segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Baffo de cerveja, cachaça e Leminski

 
 
 
Baffo de cerveja, cachaça e Leminski
Delitos e deleites da poesia marginal de Giovani Baffo

Rodrigo Oliveira

Foi na Lapa, Rio de Janeiro, dividindo garrafas de cerveja e cachaças de gengibre que conheci Giovani Baffo. O poeta de rua paulistano é autor de Delitos e Deleites, publicado pela Edições Maloqueiristas. Um livro de trago rápido, para virar de uma só vez. Sirvo aqui uma dose curta, como aperitivo para o leitor.

Delitos e Deleites não é extenso. Nas suas menos de cinquenta páginas de breves poemas, é como um encontro fortuito numa calçada, do qual você se lembra com frequência e logo após o qual é impossível evitar um olhar por sobre o ombro, só para se certificar de que, de fato, aconteceu. Desses encontros, justamente, parecem ser feitos os poemas de Baffo. Duram só o tempo necessário para o poema capturar a poesia. Só o tempo necessário para registrar, feito Polaroid literária, um momento. Uma cena na rua, um drible no campo, um minuto no relógio da Central ou o passar de um camburão.

Baffo têm hálito de Leminski. No esforço da síntese, na quebra das aliterações, nas rimas e trocadilhos. Nos temas tratados leves mas carregados de ironia. Com a sabedoria de rua e a malandragem de poeta, o autor destila uma mistura de crítica social e humor sobre uma observação contundente do cotidiano.

Ousa olhar um outro que por muito passa ignorado, como no poema de abertura "Aos ex-presidiários":

"Mirem-se no exemplo da Lua
que permanece alta e brilhante
mesmo depois de os militares
lhe pisarem a face".

A ode aos ex-detentos revela, em seu lado escuro, a crítica ao status quo. Ao voltar o olhar ao excluído e ao marginalizado, desfere contra o Sistema um olhar enviesado. Não apenas pela valorização dos primeiros, mas também pela associação negativa à presença do segundo ("mesmo depois de os militares / lhe pisarem a face"). Ponto reforçado pelos contrastes da chegada na lua (marco de supremacia, especialmente se relembrarmos o período de fim dos 60, início dos 70) com os ex-presidiários subjugados, e da associação de adjetivos como "alta e brilhante" aos normalmente marginalizados. O olhar retorna, com igual ironia em:

"Quem mora na rua
anda o dia inteiro
de pijama".

e:

"Em casa
de menino de rua
o último a dormir
apaga a lua".

É com humor e leveza lírica que Baffo desnuda uma brutalidade cotidiana e convenientemente despercebida. O tom mantém-se ainda em retratos da periferia (“quantos poemas me deram? / Quantos me tomaram??”) em que “camburões vão às favelas (...) e eles anunciam em outdoors / liberdade é só um carro mais veloz”.

A estética contemporânea bastante leminskiana, aliada à temática que aborda, reforçam a sensação de atualidade da obra de Baffo. É facil imaginar seus textos figurando em menos de cento e quarenta caracteres, é fácil imaginar seus poemas consumidos entre o intervalo de uma aula e outra, é perfeitamente possível que surja entre um copo ou outro numa mesa de um bar qualquer. Numa declamação à luz dum poste na calçada ou sob um guarda-chuva no “menor sarau do mundo” nas ruas de Paraty. Nesse aspecto, a obra de Baffo encontra eco na Catequese Poética do catarinense Lindolf Bell, declamada na saída de fábricas, estampada em camisetas ou penduradas num varal. Ainda que as temáticas sejam destoantes entre os dois autores — até opostas —, alguns aspectos da estética e da visão do fazer poético soam bastante similares.

Os poemas de Delitos e Deleites são acompanhandos dos traços leves da ilustradora Aline Binns, que também assina a capa da edição. A delicadeza do traçado corrobora o tom da obra, flertando com a mesma síntese, em contraste com pontos mais carregados de detalhes. Deixa, por vezes, escapar uma lembrança simplificada e monocromática de algumas texturas de Klimt.

O poeta trata da arte com com a mesma nota, como em “Música” que diz que

“Depois que conhecemos
o jazz...
nada mais faz sustenidos”.

A estética se repete, breve e irônica. Como um drops que poderia ser consumido enquanto se espera um ônibus, mas cujo sabor se mantém. Com o gengibre da cachaça. Mais uma vez, a poesia se faz no não-dito. Feito eco do poema.

Não se restringe aos delitos, a obra de Baffo. Os deleites cotidianos marcam presença em “Carnal”:

“Não há faculdade
de anatomia no mundo
que ensine mais
que o mês de
fevereiro”

e

Amor

com
fusão”

Mais uma vez a intenção oculta, que exige a participação leitor, se faz presente. O jogo de palavras, o trocadilho.

Com alguns dos poemas já citados, deve ficar claro ao leitor o papel preponderante da urbe na obra do autor. É nos grandes centros que reside o material de que são feitos os poemas de Delitos e Deleites. Referências diretas ao Rio de Janeiro e a São Paulo são encontradas facilmente e todo o tom do livro retrata essa estética.

Baffo é, enfim, um autor contemporâneo. Sua poesia, marginal, dialoga com as ruas, flashes de urbanidade com toques de ironia e crítica, sintetizados em versos breves e certeiros. Um grato encontro sob os alvos Arcos da Lapa, que deixa o convite a conhecer essa

“Estátua de barro negro
com hálito de cerveja
usada nos bares da vida
para enfeitas as mesas”.

Fica a sugestão.

E um brinde.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Espresso



Espresso

saudade se mata
afogada
em café