sexta-feira, 7 de outubro de 2016
Antes dos girassóis
Antes dos girassóis
Vincent viu o meu ipê
e sorriu amarelo
Pra esse cogumelo
(nuclear)
que precipita cor de ouro
feito chuva (ácida)
Que tinge a grama verde e cobre
de cor viva
de flor morta
todo o raio da explosão.
O clarão de ouro
passa a bronze.
Enferruja, o chão.
De-com-põe-se.
Ipê, ainda de pé.
Esqueleto armado.
Relicário da explosão
de amarelo
que já foi.
Vincent viu o meu ipê
e tirou o chapéu,
desnudando a orelha
lacerada
em sinal de respeito.
"O amarelo é triste", disse.
E ensinou ao mundo o que aprendeu com meu ipê.
Cada flor que caía era lágrima amarela,
feito tinta esparramada
tristeza sobre tela.
Toda a tristeza do mundo cabe numa cor.
Toda a tristeza do mundo cabe numa flor
que ainda há
de fazer nascer
uma nova árvore
de fazer doer.
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segunda-feira, 12 de setembro de 2016
By the road I walk
By the road I walk
![]() |
| Image by Wallpaperscraft |
there's a path nearby
the road I walk.
of the creek I hear the sound
but 'have no sight.
it's a call that crawls
beneath the woods.
lurking wild, beastly
preying upon
the road I walk.
there's a path nearby,
beside that creek.
I see no sight
I feel it deep.
beyond the trees it rests
uneasy.
Oh, creek beyond the trees!
Oh, path beneath the leaves!
I keep walking the road I walk.
but I'll always know
there's a path nearby
with no footsteps but fallen leaves
by branches guided
by roots sustained
by a stream followed; just
by the road I walk.
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sexta-feira, 20 de maio de 2016
Pela flor caiçá
Pela flor caiçá
Deste rio
tão caudaloso
só quero a margem.
Só a margem
não corre.
E sem corrente
(de repente?)
se é livre.
Mas o rio ruge
tão perto!
[tão alto]
Voraz
Engole tudo:
troncopauepedra
Engole a capivara que pasta de cabeça baixa, perto demais.
Engoliu o barco que ali ficava.
Engoliu a ponte que nunca existiu.
E os patos de borracha,
que boiam sobre a torrente,
(ainda não o sabem)
há também de engolir.
Tão caudaloso esse rio,
tão barulhento
e barrento
corre,
sem perceber que não tem por destino outro
que dar de frente
com outra corrente
e, engolido, sumir no mar.
O rio correu
roeu
levou morro e rocha e a capivara que nele entrou.
Mas a margem,
ainda que roída,
moída
doída
e arranhada,
permanece.
E quando a água baixar
ali vai brotar
uma flor caiçá.
Escrito certamente influenciado por esse texto do @saobrabo.
Foto do 7Themes, aqui.
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domingo, 15 de maio de 2016
A última folha
Sempre resta uma última folha que insiste em se agarrar ao galho, ainda que o outono há muito já se tenha ido e que o inverno se adense. Resta sempre uma folha a balançar no ocaso.
Ilustra em Photoshop
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Rodrigo Oliveira
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Le Matin Gris
Le Matin Gris
Comment la pluie
qui tombe
je suis l'imminence
de la tristesse.
Je suis le visage
de le matin gris.
* Foto de Cleò Chiara (https://www.flickr.com/photos/cleochiara/3207199128)
** Se alguém pescar algum erro aí, por favor apontar, não sei o que to fazendo ;P
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sábado, 19 de setembro de 2015
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Me acorde antes de anoitecer
Me acorde antes de anoitecer.
Me desperte antes de cair a noite,
para que eu possa ver o por-do-sol
sem a sensação de não ter visto
o dia.
Que eu esteja acordado antes da lua surgir
e quando ela chegar, que lá eu veja refletido o brilho do sol.
Me acorde antes de anoitecer
para que eu possa aproveitar
o que ainda restar da manhã e as últimas luzes da tarde.
Então,
mesmo que eu pareça
confortável
e aconchegado,
me acorde.
Me acorde antes de anoitecer.
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Rodrigo Oliveira
terça-feira, 18 de agosto de 2015
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Um Minuto para o Cárcere
Um Minuto para o Cárcere
Três e trinta e dois da madrugada de três de março. O relógio na parede havia parado no momento exato em que o projétil de zero ponto trinta e oito polegadas lhe varara a face entre os ponteiros e se instalara entre as engrenagens por trás do mostrador de números romanos. Ávila olhava o instrumento iluminado pela única nesga de luar que driblava as cortinas pesadas. O facho pálido de luz envolvia os ponteiros com uma aura quase mágica. Três e trinta e dois, de três de março. Três do três. Não resistiu a tornar o momento mais auspicioso. Com o dedo adiantou o ponteiro maior em um minuto. Agora sim: três do três, às três e trinta e três. Satisfeito, guardou no bolso interno da jaqueta o revólver e saiu sem deixar vestígios e, como únicas testemunhas, o relógio varado na parede e o cadáver atrás de si que também guardava, no peito, outro projétil calibre trinta e oito.
Duas semanas depois, o relógio marcava no mostrador digital ao lado da cama um horário sem graça: vinte e duas e cinquenta e sete. Ávila, sonolento, não chegou a lhe dar atenção. Foi o som da porta do quarto arrombada que o despertou a tempo de ver a luz de uma lanterna tática apontada para o rosto a ofuscar-lhe a visão. Quando os olhos se acostumaram ao novo ambiente e o sono lhe abandonara por completo pode divisar os canos das armas apontadas para si, as balacravas negras e os conhecidos coletes balísticos onde lia “polícia civil” em letras brancas.
Agora, na cadeira de réu, ouvia o promotor público recriar o serviço executado em uma versão aproximada. Achou irônico o fato de ter sido condenado a tanto tempo por causa de um minuto. De um auspicioso minuto que deixara sua digital entre os ponteiros de um relógio de parede transpassado por um projétil, às três e trinta e dois da madrugada de três de março.
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Rodrigo Oliveira
segunda-feira, 22 de junho de 2015
sábado, 13 de junho de 2015
Draw4Atena
Atena Farghadani foi sentenciada a mais de 12 anos em uma prisão iraniana por desenhar parlamentares do país com cabeças de animais. Ela tem menos de duas semanas para a apelação. O quadrinista do Washington Post começou uma campanha para chamar a atenção ao problema por meio de charges, ilustrações e quadrinhos, em que vários artistas aderiram. Pega o lápis aí tb e #Draw4Atena.
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quinta-feira, 11 de junho de 2015
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Luna
Luna
À hora mais tardia, quando a luz amarelenta dos postes já não se derrama sobre nada exceto o asfalto molhado, um cão hirsuto vem beber a água que se acumula nos buracos deixados expostos pela administração municipal. Metros acima, da sacada insone dum apartamento suspenso entre ressonares vizinhos, alguém conta os pingos que mergulham na tigela de asfalto lá embaixo, enquanto apaga uma lembrança entre a ponta do cigarro e a pedra do parapeito da sacada.
Caso o cão elevasse o olhar, não veria mais que um último e diminuto ponto vermelho ser engolido pela escuridão contra o céu sem estrelas. Mas vista da sacada, a noite nunca é de fato capaz de envolver por completo a cidade, que insiste com seu amarelo-triste em manter-se acordada à rebite, à trago, à pó. À beijo não dado, à palavra não dita.
Quantas sacadas se penduram na noite? Quantos cães de cabelos nodosos vagam de poça em poça sob a chuva à procura de água?
Quantas noites são necessárias para engolir uma cidade? Quantas noites são necessárias para engolir o que se entala na garganta e sufoca mais que a fumaça tragada de um toco de cigarro?
O cão se vai. Um piparote atira longe o cigarro consumido até o filtro. De algum lugar a cidade uiva de saudade da lua, sem lembrar que os próprios luminosos é que afugentaram os astros.
A noite, esquece-se, não se pode comprar.
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Rodrigo Oliveira
quarta-feira, 4 de março de 2015
Pardon moi
Pardon moi
ma belle
je ne veux pas
une nouvelle
passion
je veux seulement
boire
boire
et boire
je ne veux pas
la lune
je ne veux pas
l'ètoile
plus loin
je ne veux que
ma chère
boire
boire
et boire
Rien que
boire
boire
et boire
Toujours
boire
boire
et boire
Pardon moi
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Reflexos do Mekong
Ela tinha nos olhos a tristeza da Indochina. A cor do Mekong refletindo o céu de um dia estivo. Olhos pluviais que em noites abafadas traziam sonhos de monções. Naquelas noites, meu leito se confundia com o leito do Mekong.
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