quarta-feira, 18 de março de 2020

O Barqueiro da Babitonga

Imagem: The Lonely Boat Man, by Asha Sudhaker Shenoy.

O Barqueiro da Babitonga

23/06/2019

Era uma noite fresca de princípios de inverno. O ar salgado dava sabor à brisa que soprava feito o sussuro de um afogado. A neblina quase tocava a água da baía que movia apenas o suficiente para enunciar-se viva. O apito do trem sangrou a madrugada despertando quem talvez devesse continuar dormindo.

Como se tivesse ouvido, mesmo tão longe, numa ponta perdida da ilha, Vinícius acordou. A lembrança da noite anterior ainda tão nublada quanto a noite. O gosto do último trago na boca, no entanto, estava claro como um dia de sol. Os pelos do braço se arrepiando ao contato da bruma que impedia a visão além das paredes rotas das ruínas do antigo leprosário. Agarrou-se às raízes que agora adornavam a pedra e firmou-se sobre as pernas ainda meio bambas. Tudo o que via além da praça que abrigava as ruínas era uma mortalha branca que recobria a noite. Caminhou um pouco trôpego na direção da capela, desbravando a névoa que não cedia espaço. Mesmo dentro do pequeno oratório da praça a neblina se adensou a ponto de turvar o rosto da santinha. Não podia ver a mais de um metro adiante, mas logo percebeu ter tomado o caminho errado. A capela era contígua à praça e ainda não havia lhe chegado às paredes. Retornou com o braço estendido à frente como quem caminha no escuro. Se tivesse tomado o rumo certo já estaria de volta à praça e às velhas paredes do leprosário que lhe abrigaram do vento horas mais cedo.

A neblina já tinha devorado todos os pontos de referência e ainda se adensava. Tudo o que podia ver era uma sugestão da estrada de terra que se estendia a partir de seus pés. Parou desnorteado tentando vislumbrar algo que indicasse um caminho — àquela altura, qualquer caminho — para sair daquele frio. Ali parado foi quando ouviu o primeiro som da noite agreste e percebeu que o nevoeiro era tão denso que abafava até mesmo os sons ao redor. Era um som leve de cascalho movido, em princípio muito discreto mas logo mais perceptível. Vinha de algum ponto adiante como algo que se acerca sem pressa, mas também sem descanso. Não arriscou mover-se e a espera pareceu levar anos, a angústia já crescente feito a névoa que se erguia por todos os lados. O som ficou mais audível e um chamuscar de luz surgiu na noite, em um par de olhos a um metro de distância e a um metro do chão.

Um focinho de ponta grisalha perfurou a penumbra revelando um animal negro, à exceção dos pelos esbranquiçados pela idade que lhe cobriam a cara. O cão era grande e magro, de pelo hirsuto, com olhos de um brilho vago na escuridão, cobertos por uma capa esbranquiçada como de catarata. Ou como se contivessem a própria bruma capturada nas órbitas. Um espuma branca lhe cobria a boca e gotejava sobre o chão, que vencia lentamente pelos passos compassados e o arrastar de uma das patas traseiras. O animal mantinha o seu ritmo mas havia algo de hostil naqueles olhos nebulosos e naquele pelo arrepiado. Vinícius hesitou por um segundo, mas com a criatura tão próxima, logo deu um passo atrás. E mais outro, como se a neblina que engolfava o cão o pudesse conter. Pensou ter ouvido um rosnado lançar-se na noite e, dando meia-volta, correu às cegas se distanciando do animal que coxeava nas trevas. Os passos largos cobriam de uma passada tudo o que havia de visível, lançando-o a cada momento para o meio da névoa e escuridão.

Não demorou e a um passo sentiu a areia fofa e no seguinte já ouviu o som do chapinhar na água. O calçado encharcou-se com a água fria quase ao mesmo tempo em que a vegetação lhe tocara o rosto. Já não ouvia a besta, mas estava perdido no frio da restinga coberta de névoa. Parou por um momento com ouvidos atentos e os dedos dos pés gelados. Pela tensão, pela corrida ou pela noite anterior da qual já mal se lembrava, tinha a boca seca, a cabeça doía de leve e sentia sede. Mas sabia que a água que lhe tocava os pés certamente seria salgada. Vagou feito uma canoa à deriva, desejando apenas deixar aqueles alagadiços e sentir a terra firme sob seus pés.

Bastou para isso dar mais um passo e sentiu um galho lhe roçar o rosto e o pé tocando uma elevação. A neblina continuava espessa, mas o som das marolas foi substituído pelo dos insetos na noite. Um piar de uma coruja soou em algum lugar e o passo seguinte revelou, no limiar da névoa, uma mata bem mais fechada do que aquela da restinga. Notou o desnível no solo, a perna da frente sempre mais flexionada que a de trás, como quem se encontra frente à uma colina. Não tinha certeza se tinha mais medo do cão ou de estar agora perdido na mata, no meio da noite, sozinho em algum lugar desconhecido. Já nem se importava com o caminho de casa. Queria encontrar um caminho para onde quer que fosse, desde que lhe fosse ao menos familiar.

Caminhou mais uns dez passos morro acima na esperança de escapar do nevoeiro e logo encontrou algo que iluminava tênue a neblina. Seguiu o ponto de luz até chegar à sua origem. Um pequeno candeeiro aceso no chão iluminava um homem sentado em uma pedra recurvado sobre uma garrafa que trazia ao colo. O homem levantou o olhar para Vinícius e acompanhando um aceno de cabeça lhe sorriu por baixo do bigode branco. A pele era marcada pelo sol e maresia, fiapos de cabelo branco lhe escapavam por baixo do boné simples e tinha os olhos claros vivos como duas moedas de prata brilhantes.

— Boa noite — disse o homem, num ritmo rápido, quase comendo as palavras. Vinícius demorou um pouco para responder — boa noite.

Mal podia ver a garrafa que o homem tinha às mãos, mas apenas o vislumbre já lhe despertou a sede.

— Desculpe, mas o senhor pode me ajudar? Acho que me perdi.
— Também pudera, com esta neblina que se está a por sobre tudo!

Ele tinha o sotaque açoriano carregado e Vinícius mais uma vez demorou alguns segundos para finalmente entender o que disse o homem da lamparina.

— O Senhor pode me indicar o caminho para a cidade?
— Mas ora, se não pudesse não estaria eu aqui, não é? Apolônio, muito prazer. Prático nessas terras desde que me lembro por gente.
— Prazer, Seu Apolônio. Vinícius. E muito obrigado.

O homem colocou a garrafa no chão à sombra da pedra e se levantou pegando o lampião.

— Eu lhe levo até lá. Já era tempo de eu voltar mesmo.
— Muito obrigado. E se não for abusar, será não sobrou um gole para aliviar a garganta seca? — arriscou perguntar, apontando para a garrafa. Mas o prático pegou a garrafa e lhe mostrou acrescentando:

— Acho que isso não vai resolver o problema.

A garrafa não continha nenhum líquido, apenas um pequeno barquinho dentro. Uma canoa, na verdade, com um barqueiro em miniatura junto ao remo. A tinta que imitava o mar ainda não parecia bem seca. A peça não era muito elaborada, mas era bem feita. Com uma meia risada, o novo guia recolou o artesanato novamente ao lado da pedra e começou a caminhar.

— Por aqui.

Sem responder, Vinícius seguiu o homem que tentava abrir caminho entre o nevoeiro com seu candeeiro, como um bandeirante abrindo caminho na mata com um facão. A névoa era relutante a abrir caminho, mas aos poucos cedia espaço ao menos suficiente para que o passo seguinte fosse em terreno iluminado. Vinícius seguiu o prático como um navio manobrando na baía. Logo estavam em um declive, mas a umidade toda só fazia aumentar a sensação de sede. Aplacá-la era desejo que lhe turvava a mente tanto quanto o nevoeiro. Demorou muito pouco para sentir o calçamento da rua sob seus pés. Muito menos do que poderia ter esperado.

— Oh! —  o guia também pareceu surpreso.

A imagem de casas de paredes coloridas começava a aparecer próxima, como se surgindo de dentro da névoa. Logo chegaram à antiga bica d’água no que fora um dia o centro da cidade, séculos atrás.

— Ah! — o guia exclamou novamente, menos surpreso.

Com o desejo de aplacar a sede agora lhe guiando os passos, Vinícius desceu os velhos e desgastados degraus e, com as mãos em concha, capturou o filete de água que vertia junto à pedra e sorveu com prazer o frescor que lhe escorria pela garganta, feito um condenado que saboreia sua última refeição. Enquanto isso, Seu Apolônio aguardava à margem da neblina, admirando uma paisagem que não estava lá. Vinícius tornou a subir os degraus e o prático recomeçou o caminho.

— Seu Apolônio, ‘brigado, mas acho que daqui já consigo me achar.
— Com esta neblina? Nem pensar! Além do mais, acho que já estamos a chegar.

Sem enxergar mais do que uns passos à frente, o próprio Apolônio tinha nisso mais uma sensação do que uma certeza, mas sentia que a viagem realmente não devia demorar. O rapaz o seguiu, como supunha que o faria, e o ouviu perguntando “Como assim?”, enquanto ouvia seus passos no calçamento secular daquela ruela ladeada de antigas casas coloridas, inundada pela neblina e por um passado quase tão antigo como o próprio país. Passou pela pequena praça de nome francês, seguido por Vinícius, que viu o gato branco sentado sobre a mesa de concreto. Ao cruzar pelo animal, o rapaz viu-o erguer-se nas quatro patas arqueando a coluna, os pelos eriçados das costas, as orelhas baixas e um miado pouco amistoso. Vinícius se apressou e seguiu a luz da lamparina do prático mais à frente, que já quase sumia no nevoeiro e finalmente o alcançou desejando que aquilo tudo logo terminasse.

— Seu Apolônio… — começou a dizer.
— Chegamos — interrompeu o guia.

O som das marolas era baixo e mal podia-se ver a água que tocava a proteção de pedra da margem. O grasnar de uma gaivota soou lúgubre sobre a baía. O pássaro planava baixo, mas de repente bateu asas atrapalhado e trocou bruscamente de direção, perdendo toda sua graça.

Com as ondas, um vulto vinha das águas. Uma mancha negra vinda da névoa, quase disforme. Lembrava um pescador chegando com sua canoa, não fosse pelo manto pesado que lhe caía da cabeça aos pés, condizente, na verdade, com o frio que fazia. O barqueiro conduzia um bote de madeira impulsionado por uma enorme vara que trazia à mão.

— Vamos — disse Apolônio, subindo na embarcação.

Vinícius ficou parado, não ousando seguir o guia.

— Está tudo bem, pode subir. Não há nada pra ficar aqui.

Vinícius olhou em volta, tudo o que via era a parede branca de névoa.

— Vamos, oh, gajo, que é a única forma de sair daqui.

Sem muita certeza, resolveu seguir a única luz que ainda brilhava na imensidão branca, na mão do açoriano. Subiu ao barco sem mover a água sob o casco e viu o prático entregar um par de moedas ao barqueiro, sentindo o leve deslizar do bote sobre a água. Em segundos a margem foi engolida pela névoa e ele não teve muito a fazer exceto sentar-se ao lado do homem que lhe guiara até ali.

O barqueiro seguia seu rumo guiando em silêncio. Só se ouvia o som leve das ondas e o grito distante de uma gaivota. Logo, nem isso. O silêncio se tornou absoluto e o frio intenso. Vinícius começava a tiritar. Que o barqueiro não se incomodasse, coberto com o pesado manto, era compreensível, mas Apolônio, em mangas de camisa, deveria estar tremendo. A embarcação parou quando a neblina se adensou. Estava tão intensa que começava a encobrir o barqueiro e até o próprio prático ao lado de Vinícius.

— Seu Apolônio…
— Tu sabes, eu passei mais tempo do que imaginei cá nesta baía. Conheci cada banco de areia. Só não tinha ouvido ainda um silêncio como este.

Vinícius tremia de frio mas o velho parecia não se dar conta.

— Por que a gente parou? —  perguntou sem parar de tremer.
— Porque esta é nossa última viagem.
— Eu, eu, quero voltar — balbuciou entre medo e frio.
— Oh, mas você vai voltar.
— Mas, e… e a última viagem?
— Ora, a nossa última viagem. Não a sua.

Vinícius se virou para trás, a neblina fria a lhe penetrar os ossos, e já não via o barqueiro. Deslocou-se com cuidado até onde ele devia estar, cruzando a névoa e encontrando junto à popa apenas o longo remo e o manto caído. Voltou-se para o prático e divisou na névoa só a luz da lanterna, tentando manter a neblina afastada da proa.

Estava só, no meio da baía, cercado pela névoa, no mais inerte silêncio. A névoa parecia ter-lhe tomado conta e lhe entranhado no corpo, já lhe transbordando pela boca a cada baforada de encontro ao ar gélido. Ficou parado ali, encolhido e tremendo, o que pareceu uma eternidade. Não sabia mais o que fazer, mas não poderia ficar ali para sempre. O mundo era névoa, estagnação, frio e silêncio. E nada mais. Quase se abraçou à lamparina para se aquecer,  o mínimo que fosse. Foi à outra ponta da embarcação e vestiu o pesado manto do barqueiro, cobrindo com o capuz a cabeça, sentindo o volumoso tecido lhe aquecendo um pouco as orelhas. Aos poucos o frio pareceu menos hostil, ao menos o suficiente para tomar alguma atitude. Colocou a lanterna à proa para lhe guiar o caminho, tomou do remo e deu propulsão à barca. Voltaria à costa ou se perderia na neblina tentando.

Guiou-se como pôde por tanto tempo que quase se esquecera de como chegara ali. Mais um bom tempo se passou até que o som das águas ecoou novamente em seus ouvidos, talvez até um grasnar, dúbio e distante, tivesse despontado em algum lugar. Mas na popa do bote, sob o manto, quase nada se podia ouvir. Ao menos o frio já não o castigava tanto, se um dia o fizera. O vislumbre de um píer surgiu discreto na névoa. Ao impulso do remo a barca aprumou-se e navegou devagar. Aos poucos, duas figuras começaram a se fazer distintas. Dois homens, lado a lado, um deles com um candeeiro à mão. O outro tinha os olhos arregalados procurando algo na névoa.

A barca se aproximou até quase tocar o cais. O homem do candeeiro fez sinal ao outro:

— Pode ir, está tudo bem.

O homem de olhos arregalados subiu receoso ao bote e Vinícius estendeu a mão. Recebeu em retorno uma moeda do homem com a lamparina e, com um golpe sutil do remo, impulsionou novamente a barca às névoas da Babitonga.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Cidade Gris



cidade gris

carrega a cidade no peito
convulsionado
pela tosse cinza

pela cinza descarga
de um rio de carros
de um rio d'escárnios

que rolam pelas sarjetas
e desaguam em si

o peito cinza
    pulsa
    pesa e
    pulsa

cada vez mais lento

até que as brasas cedam
e as cinzas ascendam
com uma lufada de vento
dançando na fumaça
de uma cidade sem cor

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Dente-de-leão


Dandelion

Nova ilustra pra começar o ano.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Sundae


Última atualização do ano por aqui. Como não veio um outro texto, fica um outro desenhinho.

domingo, 24 de novembro de 2019

Luzia on Krita


Estreando o Krita. Tentei variar um pouco o estilo, mantendo mais as marcas das pinceladas.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Rabiscos

Só pra atualizar, um exercício que vinha fazendo. Rabiscos aleatórios no papel e depois procurar encontrar formas que sugiram alguma coisa. Uma versão sketchbook de procurar desenho em nuvens.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Quando os morros caem


Foto do Informe Blumenau, de 2015
Esse foi de 2015, para o Willy e para a Irene. Não manjo dos paranauês, então só larguei uns três acordes ali, provavelmente teria que arrumar e arranjar direito, mas enfim, pra atualizar esse rincão aqui.

Quando os morros caem
Para Irene e Willy

(A7 E)

E        B7    A7
Quando o rio chamou
        E
O morro respondeu
        B7    A7
Quando o rio clamou
        E
O morro atendeu
        B7    A7
O morro rachou
          E
E o rio correu
            B7    A7
Por onde nunca andou
        E
Por onde escolheu
        B7         A7            E7
E nada restou (nada restou), só você e eu
        B7         A7            E
E nada restou (nada restou), só você e eu
E        B7    A7
Meu cachorro cego
    E
Rio levou
        B7    A7
O meu carro velho
         E
Rio carregou
        B7    A7
Quando o rio correu
    E
assoreou
B7              A7            E
//: Meu peito, meu chão; casa e refrão; canto e violão:\\
B7         A7        E
Peito, chão; violão
B7         A7        (A7 E)
Peito, chão

terça-feira, 9 de julho de 2019

Flame Writing

Image: pexels.com

Flame Writing

Write.
Write like your fingers are on fire.
Like your brain is a bursting scorching lake.
Like your heart is a blazing kiln, pumping in your chest.

Let it burn.

When all left is a pile of fuming ashes,
blow it all away,
until you find that remaining tiny ember, burning alive.

Blow it.
Blow it and throw it everything you've got,
'til the flames arise once more.

Then you write.
Write like your fingers are on fire...


segunda-feira, 10 de junho de 2019

fin de tarde andaluz


Imagem de Grupo Navega em Nautical News Today

fin de tarde andaluz

yo soñé
con el sol a morir
    [rojo
en el guadalquivir

hecho un miura
despacio a hundir
en un poema
de sangre y dolor

la gente a la margen
lanzava suspiros
    [en el agua
como si fueran rosas a la arena
como si fuera día de feria

la torre del oro a mirar
un cielo de oro a dorar
    [la invidia
de los techos de alcazar

yo soñé con el sol a salir
    [de tapas
con la luna a sonreír
dejando colores a engalanar
el sueño que soñé soñar

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O Paraízo-Paraguay de Marcelo Labes


 



Um legado é uma semente guardada em uma caixa de madeira.
Um olhar sobre o Paraízo-Paraguay de Marcelo Labes.

Paraízo-Paraguay chega como a obra de estreia da Caiaponte Edições, capitaneada pelo próprio autor do livro, Marcelo Labes. Nascida pelo financiamento coletivo on-line, sob a égide da contemporaneidade, resta ainda ver os próximos passos da editora, que promete ao menos mais duas obras. Quanto a esta inicial, a primeira do autor em forma de romance, a edição não deixa nada a desejar. Uma obra bem acabada, de composição elegante. A capa em tons quase sépia traz as ruínas da Igreja de Humaytá e assim já introduz o tom do livro. Um tom que, apesar da novidade da prosa mais extensa do autor, mantém ainda ecos dos versos de trabalhos anteriores de Labes. E o mesmo olhar sobre um vale úmido, cheio de memórias que se pegam às paredes (e pessoas) feito bolor.

Uma história de vergonhas de uma guerra da qual já não se lembra, de lembranças de um passado celebrado que não se viveu. Legados recriados para encobrir destroços que deixamos. O Paraízo-Paraguay de Marcelo Labes é repleto deles. Que se sobrepõem saturando as cenas e os personagens, até precipitarem-se feito chuva pelas encostas do vale, carcomendo a terra, criando valas, expondo vazios que, quando encarados, refletem na vala cheia de água o rosto de quem observa.

Paraízo-Paraguay nos conta a saga de uma família — a seu modo — desde a geração que chegou na Colônia de Blumenau não muito após a chegada dos primeiros colonizadores. Um olhar diverso do mito hegemônico da colonização germânica nas colônias do sul do Brasil. O mito, claro está, do puro e intrépido desbravador branco, batalhador, que dobra à sua vontade a natureza de uma terra selvagem, feito o Crusoé de Defoe. E como o próprio Crusoé, o ideário do colonizador europeu subjugando a nova terra e seus selvagens. Uma memória imaginada e reimaginada até virar História.

O romance exorciza, talvez, alguns destes demônios ao colocá-los à luz. O faz, primeiramente, nos levando junto aos praças forçosamente recrutados para ir combater pelo Brasil na Guerra do Paraguai, para saldar a cota de homens do administrador da Colônia. Alemães e brasileiros lado a lado. Alemães que negavam a brasilidade na qual estavam enfurnados. Como estavam, feito os brasileiros, enfurnados igualmente entre os mesmos morros, entre as mesmas plantas e animais, entre as mesmas valas na mesma terra. Saudosos de uma Alemanha d'além mar que ainda viam como sua. Uma saudade, parece, incurável; ainda que a língua alemã talvez não a possa traduzir à perfeição.

Paraízo-Paraguay escancara essas feridas e lembra das cicatrizes que escondemos entre as dobras de nossos morros. Lembra também os nosso vários flertes com o fascismo e alguns dos preços que pagamos e, certamente, nos esquecemos.

Resgata sobretudo a atração quase mística de um legado. Seja de um passado pintado glorioso no Velho Mundo, seja perambulando pelas docas da velha Itajahy atrás de redenção,  ou nas buscas para lá da fronteira paraguaia. Seja enterrado no nosso próprio quintal.

Para cada legado de administrador de colônia nas ruas principais, igrejas e registros oficiais, um sem-fim de outros legados serpenteia às margens do Itajaí-Açu. É quando ele transborda que todos se misturam. E Labes soube observar — e retratar — as marcas que deixam no lodo.

sábado, 6 de abril de 2019

Para sempre rio



Foto de Angelina Wittmann
Para sempre rio

De manhã cedinho o sol não chegava a tocar o chão da floresta, que dormia sob seu dossel de copas orvalhadas. O velho pisava macio, pés descalços, para não acordar a mata. Já desperto há algumas horas, sorria vendo o dia clarear. De um lado a montanha esticava o pescoço a quase mil metros para espiar o nascente, do outro o assobiar do rio num chamado que acostumara ouvir desde muito.

Fora há mais de meio século que o rio vira o velho pela primeira vez. Ainda um rapazote imberbe, sem rugas, trejeitos ou  as histórias que agora tanto cativavam as águas. Mas fora o suficiente para o rio se enamorar.

Cada vez que as pernas magras lhe penetravam o leito, o rio se contorcia em júbilo, lambendo-lhe as panturilhas, envolvendo-lhe em seus recantos. Mas logo o visitante ouvia o chamado da mata, de algum vizinho ou do fogão de chapa a crepitar em algum lugar. E o rio saudoso ficava ali, só lágrimas a correr por aqueles vales do sul.

Veio o tempo e com o seu condão transformou o menino em velho, arbusto em árvore, semente em planta. Só o rio continuava rio. Melancólico, saudoso e fluido, sempre a assobiar quando via o velho passar. Ao velho cresceu uma barba longa e prateada, que lhe cascateava queixo abaixo feito corrente brilhante à luz do sol. O rio se enamorou ainda mais.

Uma noite, saudoso, o rio não suportou e se ergueu do leito para procurar o velho. Chegou ao terreno, espiou a casa, mas não teve coragem de entrar. Chamou e esperou, mas o velho dormia, as barbas sobre o peito entre as paredes de madeira.

A gente da cidade não gostou do que viu:

— Rio assanhado, onde já se viu!?

Trouxeram uma máquina acordando a mata e construíram um muro para dar ao rio uma lição.

— É assim que se põe um rio nos prumos — disse o prefeitinho orgulhos.

O velho, de longe, trocando olhares com as águas, que espiavam lá do canto do seu cercado, feito criança que aprontou.

Mas a saudade, quando vem em ondas, não tem mar que aplaque, não há rio que aguente. Um dia, pouco antes do velho levantar, o rio se pôs a chamar. Foi tal a comoção que até o morro desceu para ver o que ocorria. E viu um rio que já não se continha. Sem resposta, o rio achou por bem bater à porta. Mas a emoção, em vagas, se transborda. E o rio pulou o muro e correu como nunca correra. Sem ligar para o que havia em frente veio tropeçando e saltando e arrastando o que via no caminho. A vizinhança assustada correu em debandada. O vizinho, o cachorro, o velho e quem mais podia. O rio alvorotado bateu à porta com tanta força que lhe arrancou dos batentes. Espiou à janela e a despedaçou. Procurou em cada canto e não encontrou o que tanto procurava. Nem velho nem paz para um coração turbilhante. Levou ainda, como lembrança, algumas coisas para embalar a saudade, enquanto na noite chorava a falta do velho que não encontrara.

Mas o que quer que carregasse, nada supria uma paixão de infância que ainda urgia. Logo o rio se cansou e devolveu às margens tudo o que pegou. Passou as noites a correr pelo vale em busca do velho. Pensando nas barbas caudalosas como um leito para se aninhar.

O tempo passou, o rio chorou, mas não cessou de chamar. Até  que um dia, de repente, sentiu o peito borbulhar.

— É o velho! É o velho quem vem lá!

O rio se ergueu e se pôs a chamar. Encontrou o velho na antiga ponte onde volta e meia o via passear. O rio, arrebatado, mal podia se conter. O velho lhe sorriu e sentou-se para conversar, as pernas pendendo da ponta, a cascata de barbas pendendo do queixo, a cara estampada com aquela vida encravada naquela senda do sul da cidade, entre morros, matas e o rio. O rio se animou caudaloso, as emoções lhe transbordando as margens.

Quem mais tarde cruzou pela ponte se assustou com um corpo de bruços embalado pelas marolas que ululavam numa canção de ninar. Apressado, o visitante saltou à água e, com a corrente pela cintura, tentou desvirar o velho. À primeira tentativa, o peso impediu a manobra, era como se algo agarrasse-se ao peito do homem tombado. Uma nova investida e o recém-chegado conseguiu desvirar o velho, caindo ele, por sua vez, sentado na água. Foi quando viu, saltando do rio, como se saído do peito do homem, uma carpa avermelhada, tão rara por aquelas bandas. Quando caiu novamente na água, o tremular da corrente lhe dava um aspecto pulsante e, mesmo ao lusco-fusco do fim do dia, era como se a sua cor emanasse uma luminosidade brilhante enquanto o peixe nadava contra a corrente, rio acima, pulsando em vermelho. Tudo ocorreu rápido e, tão logo quanto pôde, o homem já estava com o velho nos braços, agora tão leve, quase como se estivesse vazio. Lá longe, rio acima, ainda podia ver um ponto vermelho pulsando no escuro, enquanto ao seu lado centenas de pontos brancos se revelavam de ambas as margens, com flores alvas se abrindo, uma a uma, por toda a extensão do rio, exalando um aroma que cobriu todo o leito, se derramou pelas encostas e se adensou pelo vale em uma elegia perfumada.

Meses depois, ninguém soube ao certo ainda o que aconteceu. Mais tarde, se contou, foi que o rio nunca mais se ergueu e, nos seus trechos mais caudalosos, dizem, um novo arrulhar se pode ouvir, como uma segunda voz a sussurrar na língua das águas ao fim do dia. Quando isso acontece, juram, as flores brancas se abrem novamente e lançam em coro seu perfume sobre as águas, lembrando o vale que bem à tardinha ainda brilha, em algum lugar, um vermelho vivo e pulsante naquele rio.

Para o Willy, que passou por tudo, sempre rio.
Março de 2019.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Morpho


Morpho

Image by

Colours flapping in the sun, it came.
Lightly, as just brought by the wind,
as an idyllic and improbable idea.

It alighted right where the tree bark split
and opened its wings in blossom.

The wind stood still in awe
while bright and beauty tainted life in blue.

Bittersweetly, the creek whispered:
such hues live briefly,
not enough to paint a second december.

And yet, fair creek,
it did.

With beauty and poems,
with tomorrows
bathed in the reminiscences of bright blue wings
in a summer afternoon.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A Visita

A visita

Image: PxHere


Ele chegou no final do verão, vindo pela janela que deixei aberta para refrescar a tarde abafada. Quando dei por mim já estava ali, instalado sobre a minha mesa com os pelos brancos e os olhos amarelados de pupilas fendidas a me afrontar. O meu primeiro impulso foi enxotá-lo como quem afugenta uma praga. Mas ele me tratou com tanta indiferença e uma régia elegância, como se aquele fosse o seu sítio mais habitual e eu o intruso, que acabei não me dando ao esforço de espantá-lo. Apenas deixei a janela aberta para que ele pudesse sair quando se cansasse de ficar ali. Não era grande, é bem verdade, mas não deixava de ser um estorvo sobre a mesa. Ainda assim, evocava uma atmosfera quase mística, de um respeito devido. Ainda que eu não soubesse que respeito eu pudesse dever àquela coisa branca e esguia. Enrolei certo tempo pelo escritório, arrumando sem atenção alguns papéis de pouca importância. Organizei alguns volumes na estante de livros, que estavam fora de ordem. Volta e meia tornava a olhar a criatura sobre a minha mesa, pálida e me encarando com o olhar amalerado feito livro antigo. Resolvi ir à cozinha e pegar algo para beber, como quem evita encarar uma tarefa enfadonha, e deixei-o sobre a mesa, esperando que a janela aberta lhe convidasse a sair ao fim da tarde. Acabei me entretendo com algum programa na televisão e me esqueci de retornar ao escritório naquele dia.

Na manhã seguinte, ao cruzar pela porta do aposento, percebi que ainda estava ali. Estava justamente se espreguiçando, com as patas dianteiras estendidas e o dorso recurvado, como se acabasse de acordar. Olhando assim, até parecia combinar com o lugar. Claro, não mudava o fato de que tê-lo ali sobre a minha mesa era um incômodo, mas aos poucos me parecia que poderia ser um incômodo suportável. Aproximei-me, notei as orelhas apontarem para trás, na minha direção. Mas ele não se deu ao trabalho de virar a cabeça. Sentei-me na cadeira e só então ele voltou-se para mim. Ficamos alguns momentos nos encarando, como se fosse uma derrota abandonar aquele posto. Um à frente do outro. Ele inteiramente branco, alvo, pálido. Imóvel exceto pela cauda, que balançava intermitente para lá e para cá. Um pêndulo contando os segundos que duravam aquele embate silencioso. Desisti de ficar ali parado esperando que isso fosse contribuir para que ele simplesmente desaparecesse da minha mesa. Tentei espantá-lo novamente, mas ele não saía do lugar. Ou, quando eu conseguia movê-lo por uns momentos da minha mesa e da minha vista, não tardava, ele aparecia de volta ali. Eu o enxotava, ia preparar algo para comer e, quando voltava, lá estava ele. Retirava-o com cuidado e colocava-o no chão, esperando que isso ajudaria. Mas não passavam muitos minutos até que eu, bastando dar as costas, o encontrasse novamente sobre a mesa, lustrando sua alvura como para deixá-la mais brilhante. Foram algumas tentativas até que eu me resignasse. Sentei na cadeira em frente à mesa e depois de encará-lo algum tempo, estabelecendo uma trégua mútua, lhe estedi a mão vagarosamente e toquei-lhe carinhosamente com a ponta do dedo a brancura macia. Um ronronar ressoou baixinho e agradável, o dedo mergulhando num mar de fibras alvas, forçando-me a admitir um reconfortante prazer. Corri as mãos acompanhando o desenho das orelhas e percorrendo o dorso delgado. Dócil não era certamente a palavra precisa para descrevê-lo, não foram poucas as marcas que me deixou nas mãos e os arranhões que ganhei nos dias em que convivemos, mas apesar disso, era uma convivência da qual, só percebi depois, sentiria falta. Talvez já sentisse, mesmo antes de ele aparecer pálida e sorrateiramente sobre a minha mesa de trabalho. Ao fim do primeiro dia daquele contato é que notei, sob o pescoço que vibrava com o ronronar de uma tempestade em miniatura, uma pequena nódoa negra. Uma ilha de sombras naquele mar de outra forma imaculado. Podia jurar, pela primeira vez que o vi, que era completamente branco. Mas certo como aqueles olhos amarelos eram insistentes, ali estava, escura como uma noite sem lua mas cheia de possibilidades, uma diminuta, solitária e negra mancha brilhante.

Passaram-se alguns dias e a nossa relação avançou a passos lentos mas constantes. Meu pequeno e incômodo inquilino crescia devagar mas visivelmente. Seus modos não mudaram muito, no entanto. À medida que crescia, os arranhões se tornavam mais dolorosos, mas também menos frequentes. Começávamos a nos entender. O negror que no início parecia tão isolado, claramente crescia com ele. Já não era uma pequena mancha sob o pescoço, mas uma marca que se espalhava pelo peito, contrastando com toda aquela alvura. Já não se podia dizer que era totalmente branco. Por algum motivo, assim eu me afeiçoava ainda mais a ele. Passamos a conviver mais tempo diariamente, ainda que eu não pudesse dedicar a maior parte das minhas horas à criatura. Mas aos poucos ele foi se esgueirando a outras áreas da minha rotina. Às vezes, enquanto preparava meu café, podia sentir-lhe roçar minhas pernas com o dorso arqueado. Quando estava no sofá, aninhava-se ao meu colo, sem sequer atrapalhar, apenas me lembrando de que estava ali. Como esperando um momento para voltar a brincar, ou talvez estivesse apenas aproveitando para descansar a pelagem alvinegra na certeza de que eu já não o iria enxotar. O curioso, mais do que essa convivência, por vezes dócil por vezes repleta de arranhões, era que a cor da pelagem definitivamente mudava a olhos vistos. Cada dia que interagia com ele podia constatar o avançar das áreas negras, como se estivessem devorando ou cobrindo as brancas. Logo era um animal malhado e não demorou para que o negror tomasse conta de toda a criatura. Na minha mesa, lustrando os pelos até que brilhassem feito ônix, o par de olhos amarelos reluzia em contraste. Ardentes e vivos; acima de tudo, vivos.

Já tinha me acostumado com a sua presença, até que um dia entrei pela porta e vi a figura negra no batente da janela, a cauda de ébano balançando em seu movimento pendular. Ele olhava o sol do fim da tarde quente, quase um ano depois de ter entrado pelo mesmo caminho. Com o corpo escuro silhuetado em contraluz, olhou para trás, os olhos como um par de sóis a mais, e saltou para fora. A mesa do escritório parecia enorme com o vão deixado por aquela ausência, apenas uma caneta abandonada de entranhas vazias tentava cobrir o espaço. O sol se abaixava em silêncio. Fui até a janela e espiei para fora. A vegetação do vizinho e os postes da rua não permitiam que eu o visse, mas a sombra de uma pessoa passando a mão em um animal ia se alongando no cimento da calçada enquanto o sol mergulhava nas montanhas do horizonte. Com uma estranha satisfação mas a sensação de que ele não retornaria, voltei-me para dentro outra vez e deixei o escritório que resplandecia com os últimos momentos de uma luz dourada. Logo chegaria a noite, como ela sempre chegava, e encontraria novamente uma janela aberta e uma mesa vazia, esperando, quem sabe, um novo visitante.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Ilustra Balanço

Com o mundo meio de perna pro ar, mais uma ilustra.


Errei rude na perspectiva do balanço, mas tá valendo.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sketch

Na falta de um novo texto, uma ilustra.