segunda-feira, 22 de junho de 2015

...


esse inverno tépido
que não congela o tempo
não arrefece o passo
do ponteiro

que feito lança avança
                   friamente

nesse inverno baço
de passo lasso
despedaço

sábado, 13 de junho de 2015

Draw4Atena


Atena Farghadani foi sentenciada a mais de 12 anos em uma prisão iraniana por desenhar parlamentares do país com cabeças de animais. Ela tem menos de duas semanas para a apelação. O quadrinista do Washington Post começou uma campanha para chamar a atenção ao problema por meio de charges, ilustrações e quadrinhos, em que vários artistas aderiram. Pega o lápis aí tb e #Draw4Atena.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Eles estão por toda parte


quarta-feira, 8 de abril de 2015

Luna



Luna

À hora mais tardia, quando a luz amarelenta dos postes já não se derrama sobre nada exceto o asfalto molhado, um cão hirsuto vem beber a água que se acumula nos buracos deixados expostos pela administração municipal. Metros acima, da sacada insone dum apartamento suspenso entre ressonares vizinhos, alguém conta os pingos que mergulham na tigela de asfalto lá embaixo, enquanto apaga uma lembrança entre a ponta do cigarro e a pedra do parapeito da sacada.

Caso o cão elevasse o olhar, não veria mais que um último e diminuto ponto vermelho ser engolido pela escuridão contra o céu sem estrelas. Mas vista da sacada, a noite nunca é de fato capaz de envolver por completo a cidade, que insiste com seu amarelo-triste em manter-se acordada à rebite, à trago, à pó. À beijo não dado, à palavra não dita.

Quantas sacadas se penduram na noite? Quantos cães de cabelos nodosos vagam de poça em poça sob a chuva à procura de água?

Quantas noites são necessárias para engolir uma cidade? Quantas noites são necessárias para engolir o que se entala na garganta e sufoca mais que a fumaça tragada de um toco de cigarro?

O cão se vai. Um piparote atira longe o cigarro consumido até o filtro. De algum lugar a cidade uiva de saudade da lua, sem lembrar que os próprios luminosos é que afugentaram os astros.

A noite, esquece-se, não se pode comprar.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Pardon moi


Pardon moi
ma belle
je ne veux pas
une nouvelle
passion
je veux seulement
boire
boire
et boire

je ne veux pas
la lune
je ne veux pas
l'ètoile
plus loin
je ne veux que
ma chère
boire
boire
et boire

Rien que
boire
boire
et boire

Toujours
boire
boire
et boire

Pardon moi

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Reflexos do Mekong


Ela tinha nos olhos a tristeza da Indochina. A cor do Mekong refletindo o céu de um dia estivo. Olhos pluviais que em noites abafadas traziam sonhos de monções. Naquelas noites, meu leito se confundia com o leito do Mekong.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Sorvo de Saudade


Sorvo de Saudade

Eu vejo os teus traços todos os dias,
onde sorvo a saudade a cada manhã.
Eu solto balões a todo momento, pra que eles se percam
                              se percam ao vento
até estourar em algum lugar
bem alto,
bem alto, onde ninguém possa ouvir.

Eu te vejo
    tatuada nas outras
Eu me queixo
    da toada das coisas
Eu me deixo
pensar um momento
na rima que não ouso fazer.

E grito bem alto,
bem alto,
onde ninguém possa ouvir.

Bem alto,
bem alto.

[...]

Que ninguém possa ouvir.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Promessa de ano novo


Promessa de ano novo

É dois mil e catorze e eu ainda não fiz um poema.
E se o mundo acabar
e o se o sol não raiar

amanhã?

E se o chão se abrir
antes de mim?

E se chover a última chuva
ou brilhar a última estrela?
Se a última lua cair

sobre mim?

Já é dois mil e catorze e eu ainda não
 [te]
fiz um poema.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O fado mais triste


O fado mais triste

eu quero
o fado mais triste
que ainda existe
no Porto ancorado

numa taça em riste
um vinho encorpado
mas antes de tudo
o mais triste fado

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Amemorias

De Audrey Kawasaki, como não poderia deixar de ser.


Naqueles dias, naqueles rostos, naqueles sonhos em que retornam as memórias mais queridas daquilo que nunca vivi, é difícil não fantasiar um outro tomar de rumo, um passado não passado, deixado para trás em páginas apergaminhadas de tempo e lembranças. Reminiscências de possibilidades à margem, que me acenam nostálgicas. Parecem compreender, não se ofendem. Sorriem seus sorrisos mais carinhosos de adeus, de até mais ver. De até a próxima esquina distante em que o Acaso achar por bem nos atirar por breves instantes, antes que continuemos por nossos caminhos. Nesses dias de abraços coloridos, eu fico meio blues.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

onírika



onírika

rara ocarina
única, rúnica rima
onírica-rima
onirikarina

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Valquíria e a última serpente

Em dezembro passado, o Jornal de Santa Catarina solicitou-me um conto curto para o caderno especial sobre o fim do mundo, teoricamente previsto pelo calendário maia. Naquela oportunidade, o texto remetido e que saiu no jornal foi A Primeira Pedra. Eu havia escrito, no entanto, um outro que nunca foi apresentado. Mexendo nos arquivos acabei esbarrando com ele novamente. Coloquei-lhe um título e deixo-o aqui para dar uma atualizada:

Valquíria e a última serpente

Quando Valquíria acordou, pressentiu que algo havia mudado.Estava ainda sonolenta quando lembrou-se. Levantou ligeiro, o sol mal tinha saído, ao contrário do marido que saíra já há algumas horas para chegar a tempo ao trabalho. Calçou as pantufas rosas com florzinhas desgastadas, fechou o roupão com um nó apertado e correu até a porta. Assustou-se com o que viu. O mundo estava, de fato, terminando. Era como se tivessem retirado a fina película que cobria a realidade. Não havia muito que ela reconhecesse como antes. Olhou com certo desprezo as próprias mãos, tornadas garras depois dos anos de trabalho repetitivo nas máquinas de costura. Portão a fora viu o vizinho acuado pelo próprio carro que, feito uma besta, abria e fechava o capô, um ronco seco do motor e um brilho doentio nos faróis. Fumaça escura a nublar a cena. Fugiu, deslocada, em direção ao centro da cidade, evitando os transeuntes trôpegos. Na praça, um punhado de pessoas se acotovelava ao redor de uma fonte que jorrava para o alto rajadas de comprimidos multicoloridos. Chegando na avenida à beira rio viu, na outra margem, o velho barco tombado. Agora percebia, pelas fissuras no casco, que já estava podre e corroído por dentro havia muito. Foi quase sem fôlego que conseguiu atingir, ainda desnorteada, a ponte de ferro no final da rua. Começou a cruzar a construção se afastando do caos e, lá no meio, bem acima do rio, viu sua sombra descabelada projetada nas águas e entristeceu-se. De repente, percebeu uma outra forma avultar-se lá embaixo, logo abaixo da superfície do rio. Um corpo longo e serpentiforme. Apenas uma enorme e sinuosa sombra passando sob a água. O vento tentava sem sucesso afastar o som das sirenes e do caos. Valquíria subiu no parapeito. Viu uma de suas pantufas planarem lá do alto, sem destino, acima das águas. Atirou-se e caiu com um estrondo no rio. Depois de alguns segundos apenas, com um estrondo ainda maior, ergueu-se das águas uma enorme serpente emplumada. No seu dorso, agarrada às plumas, vinha montada Valquíria. Cabelos molhados em desalinho, roupão aberto, o pijama velho colado aos seios flácidos. E um sorriso descabido singrando a face. Cavalgava a serpente do fim do mundo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

este café com gosto de saudade
esta tarde engalanada de lembranças
e um balão
cheio do ar quente dos pulmões
flanando por vielas e cafés.
    Puta tarde de sorrisos.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Duas feiras e uma carência


Há umas semanas peguei o carro e resolvi aproveitar o fim de semana ensolarado para visitar as feiras do livro de Timbó e Jaraguá do Sul. Saí de Blumenau e, como de costume, me perdi mais uma vez em Timbó antes de encontrar a praça onde estava feira. Não que tenha sido muito complicado, é uma tradição minha perder-me pelas ruas de Timbó. Tradição que não pretendo manter, mas tem sido difícil evitar. De qualquer forma, a feira de Timbó opta pelo formato de Feira de Rua, com as tendas montadas na praça. Como esse ano não me inteirei das programação das feiras, fiz uma visita despretensiosa e sem planos. Cheguei após os painéis/palestras terem terminado. Ainda haviam alguns autores reunidos em um canto — identifiquei Alcides Buss, os demais não reconheci — mas não havia uma programação ocorrendo no momento. A estrutura me pareceu bastante adequada. À entrada passei pelo que parecia o núcleo da feira. Um corredor principal ladeado em toda a sua extensão por estandes de sebos e livrarias, expondo e comercializando livros novos e usados. Os preços ao meu ver variaram de próximos aos valores de livrarias a grandes pechinchas, encontrando alguns bons livros (em bom estado) a partir de R$ 2,00. Pareceu-me haver um certo equilíbrio na oferta entre a literatura infantil e a adulta, com um número razoável de crianças que também circulava acompanhadas dos pais. Ao fundo desse corredor, uma área perpendicular abrigava um auditório e o espaço de alimentação. Ambos bem dimensionados e dispostos. Uma detalhe que pareceu não funcionar na feira de Timbó foi o Troca-Troca (ou algo que o valha, não lembro o nome precisamente). Ao que parece foi criada uma mecânica em que as pessoas deveriam levar um livro, previamente, à biblioteca ou Fundação Cultural e daí ganhariam um vale para trocar por um livro no estande da Fundação. Aparentemente o fracasso da iniciativa se deu por uma falta de comunicação da mecânica da ação, visto que os visitantes estavam indo diretamente ao estande com seus livros para a troca e não puderam efetuá-la.

Tendo visitado a feira de Timbó na parte da manhã, à tarde rumei para Jaraguá do Sul. Percebo que a cidade vem se desenvolvendo culturalmente a passos largos, deixando um exemplo não só para as cidades vizinhas do vale do Itapocú, mas igualmente para Blumenau. Detalhe interessante, é que fui muito menos vezes para Jaraguá do que para Timbó. Não conheço a cidade, mas encontrei facilmente o local, que estava muito bem sinalizado por quase todo o percurso. O evento jaraguaense me pareceu consolidado. O local escolhido foi a SCAR — Sociedade Cultura Artística — usando a mesma estrutura de tendas encontrada em Timbó. Optando por vincular a feira à SCAR, ao contrário de um feira de rua na praça, por exemplo, a feira jaraguaense contou com uma estrutura de apoio que contava com mostra de filmes, exposições e gerou a aproximação do público com o espaço cultural. A disposição dos estandes em Jaraguá foi um pouco diferente da feira timboense. Mais abertos, "cercavam" um pequeno palco central (e um estande de alimentação e souveneirs, eu acho) onde aconteciam, em intervalos regulares contações de histórias. O sistema de som mantinha informados os visitantes com constância. No caso de Jaraguá, a feira pareceu ter um volume maior de crianças e literatura infantil. O acervo de livros e preços foi, no geral, similar a Timbó, pelo que me lembro. Nas duas feiras encontrei bons títulos a preços interessantes que acabei levando pra casa. Os estandes das editoras locais (ao menos me pareceram) me chamaram mais a atenção em Jaraguá do Sul do que em Timbó. Creio que alguns dos expositores estavam em ambas as feiras, o que me pareceu interessante. Jaraguá trouxe nomes de peso para a feira, mas como na minha visitação matinal, fui sem planos e não aproveitem nenhum palestra, discussão ou o que fosse. O único autor que vi circulando (lembrando que a maioria eu nem poderia identificar) foi Carlos Henrique Schroeder, que se não me falha a memória, estava organizando o evento.

Enfim, o saldo foi positivo e ambas as feiras pareceram comprovar que há espaço para esse tipo de eventos. Nos dois casos estavam bem movimentadas, encontrei carros de diferentes cidades e a estrutura me pareceu adequada. Não tenho números da feira de Timbó, mas os dados da feira jaraguaense apresentam mais de 80 mil visitantes de quase 40 cidades diferentes e mais de 60 mil livros vendidos. Dado que chama a atenção é que uma das cidades que mais visitou a feira foi justamente Blumenau. Uma cidade que carece de uma feira consistente e que parece ter público para tanto. Mas na falta da atração em sua cidade, migra para as feiras de cidades próximas, seja Jaraguá, Timbó ou Brusque.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Junho de 2013



Junho de 2013

Não tome o meu silêncio
como descaso.
Não o tome, tampouco, por um confortável não-saber.
Acima de tudo, peço,
não o tome como contrário.

Meu silêncio é apenas de embaraçosa vergonha
pelo meu silêncio.

Assim, silencio na esperança
de que em meio ao alvoroço
não ouças meu silêncio.

Sem ruído emitir,
omito
a minha voz
imito
à minha vez
o silêncio que esperava ouvir ruir.