terça-feira, 29 de abril de 2008

Silêncio

Outra do Duelo de Escritores, sob o tema silêncio. A votação tá rolando, se quiser participar, passa lá.



— Boa noite! — Abriu a porta e falou cantando, como de costume.

— Nossa, que dia puxado. Tô pregada!

Fechou a porta do quarto e foi guardando as coisas. Só aí o viu de fato.

— Ai, desculpa. Você também, né? Tá tudo bem? Não quer conversar?

Ele continuou esticado.

Sobre a cama, as pernas cruzadas, olhar disperso, expressão cansada.

Calado como sempre.

— Tudo bem, eu sempre falo por nós dois mesmo, né?

Riu e pousou a bolsa na penteadeira.

— O trânsito tava um caos de novo. Teve um acidente na marginal, o maior rolo. Tinha até uns moleques rondando a confusão, cara de que iam assaltar, sei lá. Ainda bem que não aconteceu nada. Ah, e lembra aquele projeto que eu falei semana passada? — Nem adianta fazer essa cara — Eu sei que você não põe muita fé, mas eu acho, ao menos achava, que ia dar certo. Enfim, o cliente pediu um monte de mudanças. Acho que não vai dar pra fazer nada esse fim de semana de novo. Fiquei de entregar o projeto alterado na segunda. Algum conselho?

Ele continuou quieto como sempre, cabeça baixa, cabelos pendentes. Era tarde, ela estava cansada e ele pelo visto não queria conversar hoje de novo. Seria melhor dormir mesmo. Quem sabe amanhã eles poderiam conversar. Quem sabe amanhã ele diria algo.

— Bom, se você não quer conversar acho que vou me trocar pra dormir.

Ele não esboçou nenhuma resposta. Por causa do frio, ela escolheu um moletom velho mesmo. Não achou que ele se importaria. Aproximou-se dele e olhou-o diretamente nos olhos. Nada. Apenas uma estátua. Sentou-se na beirada da cama, afastou as cobertas e deslizou para baixo dele. Sobre o corpo dela ele a olhava com aquele mesmo olhar triste e distante. Seminu, os braços abertos, encostado na parede. O rosto barbado com a coroa sangrando-lhe a testa. Como sempre, calado. Ele nunca dizia nada. Como se não estivesse lá. Em silêncio. Como sempre, em silêncio.

sábado, 19 de abril de 2008

Que olhos grandes você tem...


Ilustração de uma chapeuzinho vermelho. A base de um cartaz de festa, mas cuidei mais da ilustra mesmo, o fundo foi meio 'solto'. Não curti a luz das pernas, não consegui acertar no vetor e enchi o saco. De resto até curti.

domingo, 13 de abril de 2008

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Essa é uma análise da Cena da Barca, de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago. Foi apresentada como segue abaixo, durante a pós, à apreciação da Prof. Dr. Salma Ferraz, a mulher que manja tudo do tinhoso.


Antes de iniciar a análise da cena, é preciso esclarecer que esta estará fora de contexto, uma vez que o restante do livro ainda não foi lido. É possível que algumas das interpretações e leituras feitas a seguir sejam alteradas após a apreciação da obra completa, visto que os acontecimentos da Cena da Barca remetem e se relacionam a outras passagens do livro. Mas vamos à análise.

Toda história precisa de um cenário sobre a qual irá se desenrolar. Comecemos, pois, por aí. Manhã. A primeira palavra da cena já evidencia o início, o começo, a aurora de um novo momento para o protagonista. Algo está para acontecer, mas nem o próprio protagonista pode vislumbrar perfeitamente o quê. Um sentimento turvo, nublado, como a manhã de nevoeiro que inicia a cena. Na seqüência, Jesus deixa a vila de pescadores e parte sozinho, numa barca, para “o invisível que era o centro do mar” onde encontrará Deus e o Diabo. Essa transição da vila para mar nos remete a duas leituras: a) Jesus deixando os homens, e b) a troca dos elementos, da terra para a água, do visível ao invisível. Comecemos pela primeira. Jesus deixa os homens de forma semelhante à que abandonará a sua humanidade, abraçando sua divindade. É uma barca, qual a de Caronte, cujos homens não podem pegar. Ele cruza a fronteira – as águas, tais quais as do Aqueronte – que separa os homens de Deus. E quanto a nossa segunda leitura, vemos Jesus deixando a terra, sólida, firme, estável e partindo para a instabilidade, a insegurança, os caprichos do mar. Deixa a humanidade com a qual se identifica e entende, e passa a encarar a divindade, voluntariosa, instável, desconhecida e profunda como o mar. Jesus encontrou suas contrapartes no mar, sozinho, longe dos olhos do mundo, no silêncio. É no silêncio e na solidão que se encontra Deus. E o Diabo. Outro fato de destaque neste cenário, em que Jesus descobre o seu propósito – cena decisiva e de importância fundamental na história da personagem – é o fato de localizar-se no meio do mar e não no alto de alguma montanha ou colina, como seria de praxe nos relatos bíblicos. O mar, também, como o constata Deus, é como o deserto. E Jesus passa 40 dias no mar. Como foram os 40 dias no deserto. Em ambos os casos, 40 dias de tentações. Mas a diferença primordial: na Cena da Barca, Deus é o Tentador, não o Diabo. Outro detalhe relevante – determinante até – é o cuidado com que o autor constrói o ambiente da própria barca. Fazendo uma análise proxêmica da cena, temos Jesus se lançando ao mar, na barca, no início da narrativa. Ele senta-se no banco de proa (na parte da frente do barco) deixando o banco de popa vazio. Tomando os remos ele leva a barca em direção a seu destino. Remando, portanto, de costas para seu destino. Ele, apesar de se direcionar a Deus, mantém-se sempre voltado para a margem, para a terra, para os homens, dando as costas para Deus, para o mar, para sua divindade. Já no centro do mar, ele fica frente a frente com Deus – uma posição de interlocução e debate, bem diferente daquela com que está com Simão, seu amigo, lado a lado, ombro a ombro, na barca. Ele está frente a frente, encarando Deus e sua própria divindade. É o confronto de Cristo. Eis que, como leviatã, surge das águas – as mesmas aonde Jesus foi encontrar Deus - o Diabo. Mas mais importante: quando “se diria que ia chegar do outro lado”, inesperadamente, o Diabo chega por estibordo – o lado direito da embarcação. Ora, estando Deus no banco de popa, de frente para Jesus, voltado para a frente do barco, o Diabo chega pela direita de Deus, e ali se senta. É o Diabo que está “à direita de Deus-Pai Todo-Poderoso”, não Cristo. E o Diabo se instala na borda da barca. É tão pouco homem (que fica fora da barca, na margem) tão pouco Deus (que fica dentro da barca), está na borda, no limite entre ambos. Não bastasse, senta-se exatamente entre Jesus e Deus, entre homem (Jesus ainda não aceitou sua divindade) e Deus, o centro da balança, a parte neutra – e não má, visto que Bem e Mal ficam a cargo de Deus. E em sua neutralidade, nem a barca pende. Nem para um lado, nem para outro. E ficam na barca: Jesus, como um pescador; Deus, como um rico e ornamentado judeu; e o Diabo, como um pastor de roupas simples. Os três, numa paródia da Santíssima Trindade, completada pela terceira pessoa, Cristo. Quando Jesus retorna do mar, quando já aceitou sua divindade e seu papel nos planos de Deus, temos o inverso do início da cena. Jesus agora está voltado para o mar, para sua origem divina, para Deus e dá as costas às margens, à terra, a sua humanidade, à qual retorna agora como Filho de Deus.

Agora, com o cenário já desenhado, passemos a outro elemento essencial de qualquer narrativa: as personagens. As quais, por questões didáticas e de facilidade de leitura, tomaremos uma a uma, fazendo correlações quando necessário. Comecemos pelo protagonista.

Jesus começa tão homem quanto quaisquer dos pescadores. Levanta-se da esteira, olha o mar e fala à mulher. Já na barca, Jesus mostra-se sempre consciente do poder de Deus, mas não deixa de desafiá-lo, provocá-lo, numa insubmissão em busca de respostas, como a de Jó. Jesus admite sua “parte no contrato”. A palavra contrato, e termos legais como cláusula, lei, documento, pacto, acordo, aliança, tratado, surgem com freqüência, colocando Jesus no posição de negociador com Deus (a parte com a clara vantagem contratual) aos olhos do Diabo, que se interpõe quase como um mediador. Até o momento que se encontra na negociação, Jesus é muito mais humano que divino, afirmando inclusive, com as suas próprias palavras “Sou um homem”. A sua origem divina é posta em dúvida inclusive por Deus: “como não tinha nenhum (filho) no céu, tive de arranjá-lo na terra”. Por outro lado, na seqüência Deus diz que Jesus encarnou, como se fosse um ser celeste em corpo de homem. Essa dicotomia entre homem e deus é presente em toda a cena, mas se destaca no meio do mar, como um período transitório entre o Jesus-homem do início da manhã e o Filho de Deus depois dos 40 dias. Jesus se mostra, além de insubmisso, um astuto negociador, obrigando Deus a confrontar-se com o mal que causará aos homens, por páginas e páginas de martirizados e sofredores. Por fim, Jesus se mostra resignado e aceita as condições do acordo que não pode negar: morrerá na cruz, como seu pai José, para ampliar a influência de Deus (como morriam os cavaleiros feudais para ampliar as terras e influências de seus senhores) e em troca teria a glória da qual poderia se beneficiar no céu. Ainda assim, respondendo a Deus a cerca das mortes nas Cruzadas diz: “não valeu a pena o sacrifício”. A que sacrifício se referia: ao dos cruzados apenas ou ao seu próprio?

Quanto ao Diabo, se destaca por sua marginalidade, pelo seu trânsito entre os mundos. Ele vive à margem – e vem da margem (pág 367) – participando de maneira complementar aos desígnios de Deus. É até certo ponto adversário, mas nem de longe a encarnação ou fonte do Mal. Vejamos sua estréia na cena. Ele surge do silêncio, incógnito, de dentro do nevoeiro. Vem a nado, de dentro da água – a água aonde Jesus foi encontrar Deus, o elemento da divindade – mas ainda no mesmo parágrafo o autor cita “viera de tão longe, da margem, queremos dizer”. Margem onde se encontram os homens, onde a terra é firme, segura, o elemento da humanidade. Aqui fica outro detalhe para o complemento oportuno do autor. Quando cita que o Diabo veio de longe, esclarece: “da margem, queremos dizer”, supondo que o leitor poderia imaginar que este longe, fosse outro lugar (ou plano). Também fica claro, pela sua chega resfolegante, que o visitante não era assim tão íntimo do meio aquático (divino). Já falamos de sua chega à direita de Deus e de como senta-se entre este e Jesus, mas, quando vemos o Diabo surgir do nevoeiro, ao longe, o vemos em uma forma bestial – o “porco com as orelhas esticadas para fora da água”. Porco, o animal impuro para o judaísmo. Lembrando que Deus se apresenta aqui como um rico judeu. Mas a medida que se aproxima, percebe-se que o visitante se assemelha a um homem e, quando o vemos de perto, vemos que é a imagem e semelhança de Deus. E ao chegar diz “Cá estou eu também”. As mesmas palavras citadas por Jesus e Deus quando se encontraram, seguidas do “também”, mostrando que o Diabo, de alguma forma, já acompanhava a conversa. O Diabo, chamado de Pastor, pastoreou Jesus por quatro anos, em comum acordo com Deus, até que o mandou embora do rebanho. É ele, também, que fala a Jesus que é filho de Deus, como um anjo mensageiro. Jesus, com esse acordo, vê que os homens são sempre enganados tanto por Deus como pelo Diabo. O Diabo, afinal, ainda que não seja Deus, está sempre à margem deste, sempre junto, pois “tudo que interessa Deus, interessa o Diabo” e nem mesmo Deus pode afastar o Diabo propriamente dito, apenas as “arraias-miúdas que o Diabo tem a seu serviço”. Assim que se instala, Pastor parece não se interessar com a conversa, negando a afirmação de Deus e retomando, ao menos na aparência, o papel de antagonista, daquele que nega a Deus. Mas o Diabo, ao contrário de Deus, é quem se compadece de Jesus e dos homens, se mostra piedoso, chega a oferecer-se para salvar toda a humanidade do mal, do sofrimento, do pecado. Se coloca, ele e não Cristo, como o Salvador dos homens. Aqui diz finalmente: “Que não se diga que o Diabo não tentou um dia a Deus”, revelando sua face de Tentador, mas não dos homens; de Deus, como o fez em Jó.

Deus também se caracteriza como uma personagem complexa, com toque da construção helênica das divindades. Tem maneirismos humanos, seu poder, apesar de avassalador encontra limitações, rende-se a tentações de expansão, mostrando pouco importar-se com os mortais ou com os meios necessários para atingir seus objetivos. É o lado humano, tão presente nas divindades gregas, que também sustenta o Deus de Saramago. Este deixa de lado os vendavais e pirotecnias tão presentes na bíblia para mostrar-se – ao menos para Jesus e o Diabo – com a face dos homens, de um rico judeu. Apesar dos ornamentos requintados, calça sandálias rústicas, mostrando “que não deve ser pessoa de hábitos sedentários” (e, a considerar pelas matanças, catástrofes e sangue derramado, realmente não era). As primeiras trocas de palavras entre Jesus e Deus não têm a mesma importância dos assuntos tratados na presença do Diabo. Falam de banalidades ou coisas das quais ambos já têm ciência. Ao que parece Deus ganha tempo a espera do Pastor. Ainda antes da chegada deste, fala que precisava de um filho na terra, expondo algumas das limitações de seu poder, pois precisa dos homens; e uma falta de descaso com estes, que serão usados impunemente, à custa de suas dores, sangue e sofrimento. Deixa claro, ainda, que o sucesso ou a vitória dos deuses – note-se o plural – é conquistada pelos homens. Os deuses usam os homens como ferramentas, animais de carga, soldados descartáveis. Deus mente e manipula os homens, como o faz com sua própria lei, colocando em xeque a sua própria honra – se é que honra é algo que cabe aos deuses. Na ladainha das mortes Deus cita nomes como números de bingo, enfadado, falando “outros, outros, outros, idem, idem, idem”. Para o Deus maquiavélico de Saramago, que, como dá a entender o Pastor, “inventou o pecado e o castigo, e o medo que há neles sempre”, todos são iguais, indiferentes. Esse Deus não parece se tocar pela tristeza dos homens e só se mostra triste quando constata os limites de seus poderes: “a culpa tenho-a eu, que não alcanço a chegar onde me buscam”. “Mas Deus é Deus, não tem remorsos”. É um Deus que não permite que dele se duvide, que exige – como o Deus bíblico – sangue para alcançá-lo.

Após os cenários e personagens, a narrativa ainda precisa de um elemento para transpô-la aos códigos lingüísticos, literários ou de comunicação que darão corpo à história: o narrador. O texto de Saramago tem uma caracterização peculiar. Os diálogos são apresentados no corpo dos parágrafos, sem a devida pontuação, de forma quase descompromissada. Uma vez que o leitor habitua-se com a estrutura, ela, aliada ao diálogo coloquial das personagens, transmite uma fluidez que destoa da carga “apocalíptica” do assunto tratado pelo trio na barca. No lugar das longas e rebuscadas orações das Escrituras, os diálogos são dinâmicos, de frases curtas, como as usadas cotidianamente, afastando a história dos púlpitos dourados da Igreja e levando-a àquela vila de pescadores nevoenta. Tirando a capa cerimonial das personagens, elas se mostram vestidas de traços humanos, como os deuses, heróis e semi-deuses gregos. O texto ainda extrapola a obra em si, com citações e referências de outros autores como, obviamente, os livros bíblicos (em especial Jó), mitologia grega, referência ao Islã e notadamente a Fernando Pessoa e seus heterônimos. Pessoa, que era português, como Saramago, admirado pelo último e contra a clássica Igreja Romana, o que o encaixaria perfeitamente com o teor da obra de Saramago, que, em um de seus romances anteriores ao Evangelho, já havia escrito sobre um dos heterônimos de Pessoa.

A passagem onde emerge a figura de pessoa, no entanto, ainda me foge à compreensão. Talvez por não ser da área de letras ou simplesmente por não carregar a bagagem e as referências necessárias à compreensão (e por não ter lido ainda todo o Evangelho) me ficam ainda em aberto lacunas sobre as duas vozes misteriosas que se pronunciaram do nevoeiro e impuseram, até a Deus e o Diabo, medo. Aqui, sou eu que me encontro em meio ao nevoeiro. Talvez seja o último aspecto da narrativa a ser abordado. Após o cenário, as personagens, o autor e seus recursos literários, é preciso um leitor que também consiga decodificar os signos da narrativa.

domingo, 6 de abril de 2008

A Ilha sem Memória

Como falei lá no Duelo de Escritores, o tema Amnésia gera várias reflexões e tem ainda muita coisa pra escrever sobre Olvidar. Sistema penal, velhice, comércio, etc. Mas isso é ser feito com mais tempo e sem a preocupação de fazer um texto curto. Pretendo recomeçar a escrever isso direito, do zero, pra ver onde vai chegar. Mas aí embaixo está o que foi postado lá no Duelo.

Quando deixei Dublin no barco do Capitão Swift, esperava viver as aventuras que o fizeram famoso. Quando lhe disse que queria fazer uma viagem a um lugar inesquecível, ele apenas sorriu um sorriso irlandês e deixou o vento estufar as velas.

Chegamos a Olvidar em menos de duas semanas. A ilha não era grande e logo desembarcamos. A primeira surpresa já foi no porto. Livros. Em que outro porto do mundo os trabalhadores carregariam livros em seus afazeres? E, no entanto, lá estavam eles, consultando seus livros e cadernos no píer. Só mais tarde meu capitão me pôs a par dos fatos. Olvidar era uma ilha sem memória. Por alguma razão a população tinha dificuldade de registrar a memória recente. Pouco depois da puberdade essa habilidade ia definhando até tornar-se praticamente nula. Basta que durmam uma noite para esquecerem tudo o que viveram no dia anterior. Eis o porquê dos livros e cadernos. Cérebros de celulose, arquivos de memórias, agendas e diários. Passavam boa parte do dia anotando tudo o que lhes acontecia, fatos, pensamentos, intenções. E outra boa parte era gasta relendo o que já haviam escrito, consultando alguma memória mais antiga, seja de alguns dias ou vários anos. Era essa amnésia coletiva que ditava a vida em Olvidar.

Os relacionamentos, por exemplo, tornavam-se complicados, uma vez que não era possível lembrar-se do consorte no dia seguinte. Naquela ilha o amor tinha o ritmo intenso e efêmero das paixões. Uma vida sem bodas, mas repleta de primeiros encontros. Conheci um casal que, determinados a permanecerem juntos, criaram um engenhoso sistema. Toda noite dormiam juntos, nus, e com uma página de caderno que dizia que eram casados e contava sua história. Outra cópia dessa página ficava fixada na porta do quarto, que permanecia fechada. Ao acordarem, viam o companheiro ao lado e presumiam que haviam passado a noite juntos. Logo viam a página do caderno e lembravam, melhor seria “descobriam”, que eram casados. Se um deles não dormisse em casa, ao lado do outro, ou mesmo se um deles pegasse no sono por alguns minutos durante o dia, tudo se perderia e eles nem saberiam. Exceto talvez, por uma consulta fortuita em seus cadernos, talvez tarde demais para reatar um casamento esquecido. Ao menos eu devo imaginar que as mulheres não devem brigar com os maridos quando esses esquecem alguma data.

Não bastasse as dificuldades de relacionamento, ainda havia os resultados dessas relações. Não era incomum uma mulher acordar pela manhã e descobrir-se grávida de vários meses. E visto que era virtualmente impossível que os pais se lembrassem de seus filhos, todo cidadão de Olvidar era responsável por qualquer criança na ilha. Toda criança encontrada em casa, na rua, ou em qualquer outro lugar deveria ser protegida e educada como o próprio filho. Creches foram criadas para que as crianças pudessem ser levadas para maior segurança.

A medida que cresciam, as crianças, que ainda possuíam memória, é que ajudavam os adultos. Pela capacidade de ainda reter memórias, os indivíduos como maior potencial na ilha eram os jovens, entre 15 e 17 anos. Já desenvolvidos de corpo e ainda não desprovidos de memória. Alguns desses jovens se tornaram grandes heróis de seu povo, construindo ou atingindo grandes feitos para a o povo Olvidar. Claro que ninguém lembrava de seus feitos, nem mesmo eles. Igualmente havia aqueles que se aproveitavam dessas habilidades apenas em causa própria e se tornaram contraventores cujos crimes, em geral, acabavam esquecidos. Inclusive por eles.

Há muito ainda que escrever sobre esta ilha e seus costumes, mas já é tarde e o dia foi cansativo. Amanhã pela manhã retorno a esses escritos para contar um pouco mais sobre essa ilha inesquecível.

sábado, 29 de março de 2008

Quando chove no vale

Essa vai soar com uma daquelas histórias de acampamento. Contada ao redor de uma fogueira sobre amores impossíveis e acontecimentos fantásticos. Pessoalmente nunca fui uma pessoa de acampamentos, tampouco um contador de histórias. Desta, que agora transcrevo, não assino a autoria. Passo adiante tal qual me foi relatada, ou o mais próximo que minha memória o permita.
Cheguei ao ancionato, como de costume, logo após o almoço. Minhas tarefas da tarde transcorreram de forma normal e me parecia mais um dia enfadonho, preenchido pelas tarefas rotineiras e de pouca importância que vinha exercendo nessas duas semanas que me estabeleci em Blumenau e me vinculei ao meu atual emprego. Porém um encontro fortuito e uma história singular garantiram um passar das horas mais prazeroso dos que eu havia tido até então. Dentre todos aqueles senhores e senhoras de idades muito avançadas, na sua maioria descendentes de alemães (visto que fora essa a colonização da cidade) conheci um senhor cuja pele parda e olhos escuros e levemente puxados destoava das feições germânicas que pareciam povoar o pátio principal. Ele usava os cabelos grisalhos, finos e lisos à altura dos ombros e tinha no pescoço um colar de contas acastanhadas. Era claro, ao ver o homem, que sua origem indígena o colocava de forma diferente naquele meio. O encontrei só (não sei dizer se por opção ou exclusão) a ver as andorinhas que voavam baixo ao fim da tarde. Me aproximei e o cumprimentei perguntando se poderia me sentar ao seu lado. Ele assentiu com um meio-sorriso e um menear de cabeça, mas suas palavras foram: “— Trouxe um guarda-chuva?” Sentei-me na cadeira vaga e creio que minha expressão tenha explicitado minha surpresa.
“— Antes que você se vá, vai chover. É bom que tenha um guarda-chuva”.
Não pude deixar de pensar nos xamãs dos filmes americanos. Índios feiticeiros com chocalhos e peles de animais sobre as cabeças, dançando em volta de uma grande fogueira. Evidente, não era esse o caso do meu interlocutor. Ele prosseguiu:
“— As andorinhas, quando voam baixo assim, trazem a chuva dos morros”. E apontou para as montanhas que cercavam a cidade, onde havia uma tênue massa branco-acinzentada, que poderia realmente indicar chuva.
Aproveitando o rumo da conversa, perguntei, mais com o intuito de continuar o diálogo, como ele havia aprendido aquilo. Ele me respondeu que era uma história passada para todos de sua tribo no tempo de seus ancestrais, e que agora era contada aos mais jovens e aos amigos, para preservação da cultura que vem se perdendo rapidamente nas últimas décadas. Embalado pela curiosidade e pela ociosidade, solicitei àquele senhor que contasse então sua história. Ele sorriu ao ver meu interesse e começou seu pequeno conto enquanto um princípio de garoa bem fina começou a cair e as últimas andorinhas voavam, creio eu, a procura de seus ninhos.
Existe em Blumenau, diz ele, um morro ao qual os colonizadores nomearam Spitzkopf, algo como “cabeça pontiaguda”. Mas antes mesmo da colonização, que se deu há pouco mais de um século e meio, o morro havia sido terra dos Laklanõs, índios nativos da região, derivados de tribos Kaigang que habitavam os vales catarinenses na época. A tribo de seus antepassados vivia no topo do morro, a cerca de novecentos metros de altura. Lá de cima, podia-se ver ao longe por sobre o vale, até enxergar o mar que se estendia distante, ao longo da costa muito além das montanhas. Lá de cima, quando o sol nascia surgindo de dentro do mar como que em chamas, sua luz ofuscava e cegava quem quer que o visse. Segundo os costumes do povo, é nessa hora, quando o sol cruzava do mundo dos deuses para o dos homens, que o portal entre os mundos ficava aberto, dando passagem ao astro. A ofuscação impedia que se visse a face dos deuses, mas com o portal aberto, as divindades podiam ouvir as preces dos homens santos e líderes, e receber seus sacrifícios em forma de cereais e frutas que eram atiradas no precipício de centenas de metros. E nessa hora, se a prece fosse profunda como o oceano e pura como o mar, ela seria atendida. Por esse costume, eles se chamavam Laklanõs — a Gente do Sol.
Seu território, no topo do morro, os mantinham longe de conflitos com as outras tribos Kaigangs que viviam às margens dos rios no leito do vale. Mas os anos se sobrepuseram e finalmente chegou a invasão alemã. Com o início dos primeiros confrontos entre indígenas e imigrantes nos vales, alguns dos Kaigangs fugiram para as encostas dos morros. Uma dessas tribos fugitivas se instalou aos pés do morro dos Laklanõs. Depois de alguma hostilidade, uma certa paz reinou entre as duas tribos, ficando o Povo do Sol em seus domínios na parte mais elevada do morro, enquanto os novos habitantes se estabeleceram mais abaixo, respeitando ao mesmo tempo o território da tribo nativa e fora do alcance do homem branco.
O tempo transcorria enquanto essa frágil paz fora estabelecida e enquanto os europeus se dispersavam apenas nos vales. Mas os índios são homens. Homens são gananciosos. Homens são invejosos. O Povo-do-pé-do-morro, como o velho índio os nomeia, quis tomar o privilégio dos Laklanõs de estar com os deuses. Eles descobriram que todas as manhãs, ao nascer do dia, os homens santos faziam suas preces e oferendas aos deuses. Enviaram então um caçador, jovem de corpo e espírito, para pouco antes da aurora subir o morro e descobrir a localização do santuário da Gente do Sol. O caçador partiu em sua breve jornada armado apenas da escuridão de uma madrugada sem nuvens e das sombras da mata. A aurora se aproximava e as sombras abrandavam seu abraço. Ao raiar dos primeiros raios, um canto melodioso e fluido atingiu os ouvidos do caçador. Tão doce e sublime era o canto que o Kaigang acreditou ter encontrado com os próprios deuses. Seu coração se encheu de júbilo com a beleza divina que a ele se mostrava. Porém, atirou-se rápido em meio a vegetação molhada de orvalho, ao perceber que voz não era de deus algum, mas da beleza majestosa de uma mortal. De olhos tão negros e brilhantes quanto os dele, e que cantava para a mata verde que acordava devagar. Bastou um segundo de cruzar de olhos para desarmar o caçador e fazê-lo deixar seu esconderijo. As pinturas nos adornos da índia denunciavam as mãos dos artesãos Laklanõs. Mas naquele momento não existiam tribos nem santuários. A própria mata, o próprio morro se resumia a quatro olhos negros que brilhavam aos pares como brincos de ébano polido. Quiseram os deuses que aqueles olhos não mais se afastassem e pelas semanas que se seguiram, ela, dos Laklanõs e ele, dos Kaigangs-do-pé-do-morro, se encontravam entre as plantas e as árvores, na fronteira do território entre as duas tribos. Dia após dia, sempre antes do alvorecer, quando ela saía a cantar para a mata. Ele ouvia suas canções e a presenteava com ornamentos coloridos. Ela retribuía com os mais belos olhos que já habitaram a face humana.
O colorido dos presentes no entanto não impressionou apenas a jovem. Alguns guerreiros Laklanõs também repararam nas peças Kaigangs que ela usava e, impulsionados pelas suspeita, seguiram a índia na escuridão da madrugada enquanto os líderes da tribo se dirigiam para o local das oferendas aguardando o nascer do sol. Inebriado pelo canto adocicado de sua amante, o jovem-do-pé-do-morro não se deu conta dos guerreiros que o cercavam até que fosse tarde demais. Até que as pontas das lanças apontassem inquisidoras ao seu redor, como um júri condenando um réu. Os contraditores enamorados foram levados à presença dos líderes, que aguardavam a chegada do sol no santuário no alto do morro. A comitiva chegou aos líderes no momento em que a enorme esfera flamejante se erguia acobreada de dentro das águas no longínquo oceano. O Kaigang vislumbrava o objetivo que o lançara em sua empreitada. O portal se abria em chamas e os deuses estavam pela primeira vez ao seu alcance. Quisera ele haver sido outra sua sorte. Não só invadira território Laklanõ, como cortejara sem permissão uma filha do sol. E agora estava frente ao deuses no santuário, uma regalia apenas concedida aos líderes do Povo do Sol. A morte bailava ululante ao redor do jovem caçador, com seus dedos magros e frios tocando os cabelos do índio, convidando-o para uma última dança. O inevitável e supremo veredicto fora dado, e o jovem Kaigang fora lançado ao abraço da morte que aguardava de braços abertos como uma amante aguarda o consorte. A vida do jovem índio fora arremessada, precipício abaixo como sacrifício aos deuses que aguardavam a oferenda além do portal cuja luz intensa cegou e aqueceu toda a platéia daquele admirável espetáculo. A jovem índia, ainda que cega pelo brilho dos deuses, chorou e implorou aos Imortais pela vida do amado, que bailava com a morte num palco etéreo rumo ao chão. As suas lágrimas eram salgadas feito o mar e sua dor profunda como o oceano. E assim seu choro e sua prece cruzaram o portal e tocaram o coração dos deuses, que se apiedaram da tristeza e desespero da jovem. Então o brilho dos raios solares atingiram o ápice de seu fulgor e em meio às ofuscantes chamas brancas que cruzavam o ar, o Kaigang se despediu da morte e adiou aquela valsa. Seu corpo já não era o seu, plumas lhe cobriram os braços, que braços já não eram. Tão logo a claridade abrandou o céu foi cortado por uma andorinha veloz, que outrora vivera entra os homens, na tribo dos Kaigang do pé do morro hoje chamado Spitzkopf. E o sol deixou as águas e se lançou ao céu junto com aquela andorinha, acordando o morro e a mata para o dia que despertava ensolarado.
A índia, com os olhos cegos pela presença divina, não viu a resposta dos deuses à sua prece. Desamparada e ignorando a solitária andorinha que voava sobre o morro, partiu a correr pela a mata que um dia acolhera as suas juras de amor clandestinas. E correu até que deixou o dia para trás, e sob as estrelas se sentou no meio da mata, no mesmo lugar onde costumava se encontrar com aquele jovem que não mais iria andar entre os homens. E lá ela chorou. E chorou. E chorou. E o choro não cessava, e de suas lágrimas brotou um córrego, que escorreu triste morro abaixo. Um córrego salgado como as águas do mar e frio como o fundo melancólico do oceano. Mas assim como o choro, sua dor não cessava. Decidiu a índia, porém, que ela mesma a cessaria. E a morte se animou novamente. Vestiu-se de preto-baile e foi para o salão, pois a banda já tocava e lhe convidavam a bailar. A índia se atirou de costas no salgado regato e, vendo as estrelas, se pôs a cantar sua última canção enquanto a morte, com passos hábeis de bailarino, a embalava em seu balé noturno. E a canção ecoava na noite. A mesma canção que um dia entoou na mata e que embalou dois pares de olhos negros, amantes que não mais se veriam. E tão doce era sua voz que as águas do córrego, antes salgadas das lágrimas, se adocicaram com o soar daquela ária. E o regato desceu o morro até a tribo dos Kaigangs enquanto aquela canção sondava os céus escuros até seduzir uma andorinha, que voou esperançosa para reencontrar a alma enamorada que lhe salvara a vida. Quando chegou, porém, nada encontrou de sua amada. Apenas um regato que jamais vira no morro e que corria encosta abaixo. Voou baixinho seguindo o percurso d’água. Mas quando chegou aos pés do morro não havia mais canto. E no lugar dos brilhantes olhos negros que ansiava encontrar, um olhar vítreo e sem vida boiava num corpo afogado nas margens do arroio que formara um lago de tristeza na base do morro. E a andorinha voou baixo e chorou como jamais chorara. E outras andorinhas voaram baixo na noite e se compadeceram do trágico fim daquele sarau. E os homens que viram as andorinhas, pranteando sobre o lago de lágrimas também choraram, tão triste a sina que criara tal regato. E a tristeza se espalhou e a mata que já abrigara os amantes se juntou ao coro choroso. O próprio morro, que até então não vira tamanha tristeza, se apesarou. Tal pesar se condensou em comoção e se precipitou como lágrimas por todo o morro. E logo todo o vale chorava o triste epílogo daquele amor. E desde então, quando as andorinhas voam baixo, o vale se lembra de tal malfada história e chora junto com as aves, que um dia voaram baixo para o pé do morro, para se lamuriar da mais triste história que nesses morros aconteceu.

terça-feira, 25 de março de 2008

Chicano


Só pra postar mais uma ilustração. Esse é um rough pra um mexicano. Quem sabe um dia dou um trato melhor nele e colorizo o infeliz. Por enquanto fica o sombrero à grafite.

sexta-feira, 21 de março de 2008

MASCOTES DE MARCAS – PROSOPOPÉIA DE VALORES

Escrevi este artigo já há algum tempo e ele foi originalmente publicado no site da Universidade Tuiuti do Paraná - UTP e no site Tudocom.


Os estudos da linguagem apontam a Prosopopéia como a figura pela qual se dá vida, voz e ação a objetos inanimados. Personificação. O radical Prosop, do grego, significa “rosto, face”.
Esse é justamente o principal objetivo das mascotes de marca. Personificar, dar um rosto à imagem do anunciante e, se possível, ao seu principal benefício/característica. Tomemos os coelhos mascotes da marcas de pilhas Energizer e Duracell. Não só transmitem os valores da marca, mas representam o principal benefício do produto – pilhas de longa duração.
Não data de hoje a criação de mascotes para a publicidade. No período pós-guerra, publicitários e ilustradores já focavam seus esforços na criação de bonecas de cerâmica que tinham como objetivo identificar-se com uma marca determinada. Foi a forma de dinamizarem as marcas, de aproxima-las do consumidor num período marcado pela explosão de consumo que prenunciaria nossos dias atuais. Esse período foi marcado pelo surgimento de importantes mascotes, como o tigre Tony, dos cereais matinais Kellogg’s no início dos anos 50.
Mascotes são testemunhos. A personagem torna-se porta-voz da marca. A mensagem anunciada passa a não ser dita mais pela marca, mas por uma terceira pessoa (a personagem), agregando a si mais credibilidade, fator decisivo na criação de um estado psicológico menos defensivo por parte do público.
Fundamental na criação da mascote é a associação entre ela e a marca que representa. A associação deve ser imediata. Ronald McDonald, se transformou no embaixador da McDonald’s junto das crianças. Além de ser reconhecido imediatamente, também o é sua ligação com a rede de fast-food. Ao contrário, a imagem do coelho das pilhas de longa duração está dividida entre as marcas Energizer e Duracell. Uma disputa que obrigou as empresas a uma separação de mercados: nos Estados Unidos o coelho é usado pela Energizer, que foi a primeira a utilizar sua imagem no país (e diga-se de passagem, segundo o site da empresa foi eleito um dos “Top 5 Advertising Icons of the 20th Century”). No mercado Europeu, ocorreu o inverso, sendo a imagem da mascote atribuída a Duracell. Em tempo: o coelho da Energizer foi introduzido ao mercado em 1989, enquanto o da Duracell já estrelava comercias europeus desde 1974.
O uso de mascotes, porém, implica na necessidade de abordagens uniformes, consistentes e de interação contínua com o público, adotando a personagem como ícone – ou símbolo – tão precioso quanto o próprio logo da empresa. Diversos fatores ainda influenciam a criação e uso de mascotes, inclusive uma avaliação precisa se esta é, ou não, uma estratégia adequada; uma vez que uma mascote demanda grandes investimentos, cuidados e regularidade de exibição, sob pena de perder notoriedade, ligação com a marca ou sua própria personalidade. A aplicação de uma mascote deve, portanto, avaliar não só o budget, mas se esta tática se enquadra nas estratégias de comunicação traçadas.
O uso da prosopopéia está embasado não tanto na forma, que dá vida a animais ou objetos inanimados, mas no conteúdo destas personagens. Que digam Lewis Carroll, J.M. Barrie, Walt Disney e tantos outros – isso além da maioria de nossas fábulas infantis. Para as mascotes de marcas, assim como para qualquer personagem pública, um rostinho bonito apenas, já não basta.


quinta-feira, 13 de março de 2008

Morre Maira Maíra

Outra do Duelo. O tema era morte. É mais uma experimentação, tentando usar só palavras com a primeira letra M, de morte.


Maira Maíra morreu. Morte matada: matou-se. Mastigou mato maligno, minguou muda. Motivo? Mágoas mil, mas mágoa maior marcou-lhe Milton. Marido malandro, mentiroso. Mimava Márcia, morena matreira. Magra, madeixas marrons, mamas maravilhosas, maiô minúsculo. Mulher maravilha, mesmo. Maira Maíra, muda murchava. Mantinha mente mansa, mas mordia-se maltratada, moral minada, magoada. Melhor morrer, meditava.

Media métodos. Mutilação metia-lhe medo. Machucava muito. Mirava morte mais melancólica, menos moderna. Mítica, misteriosa. Mais marcante. Merecia melhor mortalha. Maquiou-se, meteu meias macias, malha marfim, melhores miçangas. Marchou.

Mediu meia milha marcando mata. Mãos miúdas mexiam moitas. Manipulavam morte. Mato mortal Maira Maíra mordeu. Mastigou mais. Movia molares mastigando morte. Menta maligna matava Maira. Maira morria.

Morreu, Maira Maíra.

domingo, 9 de março de 2008

Dormentes

Postado tb lá no Duelo de Escritores, sob o tema "Viagem de Trem". Dá um pulo lá e contribui com a votação, no texto que vc achar mais bacana. Por enquanto só om copiar colar do Duelo pq o PC tá na UTI e maior parte do conteúdo tá lá dentro. Lá vai o texto:

O sol mal subiu e você já estava na plataforma. Estação cheia. Um desfile de malas, mochilas e sacolas. Lá de trás uma fumaça preta anunciava a chegada. O povo se aproximou da beirada da plataforma. E lá no meio você. Com apenas uma maletinha de mão, praticamente vazia, embarcando numa viagem que sabe-se lá quanto tempo ia levar. Mas, enfim, você entrou. É bem verdade, meio assustado. Passar pelos corredores estreitos com um trem em movimento se balançando de um lado para o outro talvez não tenha sido o melhor dos começos. Mas logo você encontrou uma cabine com espaço. Lá dentro apenas um casal de uns trinta e poucos anos. Depois de instalado, você se apresentou. Ele era maestro, ela professora. Estavam em lua-de-mel. Talvez por isso tivessem bem mais bagagens que você. Eram um casal divertidos e fizeram os primeiros quilômetros da viagem passarem rápido. O único incômodo era a sensação de estar atrapalhando. Os dois ali, em lua-de-mel, e você atrapalhando ali na cabine. Mas eles pareciam não se importar. Pela janela você apreciava a paisagem exuberante na tarde ensolarada enquanto conversava e sentia o balanço dos vagões sobre os trilhos. Com o tempo, porém, a companhia do casal começou a ficar meio cansativa. Provavelmente pela proximidade constante. Com uma desculpa qualquer você pegou a mala e saiu a procura de outra cabine, prometendo voltar para retomar a conversa.

Passando pelas cabines você vê pela porta de vidro uma moça sozinha, olhando pela janela. O cabelo castanho amarrado para cima revelava a nuca e o pescoço longo e delicado. A bagagem parecia de apenas uma pessoa. Você estava com sorte. Com duas batidinhas no vidro, para não assustar a moça, você abre a porta e pergunta com umsorriso — que você acreditava sedutor e ela achou meio bobo — se o assento estava vago. Ela respondeu que sim com outro sorriso. Ela era uma estudante de música de pouco menos de trinta anos. Interessante, bonita. Vocês conversaram e logo se deram bem. Lá fora o sol continuava a iluminar a paisagem e dentro da cabine o clima estava ainda melhor. Você anda voltou algumas vezes a sua antiga cabine para visitar os recém-casados, mas quando o trem parou numa estação no meio do caminho e você viu, pela janela, os dois na plataforma de desembarque, uma tristeza repentina lhe apertou o peito. Eles acenaram cercados pela bagagem volumosa enquanto o trem se afastava seguindo viagem. Ao menos lhe restava ainda a companhia da sua nova colega de cabine. Masfaltavam ainda algumas estações para você descer quando ela disse que havia chegado a sua parada. Da plataforma da estação ela mandou-lhe um beijo e foi ficando para trás enquanto o vagão retomava a viagem. Na cabine apenas você e a sua mala, que afundava pesada no estofado do banco a sua frente. Olhando a paisagem, com a testa contra o vidro, você adormeceu ao embalo do trem. A paisagem continuava lá. Os túneis surgiram e se foram, escureceu e tornou a clarear. E a paisagem continuava lá. Mas você não percebeu porque havia adormecido. Só acordou quando um funcionário, de uniforme negro impecável, veio lhe chamar. Chegara a sua estação.

Você desceu meio desajeitado, com todas as suas malas, a bagagem caindo aqui e ali. Algumas provavelmente tinham até ficado para trás. Vendo a sua cara de atordoado na plataforma, cercado pela própria bagagem, o funcionário não se conteve e riu. “Pobre, homem. Não deve nem saber onde está”. Com o orgulho ferido e achando-se mais esperto você ainda respondeu “Ao menos posso ir aonde quiser, que não tenho trilho algum que seguir”. E só com a cabeçapara fora do trem o funcionário concluiu: “Meu senhor, esse trem não corre sobre trilhos”.Só então você percebeu a falta dos dormentes, do metal, da linha reta e previsível dos trilhos. E o trem saiu serpenteando em todas as direções, como se cada passageiro pudesse escolher o caminho a seguir. E você ficou na plataforma, cercado por toda a sua bagagem e coberto pela fumaça preta que saía da chaminé enquanto o trem ia se afastando.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Os Herdeiros do Coveiro sem Cova

Esse acabou de ser postado lá no Duelo. O tema da rodade é Zumbi. Se vc chegou aqui, deve ter vindo de lá. Se não, dá um pulo e confere o projeto. "Seu voto é muito importante para nós", como diria a garota do telemarketing. Mas agora, vamos aos zumbis.

Entraram correndo. Fecharam atrás de si o portão que separava os vivos dos mortos. “Agora os mortos dos outros mortos”, pensou o velho da espingarda na mão. Os muros altos e o portão lhes dariam alguma proteção por algum tempo. Era estranho procurar a vida na vila dos mortos. Escapar da morte em meio aos que já a abraçaram. A moça da saia rodada estava em paz. Sempre odiou cemitérios. Não visitava nenhum, não assistia a funerais nem de familiares. Preferia lembranças melhores, dizia. Mas aqui, entre as lápides sob a lua que começava a aparecer, ela se sentia em paz. “É lá fora que se morre”, pensou. E permitiu-se um momento de alegria entre os túmulos. Apenas o segundo desde que esta loucura começara. O primeiro foi encontrar o velho e seu filho e, assim, não precisar mais vagar sozinha por aí, à noite, feito um... Ela fez uma careta para não pronunciar a palavra. Mas já a havia pensado. E no pensamento, que é tão feito de palavras como um livro, lia-se zumbi. O filho do velho viu a expressão da moça e foi como se lesse a palavra. Levantou o revólver de tambor procurando algo em que fazer mira enquanto apertava o cabo do facão na outra mão. Mas aqui todos os mortos estão em silêncio, dormindo o sono dos justos, como diziam uns, ou descansando em paz, como dizem outros, em suas camas de madeira com dossel de terra. Nas cabeceiras liam-se seus nomes, como para que não se confundam na hora de voltar para a cama. A troça não agradou o velho da espingarda. Não gostou de pensar que alguns dos seus amigos, que ali estavam, podiam levantar-se e querer um abraço em nome dos velhos tempos. Mas logo se tranqüilizou lembrando que os nomes nas lápides não eram para aqueles que nelas se deitavam. Mas para aqueles que entre elas caminhavam. “Afinal, somos nós que precisamos de guias. Somos nós que vivemos perdidos”. Pôs-se a caminhar seguido do filho e da moça da saia rodada. Lá fora os mortos caminhos entre os vivos, cá dentro, os vivos entre os mortos.
Um grunhido os despertou. Voltaram os rostos, assustados e de armas a postos. Teriam sido encontrados? A cena que viram, no entanto, foi desconcertante. Pálido, com a luz da lua banhando-o, estava um dos mortos-vivos. Grunhindo com as veias roxas mostrando-se sob a pele e com os braços estendidos em sua direção, tentando alcança-los. Mas não saía do lugar. Seus pés não tocavam o chão. Balançavam-se a um metro e meio de altura do chão, como se estivesse caminho com os sapatos sem cadarço flutuando. Os cadarços que faltavam estavam em torno do pescoço machucado e iam amarrar-se num galho de árvore logo acima da cabeça. Um fruto podre pendendo da árvore morta. Mantendo-o sob a mira, aproximaram-se. O braço esquerdo tinha ainda as marcas de dentes, provavelmente o ferimento que o transformara naquela abominação. A moça da saia rodada tinha os olhos inundados em lágrimas. Sentia pena dele. Ali pendurado, enforcado em sofrimento eterno. Como ele tinha parado ali ela não sabia, mas sabia o que precisava ser feito. Não se assustou quando o velho levou o cano da espingarda bem perto do rosto da criatura, que estendia os braços e grunhia enquanto tentava inutilmente caminhar para pega-los. Uma marionete pendura pelas cordas enleadas. A moça virou-se. Ouviu o velho puxar o cão da arma. Um breve silêncio. Um suspiro pesaroso — o velho parecia tão triste quanto ela — e a explosão. Ela não se virou. Ninguém falou. Só pela sombra que atingia uma lápide ela via o corpo inerte, com os braços pendurados, balançando-se, de um lado para o outro, como um pêndulo que marcava as horas para o inevitável. Finalmente ela vira-se. Não olhou para cima. Via apenas os pés que balançavam, um já sem o sapato, que caíra com o tiro. O cano da espingarda baixou. O velho fungou. Também tinha os um pouco úmidos. Já os olhos do filho não se comoviam.
— Vocês não vão chorar por ele, vão? Ele não teria pena de nós se fosse o contrário.
— Mas ele teve — retrucou o velho — se algum morto-vivo tivesse chegado aqui e ele já estivesse morto, não teria porque tentar come-lo, logo ele não se tornaria um zumbi. E se ele já fosse um zumbi, não teria se enforcado. Se ele está aqui é porque sabia o que aconteceria com ele depois da mordida no braço. Foi para não nos caçar, que ele se matou.
— Sem nem mesmo nos conhecer, completou a moça.
— Só é pena que a coragem não traga por si só sabedoria. Ele não sabia que precisava destruir o cérebro. Provavelmente morreu e ficou pendurado até a mordida fazer efeito e ele acordar como um deles.
— Pela roupa pode ser o coveiro, observou o filho do velho da espingarda.
— E a casa dele deve ser aqui perto. Lá a gente deve estar mais seguro, concluiu a moça, tentando não olhar para vulto pendurado.
E o trio se foi deixando para trás a árvore do coveiro sem cova.
A casa era pequena, o mobiliário simples. Foi tudo o que puderam observar antes de ouvir o som do grito e um arranhar constante. Seguiram o som com cautela, armas em punho. A moça da saia rodada atrás da fila, o filho do velho na frente. Acenderam a luz da cozinha de azulejos azuis decorados. O som vinha da porta que dava para o porão. O filho do velho apontou o revólver para a porta e fez sinal para o pai abri-la. De dentro saltou uma mulher e o filho do velho por pouco não disparou contra ela confundindo-a com um zumbi. A sorte foi que ela estava toda arrumada. Com um vestido de baile turquesa brilhante bem ajustado ao corpo, um colar de pérolas falsas que dava algumas voltas ao redor do pescoço, o cabelo com um loiro penteado de festa e muito bem maquiada. Por pouco o filho do velho não disparou quando ela se precipitou para os seus braços. Antes o tivesse feito. Só quando viu a expressão de dor do filho o velho percebeu o que acontecera. Com um golpe com o cabo da espingarda afastou a criatura do rapaz o suficiente para disparar um tiro certeiro que arrebatou o rosto maquiado e lançou tufos de cabelo laqueado ao chão da cozinha. Quase imediatamente, o velho virou a arma alguns graus para a esquerda e, de mira feita e olhos fechados, puxou o gatilho novamente. Espalhou sobre o azulejo azul a cabeça e o sangue do filho. “Sangue do meu sangue”, pensou, e colocou o cano quente sob o queixo. A moça da saia rodada deu rápido um tapa no cano que reclamou com chumbo contra o teto. O velho olhou para ela, deixou cair a arma ao chão, lágrimas ao rosto e o corpo à moça, que o amparou o melhor que pôde. Levou-o de volta a sala e deitou-o no sofá. Tornou a cozinha para pegar a arma e viu o ferimento no ombro do rapaz, as marcas vermelhas de dentes. Nauseou-se frente aos corpos sem cabeça e a cozinha ensangüentada. Aliviou o estômago ali mesmo, junto à porta que leva ao porão. Limpou a boca na manga da blusa, pegou a espingarda do chão e desceu as escadas com o dedo no gatilho.
Lá embaixo a luz estava acesa e viam-se duas mesas de metal. Sobre uma delas, o corpo inerte de um senhor de terno bem alinhado. A moça parou no último degrau. Não ouviu nada. Olhou em volta. Nada. Com a arma apontada ao corpo se aproximou em silêncio, pé ante pé. Apontou para a cabeça, envolveu o gatinho com o indicador e tocou a têmpora com a ponta do cano. Deu três cutucões. Estava morto. Respirou um pouco mais aliviada. O homem era velho e um pouco barrigudo, mas estava vestido com tal elegância que lhe pareceu charmoso. O cabelo branco impecavelmente penteado e o rosto maquiado davam a impressão de que poderia a qualquer momento abrir os olhos acordando. O pensamento a fez afastar-se um pouco e olhar novamente em volta. Era ali que eles preparavam os mortos para os velórios e enterros, disfarçando a morte com uma camada generosa de pó-de-arroz e algum blush. “Do pó ao pó”, o trocadilho lhe veio. A mesa ao lado estava vazia, mas numa banqueta próxima estava um estojo de maquiagem. Ao lado deste um espelho de mão fora esquecido do lado de fora. “Mas os mortos não precisam de espelhos para maquiarem-se. São os vivos que se espelham em reflexos”. No chão, atirados a um canto, viu três vidros de comprimidos com algumas poucas bagas bicolores que sobraram caídas em volta. Ao lado da cama vazia havia um copo de água pela metade. “Metade vazio”, lembrou-se do adágio Olhou para o senhor distinto da mesa ao lado. “Ela só queria ir bonita”. Voltou para o estojo de maquiagem. Pegou o espelhinho de mão e procurou-se lá dentro. Quase não se encontrou, tão suja que estava. “E ela estava certa”. Chegou a pronunciar as palavras baixinho, enquanto olhava para o estojo que guardava os segredos da beleza e certamente algum pó-de-arroz. Foi à pia na parede próxima, lavou o rosto, os braços e o colo o melhor que pôde e secou-se com uma toalha de rosto. Passou também a toalha umedecida pelas pernas, tirando o grosso da sujeira. Sentou-se na mesa vaga, com o espelhinho na mãe esquerda e o estojo sobre as coxas escondidas sob a saia rodada. “O certo seria deitar-me”, ponderou olhando para o vizinho de mesa. Mas aí não conseguiria maquiar-se direito. Permaneceu sentada e abriu o estojo. Lá dentro encontrou, junto com os cosméticos, um caderno grosso e pequeno, de capa rosa e marcado com uma flor seca no meio das páginas. Era um diário de mulher. A página marcada continha as últimas anotações. A história daquele último dia era terrível.
Ela era a mulher do coveiro sem cova. Ela maquiava os mortos para que eles parecessem bonitos nos velórios, e o marido os enterrava para que ninguém visse como ficavam feios depois que não lhes damos mais atenção. Os dois tinham sido feridos pelos mortos tentando voltar para casa, mas conseguiram se desvencilhar. Voltavam para casa em busca da bebê. Quando chegaram ela estava sozinha. A babá devia ter fugido, ou ido procurar os próprios familiares. Feridos eles já sabiam o que lhes aconteceria em breve. Perguntou para o marido se havia alguma forma de escapar daquele destino, nem tanto por eles, mas pela filha. O marido disse que a única forma de escapar de uma morte horrível era por uma morte mais digna. Decidiram que a filhinha não morreria pela mão dos mortos. Era melhor uma morte tranqüila, dormindo, junto da família. Enterraram o bebê junto ao túmulo dos avós, para que, dormindo morresse e em um sono tranqüilo. O marido disse que precisava ir fazer alguma coisa. Ela compreendeu e sabia e ele não retornaria. Tinham feito amor pela última vez entre as lápides e ele se fora. As últimas palavras foram “uma morte mais digna”.
A moça da saia rodada fechou o diário. Olhou a maquiagem, os comprimidos no chão, lembrou-se do chão da cozinha... “Não adiantou”, pensou. E completou em voz alta “você precisa destruir o cérebro”. Ia fechar a caixa de cosméticos e viu uma última vez o diário. Pensou que também gostaria de, ao morrer, ser enterrada ao lado dos avós. Morrer de uma morte tranqüila, enquanto dormia. E foi como se uma luz se acendesse. Se a bebê ia morrer enquanto dormia, ela estava viva quando foi enterrada. E ainda poderia estar. Ela subiu as escadas correndo, passou voando pela cozinha e contou ao velho o que descobrira. Saíram em busca das lápides que tinha o mesmo sobrenome que estava no verso da capa do diário. Ao lado da lápide havia um pequeno monte de terra com uma pá, ainda suja, próxima. O velho pegou a ferramenta e começou a cavar. A cova era rasa e logo atingiu um objeto duro, que começou a chorar em protesto contra o impacto. Tiraram o resto da terra com as mãos e abriram o pequeno caixão. A criança chorava e só se calou nos braços da moça. Eles, que vieram salvar as suas vidas entre os mortos, não esperavam salvar a de outra pessoa. Do lado de fora dos muros, os mortos ainda perambulavam pelo mundo dos vivos. Do lado de dentro, ao menos por aquela noite, os vivos levariam a vida no mundo dos mortos.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Decote-se

Sambinha escrito lá pro Duelo, umas das primeiras rodadas.

Decote-se, denote-se
'que teu decote é carnaval.
Peito aberto, orbes ao vento,
da vida, manancial.

Decote-se, denote-se, morena,
vem!
Que teu decote é meu enredo,
é meu credo, é meu bem.

No teu decote que me perco,
que m'encontro, me aconchego.
No teu decote um abrigo zen.

Nos teu orbes de desejo
te desejo,
sem decoro,
sem decote, vem, morena, vem.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Duelo de Escritores

Essa foi postada originalmente lá no Duelo de Escritores, mas como achei bacana, deixo aqui também.

A grama reclamava com estalidos gélidos sob a cristalina capa que abraçava as folhas ainda adormecidas naquela manhã fria. Do nevoeiro baixo que cobria o solo, se erguia uma figura sombria, protegida do frio pelo sobretudo escuro. O respirar lançava nuvens por sob o bigode meticulosamente aparado. E sob as sobrancelhas escuras, dois olhos soturnos perscrutavam a neblina. Aguardava paciente, segurando a maleta pendente em uma mão enluvada enquanto a outra procurava abrigo no interior do bolso. Aguardava o tempo passar aquecendo a memória com a lembrança de um barril de Amontillado. Às exatas seis horas um novo vulto divisou-se além da neblina. Cada passo estraçalhava a grama fria e quebradiça. Mais uns passos e fez-se visível a figura esguia. Uma testa proeminente e alta encimava-lhe a fronte, donde pendiam para trás as já não tão vastas madeixas, em longas ondas até a altura do maxilar. Um bigode desenhava-se sobre o lábio superior enquanto um tufo de barba pendurava-se do inferior. As duas figuras olharam-se e, com um movimento de cabeça, cumprimentaram-se.

— Bons dias, Mestre William — disse o homem que aguardava com a maleta.

— Se bons fossem os dias, estaríamos nós a ensaiar uma comédia e não a atuar uma tragédia, Edgar.

— A tragédia fostes vós que escrevestes. A mim cabe apenas dirigi-la e assisti-la.

— Pois prepara a platéia que ora chega mais um ator. Quem vem lá, que singra o nevoeiro qual espectro assombrado?

Silenciosa, a figura surgiu da neblina como quem vem de outro mundo. No alto da cabeça um chapéu marcava-lhe a silhueta, no pescoço uma gravata borboleta fechava-lhe o colarinho engomado. Por trás do par de óculos tremeluziam olhos serenos, mas que continham uma miríade de olhares, como uma represa que sustenta calmamente águas revoltas, mas que pode romper-se a qualquer momento.

— Acalma-te, bardo, que não é espectro que se aproxima. Já não há tanto entre o céu e a terra. Não é fantasma régio que chega, é teu algoz que se apresenta em Pessoa — provocou o recém-chegado.

— Pois vem, biltre, que se hoje és Montecchio, sou Capuleto.

— Chama-me como quiseres, que nomes não me faltam.

Os dois acercaram-se, os olhares trocando insultos. O homem da maleta aproximou-se, abriu a valise e entregou a cada um dos oponentes uma longa adaga. Os dois combatentes guardaram distância enquanto o portador da maleta se afastava com ela vazia. Em algum lugar um corvo crocitava um malfadado epílogo. Ao fim do dia apenas um dos antagonistas retornaria para casa. O outro, nunca mais.

— Pronto, inglês, cá estou de pena em punho. Empresta-me o pergaminho do teu couro, que tenho poemas a escrever.

— Medida por medida, português. Se queres domar o papel, é preciso aprender a usar a caneta. Em ti, a vida já é apenas uma sombra ambulante, cheia de fúria e muito barulho, mas que nada significa.

— Teus versos são profundos, mas os escritos de tua lâmina são rasos. Vê, sou ainda página em branco.

— Cão vil, mordes o polegar para mim? Quem és para confrontar-me com tal desonra? Acaso escrevestes sob o égide da Rainha Virgem? Acaso escrevestes para reis?

— Se é Reis que queres, Mestre William, Reis terás. Vem, Ricardo, que Shakespeare te espera!

Por trás dos óculos fulgurou um brilho intenso e o nevoeiro ao redor do poeta dançou. De trás de sua imagem surgiu, como vindo de um mundo de sombras, outro homem. Lado a lado, mal podia-se dizer quem era quem. Não fosse pela ausência dos óculos, os dois homens seriam iguais.

— Traz reforço, poeta? Pois bem! Se tu trais-me com novo combatente, traio-te com um conterrâneo. É agora, José!

Um estampido soou seco na manhã e Ricardo Reis pôs-se ao chão, com o sangue quente derretendo o orvalho sobre o solo. Da neblina, mais uma silhueta se aproximava. Os cabelos ralos e prateados se misturavam à neblina branca, e os óculos de lentes grandes protegiam os olhos tristes. Na mão magra uma velha pistola espanhola cuspia a fumaça acinzentada.

— Traição! — gritou o poeta português — E pelas mãos de um conterrâneo! Matastes Ricardo Reis.

— Se o matei foi para que outro Pessoa não morresse. Cessem, nobres senhores, essa lúgubre peleja. Pouco importam as ofensas passadas, se no fim Todos os Nomes se reúnirão como iguais. Cessem a tragédia, cessem este ensaio. Acaso a cegueira cercou-lhes os sentidos?

O americano que a tudo assistia, se aproximou sombrio. Abriu a maleta e estendeu-a aos duelistas:

— Senhores, abandonai a máscara rubra da morte. Estas cercanias da rua Morgue já têm crimes suficientes.

Os quatro trocaram olhares. Os olhos sombrios de Poe, os tristes de Saramago, os serenos de Pessoa e os inquietos de Shakespeare.

— Chega de mortes, que o Pastor já se ri — insistiu Saramago, deixando cair a pistola.

— Pois bem. Nem tudo vale a pena — declamou Pessoa, depositando a adaga afiada na maleta que Poe oferecia.

— Vamos, Shakespeare. Abandona a Tempestade e deixa à alma uma noite de verão — reforçou Poe.

— Todas as noites de verão são sonhos — retrucou o bardo. E com um movimento rápido, lavou-se da culpa de Macbeth e cravou a lâmina fria no abdome de Pessoa. Todos os olhos eram agora de surpresa. Inclusive os de Shakespeare, ao ver o poeta com a adaga cravada no corpo, mas ainda de pé. A morte parecia ter tido a sua intermitência. Sem respostas e sem palavras, os quatros deram as costas uns aos outros e se perderam de novo no nevoeiro.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Rato



Um rato. Só pra postar mais uma ilustração. É um saco fazer isso no mouse. imagino q com uma tablet deva ficar bem melhor e mais fácil. Mas enfim, voltando aos textos, o Duelo de Escritores agora é ponto com. Dá uma olhada: www.duelodeescritores.com.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Aposiopese

Para você que, como eu, também começa nesse mundo de letras e pontos e idéias, eu tenho um conselho. Não que o meu conselho seja mais digno de nota que o seu, ou de qualquer outro. Eu não tenho conhecimento nem experiências suficientes escrevendo para dar um conselho a ninguém. Mas ainda assim, eu tenho um conselho. Nada relacionado a como começar a escrever, que isso eu também não sei. Ao contrário, meu conselho se atém ao fim da frase. Evite, você que deseja escrever ou já escreve, o uso das reticências. Aqueles famigerados três pontinhos ao final da frase. Aquela versão frustrada e frustrante de um ponto final que, mesmo tentando três vezes, não consegue sê-lo. Evite as reticências. Elas, que não fazem mais do impedir a frase de prosseguir, mas que tampouco permitem que ela termine. Deixam aquele parágrafo no vácuo, pairando oco e sem motivo, sem norte, procurando pelo resto da sentença que nunca chegará, ou por um ponto final que tarda. É como se a frase agonizasse reticente, morrendo lentamente, assistindo as letras minguarem, os fonemas silenciarem, num último suspiro tão longo que não permite retomar fôlego para recomeçar a leitura. Não deixe que uma frase morra reticente. Evite as reticências. Toda frase, terá, necessariamente um fim. Mesmo as mais longas chegam, uma hora, ao fim. Quando chegar essa hora, sepultea-a sob a dignidade e a elegância de um honrado e justo ponto final. Ao contrário das reticências, que golpeiam o papel com repetidas aguilhoadas, deixando-o marcado e retornando à carga para mais uma estocada, o ponto final é direto e indolor. Em vez de um repicar selvagem que deixa a frase em agonia perpétua, um golpe rápido, preciso, definitivo. Justo, honrado e digno de uma frase que nos passou sua mensagem, deu o seu recado e agora pode descansar, até que um outro leitor torne a abrir o livro. Por isso, você que também envereda pelas letras, ouça esse meu único conselho. Da próxima vez, não use as reticências.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Meu paraíso meridional

Faz quase cinco anos que cheguei a este paraíso gelado. Nunca estive em um lugar assim. Claro, já tinha antes estado em lugares bem frios, tinha visto a neve, mas nunca pude tê-la nas mãos em maior quantidade. Uma vez até tentei montar um boneco de neve, mas não deu muito certo. A neve não era suficiente. Inclusive tentei completar com uns cubos de gelo roubados da geladeira, mas ainda assim o máximo que consegui foi uma meia cabeça derretida na calçada, que logo virou mais uma poça d’água. Mas aqui tudo é diferente. O vento frio sopra os poemas mais profundos, as imensidões se derramam em longas vagas, enchendo os olhos até transbordarem de admiração. A vastidão branca se desnuda brilhante sob um céu rajado de nuvens de seda em um nascer do sol que não acaba nunca. A luz que não se vai, a eterna aurora ao som do mar com sua canção de encontro às costas alvas. Longe dos trópicos reina a paz do sul do mundo, de gelo, neve e luz. Aqui, um boneco de neve poderia se elevar até que sua sombra cobrisse a ponta da América e, ainda assim, não faltaria gelo, e ele jamais derreteria. Quando cheguei aqui pela primeira vez, não estava muito adaptado a este mundo. Uma coisa era caminhar sobre a neve que caía uma vez por ano, outra era viver cercado dela, abraçar as tempestades e dançar sobre lagos congelados. Mas o ar gélido que me beijou as faces quando desembarquei aqui me arrebatou. Havia ainda um barco me esperando na costa pra voltar aos trópicos. Mas para isso teria de deixar para trás este continente gelado que, sem que eu saiba o porquê, me fascinava e seduzia. Na praia gelada vi o barco zarpar de volta a América, de volta àquelas pequenas ilhas tropicais. Eu não estava a bordo. De que precisaria eu daquelas ilhas, se tinha todo aquele continente alvo só para mim, com suas planícies gélidas, os belos montes nevados, suas cavernas enregeladas e aquela aurora sempre brilhante? Desde então nunca mais tornei a ver qualquer uma daquelas ilhas, nem aqueles barcos, nem o sufocante calor tropical. Muito, muito ao longe, passavam distantes, débeis batéis, diminutos no horizonte, mas que pareciam enfadonhos e acinzentados, indignos de qualquer atenção. Um novo mundo aguardava para ser explorado.
O início foi meio trôpego, não sabia os atalhos das planícies, não sabia divisar o caminho pela neve, o meu corpo ainda não se acostumara à temperatura austral. Mas aos poucos fui me adaptando. O caminhar já não me afundava tanto na neve, os caminhos tornaram-se visíveis, o excesso de vestimenta, desnecessário. E cada dia eu me tornava um com aquele mundo. O meu mundo. Explorei aquele paraíso meridional com o ardor dos grandes exploradores. Atravessei as geladas planícies observando cada monte de neve, medi cada banquisa palmo a palmo, me deslumbrei naquelas vastidões. Nadei nas águas geladas, explorei os lagos subterrâneos, deslizei sobre a água congelada, dancei em meio à nevasca. Finalmente compreendi do que falavam os grandes navegadores. O êxtase da descoberta, de encontrar o seu pedaço de mundo. Escalei as montanhas nevadas agarrando-me ao gelo com as mãos nuas, comprimindo meu rosto contra o solo macio, sentindo o sabor da neve nos lábios. Desci as encostas deleitando-me com a vista de um vale de branco puro, onde uma névoa misteriosa pairava baixinho, desnudando aos poucos as formas do relevo. Desci devagar por aquele vale, na neblina envolvente, ouvindo o vento gemendo baixinho ao passar pelas cavernas ocultas na névoa. Cheguei àquelas cavernas guiado pela brisa. Toquei as paredes externas sentindo o gelo suave como cristal, provavelmente polido pela ação do vento. Adentrei um pouco a caverna, explorando cada face de cristal, cada brilho gélido, os diferentes tremeluzires das luzes e reflexos. Prossegui para o interior daquele santuário congelado, correndo as mãos pelas paredes, tocando as estalactites do teto, ouvindo o vento uivar. Aprofundei-me por aqueles corredores e com júbilo admirei a caverna se derretendo. A umidade escorrendo pelas paredes, o solo molhado ecoando meus passos, o vento me recebendo com um suspiro quando retornava daquelas profundezas. Deitei-me sobre a neve num vau, ouvindo as ondas e admirando extasiado o nascer do sol. Nenhuma aurora era como aquela. Nas terras que antes habitava, o sol nascia rápido e logo o calor se tornava incômodo. Mas ali não, ali o sol se demorava numa aurora eterna, com a brisa oceânica soprando e a neve macia me embalando.
Mas mesmo no paraíso mudam-se as estações. Mesmo aqui, as nuvens por vezes encobrem o sol. Nem toda a noite a aurora austral brilha no céu. Agora uma sombra se arrasta cobrindo o gelo, que se acinzenta, perde o brilho. Já não parece o mesmo lugar. O gelo sob os meus pés estala. Abaixo dele águas escuras guardam segredos que não me chegam. Só vejo vultos cruzando por sob o piso, mas não posso identificar o que sejam. Ando agora sobre gelo fino, com medo, preocupado, que talvez o gelo não possa me suportar. Talvez por ter os olhos sempre voltados para o alto admirando a aurora, não tenha percebido que abaixo de mim a escuridão se contrapunha à luz. Só agora, ao ouvir o trincar do chão, lembro que o mar inconstante sempre esteve sob o gelo.