domingo, 4 de janeiro de 2009

O verbo mudo

O conto é, em essência, narrativa. Narrativa pressupõe ação. A mais comum expressão da ação na literatura se dá através do verbo. O que aconteceria então se excluíssemos o verbo da narrativa? Com esse intuito prôpus, no Duelo de Escritores o tema "Texto sem verbo". A minha solução para o experimento, segue abaixo. E quem quiser conferir outras saídas pro problema proposto, pode ver o texto dos outros duelistas no Duelo. É só clicar no link ali ao lado.


O verbo mudo.

Ping!


— Bom dia.
— Bom dia. Nono, por favor.
— Pois não.

Entre as quatro paredes de metal, eu e o ascensorista. E Ray Connif na rádio interna. Sete anos, a mesma rotina. A mesma música. Os mesmos nove andares. Mas não hoje.

— Aliás, oitavo.
— Oitavo?
— Oitavo.
— Pois não, senhor.

Ping!

— Oitavo, senhor.
— Obrigado.

Do corredor à porta de incêndio. Nas escadas, um degrau por vez. Passo a passo. Cada vez mais alto até a porta com o número nove. Novo corredor. O velho corredor. O corredor de todos os dias. Dez passos até a porta de madeira. A mesma empresa. Os mesmos rostos. Os mesmos bom dias falsos. Hoje, sem resposta. Hoje sem sorriso.

A porta de vidro transparente. A sala do chefe. Porta a dentro.

Um único verbo, silencioso, num dedo médio em riste.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Leituras extraviadas de Extraviário, de Dennis Radünz.

— “o poeta é o cego que, de repente, vê”
Anamnese, Dennis Radünz.

Há pouco tempo tentei escrever sobre Extraviário. Não procurava muito, não. Apenas uma resenhazinha ou um artigo descompromissado. Só uns apontamentos do que me saltou à leitura. O desejo ficou um tempo em suspensão. Simplesmente não sabia como começar. Extraviário é texto que se esquiva do texto. Fugidio, me deixou sem via mais de uma vez. Agora, retomo a tentativa. Quem sabe, dessa vez, ele se deixe capturar.

Extraviário é complexo. Daí provavelmente a minha dificuldade em discursar sobre ele. Extraviário rouba-nos a segurança do terreno comum. É difícil mesmo definir a obra. Por isso intriga. Não é uma leitura fácil, mas seus poemas têm um quê de musicalidade que tornam a leitura menos pesada do que se espera à primeira vista. Parte dessa complexidade se dá pelo fato de que a obra não ensina o leitor a lê-la. Ao contrário, mostra-se uma via inconstante, mudando a abordagem a cada passagem. Varia de experimentações de estilo em Ghost-Writer, tenta desconstruir a forma no quase concreto Música de Inverno, resgata as já consagradas no soneto À inconstância das coisas desse mundo. Extraviário torna-se, assim, experimental. O autor explora a forma, o fonema, o ritmo e a métrica, buscando distorcer uma, reinventar a outra, desconstruir a palavra e desafiar o idioma: “me nom deves de negar parávoas / oh Lengoa Portoglesa Brasiléria”.

Mas, se é difícil definir Extraviário, é na sua sonoridade que a obra ecoa. Com o domínio dos fonemas e aliterações, Radünz explora a oralidade e a musicalidade, envolvendo o leitor numa via de sibilanças orquestradas de forma a explorar a fonética, a dicção e conduzir o leitor através dos sons do poema. O texto torna-se, apesar de intrincado, fluido, liquefeito, mas não menos rebuscado. Torna-se quase música, como em Sobreaviso dos Sobrevividos:

(...)
respiram
alevinos e nenúfares
as vértebras visíveis
os açúcares salobros
sonados e insalubres
(...)

Ou no crítico Última Epístola ao Império:

“E a víbora da raiva – rápida – vibra em toda a relva,
Talvez vestal, talvez, às vezes máquina (...)”

Como em Crescente Fértil:

“o jorro de esperas em que nasce nessa vida a véspera
Sem nenhum duto de onde esvair esse devir de fonte”

Os temas de Extraviário também são vias inconstantes. Radünz flerta com erótico em Idéia com Mulher na Relva:

“intrusos na treva,
inteiriça e tesa,
talvez, erva-casta,
de onde o escuro,
casca, se enxota
e a relva esfolia-se, rosácea,

e

poliniza espaços
desencorpados
entre uns lábios
e úmidos lábios
onde deitou-se,
ereta, até a estrela aberta
(...)”

Beira o político em Última Espístola ao Império: “arrasta pelo ermo o turismo de desastres / nessa indústria do destroço, no rastilho sem a órbita / a serpe do império – talvez, o império serpe”

Canta o lírico em Fim de Fábula:

“se eu houvesse lhe mentido
e sobrasse apenas a saliva em seu ouvido
ou se eu lhe fosse ácido
e deixasse para si o amargo de um amor vencido
se eu houvesse lhe ferido
e restasse ainda a cicatriz em seu vestido
me responderias com um grito de sabor mal dito
como se houvesse lido uma história
de morangos mortos em um livro de hortelã

pores-do-sol, bocas-de-leão
brincos-de-princesa na escuridão
(...)”

Resgata o local, terrivelmente contemporâneo, em História Liquefeita:

“o rio rebenta as suas bordas
à beira de ácidos e de felpas
bordados em linha lânguida
na limalha de água cinzenta:
rio de vires sonoros: lento

mehr licht. milosc. memento mori.”

Extraviário é, enfim, uma via sinuosa. Não oferece um núcleo coeso constante ao redor do qual o leitor possa orbitar. Ao contrário, Radünz parece querer criar justamente um “lugar erradio em que o leitor se desorbita entre dois seres: o si mesmo e o ser no qual tornou-se, atravessado pelo texto”, que cita em Ghost-writer. E esse ser, atravessado pelo texto, torna-se dissociado, esquizofrênico, fora de órbita. Divide-se como propõe o ghost-writer de Radünz. E nessa divisão, algo em nós também se extravia. A certeza, talvez.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Coincidências de Segunda

Com problemas para atualizar por enquanto. Inclusive pro Duelo de Escritores tem sido meio corrido pra postar qq coisa. E entre falta de tempo e de monitores, isso fica mesmo meio parado. Sem muito o que escrever, tb, dedico este post a tirar a poeira destes bytes abandonados e dividir um fragmento da minha leitura online de hoje.

Por coincidência, li hj a entrevista da Urda Klüeger pro Sarau Eletrônico e ela mencionou, rapidamente, a questão palestina.

Por acaso, no blog Saramago, em um post acerca da situação na faixa de Gaza e a questão israleita/palestina, encontrei esta pérola "Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores". Aquela frase que desarma e o leitor e perpetua-se por si própria. E Saramago segue: "Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado".

Em seguida, mais uma coincidência sobre o tema, visitando o ótimo Frases Ilustradas, ao encontrar mais uma grande passagem de Schopenhauer: “As religiões são como os vaga-lumes; precisam das trevas para esplender.”

Os temas se repetem. O erros, aparentemente, também. Como era no princípio, agora e sempre.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Narrativa no Formalismo Russo

Esse é um artigozinho meio chinfrim que fiz durante a pós. É uma abordagem superficial do Formalismo Russo, em especial na narrativa. Não acho que seja um texto especialmente consistente ou mesmo bom, mas acho pior deixar isso aqui parado por muito tempo. Quem sabe serve para alguém que esteja procurando um ponto de partida.


A NARRATIVA NO FORMALISMO RUSSO
Rodrigo Oliveira

1915. A data marca o que se convencionou chamar Formalismo Russo. Neste ano foi fundado por um grupo de estudantes, entre eles Roman Jakobson, o Círculo Lingüístico de Moscou, criado com o intuito de estudar a teoria literária, explorando novas abordagens no estudo da língua e da literatura, buscando uma nova visão sobre a literatura, a crítica e o fazer literário. Quase ao mesmo tempo, em Petersburgo, surgia a Associação para o Estudo da Linguagem Poética — OPOIAZ. Alguns dos membros do Círculo Lingüístico também tomaram parte deste novo núcleo, como o próprio Jakobson. Além dele, o OPOIAZ abarcou nomes como Boris Eikhenbaum, Victor Chklóvski e Ossip Brik. A associação propôs uma redefinição do objeto dos estudos literários, focando-se exclusivamente ao texto e refutando qualquer interpretação ou influência extraliterária, inclusas aí a filosofia, a psicologia e a sociologia, e elementos como o leitor, o autor e o contexto histórico.

Apesar de não constituírem uma visão hegemônica entre si, o OPOIAZ e o Círculo Lingüístico de Moscou dividiram visões aproximadas acerca do que deveria ser considerado literatura e sua relação com os padrões de crítica vigentes em voga até o início do século XX. Esse contraste com a crítica literária da época cunhou a ambos os núcleos a alcunha de “Formalistas”, ainda que esses intelectuais, e outros influenciados por eles, não assumissem um status de movimento propriamente dito.

Apesar disso, essas idéias críticas e seus ideais textualistas entraram para a história como o Formalismo Russo. Essa nova visão teve uma vida breve, propostas polêmicas, mas um legado de inegável valor até os dias atuais. Leon Trotsky, em seu Literatura e Revolução lega à Escola Formalista a alcunha pouco lisonjeira de “insólito aborto”. Mas em seguida, reconhece: “O trabalho, que os formalistas não temem denominar ciência formal da poesia ou poética, é indiscutivelmente necessário e útil, com a condição de que se deve considerar seu caráter parcial, subsidiário e preparatório”. E retoma afirmando que “Os métodos do formalismo, mantidos dentro de limites razoáveis, podem ajudar a esclarecer as particularidades artísticas e psicológicas da forma”. (Trotsky, 1969, pág. 144-145). A Escola Formalista deve, apesar de um marco histórico importante para a Teoria Literária e alicerce de para diversos movimentos e autores, ser apreciada com olhares cuidadosos, do ponto de vista de uma crítica literária contemporânea.

Mesmo após a dissipação desses grupos e a dispersão de seus membros pelo então ascendente regime stalinista, no final dos anos 20, o olhar crítico textualista do Formalismo influenciou outros pensadores e outros movimentos, como o New Criticism estadunidense e o Estruturalismo. O legado de um olhar mais cuidadoso para o texto e para a arte permanece influenciando críticos, escritores e artistas de diferentes movimentos.


A auto-suficiência do texto
O principal princípio do Formalismo Russo, como das demais correntes textualistas, é o próprio texto. O texto é, não apenas o objeto da crítica, como seu próprio limite. Dessa forma os formalistas restringiram ao texto — seus elementos e estruturas, conteúdo, processo criativo e características — o olhar crítico, excluindo dessa visão o contexto histórico em que o texto foi escrito ou foi lido, a intenção ou a biografia do autor, os processos políticos e sociais vigentes que envolviam a própria obra ou o leitor. Ou, nas palavras de Schnaiderman:

A filosofia, a sociologia, a psicologia, etc., não poderiam servir de ponto de partida para a abordagem da obra literária. (...) do ponto de vista do estudo literário, o que importava era o priom, ou o processo, isto é, o princípio da organização da obra como produto estético, jamais um fator externo”. (Schnaiderman, in Franco Junior, in Bonnici e Zolin, 2003, pág.95)

Esta preocupação centrada e exclusiva ao texto, no processo de criação literária, contrastava com a crítica mais romântica praticada na época, que abordava o autor da obra, sua biografia e outras referências já citadas, como a filosofia e psicologia. Essa nova abordagem pode ser melhor observada se nos detivermos por um momento em alguns dos principais princípios da crítica formalista.

Princípios do Estudo Literário Formalista
Além da exclusividade da materialidade do texto como foco de estudo literário, era preciso definir o que consistia esse objeto de estudo. O que é e o que pode ser considerado literatura? A definição de literatura se apresenta mutante sob a ótica de diferentes correntes literárias. Zappone e Wielewicki citam Williams ao tratar da conceituação e descrição de literatura: “Esse é um sistema de abstração poderoso, e por vezes proibitivo, no qual o conceito de ‘literatura’ é ativamente ideológico.” (Williamns, in Zappone e Wielewicki, in Bonnici e Zolin, 2003, pág.19).

Para o formalismo, esse conceito ideológico que vem cunhar a definição de literariedade de um texto é evidenciado por Jakubinski e Chkloviski. Para os formalistas russos, existe uma distinção preponderante que caracteriza o texto literário. Uma distinção de processo construtivo e de linguagem, entre a linguagem poética e a linguagem prosaica. Enquanto a última é a ferramenta de comunicação cotidiana, com função referencial e utilitária, a primeira tem ênfase na desautomatização da percepção do receptor, exigindo do leitor uma leitura mais atenta e um maior comprometimento com o texto artístico. “O procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção”. (Chkloviski, in Franco Júnior, in Bonnici e Zolin, 2003, pág. 95). Chkloviski destaca a singularização do objeto. A arte, a visão e atuação do artista sobre determinado objeto, teria o poder de torná-lo único, singular. Através da arte, da literatura, o autor poderia tornar singular um dia chuvoso comum, por exemplo. Fazer dele lúgubre ou purificador. Desautomatizando a leitura, um objeto cotidiano passa a ser arte quando visto sob a ótica da linguagem poética, ao invés do simples utilitarismo da linguagem prosaica. O cerne da linguagem poética

é criado conscientemente para libertar do automatismo; sua visão representa o objetivo do criador e ela é construída artificialmente de maneira que a percepção se detenha nela e chegue ao máximo de sua força e duração”. (idem, pág.96)

Essa desautomatização da leitura de um texto literário se dá pelo estranhamento do texto. Na ótica formalista, a arte sempre causa estranhamento. O leitor não passa intocado pelo texto. Ele deve, de alguma forma, se comprometer com ele, nem que seja apenas se detendo com mais atenção em sua leitura. Isso implica em um texto artístico mais denso do que a linguagem cotidiana. A função poética torna o texto mais opaco, do que, segundo a teoria formalista, surge a literariedade do texto.

Assim, se destaca o predomínio da forma. O conteúdo apenas, já não basta para esta nova visão da arte. Mais do que com o “o que” ou o “por que”, o estudo da literatura passa a ter uma preocupação com o “como”.

Elementos Primordiais de Análise
Na busca por desvendar esse “como” do processo narrativo literário, Chkloviski (Franco Júnior, in Bonnici e Zolin, 2003, pág. 97) deslumbrou duas estruturas da narrativa sobre o qual se suporta o texto. A Fábula e a Trama. Enquanto a fábula é seria a simples descrição dos acontecimentos da narrativa, a trama é como se dá a elaboração desses acontecimentos na narrativa. Resgatando o parágrafo anterior, enquanto a fábula seria o “o que”, a trama representa o “como” o objeto é apresentado. A trama é, portanto, resgatando os primeiros princípios aqui apresentados, o “estranhamento” da fábula. É a ação poética sobre a mesma.

Dois elementos ainda se destacam na caracterização da narrativa. Motivo e Motivação atuam de forma bastante próxima. O motivo constitui-se no menor elemento que compõe a narrativa. São suas estruturas mais elementares, unidades temáticas que, agrupadas, dariam forma à fábula. A motivação é o sistema que gere e coordena esses motivos. É a forma como eles são dispostos e/ou apresentados na obra. Novamente, o “como” atuando sobre os “o quês” da narrativa. As maneiras como essa motivação coordena os motivos, são separadas em três vertentes por Tomachevski, cada uma de acordo com a proposta a que se destina.

A Motivação Estética ordena os motivos levando em conta a valorização da forma, o estranhamento, a literariedade da obra. A Motivação Realista preocupa-se mais com a verossimilhança do texto. Os motivos introduzidos no decorrer da narrativa devem ser os mais prováveis e plausíveis possíveis. A Motivação Composicional detém-se na composição dos elementos e divide-se em três linhas. A Funcional prega que cada motivo inserido no texto deve ter sua função. Se uma cadeira é descrita em um cenário, por exemplo, é porque terá um papel preponderante, ou ao menos importante, na narrativa. Os motivos são escolhidos por sua funcionalidade, pela maneira como atuarão na cena. Um a segunda linha dá importância à dinâmica da obra, ordenando os motivos para traduzir o tom necessário à narrativa. Por exemplo, o dia chuvoso citado no início desse ensaio. Os motivos podem ser trabalhos a torná-lo misterioso e sombrio, se este for o tom do texto. Uma terceira linha trabalha com a Falsa Motivação, um engodo que, através da ordenação dos motivos, induz o leitor a uma pressuposição para depois revelar-se o oposto.

Por fim, todos esses elementos — Fábula, Trama, Motivos e Motivação — são carregados e percorridos pelos personagens da narrativa. São estes os suportes dos motivos. E a abordagem formalista abarca a caracterização dos personagens em duas vertentes. Direta, quando o narrador ou algum personagem expõe essa caracterização, classificando o personagem como afável, destemido ou manipulador; ou Indireta quando as ações deste personagem no decorrer da obra acabam revelar suas características, sua índole.

Legado
O Formalismo Russo levantou questões polêmicas, em muito refutadas pelas teorias literárias mais modernas. Ainda assim, sua contribuição para literatura persiste no olhar acurado para o texto, para uma escrita e leitura mais aprofundadas. Na atenção aos elementos do texto e na valorização do processo criativo. O Formalismo influenciou e dialogou com outros movimentos ou grupos textualistas e continua dialogando com as teorias contemporâneas, mesmo após a breve e polêmica existência do Círculo Lingüístico de Moscou e da OPOIAZ.

Referências:
BONNICI, Thomas. ZOLIN, Lúcia Ozana; Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá. Eduem. 2003.
TROTSKI, Leon. Literatura e Revolução. Rio de Janeiro. Zahar. 1969.

sábado, 29 de novembro de 2008

Negra - Ilustração Nova



Uma ilustra nova já que não tenho texto pra postar.

Ao lado o, traço à BIC. Clicando nas imagens amplia um pouco.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Pra não dizer que não falei das flores (soterradas)

Eu não ia escrever nada aqui sobre as enchentes em SC. Mas com essa confusão toda, não deu pra escrever nada direito. Como tinha que postar algo pro Duelo de Escritores e eu estava sem tempo, acabei fazendo isso aí em baixo de supetão. E acabou sendo de enchente. Pra não deixar isso aqui parado, estão aí os meus parcos versos de lama sobre Cinismo (mais ou menos).

Escrito na lama
Cinismo é crer que alguém ainda escreva sob as águas.
No entanto, se as águas levam tudo, não podem levar as palavras.
Continuemos, pois, com todo o cinismo do mundo.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Selenita

Selena vivia no mundo da lua. Selena Selenita, lhe chamavam. Selena orbitava a vida, de saia rodada rodando o mundo. Sem nunca tocá-lo. Caminhava tão leve com as sapatilhas brancas de trama xadrez, que parecia flutuar, evitando macular o solado nesta nossa aspereza. Selena, diziam, não era daqui. Não podia ser. Translava pelo mundo em rotação. Girando, girando, bailando, bailando. Sem deixar pegadas. Selena, selenita, se ria de tudo. Se ria do mundo, se ria de todos. Mesmo se riam de si. E como riam. É doida, diziam os loucos. Desocupada, acusavam os ociosos. Tola, criticavam os parvos. Pobrezinha, se apiedavam os miseráveis. E todos no mundo riam de Selena. Mas ela, selenita, continuava sua órbita de vestido rodado e sapatilhas sem meia, impulsionada pelas molas acastanhadas dos cabelos fragrantes. Na face, o riso fresco doutro mundo. O rubor das bochechas, olhos abertos para ver o mundo a girar. Dentro deles, a íris amarelada de quem porta o sol nas órbitas.

Mas Selena sabia que não podia rodar pra sempre. E sob a lua já minguante na noite fluorescente, cruzou a avenida quase sem perturbar as faixas brancas do asfalto. O semáforo ruborizou. Inveja velada. Os faróis pararam para ver Selena passar. Com as sapatilhas brancas, nas pontas dos pés, e com as molas dos cabelos saltando, Selena Selenita saltita à beira rio. E todos viam Selena girar. Selena Selenita, que orbitava o mundo sem o tocar. Rodopiou pela grama sem espantar o orvalho, vestido enfunado pelo vento que corria no rio. E o povo que caminhava, em malhas justas, fones e marcas, apontava Selena. E riam-se dela que ria-se deles. Ria-se ela do mundo que girava porque ela girava. Porque ela por ele tangenciava. E com ela, ria-se a lua, minguante no leito do rio. E o povo parou quando Selena pisou a água, com aqueles pés que mal pisavam a terra. Na margem, deixou a sapatilha molhada, embalada pela marola, flutuando sem tocar o chão. Selena ninguém mais apontou. Só viam seu riso marcado no meio do rio. Selenita encontrou-se com a lua. Selena Selenita, de tanto girar sozinha, escapou pela tangente. E os miseráveis ficaram sem ter de quem se apiedar. Os tolos já não tinham a quem apontar. Os ociosos ficaram sem ter o que fazer.

Selenita se fora. Os loucos diziam, tinha voltado para casa.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Alfa

O Duelo de Escritores acabou de completar um ano. Em comemoração houve uma rodada especial, em que os leitores é que foram os duelistas. O vencedor dessa rodada foi o leitor Jefferson. Como prêmio pela conquista, ele teve o direito de escolher o tema desta rodada. O infeliz escolheu: Revele as técnicas de escrita você usa, mas de uma forma original. Ofensas à parte pelo tema que me deu uma dor de cabeça, aí embaixo vai o resultado. Como o tema pede discussões e diálogos, é bom antecipar que, ao menos para mim, existem algumas (ou várias) técnicas que podem ser usadas. O texto abaixo se refere apenas a uma delas, que vem me... perseguindo... nos últimos textos. Vou parar por aqui antes que fale demais. Taí o texto. E se quiser participar da discussão e da votação, pode tb dar um pulo lá no Duelo de Escritores. O ano II está só começando.


Alfa

Corria com passos largos, quase aos saltos, colina acima. Não ousava olhar por sobre o ombro. Só ouvia o farfalhar veloz na grama às suas costas. O galpão velho e poeirento da ultrapassada oficina tinha a porta aberta. Refúgio débil, não obstante, um refúgio. Cruzou o vão de entrada e arrastou com esforço a porta de madeira pesada. O facho de luz exterior foi minguando junto com a imagem das perseguidoras. Passou o ferrolho, respirou fundo e colocou o ombro de encontro à porta, projetando todo seu peso. Não tardou para sentir o impacto do outro lado. O choque fez a porta tremer, mas ela se manteve firme e imperturbável. Ele, no entanto, não podia dizer o mesmo. Já o tinham atingido de alguma forma, mas não o tinham alcançado. E por hora isso parecia o suficiente.

Podia ouvi-las através das paredes de madeira. Uma luz frágil entrava filtrada pelo teto de vidro sujo. Dentro, em meio a placas de madeira e restos de serragem, serras, martelos e pregos enferrujados sugeriam armas pouco eficazes. Podia praticamente sentir as criaturas contornando a construção, cercando o barracão. Não eram muitas, mas eram implacáveis. Ouvia o roçar incessante contra as paredes, um choque aqui, um golpe mais adiante. E tudo que o mantinha protegido não era mais que uma tênue fronteira de madeira fina.

Um estalido de madeira partida o pôs em movimento. Driblou o ferramental velho a procura de um local melhor protegido. Pôde ouvir a parede se partindo e as invasoras se arrastando para o interior do velho galpão. Ouvia o som correndo pelos corredores de equipamentos ociosos, já podia sentir o cheiro das criaturas se aproximando. Em um canto, dava as costas à parede para evitar um ataque inesperado. Pôde ver surgir os olhos brilhantes, pregados nele e, mesmo sob a luz filtrada pelo telhado, pôde ver as criaturas se aproximando. Tentou esquivar-se da primeira investida, a segunda arranhou-lhe o corpo. Não pôde evitar a terceira. Quando a criatura se afastou ainda podia sentir as marcas deixadas pelas presas. As criaturas se afastaram um pouco, rondando, enquanto ele se prostrava ao chão. Sentia o conteúdo inoculado percorrer-lhe o corpo até o coração. Sentiu quando lhe subiu pelo peito à cabeça. Sentiu-se transformando.

Quando ergueu a cabeça tinha os mesmo olhos brilhantes das criaturas. Tornou-se um pouco como elas. E elas como ele. Quando o bando partiu, ele estava entre elas. Deixou-se levar, selvagem. Correu como um igual. Farfalhando grama, deixando para trás o galpão envelhecido. Quando se ergueu entre elas, era outro. Quando deu por si, elas não mais o perseguiam. Agora, elas o seguiam.

domingo, 9 de novembro de 2008

Playmobil

Eu já fui um Playmobil. E aparentemente um concorrente do Inri Cristo.

Ilustra das antigas, de quando fiz um a camiseta com todos os funcionários da Callier em versão Playmobil.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Micro-conto

Na pia batismal o missionário se banhava. Nu, renasceu puro e molhado frente às beatas descrentes.

Esse micro-conto está inserido no meu último conto no Duelo de Escritores (sob o tema A Missão). Não achei aquele conto muito bom, mas acho q esse micro-conto é interessante. Foi ele inclusive que me levou a escrever o outro. Acho que daqui pode pintar mais alguma coisa um dia.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Vermorréia

Lá vem o vermartista.
Cinzel ao encontro do poeta verborrágico.
Lá vem o verme vermorrágico.

Rastejoscultor, esculpecaminha-me
e xilogravura-me os restos rotos.
Descarnescarneia o cadáver meu,
e assina-me num arroto podre.

domingo, 26 de outubro de 2008

Linguagem

não entendo o que falas
nesta tua língua
mas também, pouco importa
que não é falar que quero com a língua tua

falo-te na minha
língua
falo na tua
língua

na minha língua falo
que me basta a tua
na minha

porque as línguas são assim
as línguas se bastam
e desconhecem idioma

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A Condição do Principado

Quando escrevi o Príncipe dos Suicidas, mais do que a própria história, o personagem me interessou. Tem algo o nele que me intriga. Acho que havia (e que ainda pode haver) algo mais, abaixo da supertfície do personagem. O texto todo foi inspirado por construções mitológicas repaginadas, mas assim, sem pesquisa e de cabeça, não consigo lembrar de nenhum correspondente ao Príncipe. Então, pra tentar entender melhor o infeliz, aproveitei o tema do Duelo de Escritores desta rodada pra revisitar aquele texto, aquele personagem. Queria desenvolver melhor a sua psique, buscando um pouco mais de dimensão e profundidade pra ele. Revisitando o texto, acho que pude resignificar alguns aspectos do Príncipe, talvez o próprio personagem. E com o novo visitante (que na verdade já aparecia discretamente no primeiro texto), mostrar um lado complementar da primeira história, tentando ainda, manter o diálogo e a importância do primeiro texto, inserindo o leitor, definitivamente na história e tentando um novo foco narrativo. Sem mais ladainhas segue o texto. Se vc quiser, pode lê-lo tb no Duelo de Escritores, sob o tema Condição, junto com o texto dos outros duelistas e votar no seu preferido até o dia 16.



A Condição do Principado

Ainda te demoraste alguns minutos naquela última frase, com o restante das folhas manuscritas na outra mão. Não a lias mais, apenas a olhavas. O conteúdo, já gravado na memória confusa: “Mas o protagonista desta história, leitor, não sou eu”. Finalmente levantaste a cabeça para a figura do velho, retratada como há pouco havias lido, escorado numa das paredes de tora da casa. Quando falaste, a voz saiu-te baixa, mas firme. Uma constatação que, estranhamente, não foi tão pesarosa quanto esperavas:

— O protagonista sou eu.

O velho, na mesma jardineira parda descrita na carta, esboçou um leve aceno afirmativo de cabeça, mas interrompeu o movimento breve para ir até o fogão de pedra no centro da sala.

— O protagonista desta história já morreu — completaste. O velho não precisou responder.

Ficaste olhando as costas entroncadas e pensaste ainda que não lhe parecia bem um príncipe. Ele lançou-te um olhar ancestral por sobre o ombro, que não pudeste suportar. Desviaste os teus, inda jovens, para a porta, esbarrando-os na enxada afiada ao lado dela.

“Às vezes o grão despenca antes do tempo e não pode ser colhido pela foice. Aí vem a mim.” A passagem lhe veio à mente como se ainda a estivesses lendo.

— Então foi isso que me aconteceu? —Perguntaste à enxada ao lado da porta. Mas foi o velho junto ao fogão que te respondeu, virando-se para ti com as mãos ocupadas por duas xícaras fumegantes de metal:

— A você e a todos que passaram por aqui antes de você. Inclusive a quem escreveu essa carta.

— Inclusive a você? — Inquiriste já com uma das xícaras quentes nas mãos. Não sorveste o líquido. Sabias que poderias esperar até que esfriasse. Já sabias que havia tempo de sobra.

O velho parou à tua frente. Olhos fixos nos teus. Mas perdidos em um tempo muito distante, vago, nublado, como a fumaça branca que lhe escalava as barbas ralas. Ele se afastou, sentou noutra cadeira a alguma distância, inclinando-se para trás, equilibrado em dois pés do móvel, apenas.

— A todos que já estiveram aqui, respondeu.

— E como foi que aconteceu? Com você, quero dizer.

Ele pensou um pouco antes de responder-te. Ao que disse:
— Já não lembro. O tempo que passamos aqui, entre a névoa, apaga o aconteceu antes. Esqueci. Você também vai esquecer. Já está acontecendo.
Ele tinha razão, percebeste. A névoa que se instalava do lado de fora da casa no meio da mata, também se instalava em tuas memórias, já diáfanas, nada mais que um vulto acinzentado.

— E antes de você, havia outro Príncipe que o recebeu?

— Não — respondeu-te o velho — eu fui o primeiro dentre nós. O primeiro dentre todos. O primeiro grão a se precipitar antes da colheita. O primeiro a se apaixonar por ela. A desejar o beijo prematuro. Eu não podia esperar. Não havia tempo. Não queria esperar. E me precipitei. Quando saí das árvores, avistei o mesmo trapiche que você encontrou. Fui até o mesmo homenzinho que lhe trouxe aqui. E, pela primeira vez, eu a vi. A pele queimada, os olhos vibrantes, os ombros nus. Eu quis ir até ela, mas o homenzinho não deixou. Disse que eu não poderia fazer a travessia. Que ainda não era hora. Eu não podia ficar ali, meu nome não estava na lista, ele dizia. Não ainda. Tudo o que me restou foi esperar. Eu procurei um lugar pra esperar, aqui entre as árvores. Esperei até não agüentar mais essa névoa. Então construí essa casa. E continuei a esperar, aqui. Sozinho. O único da nossa espécie. O primeiro. Enquanto esperava, a lembrança dela me fazia companhia. Das mãos da camponesa, dos ombros nus de pele tisnada. Da cor do vestido, do jeito de olhar. Até que percebi que já não esperava mais a travessia. Esperava apenas ver a camponesa de novo. A Dama da Colheita. Um dia o homenzinho me achou aqui. Disse que tinha chegado minha hora. Que eu já poderia fazer a travessia. Finalmente eu poderia revê-la! Quando cheguei à margem, ela me recebeu. E conversamos por um bom tempo até a chegada da balsa. Mas quando chegou o momento, percebi que apenas eu faria a travessia. Ela teria de ficar ali. Eu jamais a veria novamente. Foi quando eu tomei a decisão. De ficar, para sempre, à margem. De jamais completar a travessia. De, para sempre, caminhar entre a névoa. Só pela chance de, vez por outra, tornar a revê-la, mesmo que não possa tê-la. O homenzinho não gostou. Disse que meu nome estava na lista. Que eu tinha que cruzar. “Nenhum nome na lista pode ficar, ninguém fora dela pode cruzar”, ele repetia. Mas outros como eu viriam. Outros como nós. Suicidas. Condenados a esperar. Nomes fora da lista. Alguém deveria aguardar por eles. Eis que me tornei o Príncipe dos Suicidas. O Portador da Enxada. Aquele que recolhe os grãos que se precipitaram antes da colheita. Que coleta com a enxada aqueles que a foice não alcança. Todos aqueles que se apaixonaram por ela, mas que jamais poderão a ter. Esse é o nosso Desígnio.

— Nosso? — Ainda perguntaste preocupado, tirando o velho dos seus desvarios. Ele respondeu, com um suspiro, ainda olhando as brumas pela janela.

— Não, nosso não. Eles, e você, todos cruzarão, a seu tempo, o rio. Ninguém pode viver à margem, sem completar a travessia. Apenas eu. À margem, entre as névoas, esperando, para sempre. Essa é a Condição. A Eterna Condição. Não há nós. Não para mim. Jamais haverá.

Em silêncio, guardaste a carta que leste, de outro que já estivera onde agora estavas. E compreendeste, olhando o líquido fumegante que embaçava os olhos do Príncipe. Há tempo. Há tempo de sobra. Tempo é tudo o que tem, o Príncipe dos Suicidas.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Bibliogamia. Da adoração ao tesão por livros.

Antes de partir para o ensaio, é preciso atentar para alguns pontos. O texto a seguir traz apenas algumas reflexões descompromissadas. O leitor pode, então, encontrar imprecisões históricas ou mesmo reflexões equivocadas por falta de pesquisa. Esse texto é base para outro diálogo que pretendo, mas adiante, tratar aqui. Por hora ele ainda está em um estágio muito embrionário na minha cabeça e creio que as discussões que possam vir a surgir a partir deste ensaio possam desenvolver melhor a idéia. Portanto, comentários, correções e observações são, como sempre, bem vindas. Ao texto, pois:



Bibliogamia. Da adoração ao tesão por livros.
Reflexões sobre a importância do suporte para a literatura.


“O livro é um animal vivo”.
— Aristóteles

A relação do leitor com a narrativa ou, ainda mais primeiramente, com o texto, passa, invariavelmente pelo suporte deste último. Divido estes suportes em duas vertentes: o Suporte Intangível e o Suporte Tangível. No primeiro grupo, incluo os códigos simbólicos e lingüísticos que trazem e codificam o fato narrado ou a idéia expressa. Em geral, compreendem formas de alfabeto e de idiomas, que não interessam especialmente a este ensaio. No segundo grupo, de Suportes Tangíveis, incluo os suportes mais palpáveis, mais materiais, dos quais os suportes intangíveis fazem uso para chegarem até nossas mãos — ou olhos e ouvidos. Neste caso, apresenta-se uma gama de possibilidades: desde pixels numa tela brilhante, passando por lâminas de celulose banhadas em offset, páginas manuscritas amareladas nos códices antigos, peles de animais e compostos de plantas, até as pedras e paredes de templos ou cavernas(1).

Com o desenvolvimento e surgimento de novos suportes, que marcaram a história do livro e da própria sociedade universal, é natural que a relação do leitor com os textos tenha também se desenvolvido e se alterado com o decorrer destas mudanças. O livro ou, antes dele, o texto, tem sua relação com o leitor através do suporte. E é graças a esse suporte que a nossa relação com os textos mais diversos passou da adoração ao tesão. Novas plataformas e suportes trazem novas idéias a esse namoro e novas posições para a nossa bibliogamia.

O primeiro encontro do homem com a literatura escrita, em um Suporte Tangível, deu-se provavelmente sobre a parede de alguma caverna. A partir de elementos pictórios e icônicos, começou-se a criar uma representação simbólica(2) para transmitir as narrativas e idéias. O contato com esse texto, escrito sobre a pedra, era frio, áspero, imóvel. A posição de leitura era não era cômoda, não era prático (apesar de breve) o ato de ler. Esse primeiro encontro do leitor com o texto escrito estava ainda muito longe da relação atual, muito mais próxima e afetiva. Ainda assim, um certo fascínio já começava a compor o triângulo amoroso entre autor, texto e leitor. Começa, de forma tímida, o flerte da literatura.

Na antiguidade, o texto verbal escrito ganha corpo e se desenvolve. Os códigos usados são mais versáteis, muito mais apoiados em símbolos do que em ícones, permitindo um maior envolvimento do texto com o leitor e mais recursos ao autor. O suporte também se desenvolveu. Os textos deixaram a imobilidade das paredes das moradas e a narrativa ganhou um pouco de mobilidade nas placas e tabuletas de argila ou pedra. O leitor pode finalmente abraçar o texto. Apesar do peso dos suportes deste período, da dificuldade de se esculpir o texto sobre a pedra e cortar as tabuletas em tamanhos adequados, apesar da fragilidade das placas de argila sob impacto, os textos ganharam um suporte que permitiu mais interação na sua relação com o leitor. Mesmo com certas dificuldades, o namoro dos raros leitores com o texto torna-se mais palpável. O toque já é menos áspero e o flerte torna-se menos difícil. No entanto, o próprio suporte ainda dificulta o acesso à leitura e são poucos os que têm esse privilégio. Para a maior parte do público, o texto é ainda algo distante, uma presença difusa, cercada de ritos e cuidados, apenas acessível para uns poucos escolhidos. A literatura começa a tomar um ar quase sacro. E o que começava como um namoro tímido, passa a encaminhar-se para a adoração.

Ainda na antiguidade, a partir do século II A.C, a literatura ganha muito em mobilidade. As tabuletas minerais dão lugar aos papiros, suporte vegetal, feito à base de uma planta que era moldado em longas lâminas, que ultrapassavam os cinco metros de comprimento e poderiam ser enrolados em formato de canudo, facilitando o transporte e armazenamento. A figura do escriba já está bem estabelecida e a literatura começa a ganhar importância cada vez maior, ainda que com foco nos aspectos historiográficos ou de exaltação de divindades ou governantes. O relacionamento do texto com o leitor continua a ser de uma divindade adorada, não um parceiro a ser conquistado, de um relacionamento afetivo. A emoção envolvida restringe-se ao medo, à surpresa, à adoração. Além disso, o fato do contato do público com o texto escrito só ocorrer através de escribas e sacerdotes em rituais religiosos, não ajuda a reverter esse quadro. No entanto, o suporte já se mostra mais amigável. Mais leve, menor, mais agradável ao toque. Ele aceita mais facilmente as palavras do autor, relaciona-se de forma mais prazerosa com este. Já permite uma leitura mais agradável, mais confortável. Tanto na precisão dos tipos escritos, quanto na própria postura de leitura.

O papiro é posteriormente substituído pelo pergaminho. O vegetal dá espaço para o couro animal. O pergaminho dá ao texto uma durabilidade superior, permitindo que a relação do leitor e do texto perdure por mais tempo. Ainda que o relacionamento esteja ainda muito mais próximo de uma relação deus-adorador do que de amantes, a possibilidade de um relacionamento de longa duração já se torna aceitável.

O pergaminho é, pelos gregos e romanos, aos poucos, substituído pelos códex. As lâminas são agora agrupadas em volumes, não mais enroladas. Nos primeiros anos da Era Cristã, o suporte da literatura começa a tomar as formas que conhecemos hoje. O leitor passa, a partir de então, a relacionar-se com o livro. Mas não é ainda que o relacionamento se torna mais íntimo. Os códex são ainda frágeis, pesados, grandes e incômodos. A leitura normalmente ainda chegava ao público através de um terceiro, de um leitor “oficial”. Mas o suporte permite, mesmo em leituras públicas, uma proximidade um pouco maior do público com a literatura, e o texto parece, aos poucos, mais próximo dos leitores.

Como o livro era de acesso, normalmente, restrito aos indivíduos de grandes posses — nobres, clero, oligarcas — passa a ser também um símbolo deste status (além do poder de controle da informação e da História). Surge, mais evidentemente, o desejo pelo livro. Ao menos nas elites, a adoração começa a dar lugar a um relacionamento mais pessoal, mais próximo. O flerte parece querer retornar entre leitor e literatura.
Se, por um lado, a Idade Média Ocidental exaltou o aspecto da adoração do livro como algo sagrado através da influência do poder eclesiástico, por outro, começa a surgir a literatura vernacular européia, com o latim cedendo espaço para os idiomas nacionais. Enquanto a Igreja declara o livro como objeto sagrado ou profano, surgem esforços que dariam ao povo o poder flertar com o livro como um igual. Leitor e texto recomeçam a falar a mesma língua. E com a proibição da Igreja sobre muitas obras, o flerte começa a adquirir o sabor de romance proibido. Nesse ínterim, o suporte também ganha uma nova plataforma. O pergaminho passa a ser substituído pelo papel que, combinado com os monges copistas, amplia a produção literária (no que diz respeito à quantidade de volumes) em níveis até então não alcançados. Os leitores, entre adoração e desejo, passam a ter mais pretendentes. E entre adoração e desejo, entre a deidade e o amante, o livro começa a tomar ares de fetiche.

No ocaso da Idade Média, do outro lado do globo, surge a máquina chinesa que suplantaria o volume de produção dos monges copistas europeus. A prensa de tipos móveis oriental, feita em madeira, possibilitou um volume de produção em muito superior aos dos monges ocidentais. Com a nova tecnologia e o suporte adequado, os livros começaram a se espalhar devagar pelo globo.

Surgida no século XV, a prensa de Gutenberg está para a prensa chinesa como o pergaminho está para o papiro. A prensa de Gutenberg, com tipos móveis de metal, ao contrário dos de madeira chineses, propiciava a reutilização e maior precisão de impressão. Aliado a uma nova distribuição de poder na Europa, a invenção propiciou uma enxurrada de livros no continente, aumentando a produção de volumes e de criação literária. O livro, já envolto em vestes de fetiche, vai tomando formatos e acabamentos mais agradáveis. Leves, resistentes e práticos; de fácil leitura, armazenamento e transporte, o livro chegou às mãos dos leitores. O namoro distante passou a ser mais próximo e passional. O leitor podia envolver o livro e deixar-se envolver por ele. O relacionamento passou a ser mais íntimo. As grandes leituras públicas foram trocadas pelas leituras solitárias. Leitor e literatura, finalmente, conseguiram ficar a sós. O leitor conseguiu, em fim, levar o livro pra cama. Literalmente. E a adoração passou a tesão. De divindade, o livro passou a amante.

Hoje, com a demanda crescente e a ampliação do mercado editorial, as edições comemorativas, as reedições de clássicos ou bestsellers, as edições de luxo e as grandes tiragens apimentam ainda mais a relação entre leitor e literatura. O aspecto de fetiche do livro ganha ainda mais destaque e estimula ainda mais o desejo do leitor pelos volumes.

Mais recentemente, já a partir do fim do século passado, começam a surgir os e-books e os livros passam às telas dos computadores. Já tive a oportunidade de ler alguns livros de diferentes gêneros nessa nova plataforma. Livros relativamente curtos, livros bem mais longos, narrativas ficcionais ou ensaios científicos/filosóficos/não-ficção. Independentemente do caso, notei uma leitura mais lenta e mais cansativa na tela do que no papel. A mobilidade dos desktops também não é muito superior à das tabuletas de argila, e os laptops e notebooks suprem apenas em parte essa desvantagem. O peso é igualmente mais incômodo que o dos livros. A posição de leitura é bem menos versátil e, por conseqüência, menos cômoda que a dos livros de papel. O armazenamento, no entanto, é inúmeras vezes superior, visto que é mais fácil encher um HD de e-books do que uma estante de livros (tanto física quanto financeiramente). Mas, em contrapartida, se ficou mais fácil a aquisição e a guarda das obras, o leitor já não pode mais tocá-las, envolvê-las, sentir o cheiro das páginas, a textura das fibras, já não pode mais envolver o amante como antes o fazia. Em tempos de bibliogamia virtual, o fetiche perde força. Não seria então, em oposição à maior disseminação e acesso às obras, o e-book um retrocesso no relacionamento do leitor com livro? Esse novo suporte, ao mesmo tempo em que aproxima, distancia o leitor da obra. Teria este fenômeno a peculiaridade de promover um maior número de relacionamentos leitor-livros, mas de forma mais superficial, como muitos relacionamentos virtuais? Visto que este é um texto originalmente virtual, o que diz isto a seu respeito? Qual a sua relação, leitor, com esta Palavra? Acaso seria ela mais sedutora sobre o papel?

Com o avançar tecnológico, não duvido, questões como estas serão revisitadas. Os novos suportes, como modelos de PDAs, palmtops, celulares e e-book readers, as pesquisas na área de e-papers, rumam para retomar o relacionamento, estreitando novamente os laços com o leitor, buscando novamente dividir os lençóis com ele. Não creio, de forma alguma, que esse namoro corra qualquer risco. Mas a impressão que tenho é que essa é uma daquelas pequenas crises no relacionamento. E esse texto, ao que parece, pretende discutir a relação. Eu, leitor promíscuo que sou, levo pra cama livros tradicionais enquanto flerto com outros pelo computador. No fundo, talvez, muito além destas reflexões e independentemente do suporte, o importante seja não deixar faltar tesão.


Notas:
(1) É preciso também incluir, junto aos Suportes Tangíveis, o ar. Através do diálogo, a literatura oral nos chega através deste suporte, por ondas mecânicas, físicas, tangíveis (que difere do Suporte Intangível do idioma ou das palavras, por exemplo). Apenas optei por não incluir esses pensamentos nos exemplos acima para evitar alguma confusão por parte do leitor e pelo fato de que este ensaio pretende se deter mais sobre a literatura escrita.

(2) Não vou me deter sobre a tríade Índice, Ícone e Símbolo aqui, ou sobre Primeiridade, Secundidade e Terceiridade, mas a importância da transposição do uso de ícones para o uso de símbolos pode ser melhor apreciada sob a luz das teorias semióticas de Charles Sanders Peirce.

domingo, 5 de outubro de 2008

Quase

Queria, impreterivelmente, começar seu menor conto pela maior palavra. Quase conseguiu.

Esse foi pro Duelo. A idéia era desenvolver um conto usando menos de 100 caracteres. Curtinho, só pra não deixar o blog parado por muito tempo.