sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Wallpaper quixotesco



Um dos primeiros posts desse blog foi uma ilustra de um Don Quixote, bem antiga. Pouco depois da ilustra fiz esse wallpaper, que traz a epígrafe desse blog, que fiz mais ou menos na mesma época. Mais um material que saiu da gaveta. Não tem em outras resoluções porque perdi o arquivo original e só tem esse JPG. Se alguém quiser, é só pegar. Enquanto isso vou pensando em escrever alguma coisa que presta pra postar aqui. Anda difícil ultimamente.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Aos 18


Esse autorretrato tem uns 11 anos. Achei esses dias. Careca da época do vestibular. Meio delinquente juvenil, não?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Meme

Não sou lá muito fã dessa parada de meme. Meio baitola, isso, não? Mas como foi indicação do Daniel, resolvi responder e deixar de ser brucutu. Toma lá:

1. Livro/autor(a) que marcou sua infância:

Livros infantis ilustrados que nunca soube o autor (tinha uma série com bichinhos que eu lia bastante). Quadrinhos infantis (Maurício de Souza e Disney). Ziraldo. Pequeno Príncipe. E uns livros que apareciam aqui em casa não sei da onde nem os autores, mas lembro de um "Gênio do Crime", "Os meninos da rua Paulo", "A Cabra Azul", e mais uns que eu não lembro agora, mas tudo nessa linha.

2. Livro/autor(a) que marcou sua adolescência:

Não sei onde começa a adolescência e termina a infância, mas no começo foi a coleção Vagalume, acho. Alguns quadrinhos, ainda. Em fins de 2° grau e início de faculdade passei para Marion Zimmer Bradley, Stephen King e Anne Rice.

3. Autor(a) que mais admira:

Saramago, Shakespeare, Tolkien (NERD!), Poe, e os clássicos que fizeram aquelas obras fodásticas todas.

4. Autor(a) contemporâneo:

Saramago e Garcia Marquez (q li pouco mas curti). E to descobrindo os locais, como o Labes, o Viegas, o Radünz e o Endoença. (os links levam para o q já escrevi sobre eles aqui no blog, exceto o do Endoença)

5. Leu e não gostou:

Senhora, do José de Alencar (obrigado no segundo grau e com ódio eterno sem saber bem porque). De resto não lembro agora. (não vou citar PC pq pelo q vi nos blogs da galera ele já tá bombando)

6. Lê e relê:

Graphic Novels (HQ que a gente não chama de gibi pra parecer mais importante). Alguma coisa de Saramago. Poemas sempre à mão de autores variados. Na verdade eu deveria reler mais coisas...

7. Manias:

De achar que marcar livros ou textos muda o texto. Se fosse pra ter um grifo ali o autor o teria colocado.

Parece que essa bagaça é meio vírus e vc tem que passar pra outro senão bodes malucos vão comer seu fígado. Como eu prezo meu fígado, passo a bola pro povo aí embaixo, que eu não vou nem avisar:

Os meus colegas duelistas:
Thiago Floriano - http://thiagofloriano.wordpress.com/
Marina Melz - http://marinamelz.wordpress.com/
e Félix Rosumek - http://santuariodosdelirios.blogspot.com/
(Fábio já respondeu)

O novo camarada viajante viajão e poeta Marcelo R. Mello:
http://cozinhapoesia.blogspot.com/

E o já mencionado aqui:
Viegas Fernandes da Costa - http://viegasdacosta.blogspot.com/

E minhas considerações ao Costadessouza, pela lembraça. Abraço, rapá!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Casa Grande

bronha-me um poema
de mãos
de-leite

fela-me num canto de lábios de melado

que só a moenda tua extrai-me
da cana
o sumo que alimenta teus engenhos
de mó que geme e chora

e dos teus lábios de cor
Cacau
o ósculo cede
que acende a sede
da seda da sede
dos teus encantos crioulos

E só, sigo
a senda que finda na fenda
do teu grão de café

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Xadrez³

Esse foi da última rodada do Duelo. O texto dessa rodada eu já postei e tá lá se vc quiser conferir. Logo posto algo original pra cá, mas queria deixar esse aqui tb, vai.


Xadrez³

— Não falta muito agora. Você tem certeza que é comigo que pretende passar essas últimas horas?

e4

— Obviamente eu não poderia passar com ela, poderia?

c5

— Me espanta que alguém tão sofisticado possa ter feito o que você fez.

Cf3

— Me espanta que alguém tão culta possa pensar assim, detetive. Nunca leu, Sade?

d6

— Então é isso? Para quem pretendia ser um novo marquês você está muito mais para Nabokov, doutor.

d4

— Andou perambulando pela minha biblioteca novamente, detetive? Eu aceito o peão.

cxd4

— Não me diga que realmente tudo isso foi feito apenas por uma paixão literária, uma tentativa de igualar-se a Nabokov. E eu também aceito seu presente.

Cxd4

— Ah, ah. Não, foi por uma paixão muito mais carnal. Minhas paixões intelectuais eu prefiro dividir com você. A não ser é claro que você prefira passar estas últimas horas em uma paixão... menos intelectual.

Cf6

— Eu achei que não fizesse o seu tipo. Talvez madura demais?

Cc3

— O fruto recém colhido é de fato mais suculento. Você poderia ser menos austera detetive.

a6

— E o senhor mais ponderado. Quem sabe assim não estaria aqui.

Be2

— Humpf! Você sabe que eu tenho uma queda por xadrez. Especialmente em uma saia de pregas. Acho que foi ela que me capturou primeiro.

e6

— Ela era uma menina!

0-0

— Ora, porque tão na defensiva, detetive. Eu cometi meus pecados. E agora vou pagar por eles. Eu não sou santo, detetive. E ainda que fosse, meus bispos são todos negros, não?

Be7

— Você mais do que ninguém deveria saber que as pretas só deveriam se mexer se as brancas fizessem o primeiro movimento.

f4

— Ah, mas não fui eu quem movi as primeiras peças. Foi ela. Ela e aquela saia xadrez. Foi apenas o impulso decapturar uma dama.

Dc7

— Você poderia ter parado. Você sabe que poderia. Você nunca perde controle, lembra? Não é você que ensaia cada movimento? Agora são os bispos brancos que estão atrás de você. E eles vão capturá-lo. Você deveria ter parado.

Be7

— Peça tocada, peça jogada, detetive.

0-0

— Essa é uma defesa muito pobre para um homem do seu calibre.

g4

— Calma, detetive. Esse roque ainda me ganhará o jogo. Além de proteger o rei.

Te8

— Ou aprisioná-lo?

g5

— Me diga, detetive. Qual o sabor da vingança? É verdade o que dizem? Que ela vem à cavalo?

Cfd7

— Justiça, doutor. Não é de vingança que estou atrás. Se fosse, não estaria aqui com o senhor agora.

f5

— No fundo acho que você gosta de mim, detetive.

Ce5

— O meu respeito intelectual não diminui a aversão pelos seus atos, se é o que quer saber.

Bd3

— É uma pena, detetive. Porque eu gosto de você. Quem sabe com um novo visual eu gostaria até mais. Quem sabe... uma saia xadrez?

Cbc6

— Não vejo graça, além do mais prefiro homens que não estejam presos a tais estereótipos.

Dh5

— Escolha interessante de palavras. Mas por que foge a dama?

Bd7

— Fuga? Olhe o jogo, doutor. Não sou eu que preciso fugir.

Tf4

— Espera que eu o faça?

g6

— O senhor sabe que todas as saídas estão cobertas. Eu sei que o senhor não tentaria nada estúpido. Não é do seu feitio.

Dh6

— Certamente. Dócil como um padre. Ou um bispo.

Bf8

— Essa dama não se deixa capturar tão facilmente, doutor.

Dh3

— Não adianta proteger a dama, detetive, quando o rei é fraco.

Cxd4

— Pra você é tudo um jogo, não?

Bxd4

— E os dois lados precisam caminhas pelas casas brancas e negras.

Bg7

— Você poderia escolher caminhar pelas casas certas, doutor.

Taf1

— E é você quem define quais são essas casas?

Nxd3

— Eu só garanto que as pessoas caminhem nas casas determinadas.

Bxg7

— E quem é esse rei que determina as casas, detetive?

Cxf4

— A sociedade, doutor. Não eu; não você. A sociedade.

Txf4

— Eu tenho uma novidade para você, detetive. Seu rei está em xeque.

Dc5+

— O jogo não acabou.

Rg2

— É tudo uma questão de tempo. Enquanto os peões se movem, o relógio corre.

h5

— Talvez a sociedade não seja perfeita, mas têm torres sobre as quais se erguer. Sem isso, tudo mais ruiria.

Th4

— Até as torres caem. E não se esqueça que se o rei cair, as torres caem com ele.

ef5

— Logo um padre virá vê-lo, antes que tudo termine.

Bf6

— Essa é só mais uma de suas torres em ruína. Pode dispensá-lo.

Te6

— As torres podem ser determinantes para o jogo, doutor.

Txh5

— As torres se contentam em capturam peões. Os reis caem para as damas. E parece que as suas torres já estão caindo, detetive.

gxh5

— Mas a dama continua de pé.

Qxh5

— Sim. As damas é que exigem os maiores cuidados.

Txf6

— Parece que elas é que deveriam ter cuidado com o senhor.

gxf6

— De fato eu adoro capturar uma dama.

De3

— Ela era jovem demais para ser uma dama!

Cd5

— Uma dama bem colocada sem nos coloca em xeque.

Dxe4+

— Mas um verdadeiro rei deve saber se esquivar, doutor.

Rf2

— As damas, detetive, são implacáveis. Xeque!

Dd4+

— Os reis devem ser mais.

Re1

— Mas o rei sempre cai frente a uma saia xadrez. Xeque novamente.

Te8+

— Xeque!

Ce7+

— Uma hora detetive, xeque...

Txe7

— ...

fxe7

— A dama sempre encurrala o rei. O jogo acabou.

De3+

— Não, doutor. O jogo acabou há muito tempo. Só lhe falta deitar o rei.

domingo, 4 de janeiro de 2009

O verbo mudo

O conto é, em essência, narrativa. Narrativa pressupõe ação. A mais comum expressão da ação na literatura se dá através do verbo. O que aconteceria então se excluíssemos o verbo da narrativa? Com esse intuito prôpus, no Duelo de Escritores o tema "Texto sem verbo". A minha solução para o experimento, segue abaixo. E quem quiser conferir outras saídas pro problema proposto, pode ver o texto dos outros duelistas no Duelo. É só clicar no link ali ao lado.


O verbo mudo.

Ping!


— Bom dia.
— Bom dia. Nono, por favor.
— Pois não.

Entre as quatro paredes de metal, eu e o ascensorista. E Ray Connif na rádio interna. Sete anos, a mesma rotina. A mesma música. Os mesmos nove andares. Mas não hoje.

— Aliás, oitavo.
— Oitavo?
— Oitavo.
— Pois não, senhor.

Ping!

— Oitavo, senhor.
— Obrigado.

Do corredor à porta de incêndio. Nas escadas, um degrau por vez. Passo a passo. Cada vez mais alto até a porta com o número nove. Novo corredor. O velho corredor. O corredor de todos os dias. Dez passos até a porta de madeira. A mesma empresa. Os mesmos rostos. Os mesmos bom dias falsos. Hoje, sem resposta. Hoje sem sorriso.

A porta de vidro transparente. A sala do chefe. Porta a dentro.

Um único verbo, silencioso, num dedo médio em riste.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Leituras extraviadas de Extraviário, de Dennis Radünz.

— “o poeta é o cego que, de repente, vê”
Anamnese, Dennis Radünz.

Há pouco tempo tentei escrever sobre Extraviário. Não procurava muito, não. Apenas uma resenhazinha ou um artigo descompromissado. Só uns apontamentos do que me saltou à leitura. O desejo ficou um tempo em suspensão. Simplesmente não sabia como começar. Extraviário é texto que se esquiva do texto. Fugidio, me deixou sem via mais de uma vez. Agora, retomo a tentativa. Quem sabe, dessa vez, ele se deixe capturar.

Extraviário é complexo. Daí provavelmente a minha dificuldade em discursar sobre ele. Extraviário rouba-nos a segurança do terreno comum. É difícil mesmo definir a obra. Por isso intriga. Não é uma leitura fácil, mas seus poemas têm um quê de musicalidade que tornam a leitura menos pesada do que se espera à primeira vista. Parte dessa complexidade se dá pelo fato de que a obra não ensina o leitor a lê-la. Ao contrário, mostra-se uma via inconstante, mudando a abordagem a cada passagem. Varia de experimentações de estilo em Ghost-Writer, tenta desconstruir a forma no quase concreto Música de Inverno, resgata as já consagradas no soneto À inconstância das coisas desse mundo. Extraviário torna-se, assim, experimental. O autor explora a forma, o fonema, o ritmo e a métrica, buscando distorcer uma, reinventar a outra, desconstruir a palavra e desafiar o idioma: “me nom deves de negar parávoas / oh Lengoa Portoglesa Brasiléria”.

Mas, se é difícil definir Extraviário, é na sua sonoridade que a obra ecoa. Com o domínio dos fonemas e aliterações, Radünz explora a oralidade e a musicalidade, envolvendo o leitor numa via de sibilanças orquestradas de forma a explorar a fonética, a dicção e conduzir o leitor através dos sons do poema. O texto torna-se, apesar de intrincado, fluido, liquefeito, mas não menos rebuscado. Torna-se quase música, como em Sobreaviso dos Sobrevividos:

(...)
respiram
alevinos e nenúfares
as vértebras visíveis
os açúcares salobros
sonados e insalubres
(...)

Ou no crítico Última Epístola ao Império:

“E a víbora da raiva – rápida – vibra em toda a relva,
Talvez vestal, talvez, às vezes máquina (...)”

Como em Crescente Fértil:

“o jorro de esperas em que nasce nessa vida a véspera
Sem nenhum duto de onde esvair esse devir de fonte”

Os temas de Extraviário também são vias inconstantes. Radünz flerta com erótico em Idéia com Mulher na Relva:

“intrusos na treva,
inteiriça e tesa,
talvez, erva-casta,
de onde o escuro,
casca, se enxota
e a relva esfolia-se, rosácea,

e

poliniza espaços
desencorpados
entre uns lábios
e úmidos lábios
onde deitou-se,
ereta, até a estrela aberta
(...)”

Beira o político em Última Espístola ao Império: “arrasta pelo ermo o turismo de desastres / nessa indústria do destroço, no rastilho sem a órbita / a serpe do império – talvez, o império serpe”

Canta o lírico em Fim de Fábula:

“se eu houvesse lhe mentido
e sobrasse apenas a saliva em seu ouvido
ou se eu lhe fosse ácido
e deixasse para si o amargo de um amor vencido
se eu houvesse lhe ferido
e restasse ainda a cicatriz em seu vestido
me responderias com um grito de sabor mal dito
como se houvesse lido uma história
de morangos mortos em um livro de hortelã

pores-do-sol, bocas-de-leão
brincos-de-princesa na escuridão
(...)”

Resgata o local, terrivelmente contemporâneo, em História Liquefeita:

“o rio rebenta as suas bordas
à beira de ácidos e de felpas
bordados em linha lânguida
na limalha de água cinzenta:
rio de vires sonoros: lento

mehr licht. milosc. memento mori.”

Extraviário é, enfim, uma via sinuosa. Não oferece um núcleo coeso constante ao redor do qual o leitor possa orbitar. Ao contrário, Radünz parece querer criar justamente um “lugar erradio em que o leitor se desorbita entre dois seres: o si mesmo e o ser no qual tornou-se, atravessado pelo texto”, que cita em Ghost-writer. E esse ser, atravessado pelo texto, torna-se dissociado, esquizofrênico, fora de órbita. Divide-se como propõe o ghost-writer de Radünz. E nessa divisão, algo em nós também se extravia. A certeza, talvez.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Coincidências de Segunda

Com problemas para atualizar por enquanto. Inclusive pro Duelo de Escritores tem sido meio corrido pra postar qq coisa. E entre falta de tempo e de monitores, isso fica mesmo meio parado. Sem muito o que escrever, tb, dedico este post a tirar a poeira destes bytes abandonados e dividir um fragmento da minha leitura online de hoje.

Por coincidência, li hj a entrevista da Urda Klüeger pro Sarau Eletrônico e ela mencionou, rapidamente, a questão palestina.

Por acaso, no blog Saramago, em um post acerca da situação na faixa de Gaza e a questão israleita/palestina, encontrei esta pérola "Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores". Aquela frase que desarma e o leitor e perpetua-se por si própria. E Saramago segue: "Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado".

Em seguida, mais uma coincidência sobre o tema, visitando o ótimo Frases Ilustradas, ao encontrar mais uma grande passagem de Schopenhauer: “As religiões são como os vaga-lumes; precisam das trevas para esplender.”

Os temas se repetem. O erros, aparentemente, também. Como era no princípio, agora e sempre.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Narrativa no Formalismo Russo

Esse é um artigozinho meio chinfrim que fiz durante a pós. É uma abordagem superficial do Formalismo Russo, em especial na narrativa. Não acho que seja um texto especialmente consistente ou mesmo bom, mas acho pior deixar isso aqui parado por muito tempo. Quem sabe serve para alguém que esteja procurando um ponto de partida.


A NARRATIVA NO FORMALISMO RUSSO
Rodrigo Oliveira

1915. A data marca o que se convencionou chamar Formalismo Russo. Neste ano foi fundado por um grupo de estudantes, entre eles Roman Jakobson, o Círculo Lingüístico de Moscou, criado com o intuito de estudar a teoria literária, explorando novas abordagens no estudo da língua e da literatura, buscando uma nova visão sobre a literatura, a crítica e o fazer literário. Quase ao mesmo tempo, em Petersburgo, surgia a Associação para o Estudo da Linguagem Poética — OPOIAZ. Alguns dos membros do Círculo Lingüístico também tomaram parte deste novo núcleo, como o próprio Jakobson. Além dele, o OPOIAZ abarcou nomes como Boris Eikhenbaum, Victor Chklóvski e Ossip Brik. A associação propôs uma redefinição do objeto dos estudos literários, focando-se exclusivamente ao texto e refutando qualquer interpretação ou influência extraliterária, inclusas aí a filosofia, a psicologia e a sociologia, e elementos como o leitor, o autor e o contexto histórico.

Apesar de não constituírem uma visão hegemônica entre si, o OPOIAZ e o Círculo Lingüístico de Moscou dividiram visões aproximadas acerca do que deveria ser considerado literatura e sua relação com os padrões de crítica vigentes em voga até o início do século XX. Esse contraste com a crítica literária da época cunhou a ambos os núcleos a alcunha de “Formalistas”, ainda que esses intelectuais, e outros influenciados por eles, não assumissem um status de movimento propriamente dito.

Apesar disso, essas idéias críticas e seus ideais textualistas entraram para a história como o Formalismo Russo. Essa nova visão teve uma vida breve, propostas polêmicas, mas um legado de inegável valor até os dias atuais. Leon Trotsky, em seu Literatura e Revolução lega à Escola Formalista a alcunha pouco lisonjeira de “insólito aborto”. Mas em seguida, reconhece: “O trabalho, que os formalistas não temem denominar ciência formal da poesia ou poética, é indiscutivelmente necessário e útil, com a condição de que se deve considerar seu caráter parcial, subsidiário e preparatório”. E retoma afirmando que “Os métodos do formalismo, mantidos dentro de limites razoáveis, podem ajudar a esclarecer as particularidades artísticas e psicológicas da forma”. (Trotsky, 1969, pág. 144-145). A Escola Formalista deve, apesar de um marco histórico importante para a Teoria Literária e alicerce de para diversos movimentos e autores, ser apreciada com olhares cuidadosos, do ponto de vista de uma crítica literária contemporânea.

Mesmo após a dissipação desses grupos e a dispersão de seus membros pelo então ascendente regime stalinista, no final dos anos 20, o olhar crítico textualista do Formalismo influenciou outros pensadores e outros movimentos, como o New Criticism estadunidense e o Estruturalismo. O legado de um olhar mais cuidadoso para o texto e para a arte permanece influenciando críticos, escritores e artistas de diferentes movimentos.


A auto-suficiência do texto
O principal princípio do Formalismo Russo, como das demais correntes textualistas, é o próprio texto. O texto é, não apenas o objeto da crítica, como seu próprio limite. Dessa forma os formalistas restringiram ao texto — seus elementos e estruturas, conteúdo, processo criativo e características — o olhar crítico, excluindo dessa visão o contexto histórico em que o texto foi escrito ou foi lido, a intenção ou a biografia do autor, os processos políticos e sociais vigentes que envolviam a própria obra ou o leitor. Ou, nas palavras de Schnaiderman:

A filosofia, a sociologia, a psicologia, etc., não poderiam servir de ponto de partida para a abordagem da obra literária. (...) do ponto de vista do estudo literário, o que importava era o priom, ou o processo, isto é, o princípio da organização da obra como produto estético, jamais um fator externo”. (Schnaiderman, in Franco Junior, in Bonnici e Zolin, 2003, pág.95)

Esta preocupação centrada e exclusiva ao texto, no processo de criação literária, contrastava com a crítica mais romântica praticada na época, que abordava o autor da obra, sua biografia e outras referências já citadas, como a filosofia e psicologia. Essa nova abordagem pode ser melhor observada se nos detivermos por um momento em alguns dos principais princípios da crítica formalista.

Princípios do Estudo Literário Formalista
Além da exclusividade da materialidade do texto como foco de estudo literário, era preciso definir o que consistia esse objeto de estudo. O que é e o que pode ser considerado literatura? A definição de literatura se apresenta mutante sob a ótica de diferentes correntes literárias. Zappone e Wielewicki citam Williams ao tratar da conceituação e descrição de literatura: “Esse é um sistema de abstração poderoso, e por vezes proibitivo, no qual o conceito de ‘literatura’ é ativamente ideológico.” (Williamns, in Zappone e Wielewicki, in Bonnici e Zolin, 2003, pág.19).

Para o formalismo, esse conceito ideológico que vem cunhar a definição de literariedade de um texto é evidenciado por Jakubinski e Chkloviski. Para os formalistas russos, existe uma distinção preponderante que caracteriza o texto literário. Uma distinção de processo construtivo e de linguagem, entre a linguagem poética e a linguagem prosaica. Enquanto a última é a ferramenta de comunicação cotidiana, com função referencial e utilitária, a primeira tem ênfase na desautomatização da percepção do receptor, exigindo do leitor uma leitura mais atenta e um maior comprometimento com o texto artístico. “O procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção”. (Chkloviski, in Franco Júnior, in Bonnici e Zolin, 2003, pág. 95). Chkloviski destaca a singularização do objeto. A arte, a visão e atuação do artista sobre determinado objeto, teria o poder de torná-lo único, singular. Através da arte, da literatura, o autor poderia tornar singular um dia chuvoso comum, por exemplo. Fazer dele lúgubre ou purificador. Desautomatizando a leitura, um objeto cotidiano passa a ser arte quando visto sob a ótica da linguagem poética, ao invés do simples utilitarismo da linguagem prosaica. O cerne da linguagem poética

é criado conscientemente para libertar do automatismo; sua visão representa o objetivo do criador e ela é construída artificialmente de maneira que a percepção se detenha nela e chegue ao máximo de sua força e duração”. (idem, pág.96)

Essa desautomatização da leitura de um texto literário se dá pelo estranhamento do texto. Na ótica formalista, a arte sempre causa estranhamento. O leitor não passa intocado pelo texto. Ele deve, de alguma forma, se comprometer com ele, nem que seja apenas se detendo com mais atenção em sua leitura. Isso implica em um texto artístico mais denso do que a linguagem cotidiana. A função poética torna o texto mais opaco, do que, segundo a teoria formalista, surge a literariedade do texto.

Assim, se destaca o predomínio da forma. O conteúdo apenas, já não basta para esta nova visão da arte. Mais do que com o “o que” ou o “por que”, o estudo da literatura passa a ter uma preocupação com o “como”.

Elementos Primordiais de Análise
Na busca por desvendar esse “como” do processo narrativo literário, Chkloviski (Franco Júnior, in Bonnici e Zolin, 2003, pág. 97) deslumbrou duas estruturas da narrativa sobre o qual se suporta o texto. A Fábula e a Trama. Enquanto a fábula é seria a simples descrição dos acontecimentos da narrativa, a trama é como se dá a elaboração desses acontecimentos na narrativa. Resgatando o parágrafo anterior, enquanto a fábula seria o “o que”, a trama representa o “como” o objeto é apresentado. A trama é, portanto, resgatando os primeiros princípios aqui apresentados, o “estranhamento” da fábula. É a ação poética sobre a mesma.

Dois elementos ainda se destacam na caracterização da narrativa. Motivo e Motivação atuam de forma bastante próxima. O motivo constitui-se no menor elemento que compõe a narrativa. São suas estruturas mais elementares, unidades temáticas que, agrupadas, dariam forma à fábula. A motivação é o sistema que gere e coordena esses motivos. É a forma como eles são dispostos e/ou apresentados na obra. Novamente, o “como” atuando sobre os “o quês” da narrativa. As maneiras como essa motivação coordena os motivos, são separadas em três vertentes por Tomachevski, cada uma de acordo com a proposta a que se destina.

A Motivação Estética ordena os motivos levando em conta a valorização da forma, o estranhamento, a literariedade da obra. A Motivação Realista preocupa-se mais com a verossimilhança do texto. Os motivos introduzidos no decorrer da narrativa devem ser os mais prováveis e plausíveis possíveis. A Motivação Composicional detém-se na composição dos elementos e divide-se em três linhas. A Funcional prega que cada motivo inserido no texto deve ter sua função. Se uma cadeira é descrita em um cenário, por exemplo, é porque terá um papel preponderante, ou ao menos importante, na narrativa. Os motivos são escolhidos por sua funcionalidade, pela maneira como atuarão na cena. Um a segunda linha dá importância à dinâmica da obra, ordenando os motivos para traduzir o tom necessário à narrativa. Por exemplo, o dia chuvoso citado no início desse ensaio. Os motivos podem ser trabalhos a torná-lo misterioso e sombrio, se este for o tom do texto. Uma terceira linha trabalha com a Falsa Motivação, um engodo que, através da ordenação dos motivos, induz o leitor a uma pressuposição para depois revelar-se o oposto.

Por fim, todos esses elementos — Fábula, Trama, Motivos e Motivação — são carregados e percorridos pelos personagens da narrativa. São estes os suportes dos motivos. E a abordagem formalista abarca a caracterização dos personagens em duas vertentes. Direta, quando o narrador ou algum personagem expõe essa caracterização, classificando o personagem como afável, destemido ou manipulador; ou Indireta quando as ações deste personagem no decorrer da obra acabam revelar suas características, sua índole.

Legado
O Formalismo Russo levantou questões polêmicas, em muito refutadas pelas teorias literárias mais modernas. Ainda assim, sua contribuição para literatura persiste no olhar acurado para o texto, para uma escrita e leitura mais aprofundadas. Na atenção aos elementos do texto e na valorização do processo criativo. O Formalismo influenciou e dialogou com outros movimentos ou grupos textualistas e continua dialogando com as teorias contemporâneas, mesmo após a breve e polêmica existência do Círculo Lingüístico de Moscou e da OPOIAZ.

Referências:
BONNICI, Thomas. ZOLIN, Lúcia Ozana; Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá. Eduem. 2003.
TROTSKI, Leon. Literatura e Revolução. Rio de Janeiro. Zahar. 1969.

sábado, 29 de novembro de 2008

Negra - Ilustração Nova



Uma ilustra nova já que não tenho texto pra postar.

Ao lado o, traço à BIC. Clicando nas imagens amplia um pouco.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Pra não dizer que não falei das flores (soterradas)

Eu não ia escrever nada aqui sobre as enchentes em SC. Mas com essa confusão toda, não deu pra escrever nada direito. Como tinha que postar algo pro Duelo de Escritores e eu estava sem tempo, acabei fazendo isso aí em baixo de supetão. E acabou sendo de enchente. Pra não deixar isso aqui parado, estão aí os meus parcos versos de lama sobre Cinismo (mais ou menos).

Escrito na lama
Cinismo é crer que alguém ainda escreva sob as águas.
No entanto, se as águas levam tudo, não podem levar as palavras.
Continuemos, pois, com todo o cinismo do mundo.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Selenita

Selena vivia no mundo da lua. Selena Selenita, lhe chamavam. Selena orbitava a vida, de saia rodada rodando o mundo. Sem nunca tocá-lo. Caminhava tão leve com as sapatilhas brancas de trama xadrez, que parecia flutuar, evitando macular o solado nesta nossa aspereza. Selena, diziam, não era daqui. Não podia ser. Translava pelo mundo em rotação. Girando, girando, bailando, bailando. Sem deixar pegadas. Selena, selenita, se ria de tudo. Se ria do mundo, se ria de todos. Mesmo se riam de si. E como riam. É doida, diziam os loucos. Desocupada, acusavam os ociosos. Tola, criticavam os parvos. Pobrezinha, se apiedavam os miseráveis. E todos no mundo riam de Selena. Mas ela, selenita, continuava sua órbita de vestido rodado e sapatilhas sem meia, impulsionada pelas molas acastanhadas dos cabelos fragrantes. Na face, o riso fresco doutro mundo. O rubor das bochechas, olhos abertos para ver o mundo a girar. Dentro deles, a íris amarelada de quem porta o sol nas órbitas.

Mas Selena sabia que não podia rodar pra sempre. E sob a lua já minguante na noite fluorescente, cruzou a avenida quase sem perturbar as faixas brancas do asfalto. O semáforo ruborizou. Inveja velada. Os faróis pararam para ver Selena passar. Com as sapatilhas brancas, nas pontas dos pés, e com as molas dos cabelos saltando, Selena Selenita saltita à beira rio. E todos viam Selena girar. Selena Selenita, que orbitava o mundo sem o tocar. Rodopiou pela grama sem espantar o orvalho, vestido enfunado pelo vento que corria no rio. E o povo que caminhava, em malhas justas, fones e marcas, apontava Selena. E riam-se dela que ria-se deles. Ria-se ela do mundo que girava porque ela girava. Porque ela por ele tangenciava. E com ela, ria-se a lua, minguante no leito do rio. E o povo parou quando Selena pisou a água, com aqueles pés que mal pisavam a terra. Na margem, deixou a sapatilha molhada, embalada pela marola, flutuando sem tocar o chão. Selena ninguém mais apontou. Só viam seu riso marcado no meio do rio. Selenita encontrou-se com a lua. Selena Selenita, de tanto girar sozinha, escapou pela tangente. E os miseráveis ficaram sem ter de quem se apiedar. Os tolos já não tinham a quem apontar. Os ociosos ficaram sem ter o que fazer.

Selenita se fora. Os loucos diziam, tinha voltado para casa.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Alfa

O Duelo de Escritores acabou de completar um ano. Em comemoração houve uma rodada especial, em que os leitores é que foram os duelistas. O vencedor dessa rodada foi o leitor Jefferson. Como prêmio pela conquista, ele teve o direito de escolher o tema desta rodada. O infeliz escolheu: Revele as técnicas de escrita você usa, mas de uma forma original. Ofensas à parte pelo tema que me deu uma dor de cabeça, aí embaixo vai o resultado. Como o tema pede discussões e diálogos, é bom antecipar que, ao menos para mim, existem algumas (ou várias) técnicas que podem ser usadas. O texto abaixo se refere apenas a uma delas, que vem me... perseguindo... nos últimos textos. Vou parar por aqui antes que fale demais. Taí o texto. E se quiser participar da discussão e da votação, pode tb dar um pulo lá no Duelo de Escritores. O ano II está só começando.


Alfa

Corria com passos largos, quase aos saltos, colina acima. Não ousava olhar por sobre o ombro. Só ouvia o farfalhar veloz na grama às suas costas. O galpão velho e poeirento da ultrapassada oficina tinha a porta aberta. Refúgio débil, não obstante, um refúgio. Cruzou o vão de entrada e arrastou com esforço a porta de madeira pesada. O facho de luz exterior foi minguando junto com a imagem das perseguidoras. Passou o ferrolho, respirou fundo e colocou o ombro de encontro à porta, projetando todo seu peso. Não tardou para sentir o impacto do outro lado. O choque fez a porta tremer, mas ela se manteve firme e imperturbável. Ele, no entanto, não podia dizer o mesmo. Já o tinham atingido de alguma forma, mas não o tinham alcançado. E por hora isso parecia o suficiente.

Podia ouvi-las através das paredes de madeira. Uma luz frágil entrava filtrada pelo teto de vidro sujo. Dentro, em meio a placas de madeira e restos de serragem, serras, martelos e pregos enferrujados sugeriam armas pouco eficazes. Podia praticamente sentir as criaturas contornando a construção, cercando o barracão. Não eram muitas, mas eram implacáveis. Ouvia o roçar incessante contra as paredes, um choque aqui, um golpe mais adiante. E tudo que o mantinha protegido não era mais que uma tênue fronteira de madeira fina.

Um estalido de madeira partida o pôs em movimento. Driblou o ferramental velho a procura de um local melhor protegido. Pôde ouvir a parede se partindo e as invasoras se arrastando para o interior do velho galpão. Ouvia o som correndo pelos corredores de equipamentos ociosos, já podia sentir o cheiro das criaturas se aproximando. Em um canto, dava as costas à parede para evitar um ataque inesperado. Pôde ver surgir os olhos brilhantes, pregados nele e, mesmo sob a luz filtrada pelo telhado, pôde ver as criaturas se aproximando. Tentou esquivar-se da primeira investida, a segunda arranhou-lhe o corpo. Não pôde evitar a terceira. Quando a criatura se afastou ainda podia sentir as marcas deixadas pelas presas. As criaturas se afastaram um pouco, rondando, enquanto ele se prostrava ao chão. Sentia o conteúdo inoculado percorrer-lhe o corpo até o coração. Sentiu quando lhe subiu pelo peito à cabeça. Sentiu-se transformando.

Quando ergueu a cabeça tinha os mesmo olhos brilhantes das criaturas. Tornou-se um pouco como elas. E elas como ele. Quando o bando partiu, ele estava entre elas. Deixou-se levar, selvagem. Correu como um igual. Farfalhando grama, deixando para trás o galpão envelhecido. Quando se ergueu entre elas, era outro. Quando deu por si, elas não mais o perseguiam. Agora, elas o seguiam.

domingo, 9 de novembro de 2008

Playmobil

Eu já fui um Playmobil. E aparentemente um concorrente do Inri Cristo.

Ilustra das antigas, de quando fiz um a camiseta com todos os funcionários da Callier em versão Playmobil.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Micro-conto

Na pia batismal o missionário se banhava. Nu, renasceu puro e molhado frente às beatas descrentes.

Esse micro-conto está inserido no meu último conto no Duelo de Escritores (sob o tema A Missão). Não achei aquele conto muito bom, mas acho q esse micro-conto é interessante. Foi ele inclusive que me levou a escrever o outro. Acho que daqui pode pintar mais alguma coisa um dia.