votos a candidatos e as bandeirolas coloridas se espalhavam pela cidade. O barulho o desorientava e ficara feliz por saber que partiria em breve para a Filadélfia. Quem sabe depois continuasse mesmo até Nova Iorque. Poderia devolver finalmente a bengala do Dr. Carter. Vagou pela cidade, encontrou um par de conhecidos, uma aqui outro acolá, agradeceu educadamente as boas impressões recebidas de alguns de seus livros e logo procurou os arredores da cidade, evitando o incômodo contato com alguém que pudesse lhe reconhecer. Achou que tivesse sido novamente reconhecido por dois homens corpulentos que lhe olharam do outro lado da rua. Mas ao contato com os olhos fundos do escritor, disfarçaram e fingiram conversar entre si. Um receio começou a tomar conta do Sr. Poe. A mão esquerda já tateando dentro do bolso o frasco de comprimidos, a garganta lhe secando. Apressou o passo e tentou afastar-se dos homens enquanto lhes sentia os olhos quentes na nuca. Dobrou uma esquina, recostou-se contra a parede de tijolos e abriu nervosamente o frasco. Atirou dois comprimidos para dentro da garganta sem se preocupar em mastigar. Ouviu um miado longo e agudo e saltou para longe da parede, olhando-a com olhos arregalados e dentes expostos num esgar de pânico. Uma senhora próxima assustou-se com a cena e apertou o gato de estimação no colo, fazendo o bichano saltar para o chão. O sol baixo do fim do dia projetou sua sombra negra e felina na parede de tijolos. Quando um grito ia escalando pela garganta, o Sr. Poe foi alertado por um brado mais grave e mais alto, logo ao seu lado:

— Cuidado!

Por pouco não foi atropelado por um par de cavalos que puxava velozmente uma charrete de duas rodas. O chapéu lhe voou da cabeça revelando os cabelos em pé. "Maluco!" foi o que gritou alguém de dentro do veículo. Aos olhos acusadores dos que estavam em volta, saiu a passos largos cortando as ruas de Baltimore. O corpo quente em contraste com o vento que vinha frio da Curtis Bay. Sentia arder os poros e pode imaginar pequenas chagas rubras, como uma peste a lhe cobrir os poros em sangue a verte-lhe o pouco da mal fadada vida que lhe restava, como que uma peste transmitida por um vulto sem rosto. Viu-se golpeando novamente a porta do Dr. Brook a ponto de chamar a atenção de um vizinho.

— O Dr. Brook não está na cidade.

O vizinho arrependeu-se de revelar o fato ao ver a aparência deplorável do visitante, parecendo intoxicado, diria mais tarde, num eufemismo para bêbado, louco ou drogado, como for do agrado do ouvinte.

— Mas a casa está muito bem guardada pelos vizinhos, não se preocupe. — Disse em complemento.

A noite caía e o Sr. Poe resolveu tomar o caminho mais curto para a primeira pousada que prestasse para passar uma noite de descanso, ao menos. Próximo ao local em que estava só encontrou uma velha pensão guardada por uma senhora quase tão velha quanto. Alugou um quarto mofado e com manchas de umidade nas paredes, por falta de um que não as tivesse. Lá fora o vento frio soprava enquanto o Sr. Poe imaginava se ele não entraria pela janela para lhe gelar e matar como num reino ao pé do mar. Assim, em sonos breves e entrecortados passou a noite, vendo nas paredes figuras bizarras que renderiam ainda algumas histórias, se imaginasse que ainda escreveria alguma. Mas da janela, um rufar de asas lúgubres parecia contestar: "nunca mais".

Passou a maior parte do dia seguinte no quarto, a suportar os calafrios que lhe percorriam o corpo, assoando o bigode melecado com um lenço sempre que preciso. Quando saiu já era a tarde do outro dia. Caminhou pelas ruas e decidiu que compraria a passagem para a Filadélfia e deixaria Baltimore em breve. Passou por uma taverna. Como a maioria delas, era também o local de votação. Pensou na sensação do líquido quente lhe descendo pela garganta, mas numa réstia de força de vontade seguiu em frente. Comeu um sanduíche para aplacar o estômago que reclamava da acidez dos comprimidos da noite anterior, ainda vazio. Quando chegou na estação pediu uma passagem para Filadélfia para o dia seguinte. Separou, de um grande maço, as notas referentes ao valor e entregou ao vendedor. Trazia sua mala de mão e a bengala do Dr. Carter. Quando virou-se para sair esbarrou em dois homens que estavam atrás de si na fila. Desculpou-se e viu os olhos dos homens se deterem por alguns segundos no maço de notas que guardava no interior do casaco. Saiu desconfiado afastando-se dos trens.

Passando por uma ruela viu um dos cartazes das eleições falando do candidato dos Whigs e lembrou de seu primo Neilson. Estaria provavelmente envolvido com os preparativos das eleições e morava no outro lado da cidade, mas era a quem talvez pudesse recorrer, caso necessitasse. O cartaz foi, por uns momentos, coberto por uma sombra que surgiu e logo desapareceu furtiva na escuridão que caía e se adensava. Os candeeiros que se acendiam deitavam uma luz fantasmagórica ao lugar, como fogos-fátuos por entre tumbas. O Sr. Poe pensou ter ouvido passadas cuidadosas e achou por bem acelerar o passo. As passadas atrás de si pareceram também acelerar. Praticamente correndo dobrou uma esquina no que foi agarrado no pulo por um braço forte que saiu das sombras entre dois prédios. Logo, outro homem dobrou a esquina rapidamente e desapareceu também na sombra entre as construções.

A cabeça latejava e girava. O ar cheirava a álcool e láudano e a um passado que parecia querer retornar. O estômago reclamava ácido. Quando os olhos se acostumaram à escuridão percebeu-se deitado numa cama improvisada no chão. Sentou-se. Ao seu redor os dois homens estavam sentados sobre barris de madeira simples, iluminados pela luz de uma lanterna a óleo. Um deles estava com um broche dos Whigs.

— Não me importa se você já votou hoje — um deles começou — Você já está com outras roupas e ninguém vai perceber se você votar novamente. Você vai lá, vai votar pelos Whigs, retorna aqui, troca de roupa e vai votar uma outra vez ainda. Depois você pode pegar a sua maleta, com suas roupas e dar o fora daqui, entendeu? É só ir lá e votar pelos Whigs. E não pense em nos enganar, o mesário estará conferindo os votos.

Colocaram-lhe na lapela um broche igual ao do homem que falava. Repetiram as ordens mais duas vezes, ofereceram mais um trago de uma garrafa que tinham na mão, que o Sr. Poe recusou com a impressão de já sentir, mesmo assim, o gosto do conhaque à boca.

— Estas eleições são muito importantes. E nós não lhe queremos mal algum. Basta fazer como o combinado e o senhor poderá sair sem problemas, ok senhor...?

— O homem lhe perguntou seu nome senhor, seria sensato se respondesse. — completou o outro com uma cara de rufião.

— Poe, o nome é Poe — respondeu o assustado Sr. Poe.

Os dois homens se olharam com certa surpresa e dúvida no olhar.

— Espere aqui que já voltaremos, Sr. Poe — e saíram da sala de paredes úmidas de pedra e limo.

Ficaram alguns bons minutos longe, quase meia hora, provavelmente. As paredes pareciam escorrer uma salinidade maligna e úmida por entre as pedras. Os grandes blocos pareciam se curvar opressivamente sobre o abalado Sr. Poe. A cabeça girou com cabelos desgrenhados projetando sombras monstruosas nas paredes insalubres. Os barris de madeira à sua frente pareciam sentinelas. Imaginava que vinho lhe habitava as entranhas. Sons ecoavam das paredes lembrando murmúrios ébrios emparedados, guardados pelos barris. Pareceu ter ouvido o som de grilhões. Conferiu assustado os punhos: livres. O som parecia vir das paredes ou de algum lugar distante além delas — ou dentro delas. O horror foi tomando conta do espírito já abatido do Sr. Poe que, cambaleante, foi até a porta de madeira e deu-lhe duas batidas como que chamando alguém. A luz da lanterna pareceu ter sido bloqueada por um instante por uma forma humanóide de fronte larga e peluda, vista apenas nas sombras projetadas. Em horror, com o espírito em frangalhos, o Sr. Por se virou para uma sala opressora e escura, de paredes úmidas e sombras que poderiam esconder monstros inimagináveis. Virava a cabeça de um lado a outro, alerta. Conseguiu ver, por outro momento, a sombra de pelos eriçados movimentar-se numa das paredes do fundo. Começou a imaginar longos braços cobertos por pelos acastanhados, uma fronte larga com olhos bestiais, mãos poderosas lhe erguendo pelos cabelos. Virou-se num grito agudo e desesperado, golpeando a porta com mãos, pés e ombros, num desespero crescente. Ouviu os ferrolhos da porta se abrindo e se afastou por um momento. Assim que a porta se abriu o suficiente saiu com a velocidade que ainda conseguia imprimir às pernas bambas, mas foi parado sem muita dificuldade pelo homem com cara de rufião que havia estado com ele há pouco. Foi atirado de volta ao chão do catre e mais dois outros homens entraram. Um deles é o que havia falado com ele antes, que portava um broche. O terceiro homem ele desconhecia.

— Reynolds, seu imbecil! — Disse o terceiro homem.

Reynolds, aparentemente o rufião, se encolheu com desagrado e olhos irados para ele e para o Sr. Poe. O homem do broche se aproximou do Sr. Poe, tirou-lhe o broche da lapela e começou a ajudá-lo a se levantar, enquanto o terceiro homem continuava:

— Esse é o primo de Neilson Poe, seu imbecil! Não há a menor chance de ele votar mais de uma vez sem ser reconhecido. O homem é escritor, volta e meia está nos jornais, por Deus!

Dirigindo-se ao Sr. Poe, já de pé, os olhos afundados nos fundos das órbitas e os cabelos alvoroçados, braços e pernas tremendo, as mãos tateando em vão os bolsos em busca de algum alívio químico:

— Perdoe-nos, Sr. Poe. Houve uma grande confusão, o senhor já pode ir embora. Pensamos que fosse... outra pessoa.

O homem do broche já lhe entregava sua maleta e a bengala de empunhadura prata, agora já suja de lama. Mantinha agora os olhos baixos.

— Reynolds, acompanhe o Sr. Poe à saída — e completou em voz baixa, apenas para o homem — e leve-o direto à estação. Com sorte ele vai embora e evitamos problemas com Neilson.

Deixando o cárcere, o Sr. Poe olhou por sobre os ombros. Viu o terceiro homem e o homem do broche conversando à luz da lanterna. Não pôde rever o vulto peludo de braços longos mas ainda ouvia os murmúrios das paredes suando a salitre e imaginava que pobres almas estariam ali encarceradas. O corpo cambaleante recebeu o ar frio da noite de Baltimore como uma estocada violenta. Quando as pernas fraquejaram, foi amparado por Reynolds. Desvencilhou-se assustado, empurrando o homem com o cabo da bengala contra o peito, quase colocando-o contra a parede de tijolos à sombra da iluminação do noturna. Reynolds, com uma expressão de desaprovação e raiva, agarrou o cabo da bengala e o puxou para si dizendo:

— Eu deveria surrar-lhe com isso!

O Sr. Poe tentou ainda, como pode, manter a bengala em mãos e, com um puxão de cada lado, ouviu-se um clique metálico de uma trava oculta. O corpo lustroso de madeira escura da bengala do Dr. Carter deslizou suave e escorregou revelando, como uma bainha que desfralda a espada, uma brilhante e prateada lâmina delgada de corte único e ponta aguda. O metal intocado refletiu os olhares surpreendidos de Reynolds e do Sr. Poe. Os homens olharam a lâmina fria e olharam-se. Reynolds, num impulso, usou o cabo da bengala que tinha em mãos para afastar a lâmina e tentou agarrar o Sr. Poe. Mas, à visão da arma em punho, o braço recobrou a destreza e, com um movimento circular, desvencilhou-se do corpo da bengala empunhado por Reynolds e foi cravar a ponta aguda no torso do rufião que aterrissou de costas contra a parede. O braço ainda recuou e avançou mais duas vezes, tingindo a roupa de Reynolds de um escarlate que se espalhava pelo tecido. A ponta da lâmina permanecia dentro do peito de Reynolds enquanto na outra ponta a empunhadura prateada pousava na mão relutante do Sr. Poe. O silêncio naquelas sombras era completo. Os olhos arregalados do rufião abatido encontravam as órbitas já quase vazias do escritor. A lâmina parecia vibrar a cada batida vacilante e fraca do coração que suspirava seus últimos ais. O som das batidas, lentas, ritmadas, era tudo o que se ouvia e preenchia os ouvidos e o espírito do destroçado Sr. Poe. tum-tum. tum-tum. Um coração na noite, apenas. Aqueles batimentos que preenchiam a noite e pareciam gritar em acusação.

Olhou em volta para se certificar de que ninguém estava vendo, ou para pedir ajuda, ou com medo de longos braços acastanhados. Um rufar de asas negras e um distante miado apenas responderam ao coração delator. Mas maior horror conheceu o Sr. Poe quando tornou a olhar o corpo fisgado na ponta da espada e no lugar de Reynolds viu sua própria figura, quase como um espelho de si mesmo, de olhos fundos e perdidos, cabelos arrepiados, esgar de horror congelado no rosto. E uma lâmina espetada no peito.

Finalmente, como despertado de um pesadelo, o pobre Sr. Poe recobrou o que pode dos sentidos e tirou a lâmina da figura à sua frente. Tomou o corpo da bengala e reembainhou a lâmina. Partiu apressado e aos tropeços sem olhar para trás, sabendo que de agora em diante também estava morto... morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança. Abandonado de qualquer réstia de luz, sabia que havia assassinado absolutamente a si mesmo.

Dobrou uma esquina com as pernas trêmulas fraquejando, com muito esforço se apoiando à bengala. Deixou cair a maleta que espalhou nas ruas conturbadas roupas e alguns papéis. Contornou um prédio coberto por cartazes de eleição, seguiu pela rua já um pouco mais larga e o joelho acabou vacilando. Um senhor de ampla cintura e olhos claros se aproximou e tocou o ombro para ajudar-lhe a se levantar, mas foi repelido por uma bengalada cega e instintiva que passou ao largo, derrubando o já desequilibrado Sr. Poe. Os olhos vazios e o espírito alquebrado não suportaram mais as emoções e o corpo cedeu amparado pelo Sr. Walker ao lado do Ryan's 4th.

***

No hospital o Sr. Poe intercalava estados de inconsciência com de consciência delirante. A febre não apenas não cedia como havia aumentado por algumas vezes. Debilitado ao extremo, quando consciente o paciente ainda se mostrava muito excitável e qualquer emoção lhe iniciava uma espécie de breve a intenso frenesi que acabava por culminar num desmaio de muitas horas. O próprio Sr. Neilson Poe veio visitar o primo mas foi impedido pelo Dr. Moran de ver o paciente que estava em estado muito frágil.

Era noite de sábado. A noite agreste novamente aguardava silenciosa do lado de fora da janela basculante. Um grasnar longínquo reverberou nos umbrais do hospital. No quarto vazio, ouviu-se baixo um tum-tum. O som se repetiu. O Sr. Poe abriu os olhos sonolentos devagar. tum-tum. Olhou para o teto branco e alto. tum-tum. Parou por um momento, prendendo a respiração e, em silêncio escutou a noite. tum-tum. Num pulo pôs-se sentado na cama com as costas contra a cabeceira de metal branco. Assustado olhou para o quarto vazio. tum-tum. Ouviu em espanto o som daqueles batimentos novamente. tum-tum.tum-tum. O som de um coração pulsante, vingativo, delator. tum-tum.tum-tum.tum-tum. Parecia vir do assoalho logo ao lado da cama. tum-tum.tum-tum.tum-tum.tum-tum.

O Dr. Moran ouviu um grito bestial de seu escritório. Quando chegou ao quarto do Sr. Poe viu o paciente sendo contido por um enfermeiro. O corpo magro e consumido pela convalescença evidenciando ainda mais o crânio pronunciado por baixo do rosto drenado de vida, os olhos arregalados em pavor insano e dos lábios um grito animalesco fazia vibrar o bigode desalinhado repetindo "Reynolds!" enquanto apontava para o chão como se visse um espectro a se levantar da tumba com garras verdugas. Reynolds! tum-tum. Reynolds! tum-tum-tum.

tum-tum.
tum-tum.
O relógio começou a primeira de cinco badaladas seguidas na madrugada do dia sete de outubro de mil oitocentos e quarenta e nove. tum-tum.tum-tum. O Sr. Edgar Allan Poe suspirou pela última vez, muito baixo, a ponto de ninguém ouvir, "Reynolds" e, num esforço final, suplicou finalmente:

— Que o Senhor salve minha pobre alma.

Pode ainda, por um breve e último instante, com os olhos vítreos mirados ao teto, imaginar toda a construção do hospital desabando, as largas paredes ruindo sobre ele, como um último sepulcro de um fim em ruínas.

tum-tum.
tum.

tum.

Não escreveu nem citou mais sentença alguma.

Nunca mais.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

...

poema é uma palavra
correndo
pelada na chuva

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Samurai


Fazia bastante tempo que não postava uma ilustração. Esse aqui é meio antiguinho. O arquivo acusa data de 2006. Ao lado vai também a versão em grafite. O fundo foi feito com um pincelzão tosco só pra criar um ambiente em cor. Dá pra perceber como as cores ficaram sem luz... Acho que faltou contraste. Os traço também ficou meio bruto, grosseiro. Mas é uma boa desculpa pra atualizar sem precisar criar um texto :P

Falando nisso, o Duelo de Escritores voltou de férias. Amanhã já vem o segundo tema do ano. Se quiser saber qual é, é só clicar aqui, ó.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Borrão

transpira
transpira
sua (e soa)
e borra
o poema
que te escorre entre as pernas

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A terra vazia e vaga de Werner Neuert



"Não adianta nada ficar escrevendo
se não desvendar os fragmentos podres
ou a luz mais branca."

— Werner Neuert




Encontrei um exemplar de A Terra estava vazia e vaga, de Werner Neuert, em um sebo no centro da cidade. Já havia ouvido o nome do autor em um comentário aqui, outro ali, por um e outro amigo que também insistem em ler o que pelo Vale se escreve. Mas não conhecia nada a respeito do autor. Peguei o volume de capa negra sem ao menos saber que se tratava de um livro de contos. A orelha me dizia que Neuert era um autor do Vale — amigos haviam dito, de Indaial.

Na contracapa, branco sobre o preto, estava o que julguei ser um breve excerto de um conto do livro. Traçava a curiosa história de um protagonista sem nome, cidadão aparentemente exemplar, que um dia vai ao parque e encontra São Francisco de Assis. Conversa com o santo e, por isso mesmo, termina posto, pela família, em um hospital psiquiátrico. O santo também acaba lá.

O trecho me fez subir as orelhas — se uma pessoa pudesse fazê-lo, como os animais, eu teria certamente feito. Pouco mais tarde vim a descobrir: o breve trecho não era trecho. Era um conto completo. E não dos menores do livro. Em A Terra estava... Neuert é assim. Nunca tarda ao leitor encontrar o ponto final. Mas em muitos dos contos, não se engane o leitor, o texto continua muito além do último ponto. Há sempre algo que segue narrando, nesses textos de Neuert.

A obra traz retratos de tipos cotidianos. O cidadão anônimo cuja história muitas vezes se resume à sua miudeza. Ao seu viver e morrer e amar insignificantes. No conto de número 37 — que a maior parte dos contos são assim, anônimos, números apenas, talvez como quem os lê — lemos, na íntegra:

"Quando soube que teria pouco tempo de vida, foi correndo comprar flores para Luíza, há muito tempo desejava dar flores a ela".

Assim Neuert, com seus mini e microcontos volta e meia nos põe em xeque, nos volta a nós mesmos, refletidos em pálidos e breves momentos entre os tantos afazeres de nossas vidas irrelevantes. Como no 39º conto, em que conhecemos o trabalhador que ao abrir a marmita todos os dias ao meio-dia lembrava da amante e perguntava a si mesmo: "— Será que ela também faria comida pra eu trazer?" É o tipo simples, ou apenas indigno de nota, que parece mais atrair o autor. O esquisito da praça ou estação de qualquer cidade, como seu "Chapéu-de-Flores" (conto 87) que passa o dia a distribuir flores a desconhecidos, ou o homem que realiza o sonho ao comprar uma kombi que passa mais tempo na oficina do que circulando, o outro traído mas que ama incondicionalmente a esposa, o transeunte, o qualquer um, que vive, que goza, que se irrita. Que passa.

Neuert divide sua obra em várias partes temáticas, mas o livro pode ser dividido em dois grandes momentos. O primeiro comporta os 129 micro e minicontos sem título. Destes, destaca-se o humor mordaz de 91, em uma única frase: "— Opção sexual o cassete, se eu pudesse optar, seria hetero". A mesma estrutura de piada, simples como um conto de boteco, se repete em 31 e, mais rebuscada, no humor mais ácido de 25, onde um João, preso na ilha de Patmos, resolve, apenas para espantar o tédio, escrever "uns negócio aí", ao que é aconselhado: "—Não vá inventar polêmica". Esse diálogo da ironia ou do sarcasmo com o sacro é também recorrente, em A Terra estava... Retorna, por exemplo, em 76, com o espectador da missa de olhos fixos no Cristo crucificado, para mais tarde, ao retornar ao carro, comentar com a esposa "—Visse que o Jesus tá com o nariz torto?".

Mais humanos e viscerais, talvez sejam o conto de número 40, tangenciando a pedofilia dentro de casa, ou o conto 55 com a insegurança e falsa moral falocrática. Dentre esses breves contos, é preciso ainda destacar os de número 65 e 66, sobre livros, letras e diplomas; o encorpado 108 onde o filho orgulhoso apresenta a mãe sua tese de doutorado para receber em resposta "— Para que tantas palavras, meu filho?" e o mais explicitamente metaliterário 83, um dos mais poéticos e destaque deste trecho do livro, que reproduzo na íntegra:

"Abre essas palavras. Arranca o que tem lá dentro. Não adianta nada ficar escrevendo se não desvendar os fragmentos podres ou a luz mais branca. Aperta, esmaga com raiva até tirar toda a essência. Depois bebe com serenidade, como um santo. Bebe até cair ou despertar. Mas primeiro: abre essas palavras."

A Terra estava vazia e vaga conta ainda com um segundo momento, onde apresenta contos pouco mais longos, alguns ultrapassando a primeira página. Os contos deixam de ser anônimos, ganham título, ganham nome. Muitos, de pessoas. Aqui o autor parece lançar mão de um texto melhor estruturado, com grande força de imagens, muitas na fonte do surreal ou do fantástico. Neuert troca o impacto pelo envolvimento. O golpe direto e seco pelo enlevo da narrativa. Alguns dos temas se repetem, como em Kombi e Kombi II, Negão, Pedro, José, Luci ou Bach e Putas. Mas o destaque é força com que trabalha o surreal. Ótimos são Coceira com sua protagonista que na falta de um amor, ama-se a si própria até consumir-se; Bom dia borboletas, que traz o dia em que as pessoas começaram a expelir borboletas ao falar; o intrigante Azul onde um homem passa a ver tudo, de repente, em tons de azul. Tudo exceto a morte, que enxerga em cores normais, no cadáver na rua, no pôr-do-sol, na barata morta. O belíssimo e angustiante Seis bilhões, com toda sua falta de espaço, de tempo, de vida, repleto de excessos de tudo, exceto talvez, de paz e de si mesmo. Todos estes, de uma beleza imagética tocante, onde o autor lança mão de mais recursos poéticos e mostra que pode trafegar igualmente entre lagartas e borboletas. Como aquela que, colorida na capa negra criada por Denise Patrício para o volume, se esconde, ainda lagarta, dentro da crisálida. Ou como aquelas, na contracapa do livro, já lepidópteros alados metamorfoseados em cor sobre o fundo negro. A Terra de Neuert é vazia, vaga, mas cheia de borboletas.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Declamações



Declamações


nos teus ouvidos
....falo em romance
nos teus lábios
....falo em riste

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Retorno em vermelho e azul

Azul e vermelho. Azul e vermelho. Azul e vermelho. As cores se intercalavam na paisagem vista através do vidro fechado. O barulho, já nem ouvia mais. Lembrava a última vez que vira a paisagem naquelas cores, através daquele vidro. Já não sentia ódio — há algum tempo não sentia — estava como que adormecido. Havia algo no peito, no entanto, que pesava. Não identificou em princípio. Há muito não o sentia. Há anos. E lembrou da última vez. Também estava lá, apertando o peito, apesar de tudo. E lembrou-se. E sentiu, como não poderia deixar de ser, inevitável e fatídica, saudade.

O carro alugado em um quase desmanche do subúrbio não era o mais discreto. Não importava muito. Era um carro velho, barato e desconhecido. Provavelmente nem se importariam muito com alguma avaria. Até com a falta, vai saber. Olhou no retrovisor sem reflexo. Só um borrão manchado no espelho velho. Um espectro que dava apenas para imaginar onde ficariam os olhos bem mais enrugados do que há anos, uma barba não muito bem feita. Ao menos a roupa não estava tão mal. Era, na verdade, a melhor roupa que usava desde muito tempo. Desde vários anos. A sensação de usar uma roupa que não fosse igual a de todos os outros lhe causava um certo prazer desfrutado em silêncio, numa íntima satisfação de um agradável segredo. Olhou o relógio que já lhe incomodava o pulso — tanto tempo sem usá-lo! — conferiu as horas sem se importar muito, não tinha muito mais que o fazer. Ficari ali pelo tempo que fosse necessário, como havia feito nos últimos dias. A casinha azulada do lado de fora do carro era simples, mas bonitinha. Ou ela teria adquirido algum bom gosto, afinal, ou o marido que escolhera. A segunda opção, provavelmente. Ela deveria ter simplesmente ido morar com o coitado. Demorou algum tempo, mas eventualmente teriam de terminar. O rapaz havia entrado há já quase uma hora. Finalmente, a porta da frente se abriu e fechou-se em seguida, rapidamente, tempo apenas suficiente para deixar sair apressado um rapaz — surpreendentemente novo, por certo apenas alguns anos mais velho que ela — que logo se pôs em marcha apressada e distraída rua abaixo, ainda acertando a camisa por dentro do cós da calça. Saiu feliz, leve, como das outras vezes. Irritantemente leve.

O motor fez o capô trepidar, assustando apenas uns poucos pássaros na árvore ao lado que projetava uma sombra vasta na rua vazia de subúrbio. Colocou o carro em marcha e acelerou suavemente, medindo a distância. O carro foi ganhando velocidade devagar, sem despertar muito a atenção. Chegando aos setenta quilômetros por hora estabilizou o ponteiro tremulante do velocímetro. O pneu deu um solavanco quando acertou o meio fio, arremessando o carro alguns centímetros para o alto. O som assustou o rapaz, mas ele nem teve tempo de se virar. Antes que pudesse terminar o movimento, um farol arredondado lhe entrava pelas costelas enquanto um para-choque de metal lhe separava o joelho. Rolou por sobre o capô até atingir a coluna do para-brisas, no instante em que o carro fazia a curva para retornar à rua, deixando a calçada. Foi arremessado por sobre a cerca baixa de uma das casas próximas, indo aterrissar atrás das plantas do quintal. Só seria descoberto, provavelmente no outro dia, coberto de sereno e sujo de grama, um pé pra cá outro pra lá, numa posição de boneco de pano estropiado. O carro seguiu a rua e dobrou à direita na primeira quadra. Parou no outro lado em frente a uma entrada de garagem abandonada, sem um farol e com o para-brisas trincado. A chave, na ignição; a porta apenas encostada.

Azul e vermelho. Azul e vermelho. Azul e vermelho. A praça, trocando de cor, fez com que lembrasse do pobre do marido. Provavelmente pela estátua careca e de óculos entre as hortências. Careca tingida pela luz vermelha.

Nem lembrava muito bem como, mas ela estava de roupão — ou era um hobby não tão fino — azul. Os cabelos estavam molhados e cheirosos. Já não cheiravam ao rapaz, àquelas horas atirado num quintal vizinho. Nem ao marido, certamente. Nem a ele. A infeliz e irremediável certeza: há muito tempo não cheiravam a ele. Ela tinha a boca vermelha. Não era batom; não, não era. Era um corte no lábio inferior. Não no nariz, dessa vez, mas no carnudo, vermelho, lábio inferior, que ela deixava meio pendente da boca entreaberta de dentes pequenos. Ah, como ele lembrava daquele sorriso de dentes pequenos e boca vermelha! O sangue o fez lembrar da última vez em que beijou aqueles lábios. Ainda tinham sangue quando treparam no chão da cozinha da casa que já não era dele, naquela vida que já não era dele. Ela não sorria, agora, mas tinha nos olhos aquela mesma doçura quente, encolhida próxima à cabeceira da cama. O roupão deixava escapar uma perna bonita e bem depilada. Devia ter se preparado à espera do rapaz. Subiu os olhos pelas pernas imaginando o que mais aquele roupão escondia que ela havia preparado para o rapaz jogado num quintal próximo, casas abaixo. Semiaberta, a vestimenta revelava o arredondar dos seios já mais crescidos. O pescoço já não mantinha toda a vida da juventude, nem o rosto, ainda bonito, mas já aparentando uma mulher. Não era mais uma adolescente. Mas quando ela esboçou um pequeno sorriso, foi como se a mesma menina ressurgisse daquele ar jovial, fresco, pronto para ser colhido doce, úmido e suculento, sumo que escorria na boca e derretia por dentro, com todo o sabor de uma safra de apenas catorze anos. Ah, como ele se lembrava! Aproximava-se da cama devagar, a chave de rodas que trouxera do carro já pendia na mão ao lado do corpo, sem tensão, baixa, praticamente inerte. Perdia aos poucos a força. A determinação. Estava inebriado pelas lembranças e pelo reencontro com aquele corpo jovem e fresco que ele ainda via naquela, jovem, mas já, mulher. Despertou do transe apenas quando a porta se escancarou brusca. O homem careca de camisa polo e óculos abriu a porta. Chegou já raivoso. Com certa surpresa, viu a mulher seminua, coberta apenas pelo roupão, encolhida contra a cabeceira da cama enquanto o homem com a chave de rodas, de pé, ia em sua direção. Não sentia ódio pelo marido. Pena, no máximo. Era um pobre coitado, tinha certeza. Como ele havia sido. Mas não pôde fazer nada. O homem investiu contra ele. Atirou-o contra a parede, nem ligou para a chave de rodas que trouxera. Esta ensandecido. Qualquer um que passasse na rua veria pela janela a cena. Não teve muita opção. Se não fizesse nada o marido o atiraria janela a fora. Ergueu e depois baixou veloz a chave de rodas. Depois de dois golpes o homem estava caído aos seus pés, a careca vertendo sangue, tingindo de vermelho os poucos cabelos que lhe rodeavam. Não era tão velho, deveria ter sua idade, mais ou menos. A careca prematura sujando o chão de vermelho, dando tempo apenas de pronunciar, baixo, contra o chão um nome ou apelido de apenas duas sílabas idênticas. Não pôde suportar ouvir aquele nome saindo dos lábios de outro homem. Baixou mais uma vez a chave de rodas que ficou de pé, presa na careca vermelha. Olhou para a moça na cama sem saber o que dizer. Nos olhos dela, também não conseguia ler nada além de dúvida e curiosidade. E um corpo ofegante sob o roupão azul.

Era manhã, a rua movimentada apenas pelos carros saindo das garagens levando os donos aos trabalhos no centro. Ele já estava parado lá há algum tempo, como das outras vezes. O carro velho sob a árvore, não longe da casa. Não foi tão difícil assim achar a casa. Bastou uma busca na internet para descobrir, em um site de relacionamentos, Sara, a amiga que sempre visitava e ia tomar banho de piscina enquanto ele observava, ouvindo o gelo estalar ao uísque, as adolescentes se divertirem. Na lista de amigos da moça, lá estava ela. O sobrenome era outro, mas era ela, com certeza. Ao lado da foto, alguns dados. E o nome da loja onde trabalhava. Tinha até currículo. Ela não havia estudado muito, mas até que não se deu tão mal. Tinha casado, estava no perfil. Por isso o sobrenome estranho. No mínimo com alguém mais velho, podia apostar. Por volta da sua idade, provavelmente. Ou da idade que tinha quando se despediu dela pela última vez. De todo modo, não era nele que estava interessado. Precisava vê-la de novo. Aproximar-se dela de novo. Acertar as contas com aquele demônio curvilíneo que o mandou ao inferno. Foi à loja e ficou observando a fachada de longe. Viu quando ela saiu. Um pouco mais velha do que lembrava. Bom. Sabia que não poderia com ela se ainda tivesse todo o viço da juventude, esfregando-lhe na cara aquela doçura que o deixava desarmado e de pernas bambas. As roupas, no entanto, eram coloridas e conferiam-lhe algo daquele ar infantil-sensual maldito. Afastou os pensamentos. Pensou em correr até ela naquele mesmo instante e apertar-lhe o pescoço já não tão delicado. Ver-lhe os olhinhos arregalarem-se e aquele sorriso macabro que não lhe saía da memória desaparecer. Mas não poderia. Não suportaria retornar àquele lugar. Nem mesmo por causa dela. Estava agora se acostumando a usar roupas comuns. A ver-se vestido diferente das outras pessoas ao redor. Estava se acostumando a ver o lado externo dos muros, os sons da cidade. Não retornaria jamais. Nem por ela. Seguiu-a, então, a distância, até que ela entrou na casinha azul. Sorriu para si mesmo. Bastava entrar ali e enterrar-lhe a mão no nariz delicado e perfeito, ouvir o rebentar da boca deliciosa e o suspiro cortado pelo estalar de uma traqueia partida. Mas havia o sobrenome. Ele estaria ali, ou para chegar. Teria de esperar. Não hoje. E saiu com o número e a fachada da casa gravados na memória, sabendo que retornaria ali algumas vezes ainda, antes de tomar qualquer porvidência. Era um prato que se comia frio, diziam.

Vermelho e azul. Vermelho e azul. A paisagem ia mudando do lado de fora do carro. Os dois homens no banco da frente em silêncio. Haviam insultado-o o suficiente. Viajavam agora calados. Anoitecia enquanto o carro se destinava para a área mais afastada da cidade, onde se escondia àqueles dos quais se queriam esquecer. Azul e vermelha a estrada passava. Como ele e ela.

Ela, sobre a cama, de azul-roupão sobre o corpo mal coberto. Ele, salpicado de vermelho. Ao chão um homem com uma chave de rodas na cabeça. Nos olhos dela, curiosidade macabra e excitada. Nos dele, dúvida e uma mistura de tesão, ódio, saudade e — sim, por que não? — amor. O corpo dele sobrepujando-se devagar ao dela. Ela, se afastando inutilmente contra a cabeceira da cama, mas com os olhos sempre nos dele. Ele agarrou a gola do roupão e a puxou para si. Ela ficou ali, meio pendurada pelo colarinho. Assustada, ofegante, olhos brilhando, um seio arquejante se denunciando pela abertura do roupão. Maior, mais arredondado, mas ainda firme, tenaz, o mamilo eriçado em rosa. Subindo e descendo, subindo e descendo com a respiração acelerada de hálito doce. Agarrou-lhe com a outra mão o pescoço. Ainda lhe cabia fácil na mão. Pressionou até que ela vertesse aquele hálito que há anos não sentia. Sentiu-o próximo ao rosto. O cheiro atingiu o cérebro como um dardo. Chegou a cambalear e apertou a mão contra o pescoço da moça como para se segurar e não cair. Ela emitiu um leve gemido que o trouxe de volta. E trouxe de volta as lembranças dos gemidos de outrora. Lembrou-se das tardes de antanho quando não estavam a mãe nem a empregada. Puxou-a, pelo pescoço mesmo, para mais perto de si. Hipnotizado. Azul e vermelho. Ele vermelho. Ela azul. A parede azul e vermelha, azul e vermelha, azul e vermelha pela janela aberta ao fim da tarde. Despertou quando percebeu que ela também admirava as cores projetadas nas paredes. Largou-lhe o pescoço, espiou pela janela. As luzes no teto do carro lá embaixo brilhavam azuis e vermelhas. Dois homens saindo do carro, armas nas mãos. Falando com alguém fora da sua visão e se dirigindo à casa. Lembrou dos uniformes. E dos uniformes. E dos dias e meses e anos. Lembrou da última vez. Do gosto do beijo e do sangue. Do olhar quente, do sorriso macabro. E dessa vez nem havia trepado. Há quanto tempo não trepava? Não voltaria. Não assim. Não sem ao menos dar o troco. Arrancou o abajur da tomada e, com um puxão arrancou-lhe o fio. Enrolou uma ponta em cada mão, deixando-o estendido firme. Levantou os olhos e viu os delas, já mais assustados. Foi rápido em sua direção, deu uma volta com o fio no seu pescoço e puxou-lhe para cima, tirando-a praticamente toda da cama, só as pernas penduradas. O roupão já quase todo aberto, os seios roçando-lhe o peito, os lábios em frente aos seus. Seu corpo de homem envelhecido se dividindo entre ódio e prazer. Uma perna depilada levantou-se e tocou-lhe, leve e sem querer, a virilha. A vontade fraquejou-lhe. Afrouxou o fio. Deixou a moça retornar à cama. Voltou à janela, olhou para baixo. Os dois homens uniformizados já junto à porta, forçando a entrada. Olhou para ela, olhou para os homens, para o vermelho e azul brilhando nas paredes. Suspirou abatido. Não podia mais fazer aquilo. Mas não podia, também, voltar. Não suportaria. Amarrou o cordão no parapeito da janela, sentou na beirada e enrolou o fio ao redor do pescoço. Não voltaria por nada. Nem por ela. Ela o olhava com um sorriso macabro. Aquele sorriso macabro de olhos quentes e doces. Passou os dedos de leve no pescoço meio machucado, desceu o dedo seguindo o decote do roupão já aberto, com um ar provocante. Ela levantou o dedo, apontou para corda no pescoço e fez sinal que não. Apontou para o chão para que ele descesse. Ele o fez, tirou o cordão do redor do pescoço, segurando-o nas mãos sem saber o que fazer. Quando a porta se abriu sob o peso da botina, a moça encolheu-se contra a cabeceira da cama, deixando escapar um assustado "Jorge, não!" dos lábios maliciosos. Os dois homens apontaram as armas. Acabaria, afinal, retornando para lá.

Azul e vermelho, azul e vermelho, azul e vermelho. A paisagem já noturna se iluminava colorida enquanto ele, no banco traseiro, as mãos às costas, relembrava. Saindo pela porta do quarto, a moça fechando o roupão, sendo auxiliada pelo outro policial de cacetete rijo pendurado à cintura. Por baixo do roupão imaginava o corpo arrepiado, os bicos dos seios em pé, as lembranças de anos atrás antes que tudo aquilo tivesse acontecido pela primeira vez. Nos olhos, aquele mesmo olhar excitante. Através do vidro do carro em movimento, olhava a paisagem com um só sentimento. Saudade.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O outro

Deixe que eu fale, que esse peito que me deste é por demais pequeno é já lhe falta espaço. Deixe que fale. Ao menos assim, quem sabe, terei certeza da minha própria e duvidosa existência. Sim, eu sei. Eu existo. Ao menos é o que parece. Mas se existo, existo apenas no outro. Ou pelo outro, quem sabe? Existo como uma imagem construída por mim, das imagens que imagino que outros façam de mim. E da imagem que eu, por minha vez, faço destes mesmos outros que pusestes aqui, comparados a mim.

É por meio do outro que existo. Ou que me sei como eu. Se sou magro demais é porque o outro não o é. Se uso barba é porque o outro não a usa. Se me chamas pelo meu nome, é porque não chamas o outro. Se sou eu mesmo é, simplesmente, porque o outro não o é.

Não sou senão no outro.
Sem o outro, talvez eu nem mesmo exista.
Talvez apenas... esteja.

E me peguei a pensar de quando não havia outro. Mas se houve não é verdade. Eu nunca fui sem que outro antes não tivesse sido. Se a serpente se arrasta é porque eu não o faço. Se o leão ruge é, de novo, simplesmente, porque eu não o faço. Se a árvore se ergue majestosa é, sim, mais uma vez, porque eu não o faço. Sempre que fui, foi no outro.

Mas houve um tempo, não? Houve um tempo, antes, bem antes de mim, que não houve outro. Um tempo imemorial em que o outro simplesmente não existia. Tu lembras, não lembra? Só tu poderia lembrar deste tempo de que falo.

Havia apenas um. Recorda. Um e nada mais. Mas não somos senão no outro, não é? Tu naquele tempo, não havia outro. Tu sem o outro... foi por isso, não foi? Não é por isso que estou eu aqui agora, erguido pelo outro, por ti, para ser, justamente, o outro. O teu outro.

Tu que talvez, sem mim, sem o outro, não existia. Estavas, apenas. E nada mais. Um potencial eterno e nulo. Um tudo preso num nada. A potência inexistente sem uma impotência que existisse. Foi por isso, não?

Criastes a outra para que eu existisse de fato. Mas foi só quando criastes a mim que, tu, passou, por tua vez, a existir de fato. Criastes um outro para ti, para que tu pudeste de fato existir.

E se tu existe, não te zangues, é por este outro que o sou.

Sim, certamente. Não te zangues que pode castigar até os rasos limites meus. Mas não te desfaças de mim. Que te desfarias de ti. Sim, me vou. Tomarei a que me destes. Para que eu também exista, distante de ti. Vou-me com ela, se é assim que preferes. Tens, no fundo, razão. Novamente e como sempre tivestes. É preciso que me vá. Porque para que este lugar exista, é preciso, bem sabes, que haja outro. Que aqui é, só o é pelo outro. Como eu, como tu, como este fruto que só está inteiro porque este, vê — nhac — não está mais. Se és completo, é porque não o sou. Se és um, é porque sou dois. E assim há de ser. Vou-me. Há um lugar que tenho de visitar. Qual? Outro.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Verso no ventre nu

Verso no ventre nu

imprime
no meu ventre
o teu
verso
nu

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Gárgula de Saint Romain

Arquitetura Gótica do Interior da França - Gárgulas e Quimeras
Posfácio (ou, originalmente, Anexo III)

O presente posfácio é um adendo que me permiti acrescentar a este livro. Seria o Anexo III de minha monografia. Porém, junto a meu orientador, achei por bem suprimir este conteúdo do trabalho original, uma fez que carecia de bases científicas ou históricas comprovadas e tratava mais de uma interessante curiosidade do que, de fato, do corpus tratado por meu trabalho de conclusão de curso. Mas como uma publicação como esta, que agora tem às mãos o leitor, permite mais ao autor do que uma monografia acadêmica, deixo como um relato dos fatos que me chegaram, ao acaso, enquanto pesquisava as gárgulas e quimeras da arquitetura do interior da França.

Desde que me detive, nos primeiros semestres do curso de arquitetura, sobre a estética gótica da arquitetura francesa, especialmente sobre um impressionante slide da Catedral de Notre-Dame, fui arrebatado por aquela riqueza de detalhes e pelo mistério daquelas construções pontiagudas envoltas por ainda mais misteriosas esculturas. Durante todo o curso, guardei uma especial atenção àquelas construções e, muito tempo antes do esperado, já havia definido que o tema de minha monografia seria este. Com auxílio de meu orientador, reduzi meu foco com especial atenção às esculturas presentes na arquitetura gótica. Com auxílio do mesmo orientador, defini meu campo de atuação — um pouco a contragosto — excluindo o objeto mais óbvio para análise: a tão admirada Notre-Dame. Ao contrário, defini, pelo bem do projeto e buscando um pouco de ineditismo, estudar as esculturas das contruções góticas no interior da França para, posteriormente, fazer uma comparação estilística com aquelas presentes na capital. Terminadas as aulas regulares, então, com a ajuda de meus tios que moram próximo de Paris e bancado por meus pais, mudei por cinco meses para a França, que já havia visitado uma vez em férias, na casa desses mesmos tios.

O primeiro mês, não pude evitar passar na capital francesa e nas suas ruas e deslumbrantes construções. Logo, porém, decidi rumar para o interior e iniciar minhas pesquisas in loco. Conversando com conhecidos e pesquisando na internet, acabei chegando a um interessante relato, uma pequena lenda francesa que tocava no assunto das gárgulas muito por acaso. A tal lenda relata a história de Saint Romain, bispo de Rouen durante o reinado do rei merovíngio Clotaire II. Num breve resumo, a lenda relata como o bispo derrotara uma gárgula de Paris (na verdade um dragão que vivia no rio Sena, chamado Gargouille). Nas minhas conversas, ouvi da Igreja de Saint Romain, nos arredores de Rouen, que teria um profusão de gárgulas e quimeras que poderiam ser de valor para o meu estudo. Estimulado por um provável corpus de análise para o meu trabalho e pela peculiar lenda da gárgula, resolvi dirigir-me a Rouen para conhecer a tal igreja.

Não foi difícil encontrar o templo. Ficava um pouco retirado da cidade, mas foi fácil me informar e chegar até à bela construção em homenagem ao bispo matador de monstros. De fato, das trabalhadas cornijas e dos beirais, se projetavam rebuscadas gárgulas com ricos adornos, variando de formas animalescas, humanóides e monstruosas, guardando os pontiagudos telhados apontados para o céu.

Circundei a trabalhada construção com curiosidade e sem pressa, observando os detalhes de uma rica e belíssima escola arquitetônica. Fiz algumas fotos despretensiosas, mais para lembrança do que para análise e me deixei primeiramente apreciar a construção sem nenhuma ótica acadêmica ou analítica. Apenas de deleite. Aqui, a variedade de motivos das gárgulas e das quimeras era mais abundante do que nas construções da capital francesa. Além das características figuras das gárgulas de aspectos demoníacos ou animalescos, haviam algumas imagens mais humanóides. Nem dei por mim, estava observando com certo fascínio uma gárgula em formato de padre ou monge, dependurada do beiral com a cabeça raspada, olhar rapino e boca aberta, por onde certamente corria a águas das calhas do telhado em caso de chuva. A gárgula era cercada por duas quimeras, essas sim, mais ao estilo clássico-monstruoso que eu tanto admirava.

Um movimento próximo me capturou a atenção. Não muito distante, um sacerdote com um ancinho se aproximava com ar jovial. Cumprimentou-me com cordialidade e, percebendo o meu sotaque, acredito, perguntou se eu era português. Disse que era um estudante brasileiro de arquitetura, ao que ele sorriu com entusiasmo. Disse-me que não sabia falar português mas que havia morado muitos anos em uma comunidade espanhola e sabia falar um espanhol razoável, segundo ele. Eu disse que não seria necessário e ele, gentilmente, passou a falar um francês mais pausado. Perguntou-me se havia me interessado pelas gárgulas. Confirmei e perguntei-lhe, para certificar minhas suspeitas, se a imagem do monge na gárgula seria Saint Romain. Ele negou, sorridente. Disse que dentro da igreja sim, eu poderia ver uma imagem do santo bispo. Aquela gárgula era uma homenagem a um dos primeiros sacerdotes da igreja e um entusiasta do estilo arquitetônico da época. Irmão Fontaine, que buscava, com as gárgulas, trazer um pouco da mítica da grande Notre-Dame para o interior. Há muitos anos, o clero local achou por justiça erguer uma gárgula com a imagem do padre, em homenagem.

Tendo o pároco como guia, percorri todo o exterior da igreja, tirando fotos, tomando notas breves, observando detalhes e ouvindo histórias da vida nos arredores da Igreja de Saint Romain. Sobre a lenda do duelo entre o bispo que dava nome à igreja e a gárgula do Sena, o pároco confirmou que de fato Saint Roman havia acabado com muitos monstros da comunidade parisiense da época, mas que a gárgula — serpente do Sena, ele me corrigiu — era uma rica metáfora, para sempre lembrada como lição de nossos monstros internos, representados nas paredes dos templos góticos. Prevendo o fim da tarde, despedi-me do simpático padre e retornei a Rouen para o meu albergue, com a promessa de que voltaria outro dia para continuar as conversas e pesquisas. No chão, o sol poente projetava longilíneas sombras de gárgulas monstruosas ladeando a figura do Irmão Fontaine.

Na biblioteca local, encontrei mais algumas informações sobre a história da igreja e de Saint Romain. Algumas informações sobre a construção do templo em Rouen, sobre fundos de arrecadação para ornamentar o prédio, algumas pesquisas superficiais sobre a arquitetura na qual a igreja se inspirava — que muito me interessaram — e uma curiosa notícia que destoava das demais. Um garoto local, que servia de pajem ou algo que o valha nos serviços do templo, teria sido, ao menos a suspeita tinha sido levantada, vítima de abusos por parte de um padre local. Lendo a reportagem com mais calma, surpreendi-me em ver que o padre era justamente o irmão Thierry Fontaine, homenageado na fachada da igreja. A acusação havia gerado comoção pública na comunidade próxima à igreja. Os principais membros do clero local tomaram parte para esclarecer o ocorrido e, ao que parece, o garoto teria sido vítima apenas de um bom safanão do padre, por ficar brincando entre as gárgulas no beiral. A honra do padre tinha se mantido imaculada, tanto que, após o ocorrido e das desculpas dos pais da criança, de pronto aceitas pela congregação, o irmão Fontaine teria sido indicado para ocupar um posto na própria Notre-Dame, cuidando do conjunto arquitetônico do local. E na igreja nos arredores de Rouen, em sua homenagem, fora projetada a sua gárgula, para proteger a comunidade e, brincaram as pessoas na época, para espantar garotos levados do meio das estátuas, de onde poderiam cair ou danificar os ornamentos.

Decidi retornar a igreja para continuar o estudo das gárgulas e observar as variantes arquitetônicas de sua concepção, já pensando em perguntar ao pároco que havia me recebido no dia anterior sobre a história que eu havia encontrado na biblioteca. A questão que mais me intrigou, no entanto, foi que pesquisando o acervo sobre a Notre-Dame, especialmente nas questões de arquitetura, em nenhum momento foi encontrado o nome do padre Thierry Fontaine.

No dia seguinte, segui para os arredores da cidade e encontrei o mesmo sacerdote, que me recebeu com um "buenos dias" rapidamente respondido com um "bon jour" de minha parte. Admirei os detalhes arquitetônicos mais de perto desta vez e consegui consentimento de averiguar as gárgulas e quimeras com mais cuidado. Acompanhado do meu guia subi ao alto da contrução, próximo aos telhados, pontiagudos como chifres, e entreti-me com as detalhadas esculturas. Algumas gastas pelo tempo, mas em geral todas muito bem conservadas, ainda que, faça-se justiça, por mais bem executadas que fossem não poderiam ser comparadas estilisticamente à arquitetura da grande catedral de Paris. Fotografei algumas das estátuas e fiz alguns esboços no papel enquanto o padre, que já se cansara de me acompanhar, fazia suas tarefas ali próximo, livrando o campanário de alguma sujeira ou ninho de ave.

Quando me inclinava, apoiado em uma das quimeras, para conseguir uma foto em close do rosto da gárgula do irmão Fontaine, que certamente seria destaque do trabalho, vista a rica história que trazia, meu pé vacilou sobre a cornija e me vi precipitado do alto da igreja. Teria sido um trágico fim, espatifar-me no chão sob a sombra daquelas gárgulas me olhando, não fossem as garras da quimera em que eu me apoiava. Consegui agarrar-me ao pé do monstro e, ainda que assustado e bastante esfolado contra a pedra, evitei o pior. A minha câmera estilhaçou-se contra o chão e os meus papéis voaram ao redor da igreja. O padre, que limpava o sino, ao ouvir meu grito saiu em disparada ao meu socorro, deixando que o campanário soasse algumas badaladas não previstas e retumbantes. O padre, já não tinha o ar jovial de antes. Quando olhou por cima da amurada estava branco feito gesso, esperando me ver estatelado aos pés do prédio. Ao ver-me dependurado, mas firme, aos pés da quimera, ao lado da gárgula de Fontaine, deu um suspiro aliviado. E disse, passando os pés por sobre a amurada para poder me içar de volta à segurança:

— Parece que o irmão Fontaine está mesmo olhando por você.

Foi justamente sobre a gárgula do padre que ele caminhou para me alcançar. Foi quando ele se abaixou, agarrado com uma mão ao rosto de pedra da gárgula e estendendo a outra para mim, que ouvi o estalo. Durou um segundo entre o som e o esfarelar da base da gárgula. Pouco mais que isso para ver o rosto do irmão Fontaine passar por mim com o olhar de pedra, seguido pelo rosto do padre que viera me salvar, com olhar de pânico. Os dois passaram rente a mim, descendo rápido e ainda hoje sinto não ter podido fazer nada. Mas pendurado às garras da quimera, bastava que eu estendesse a mão para ter o mesmo fim do meu guia. Lá embaixo, sob o olhar das quimeras e das gárgulas que restaram, estava uma gárgula partida e um padre morto. Deu com a cabeça contra a cabeça de pedra da gárgula. Pior para a sua, que era de osso e agora esvaziava-se de sangue manchando a grama. Já sem forças para içar-me, fiquei lá pendurado por mais vários minutos vendo a vida do alegre padre ir-se rubra pelo crânio quebrado.

Na hora julguei que fosse pelo esforço, pelo susto ou pela vertigem, mas eu jurava que via dois crânios abertos ao chão. Alguns ossos expostos e muito sangue. Lembro de ter pensado que a gárgula teria atingido alguém. Assustado como estava, só lembro de ter sido içado, um pouco mais tarde, por um par de franceses jovens. Eles eram irmãos e haviam vindo instigados pelas badaladas fora de hora, que dera sem querer o padre ao vir me salvar. Ao verem a cena, correram ao meu resgate enquanto uma garota que estava com eles, que imagino sua irmã, foi chamar mais alguém. As pessoas já deveriam estar próximas porque quando cheguei ao lado de fora da igreja, amparado pelos rapazes que me tiraram das garras da quimera, já eram vários os que estavam ali, mais atrás chegando até alguma autoridade local. Só me aproximando do local da queda percebi que havia mais motivo de comoção. Haviam de fato dois crânios e vários osso em meio ao sangue. Mas muitos ossos e um dos crânios estavam, aparentemente há muito, descarnados. Era possível ver, de dentro da gárgula, ainda incrustado no interior da pedra, uma ossada de pernas recolhidas, braços cruzado junto ao peito protejendo um livro de couro velho com tranca, como os antigos diários, e um crânio, agora com a mandíbula partida e caída ao chão. A parte intacta da caveira ainda recoberta pela cabeça de pedra que fora a gárgula do irmão Fontaine. O sangue, esse parecia todo do já não tão jovial padre que me recebera.

Não soube muito mais sobre o ocorrido, uma vez que fui levado ao hospital e não pude acompanhar o desenrolar da história. Soube por meio de um jornal local, que li já na casa dos meus tios, que a ossada dentro da gárgula, era, segundo o DNA, do próprio Thierry Fontaine e o livro carcomido de capa de couro era seu diário pessoal, que havia sido enviado para análise. Nunca soube o que continha o tal diário. Disseram os meus tios, que corriam boatos em Rouen que o clero local havia reclamado o mesmo, visto que pertenciam, de certa forma, à congregação. Como a ossada do padre Fontaine foi parar dentro de sua gárgula, ninguém sabia, mas o delegado do distrito responsável já tinha iniciado uma investigação, mesmo sofrendo ameças de excomunhão por parte do clero local.

Até o fim deste trabalho, não recebi notícias do resultado dos inquéritos. Presteis os devidos depoimentos, consegui, obviamente completar minha monografia, e agora editá-la no formato deste livro que tem às mãos o leitor. Este posfácio traz estas palavras que não caberiam em um discurso acadêmico, mas que me pareceram importantes vir à tona. Termino este livro então, com esta breve narrativa, este Anexo III que, acredito, serve para reforçar a aura de mistério e mítica que envolve estes ícones arquitetônicos de uma época, estes seres de pedra e mito. Termino aqui um estudo. Começa aqui, parece, uma história.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Maria Fumaça




Maria Fumaça


maria fumaça
olho de brasa
boca de tição

maria fumaça
da cor do carvão

maria fumaça
boca de fornalha
corpo de carvão

maria fumaça
maria trovão

troveja maria
troveja

maria fumaça
(maria)
olho de brasa
(maria)
canto de névoa
(maria)
maria fumaça
(mania)

maria fumaça
cheia de graça
louca emotiva

locomotiva
maria pirraça

apita maria
apita

aperta maria
aperta

cospe fumaça
maria fumaça
anel de fumaça
maria da graça
maria fumaça
ameaça, desgraça
coração destroça
fumaça e troça
maria fumaça

queima quem brinca
com fogo, maria

anel de madeira
(anel de fumaça)
em cada orelha
(acima da telha)

maria fumaça
maria

(fumaça!)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Amor Pornô

Não fazia nem uma hora aquelas portas velhas e largas estavam expelindo os tipos habituais que, pouco antes, lhe habitavam as entranhas. Saíam aos borbotões, se distanciando rápido, se espargindo pelos arredores, ejaculados porta a fora. Alguns mais elétricos, outros mais leves, todos distantes de si e do mundo. Pequenas gotas brancas de ilusão. Velhos solitários com nada além de suspensórios e lembranças como companhia, tipos esquisitões engordurados, gordos demais, magros demais, sozinhos demais. Grupos de garotos espinhentos no cio, uivando de excitação verde não colhida. Umas poucas putas, travestis ou oportunistas esperançosos. Todos com a solidão viscosa a escorrer-lhes pelos rostos, pelos peitos a dentro, enquanto a palavra “privê” piscava em curto no letreiro iluminado do Cine L’amour.

O carro bordô subia a ladeira, agora menos movimentada, passando pelas paredes pichadas com sua carenagem de pintura queimada de sol. O interior, que havia sido luxuoso há uns dez anos, abrigava o homem de blazer apertado, perfume de pós-barba e careca mal coberta pelos cabelos molhados. O veículo parou em frente ao cinema e o potente motor silenciou. O homem conferiu as costeletas bem aparadas no retrovisor, saiu do carro, destrancou a porta da frente do velho prédio, e entrou no Cine L’amour.

Lá dentro, o funcionário ainda uniformizado arranjava os produtos na bomboniére, separando as balas, as camisinhas, os chocolates e refrigerantes. Deixava o hall pronto para a próxima sessão, que só viria algumas horas mais tarde. A mocinha recém contratada já terminara de limpar a sala de cinema — mais rápido que a funcionária anterior, faça-se justiça — e já tinha ido embora. Só mais tarde retornaria. O painel interno trazia elencados cartazes de clássicos que haviam desfilado nas telas do L’amour. Debbie does Dallas, com Bambi no característico chapéu de cowboy e um decote levemente insinuante sobre uma estrela azul; a gulosa Linda Lovelace destacando-se boquiaberta sobre o fundo amarelo vibrante do cartaz; Miss Jones em todo o seu esplendor tipográfico preto e vermelho; e um elenco de estrelas de penteados ultrapassados e beleza e lascívia eternizadas em vinte e quatro quadros por segundo.

O homem recém chegado cumprimentou o rapazote que terminava seu trabalho, chamando-o pelo nome que trazia no crachá preso à lapela. Gil, estava lá escrito. E Gil respondeu ao patrão com a mesma simpatia, e talvez mais uma inflexão quase imperceptível, mas que sempre há na voz quando esta parte de um jovem funcionário ao patrão. Patrão conferiu, muito por cima, o trabalho e parabenizou o rapaz com um tapinha nas costas. O rapaz disse que estava quase terminando e que já ia sair para sua folga. Voltaria depois para a outra sessão. Graça, ele lembrou, já tinha saído. Mas já terminara todo o serviço. “Rápida essa mocinha, não? Acho que foi uma boa contratação”. Foi o que disse Patrão, tanto para si quanto para o funcionário, que sorriu afirmativamente em retorno. “Então tudo certo. Se todo mundo já foi, pode ir para a sua folga. Eu fico aqui até vocês voltarem. Vai aproveitar a vida que depois que você ficar velho não vai dar mais”, Patrão disse rindo. “Tudo bem”, o jovem respondeu, “mas de qualquer jeito, o Seu Genaro ainda está aí, mesmo” e foi saindo em direção à porta. “Ainda?”. “É, deve estar na sala de projeção”, disse o rapaz sem ligar para o tom de surpresa na voz patronal. Nem ouviu o homem no terno apertado deixar escapar por entre os dentes um “outra vez?” E já estava do lado de fora quando, balançando a cabeça, Patrão falou em voz baixa “velho safado”.

O suculento lábio inferior escondia o seu vermelho por trás do branco dos incisivos superiores. Os olhos sombreados, levemente fechados, deixavam escapar por entre os cílios longos o verde das íris. Uma gota de suor escorria pelo pescoço esguio e feminino, até chegar a um peito arfante, pingado de suor que descia pelos seios nus, fartos, balançando ritmados pelo movimento imposto pelo rapaz fora de cena. A câmera abre revelando o casal. Ela reclinada para frente com os braços apoiados na penteadeira, rosto refletido no espelho que refletia também o rapaz, de pé, atrás dela. Os cabelos colados no suor das costas, cintura curvada para trás, nádegas empinadas, as pernas bem lapidadas, abertas. A cena era toda dela. Dois corpos engalfinhados num espetáculo particular para o deleite de um velho sentado numa cadeira de madeira ao lado do maquinário ultrapassado. Os cabelos grisalhos e o olhar vago repetiam a figura do crachá pendurado no bolso do uniforme bordado “Cine L’amour”. De dentro da penumbra da sala de projeção só nascia o som companheiro da película passando pelos rolos do projetor antigo, naquele gemido baixo tão conhecido e confidente. O auditório visto além da janela de projeção permanecia vazio e limpo, no escuro. A única luz provinha do telão iluminado pelos corpos nus gigantescos e por um lampejo rememorado na mente, como uma reprise por demais repetida. O áudio do filme vinha lá de fora, junto com a pouca luz do auditório, trazendo gemidos gulosos, pedidos libidinosos e memórias insaciáveis para a sala de projeção escura. A porta se abriu de repente, mas sem violência. O homem de terno apertado entrou e acendeu as luzes balançando a cabeça de um lado para o outro, mais para si do que para o velho, que rapidamente desligou o projetor interrompendo um gemido e uma cara de dor mal interpretada na grande tela.

"Outra vez, seu Genaro?" Foi com um suspiro que o patrão falou. E o velho soube na hora que aquele suspiro significava mais que a própria frase. Baixou a cabeça envergonhado, triste e saudoso. De um tempo que foi e de um tempo que estava para ir, para sempre. Patrão puxou uma cadeira, colocou-a à frente do mais velho funcionário e sentou-se. Os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos unidas em meditação, a cabeça baixa revelando para o velho uma careca ainda mais evidente desta posição. Inspirou o ar como se fosse pesado e deixou que lhe saísse pelas narinas com o mesmo peso, como se abandonasse uma carga por demais carregada. Levantou o tronco e falou para o velho, que mantinha o olhar baixo, fitando as pontas desgastadas dos próprios sapatos de bicos arredondados.

"Seu Genaro, há quanto tempo o senhor trabalha aqui? Sempre foi um funcionário tão exemplar! Discreto, sempre no horário. E eu não retribuí direitinho tudo isso? Sempre paguei o senhor em dia, sempre tratei com respeito, volta e meia até lhe dava um bônus, não é? E eu nunca liguei de o senhor, ou qualquer outro, vez ou outra assistir a um filme por aqui, desde que deixasse tudo limpinho, não incomodasse ninguém, que fosse sempre discreto. Mas já não está dando mais, seu Genaro! Esses últimos anos está demais. É todo dia, homem de deus! Nem deve ser saudável pra um homem da sua idade. Eu até entendo que um homem vez por outra precise relaxar, se divertir, se dar o direito. Às vezes a gente tá meio sozinho, eu sei como é isso. Mas já está afetando o trabalho! Eu já avisei o senhor outras vezes, mas agora não posso mais ficar fazendo de conta que não estou vendo. Eu vou acertar todas as contas certinho com o senhor, vou até lhe adiantar o salário cheio do mês, mas vou ter que dispensar o senhor, seu Genaro. Não tem outro jeito."

O velho manteve os olhos no chão durante todo o discurso. Não sabia o que dizer. Apenas largou, por sua vez, um suspiro longo, levantou a cabeça e olhou para o patrão com os olhos baços. "Olhe, se quiser lhe faço uma carta de recomendação", Patrão disse antes que se pronunciasse. "Obrigado, patrão". Foi tudo o que disse o velho. Patrão levantou-se da cadeira, apoiou a mão no ombro do funcionário e saiu, fechando a porta atrás de si. O velho ficou um tempo olhando pela janela de projeção a tela branca, imaginando na sua mente as cenas que vira ali tantas vezes. Os corpos, os gozos, os sexos. A saudade. Tirou o crachá do uniforme e o colocou ao lado do projetor. Tocou o corpo metálico do equipamento percorrendo-o com o dedo de unha comprida, como se fosse corpo de amante. Abriu a porta e deixou a sala apagando a luz. A porta se fechou devagar enquanto o velho Genaro descia os degraus, passando pelas cadeiras forradas de vinil, pela grande tela branca, pela porta dupla, pela última vez.

O vento lá fora trazia um cheiro de chuva que ainda não chegou. O dia estava cinza mas ainda seco. Genaro seguiu as paredes pichadas, as portas metálicas das garagens, as bancas dos ambulantes. Deu à rua principal com a cabeça baixa, parando na esquina esperando o sinal abrir. Olhou por sobre o ombro e viu, uma quadra abaixo, o Cine L'amour lhe piscando um adeus privê. O homenzinho verde apareceu e os carros pararam. Genaro se perdia entre as faixas brancas pintadas no asfalto, o cheiro de escapamento e o ronco dos motores. Caminhava até o ponto de ônibus mesmo sabendo que o seu já tinha passado e o próximo demoraria ainda uns quarenta minutos. Sentou-se no banco velho que o recebeu, como os velhos, com um rangido, que suas articulações prontamente responderam em reconhecimento. Assistiu os carros passarem, as pessoas passarem, a vida passar, como se fosse um filme sem graça, sem gozo. Barulhos demais, sussurros de menos. Saudades demais. Depois de quinze minutos viu, no outro lado da rua, a menina recém contratada do L'amour chegar. Graça, era o nome dela, parece. Que nada tinha a ver com a moça, pensou o velho Genaro — Seu Genaro — ela dizia. Ele não dizia nada, que graça não via na moça. Ela dobrou a esquina e desceu a rua pichada. Genaro via as pernas finas, as ancas magras balançarem forçadamente de uma lado para o outro. Trabalhadora, dizia Patrão. Gil também confirmava, dizia que seu Genaro é que estava ficando amargo. Genaro estava, é verdade, mas mesmo assim não simpatizava com a moça que trabalhava ligeiro.

Genaro conhecia o L'amour. De quando chegou, anos antes. Os negócios iam bem, Patrão tinha comprado um novo carro, tinha mais cabelo e um terno menos apertado. As costeletas, já as tinha bem aparadas àquela época. Genaro cuidava de tudo. Limpeza e projeção. Mas Patrão decidiu pôr alguém pra ajudar Genaro. "Seu Genaro, o senhor fique apenas com a projeção. Que eu vou arrumar alguém para lhe ajudar nos trabalhos mais pesados". Patrão arrumou. Deixou o velho Genaro mais folgado, cuidando dos filmes e das sessões apenas. E já contratou logo mais gente. Tinha um rapaz bem novo, no lugar de Gil. Genaro não lembrava mais o nome dele, lembrava que ele um dia não apareceu mais, simplesmente. Foi daí que Patrão contratou Gil. E tinha a Dona Cida. Maria Aparecida, o nome dela. Ela também, velha em idade mas não tão velha quanto Genaro. Devia ter uns quinze, dez anos menos, provavelmente. Genaro nunca havia perguntado. Uma pena.

O ônibus chegou ruidoso, despertando o velho com um susto. Com esforço subiu os altos degraus e embarcou, enquanto a luz dos postes começava a acender prematuramente, prevendo a noite que se adensava. Sentou num acento vago no fundo do ônibus. O mesmo de sempre, velho conhecido, que fazia o caminho aos bairros distantes que abrigavam velhos sozinhos em quitinetes de azulejos dos anos sessenta. Barulhento, expelia baforadas negras como dum cachimbo sujo enquanto vencia os buracos da cidade resmungando como um velho chato e rabugento. Lá dentro, nos últimos bancos, outro velho, menos rabugento, se perdia entre os demais passageiros. Nenhum tão velho quanto ele. Talvez aquela senhora dormindo, de cabelos brancos e rugas nordestinas nas faces, com a cabeça quase tocando a janela e uma roupa florida combinando com a bolsa de crochê. Será que iria ela também para uma quitinete de azulejos velhos? Genaro não se importava. Já mal reparava na mulher. Os primeiros pingos começavam a tocar de leve as janelas do ônibus que, embaçadas, lembravam uma tela branca.

Uma tela branca que recebia cenas obscenas e belas, ejaculadas de um projetor que gemia gracioso para uma platéia desconhecida. A sala, nunca muito cheia, como convinha. Bastante espaço para que os clientes aproveitassem o filme preservando suas identidades e seus pudores sem um cotovelo desconhecido ao lado ou o cruzar com um rosto não tão desconhecido. Raros casais sentados nos cantos com mãos ligeiras. Velhos sozinhos rememorando ou fantasiando. Garotos em hordas que não deveriam estar ali. Solitários e oportunistas na esperança de encontrar um par sob a luz dos pares - ou trios, ou grupos - que copulavam na tela iluminada. Lá embaixo, na porta ao lado da primeira fileira, vazia como sempre, Dona Cida aguardava com a vassoura, os panos e as luvas o fim da sessão, olhando a tela, disfarçadamente a plateia, ou o rastro de luz que entrava pela janelinha de projeção, atrás de todos, até tocar o projetor lá dentro, bem lá no fundo, assim.

A chuva aumentou e Genaro despertou de suas lembranças. Só então percebeu que a velha tinha acordado e ido embora. Seu olhar de velho despedido permanecia cravado na janela onde, há pouco, uma cabeça esbranquiçada e sonolenta quase batia. Aguardou mais uns minutos e saltou no mesmo ponto onde saltava todos os dias ao cair da noite. A cobertura de zinco fazendo barulho sob a chuva. Abriu o guarda-chuva e caminhou uma quadra até a entrada de sua casa. Subiu a escadinha externa anexa ao prédio, abriu a porta de sua quitinete e entrou, deixando do lado de fora um dia choroso que chegava ao fim.

O apartamento escuro lembrando uma sala de projeção vazia, onde poderiam estar sentados dois velhos uniformizados olhando uma tela branca onde uma loira de maquiagem borrada era penetrada por trás por um rapaz tatuado enquanto aplicava uma sessão de sexo oral a outro a sua frente, num sofá de couro ao som de suspiros, gemidos e um ou outro tapa de leve nas nádegas arredondadas. Assistindo aos esforços da moça, estariam os dois velhos lado a lado, em silêncio, apenas olhando a tela. Nenhum deles prestaria muita atenção ao filme. Os olhares perdidos nas cenas provocantes apenas disfarçariam os demais sentidos, conectados naquela presença eletrizante ao lado. Como uma fonte de calor ou uma estática que se percebe sem mesmo se ver. Disfarçando o indisfarçável. E nessa falsidade dividida, cientemente falsa e dividida, deixariam-se estar na prazerosa companhia um do outro. Até que a tira de filme chegasse ao fim e a tela se cobrisse toda de um branco viscoso. Naquele o tempo o prazer se alcançava com apenas trinta e cinco milímetros.

Mas ao acender do abajur, nada passava de uma quitinete escura de azulejos antigos. Genaro foi ao banheiro, retirou as calças de barras molhadas, ligou o chuveiro quente e deixou que a água lhe lavasse o resto de dia que escondia-se entre as rugas de seu corpo. Caminhou sua flacidez nua até a cama no quarto-sala-cozinha, vestiu o pijama e os chinelos apeluciados, num raro momento de prazer verdadeiro. No fogão requentou a sopa de ontem e foi tomar sua refeição no sofá em frente ao aparelho de tevê de poucos canais. A pequena tela brilhante lhe parecia débil quando comparada à enorme tela do L'amour, que preenchia de vida alguns corpos carentes, dela ou de algo mais. Esticou o cotovelo para o lado num movimento quase automático, esperando que esbarrasse em outro cotovelo. Esbarrou, ao contrário, numa ausência há um bom tempo presente.

Uma ausência que o acompanhava desde a última vez que teve alguém ao seu lado na sala escura do Cine L'amour. Quando todos iam-se embora e ela, Aparecida do nada, surgia a limpar as poltronas de vinil e os corredores de sal, pipocas e sujidades mais. Ele lhe sorria com os lábios murchos dele. Ela lhe sorria com os dentes falsos dela. E eram os sorrisos mais firmes e sinceros que aquela tela haveria de presenciar. Ele colocava o filme a passar de novo, com a desculpa de entreter o trabalho — e outro tipo de filme não havia no L'amour — e ela consentia com indisfarçado contentamento. Ele ficava ao seu lado, lhe fazendo companhia. Pouco conversavam. Conversar mal era preciso para quem já tinha conversado uma vida toda. Quando ela terminava, sentavam lado a lado na sala pouco iluminada até que o filme e os gemidos acabassem e que a tela orgásmica cobrisse-se novamente de branco. Ele então guardava os rolos, desligava o projetor e iam embora até despedirem-se no ponto de ônibus. Aos poucos a estática entre eles ia diminuindo e, instintivamente, aproximavam-se mais um pouco até que aquela vibração invisível ou aquele calor de corpo velho voltasse a se estabelecer entre eles. Um dia os cotovelos enrugados encontraram-se. Os olhares então deixaram a tela onde uma ruiva muito nova masturbava um homem de bronzeado artificial que devia ser bem mais atraente quando mais jovem. Cida, encabulada, mais pelo toque dos cotovelos do que pelo filme. Genaro lhe estendeu a mão, que ela aceitou. Ficaram de mãos dadas assistindo a ruiva receber aos seios o membro viril do homem bronzeado.

No televisor não havia ruivas nuas ou bronzeados depilados. Apenas uma apresentadora de telejornal comportadamente vestida. Quanto a Genaro, ao seu lado havia apenas aquela ausência tão presente nos últimos anos. Levou o prato fundo à pia e decidiu não lavá-lo, mesmo que fosse pouco o trabalho. Meteu-se embaixo das cobertas e apagou as luzes. Sentado ainda na cama, viu o televisor desligado, a pia com a louça suja, a janela da sala mostrando o riscar da chuva lá fora. Deitou com a chuva de dentro represada. Na manhã seguinte acordaria só. O Cine L'amour desaparecera de sua vida. Também.

Dormiu um sono agitado. Sonhou-se sentado nas poltronas de vinil, mãos dadas com Dona Cida. Maria Aparecida. À sua frente, sexos gigantes se encontrando, se penetrando, se lambuzando numa grande tela luminosa, com gemidos escorrendo densos e um calor nas palmas das mãos velhas e suadas de dedos entrelaçados. Sonhou que seu colchão velho tinha recebido o dorso manchado de uma velha de dentes falsos e sorriso verdadeiro. Com seu membro inerte mostrando alguma vida e rememorando a juventude perdida, entre pernas magras idosas. Depois com o descansar de dois velhos entregues novamente à companhia um do outro. Todos os dias de mãos dadas, numa cópula de dedos entrelaçados, de palmas confidentes. Sonhou com o primeiro dia em que reprisou o filme e o assistiu sozinho. Dona Cida não aparecera. Gil o ajudara na limpeza aquele dia. No dia seguinte também. No outro, novamente. Na semana seguinte, com Dona Cida desaparecida, Patrão teve de contratar Graça. Quase mês depois, veio saber, Dona Cida havia falecido. Foi visitar uma prima doente e nunca mais voltara. Acabou que Graça ficara em definitivo no L'amour. Rápida, a moça, de fato. Terminava o serviço quase na metade do tempo. Ainda assim Genaro não gostava muito dela. Depois que ela saía, ficava na sala de projeção escura e ligava o projetor que gemia baixo ao seu lado, acompanhando as cenas do último filme que assistira com uma mão na sua. E revia, todos os dias, na grande tela, a morena voluptuosa de cabelos negros ser possuída por um mexicano enquanto acariciava uma loira de seios enormes.

Acordou lembrando aquele último dia. As luzes acesas da sala de projeção, Patrão à sua frente, a sala do cinema limpa e vazia, no escuro. A tela, naquele dia, não havia ficado branca ao fim do filme. Naquele dia, após a limpeza, ao ter o filme interrompido, a tela do Cine L'amour havia ficado negra.