segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Meus dias a bordo do Cirella - Parte I

Esse texto foi escrito há bastante tempo. Não lembro há quantos anos. É um pouco extenso, apesar de ter sido escrito praticamente numa paulada só, por isso vou postá-lo aos poucos. Provavelmente não vai fazer sentido para a maioria, por falta de contexto, mas é tb um pouco esse o objetivo. Segue aí. E na sequência posto as "cenas dos próximos capítulos".

Não sei quanto tempo nos resta. A água já tomou um dos compartimentos inferiores e os homens lutam para impedir que ela se alastre enquanto o avariado Cirella balança à deriva nessas águas desconhecidas. A noite escura como eu jamais vi e o denso nevoeiro que nos cobre há quase uma semana impedem-me de reportar a localização precisa deste cárcere flutuante. Receio pela sanidade do capitão Tino e creio que o diário de bordo do Cirella já não faça justiça aos passos que nos trouxeram até aqui. Portanto transcrevo apressadamente os eventos que culminaram nesta malfadada e fria hora na esperança de que aqueles que, por ventura ou acaso, encontrarem estas palavras façam justiça à memória das almas que se encerram nesta sombria embarcação. Se por acaso não me for possível terminar estes relatos antes do fim, despeço-me já de meu leitor. Adeus. A chama consome a vela e devo logo começar minha história.
— Roderico Ferolli. Cartógrafo e navegador do Cirella.



Três anos se completarão desde que me juntei à tripulação do Cirella. Porém, mesmo antes daquela época já havia ouvido falar do barco mercante, ainda que muito superficialmente. Apesar de não se comparar em tamanho ou em viagens com os barcos das principais rotas e que traziam as melhores mercadorias, o Cirella estava naquela época entre as maiores e principais embarcações da região. Em todos os casos, consideravelmente maior do que o barco mascate no qual eu trabalhara no par de anos anterior. Pelo seu porte, a embarcação do capitão Tino Sadiano também podia se lançar em rotas mais vantajosas e aportar em paragens onde negociam-se as mercadorias por valores mais rentáveis. O Cirella também era conhecido pelas carrancas que exibia na proa e nos mastros. Esculpidas em madeira em tamanhos desproporcionalmente grandes para a nau, as peças empregavam uma aparência quase cômica à embarcação, sendo inclusive, motivo de piadas entre alguns dos marinheiros de outras embarcações, estivadores e trabalhadores que viviam às voltas nos portos próximos. Diziam, porém, que as carrancas eram motivo de orgulho especial para o capitão, a despeito da aparência estapafúrdia de algumas das esculturas. Quanto ao capitão do Cirella, também pouco o conhecia, exceto por alguns boatos sussurrados entre as docas e estalagens próximas ao porto. Contava-se que o capitão havia se lançado à vida ao mar há não muitos anos e que neste pouco tempo havia conseguido algum sucesso que o colocava entre os principais navios daquelas águas, alguns com capitães vários anos mais experientes. Naquela época, enquanto ainda era segundo em comando em uma embarcação mascate, eu soubera que o temperamento do meu futuro capitão já lhe trouxera alguns pequenos atritos com capitães de outras embarcações e em alguns portos. Porém, como soube, nenhum de maior importância. Exceto por um que agora me vem à memória. Contava-se que antes de comandar o Cirella o capitão Tino trabalhava como marinheiro em outra embarcação com vários outros homens na mesma posição. Alguns dos quais, também se tornaram capitães de seus próprios navios, alguns mercantes, outros baleeiros, outros de guerra. Dentre estes estava o atual capitão do baleeiro O Caçador, Earl Dymath. Contam os marujos destas bandas, que durante a vigília do então marinheiro Tino Sadiano, este acordava frequentemente os companheiros aos gritos por avistar algo entre as ondas, apenas para depois verificar-se que de nada se tratava. Àqueles pelos quais ouvi a história, não sabiam dizer se esses avisos falsos eram propositais ou apenas confusões do então marujo. O que se conta é que, cansado dos constantes avisos infundados, Dymath fora tirar satisfações com Tino e que logo se engalfinharam em um combate de violência tal que o atual capitão do O Caçador fez-se ao mar, e foi preciso um grande esforço para que ele não se perdesse entre as ondas. Desde então esta história corre de porto em porto, de embarcação em embarcação e, ao que parece, a inimizade perdura entre ambos os capitães desde então. Mas verdade seja dita, boatos e histórias tendem a crescer ao som do mar e as bocas não são tão confiáveis como os olhos, especialmente as dos marinheiros. Portanto deixemos de lado as histórias colhidas por estes ouvidos, e passemos àquelas vislumbradas por estes olhos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Treze de Agosto

Olhava para o céu de agosto procurando algo entre a poluição e os vãos do viaduto sobre a cabeça. O pescoço levantado revelava uma barba mal feita e as roupas esfarrapadas tinham a cidade impregnada nas tramas. E a cidade, por sua vez, impregnava-se deles, entre os pés coloridos e pichados "veado" dos viadutos. Mas Seu Coelho não era veado. Só era pobre. Tinha o que lhe cabia na sacola de lona e as cores do viaduto.

— Olhando o quê, Seu Coelho?

Sempre lhe chamavam Seu Coelho. Nem era velho, mal passava dos quarenta. Mas a verdade é que aparentava mais, e ninguém nunca lhe perguntou sua idade.

— Lua cheia hoje. Não dá de ver por causa da fumaça, mas tá mais claro lá, ó. Lua cheia.
— E daí?
— É bonito, só. Mais bonito que o viaduto ao menos.
— Sai daí, homem, que tá ficando frio.

E Seu Coelho saiu e foi se juntar aos outros esfarrapados aos pés coloridos dos viadutos, em volta de uma sopa rala, surrupiada do abrigo cuja funcionária fez vista grossa por pena.

O farol alto de um carro projetou na parede as sombras negras dos esfarrapados. Animais acuados, alguns fugiram assustados, outros paralisaram. Os faróis baixaram, deixando só as luzes de cidade acesas. O capô trazia um felino prateado à frente. Seu Coelho, de orelhas em pé, junto aos outros homens, aguardou. A porta do motorista se abriu. Um homem magro saiu, metido num terno preto. Conferiu nas mãos uma folha de papel, olhando para os homens por cima das lentes dos óculos apoiados sobre o proeminente nariz adunco. Mirando Seu Coelho com olhos de rapina citou em uma voz gentilmente treinada:

— Senhor Jeremias Antônio Coelho.

O motorista revelava, nas mãos, para os homens curiosos, uma fotocópia da ficha do abrigo, com os dados médicos, cadastrais e uma fotografia 3X4 recente de Seu Coelho.

O homem coçou os já prateados fios da barba, adiantou-se, conferiu a ficha. De fato, era a ficha do abrigo. Levantou os olhos ao magro motorista, com o ronronar do carro ao fundo.

— Não se preocupe — disse o homem abrindo a porta traseira do automóvel — Ah! — continuou — antes que me esqueça, o abrigo pediu para entregar isso. Disseram que era para o custeio da viagem. Acho que faz parte do intercâmbio.

Seu Coelho abriu o envelope que lhe foi entregue, dentro, poucas notas de cinquenta reais. No interior do carro, o calor e o aroma de alguma massa recém assada pareciam convidativos.

— Vamos? Perguntou o homem de óculos.

Seu Coelho olhou para o céu e, entre vias de concreto e lufadas de fumaça, viu por um momento a lua espiar por trás das nuvens. Deu um suspiro profundo, quase de entrega, colocou o envelope no bolso, deu de ombros e entrou no carro. O mundo lhe passava pela cabeça.

Dentro do carro de bancos de couro, uma embalagem de uma pizzaria próxima o aguardava no banco traseiro.

O motorista olhou para trás por sobre o banco:

— A viagem não deve demorar muito, mas achei que poderia estar com fome. Peguei agora mesmo. Espero que não se importe, mas peguei um pedaço.

Seu Coelho balançou a cabeça, mas, antes que pudesse dizer "não tem problema", uma lâmina opaca subiu entre ele e a cabine do motorista. Só então percebeu que as janelas eram igualmente opacas. Uma música suave tocou enquanto o carro se pôs em movimento. Seu Coelho, lá dentro, abriu a embalagem de pizza, com uma fatia a menos, e tratou de aplacar o estômago ruidoso.

O carro rodava sem solavancos. Ao contrário da cabeça de Seu Coelho. Não sabia se deveria crer no motorista sobre o intercâmbio do abrigo. Já se imaginava atirado na entrada de outra cidade, jogado de novo no mundo para sair à procura de outro viaduto de pés pintados noutra urbe poluída para impregnar-lhe as roupas rotas. Imaginou-se, jogado na rua, já sem vida, um resto esfarrapado de gente. “Vazio de vida, mas ao menos de bucho cheio”, pensou. Deixou o pensamento pairar-lhe à mente sem medo e perguntou-se se já não estaria de todo esvaziado da vida. Já não ligava, apenas deixava-se levar, ao som da música, o embalar do couro, o sabor e o cheiro da pizza. Era o melhor momento que lhe havia aparecido há muito. Que viesse o que fosse, que ali lhe valiam os anos todos sob o concreto à caça de algo para comer. O felino prateado puxava o carro pela autoestrada guiado por uma lua cheia de agosto, que Seu Coelho não podia ver.

O som de cascalho sob as rodas e as curvas sinuosas revelaram que o motorista saíra da via principal. Seu Coelho imaginou um terreno ermo onde seu corpo descansaria coberto por ervas daninhas sem deixar saudade. Ignorou o pensamento e deixou-se invadir pela música. Recostou-se nos bancos macios e permitiu-se quase cochilar. A viagem de pouco de mais de uma hora fora o momento de maior conforto e prazer — e paz até — que havia tido nos últimos anos na rua. A mente estava calma, sublimando para um estado de sonolência, quando os freios suaves fizeram o carro parar.

Ouviu a porta do motorista se abrir. Passos do lado de fora. A porta traseira finalmente abriu para uma noite clara e iluminada por uma lua cheia brilhante num céu estrelado de poucas nuvens. O homem de óculos falou apenas "Chegamos, Senhor Jeremias".

Seu Coelho saiu do carro. Os sapatos velhos deram num chão de terra batida, cercado de um gramado bem aparado e um lago brilhante distante. A estrada se perdia numa espécie de pasto. Ao longe era possível ver a silhueta de uma cerca de madeira e ouvir o relinchar de algum cavalo. Uma casa grande, à frente, o aguardava. As paredes eram de pedra até cerca de um metro de altura. Acima disso, eram chapas de madeira nobre que se erguiam até o telhado de telhas acinzentadas. Um perdigueiro grande de cara escorrida veio cheirar-lhe as vestes. Num movimento brusco, retirou o focinho aguçado, agredido pelos restos de cidade agarrados às fibras puídas, e retornou para algum lugar atrás da construção. O motorista abriu a porta principal e fez um gesto convidando o passageiro a entrar na casa.

O assoalho rangeu em boas-vindas, dócil. Das arandelas escorria pela parede uma luz amarelada e a um canto, uma lareira crepitava confortavelmente com uma velha espingarda de caça decorando a chaminé.

— A sua estada, tenho certeza, será bastante confortável. Venha, deve haver um banho aguardando o senhor.

O motorista de nariz adunco acompanhou Seu Coelho até uma porta, que se abria para um banheiro coberto com uma parede coberta de arabescos e pastilhas de vidro ao redor do box. Do outro lado, uma banheira cheia de uma espuma fumegante aguardava.

— Fique à vontade. Chamarei alguém para... — fez uma pausa proposital — deixá-lo mais à vontade.

O homem saiu, deixando Seu Coelho só no banheiro. Um cheiro de eucalipto cobria o fedor das suas roupas. Pela estreita janela basculante, o luar espiava curioso. Não havia tranca na porta. Mas poucos pudores restavam para quem já tão pouco tinha. Seu Coelho tirou as vestes sujas, jogou-as a um canto, empilhadas, e meteu as pernas cansadas na água quente, submergindo o corpo castigado pelos anos na rua sob a espuma branca e perfumada. Recostou-se na banheira e pensou que se o jogassem morto e indigente num barranco qualquer não se importaria. Relaxou lembrando com certo humor que a espuma lembrava àquela que boiava fedida nos rios sob as pontes em que ele, também fedido, morava. Nem mesmo quando a maçaneta da porta desceu, ele saiu do seu estado de conforto. Só quando viu a mulher de branco entrar é que algum espanto lhe chegou.

Ajeitou-se o melhor que pôde, cobrindo-se com a espuma abundante. A loira devia ter uns 30 anos, tinha o cabelo liso amarrado em um coque atravessado por uma vareta de plástico, também branca. Ela olhou com um sorriso benevolente, mostrando-lhe nas mãos um roupão longo e branco, semelhante ao que ela usava. Pendurou a peça num cabide próximo sob o olhar atento de Seu Coelho. Abaixou-se para pegar o monte de roupas sujas revelando, pela fenda de seu roupão, uma perna longa e bem cuidada e um sugerido contorno de seio aparentemente nu, espiando pelo decote. Ela saiu fechando a porta atrás de si. Seu Coelho mirou o roupão pendurado, tentou relaxar na água quente e mergulhou, lavando os cabelos pastosos.

Passaram-se mais uns cinco minutos, talvez um pouco mais, até que a mulher retornou. Seu Coelho ajeitou-se na banheira, ainda sob a espuma, agora com os cabelos bem menos sebosos e sem o cheiro da cidade na pele. Ela se aproximou com passos curtos, ajoelhou-se ao lado da banheira e pegou a bucha sobre o aparador. Ensaboou o objeto, molhou-o na água e fez menção de esfregar as costas do homem.

— Não precisa. Adiantou-se Seu Coelho, preservando os pudores da moça.

Ela parou por um momento, olhou para ele, e pressionou a esponja contra o seu dorso puído. A esponja quente percorreu os ombros maltratados com suavidade, em movimentos lentos. Subiu o pescoço tisnado do sol, volta e meia retornando às águas quentes e espumosas da banheira. Seu Coelho foi deixando-se relaxar ao toque sutil da esponja, ao eventual toque das pontas alvas dos dedos longos. Dividiu com a mulher um silêncio cúmplice. Ela arregaçou a manga do roupão revelando um braço esguio e bonito. Mergulhou-o na espuma, percorrendo com a esponja cada vértebra das costas de Seu Coelho, contornando-lhe a lombar. Sob a espuma, o corpo desacostumado com um toque gentil ameaçava relembrar a virilidade que há tempo não provava.

A moça empurrou-lhe o peito delicadamente com a ponta dos dedos, para que se recostasse, molhou a esponja na água e começou a ensaboar-lhe o tórax.

Ele sorriu, apenas. Sentiu a esponja descer-lhe pelo abdômen, percorrer-lhe a lateral do tronco, esfregar-lhe a coxa. Sob a água, as mãos dos dois se encontraram. Ao toque, ela mirou-lhe os olhos pardos com os azuis dela. Sorriu — ou riu — sem pudores, mas parou o movimento. Ele, devagar, puxou-lhe a mão até sentir o toque da esponja onde queria. Ela roçou-lhe suavemente com a esponja. Levantou-se, olhou, de pé, para o homem deitado na banheira, soltou o cordão que amarrava o roupão e deixou a peça correr pelos ombros até cair no chão. Meteu as pernas longas dentro da banheira, uma depois da outra, e mergulhou a nudez nas águas quentes, contornando, por baixo da espuma, as pernas dele com as dela. Olhou por um momento para o homem a sua frente, pegou novamente a esponja e começou a ensaboar o próprio corpo, ignorando o companheiro de banheira. Seu Coelho ficou poucos minutos observando a moça de cabelos presos e corpo mergulhado na mesma água que o cercava. Com as mãos tocou-lhe as pernas lisas. Ela apenas o olhou e continuou a banhar-se. Ele se desencostou da banheira, levando as mãos às coxas da moça. Tudo para receber apenas mais um olhar, com o canto do olho. Num movimento quase brusco, com a paciência de quem vive à míngua sob os viadutos sem receber sequer um olhar de uma mulher como aquela, Seu Coelho tomou-lhe a esponja, espirrando com a violência do braço, um pouco de água para fora da banheira. O suficiente para espalhar a espuma, revelando um seio delicado coroado por uma auréola rosada e decorado com uma pequena tatuagem de um arco rebuscado ao lado de uma flecha, ornamentados por motivos tribais. Cobriu o seio da moça com a esponja, fazendo-a percorrer devagar, para baixo, o corpo arrepiado. Viu-a deitar a cabeça para trás e arquear as costas enquanto a esponja se perdia entre a espuma e as pernas da mulher.

Com um pulo, Seu Coelho projetou-se sobre a loira, transbordando a água a cada investida, transbordando emoções represadas, anos suprimidos, rugas precoces. A moça, capturada, subjugava-se às investidas brutas, à barba áspera, ao sabor das ruas que persistia na pele agora limpa. A cidade fica impregnada fundo, onde a água não alcança. Mas agora ela vinha à tona. Transbordava-lhe pelos poros, desprendia-se pelos pêlos, emergia-lhe à pele. A moça agarrou-lhe o pescoço com os braços, envolveu-lhe o lombo com as pernas e sentiu-se transbordar como a banheira. Seu Coelho continuou as investidas até que toda a cidade, toda a rua, toda a vida represada transbordasse também de si. E naufragou exausto nas águas que se acalmavam. Depois de uns dois minutos a moça levantou, em silêncio, vestiu o roupão novamente e saiu pingando pela porta sem tranca do banheiro.

Seu Coelho aguardou uns cinco minutos. Levantou-se, secou o corpo murcho, já não sabia se pela água ou pela vida, e vestiu o roupão branco com um pequeno gamo bordado no lado esquerdo do peito. Abriu, sem muita certeza, a porta do banheiro. No chão, a sua frente, ruas roupas aguardavam empilhadas e dobradas. Pegou-as, retornou ao banheiro e um minuto depois tornou a sair, vestindo as próprias vestes, cobertas com alguma nova essência que desconhecia, mas de aroma bem mais agradável. O homem magro de terno preto o aguardava na sala, em frente à lareira.

— Ah, Senhor Jeremias. — Disse sem emoção na voz ou no rosto. — Seu jantar está servido.

Acompanhou o homem a uma sala lateral onde uma refeição simples mas farta o aguardava. Seu Coelho já não perguntava nada, não esperava nada, não se importava com nada. Comeu com a pressa que se aprende na rua. Ao terminar, o mesmo homem de terno re-apareceu.

— Senhor Jeremias, acompanhe-me.

Seu Coelho obedeceu. Seguiu o homem até a sala onde este abriu a porta da rua. Seu Coelho parou por um momento. O homem de olhar de rapina fez um movimento de confirmação com a cabeça. Seu Coelho saiu pela porta e encontrou o mesmo carro que o trouxe, com a porta traseira aberta. O homem fez sinal para que entrasse no veículo. A lua alta brilhava cheia, retornando com uma lufada de vento o suspiro de Seu Coelho.

O carro serpenteou as curvas levando no ventre Seu Coelho que, lá dentro, não sabia o que pensar. Apreendeu-se imaginando que fim lhe esperava. Não creu na história do abrigo, mas tentava se tranquilizar relembrando que o que quer que o aguardasse, não poderia ser pior que retornar à rua. E de todo modo, havia valido a pena. Viveu numa noite o que não vivera sobrevivendo nos últimos anos. Ouviu com certo espanto o ruído familiar da cidade. O carro parou. Uma sirene soou não muito longe dali. A cidade, à noite, expirava ressonante e insone. A porta se abriu. Seu Coelho saiu e deu com um bairro distante, na periferia. O homem de nariz adunco cerrou a porta traseira, retornou ao posto de motorista e partiu seguindo o felino prateado que puxava o carro.

Uma hora depois, Seu Coelho chegava, a pé, junto aos pés coloridos escrito "veado" do viaduto que lhe servia por teto. Ao mesmo tempo em que, num casarão distante com um Jaguar estacionado em frente, um homem de terno negro e olhos de águia batia à porta de um quarto. Dentro do quarto a mulher loira, sentada na cama sob as caras cobertas, ajustou o robe cobrindo o seio tatuado e pôs de lado um balancete financeiro de uma filial empresarial. Retirando os óculos e colocando-os ao lado do cálice de vinho no criado-mudo, disse:

— Pode entrar.

O homem de terno abriu uma fresta na porta do quarto e polidamente perguntou:

— Senhorita Diana, estou indo me recolher. A senhorita deseja algo mais?

— Não, Tulius. Está tudo bem, obrigada. Boa noite.

— Obrigado. Boa noite, madame.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Se pudesse hoje

Se pudesse, hoje
te queria assim,
........... bem louca.
De rasgar a roupa
e estourar botão
........... [e estourar botão]

Se pudesse, hoje
te queria assim,
........... bem prosa.
Decifrar teu verso
colher tua rosa

........... [Rósea rosa violácea

que se abre já colhida
desabrocha já na mão]

Se pudesse, hoje
te queria assim,
........... assim.
colher teu orvalho
........... [gota a gota]
........... gota
.................a
............ ....gota
te colher pra mim

Se pudesse, hoje
te queria assim,
........... sem roupa.
Toda mãos e toda boca
toda pernas
........... [toda vinhas
........... trepadeira]

Se pudesse, hoje
te queria assim,
........... lasciva.
te amassar o fruto
pra te verter o sumo

reduzir-te a meu consumo.

Se pudesse,
........... hoje.

domingo, 26 de julho de 2009

Silêncio

— Silêncio!

Acordou sobressaltado no escuro. Os olhos baços à meia luz, ouvindo murmúrios baixos. Esfregou com os dedos os olhos que arderam salgados e divisou as duas loiras juntas, lado a lado, nas poltronas vermelhas na escura platéia quase vazia.

— No. Hay. Banda!

O homem no palco declamava pausado e com potência. Um poderoso staccato à capela, num sotaque castelhano.

— There is no band.

Com os olhos, se acostumando a pouca luz e a mente à vigília, pôde melhor divisar as mulheres nas poltronas escuras.

— And yet, we hear a band — Continuou o apresentador sob acordes gravados.
E tudo escureceu numa tela preta e num chiado eletrônico que cessou baixinho. Silêncio. Já vira o filme por vezes sem conta. E sempre acabava por vê-lo de novo. Tentava sempre revê-lo, na esperança de outro final. De uma guinada na história. De um personagem que pudesse surgir e valer-lhe, de fato a audiência. Mas o filme sempre insistia em passar de novo. No hay banda. E de novo estava ele em Silêncio.

Levantou-se, derrubando a vasilha de plástico ao chão. Caminhou sobre os milhos em cima do tapete e abriu a janela da sala. O inverno entrou frio pelo apartamento. Lá fora, as ruas de luzes brancas, todas em silêncio. Por cima dos telhados pontiagudos, o inverno se estendia até o velho teatro. Viu as luzes, o movimento, as pessoas distantes. Mas tudo era silêncio. Subiu no beiral da janela, aguardou o vento frio e lançou-se na corrente, acompanhando o ar gelado por sobre os telhados germânicos. Sobrevoou a movimentação. Atores, músicos, poetas. Artistas. Quadro de esteta elaborada. No palco, um latino estendia a mão, ao que respondia um clarinete invisível. Estendeu o braço a outro lado. Respondeu-lhe um trombone, também invisível. Do alto, com o público e os outros artistas em volta, num grande círculo, a cena lembrava um ritual pagão. Todos vestidos de peles dançando ao redor da fogueira. The bonfire of De Palma. O vento soprou frio de novo e ele se deixou levar. Enrodilhou-se numa nuvem úmida e adormeceu no silêncio de um sussurro linchiano.

Acordou sobre o sofá com dor nas costas e atrasado. Saiu apressado para o compromisso. A cidade ensolarada, o velho teatro. Tomou o lugar à mesa. O discurso manso seguiu até que levantasse a cabeça para o público. Lá atrás, na última fila da platéia, um casal idoso o olhava com olhos famintos. Engoliu em seco, o ar frio. Um clarim fez-se soar distante. Mas não havia banda.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Poema Marginal

domingo, 19 de julho de 2009

A sétima badalada

Olhou para trás. Pouco via além das duas linhas fundas sulcadas na neve que se estendiam até debaixo de suas rodas de madeira. No mais, tudo era branco. À exceção dos troncos escuros dos pinheiros que conseguiam se fazer ver através do nevoeiro.

Um bufar resmungado atraiu-lhe a atenção para ao enorme animal à sua frente, com as patas peludas enfiadas na neve e lufadas nebulosas saindo-lhe das narinas. Sacudia a crina, vez por outra, para livrar-se dos flocos que se acumulavam. Mesmo a besta já estava impaciente. Sacou da casaca grossa o relógio de bolso. Já chegava a aurora, diziam os ponteiros na linguagem muda dos relógios. O dia, ainda mais calado, não dizia nada, enterrado na neve e névoa.

Longe, um sino soou a badalada lúgubre do aguardo vão. À segunda badalada, a besta resmungou, com que adivinhando o comando para partir. Uma terceira badalada soou enquanto a neve começava a já cobrir os rastros da carroça. À quarta badalada, nada mudou. À quinta, apenas um suspiro quente em forma de nuvem despencou por baixo do bigode penteado. A sexta badalada trouxe o som de algo se quebrando. Frágil, perdido na neve, próximo e irremediavelmente distante.

Quando uma forma finalmente divisou-se tênue, entre os troncos encobertos pela neve, já não havia mais badalos, marcas na neve ou aguardo. Havia apenas o silêncio branco. E um suspiro quente em forma de nuvem pendurado no ar.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Ao Diretor Geral

Não era, em nada, similar a um filme americano. Não havia a luz pendente, não havia o good-cop-bad-cop, não havia espelhos falsos na parede. Não havia, na verdade, parede. Na capoeira baixa e seca, pouco se via além do local iluminado pelos faróis. No contraluz uma silhueta insistia:

― Melhor ir falando. Isso pode levar a noite a toda e não tenho a menor pressa de ir pra depê. O café de lá é uma bosta, mesmo.

No chão, um outro vulto encolhido no capim seco. As mãos atrás das costas. De longe, nem seria visto. Àquela hora, de qualquer forma, não havia ninguém para ver coisa alguma. E o vulto sabia disso.

― Eu já disse, só fiz o que ele pediu. Foi o que disse o vulto. Que outra coisa não era, naquela situação, o sujeito. Apenas um vulto.

― Olha ― continuou a silhueta no contraluz ― eu não tô na minha hora de serviço, não tô de uniforme. Não tem nenhuma regra que eu tenho que seguir. Se você falar, você volta comigo, num pedaço só, inteirinho. Peixe pequeno assim, se se comportar, em um ano, dois, tá fora. Eu até dou um jeito de ajeitar o seu lado lá dentro, pra ficar sossegado. Agora, se me enrolar, eu tenho um saco preto no porta-malas que é o seu número. E daí você nem vai sentir o cheiro da porra do café da depê. Ca-dê-a-mer-da-da-gra-na?

― Eu não peguei nada. Só o que o velho me pagou. Como eu ia saber que a caixa era pra ele?

― Tá me achando com cara de otário? ― A silhueta no contraluz parecia perder um pouco da paciência. ― Você quer que eu acredite que o velho pagou pra acabar com ele mesmo? Você apagou o infeliz pra roubar alguma coisa. Se não era dinheiro era o quê?

― Não roubei nada, não. Numa dessas ele queria se matar e só não tinha coragem pra puxar o gatilho.

― Não, não, não. Eu conheço esse tipo de gente. Fresco e com grana assim, se ele fosse se matar ia tomar um punhado de comprimido com uísque num copo de cristal. Esse tipo nem gosta muito da idéia de uma arma, que é pra não estragar o enterro. Imagina receber uma carta bomba na cara. Caralho, a cabeça do velho tava do avesso! Os braços cortados no cotovelo. As mãos não deu nem pra achar. Gente assim nunca ia arrumar uma dessas pra se matar. Suicídio não cola. Você me diz onde tá a grana, eu pego – até deixo um pouco com você, se você cooperar – e a gente faz a prisão na boa. A hora que você sair, ainda vai ter uma grana te esperando.

― Mas eu já disse, eu mandei a caixa do jeitinho que ele pediu. E foi só. Não roubei nada, não. Não sei de dinheiro nenhum. Só tenho o que ele me pagou pra enviar a caixa.

― Tá certo, você não quer dizer, tudo bem. Já vi que não adianta insistir.

A silhueta no contraluz puxou o vulto do chão, deitou-o com o peito sobre o capô do carro, soltou-lhe das algemas, conferindo se não havia deixado nenhuma marca no pulso.

― Vaza. E fica sabendo que eu tô de olho. Se tu aparecer com alguma grana, eu vou ficar sabendo. Vaza. Corre!

Um vulto partindo, correndo na capoeira, tendo às costas a luz dos faróis de um carro solitário, uma silhueta com um trinta e oito apontado e duas balas. No contraluz, o cano curto fumegava. O corpo, entre o capim seco da capoeira, mais adiante, também. A silhueta saiu da frente do carro, abriu a porta, passou uma chamada pelo rádio acusando uma perseguição ao suspeito. Alguns minutos depois, uma nova chamava pedia uma ambulância. O fugitivo tinha sido alvejado.

― Esse café é uma bosta, hein?
― Não muda nunca. Você devia estar acostumado.
― E aí, alguma novidade da tal caixa?
― Esperando a perícia, ainda.
― Pra mim tá na cara que alguém mandou a bomba pro cidadão pra sair com alguma grana. Grana graúda.
― Sei lá. Tá muito estranho. Mas pode ser. O cara acaba de ganhar uma promoção, vira diretor geral, tá com a grana, alguém fica sabendo e resolve explodir com ele.
― Acho que sim.
― Cara, não fazia nem um mês que o infeliz tinha assumido o cargo.
― Nem deu tempo de aproveitar o dinheiro que tava ganhando.
― Pode dizer o que quiser, mas esse é um cargo que eu não queria ter. O cara que tava no cargo antes foi preso com um desvio de verba animal. E isso porque acabou não pagando o imposto de renda, senão ninguém ia descobrir. Aí vem esse velho, assume o lugar de uma hora pra outra, e recebe uma carta bomba de presente. Prefiro ficar aqui com esse café de bosta e manter a minha cabeça em cima do corpo.
― Mas e aí, chegou a ver a caixa antes de ir pra perícia?
― Pouca coisa. Normal. Toda parda, selo do correio, confidencial escrito na tampa, logo abaixo do nome do cargo. “A/C: Diretor Geral”. Tudo digitado na máquina, nenhuma caligrafia.
― Mas a perícia já não adiantou que as digitais bateram?
― Já, já. Parece que foi o cara que você pegou mesmo. Pena que não deu pra pegar o sujeito. Se espremesse ele, devia dar pra descobrir o que aconteceu, ou porque ele mandou a carta.
― Pode ser, pode ser.

Perto da capoeira, numa casa silenciosa, outra unidade de investigação fazia uma varredura na casa do principal suspeito de ter enviado a caixa. Mesmo à luz do dia, distante, era impossível ver a poça de sangue entre o capim seco lá fora. Do lado de dentro, sob a cama, numa sacola de lixo, uma pilha de dinheiro, separada em notas de cem e cinqüenta. Notas sequenciais, descuidadas. Coisa de amador. O investigador encarregado avaliou por cima algo em torno de uns cinco mil reais. Com uma margem de erro para mais ou para menos, caso algo sumisse ou passasse despercebido. Embaixo de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, na estante da sala, um pedaço de jornal rasgado que tinha, na margem, uma nota escrita à mão, com o endereço da empresa e instruções para o envio de uma encomenda ao Diretor Geral, em uma caixa confidencial, para garantir que não parasse na secretária. A digital, dificilmente poderia ser comparada com algum suspeito, visto que os dedos que ali se encaixavam haviam desaparecido sob uma explosão. No canto do jornal, um pedaço de foto de matéria desatualizada e a data de pouco mais de um mês atrás.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Do fracasso de "Imaculado" - Parte II

Retomando o post anterior, o Fábio, nos comentários, chegou no que eu queria com o texto. A ideia inicial era, realmente, tornar a mancha no pescoço dele imaginária. Fruto de uma culpa, como a mancha de sangue de uma Lady Macbeth de calças. Com essa referência em mente, algumas decisões foram rapidamente tomadas. A primeira, que todo mundo percebeu, foi ao estilo. Tentei forçar o texto a fugir do meu estilo - a minha mais puxando pro clássico - e tentei uma pegada mais contemporânea, tentando deixar mais o mind flow dirigir a narrativa em primeira pessoa (outra coisa q normalmente nao faço tanto). Distanciando o estilo do clássico, eu pretendia jogar o texto pro outro oposto, mantendo distante do cânone (e por consequencia de qq referencia direta a shakespeare). a ideia era fazer o texto menos classico ou rebuscado estilisticamento possível, num contraponto à referência de Macbeth. Daí tb a quase falta de diálogos e a inexistência de travessões. Claro, pra um texto escrito em poucas horas de madrugada e com uns chopes na cabeça, eu não podia esperar mto, mas obviamente, foi ainda pior. Talvez, pensado em rever o texto, se ele for, em algo, ainda válido para isso, eu deveria ter apresentado a culpa dele bem antes do personagem, logo no início do texto. talvez trazer alguma cena da festa, que talvez sugerisse mas nao deixasse claro se ele teria ou não um chupão. talvez uma conversa ou piada sobre isso justificaria, associado à culpa, que a mente dele criasse essa ilusão, que acabou ficando gratuita. Algo que poderia trazer volta e meia esse reflexo de culpa seria a lembrança ou a interferência, de alguma forma de Beth, avivando isso no texto.

A referência com a obra de Shakespeare deveria provavelmente aparecer de forma velada em alguns pontos, para sustentar uma comparação leve. Os nomes seguidos "marco/beth" foram mais um easter egg q um recurso literário (texto fraco nisso, diga-se). Provalvemento com mais alguns recursos ligando um texto ao outro, isso até poderia funcionar. E claro, a referência não era em si a obra Macbeth, mas à cena I do ato V mais especificamente, onde Lady Macbeth, sonâmbula, esfregava as mãos à lavá-las de um sangue inexistente que não desaparecia. Ali estava a mancha de Lady Macbeth. A minha, deveria estar num guardanapo do Butiquin. E era de chope.

Não devo retomar mto isso aqui, visto que não acho q seja algo que realmente valha. É mais para retornar a postar algo aqui e quem sabe, com o ritmo, retornem tb os textos que valham os bytes que os abrigam. Mas já estamos nós aqui e pra não perder a visita, nao custa peguntar: e vc, onde acha q o texto se perdeu? Q recursos o teriam salvo? Bom, me vou e deixo de manchar esses pixels por hora.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Do fracasso de "Imaculado" - Parte I

O texto do último post foi postado tb no Duelo de Escritores. Tanto aqui quanto lá, parece que o texto não cumpriu o seu papel. Provavelmente o autor, na verdade. Alguns desses erros até já sei quais são. O mais importante, é que o texto foi criado, na sua maior parte, na hora da postagem, na madrugada do data limite. Provavelmente eu poderia consertá-lo com mais tempo. Ainda assim, achei interessante trazer isso à tona e pretendo, nos próximos posts avaliar as tomadas de decisões no decorrer do texto que culminaram no seu fracasso. Se no final, achar que vale a pena retomar o texto e reescrevê-lo, o farei. Do contra´rio vale apenas como exercício de reflexão.

Qto a Imaculado, parece que não me fiz entender. E a culpa aqui é sim do texto mesmo, não dos leitores. Muita gente acho pouco verossível Beth não perceber a mancha do chupão no pescoço de Marco. O Félix, pode se encrencar achando que banho quente tira chupão. Não quero encrencar um amigo. Félix, banho quente não tira chupão. Abre o olho. E eu concordo que seria impossível alguém não ver um chupão no banho com outra pessoa. No próximo post pretendo avaliar algumas das escolhas possíveis que eu pudesse ter tomado pra melhorar o texto. As pistas que pus no texto, obviamente nao foram suficientes pra elucidá-lo. No texto, só mesmo o nome dos personagens, seguidos, na primeira linha do conto. Nos comentários da postagens no duelo, aqui, deixei outra pista. Não esclareci mais na hora, pra nao influenciar a votação.

No próximo post (ou seguinte a ele) a continuação desta malfadada história.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Imaculado

O celular tocou de manhã. Atendi: “Marco”. “Beth”, ela respondeu, tentando imitar o meu tom sério. Grunhi um “oi, amor”; ela riu um “te acordei?”. Confirmei o horário de chegada do vôo; ela me pegaria no aeroporto. Confirmei que tinha fechado a venda e avisei que depois tinha dado um porre nos chineses para comemorar. Ela me perguntou num ciúme fingido se eu tinha certeza que não tinha nenhuma chinesa. Não tinha. Só chineses velhos bêbados. As meninas eram todas brasileiras. Inclusive a baianinha pendurada no meu pescoço. “Sabe o que fica melhor no pescoço de um executivo do que uma gravata italiana? Uma baiana!” Foi o que eu disse aos chineses. E ele fizeram questão de me empurrar uma das meninas. Claro que não disse nada disso à Beth. Até porque não tinha acontecido nada demais. Era tudo parte do negócio com os chinas, afinal.

Desliguei o telefone, conferi os papéis assinados na mesa perto da cama, abri as cortinas e fui tomar um banho. Foi só quando limpei o espelho embaçado que vi a confusão em que tinha me metido. A filha da puta tinha me deixado com um chupão no pescoço. A Beth iria me matar. Ainda tentei passar água fria para ver se diminuía o roxo, mas não adiantou muito. Lembrei que um amigo tinha me dito, há muito tempo, que passar um pente com álcool resolveria o problema. Vendo a hora do meu vôo chegar e sem uma garrafa de álcool por perto, apelei pro minibar. No nicho de madeira na parede acima do frigobar as várias garrafinhas coloridas estavam perfiladas. Miniaturas perfeitas das garrafas originais. Comecei a selecionar. Campari me deixaria ainda mais vermelho, estava fora de cogitação. Isso me deixou mais inclinado entre a garrafinha de Jack Daniel’s e a de Absolut. Se a idéia era tirar a mancha, que fosse com a incolor. Baiana filha da puta. Eu nunca tinha comprado uma garrafa de Absolut na vida e agora estava esvaziando uma em cima de um pente de plástico com logotipo de hotel. Passei um pouco da bebida ainda sobre a mancha para ajudar e esfreguei o pente até o meu pescoço ficar todo vermelho. Esperei um pouco e repeti a operação. Nada. O chupão continuava lá. E o horário do meu vôo chegando. Teria que resolver o problema no caminho.

Guardei os papéis, peguei minhas malas e desci pro saguão onde já tinha mandado chamar um táxi. As pessoas olhavam o meu pescoço como se vissem uma ilustração do Kama Sutra. E o cheiro de bebida no meu colarinho também não ajudava muito. O funcionário do hotel abriu a porta do táxi e, com um sorriso sacana na cara, disse: “Seu taxi, senhor. Espero que tenha gostado da sua estada”. Filho de uma égua manca. Fez piadinha, se fodeu. Ficou sem gorjeta. O táxi me deixou no aeroporto, sem piadas dessa vez. Devia precisar da gorjeta.

No espelho do banheiro do aeroporto, conferi o roxo da baiana no meu pescoço. O cara que saiu do mictório disfarçou o olhar enquanto lavava as mãos. Mas antes de sair fez questão de ajeitar o colarinho da camisa, só de sacanagem. Mas não é que o puto, acabou me dando uma idéia? Passei numa das lojas do aeroporto e comprei uma camisa de gola alta. Troquei de roupa na loja mesmo e já saí com a gola escondendo mais da metade do meu pescoço e a mancha da baiana.

O vôo foi tranqüilo e, quando desci no aeroporto, Beth estava à minha espera. “Nossa, tudo isso é frio?”, ela estranhou. “Pois é, aquela garoa infernal de São Paulo”. Ela pareceu engolir a história. Fomos para o apartamento dela.

Deixei as malas num canto, ajeitei as coisas, ela perguntou se eu não queria tomar um banho. Disse que deixaria pra mais tarde. Ela não pareceu se importar e se pendurou em meu pescoço, me dando um beijo ao pé da orelha. Disse que tinha um presente de boas vindas, enquanto corria as mãos por baixo da minha camisa. Eu dei uma desculpa esfarrapada, dizendo que não me sentia bem, talvez tivesse febre, ou só um começo de gripe. Talvez fosse melhor mesmo tomar um banho, ela insistiu, e depois me enfiar em baixo das cobertas, sugeria. Ela concordou. “Vai lá que eu vou pegar uma outra roupa pra você”, ela quis ser amável. Insiste que não se preocupasse, que seria melhor eu por a mesma camisa, pra me manter aquecido. Ela disse “Você que sabe” e foi preparar um chá no fogão.

Entrei no chuveiro e liguei a água, deixando que caísse ruidosa sobre a minha cabeça, tentando esquecer do mundo e pensar numa solução. Só ouvia o som da água caindo na cabeça e escorrendo pelos ouvidos, pelo rosto. Só dei por mim quando ouvi o som da porta do box se abrindo e Beth entrando no chuveiro comigo. Nu. Desprotegido. À mostra. Ela se aproximou de mim, beijou o meu rosto, o meu pescoço, como se nada lá tivesse, e desceu devagar. “Sei de uma coisa que vai te fazer melhorar rapidinho”, ela disse.

Quando saí do banho, mal podia me olhar no espelho. Vergonha de mim mesmo. E ela tinha me aceitado de volta. Passei a mão pelo espelho embaçado para ver os meus olhos me recriminando e o meu pescoço sem marcas. Beth passou por trás de mim, enrolada em uma toalha. Me beijou a nuca e disse, “vem logo tomar o chá pra não esfriar”.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Do envelhecer

Envelhecer é um dessaturar lento de emoções.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Certezas

Você acredita em amor?
Como é que é?
Acredita ou não acredita?
Por que a pergunta?
Não quer responder, é?
Tem certeza que quer ter essa conversa agora?
Por que não?
Não tá se divertindo?
O que uma coisa tem a ver com a outra?
A gente não pode simplesmente deixar as coisas seguirem o seu rumo?
E que rumo que elas estão seguindo?
Você não tá feliz?
Sabe o que falam da gente?
Desde quando você se importa com o que falam da gente?
Você não acha que a gente tá pronto pra um passo a mais?
Como assim?
Você não tem idéia mesmo?
Você quer dizer... casar?
Por que a surpresa? Você não pensa no futuro?
A gente não pode mesmo pensar no presente?
Isso te assusta muito, né?
E não é pra assustar?
Você me ama?
Desde quando uma coisa impede a outra?
Isso que dizer que sim ou que não?
E se for?
Qual dos dois?
Faz diferença?
Quando chegar a hora, você vai estar pronto pra escolher?
Entre os dois?
Quando tiver que escolher, o que vai ser? Vai encarar esse seu medo besta ou vai jogar fora tudo que a gente construiu?
O que a gente construiu?
Você nunca tem certeza de nada?
Você nunca fica na dúvida?
Quer saber do que eu duvido realmente?
Do que?
De que eu ainda ame você.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Relato em azul

Percorreu a última letra com menos pressa. A bola metálica da esferográfica rolando sobre o papel com um ruído inaudível, deixando para trás um rastro azul, uma letra e, finalmente, um ponto. Embainhou com calma a caneta no porta-canetas inox. Releu com atenção a página. Amassou a folha até que se tornasse uma bola compacta de celulose e alguma tinta desperdiçada. Atirou-a, pela janela aberta, contra o fim de tarde mal cheiroso que o vento trazia do rio. No contraluz, silhuetas de hotéis luxuosos e centros empresariais milionários se erguiam do amontoado de casebres rotos e baixos espalhados ao redor. Ali, a distância entre a miséria e a riqueza se media em andares. Se se esforçasse, poderia ver um daiquiri sendo mexido no ofurô de uma das sacadas distantes. Muito mais abaixo, no rés do chão, uma poça servia de refresco para uma criança barriguda ou um cachorro magro. É tudo lixo, tudo é podre.

Já tinha atirado mais páginas pelas janelas do que colocado na rasa pilha sobre a mesa, quando um ruído abaixo da janela dispersou-lhe os pensamentos. Debruçado no parapeito pôde ver, dois andares abaixo, duas crianças, pouco menos que adolescentes, a revirar o seu lixo. A primeira estava abrindo as folhas, transformando as bolas de papel novamente em folhas mais ou menos planas. A outra as empilhava umas sobre as outras. Pôde jurar que um resto de sol tinha brilhado sobre os meninos, numa luz muito fraca para ser percebida por alguém além dele. Um dos garotos olhou para cima e, ao vê-lo, assustou-se. Juntou as folhas e partiu correndo, no que foi seguido imediatamente pelo outro.

Ele ficou observando até os garotos sumirem por entre os casebres escurecidos pela hora. Demorou-se na janela, ruminando algo que lhe nascia junto com a noite. Retornou à mesa, tomou mais uma folha em branco, desembainhou a caneta e fez a esfera metálica na ponta do artefato correr veloz pelo papel, cuspindo letras, palavras, personagens, amarrados por um fio azul que seguia a bola prateada de uma nova história. Escreveu três páginas de um conto breve de aventuras ribeirinhas juvenis. Amassou as folhas em uma bola frouxa de papel e tornou a abri-las. Apoiando-as sobre a mesa, passou-lhes a mão por cima duas vezes, para suavizar os vincos. Desceu com o conto nas mãos, entrou no beco ao lado do prédio e, bem abaixo de sua janela, pousou as folhas abertas sobre um caixote de madeira, calçando com uma carcaça quebrada de celular descartado. Subiu ao apartamento e escreveu mais algumas páginas. Desta vez, colocadas sobre a pilha de folhas escritas em sua mesa. Jantou satisfeito olhando pela janela a cidade escura onde, em algum lugar, havia alguém para quem escrever.

O cheiro do rio chegando pela janela denunciava o horário. Foi ao beiral e ficou espiando ao canto, escondido. Os dois vultos jovens não tardaram a aparecer, esgueirando-se rentes ao prédio. Um dos garotos começou a remexer o lixo quando o outro lhe chamou a atenção. Tomou as folhas, percorrendo rapidamente de cima a baixo, os olhos saltando rapidamente pelas linhas preenchidas à caneta. Os garotos se olharam com um início de sorriso trocado e logo olharam para cima, de repente. Da janela ele não pôde perceber se eles o haviam visto. Mas viu-os partirem correndo em seguida, com risos trocados e, se ele não se confundira, um pequeno e discreto saltitar de alegria. Respirou fundo o ar úmido de aroma duvidoso e retornou à escrita, colocando a esfera metálica na ponta da caneta para trabalhar novamente.

Mais um conto breve, de quatro páginas. Uma continuação do anterior, repetindo personagens em novas aventuras. Numa vida ribeirinha e difícil, mas cheia de esperança, descobrindo um caminho para além das dificuldades. Dessa vez não amassou as folhas. Desceu novamente à viela ao lado do prédio e pousou-as de novo sobre o mesmo caixote. Cobriu-as com a mesma carcaça de celular abandonado. A alvura das laudas perfeitas com as letras de azul vivo destoava do lixo triste, mas ele achava que isso já não assustaria os seus novos leitores.

Subiu devagar os degraus até o seu quarto, imaginando em que condições aqueles textos estariam sendo lidos. Surpreendeu-se com a mente percorrendo as vielas à procura de um abrigo onde folhas amassadas de uma história juvenil entretinham um par de crianças que ainda se permitiam sonhar além daquela planície, do rio, dos casebres e das torres luxuosas dos hotéis inacessíveis.

Entrou no quarto e debruçou-se novamente na janela aberta, olhando aquele marrom acumulado de madeira descartada e zinco velho que forma uma massa de casas e vidas e papelão empilhado. Do meio daquele emaranhado de vidas amontoadas, cresciam resplandecentes as paredes envidraçadas dos hotéis. Como se os primeiros fossem o adubo que, enterrado, alimentava o crescimento dos segundos. Nas paredes envidraçadas, o reflexo da podridão. Como a lembrar-lhes de quem eram. A esfregar-lhes nas fuças o cheiro que tinham. Enquanto, lá no alto da torre espelhada, as janelas eram só reflexo de sol, céu e nuvens.
Da sua janela olhava a planície com aquele cenário com o qual se acostumara, como tinha se acostumado ao cheiro forte do rio nos fins de tarde quentes. Baixou os olhos para o lixo na viela ao lado do prédio, onde viu as páginas do conto contrastarem brancas contra os rejeitos. E percebeu-se no segundo andar.

Foi como se uma lufada forte do vento fedido o tivesse golpeado. Desequilibrou-se levemente, a cabeça tonteou como quem se levanta rápido demais. Agarrou-se ao batente até recuperar a estabilidade. Levantou o olhar de novo para planície. Viu os casebres tristes e encontrou, refletido nos vidros de um dos grandes hotéis, o seu prédio. Na parede refletida cravejada de janelas, em uma delas, muito distante, pequena demais, um homem olhava-o de volta. Àquela distância, sem feições. Mas irremediavelmente familiar. Travou uma guerra com o homem refletido, que o fitava severo, como uma aparição que insiste em assombrar o assombrado. Encarou o antagonista distante por vários minutos, na esperança que ele desistisse ou se cansasse. Mas era irredutível, o homem reflexo. Não pôde suportar o confronto por muito tempo. Acabou por baixar o olhar às casas podres, às cercanias, à viela ao lado do seu prédio e, finalmente, ao lixo onde repousavam as folhas alvas marcadas de tinta azul.

Deu as costas à janela num movimento brusco, sentou-se à mesa de madeira e, com um acenar violento do braço, limpou-a de tudo que a cobria. Tomou o bloco de folhas brancas, resgatou a caneta que havia caído no chão, já fora do porta-canetas, arrancou a tampa com os dentes e a cuspiu longe. Baixou a cabeça sobre a primeira lauda, pousou a ponta da caneta na primeira linha e, com um leve impulso, pôs a esfera metálica em movimento, deixando para trás um rastro de azul pastoso. A esfera acelerou sozinha e foi ganhando velocidade. Deixando para trás letras, palavras, parágrafos. Personagens e histórias e críticas e idéias e sonhos impossíveis. Deixando para trás uma pasta azulada de pedaços de autor esmagados por uma minúscula esfera metálica que não cessava de rodar. Não percebeu o cheiro ribeirinho que vinha se esgueirando pelo ar, escalando as paredes do prédio e espiando pela janela aberta. Não percebeu a escuridão que o acompanhava ao encalço, esticando os dedos por sobre a planície, cobrindo os casebres, esgueirando-se pelas paredes, apartamento a dentro. Deu, instintivamente, um tapa no botão da luminária que havia se equilibrado na ponta da mesa, elevando uma redoma de luz que impediu a entrada da noite nas páginas que iam se preenchendo rapidamente. Não viu quando a noite recuou da sua janela para englobar o resto do mundo. Nem reparou nas poucas estrelas refletidas nas torres espelhadas e nas águas dos ofurôs das sacadas distantes. O tubo azul dentro da caneta ia diminuindo de tamanho enquanto as folhas se empilhavam ao lado, prenhas de algum gozo azulado que vertera o autor. Prenhas de um gozo estéril.

Não notou a luz amarelada que se ergueu do rio e escalou suas margens, se esgueirando por entre os casebres e se refletindo, já azulada, nas fachadas de vidros acordando. Não pensou se a viela ao lado do prédio havia recebido a visita de duas crianças na noite anterior, como não pensou se a luz acordara o homem refletido na janela distante na parede de vidro. Apenas olhava a folha branca se maquiando de azul e a mão dormente seguindo os movimentos constantes da caneta que obedecia às vontades de uma bola de metal rolando sobre o papel, a tinta e a luz já desnecessária da lâmpada fluorescente sobre a mesa.

De repente a esfera parou. A caneta estancou. A mão relaxou. Os olhos cansados acompanharam a última folha ser levada até o topo da pilha. Largou a caneta, desligou a luminária e, finalmente, levantou a cabeça para ver um dia amanhecendo pela janela aberta. Arrastou-se até a cama e deixou-se cair sobre as cobertas e num sono raso de sonhos vacilantes.

Acordou ao fim da tarde. Retornou à sala e ficou, da porta, admirando a pilha de folhas sobre a mesa. Preparou um café e deixou que o cheiro da bebida tomasse o apartamento, antes que o cheiro do rio o fizesse. Xícara em mãos, ficou de pé ao lado da mesa. Alternando o olhar entre as folhas escritas e a janela aberta. Pousou a xícara na mesa, abriu uma das gavetas e tomou um barbante com o qual envolveu as folhas amarrando-as em um fardo. Foi à janela, olhou para baixo e viu apenas lixo, com a carcaça de celular inútil diretamente sobre o caixote de madeira. Conferiu as horas, calçou um par de sapatos velhos e terminou o café. Pegou o fardo de folhas, saiu pela porta do apartamento e deu duas voltas na chave pelo lado de fora. Desceu as escadas até o térreo, saiu pela porta principal e entrou na viela lateral. Deixou o fardo sobre o caixote com o resto de celular em cima. Deixou a viela, atravessou a rua, afastou-se mais alguns metros e pôs-se a esperar, encostado em um muro forrado de cartazes sujos com imagens serigrafadas de jogadores de futebol.

Decidira deixar a torre de marfim. Não seria digno escrever, lá de cima, sobre ali embaixo. Era preciso estar lá. Onde a história era feita, onde a história era lida, onde os personagens se encontravam com os leitores. O cheiro do rio chegou lembrando-lhe das horas. O sol era agora só um reflexo alaranjado nas fachadas de vidro do alto dos prédios. Ali embaixo, a noite já chegava aos poucos. Não tardou, o cheiro do rio trouxe o que prenunciava. Os dois garotos entraram na viela correndo, agitados. Àquela distância poderia supor, felizes. Uns dois minutos passaram até que eles saíram, ainda mais agitados, com o volumoso fardo nas mãos e com sorrisos desenhados nos dentes protuberantes. Saíram saltitando, lépidos, com o mais recente volume de suas histórias. Muito maior que os anteriores.

Mantendo uma distância segura para não ser percebido, seguiu os dois jovens, disfarçando o melhor que podia sem perder os dois de vista. Percorreu ruas feias e estreitas, desviou dos olhares desconfiados, até que viu, de longe, os garotos se esgueirarem por uma portinhola estreita para dentro de um barraco muito pequeno para ser considerado mesmo um casebre. Passou vários minutos ponderando se deveria intervir, se deveria ter com os leitores antes da leitura. Se deveria esperar para retornar mais tarde para conversar só depois que a história tivesse sido lida. E se eles não gostassem da história? Talvez nem tivessem entendido as histórias desde o começo. Talvez pedissem para os pais lerem para os pôr a dormir. Talvez, ao contrário, tinham de ler escondidos, escapando à vista dos pais. Que diria, ao chegar? Não sabia como se apresentar. “Olá, eu sou fulano, sou eu que escrevi essa história. Vocês gostaram?”. “Como vai? Boa noite, gostaram da história? Eu tenho mais algumas, posso trazer”. Sem tomar decisão alguma, como se os minutos o empurrassem, como nos fazem os minutos fez por outra, a nos levar de cá para lá e a dirigir-nos assim como fôssemos pontas de canetas sobre papel, deu por si frente à porta de madeira emendada. Bateu duas vezes na porta, mas a segunda pancada não chegou a acertar a madeira. Ao primeiro golpe a porta se abriu devagar, revelando um interior humilde de um cômodo pequeno.

Numa parede lateral, uma portinhola coberta por uma cortina de tecido velho apenas, provavelmente um banheiro ou um quartinho. Na parede dos fundos, um pedaço de cartaz de jogador de futebol colado à madeira um tanto furada. Na outra lateral, três tábuas horizontais encostadas à parede faziam às vezes de bancos e camas. No centro um fogãozinho improvisado com tijolos, com o braseiro aceso e água borbulhando espumante numa panela de ferro enegrecido. Ao redor dela, além dos dois garotos, uma menina bastante mais jovem, com uma boneca manca nos braços, e outra, um pouco mais velha que todos. Essa, com o fardo de folhas numa mão enquanto, com a outra, arrancava as páginas colocando-as na sopa borbulhante. Um dos garotos, com uma colher, mantinha a infusão em movimento. O outro mastigava uma pasta esbranquiçada e úmida. A pequena mandíbula cessou o movimento ao surgir do visitante. As quatro crianças se refugiaram, abraçadas, junto às camas. Olhos temerosos, corpos tremendo, um chorar baixinho e assustado da mais jovem. Do lado da panela ao fogo, uma boneca manca caída e um fardo de papel prenhe de um gozo estéril.

domingo, 10 de maio de 2009

Poema às costas tuas



Poema às costas tuas



No teu verso

meu verso

que às tuas costas

aporta

terça-feira, 5 de maio de 2009

Prima Donna

Do alto do palco era difícil identificar os rostos da platéia. Certamente teria alguns conhecidos, sem dúvida os pais — a mãe de olhos chorosos orgulhosos— mas era-lhe impossível distinguir quais as cabeças enegrecidas pelas sombras lhe eram familiares. Sobre ela, a luz forte cintilava-lhe os cabelos louros espiralados. Um farol brilhante frente um mar de expectativas.

No silêncio que antecedia a primeira nota, permitiu — como se tivesse escolha! — à memória levar-lhe à primeira nota que lhe tocara o coração. Estava de quatro, os joelhos no azulejo, as mãos metidas na espuma, a esponja indo e vindo pelo chão. Um som agudo, poderoso, disparado por uma caixa de som em algum lugar, percorreu cômodos, corredores, adentrou a área de serviço, contornou a tábua de passar e tomou-a por trás. Pôde sentir a nota possuí-la, pondo-a de pé num susto. As notas seguintes a dardejaram quase fazendo-a tombar sobre a pilha de roupas a passar. A melodia envolvente, a potência do som, e, de repente, o silêncio completo.

Seguiu receosa em procura da origem do som. Passou pela cozinha até chegar na sala. Viu a patroa com a última edição da mais famosa revista de personalidades. Colado à capa vermelha de letras brancas, um encarte escuro, com letras douradas e uma daquelas pinturas antigas de homens de peruca e meias até os joelhos.

— Que música era aquela, Dona Marlene?

— Ah, veio nesse CD junto com a revista — disse a patroa atirando o encarte e o CD, recém tirado do aparelho de som, no sofá. — Que gritacêra, né?

— É mesmo. Que alto! Mas até que achei bonito.

— Mesmo? Quer ficar pra você?

— Pode mesmo, Dona Marlene?

— Pode sim, Carmen. Fica de presente. É muita gente gritando pro meu gosto — disse rindo.

— Puxa, ‘brigado, Dona Marlene. E pode deixar que eu já vou terminar o serviço. Depois eu ouvo isso.

— Ouço, Carmen. O certo é ouço. Ouvo não existe.

Voltou ao balde enquanto a patroa ria-se da sua ingenuidade e punha-se a par da nova gravidez da cantora-apresentadora-modelo-atriz de televisão.

O silêncio no palco se sustentava. A excitação da platéia no salão lotado, por pouco, faiscava. Como se houvesse uma eletricidade no ar. A arrepiar-lhe os pelos do braço, como a lembrança daquele dia em que chegou em casa com o CD de brinde da revista de personalidades.

Leu com certa dificuldade os nomes incomuns no verso do encarte — um até bem parecido com o dela — enquanto a música tomava conta do quarto apertado, escorrendo pelas caixinhas de som do portátil no chão, ao lado da cama. O quarto foi se enchendo pelo som que subiu pelos rodapés faltantes, pelos pés da cama, numa melodia fluida, densa, até transbordar-lhe pelos olhos. Naquele dia decidiu o que queria para si. Nos meses seguintes o quarto permaneceu alagado pelas vozes possantes e melodiosas, pelos acordes profundos, penetrantes, reverberantes. Foi à loja de usados em busca dos números passados da revista que também viessem com CDs. Procurou CDs usados dos nomes estampados no verso do encarte. Garimpou nos camelôs títulos semelhantes. E passou todas as suas noites ouvindo aquelas vozes, deixando-se inundar até que elas lhe transbordassem pela boca. Até que ela estivesse ali. No silêncio suspenso, no alto do palco, sob a luz.

Quando abriu a boca pôde ouvir a platéia prender a respiração. Até os cupins nas paredes carcomidas de madeira e as traças nas cortinas furadas de pano vulgar cessaram seu mastigar. O próprio palco de tampo de mesa sobre cavaletes arqueados parou de balançar. As cadeiras de palha trazidas emprestadas dos casebres próximos pararam de gemer. A luz sobre a cabeça iluminou o vestido reformado e fulgurou nos seus cabelos louros quebradiços e enrodilhados. E a primeira nota veio-lhe escalando a garganta, percorrendo o interior do pescoço, saltitando pela língua, apoiando-se nos dentes e, num último impulso, precipitou-lhe dos lábios. Cortou o ar uma nota e meia longe do tom, tremulou até quase chegar perto do tom desejado, e ali ficou. E foi seguida por outras notas rápidas, apaixonadas, igualmente imprecisas. A platéia atenta, a mãe às lágrimas em alguma cadeira nas sombras, o velho pai orgulhoso. O palco finalmente era dela.