quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O Príncipe dos Suicidas

O protagonista morre no final. Agora que já sabe o final, não perca tempo, o leitor, em demorar-se na leitura destas páginas.

Quanta bobagem! Se tempo é o que mais tem o leitor! Pois, decerto, se está lendo isso, é porque tempo não lhe falta. Tempo é tudo que tem. Enquanto espera, pois, deixe que esta história lhe faça companhia. E já me corrigindo, o protagonista desta história não morre no final. O protagonista desta história morre no começo. O protagonista desta história já morreu.

Quando cheguei, o sol brilhava fresco. Como o sol que surge depois de umas horas de chuva num fim de tarde de meia estação. O capim baixo emanava também um cheiro fresco, e brilhava como se borrifado por gotas de água pequenas demais para serem vistas. Uma brisa leve passava assobiando baixinho por entre as folhas altas das árvores, não muito atrás de mim. E um rio brilhante e calmo atravessava o prado que se estendia a minha frente. Encaminhei-me em direção ao rio até vislumbrar as figuras aguardando à sua margem. Um trapiche de juncos pequeno se projetava da margem às águas, que corriam com um gorgulhar confortante.

Na margem, umas poucas pessoas aguardavam de pé junto ao trapiche. Como não divisava nada além da mata atrás de mim e das pessoas na beira do rio, achei por bem aproximar-me. Um homem baixo, de cerca de um metro e meio, já meio curvado, conferia com uma prancheta um punhado de papéis. Tinha vestes simples mas muito bem cuidadas. Uma calça de jeans cáqui, uma camisa de flanela da mesma cor e um colete de cor crua, de couro ou lona. Uma boina cobria os cabelos meio desgrenhados. Atrás dele, um grupo de pessoas aguardava junto ao trapiche. E ao lado delas, de costas pra mim e admirando a outra margem, uma jovem de corpo magro, com os ombros bronzeados um tanto pontiagudos à mostra, vestia um vestido xadrez simples mas bonito, com uma barra branca bordada. Os cabelos castanhos, meio ondulados, amarrados por uma fita vermelha. A profissão campesina era denunciada por uma grande foice de campo na qual se apoiava e pelo cesto de vime à tira colo.

O homenzinho me olhou de baixo para cima quando me aproximei e umedecendo os lábios murchos com a língua, começou a folhear os papéis na prancheta, retornando o olhar para mim vez por outra.

— Bom dia... — comecei. Mas ele logo me interrompeu com um balançar negativo de cabeça.
— Não, não, não. Você não está aqui.
— Como?
— Não está, não está! — Repetia o homenzinho, como que contrariado.

E me deu as costas indo falar com a camponesa da foice. Só quando ela se abaixou para falar com o homem que percebi a sua altura. Era alta, talvez até um pouco mais alta que eu. Ela ouviu o que ele tinha a dizer, levantou-se, me pareceu que ficou uns segundos a pensar, olhando para o nada que seguia o curso do rio. Quando ela virou-se para mim, os olhos levemente puxados e pequenos, muito claros, de íris quase branca, contrastaram com o tom bronzeado do rosto. Os lábios finos não disseram nada. Mas o olhar me petrificou. Pude sentir os músculos do corpo retesando, a boca seca, o coração pulsante. Ela virou o rosto para novamente olhar o pequenino e, sem responder, balançou a cabeça em negação. O pequeno homem soltou um suspiro profundo, contrariado entregou a prancheta à camponesa, e veio até mim. Ela me lançou um último e olhar e depois se deixou perder na visão das árvores da mata, que corria atrás de mim e seguia o rio ainda nesta margem.

— Não, não, não. Você não está na lista. Desculpe-me. Não está na lista. — disse o homenzinho falando rápido.

Caminhando devagar, me tomou pelo braço e me guiou o caminho.

— Vamos, vamos. Você não pode passar. Ainda não está na lista. Vamos, vou mostrar-lhe o caminho.

— Onde estamos? — Perguntei curioso.

— Estamos no rio. — Me respondeu o meu novo guia.

— E o que tem além dele? — Insisti.

— O outro lado.

Antes de perder de vista as figuras que aguardavam, pude ver uma pequena balsa se aproximando do trapiche. Um homem sem camisa manobrava a embarcação com uma longa vara, até encostar contra a construção de juncos. As pessoas que aguardavam subiram na balsa que se afastou da margem, deixando lá apenas a camponesa com a foice. Àquela distância eu não podia divisar qualquer expressão no seu rosto, mas podia ver que ela mantinha os olhos na balsa.

O homem me guiou por um caminho de terra adentrando nas árvores. As copas altas balançavam com o vento e o cheiro agradável de mato fresco continuava. Mas o sol já não conseguia atingir o solo. Caminhamos por um bom tempo, até não ser mais possível ouvir o rio. E continuamos andando em silêncio. O homenzinho, claramente contrariado, volta e meia balançava a cabeça de um lado para o outro. O sol já não se via mais entre as árvores e um nevoeiro bem leve já se fazia presente. Caminhamos até chegar a uma casa de toras no meio da mata. O homenzinho foi até a porta e bateu duas vezes. Sem palavra, deu as costas e foi retornando pelo caminho, passando por mim. Virei-me para chamá-lo quando ouvi atrás de mim a porta se abrindo.

Um velho entroncado, metido numa jardineira parda e com uma camisa vermelha de mangas arregaçadas, me olhava apoiado no vão da porta. Tornei a olhar para o homenzinho só para vê-lo desaparecendo devagar na neblina fraca. Tornei a encarar o velho e percebi que ele mascava algo que, pelo cheiro, parecia fumo. Ele ficou me olhando por um tempo, com aquele maxilar de barba mal feita dançando pendurado, como que ruminando mais do que o fumo. Ruminando algo na cabeça. Limpou as mãos na jardineira, deu uma pigarreada e voltou-se para dentro da casa, lançando a voz rouca por sobre o ombro: “Feche a porta ao entrar”. Hesitei por uns segundos mas, dadas as circunstâncias, decidi obedecer. A casa tinha as paredes de toras e o teto alto, de madeira. Tinha várias cadeiras, almofadas e sofás espalhados, cobertos de forma rústica. Havia um fogão de pedra no centro e um duto acima dele, que se perdia no teto. Ao lado da porta pela qual entrei, uma grande enxada de cabo longo estava encostada à parede. Ao lado dela, uma pedra de amolar. Não vou me deter por demais na descrição do lugar, visto que o leitor obviamente não carece de tais detalhes. Detenhamos por tanto na conversa que tive com o meu interlocutor, da qual o leitor, talvez, não saiba.

O velho me serviu uma caneca de metal com uma infusão qualquer. Estava quente como os diabos e tive que apoiá-la na mesa enquanto me sentava. O velho sentou-se numa poltrona um pouco distante de mim.

— Não está do seu agrado? — Perguntou ao me ver depositar a caneca na mesa.
— Não é isso — respondi — está quente demais para segurar.
— Espere esfriar — ele retrucou, sorvendo o líquido fumegante da própria caneca.
— Pelo visto vai demorar um pouco. — Tentei dar um tom de brincadeira na voz, para aliviar o clima. Ao que ele respondeu só levantando os olhos para mim.
— Não tem problema. Há tempo de sobra.

Depois de uns minutos de silêncio, enquanto eu tentava tomar o chá e identificar o sentido daquele olhar, ele quebrou o silêncio novamente.

— Então ela não te deixou passar, não foi?
— Como?
— Para o outro lado. Ela não deixou que você cruzasse o rio.
— A camponesa?

Ele deu uma risada contida, mas aparentemente sincera, e rebateu.

— Sim, sim. A camponesa. A mulher da foice. Ela.
— Ela?
— Sim, ela. Você sabe. Diga. Vai fazer bem pra você.

Eu não havia reparado na corda pendurada de uma das vigas do teto. Aparentemente, nem meu anfitrião, que seguiu meu olhar com interesse.

— Ah, sim... Limpo. Você deve ser organizado. Já é um clássico, nunca sai de moda.
— ???
— Vamos, você pode se lembrar, você já sabe. O choque não é grande. Nunca é. Porque a escolha já foi tomada. Só falta a constatação.

Uma sensação estranha me inquietava naquela voz rouca. Um certo aperto no peito, como se o coração estivesse na garganta. Senti os meus pés balançarem na cadeira, dançando no ar. Uma cadeira. Sim, uma cadeira. E a corda. E uma viga e... sim.

Sim...

Quando retornei meu olhar para o velho, ele já estava quase sobre mim, bem próximo à mesa. Olhando-me de cima com olhos baços. Estranhamente não me senti chocado. Era como se eu já soubesse. Eu já sabia. Ele já sabia.

Olhou para a minha xícara que atirava redemoinhos de vapor ao ar e me disse de novo: “Há tempo de sobra”. Tornou a me olhar e falou.

— Ela não lhe deixou cruzar o rio.
— A mulher da foice. — Respondi. Ao que ele apenas repetiu, devagar, para que eu sentisse as palavras: “A mulher da foice”.

— Porque ela não me deixou cruzar?
— Há tempo de plantar e há tempo de colher. Ainda não é chegado o tempo de colher. Não para você. E a Dama da Colheita nunca ceifa antes do tempo. É preciso que o grão esteja maduro.
— Se não chegou o tempo da colheita, porque eu estou aqui?
— Às vezes o grão despenca antes do tempo e não pode ser colhido pela foice. Aí vem a mim.

Caminhando em direção à porta, ele continuou:

— Quando ele cai à terra, a foice da Dama não pode mais alcançá-lo. Mas eu posso.

Ele disse, acariciando o metal afiado da enxada com certo orgulho.

— Quem é você? — Perguntei receoso.

— Eu sou aquele que cata os grãos que se precipitaram antes do prazo. Eu sou aquele que os guarda até a hora da colheita. Eu sou aquele que acolhe os grãos do Acaso, aqueles que burlam o Desígnio, aqueles que tomam a decisão que não lhes cabe. Eu sou agora o seu tutor, o seu Senhor, seu guardião. Eu sou o Príncipe dos Suicidas.

Mesmo, no fundo, sabendo o que acontecera, o que eu havia feito, a calma que até então me tomava ameaçou me abandonar frente a emoção e orgulho daquele velho, com o braço peludo agarrado à enxada, que mesmo metido naquelas roupas comuns exalava um ar respeitoso. Logo a fraqueza se transformou em vergonha frente àquela palavra. “Suicida”. Não pude evitar baixar os olhos. O passado e o que eu havia deixado para trás já estava por demais nebuloso para que eu tivesse qualquer lembrança clara, mas aquela palavra me soava, de algum modo, obscena.

— Agora você baixa os olhos? — Ele perguntou para logo continuar:

—A vergonha não está no que fez, mas, talvez, no porque o fez. E aqui, nem isso importa mais. Ficou para trás. Além do que, por essa mesma casa já passaram muitos. Alguns grandes, outros ordinários. E muitos ainda virão.

— E agora o que eu faço?

— Agora você espera. A sua hora não chegou. E você só pode completar a travessia quando ela chegar. Mas agora, ao invés de aguardar onde você estava, você vai aguardar nesta casa.

— Mas eu vou completar a travessia?

— Sim, quando chegar a hora, a foice sempre faz a colheita.

— Então tem esperança? Então eu ainda posso ir pro céu?

— Céu!? Ah ah ah! Tudo o que sei é que ela vai permitir que você atravesse o rio. E além dele, está o outro lado.

— Então Deus aceita os suicidas?

— Todos os grãos acabam sendo colhidos. De um jeito ou de outro. Além do que, Deus, se é assim que você quer chamar, já aceitou tantos outros.

— E os padres sempre falavam na Bíblia, no atentado contra a própria vida, na palavra do Cristo...

—Sim, sim, eu me lembro dele. Passou algum tempo aqui.

— Aqui?

— Porque a surpresa? Para quem ouvia tanto os padres, você parece não ter prestado muito atenção na história.

— Mas Cristo não se suicidou, ele foi assassinado!

— Aquele que aguarda o trem sobre os trilhos não é então suicida? Devemos culpar o maquinista de homicídio se o atropelado sabia da chegada da locomotiva e aguardou que ela lhe beijasse o rosto? Foi a minha enxada que colheu a vida que a foice não pôde ceifar. Foi aqui que o grão prematuro amadureceu até a travessia.

— Ele atravessou o rio?

— Como você o fará, quando for chegada a hora.

— E eu devo esperar muito?

— Não se preocupe com o tempo. Tempo agora é tudo que lhe resta. E há tempo de sobra.

Sim, leitor! Há tempo de sobra. E se está lendo isso, é porque tempo não lhe falta. Tempo é tudo que tem. Porque esta história termina aqui. E o protagonista não morre no final. O protagonista desta história suicidou-se. O protagonista desta história já morreu.

Mas o protagonista desta história, leitor, não sou eu.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Retratado

Sebastian deslizava entre as sombras dos oito graus de temperatura da noite parisiense. O vento gelado trazia o burburinho de uma Paris borbulhante como espumantes em taças de cristal, que logo mais brindariam o novo ano. O capote marrom grosseiro, protegia o corpo do frio enquanto as luvas sem ponta, de lã surrada, tentavam cobrir os dedos. Uma boina velha e acinzentada como a cidade cobria a cabeça e um cachecol xadrez escondia a barba de subúrbio francês. No escuro, por trás de arbustos ásperos como o olhar dos transeuntes com quem cruzava diariamente, agarrou-se à grade de ferro ornamentada com folhas e ramos de metal retorcido. Escalou sem dificuldade e lançou-se ao jardim bem cuidado. Encoberto pelas plantas, alcançou a janela aberta. Num salto, deixou para trás o frio e moribundo dezembro.

Lá dentro, um chama esquálida equilibrava-se no alto de um candelabro de prata ao lado da janela, iluminando o quarto feminino que abrigava a vanguarda da decoração do século XIX. O casaco de peles sobre uma cadeira, a tapeçaria rebuscada, os babados das cortinas, a grande penteadeira com o espelho emoldurado. Sebastian, destoando daquele quadro, não se preocupava em ser discreto. Àquelas horas, o quarto permaneceria vazio enquanto os salões de baile estariam lotados de damas e cavalheiros, música e risada, todos aguardando o último suspiro do ano moribundo, o último descendente do século XIX. Sobre a cama de cabeceira entalhada, a colcha delicada acolhia algumas almofadas. Sob uma delas, uma ponta de couro marrom espiava o intruso. Sebastian removeu a almofada revelando um pequeno volume de couro com as iniciais V.W. grafadas na capa. Uma rosa seca marcava uma das páginas. Com uma delicadeza que contrastava com os dedos rudes, o invasor removeu a rosa pousando-a com cuidado sobre uma das almofadas e abriu o pequeno caderno. No alto da página, a data revelava o dia anterior com um “30 de dezembro de 1900” na grafia delicada de mulher. Abaixo, a primeira frase destoava da delicadeza da grafia: “Não foi a doença que matou meu pai. Foi Paris”. A frase capturou o suburbano mais do que a prataria do quarto. Aproximou-se com o diário da vela e quedou-se curioso à leitura.

“Não foi a doença que matou meu pai. Foi Paris. Não foi de mazela no corpo que padeceu meu pai. Foi de uma ferida na alma, mal cicatrizada e cutucada. Ele que deu tanto a vocês. Que trouxe para cá aqueles olhos envolventes, a língua astuta. Ele que lhes mostrou a beleza, que lhes desvendou um novo mundo. E é assim que Paris retribui. Mas quem sou eu, não é? Agora não passo de uma mulher sem importância para vocês. Ah! Mas vocês já aplaudiram Uma mulher sem importância, não é? Cyril estava certo. Paris não o merecia. Nenhum de vocês. Chegará o dia em que vocês irão atrás dele. Mas quando o encontrarem, em alguma praça, vão receber de volta o mesmo olhar pétreo que dedicaram a ele nestes últimos anos. Mas dessa vez é ele quem os olhará de cima. Ah, Paris! Aproveite amanhã que amanhã é o último dia. O último suspiro de um século que já terminou há um mês. Pois foi há trinta dias que morreu o século XIX. E vocês, que amanhã estarão uivando em vestidos de baile pelo século que se vai, vão todos com ele. Todos vocês se vão. E você também se vai, Paris. E não há retrato que lhe impeça o envelhecer. E quando o século se for, meu pai vai lembrar de vocês e vai cantar feito rouxinol. Ele cantará enquanto todos vocês se forem. Vocês e o maldito Queensbery. Todos vocês que lhe roubaram a dignidade, a saúde, o próprio nome! Vocês que o enfurnaram num casebre. Numa cela! Ah, Paris. As suas vaidades de vapor e fumaça escondem as suas manipulações. O retrato não é de um homem. O retrato é seu, Paris. E estás presa a ele como a um cárcere. Um cárcere muito mais duradouro que Reading, um cárcere sem balada, sem canção. Ah, Paris. Meu pai disse que não existe livro moral ou amoral. Agora que ele se foi, eu percebo. É pena que o mesmo não valha para uma cidade. Já morreu o século XIX. E o seu retrato, Paris, foi rasgado.”

Sebastian recolocou a rosa com cuidado na página marcada. Escondeu novamente o caderno sob a almofada e dirigiu-se novamente à janela. Sentiu no rosto o vento frio soprar as últimas horas do século XIX, fazendo a chama quase despencar do candelabro de prata. Olhou a cidade além das grades. Os casacos de pele, os coches, a fumaça das piteiras. Ao longe o vapor de uma nova invenção que ele mal entendia soava barulhento. Olhou de longe a almofada que escondia o caderno, tornou a olhar para a cidade. Baixou os olhos e suspirou o ar frio com esforço. Soprou a chama que se agarrava ao pavio, tomou o candelabro partiu de volta à cidade.

sábado, 6 de setembro de 2008

3o Forum Brasileiro de Literatura de Blumenau

Em agosto agora, a Fundação Cultural de Blumenau sediou o I Encontro de Literatura e Artes e do III Fórum Brasileiro de Literatura de Blumenau. Sendo, este blog, um espaço para literatura, eu devia provavelmente traçar algum comentário a respeito. Mas o decorrer das últimas semanas não contribuiu para que eu parasse para dedicar a isto - claro, mais uma desculpa, visto que o tempo eu tive e resolvi dedicá-lo a outras causas. E como notícia passada perde a graça, não vou me deter sobre o evento aqui. Mas o leitor decepcionado talvez possa encontrar consolo lá no Falações, neste post. Enquanto este é um espaço mais voltado para a criação literária, se dedicando vez por outra à discussão da literatura. Já o Labes parece fazer essa discussão com mais propriedade. E não é jabá não, é mais preguiça de escrever mesmo :P

Bom, acho q já escrevi o suficiente para um post sem mta utilidade. Eis q me vou para curtir meu sábado chuvoso.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Agradecimento


Este post é para agradecer as meninas da Incubadora Literária por terem me agraciado com o presente aí ao lado. A arte de escrever será o primeiro livro de Schopenhauer q eu vou ler (xerox e pedaço de livro não contam). Vejamos então o q o alemão reserva no livro. Depois conto pra vcs.

Em tempo, qdo o Duelo de Escritores foi criado, ele tinha alguns objetivos. Dentre eles, mostrar q se até a gente podia escrever, qq um podia (claro q nós duelistas nao colocaríamos nessas palavras, mas é por aí). Na verdade um dos objetivos era abrir espaço, estimular a nossa produção e a de outros. Além dos nossos textos, a Incubadora Literária veio coroar um destes nossos objetivos. É um blog similar ao Duelo, com objetivos bastante parecidos. Segundo a própria Incubadora, é: "Um espaço voltado para o desenvolvimento da criação literária e para o incremento da criatividade. Adaptação da idéia original constante no blog Duelo de Escritores."
Reitero, pois, se até nós podemos, vc tb pode. Se não sabe por onde começar, talvez a figura deste post pode ser um bom caminho. Ou se vc preferir, uma página em branco tb pode ser um bom começo.

sábado, 30 de agosto de 2008

Emanuella e Leonardo

Era a segunda vez que ela entrava por aquela porta. No grande candelabro que pendia do teto, as luzes despertaram iluminando a sala. Emanuella pôde rever o lugar onde tudo começara. Os quadros na parede, o piso claro contrastando com os sofás negros estampados onde ela estivera sentada da última vez. Leonardo fechou a porta fazendo-lhe sinal para entrar. Ela sentou deixando de lado a bolsa, observando com o canto do olho ele se aproximar e parar na sua frente, de pé. Ela levantou a cabeça aparentemente meio tímida, mas com um sorriso maroto nos lábios, ajeitando o cabelo atrás da orelha. O rapaz a olhava sorridente e, tomando-a pela mão, fez com que levantasse.

— Não quer ficar na sala? Ela perguntou sorrindo nos olhos dele.

— A sala você já conhece, você não queria ver a minha biblioteca?

— Aquela que você disse que ficava na estante ao lado da cama? Falou piscando com malícia.

Ele apenas sorriu e, de mãos dadas com ela, saiu pela porta rumo ao corredor que levava ao interior da casa. Pelo corredor, cruzaram a cozinha e logo depois uma porta fechada. Vendo que o olhar de Emanuella se deteve ali, Leonardo antecipou-se:

— É o porão. Não tem nada demais. Nada que você vá gostar de ver, de qualquer forma. Só coisas sem valor e pouca luz. Ele disse, enquanto passavam por uma escada que levava ao sótão.

— Uh! Um sótão! Sou apaixonada por sótãos. Acho tão legal.

— Mesmo? — ele perguntou — Eu também! Mas agora ele tá um pouco bagunçado. Muita coisa velha. Tenho que tirar um tempo pra fazer uma boa faxina e abrir espaço pra móveis novos.

— Sei... E um dia você me mostra? Ela perguntou com os olhos brilhando.

— Só se você se comportar, Ema. Ele brincou em resposta.

Ela aproximou o rosto dele, desafiante, e perguntou: — E se eu não me comportar, Leon...

Antes que ela terminasse a frase, ele a tomou pela cintura e cingiu-lhe os lábios com um beijo ofegante, intenso. Quando os lábios se afastaram ela aproximou a boca do ouvido do rapaz e sussurrou: — Você não ia me mostrar a sua biblioteca?

Ao atravessar a porta no final do corredor, ela conheceu o quarto. Um armário simples em uma parede; no centro uma grande cama de casal, guarnecida por apenas um criado mudo e, na outra parede, ao lado da cama, uma estante de madeira branca bem acabada, destacando o colorido das capas de livros. Ela aproximou-se devagar da estante, sentindo as mãos de Leonardo tocarem-lhe o vestido sobre os quadris, e seu respirar logo atrás de si, arrepiando-lhe a nuca delicada.

Ela percorreu com o dedo, de cima a baixo, a lombada do Madame Bovary, lembrando das piadas daquele primeiro encontro e sentindo o zíper escorregar-lhe pelas costas, da nuca até a cintura, mimentizando o movimento que fazia no livro. Sentiu na orelha o hálito quente, ouvindo baixinho a respiração de Leonardo, enquanto o vestido escorria-lhe pelo corpo, pousando no chão. A pele arrepiou-se sentindo o homem às suas costas e todos aqueles tantos, na estante, a sua frente. Desvendando-lhe a nudez da lingerie que despencava do corpo indo unir-se ao vestido aos pés da estante. Ela com as mãos passando pelos livros, descobrindo-lhes as capas, enquanto ele, também com as mãos, percorria-lhe o corpo, descobrindo-lhe os segredos. Ela, que estava diante de tantas histórias, sentia-se cada vez mais envolvida pela sua. Sentiu o jeans roçar-lhe a coxa enquanto descia, e sentiu-o passar pelas panturrilhas a caminho dos tornozelos de Leonardo. Pousou as mãos da estante, em suspense, tocando com os dedos o Marquês deslumbrado por seus Crimes de Amor. Passaria ele cento e vinte dias assistindo aquele corpo arrepiado, de seios eriçados nus oferecendo-se a ele. Emanuella sentiu o rijo contato com um arrepio, inclinando os seios de menina quase a tocar o rosto de Nabokov, provocando o russo, entregando-se ao brasileiro. Leonardo lhe cingiu as ancas com as mãos enquanto ela lhe cingiu o falo com o sexo quente. Entregaram-se um ao outro, ritmados, envoltos por tantas histórias; ela sendo possuída por todas. Uma das mãos lançadas atrás, agarrada à coxa do consorte, enquanto a outra já apertava Sade com força crescente, que se deleitava sob as unhas da espanhola. No pescoço, sentia os dentes de Leonardo em contraste com os lábios macios, e o roçar de uma barba de três dias. Do alto, invejoso, Stoker empoleirava-se gótico, qual gárgula sedento. Olhando por sobre o ombro, Emanuella matou a própria sede dos lábios de Leonardo. Lábios nos lábios, línguas nas línguas, sexos nos sexos. Ela pressionada entre o brasileiro e todos aqueles na estante, num ritmo cada vez mais intenso. Os dois ofegantes, provocando todas aquelas histórias com a sua, muito vívida, mais quente, mais úmida. Com mão lançada para trás tocou o abdome do rapaz afastando-o. Apenas espaço e tempo suficientes para virar-se de frente para ele e puxá-lo de volta de encontro aos seus seios. Os corações batendo-se um contra o outro, precisos, velozes. Os sexos, separados, se reencontraram num beijo úmido, as línguas se abraçaram nas bocas quentes. E pernas espanholas envolvendo a cintura que retornava para ela. As mãos dele agarrando lhe as coxas enquanto suspendia o corpo pressionado à estante. Às nádegas ofertadas a um velho safado que se divertia com as crônicas daquele amor louco, enquanto, ao seu lado, três meninas perdidas saiam dos quadros de Moore para acrescentar mais aquela história as suas.

A estante tremia com os amantes, todos num mesmo ritmo. Cada vez mais intenso, cada vez mais acelerado, com um balançar frenético que expeliu os livros. Emanuella com braços e pernas envolvendo Leonardo sentia escorrer os livros ao chão, a estante aliviada, as capas abertas, ouvindo apenas o arfar satisfeito da realização dos amantes. Ela no colo dele, ele envolvido por ela. Ambos cercados por uma história que não caberia em nenhuma estante. Não caberia em nenhum livro. Não caberia naquela noite. Nem em mil e uma outras.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Cansei de ser pedante.

Cansei de ser pedante.
Vou ser tosco e desregrado.
Beber Bukowski e cheirar dos Anjos.
Rasgar o verbo na sarjeta literária.

Vou acordar no beco com o beijo dos cães.
Ter versos cantados pra putas de tetas caídas.
Vou vender o Kafka que me restou,
pra comprar um cigarro avulso e literatura de quinta.

O clássico ficou velho. Caduco.
Não me emociono mais com um mictório qualquer,
nem com um neólogodepalavrasgrudadas.

Com o verbo tosco que me resta,
serei pequeno e medíocre.
Vou mandar o mundo,
a arte,
à merda.

E andar fedido pelos becos até que um mendigo me deite veneno ao ouvido.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Os Irmãos van Loon (ou A Mulher de Prata)

O verão belga era agradável. O sol esquentava sem tornar-se demasiadamente quente. O clima de euforia e as cores e festejos e esperanças e sonhos transbordavam. E o mundo, que deixava as marcas tristes e monocromáticas de uma guerra, hasteava uma bandeira branca, com cinco anéis coloridos. Uma bandeira jamais vista, em nação alguma. Uma bandeira para todos. Sob ela, nove homens, um sonho, um objetivo. Dourado como o sol do verão belga. Como os cabelos da bela moça que, da arquibancada próxima, assistia as disputas mais acirradas. O olhar percorrendo os corpos de músculos suados expostos. Homem a homem. Ela conferiu cada um dos competidores, uns atrás dos outros de um lado. Uns atrás dos outros do outro. Entre eles, apenas a corda estendida, tensionada, disputada pelos dois times. Os últimos homens da delegação dos Países Baixos eram os van Loon. Envergando juntos o azul, branco e vermelho, eram a âncora que suportava a equipe, enquanto os outros se encarregavam de puxar para si a corda e, com ela, os adversários. Eles sabiam que, se quisessem se sagrar campeões, teriam de confrontar-se com as suas próprias cores, a favorita Grã-Bretanha, finalista das últimas olimpíadas. Mas eles tinham a âncora holandesa. Os irmãos van Loon. Willem e Antonius.

Mas quiseram os deuses olímpicos que o sol brilhasse nos cabelos louros daquela moça. E que seu olhar se detivesse sobre os van Loon. E entre os jogos, ela se encontrava secretamente com Willem e com Antonius, sem que um soubesse do outro. E quiseram os deuses que, inspirado pelos anéis estampados na bandeira branca, Willem lhe propusesse também um anel. Casar-se-iam, conforme os planos do van Loon mais velho, após os jogos, e ela retornaria com ele para os Países Baixos. Mas a moça, confusa e ofuscada pelo esplendor dos atletas, apaixonada por ambos, prometia-se também ao mais moço dos irmãos. Propusera-lhe Antonius que ficassem juntos após os jogos. Ele ficaria na Bélgica com ela, para muitos outros verões, deixando que a delegação retornasse sem ele à terra natal. E foi o fio louro de cabelo que acabou com a âncora holandesa. A maior esperança do cabo-de-guerra dos Países Baixos perdeu-se na disputa, não pela vulgar corda olímpica, mas pelo delicado fio sedoso dos cabelos de uma belga.

A moça não conseguia decidir-se entre apenas um dos irmãos. Eles, apaixonados e cegos pelos radiantes cabelos ensolarados, cravam-se como âncora no solo e angariavam vitórias no torneio, junto com seus companheiros. Finalmente a grande final se pintou toda de azul, vermelho e branco. De um lado, a equipe britânica, do outro, os Países Baixos. Entre eles, uma corda. E uma mulher. A moça de cabelos cor de ouro sentou-se na primeira fila para torcer por seus amantes. Sorrindo-lhes e acenando, ambos tomavam para si os gestos. Mas quiseram os olímpicos que a moça de cabelos de ouro, tornasse-se a mulher de prata. E foi, ironicamente, o anel de ouro na mão da moça, que tirou o ouro da mão dos van Loon. Com o sol batendo-lhe nas madeixas louras, ela levantou a mão e, sorrindo, fez com a cabeça um sinal afirmativo que abriu um sorriso imediato no rosto de Willem, cuja alegria lhe rendeu forças para cravar-se ainda mais profundo no solo, selando qualquer chance dos britânicos moverem-no. Com isso o time dos Países Baixos retomou a ofensiva, puxando os adversários e arrastando-os com a corda. Mas o sorriso de um van Loon, foi a desilusão do outro. Ao perceber sua derrota para o irmão mais velho, ao perceber que perdera sua amada, Antonius perdeu também as forças. Partiu-se então a âncora holandesa, e afundou o sonho dourado. A mulher de prata assustou-se ao ver os britânicos arrancarem os seus desafiantes do chão e, com corda e adversários puxados para o seu lado do campo, sagrarem-se campeões do cabo-de-guerra das Olimpíadas de 1920. Mais assustada, ficou a moça ao ver seu futuro marido aturdido sob os punhos e insultos do irmão mais novo. Assustou-se ainda mais quando a violência generalizou-se na arena, entre o próprio time. Amargurou-se quando Willem, sabendo de tudo, desistira do casamento.

A lembrança do ouro perdido dos van Loon restou cintilante no dedo da mulher de prata. Desde então, nunca mais houve outro campeão de cabo-de-guerra nos jogos olímpicos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Poesia Twist. Poemas com um toque de limão.

Quando eu era bem mais novo, havia um limoeiro em minha casa. Pequeninho, mas dava uns limõezinhos. E lá ia eu, catava um limão e, não muito esperto, chupava. Era azedo. Não tinha jeito de chupar aquilo sem fazer careta. E se tinha um corte ou uma afta na boca, pior ainda. Aquilo ardia como os diabos. E o pior é que depois de tudo isso, não tinha como não repetir o processo. E eu ficava ali. Chupava o limão azedo, fazia careta, ardia, mas continuava. Excluindo-se a possibilidade de eu ter sido uma criança não muito esperta ou possíveis tendências masoquistas, é mais ou menos isso que aconteceu quando comecei a folhear Falações, livro de poemas de Marcelo Labes.

Não foi fácil ler Falações sem fazer careta. Labes destila um suco ácido e, com freqüência, azedo. E eu cá com minhas aftas e cortes, volta e meia senti arder os versos do autor. Falações se divide em quatro momentos distintos. Altenatintas abre com o solitário Até Quando e já pincela os primeiros elementos melancólicos que vêm se repetir mais tarde, e lembra, com uma escada 'reta em caracol', que “não se pode voltar atrás / quando se diz que ama”. Fiação e Tecelagem traz a acidez na leitura da vida operária “de 8 horas trabalhadas / e 16 de aflição” que termina com “casa na praia encostada / carro do ano passado / e plena realização: / artrite artrose bursite / aposentadoria e caixão”. É seguido pelo azedo Manhã, difícil de engolir como a constatação “Por que não respondes? / Meu Deus, / estás fria!”. No capítulo se destaca ainda O Barco, que atenta em letras garrafais “NUMA CIDADE VITRINE / FORA DE TOM É PECADO”, num retrato de um barco que “porque não navega / não pode ser afundado”. Este poema, ao lado de Fiação e Tecelagem, torna difícil sair de manhã e não rever suas linhas na nas ruas da cidade. Mas ainda assim, tudo parece passar voando, quase despercebido pela maioria. Como descobre Passarinho com seu final seco e despreocupado “Que foi isso? / e virou-se para o lado. / Passarinho na janela, / disse ela”. Assim fica mais fácil concordar com o narrador em Bi-bap-dera-nudara, que pede: “Acende, Maria, o pavio / e deixa a vida explodir”. O capítulo encerra escarrando suas verdades, tentando aparentemente expeli-las, livrar-se delas com Expectorante, que tenta com força “Cuspir fora saudade, lembranças. / Cuspir fora saudade, tristeza. / Cuspir e ver escorregar. / Verde”.

Em Reflexscintos destaco o lírico Canção que parece, junto com Sapiência Cartesia uma tentativa do autor, não em definir-se, mas em encontrar-se. Chamou-me a atenção o fato de que, nos dois poemas, o poeta o é, através dos outros, nunca de si mesmo. Em Canção “Eu me chamo aquilo que dizes”, “Eu me chamo o nome que vais dizer”, “Eu chamo / a tua alegria / ao repetires o som / do meu nome” e em Sapiência Cartesiana “E os que me querem saber / acabam me sendo. / Sou todos os que me sabem eu”. O poeta, procurando encontrar-se, perde-se (ou finalmente encontra-se) no leitor. O autor deixa-se arrebatar novamente pela estética crua, curta e grossa no impactante In Vitro que encerra o beijo com trinta e dois dentes quebrados. A saudade também deixa sua acidez em Ontem e Simplificante, uma saudade que arde como limão em boca machucada.

Febres traz uma série de dez poemas. O capítulo tem, evidentemente, certa unidade semântica e mesmo estética, mas esta é solta, flertando com o son sense, os poemas bastante independentes. Dentre as febres de Labes, chamo atenção para Febre#07 onde o tornar-se adulto é chato mas sem remédio, Febre#08 com o poeta em busca do grande poema, mas termina entregando-se “escreveria o grande poema / se soubesse por que”. O ótimo Febre#10 retorna com toda a acidez e inunda nossas chagas com o ardor da constatação: “Caíram-me os pêlos, / a origem insiste. / Bicho”. Febre#12 retoma o ataque ao “Produto financiado / por bandas de rock inglês / e poetas franceses / que não compreendes”.

Por fim, intransiGENTES, encerra os capítulos num apanhado da obra. para paula (assim, em minúsculo mesmo) brinca com as palavras “plantandolorosamente um canto”. O Filósofoso “Tentou viver de idéias / e morreu de fome” e acabou por “pôr para fora as verdades / que só a ele pertenciam, e mais ninguém”. Em Iminência percebe-se “Que não valia a pena / viver sob certas iminências” e nos afogamos junto com os personagens. Mas em Findados o narrador ensina: “Vós, que morrestes, o mundo, / o mundo é sempre dos vivos”. E retoma com Cíclico sobre aqueles que se deixaram afogar: “(e há uma semana enterrado, / o que terá pensado / quando o primeiro verme matutino / veio lhe perfurar a coxa)”. Ainda assim Fatalidade parece lembrar que esse mesmo afogamento é inevitável: “Causa mortis: afogamento: não parava de chorar.” Retomando estas constatações Ratos encerra rápido, dinâmico (quase musical) e ainda ácido um apanhado de verdades roídas e a presciência “Vai ter pesadelo, filhinho / e acordar com a cara inchada”.

A obra conta ainda com um ensaio de José Endoença Martins, localizando Labes dentre os poetas blumenauenses. Vale a pena ler até para descobrir novos nomes da poesia de Blumenau.

Ao espremer Falações, o leitor deve também se deparar com o mesmo sumo ácido que me chamou a atenção. E cuidado: se você também tiver algumas fissuras, a leitura pode lhe arder à boca. Se há algo de doce em Falações — e há, se dúvida — serve para aumentar o contraste com a acidez da obra. Mas se você for como eu, vai perceber que não é tão fácil largar Falações, mesmo fazendo careta. Talvez a resposta não esteja impressa no livro, mas uma pista descobri na página de rosto. Adquiri o livro do próprio autor, no lançamento, com o devido autógrafo e dedicatória. Como de costume, só li a dedicatória em casa, quando fui dar as primeiras folheadas no livro, no dia seguinte. E lá estava, na caligrafia de Labes: “Eu insisto: há que se escrever, há que se escrever mais. Vamos, então, adiante”. Talvez seja isso. Ainda que tenhamos o azedume e a acidez dos limões, é preciso escrever. É preciso ler. Afinal, como dizem por aí, se a vida nos dá a acidez dos limões, façamos, pois, limonada. Ou poesia.

sábado, 2 de agosto de 2008

Por/quês

Meus porquês estão todos partidos.
Fragmentados, com os erres cada vez mais distantes dos quês.
Já não me restam porques unidos. Estes rareiam e logo se separam.
Meus sólidos porques tornaram-se frágeis por ques.
Migalhas questionáveis, incertas. Migalhas duvidosas esses meus por ques.
Dos fortes ancestrais, pouco restou.
Alguma semelhança física, uns poucos traços em comum.
Eis que minhas certezas se precipitam no espaço entre duas letras.

Entre duas letras cabe um mundo.

domingo, 27 de julho de 2008

A Páscoa do Faraó

Hapuseneb brincava com alguns gafanhotos que tinham sobrado da infestação. Cutucava os insetos, que estavam numa gaiola de palha, com um graveto. As amas já o haviam mandado dormir. Queria despedir-se de seu pai, mas elas disseram que ele não devia ser incomodado, que tinha muitos problemas para resolver ultimamente. O herdeiro acabou se cansando dos insetos e foi dormir. No dia seguinte poderia ver o pai.


Era meia-noite quando um som rompeu o silêncio do palácio. Potoc, po-toc. Potoc, po-toc. Lento, constante, se aproximando. Potoc, po-toc. Uma tênue luz rompia a escuridão dos corredores. Como um archote que se aproximava passo a passo. Potoc, po-toc. Um suave cheiro de sangue fresco acompanhava o visitante. O som ou o odor acabaram por despertar um galgo jovem, primeiro da ninhada, presente que Hapuseneb ganhara do pai. O cão ensaiou um rosnado, mas um golpe poderoso o silenciou. Tudo o que conseguiu produzir foi um ganido baixo, antes que um segundo golpe lhe partisse as vértebras do pescoço.


O visitante se aproximou da porta onde jazia o animal. A luz se projetou nos umbrais limpos. Demorou-se admirando os batentes. Só depois entrou, devagar. Potoc, po-toc. Aproximou-se do leito. Potoc, po-toc. A luminosidade se derramou sobre a criança. Uma grande mão espalmada caiu pesada sobre a boca do infante enquanto dedos fortes comprimiam a face como um torno. Hapuseneb acordou sobressaltado, mas não pôde se mexer sob o peso que o comprimia contra a cama. Não conseguiu emitir nenhum ruído, pedir ajuda ou desvencilhar-se. Os braços magros tentavam em vão afastar as mãos do agressor. Os olhos saltados de terror se destacavam na cabeça calva e olhavam com pânico aquele que trazia a luz sobre o seu leito.


— Não há sangue nos umbrais... — Foram as únicas palavras do invasor e as últimas que Hapuseneb ouviria.


Debateu-se o quanto pôde até que um joelho pesado aterrissou abaixo do abdômen, pouco acima do sexo. Balançava as pernas e tentava com os braços se desvencilhar. O assaltante cerrou o punho esquerdo, que estava livre, recolheu o braço para tomar impulso e precipitou a mão como um aríete contra o primogênito do faraó. Os bracinhos magros nem sequer desviaram o golpe, que atingiu o tronco um pouco acima do estômago, no lado direito. A criança gemeu sob as costelas trincadas. Com a dor nem percebeu que a mão de chumbo se precipitava em outra carga, partindo as costelas que, estilhaçadas, tornaram-se pequenas lanças dentro do corpo miúdo. Uma ponta rompeu a pele e ficou espetada para fora, refletindo em vermelho e branco a pouca luz que a iluminava. Ainda com a mão direita amordaçando a vítima, o visitante tomou com a esquerda aquela ponta que se projetava de Hapuseneb e a empurrou para baixo, qual uma alavanca. O garoto gritou histérico, os olhos esbugalhados jorrando lágrimas, o corpo estropiado jorrando sangue, enquanto a mão pesada não deixava escapar mais que um choro cortado e dolorido, enquanto a costela abria caminho por pele e carne como uma adaga cega, até se chocar contra a borda dura da cama e partir-se mais uma vez. O esforço em gritar desenhava no pescoço fino da criança todas as veias e tendões, projetando a traquéia num esforço inútil para ser ouvido. O assaltante aproveitou e, com o polegar e o indicador em pinça, envolveu a traquéia do menino e pressionou com força sobre-humana. Um som estalado da cartilagem silenciou a criança e um puxão brusco rompeu o duto, dilacerando a garganta já puída. O corpo jovem caiu inerte na cama, alquebrado, vermelho, deixado no escuro enquanto a luz se afastava devagar, coxeando baixo pelos corredores do faraó. Potoc, po-toc.