sexta-feira, 22 de novembro de 2013
O fado mais triste
O fado mais triste
eu quero
o fado mais triste
que ainda existe
no Porto ancorado
numa taça em riste
um vinho encorpado
mas antes de tudo
o mais triste fado
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sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Amemorias
| De Audrey Kawasaki, como não poderia deixar de ser. |
Naqueles dias, naqueles rostos, naqueles sonhos em que retornam as memórias mais queridas daquilo que nunca vivi, é difícil não fantasiar um outro tomar de rumo, um passado não passado, deixado para trás em páginas apergaminhadas de tempo e lembranças. Reminiscências de possibilidades à margem, que me acenam nostálgicas. Parecem compreender, não se ofendem. Sorriem seus sorrisos mais carinhosos de adeus, de até mais ver. De até a próxima esquina distante em que o Acaso achar por bem nos atirar por breves instantes, antes que continuemos por nossos caminhos. Nesses dias de abraços coloridos, eu fico meio blues.
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sexta-feira, 4 de outubro de 2013
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Valquíria e a última serpente
Em dezembro passado, o Jornal de Santa Catarina solicitou-me um conto curto para o caderno especial sobre o fim do mundo, teoricamente previsto pelo calendário maia. Naquela oportunidade, o texto remetido e que saiu no jornal foi A Primeira Pedra. Eu havia escrito, no entanto, um outro que nunca foi apresentado. Mexendo nos arquivos acabei esbarrando com ele novamente. Coloquei-lhe um título e deixo-o aqui para dar uma atualizada:
Valquíria e a última serpente
Quando Valquíria acordou, pressentiu que algo havia mudado.Estava ainda sonolenta quando lembrou-se. Levantou ligeiro, o sol mal tinha saído, ao contrário do marido que saíra já há algumas horas para chegar a tempo ao trabalho. Calçou as pantufas rosas com florzinhas desgastadas, fechou o roupão com um nó apertado e correu até a porta. Assustou-se com o que viu. O mundo estava, de fato, terminando. Era como se tivessem retirado a fina película que cobria a realidade. Não havia muito que ela reconhecesse como antes. Olhou com certo desprezo as próprias mãos, tornadas garras depois dos anos de trabalho repetitivo nas máquinas de costura. Portão a fora viu o vizinho acuado pelo próprio carro que, feito uma besta, abria e fechava o capô, um ronco seco do motor e um brilho doentio nos faróis. Fumaça escura a nublar a cena. Fugiu, deslocada, em direção ao centro da cidade, evitando os transeuntes trôpegos. Na praça, um punhado de pessoas se acotovelava ao redor de uma fonte que jorrava para o alto rajadas de comprimidos multicoloridos. Chegando na avenida à beira rio viu, na outra margem, o velho barco tombado. Agora percebia, pelas fissuras no casco, que já estava podre e corroído por dentro havia muito. Foi quase sem fôlego que conseguiu atingir, ainda desnorteada, a ponte de ferro no final da rua. Começou a cruzar a construção se afastando do caos e, lá no meio, bem acima do rio, viu sua sombra descabelada projetada nas águas e entristeceu-se. De repente, percebeu uma outra forma avultar-se lá embaixo, logo abaixo da superfície do rio. Um corpo longo e serpentiforme. Apenas uma enorme e sinuosa sombra passando sob a água. O vento tentava sem sucesso afastar o som das sirenes e do caos. Valquíria subiu no parapeito. Viu uma de suas pantufas planarem lá do alto, sem destino, acima das águas. Atirou-se e caiu com um estrondo no rio. Depois de alguns segundos apenas, com um estrondo ainda maior, ergueu-se das águas uma enorme serpente emplumada. No seu dorso, agarrada às plumas, vinha montada Valquíria. Cabelos molhados em desalinho, roupão aberto, o pijama velho colado aos seios flácidos. E um sorriso descabido singrando a face. Cavalgava a serpente do fim do mundo.
Valquíria e a última serpente
Quando Valquíria acordou, pressentiu que algo havia mudado.Estava ainda sonolenta quando lembrou-se. Levantou ligeiro, o sol mal tinha saído, ao contrário do marido que saíra já há algumas horas para chegar a tempo ao trabalho. Calçou as pantufas rosas com florzinhas desgastadas, fechou o roupão com um nó apertado e correu até a porta. Assustou-se com o que viu. O mundo estava, de fato, terminando. Era como se tivessem retirado a fina película que cobria a realidade. Não havia muito que ela reconhecesse como antes. Olhou com certo desprezo as próprias mãos, tornadas garras depois dos anos de trabalho repetitivo nas máquinas de costura. Portão a fora viu o vizinho acuado pelo próprio carro que, feito uma besta, abria e fechava o capô, um ronco seco do motor e um brilho doentio nos faróis. Fumaça escura a nublar a cena. Fugiu, deslocada, em direção ao centro da cidade, evitando os transeuntes trôpegos. Na praça, um punhado de pessoas se acotovelava ao redor de uma fonte que jorrava para o alto rajadas de comprimidos multicoloridos. Chegando na avenida à beira rio viu, na outra margem, o velho barco tombado. Agora percebia, pelas fissuras no casco, que já estava podre e corroído por dentro havia muito. Foi quase sem fôlego que conseguiu atingir, ainda desnorteada, a ponte de ferro no final da rua. Começou a cruzar a construção se afastando do caos e, lá no meio, bem acima do rio, viu sua sombra descabelada projetada nas águas e entristeceu-se. De repente, percebeu uma outra forma avultar-se lá embaixo, logo abaixo da superfície do rio. Um corpo longo e serpentiforme. Apenas uma enorme e sinuosa sombra passando sob a água. O vento tentava sem sucesso afastar o som das sirenes e do caos. Valquíria subiu no parapeito. Viu uma de suas pantufas planarem lá do alto, sem destino, acima das águas. Atirou-se e caiu com um estrondo no rio. Depois de alguns segundos apenas, com um estrondo ainda maior, ergueu-se das águas uma enorme serpente emplumada. No seu dorso, agarrada às plumas, vinha montada Valquíria. Cabelos molhados em desalinho, roupão aberto, o pijama velho colado aos seios flácidos. E um sorriso descabido singrando a face. Cavalgava a serpente do fim do mundo.
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quarta-feira, 17 de julho de 2013
este café com gosto de saudade
esta tarde engalanada de lembranças
e um balão
cheio do ar quente dos pulmões
flanando por vielas e cafés.
Puta tarde de sorrisos.
esta tarde engalanada de lembranças
e um balão
cheio do ar quente dos pulmões
flanando por vielas e cafés.
Puta tarde de sorrisos.
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sexta-feira, 28 de junho de 2013
Duas feiras e uma carência
Há umas semanas peguei o carro e resolvi aproveitar o fim de semana ensolarado para visitar as feiras do livro de Timbó e Jaraguá do Sul. Saí de Blumenau e, como de costume, me perdi mais uma vez em Timbó antes de encontrar a praça onde estava feira. Não que tenha sido muito complicado, é uma tradição minha perder-me pelas ruas de Timbó. Tradição que não pretendo manter, mas tem sido difícil evitar. De qualquer forma, a feira de Timbó opta pelo formato de Feira de Rua, com as tendas montadas na praça. Como esse ano não me inteirei das programação das feiras, fiz uma visita despretensiosa e sem planos. Cheguei após os painéis/palestras terem terminado. Ainda haviam alguns autores reunidos em um canto — identifiquei Alcides Buss, os demais não reconheci — mas não havia uma programação ocorrendo no momento. A estrutura me pareceu bastante adequada. À entrada passei pelo que parecia o núcleo da feira. Um corredor principal ladeado em toda a sua extensão por estandes de sebos e livrarias, expondo e comercializando livros novos e usados. Os preços ao meu ver variaram de próximos aos valores de livrarias a grandes pechinchas, encontrando alguns bons livros (em bom estado) a partir de R$ 2,00. Pareceu-me haver um certo equilíbrio na oferta entre a literatura infantil e a adulta, com um número razoável de crianças que também circulava acompanhadas dos pais. Ao fundo desse corredor, uma área perpendicular abrigava um auditório e o espaço de alimentação. Ambos bem dimensionados e dispostos. Uma detalhe que pareceu não funcionar na feira de Timbó foi o Troca-Troca (ou algo que o valha, não lembro o nome precisamente). Ao que parece foi criada uma mecânica em que as pessoas deveriam levar um livro, previamente, à biblioteca ou Fundação Cultural e daí ganhariam um vale para trocar por um livro no estande da Fundação. Aparentemente o fracasso da iniciativa se deu por uma falta de comunicação da mecânica da ação, visto que os visitantes estavam indo diretamente ao estande com seus livros para a troca e não puderam efetuá-la.
Tendo visitado a feira de Timbó na parte da manhã, à tarde rumei para Jaraguá do Sul. Percebo que a cidade vem se desenvolvendo culturalmente a passos largos, deixando um exemplo não só para as cidades vizinhas do vale do Itapocú, mas igualmente para Blumenau. Detalhe interessante, é que fui muito menos vezes para Jaraguá do que para Timbó. Não conheço a cidade, mas encontrei facilmente o local, que estava muito bem sinalizado por quase todo o percurso. O evento jaraguaense me pareceu consolidado. O local escolhido foi a SCAR — Sociedade Cultura Artística — usando a mesma estrutura de tendas encontrada em Timbó. Optando por vincular a feira à SCAR, ao contrário de um feira de rua na praça, por exemplo, a feira jaraguaense contou com uma estrutura de apoio que contava com mostra de filmes, exposições e gerou a aproximação do público com o espaço cultural. A disposição dos estandes em Jaraguá foi um pouco diferente da feira timboense. Mais abertos, "cercavam" um pequeno palco central (e um estande de alimentação e souveneirs, eu acho) onde aconteciam, em intervalos regulares contações de histórias. O sistema de som mantinha informados os visitantes com constância. No caso de Jaraguá, a feira pareceu ter um volume maior de crianças e literatura infantil. O acervo de livros e preços foi, no geral, similar a Timbó, pelo que me lembro. Nas duas feiras encontrei bons títulos a preços interessantes que acabei levando pra casa. Os estandes das editoras locais (ao menos me pareceram) me chamaram mais a atenção em Jaraguá do Sul do que em Timbó. Creio que alguns dos expositores estavam em ambas as feiras, o que me pareceu interessante. Jaraguá trouxe nomes de peso para a feira, mas como na minha visitação matinal, fui sem planos e não aproveitem nenhum palestra, discussão ou o que fosse. O único autor que vi circulando (lembrando que a maioria eu nem poderia identificar) foi Carlos Henrique Schroeder, que se não me falha a memória, estava organizando o evento.
Enfim, o saldo foi positivo e ambas as feiras pareceram comprovar que há espaço para esse tipo de eventos. Nos dois casos estavam bem movimentadas, encontrei carros de diferentes cidades e a estrutura me pareceu adequada. Não tenho números da feira de Timbó, mas os dados da feira jaraguaense apresentam mais de 80 mil visitantes de quase 40 cidades diferentes e mais de 60 mil livros vendidos. Dado que chama a atenção é que uma das cidades que mais visitou a feira foi justamente Blumenau. Uma cidade que carece de uma feira consistente e que parece ter público para tanto. Mas na falta da atração em sua cidade, migra para as feiras de cidades próximas, seja Jaraguá, Timbó ou Brusque.
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segunda-feira, 17 de junho de 2013
Junho de 2013
Junho de 2013
Não tome o meu silêncio
como descaso.
Não o tome, tampouco, por um confortável não-saber.
Acima de tudo, peço,
não o tome como contrário.
Meu silêncio é apenas de embaraçosa vergonha
pelo meu silêncio.
Assim, silencio na esperança
de que em meio ao alvoroço
não ouças meu silêncio.
Sem ruído emitir,
omito
a minha voz
imito
à minha vez
o silêncio que esperava ouvir ruir.
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sexta-feira, 15 de março de 2013
Encomenda
Encomenda
Quando lá chegares, envia-me um postal.
Diz ao rei que mando lembranças,
que sinto saudades.
Entalha, numa árvore, o meu nome junto ao teu.
E lembra o gosto do beijo não dado.
Olha aquela estrela, cruza aquela ponte, ouve aquele rio.
Deita na cama que escolheres e dorme aquele sono nunca dividido.
Faz-me assim um pouco lá.
Está tudo bem. Vai-te embora.
Mas lembra:
quando lá chegares, envia-me um postal.
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Rodrigo Oliveira
sexta-feira, 1 de março de 2013
Sorriso Hibernal
Sorriso Hibernal
Eu tenho um sorriso guardado
para usar apenas no inverno.
Quando chegar, o verão.
Poemito que saiu de um job e aterrissou aqui.
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
A primeira pedra
Antes que o mundo acabe, atualizo isso aqui. O texto abaixo foi publicado originalmente no Jornal de Santa Catarina, do dia 14/12, em um caderno especial sobre as profecias de fim de mundo.
A primeira pedra
Não aconteceu, em nada, como ele estava esperando. Lá no alto da montanha, sentado sobre a pedra olhando o vale de cima, não viu nada demais. Não ouviu Wagner soando seu Tristão e Isolda, não houve chamas, não houve luzes. Não soaram clarins. Ouviu apenas o zumbido dos últimos insetos na moita, que o vento logo soprou para longe. Quente e denso. A última lufada. Com uma pedra apanhada do chão rabiscou sobre a rocha antes que fosse tarde demais: "Queria ter escrito um poema". Fechou os olhos pela última vez e ouviu o mundo silenciar. O vento não soprou, os insetos não zumbiram. Nada. Talvez esta fosse mesmo a forma mais apropriada. Pelos instantes que lhe restaram chegou a imaginar, naquele resto de mundo no qual se agarrava, o leito barrento do rio passando pelas capivaras. Sentiu-se frustrado por ter sido essa a sua derradeira lembrança. Tinha vivido tantas coisas, havia tanta gente que lhe era querida e era disso que se lembrara em sua última saudade? Não um amor, não um beijo, nenhuma aventura. Mas um rio barrento que volta e meia enchia, passando pelas capivaras lá distantes, no fundo do vale que ele não mais veria. O silêncio e a escuridão do último suspiro do mundo viriam acompanhadas pelo ruminar de uma capivara à beira do rio corrente. Cada mundo, chegou a pensar, termina como merece. Num ímpeto de coragem tardia abriu os olhos de repente. Fosse para preencher o último momento com uma imagem mais condizente, fosse para encarar, ao menos uma vez, o mundo de frente. Mas era tarde demais. O mundo havia acabado. Não havia nada que pudesse reconhecer. Estava acima de tudo, pairando sobre um vale que já não conhecia. Olhou intrigado ao redor como quem abre pela primeira vez os olhos. Numa rocha, a epígrafe de um novo mundo: "Queria ter escrito um poema". Encontrou um caminho apertado por entre os galhos e desapareceu.
A primeira pedra
Não aconteceu, em nada, como ele estava esperando. Lá no alto da montanha, sentado sobre a pedra olhando o vale de cima, não viu nada demais. Não ouviu Wagner soando seu Tristão e Isolda, não houve chamas, não houve luzes. Não soaram clarins. Ouviu apenas o zumbido dos últimos insetos na moita, que o vento logo soprou para longe. Quente e denso. A última lufada. Com uma pedra apanhada do chão rabiscou sobre a rocha antes que fosse tarde demais: "Queria ter escrito um poema". Fechou os olhos pela última vez e ouviu o mundo silenciar. O vento não soprou, os insetos não zumbiram. Nada. Talvez esta fosse mesmo a forma mais apropriada. Pelos instantes que lhe restaram chegou a imaginar, naquele resto de mundo no qual se agarrava, o leito barrento do rio passando pelas capivaras. Sentiu-se frustrado por ter sido essa a sua derradeira lembrança. Tinha vivido tantas coisas, havia tanta gente que lhe era querida e era disso que se lembrara em sua última saudade? Não um amor, não um beijo, nenhuma aventura. Mas um rio barrento que volta e meia enchia, passando pelas capivaras lá distantes, no fundo do vale que ele não mais veria. O silêncio e a escuridão do último suspiro do mundo viriam acompanhadas pelo ruminar de uma capivara à beira do rio corrente. Cada mundo, chegou a pensar, termina como merece. Num ímpeto de coragem tardia abriu os olhos de repente. Fosse para preencher o último momento com uma imagem mais condizente, fosse para encarar, ao menos uma vez, o mundo de frente. Mas era tarde demais. O mundo havia acabado. Não havia nada que pudesse reconhecer. Estava acima de tudo, pairando sobre um vale que já não conhecia. Olhou intrigado ao redor como quem abre pela primeira vez os olhos. Numa rocha, a epígrafe de um novo mundo: "Queria ter escrito um poema". Encontrou um caminho apertado por entre os galhos e desapareceu.
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quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Tormenta
Escrito durante a última tempestade aqui na cidade, com o céu ribombando feito tambor, só pedindo por uma letra.
Tormenta
Urra trovão
Arranca da terra o torrão
Rasga o céu num clarão
Crava a luz nesse chão
Parte e deixa ruir!
'Ranca-torrão
Despenca e ilumina esse vão
Que separa as nuvens do chão
Risca da noite a escuridão
Risca uma rota
Um resto de rastro
Um roto retrato
D'um rosto riscado
De um coração
Urra trovão
Abafa esse choro, trovão
Que espelha essa chuva, trovão
Que me trinca o coração.
Troveja, o raio caiu!
Agora me deixa chover...
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terça-feira, 25 de setembro de 2012
O Tratado
O Tratado
Se há, de fato, um mal supremo senhor da danação dos homens, essa besta atende pelo nome de Lepisma saccharina. Se o leitor é, como posso supor, alguém que nutra algum terno sentimento pelos livros, deve nutrir o mesmo ódio que eu por essa aberração cuspida pelos nove infernos. Não há manhã de sol que sobreviva ao encontro com uma traça se esgueirando pelas paredes de casa. Não há alegria que não murche ao confronto com aquele casulinho pendurado na parede, de onde o verme se esgueira a caminho de hediondos atos de vandalismo.
Outro dia estava eu, repassando alguns volumes pelo simples prazer de correr os dedos sobre as lombadas perfiladas na estante quando, sem aviso, me deparo com aquele corpinho infernal se erguendo por sobre a coluna de um Dostoiévski garimpado em sebo. Olhei por sobre os livros e encontrei, no fundo da estante, vários outros casulos pendurados lá atrás. Crime e Castigo. Fui até a área de serviço e me enfiei embaixo do armário onde eu sabia que tinha guardado aquele pesticida provavelmente já vencido. Voltei ao quarto que me servia de biblioteca e escritório, fechei a porta como que para garantir que nenhuma vítima me escaparia e iniciei o ataque.
Era o meu Vietnam pessoal. Como se o Napalm cobrisse os inimigos entrincheirados. Praticamente podia ouvir os gritos de desespero, os casulos se precipitando, os pequenos demônios se contorcendo. Os olhos começaram-me a arder, não sei pelo efeito do levante químico ou pelo calor da batalha. Pela visão embaçada ainda pude ver pequenos amontados se reagrupando. Por trás de um Arte da Guerra bem surrado, uma coluna começou a avançar em minha direção. Alguns ainda nos casulos, jovens enviados à linha de frente, outros já mais experientes, com pernas várias, velozes, tenazes vorazes, com a experiência de parágrafos devorados e clássicos deglutidos.
Uma rajada dupla derrubou a vanguarda do levante, espalhando no ar o cheiro agressivo do químico. Junto ao som do spray, pareceu-me ouvir um pequeno guincho. Em um dos flancos da estante, sobre o Guerra e Paz, na ponta da lombada de capa dura e sobre o brilho dourado da borda das páginas, um traça velha e solitária abanava no ar as quatros perninhas dianteiras, as antenas balançando alvoroçadas, o corpo acinzentado um tanto levantado. Fui em sua direção com o dedo sobre o gatilho da lata, que gotejava veneno preparando um disparo fatal. Quando me aproximei encolheu-se, pude perceber o tremor percorrer cada gomo do corpo diminuto, as antenas elétricas. Quando viu que hesitei um momento, observando-a por entre a nuvem química que já pairava no ar do quarto fechado, me encarou de frente e tornou a arquear o corpo, elevando as patas dianteiras que, àquela distância, pareciam fazer um movimento para que me aproximasse. Talvez pelo inusitado da situação, mas o guinchar baixinho parecia mais audível, quase compreensível. Aproximei do rosto e pude perceber os movimentos débeis, praticamente ouvindo a tosse baixinha de um velho soldado que já combatera tempo demais. As patas finas claramente pediam minha aproximação. Colocando o ouvido próximo do inseto puder ouvir a vozinha estridente falhando. Até que aos poucos foi tornando-se inteligível, ainda que sumidoura. Um tratado. Dois generais cercados pelos corpos de seus homens: traças e livros, destroçados dos dois lados, perdas irreperáveis de um conflito que parecia não ter vencedor.
Podia sentir as gotículas do veneno vencido pairando ainda no ar com um cheiro nauseabundo, nublando-me os sentidos. No fundo da estante corpos caídos e feridos aguardando o desfecho daquele impasse. Mantinha-me irresoluto. Nenhuma traça tornaria, sob pena de uma descarga mortal da arma que ora portava, a tocar as quelíceras sobre uma página sequer daqueles volumes. Nem que para isso tivesse que descarregar uma ofensiva diretamente por sobre toda a coleção. Elas, no entanto, não tinham opção, tentava convencer-me o general. Restaria-lhes a morte, lenta, por inanição. A paz momentânea pendia por um fio mais fino que a página de um livro velho. Bastaria mais um furo apenas, um toco de celulose arrancado, que me precipitaria sobre insetos, livros, estante, até esvaziar a lata.
O inseto agitava as antenas, as patas tamborilavam nervosas sobre a lateral dourada das páginas. De repente parou. A velha traça paralizara-se. Foram as antenas que primeiramente voltaram a se mover. Devagar mas de forma precisa, como que sintonizando uma ideia que nascia ali. Celulose? Furos? Páginas? Pude perceber no ar inebriante a ansiedade no pouco que restara das falanges destroçadas. Era vibrante, ainda que débil. Parecia... esperança? Celulose, repetiu entre tosses. Não era por celulose que lutavam. Não eram as páginas ou a tinta nelas impressa que buscavam os insetos. Eram as palavras, apenas, que alimentavam aqueles corpos anelados. Palavras e nada mais. Por que insistam então sobre os livros? É lá que estavam as palavras, balbuciava a velha traça, as antenas agora lépidas no ar. Se houvesse uma maneira, se se descobrisse uma forma, deixariam de bom grado as páginas em paz para deglutir apenas as palavras. As frases, as histórias, as metáforas cultivadas a tanto a custo e guardadas por tantos anos e semeadas em tantos lugares. As palavras.
Estiquei a mão para o livro onde estava o general. Assustado, congelou no lugar. Passei para um volume mais distante, um pequeno Metamorfose ganho de uma amiga, anos atrás. Saquei o volume, abri na página determinada pelo marcador esquecido e comecei a ler em voz alta. Minha voz atingia a nuvem de veneno que pairava, criando espirais entre as gotículas suspensas. As traças se aproximaram das bordas, silenciosas mas trazendo um vibração quase frenética com elas. Foram surgindo dezenas de pares de antenas na beirada da estante, atentas a cada vocábulo, a cada imagem proferida, a cada parágrafo servido. O general, entre surpresa e alívio, juntou-se ao banquete. Empanturraram-se por umas três horas até que peguei no sono na cadeira, no quarto fechado tomado do cheiro entorpecente do inseticida que ainda inalava.
Despertei no dia seguinte com as costas doloridas pela posição desconfortável. O livro no colo aberto na última página lida. Conferi os livros na estante e não encontrei nenhum resquício do confronto. Sequer os corpos abatidos estavam lá. Os volumes não apresentavam nenhuma presença dos insetos. Ajuntei a lata de inseticida caída ao chão, sentido as costas reclamarem e a lembrança tentando ficar mais nítida, sem muito sucesso. Abri a porta e deixei o escritório. Sobre a mesa de trabalho, aberto, o livro ficou para trás. Tinha a impressão de que no dia seguinte continuaria a leitura.
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sexta-feira, 20 de julho de 2012
Cativa
Cativa
Ei-la: minha quimera acorrentada.
Esfinge sobre a ponte, com as coleiras atadas a uma rocha.
Lá de baixo, o ruído do rio, que tão ligeiro corre, lhe abafa os ganidos.
Olha-me com meia-dúzia de receios brilhantes.
Cada olho, uma dúvida.
Não sabe se me aproximo para soltar-lhe, da rocha, os grilhões.
Ou se para empurrar a pedra ao abismo.
Tampouco o sei eu.
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quarta-feira, 2 de maio de 2012
Dicionário de Personagens da Obra de José Saramago
Faz uns anos conheci a escritora e professora Salma Ferraz (já falei dela em outro post aqui no blog). Tive a oportunidade de colaborar com a última obra dela (com uns poucos verbetes apenas, verdade seja dita), o Dicionário de Personagens da Obra de José Saramago. O livro foi lançado pela EdiFurb em uma edição bacanuda e é uma boa dica para quem se interessa pelo Saramago ou quer estudar sua obra. Fica a dica, como dizem vez por outra nesses meios internéticos.
![]() |
| Obra de Salma Ferraz, lançada pela EdiFurb. |
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quarta-feira, 25 de abril de 2012
Homenagem ao Secretário
Singela homenagem ao nosso Secretário de Estado da Educação de Santa Catarina. Se alguém quiser musicar e/ou adaptar que faça bom uso.
Por que, Dudu?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Que me deixou na mão
Que me tirou o chão
O que 'cê foi fazer?
Por quê?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Que me deixou sem piso
Que me deixou sem riso
O que é que eu vou dizer?
Pra você entender?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Olha só o estado
Em que me deixou
(o estado)
Sem ter o que fazer
Por quê?
Me deixou sem piso
Me deixou sem chão
Me deixou sem riso
Me deixou sem pão
Me deixou sem jeito
Me deixou sem pleito
Me deixou de graça
Me deixou sem graça
O que 'cê foi fazer!?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Ignorou a lei
Partiu o meu vintém
Por que foi se vender?
Por quê?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Aliado a um ator
Que governa a dor
E promessa não mantém
desdém
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Q' me deixou sem piso
Me deixou sem chão
Me deixou sem riso
Me deixou sem pão
Me deixou sem jeito
Me deixou sem pleito
Me deixou de graça
Me deixou sem graça
O que 'cê foi fazer!?
O que 'cê foi fazer!?
O que 'cê foi fazer!?
O que 'cê foi fazer!?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Por que, Dudu?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Que me deixou na mão
Que me tirou o chão
O que 'cê foi fazer?
Por quê?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Que me deixou sem piso
Que me deixou sem riso
O que é que eu vou dizer?
Pra você entender?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Olha só o estado
Em que me deixou
(o estado)
Sem ter o que fazer
Por quê?
Me deixou sem piso
Me deixou sem chão
Me deixou sem riso
Me deixou sem pão
Me deixou sem jeito
Me deixou sem pleito
Me deixou de graça
Me deixou sem graça
O que 'cê foi fazer!?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Ignorou a lei
Partiu o meu vintém
Por que foi se vender?
Por quê?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Aliado a um ator
Que governa a dor
E promessa não mantém
desdém
O que 'cê foi fazer, Dudu?
Q' me deixou sem piso
Me deixou sem chão
Me deixou sem riso
Me deixou sem pão
Me deixou sem jeito
Me deixou sem pleito
Me deixou de graça
Me deixou sem graça
O que 'cê foi fazer!?
O que 'cê foi fazer!?
O que 'cê foi fazer!?
O que 'cê foi fazer!?
O que 'cê foi fazer, Dudu?
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