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sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Tardes de Mornas

 

B.Léza - Morna
Imagem do Expresso das Ilhas

 

Tardes de Mornas

Tardes mornas
de mornas
do Verde.

Cantando a memória
do muxoxo das ondas a quebrar
nos cascos de pedra
da nau que deixei para trás.

Cabo de mornas
    e morenas

Que choram as saudades
das saudades
do Cabo Verde. 


domingo, 24 de outubro de 2021

Gota a Gota

 

Gota

 

 Gota a gota

cada
gota
cai
feito a lágrima de quem ficou

feito fonte

onde a falta é farta
onde o afeto escapa

por entre os dedos

que restaram
que procuram
os que se foram

e a palma vazia
tenta reter
algo que se esgota
                      gota
                      a
                      gota
                      a
                      gota
                      a
                      gota


domingo, 30 de maio de 2021

O poema perdido

A caminho de casa, perdi um poema.
Culpa, não ponha na moça de pernas bonitas,
que é toda ela um poema.
Tampouco no velho olhando pra cima, cigarro na mão,
que procurava, ele também, nos galhos da árvore,
um poema maduro a colher.

Onde foi — onde foi — que deixei cair o poema?

Olho na boca-de-lobo pra ver se um verso não se foi na sarjeta.
Tento lembrar se não foi a buzina que me estilhaçou as estrofes.
Se não se perdeu no emaranhado de fios no topo do poste
que enfeia esse céu onde despontam as estrelas primeiras.

Como fui — como fui — perder um poema?

Se há tanto não me cruza um!

Poema, esses dias, põe-se raro.
Diz, quem entende, que é a perda do habitat.
A gente entra com máquina, trabalho e barulho.
Estafa, trabalho e entulho.
E logo o poema já não tem onde viver.

Mas eu vi — eu vi — um poema.

Aonde foi, por onde se meteu, como se perdeu,
não sei.

Agora passo os dias, repasso os passos,
e torço para que em alguma esquina lhe calhe de novo aparecer.
Para que eu tenha ao menos
a chance de lhe dizer
adeus.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Silêncio

eu acesso aquela página
onde te encontrei
o teu silêncio ecoa o meu
silêncio entoa
o teu

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

encruzilhada

 

Foto de Victor Garcia no Unsplash


eu sou a encruzilhada
por onde passam histórias
sem nem dar
umas pelas outras

vêm e se vão
tão fugidias que
nem bem as percebo
já lá não estão

mas acontece de
vez por outra
alguma mais desatenta
se deixar pegar

com pretensão
lhe corto a cabeça
para meter na parede
        ou no papel
à guisa de troféu

em geral acabo só
com uma carcaça disforme
        um arremedo taxidérmico
do que um dia foi

uma encruzilhada onde jazem
restos, fragmentos, sangue, pedaços
do que por lá passou

até que um dia venha um diabo a visitar
e perguntar
que infernos se passou ali


segunda-feira, 15 de junho de 2020

despertador


sob estas cobertas
sob estes sete graus
sob estas sete horas
da manhã que me impelem cama a fora

maldigo a razão do despejo
sem nem pensar
no moço triste que desde às cinco
que desde os cinco
    [graus
já curva os anos verdes
costurando etiquetas
costurando etiquetas
costurando etiquetas no galpão que mistura no ar
a condensação do hálito
a condensação do hábito
a fiapos de algodão

olho lá fora esta manhã cinza
que o moço triste não vê
porque mantém os olhos na linha
porque mantém a vida na linha
porque esta linha é tudo
que o mantém a si

da janela do coletivo
embaçada
vejo a cidade
embaçada
sem nem pensar no moço triste que leva a vida
embasada
em etiquetas por minuto
tiquetaqueando contra o relógio
contra a agulha
torcendo pra linha não quebrar
sem nem pensar
no tipo triste que desde às sete
vê a cidade embaçada
na janela do coletivo que mistura no ar
a condensação do hálito
a condensação do hábito
a fiapos de ilusão


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Cidade Gris



cidade gris

carrega a cidade no peito
convulsionado
pela tosse cinza

pela cinza descarga
de um rio de carros
de um rio d'escárnios

que rolam pelas sarjetas
e desaguam em si

o peito cinza
    pulsa
    pesa e
    pulsa

cada vez mais lento

até que as brasas cedam
e as cinzas ascendam
com uma lufada de vento
dançando na fumaça
de uma cidade sem cor

terça-feira, 9 de julho de 2019

Flame Writing

Image: pexels.com

Flame Writing

Write.
Write like your fingers are on fire.
Like your brain is a bursting scorching lake.
Like your heart is a blazing kiln, pumping in your chest.

Let it burn.

When all left is a pile of fuming ashes,
blow it all away,
until you find that remaining tiny ember, burning alive.

Blow it.
Blow it and throw it everything you've got,
'til the flames arise once more.

Then you write.
Write like your fingers are on fire...


segunda-feira, 10 de junho de 2019

fin de tarde andaluz


Imagem de Grupo Navega em Nautical News Today

fin de tarde andaluz

yo soñé
con el sol a morir
    [rojo
en el guadalquivir

hecho un miura
despacio a hundir
en un poema
de sangre y dolor

la gente a la margen
lanzava suspiros
    [en el agua
como si fueran rosas a la arena
como si fuera día de feria

la torre del oro a mirar
un cielo de oro a dorar
    [la invidia
de los techos de alcazar

yo soñé con el sol a salir
    [de tapas
con la luna a sonreír
dejando colores a engalanar
el sueño que soñé soñar

quinta-feira, 10 de maio de 2018

The birth of a poet

The birth of a poet.


Imagem de curiosityneverkilledthewriter.com

 A poet was born in the woods
(otherwise, a poet he wouldn't be).
He cried the shout of the streams,
he wept the twirls of the creeks.

He crawled amongst beasts over leaves,
rose grasping on roots.
Grew under the canopy,
dreamed under stars.

And dared.

To walk on unstepped paths,
to fall in the depths of ravines,
to gaze into where darkness dwells.

He flew with birds
and sang their songs.
He howled with wolves
and told their tales.
He ran with the stampede.

Then left it's trail.

A poet was born in the woods.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Poeta de repartição


Poeta de repartição

A nuvem cinzenta lá em cima
despencava cântaros enquanto
cá embaixo
outra nuvem cinzenta se acumulava
sob o guarda-chuva cheirando a alcatrão
do poeta, que via as gotas escorrendo pelas bordas
e se perguntava quando caralhos
aquilo havia se tornado o ponto alto do seu dia.

O céu cinza
a fumaça cinza
a calçada cinza sob o guarda-chuva escuro.
O único maldito ponto de cor
se equilibrava débil sobre a ponta do cigarro
que acendia vermelho por um segundo
antes de ficar
também
cinza.

E o poeta de repartição
deixou a bituca apagar
na água que corria junto ao meio-fio
rumo ao bueiro
e subiu com os pés molhados as escadas
para carimbar documentos e sonhar
com a poesia de um dia de chuva
em que pudesse colocar no papel
mais que carimbos
ou em que não precisasse arrumar um vício qualquer
para poder sair e ver a chuva cair
no meio da tarde
cinza.

Imagem retirada de: Yog La Vie!

segunda-feira, 17 de abril de 2017

The humming bird


The humming bird


A humming bird came through my open window.
It flew to every corner of the living room
and landed on the back of an old rocking chair.
There, it stood still.
But somehow it looked
impacient
unbalanced
and awkward.
The tiny talons moving nervously, uncertainly.
The keen eyes reflecting my own.
Then suddenly it took flight.
Raised to the ceiling, dived close the carpet
and zigzagged like a spark fled from a bonfire.
And like a dart, it dashed to the door,
blasting through the wood leaving behind no more
than a tiny hole
in the shape of brave wings of unpleasantry.

terça-feira, 14 de março de 2017

...


Um cofre
guarda a fortuna
de quem puder
lhe abrir os segredos.

Vem o menino
e tenta uma senha,
o cofre se abre
com imprecisão.

Vem o velho
tentar os seus números.
O cofre se abre,
com sofreguidão.

Uma fortuna
para cada
combinação.

[clic-clac-cla]

Um poema é cifrado
com uma contrassenha
para cada leitor.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Conjuga-me


Imagem: "Quiero" por Marcos Radicella
Conjuga-me

queria eu
quisesses tu
quereres meus

quisera meus
quereres teus
quereria ainda
que em adeus

quisesses tu:
quereríamos

queiras tu
quando quiseres
que eu quero
se agora queres

queria eu
quisesses tu
a mim

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Charqueado


Charqueado

Hoje vi meu livro
numa estante pública,
pendurado feito carne
na vitrina de um açougue.

Queria eu, pingasse sangue.
Ver luzir o brilho das gorduras
    (posta exposta)

Queria ver o nervo
mais incômodo entre as fibras.
Queria o cheiro mais vermelho,
a gota mais viva
e o visco mais rico.

Sede de sebo.


Mas hoje só tem carne-seca.

A cerveja ajuda a descer.




Laura com Selenita, acho que não muito após o lançamento.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Antes dos girassóis


Antes dos girassóis

Fonte foto: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/cb/50/c9/cb50c92516405ef9efa12128802fcc72.jpg

Vincent viu o meu ipê
e sorriu amarelo

Pra esse cogumelo
(nuclear)

que precipita cor de ouro
feito chuva (ácida)

Que tinge a grama verde e cobre
de cor viva
de flor morta
todo o raio da explosão.

O clarão de ouro
passa a bronze.
Enferruja, o chão.

De-com-põe-se.

Ipê, ainda de pé.
Esqueleto armado.
Relicário da explosão
de amarelo
que já foi.

Vincent viu o meu ipê
e tirou o chapéu,
desnudando a orelha
lacerada
em sinal de respeito.

"O amarelo é triste", disse.
E ensinou ao mundo o que aprendeu com meu ipê.

Cada flor que caía era lágrima amarela,
feito tinta esparramada
tristeza sobre tela.

Toda a tristeza do mundo cabe numa cor.
Toda a tristeza do mundo cabe numa flor

que ainda há
de fazer nascer
uma nova árvore
de fazer doer.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

By the road I walk


By the road I walk

Image by Wallpaperscraft

there's a path nearby
the road I walk.

of the creek I hear the sound
    but 'have no sight.

it's a call that crawls
beneath the woods.
lurking wild, beastly
preying upon
    the road I walk.

there's a path nearby,
beside that creek.
I see no sight
I feel it deep.

beyond the trees it rests
             uneasy.

    Oh, creek beyond the trees!
    Oh, path beneath the leaves!

I keep walking the road I walk.

but I'll always know
there's a path nearby

with no footsteps but fallen leaves
    by branches guided
    by roots sustained
    by a stream followed; just
    by the road I walk.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Pela flor caiçá

 
Pela flor caiçá

Deste rio
tão caudaloso
só quero a margem.

Só a margem
não corre.
E sem corrente
(de repente?)
se é livre.

Mas o rio ruge
tão perto!

[tão alto]

Voraz

Engole tudo:
troncopauepedra

Engole a capivara que pasta de cabeça baixa, perto demais.

Engoliu o barco que ali ficava.
Engoliu a ponte que nunca existiu.

E os patos de borracha,
que boiam sobre a torrente,
(ainda não o sabem)
há também de engolir.

Tão caudaloso esse rio,
tão barulhento
e barrento
corre,
sem perceber que não tem por destino outro
que dar de frente
com outra corrente
e, engolido, sumir no mar.

O rio correu
roeu
levou morro e rocha e a capivara que nele entrou.

Mas a margem,
ainda que roída,
moída
doída
e arranhada,
permanece.

E quando a água baixar
ali vai brotar
uma flor caiçá.





Escrito certamente influenciado por esse texto do @saobrabo.
Foto do 7Themes, aqui.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Le Matin Gris


Le Matin Gris


Comment la pluie
qui tombe
je suis l'imminence
de la tristesse.
Je suis le visage
de le matin gris.

* Foto de Cleò Chiara (https://www.flickr.com/photos/cleochiara/3207199128)
** Se alguém pescar algum erro aí, por favor apontar, não sei o que to fazendo ;P

segunda-feira, 22 de junho de 2015

...


esse inverno tépido
que não congela o tempo
não arrefece o passo
do ponteiro

que feito lança avança
                   friamente

nesse inverno baço
de passo lasso
despedaço