terça-feira, 8 de setembro de 2015
Me acorde antes de anoitecer
Me acorde antes de anoitecer.
Me desperte antes de cair a noite,
para que eu possa ver o por-do-sol
sem a sensação de não ter visto
o dia.
Que eu esteja acordado antes da lua surgir
e quando ela chegar, que lá eu veja refletido o brilho do sol.
Me acorde antes de anoitecer
para que eu possa aproveitar
o que ainda restar da manhã e as últimas luzes da tarde.
Então,
mesmo que eu pareça
confortável
e aconchegado,
me acorde.
Me acorde antes de anoitecer.
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Rodrigo Oliveira
terça-feira, 18 de agosto de 2015
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Um Minuto para o Cárcere
Um Minuto para o Cárcere
Três e trinta e dois da madrugada de três de março. O relógio na parede havia parado no momento exato em que o projétil de zero ponto trinta e oito polegadas lhe varara a face entre os ponteiros e se instalara entre as engrenagens por trás do mostrador de números romanos. Ávila olhava o instrumento iluminado pela única nesga de luar que driblava as cortinas pesadas. O facho pálido de luz envolvia os ponteiros com uma aura quase mágica. Três e trinta e dois, de três de março. Três do três. Não resistiu a tornar o momento mais auspicioso. Com o dedo adiantou o ponteiro maior em um minuto. Agora sim: três do três, às três e trinta e três. Satisfeito, guardou no bolso interno da jaqueta o revólver e saiu sem deixar vestígios e, como únicas testemunhas, o relógio varado na parede e o cadáver atrás de si que também guardava, no peito, outro projétil calibre trinta e oito.
Duas semanas depois, o relógio marcava no mostrador digital ao lado da cama um horário sem graça: vinte e duas e cinquenta e sete. Ávila, sonolento, não chegou a lhe dar atenção. Foi o som da porta do quarto arrombada que o despertou a tempo de ver a luz de uma lanterna tática apontada para o rosto a ofuscar-lhe a visão. Quando os olhos se acostumaram ao novo ambiente e o sono lhe abandonara por completo pode divisar os canos das armas apontadas para si, as balacravas negras e os conhecidos coletes balísticos onde lia “polícia civil” em letras brancas.
Agora, na cadeira de réu, ouvia o promotor público recriar o serviço executado em uma versão aproximada. Achou irônico o fato de ter sido condenado a tanto tempo por causa de um minuto. De um auspicioso minuto que deixara sua digital entre os ponteiros de um relógio de parede transpassado por um projétil, às três e trinta e dois da madrugada de três de março.
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Rodrigo Oliveira
segunda-feira, 22 de junho de 2015
sábado, 13 de junho de 2015
Draw4Atena
Atena Farghadani foi sentenciada a mais de 12 anos em uma prisão iraniana por desenhar parlamentares do país com cabeças de animais. Ela tem menos de duas semanas para a apelação. O quadrinista do Washington Post começou uma campanha para chamar a atenção ao problema por meio de charges, ilustrações e quadrinhos, em que vários artistas aderiram. Pega o lápis aí tb e #Draw4Atena.
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quinta-feira, 11 de junho de 2015
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Luna
Luna
À hora mais tardia, quando a luz amarelenta dos postes já não se derrama sobre nada exceto o asfalto molhado, um cão hirsuto vem beber a água que se acumula nos buracos deixados expostos pela administração municipal. Metros acima, da sacada insone dum apartamento suspenso entre ressonares vizinhos, alguém conta os pingos que mergulham na tigela de asfalto lá embaixo, enquanto apaga uma lembrança entre a ponta do cigarro e a pedra do parapeito da sacada.
Caso o cão elevasse o olhar, não veria mais que um último e diminuto ponto vermelho ser engolido pela escuridão contra o céu sem estrelas. Mas vista da sacada, a noite nunca é de fato capaz de envolver por completo a cidade, que insiste com seu amarelo-triste em manter-se acordada à rebite, à trago, à pó. À beijo não dado, à palavra não dita.
Quantas sacadas se penduram na noite? Quantos cães de cabelos nodosos vagam de poça em poça sob a chuva à procura de água?
Quantas noites são necessárias para engolir uma cidade? Quantas noites são necessárias para engolir o que se entala na garganta e sufoca mais que a fumaça tragada de um toco de cigarro?
O cão se vai. Um piparote atira longe o cigarro consumido até o filtro. De algum lugar a cidade uiva de saudade da lua, sem lembrar que os próprios luminosos é que afugentaram os astros.
A noite, esquece-se, não se pode comprar.
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Rodrigo Oliveira
quarta-feira, 4 de março de 2015
Pardon moi
Pardon moi
ma belle
je ne veux pas
une nouvelle
passion
je veux seulement
boire
boire
et boire
je ne veux pas
la lune
je ne veux pas
l'ètoile
plus loin
je ne veux que
ma chère
boire
boire
et boire
Rien que
boire
boire
et boire
Toujours
boire
boire
et boire
Pardon moi
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Reflexos do Mekong
Ela tinha nos olhos a tristeza da Indochina. A cor do Mekong refletindo o céu de um dia estivo. Olhos pluviais que em noites abafadas traziam sonhos de monções. Naquelas noites, meu leito se confundia com o leito do Mekong.
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quarta-feira, 26 de março de 2014
Sorvo de Saudade
Sorvo de Saudade
Eu vejo os teus traços todos os dias,
onde sorvo a saudade a cada manhã.
Eu solto balões a todo momento, pra que eles se percam
se percam ao vento
até estourar em algum lugar
bem alto,
bem alto, onde ninguém possa ouvir.
Eu te vejo
tatuada nas outras
Eu me queixo
da toada das coisas
Eu me deixo
pensar um momento
na rima que não ouso fazer.
E grito bem alto,
bem alto,
onde ninguém possa ouvir.
Bem alto,
bem alto.
[...]
Que ninguém possa ouvir.
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sexta-feira, 7 de março de 2014
Promessa de ano novo
Promessa de ano novo
É dois mil e catorze e eu ainda não fiz um poema.
E se o mundo acabar
e o se o sol não raiar
amanhã?
E se o chão se abrir
antes de mim?
E se chover a última chuva
ou brilhar a última estrela?
Se a última lua cair
sobre mim?
Já é dois mil e catorze e eu ainda não
[te]
fiz um poema.
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sexta-feira, 22 de novembro de 2013
O fado mais triste
O fado mais triste
eu quero
o fado mais triste
que ainda existe
no Porto ancorado
numa taça em riste
um vinho encorpado
mas antes de tudo
o mais triste fado
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sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Amemorias
| De Audrey Kawasaki, como não poderia deixar de ser. |
Naqueles dias, naqueles rostos, naqueles sonhos em que retornam as memórias mais queridas daquilo que nunca vivi, é difícil não fantasiar um outro tomar de rumo, um passado não passado, deixado para trás em páginas apergaminhadas de tempo e lembranças. Reminiscências de possibilidades à margem, que me acenam nostálgicas. Parecem compreender, não se ofendem. Sorriem seus sorrisos mais carinhosos de adeus, de até mais ver. De até a próxima esquina distante em que o Acaso achar por bem nos atirar por breves instantes, antes que continuemos por nossos caminhos. Nesses dias de abraços coloridos, eu fico meio blues.
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sexta-feira, 4 de outubro de 2013
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Valquíria e a última serpente
Em dezembro passado, o Jornal de Santa Catarina solicitou-me um conto curto para o caderno especial sobre o fim do mundo, teoricamente previsto pelo calendário maia. Naquela oportunidade, o texto remetido e que saiu no jornal foi A Primeira Pedra. Eu havia escrito, no entanto, um outro que nunca foi apresentado. Mexendo nos arquivos acabei esbarrando com ele novamente. Coloquei-lhe um título e deixo-o aqui para dar uma atualizada:
Valquíria e a última serpente
Quando Valquíria acordou, pressentiu que algo havia mudado.Estava ainda sonolenta quando lembrou-se. Levantou ligeiro, o sol mal tinha saído, ao contrário do marido que saíra já há algumas horas para chegar a tempo ao trabalho. Calçou as pantufas rosas com florzinhas desgastadas, fechou o roupão com um nó apertado e correu até a porta. Assustou-se com o que viu. O mundo estava, de fato, terminando. Era como se tivessem retirado a fina película que cobria a realidade. Não havia muito que ela reconhecesse como antes. Olhou com certo desprezo as próprias mãos, tornadas garras depois dos anos de trabalho repetitivo nas máquinas de costura. Portão a fora viu o vizinho acuado pelo próprio carro que, feito uma besta, abria e fechava o capô, um ronco seco do motor e um brilho doentio nos faróis. Fumaça escura a nublar a cena. Fugiu, deslocada, em direção ao centro da cidade, evitando os transeuntes trôpegos. Na praça, um punhado de pessoas se acotovelava ao redor de uma fonte que jorrava para o alto rajadas de comprimidos multicoloridos. Chegando na avenida à beira rio viu, na outra margem, o velho barco tombado. Agora percebia, pelas fissuras no casco, que já estava podre e corroído por dentro havia muito. Foi quase sem fôlego que conseguiu atingir, ainda desnorteada, a ponte de ferro no final da rua. Começou a cruzar a construção se afastando do caos e, lá no meio, bem acima do rio, viu sua sombra descabelada projetada nas águas e entristeceu-se. De repente, percebeu uma outra forma avultar-se lá embaixo, logo abaixo da superfície do rio. Um corpo longo e serpentiforme. Apenas uma enorme e sinuosa sombra passando sob a água. O vento tentava sem sucesso afastar o som das sirenes e do caos. Valquíria subiu no parapeito. Viu uma de suas pantufas planarem lá do alto, sem destino, acima das águas. Atirou-se e caiu com um estrondo no rio. Depois de alguns segundos apenas, com um estrondo ainda maior, ergueu-se das águas uma enorme serpente emplumada. No seu dorso, agarrada às plumas, vinha montada Valquíria. Cabelos molhados em desalinho, roupão aberto, o pijama velho colado aos seios flácidos. E um sorriso descabido singrando a face. Cavalgava a serpente do fim do mundo.
Valquíria e a última serpente
Quando Valquíria acordou, pressentiu que algo havia mudado.Estava ainda sonolenta quando lembrou-se. Levantou ligeiro, o sol mal tinha saído, ao contrário do marido que saíra já há algumas horas para chegar a tempo ao trabalho. Calçou as pantufas rosas com florzinhas desgastadas, fechou o roupão com um nó apertado e correu até a porta. Assustou-se com o que viu. O mundo estava, de fato, terminando. Era como se tivessem retirado a fina película que cobria a realidade. Não havia muito que ela reconhecesse como antes. Olhou com certo desprezo as próprias mãos, tornadas garras depois dos anos de trabalho repetitivo nas máquinas de costura. Portão a fora viu o vizinho acuado pelo próprio carro que, feito uma besta, abria e fechava o capô, um ronco seco do motor e um brilho doentio nos faróis. Fumaça escura a nublar a cena. Fugiu, deslocada, em direção ao centro da cidade, evitando os transeuntes trôpegos. Na praça, um punhado de pessoas se acotovelava ao redor de uma fonte que jorrava para o alto rajadas de comprimidos multicoloridos. Chegando na avenida à beira rio viu, na outra margem, o velho barco tombado. Agora percebia, pelas fissuras no casco, que já estava podre e corroído por dentro havia muito. Foi quase sem fôlego que conseguiu atingir, ainda desnorteada, a ponte de ferro no final da rua. Começou a cruzar a construção se afastando do caos e, lá no meio, bem acima do rio, viu sua sombra descabelada projetada nas águas e entristeceu-se. De repente, percebeu uma outra forma avultar-se lá embaixo, logo abaixo da superfície do rio. Um corpo longo e serpentiforme. Apenas uma enorme e sinuosa sombra passando sob a água. O vento tentava sem sucesso afastar o som das sirenes e do caos. Valquíria subiu no parapeito. Viu uma de suas pantufas planarem lá do alto, sem destino, acima das águas. Atirou-se e caiu com um estrondo no rio. Depois de alguns segundos apenas, com um estrondo ainda maior, ergueu-se das águas uma enorme serpente emplumada. No seu dorso, agarrada às plumas, vinha montada Valquíria. Cabelos molhados em desalinho, roupão aberto, o pijama velho colado aos seios flácidos. E um sorriso descabido singrando a face. Cavalgava a serpente do fim do mundo.
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