sábado, 30 de agosto de 2008

Emanuella e Leonardo

Era a segunda vez que ela entrava por aquela porta. No grande candelabro que pendia do teto, as luzes despertaram iluminando a sala. Emanuella pôde rever o lugar onde tudo começara. Os quadros na parede, o piso claro contrastando com os sofás negros estampados onde ela estivera sentada da última vez. Leonardo fechou a porta fazendo-lhe sinal para entrar. Ela sentou deixando de lado a bolsa, observando com o canto do olho ele se aproximar e parar na sua frente, de pé. Ela levantou a cabeça aparentemente meio tímida, mas com um sorriso maroto nos lábios, ajeitando o cabelo atrás da orelha. O rapaz a olhava sorridente e, tomando-a pela mão, fez com que levantasse.

— Não quer ficar na sala? Ela perguntou sorrindo nos olhos dele.

— A sala você já conhece, você não queria ver a minha biblioteca?

— Aquela que você disse que ficava na estante ao lado da cama? Falou piscando com malícia.

Ele apenas sorriu e, de mãos dadas com ela, saiu pela porta rumo ao corredor que levava ao interior da casa. Pelo corredor, cruzaram a cozinha e logo depois uma porta fechada. Vendo que o olhar de Emanuella se deteve ali, Leonardo antecipou-se:

— É o porão. Não tem nada demais. Nada que você vá gostar de ver, de qualquer forma. Só coisas sem valor e pouca luz. Ele disse, enquanto passavam por uma escada que levava ao sótão.

— Uh! Um sótão! Sou apaixonada por sótãos. Acho tão legal.

— Mesmo? — ele perguntou — Eu também! Mas agora ele tá um pouco bagunçado. Muita coisa velha. Tenho que tirar um tempo pra fazer uma boa faxina e abrir espaço pra móveis novos.

— Sei... E um dia você me mostra? Ela perguntou com os olhos brilhando.

— Só se você se comportar, Ema. Ele brincou em resposta.

Ela aproximou o rosto dele, desafiante, e perguntou: — E se eu não me comportar, Leon...

Antes que ela terminasse a frase, ele a tomou pela cintura e cingiu-lhe os lábios com um beijo ofegante, intenso. Quando os lábios se afastaram ela aproximou a boca do ouvido do rapaz e sussurrou: — Você não ia me mostrar a sua biblioteca?

Ao atravessar a porta no final do corredor, ela conheceu o quarto. Um armário simples em uma parede; no centro uma grande cama de casal, guarnecida por apenas um criado mudo e, na outra parede, ao lado da cama, uma estante de madeira branca bem acabada, destacando o colorido das capas de livros. Ela aproximou-se devagar da estante, sentindo as mãos de Leonardo tocarem-lhe o vestido sobre os quadris, e seu respirar logo atrás de si, arrepiando-lhe a nuca delicada.

Ela percorreu com o dedo, de cima a baixo, a lombada do Madame Bovary, lembrando das piadas daquele primeiro encontro e sentindo o zíper escorregar-lhe pelas costas, da nuca até a cintura, mimentizando o movimento que fazia no livro. Sentiu na orelha o hálito quente, ouvindo baixinho a respiração de Leonardo, enquanto o vestido escorria-lhe pelo corpo, pousando no chão. A pele arrepiou-se sentindo o homem às suas costas e todos aqueles tantos, na estante, a sua frente. Desvendando-lhe a nudez da lingerie que despencava do corpo indo unir-se ao vestido aos pés da estante. Ela com as mãos passando pelos livros, descobrindo-lhes as capas, enquanto ele, também com as mãos, percorria-lhe o corpo, descobrindo-lhe os segredos. Ela, que estava diante de tantas histórias, sentia-se cada vez mais envolvida pela sua. Sentiu o jeans roçar-lhe a coxa enquanto descia, e sentiu-o passar pelas panturrilhas a caminho dos tornozelos de Leonardo. Pousou as mãos da estante, em suspense, tocando com os dedos o Marquês deslumbrado por seus Crimes de Amor. Passaria ele cento e vinte dias assistindo aquele corpo arrepiado, de seios eriçados nus oferecendo-se a ele. Emanuella sentiu o rijo contato com um arrepio, inclinando os seios de menina quase a tocar o rosto de Nabokov, provocando o russo, entregando-se ao brasileiro. Leonardo lhe cingiu as ancas com as mãos enquanto ela lhe cingiu o falo com o sexo quente. Entregaram-se um ao outro, ritmados, envoltos por tantas histórias; ela sendo possuída por todas. Uma das mãos lançadas atrás, agarrada à coxa do consorte, enquanto a outra já apertava Sade com força crescente, que se deleitava sob as unhas da espanhola. No pescoço, sentia os dentes de Leonardo em contraste com os lábios macios, e o roçar de uma barba de três dias. Do alto, invejoso, Stoker empoleirava-se gótico, qual gárgula sedento. Olhando por sobre o ombro, Emanuella matou a própria sede dos lábios de Leonardo. Lábios nos lábios, línguas nas línguas, sexos nos sexos. Ela pressionada entre o brasileiro e todos aqueles na estante, num ritmo cada vez mais intenso. Os dois ofegantes, provocando todas aquelas histórias com a sua, muito vívida, mais quente, mais úmida. Com mão lançada para trás tocou o abdome do rapaz afastando-o. Apenas espaço e tempo suficientes para virar-se de frente para ele e puxá-lo de volta de encontro aos seus seios. Os corações batendo-se um contra o outro, precisos, velozes. Os sexos, separados, se reencontraram num beijo úmido, as línguas se abraçaram nas bocas quentes. E pernas espanholas envolvendo a cintura que retornava para ela. As mãos dele agarrando lhe as coxas enquanto suspendia o corpo pressionado à estante. Às nádegas ofertadas a um velho safado que se divertia com as crônicas daquele amor louco, enquanto, ao seu lado, três meninas perdidas saiam dos quadros de Moore para acrescentar mais aquela história as suas.

A estante tremia com os amantes, todos num mesmo ritmo. Cada vez mais intenso, cada vez mais acelerado, com um balançar frenético que expeliu os livros. Emanuella com braços e pernas envolvendo Leonardo sentia escorrer os livros ao chão, a estante aliviada, as capas abertas, ouvindo apenas o arfar satisfeito da realização dos amantes. Ela no colo dele, ele envolvido por ela. Ambos cercados por uma história que não caberia em nenhuma estante. Não caberia em nenhum livro. Não caberia naquela noite. Nem em mil e uma outras.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Cansei de ser pedante.

Cansei de ser pedante.
Vou ser tosco e desregrado.
Beber Bukowski e cheirar dos Anjos.
Rasgar o verbo na sarjeta literária.

Vou acordar no beco com o beijo dos cães.
Ter versos cantados pra putas de tetas caídas.
Vou vender o Kafka que me restou,
pra comprar um cigarro avulso e literatura de quinta.

O clássico ficou velho. Caduco.
Não me emociono mais com um mictório qualquer,
nem com um neólogodepalavrasgrudadas.

Com o verbo tosco que me resta,
serei pequeno e medíocre.
Vou mandar o mundo,
a arte,
à merda.

E andar fedido pelos becos até que um mendigo me deite veneno ao ouvido.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Os Irmãos van Loon (ou A Mulher de Prata)

O verão belga era agradável. O sol esquentava sem tornar-se demasiadamente quente. O clima de euforia e as cores e festejos e esperanças e sonhos transbordavam. E o mundo, que deixava as marcas tristes e monocromáticas de uma guerra, hasteava uma bandeira branca, com cinco anéis coloridos. Uma bandeira jamais vista, em nação alguma. Uma bandeira para todos. Sob ela, nove homens, um sonho, um objetivo. Dourado como o sol do verão belga. Como os cabelos da bela moça que, da arquibancada próxima, assistia as disputas mais acirradas. O olhar percorrendo os corpos de músculos suados expostos. Homem a homem. Ela conferiu cada um dos competidores, uns atrás dos outros de um lado. Uns atrás dos outros do outro. Entre eles, apenas a corda estendida, tensionada, disputada pelos dois times. Os últimos homens da delegação dos Países Baixos eram os van Loon. Envergando juntos o azul, branco e vermelho, eram a âncora que suportava a equipe, enquanto os outros se encarregavam de puxar para si a corda e, com ela, os adversários. Eles sabiam que, se quisessem se sagrar campeões, teriam de confrontar-se com as suas próprias cores, a favorita Grã-Bretanha, finalista das últimas olimpíadas. Mas eles tinham a âncora holandesa. Os irmãos van Loon. Willem e Antonius.

Mas quiseram os deuses olímpicos que o sol brilhasse nos cabelos louros daquela moça. E que seu olhar se detivesse sobre os van Loon. E entre os jogos, ela se encontrava secretamente com Willem e com Antonius, sem que um soubesse do outro. E quiseram os deuses que, inspirado pelos anéis estampados na bandeira branca, Willem lhe propusesse também um anel. Casar-se-iam, conforme os planos do van Loon mais velho, após os jogos, e ela retornaria com ele para os Países Baixos. Mas a moça, confusa e ofuscada pelo esplendor dos atletas, apaixonada por ambos, prometia-se também ao mais moço dos irmãos. Propusera-lhe Antonius que ficassem juntos após os jogos. Ele ficaria na Bélgica com ela, para muitos outros verões, deixando que a delegação retornasse sem ele à terra natal. E foi o fio louro de cabelo que acabou com a âncora holandesa. A maior esperança do cabo-de-guerra dos Países Baixos perdeu-se na disputa, não pela vulgar corda olímpica, mas pelo delicado fio sedoso dos cabelos de uma belga.

A moça não conseguia decidir-se entre apenas um dos irmãos. Eles, apaixonados e cegos pelos radiantes cabelos ensolarados, cravam-se como âncora no solo e angariavam vitórias no torneio, junto com seus companheiros. Finalmente a grande final se pintou toda de azul, vermelho e branco. De um lado, a equipe britânica, do outro, os Países Baixos. Entre eles, uma corda. E uma mulher. A moça de cabelos cor de ouro sentou-se na primeira fila para torcer por seus amantes. Sorrindo-lhes e acenando, ambos tomavam para si os gestos. Mas quiseram os olímpicos que a moça de cabelos de ouro, tornasse-se a mulher de prata. E foi, ironicamente, o anel de ouro na mão da moça, que tirou o ouro da mão dos van Loon. Com o sol batendo-lhe nas madeixas louras, ela levantou a mão e, sorrindo, fez com a cabeça um sinal afirmativo que abriu um sorriso imediato no rosto de Willem, cuja alegria lhe rendeu forças para cravar-se ainda mais profundo no solo, selando qualquer chance dos britânicos moverem-no. Com isso o time dos Países Baixos retomou a ofensiva, puxando os adversários e arrastando-os com a corda. Mas o sorriso de um van Loon, foi a desilusão do outro. Ao perceber sua derrota para o irmão mais velho, ao perceber que perdera sua amada, Antonius perdeu também as forças. Partiu-se então a âncora holandesa, e afundou o sonho dourado. A mulher de prata assustou-se ao ver os britânicos arrancarem os seus desafiantes do chão e, com corda e adversários puxados para o seu lado do campo, sagrarem-se campeões do cabo-de-guerra das Olimpíadas de 1920. Mais assustada, ficou a moça ao ver seu futuro marido aturdido sob os punhos e insultos do irmão mais novo. Assustou-se ainda mais quando a violência generalizou-se na arena, entre o próprio time. Amargurou-se quando Willem, sabendo de tudo, desistira do casamento.

A lembrança do ouro perdido dos van Loon restou cintilante no dedo da mulher de prata. Desde então, nunca mais houve outro campeão de cabo-de-guerra nos jogos olímpicos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Poesia Twist. Poemas com um toque de limão.

Quando eu era bem mais novo, havia um limoeiro em minha casa. Pequeninho, mas dava uns limõezinhos. E lá ia eu, catava um limão e, não muito esperto, chupava. Era azedo. Não tinha jeito de chupar aquilo sem fazer careta. E se tinha um corte ou uma afta na boca, pior ainda. Aquilo ardia como os diabos. E o pior é que depois de tudo isso, não tinha como não repetir o processo. E eu ficava ali. Chupava o limão azedo, fazia careta, ardia, mas continuava. Excluindo-se a possibilidade de eu ter sido uma criança não muito esperta ou possíveis tendências masoquistas, é mais ou menos isso que aconteceu quando comecei a folhear Falações, livro de poemas de Marcelo Labes.

Não foi fácil ler Falações sem fazer careta. Labes destila um suco ácido e, com freqüência, azedo. E eu cá com minhas aftas e cortes, volta e meia senti arder os versos do autor. Falações se divide em quatro momentos distintos. Altenatintas abre com o solitário Até Quando e já pincela os primeiros elementos melancólicos que vêm se repetir mais tarde, e lembra, com uma escada 'reta em caracol', que “não se pode voltar atrás / quando se diz que ama”. Fiação e Tecelagem traz a acidez na leitura da vida operária “de 8 horas trabalhadas / e 16 de aflição” que termina com “casa na praia encostada / carro do ano passado / e plena realização: / artrite artrose bursite / aposentadoria e caixão”. É seguido pelo azedo Manhã, difícil de engolir como a constatação “Por que não respondes? / Meu Deus, / estás fria!”. No capítulo se destaca ainda O Barco, que atenta em letras garrafais “NUMA CIDADE VITRINE / FORA DE TOM É PECADO”, num retrato de um barco que “porque não navega / não pode ser afundado”. Este poema, ao lado de Fiação e Tecelagem, torna difícil sair de manhã e não rever suas linhas na nas ruas da cidade. Mas ainda assim, tudo parece passar voando, quase despercebido pela maioria. Como descobre Passarinho com seu final seco e despreocupado “Que foi isso? / e virou-se para o lado. / Passarinho na janela, / disse ela”. Assim fica mais fácil concordar com o narrador em Bi-bap-dera-nudara, que pede: “Acende, Maria, o pavio / e deixa a vida explodir”. O capítulo encerra escarrando suas verdades, tentando aparentemente expeli-las, livrar-se delas com Expectorante, que tenta com força “Cuspir fora saudade, lembranças. / Cuspir fora saudade, tristeza. / Cuspir e ver escorregar. / Verde”.

Em Reflexscintos destaco o lírico Canção que parece, junto com Sapiência Cartesia uma tentativa do autor, não em definir-se, mas em encontrar-se. Chamou-me a atenção o fato de que, nos dois poemas, o poeta o é, através dos outros, nunca de si mesmo. Em Canção “Eu me chamo aquilo que dizes”, “Eu me chamo o nome que vais dizer”, “Eu chamo / a tua alegria / ao repetires o som / do meu nome” e em Sapiência Cartesiana “E os que me querem saber / acabam me sendo. / Sou todos os que me sabem eu”. O poeta, procurando encontrar-se, perde-se (ou finalmente encontra-se) no leitor. O autor deixa-se arrebatar novamente pela estética crua, curta e grossa no impactante In Vitro que encerra o beijo com trinta e dois dentes quebrados. A saudade também deixa sua acidez em Ontem e Simplificante, uma saudade que arde como limão em boca machucada.

Febres traz uma série de dez poemas. O capítulo tem, evidentemente, certa unidade semântica e mesmo estética, mas esta é solta, flertando com o son sense, os poemas bastante independentes. Dentre as febres de Labes, chamo atenção para Febre#07 onde o tornar-se adulto é chato mas sem remédio, Febre#08 com o poeta em busca do grande poema, mas termina entregando-se “escreveria o grande poema / se soubesse por que”. O ótimo Febre#10 retorna com toda a acidez e inunda nossas chagas com o ardor da constatação: “Caíram-me os pêlos, / a origem insiste. / Bicho”. Febre#12 retoma o ataque ao “Produto financiado / por bandas de rock inglês / e poetas franceses / que não compreendes”.

Por fim, intransiGENTES, encerra os capítulos num apanhado da obra. para paula (assim, em minúsculo mesmo) brinca com as palavras “plantandolorosamente um canto”. O Filósofoso “Tentou viver de idéias / e morreu de fome” e acabou por “pôr para fora as verdades / que só a ele pertenciam, e mais ninguém”. Em Iminência percebe-se “Que não valia a pena / viver sob certas iminências” e nos afogamos junto com os personagens. Mas em Findados o narrador ensina: “Vós, que morrestes, o mundo, / o mundo é sempre dos vivos”. E retoma com Cíclico sobre aqueles que se deixaram afogar: “(e há uma semana enterrado, / o que terá pensado / quando o primeiro verme matutino / veio lhe perfurar a coxa)”. Ainda assim Fatalidade parece lembrar que esse mesmo afogamento é inevitável: “Causa mortis: afogamento: não parava de chorar.” Retomando estas constatações Ratos encerra rápido, dinâmico (quase musical) e ainda ácido um apanhado de verdades roídas e a presciência “Vai ter pesadelo, filhinho / e acordar com a cara inchada”.

A obra conta ainda com um ensaio de José Endoença Martins, localizando Labes dentre os poetas blumenauenses. Vale a pena ler até para descobrir novos nomes da poesia de Blumenau.

Ao espremer Falações, o leitor deve também se deparar com o mesmo sumo ácido que me chamou a atenção. E cuidado: se você também tiver algumas fissuras, a leitura pode lhe arder à boca. Se há algo de doce em Falações — e há, se dúvida — serve para aumentar o contraste com a acidez da obra. Mas se você for como eu, vai perceber que não é tão fácil largar Falações, mesmo fazendo careta. Talvez a resposta não esteja impressa no livro, mas uma pista descobri na página de rosto. Adquiri o livro do próprio autor, no lançamento, com o devido autógrafo e dedicatória. Como de costume, só li a dedicatória em casa, quando fui dar as primeiras folheadas no livro, no dia seguinte. E lá estava, na caligrafia de Labes: “Eu insisto: há que se escrever, há que se escrever mais. Vamos, então, adiante”. Talvez seja isso. Ainda que tenhamos o azedume e a acidez dos limões, é preciso escrever. É preciso ler. Afinal, como dizem por aí, se a vida nos dá a acidez dos limões, façamos, pois, limonada. Ou poesia.

sábado, 2 de agosto de 2008

Por/quês

Meus porquês estão todos partidos.
Fragmentados, com os erres cada vez mais distantes dos quês.
Já não me restam porques unidos. Estes rareiam e logo se separam.
Meus sólidos porques tornaram-se frágeis por ques.
Migalhas questionáveis, incertas. Migalhas duvidosas esses meus por ques.
Dos fortes ancestrais, pouco restou.
Alguma semelhança física, uns poucos traços em comum.
Eis que minhas certezas se precipitam no espaço entre duas letras.

Entre duas letras cabe um mundo.

domingo, 27 de julho de 2008

A Páscoa do Faraó

Hapuseneb brincava com alguns gafanhotos que tinham sobrado da infestação. Cutucava os insetos, que estavam numa gaiola de palha, com um graveto. As amas já o haviam mandado dormir. Queria despedir-se de seu pai, mas elas disseram que ele não devia ser incomodado, que tinha muitos problemas para resolver ultimamente. O herdeiro acabou se cansando dos insetos e foi dormir. No dia seguinte poderia ver o pai.


Era meia-noite quando um som rompeu o silêncio do palácio. Potoc, po-toc. Potoc, po-toc. Lento, constante, se aproximando. Potoc, po-toc. Uma tênue luz rompia a escuridão dos corredores. Como um archote que se aproximava passo a passo. Potoc, po-toc. Um suave cheiro de sangue fresco acompanhava o visitante. O som ou o odor acabaram por despertar um galgo jovem, primeiro da ninhada, presente que Hapuseneb ganhara do pai. O cão ensaiou um rosnado, mas um golpe poderoso o silenciou. Tudo o que conseguiu produzir foi um ganido baixo, antes que um segundo golpe lhe partisse as vértebras do pescoço.


O visitante se aproximou da porta onde jazia o animal. A luz se projetou nos umbrais limpos. Demorou-se admirando os batentes. Só depois entrou, devagar. Potoc, po-toc. Aproximou-se do leito. Potoc, po-toc. A luminosidade se derramou sobre a criança. Uma grande mão espalmada caiu pesada sobre a boca do infante enquanto dedos fortes comprimiam a face como um torno. Hapuseneb acordou sobressaltado, mas não pôde se mexer sob o peso que o comprimia contra a cama. Não conseguiu emitir nenhum ruído, pedir ajuda ou desvencilhar-se. Os braços magros tentavam em vão afastar as mãos do agressor. Os olhos saltados de terror se destacavam na cabeça calva e olhavam com pânico aquele que trazia a luz sobre o seu leito.


— Não há sangue nos umbrais... — Foram as únicas palavras do invasor e as últimas que Hapuseneb ouviria.


Debateu-se o quanto pôde até que um joelho pesado aterrissou abaixo do abdômen, pouco acima do sexo. Balançava as pernas e tentava com os braços se desvencilhar. O assaltante cerrou o punho esquerdo, que estava livre, recolheu o braço para tomar impulso e precipitou a mão como um aríete contra o primogênito do faraó. Os bracinhos magros nem sequer desviaram o golpe, que atingiu o tronco um pouco acima do estômago, no lado direito. A criança gemeu sob as costelas trincadas. Com a dor nem percebeu que a mão de chumbo se precipitava em outra carga, partindo as costelas que, estilhaçadas, tornaram-se pequenas lanças dentro do corpo miúdo. Uma ponta rompeu a pele e ficou espetada para fora, refletindo em vermelho e branco a pouca luz que a iluminava. Ainda com a mão direita amordaçando a vítima, o visitante tomou com a esquerda aquela ponta que se projetava de Hapuseneb e a empurrou para baixo, qual uma alavanca. O garoto gritou histérico, os olhos esbugalhados jorrando lágrimas, o corpo estropiado jorrando sangue, enquanto a mão pesada não deixava escapar mais que um choro cortado e dolorido, enquanto a costela abria caminho por pele e carne como uma adaga cega, até se chocar contra a borda dura da cama e partir-se mais uma vez. O esforço em gritar desenhava no pescoço fino da criança todas as veias e tendões, projetando a traquéia num esforço inútil para ser ouvido. O assaltante aproveitou e, com o polegar e o indicador em pinça, envolveu a traquéia do menino e pressionou com força sobre-humana. Um som estalado da cartilagem silenciou a criança e um puxão brusco rompeu o duto, dilacerando a garganta já puída. O corpo jovem caiu inerte na cama, alquebrado, vermelho, deixado no escuro enquanto a luz se afastava devagar, coxeando baixo pelos corredores do faraó. Potoc, po-toc.

sábado, 19 de julho de 2008

Velho


Já que o tema da rodada do Duelo foi "Idade" (o texto no post abaixo foi o que eu postei lá no Duelo) aproveito e deixa aqui tb uma versão ilustração do tema. Não tem nada demais. Só mais um velho.

Rememoagem

Da meia-água de telhas de barro, observo a atafona distante. Vã e velha. Abandonada. Apenas um moinho em um mundo que já não enxerga gigantes. Obsoleto num mundo elétrico que dá luz e choque sem dar calor.

O tempo dos moinhos se foi, mas ainda me pesa às costas arqueadas. Como as sacas de farinha me pesavam quando garoto, ao entrar e sair por entre as pás ouvindo o gemer da mó. E como as sacas de farinha, os anos se empilham em minhas espáduas e deixam escorrer o branco sobre meus cabelos. Parcos velos que para ceder espaço ao tempo, precipitam-se como de uma ampulheta. E restam-me tão poucos grãos ainda por cair! Grãos alvos de farinha. Alvos do tempo, que os empurra implacável como o vento empurra as pás. Enquanto, dentro do moinho, à pedra resta apenas o vazio por moer e remoer.

Observo a moenda que se rende à idade. E me curvo dócil ao tempo que me arca o corpo. Enquanto o corpo, à última arca, arca. Até que os anos, empilhados todos uns sobre os outros, se desequilibrem e se precipitem junto com os últimos grãos de farinha. Resta-me apenas o tempo que range em migalhas sob a mó.

domingo, 13 de julho de 2008

As formigas do Père-Lachaise

Como prometido lá no Duelo de Escritores, esta é a versão revisada do conto. Pra ver a primeira versão, lá no Duelo, você pode clicar aqui. Mas nem precisa perder mto tempo. As revisões foram as seguintes: na versão revisada, é o garoto argelino quem canta, o que condiz mto mais à história e às metáforas necessárias. Na versão anterior eu tinha feito os turistas cantarem, o que é um disparate sem tamanho que já foi corrigido. Outra mudança, que eu fiquei receoso de fazer, mas optei por seguir em frente foi alterar as últimas palavras. Na versão anterior, o pacote era pago em 24X. Aqui em apenas 12X. Um mudança mínima que não interfere mto na história, que fiz por dois motivos: a) só depois de escrever fui pesquisar pacotes turísticos e vi que a maioria nao passa mesmo das 12X (em geral, no máximo 10). E, a julgar pelos comentários do Duelo, essa passagem parece ter chamado demais a atenção sobre si mesma, pelo número de parcelas, prejudicando o foco do texto, os dialogismos e as metáforas. Assim reduzindo a hipérbole da última sentença, espero redirecionar o foco às figuras de linguagem usadas no corpo da criação, onde o texto é um pouco mais denso (e onde está sua verdade). O porquê dessa enrolação toda antes de mostrar o texto? Achei que seria interessante um vislumbre do modus operandi da criação e, como essas pequenas alterações mudam (ou não, vcs é quem vão dizer) o texto, achei que seria uma boa oportunidade. Agora sim, lá vai o texto. Vamos ver se agora, melhor.

As formigas do Père-Lachaise
A fila caminhava lentamente, como se as câmeras fotográficas pesassem no pescoço de seus portadores. Uma coluna de formigas seguindo algum traço invisível, a caminho do formigueiro. O céu brilhava azul sobre o leste de Paris, imprimindo manchas redondas de reflexos de lentes nas fotografias que seriam reveladas posteriormente. Seguimos o caminho demarcado por correntes grossas que nos levaram até a amurada de pedra, donde, duas estruturas tórreas se elevavam de cada lado do portão. No alto de cada uma, um disco era sustentado por duas tochas cinzeladas na pedra e, no centro deste, pousava esculpida uma ampulheta alada. Fiquei olhando as esculturas na entrada e a fila foi passando sem que eu percebesse. As ampulhetas, imóveis, não deixavam precipitar nem um grão de areia. Ainda que areia fosse tudo o que eram. Compactada, sólida, mas ainda assim areia. Grãos agarrados uns aos outros temendo a queda. E assim, as ampulhetas não se mexiam. Um cantarolar baixinho me tirou os olhos dos muros, e dei por um garoto de pele parda que entoava uma música qualquer em roupas rotas, a certa distância. Devia estar ali há tanto tempo quanto eu, mas só lhe dei conta quando a fila das formigas de bermudas se foi portões a dentro. Com uma mesura lhe cumprimentei de onde estava, ao que ele se aproximou, sorrindo e cantando, e me estendeu uma canequinha de alumínio, só interrompendo a canção para falar alguma coisa com um sotaque do outro lado do mediterrâneo, provavelmente argelino. O meu francês de banco de escola não pôde decifrar perfeitamente o pedido, mas o gesto de quem pede esmola é decifrável em qualquer idioma de um mundo que não se entende. Dentro da caneca, que devia ter sido estendida já a toda aquela fila, tinha apenas um par de moedas. Dei a entender que não tinha dinheiro, o que, obviamente, ele sabia que era mentira. E cruzei apressado por sob as ampulhetas imóveis e as tochas sem brilho, deixando o menino cantando sozinho enquanto eu seguia as formigas.
De longe avistei a longa fila das formigas fotográficas, com o colorido de idiomas e tecidos contornando as ruelas do Pére-Lachaise. Observei-os de longe e me mantive a alguma distância, seguindo solitário até encontrar algumas figuras conhecidas. Cruzei por Wilde e Bergerac. De longe avistei Proust, mas receei me aproximar e apenas continuei meu caminho sem que me notasse. Cruzei com Balzac e me detive por uns momentos com ele, enquanto as formigas multilíngües andavam à minha volta. Não percebi e já estava novamente no meio delas. E naquele formigueiro, eu era mais uma operária. Molière me chamou a atenção e fui a seu encontro. Ao seu lado, La Fontaine lhe fazia companhia. Cumprimentei-os com um inclinar de cabeça, ao que, aos pés de La Fontaine, um movimento diminuto me chamou a atenção. Sobre a pedra, um círculo de formigas se ocupava em desmembrar uma cigarra. Parte a parte, ela era esquartejada e levada para dentro do formigueiro. As formigas se preparavam para o inverno. Quando levantei percebi que estava novamente em meio àquela multidão de máquinas na mão. La Fontaine me olhou com os olhos frios de pedra e uma vertigem ameaçou me derrubar. Livrei-me da multidão e parti correndo de volta ao portão, me afastando de todos. Das pedras, das pessoas, das formigas. Já novamente debaixo das ampulhetas de pedra, procurei o garoto que havia me abordado, mas já ouvia canção nenhuma. Rondei por ali uns cinco minutos mas ele já se fora. Com peso na consciência, fui junto ao muro onde o avistei pela primeira vez, saquei algumas notas da minha carteira e coloquei-as no canto da amurada com uma pedra em cima, para que o vento não as levasse. Segui os caminhos das correntes sem olhar para as tochas sem luz ou para as ampulhetas imóveis, e voltei para o meu hotel quatro estrelas de pacote pago em doze vezes.

sábado, 5 de julho de 2008

Os ricos pobres e os pobres ricos de Rubem Fonseca

Análise Comparativa dos Contos Feliz Ano Novo e O Outro, de Rubem Fonseca.

“Ó cupidez cega!
Fúria desumana,
que durante a curta existência
a muitos desgoverna,
conduz sempre à perdição!” [1]

Feliz Ano Novo e O Outro têm como premissa primária a violência urbana. Nos dois casos o autor aproveita essa premissa para retratar o contraste das diferenças sociais que ao mesmo tempo criam e são ampliadas por essa violência. O contraste das classes e o encontro – ou confronto – dessas classes é o estopim da violência.

A narrativa, nas duas obras, é em primeira pessoa. Em Feliz Ano Novo pela personagem pobre, em O Outro pela protagonista rica; ambos igualmente anônimos. Dessa forma, o empresário de O Outro pode ser qualquer um de nós (na visão do público leitor, na sua maioria pertencente a classes mais altas da sociedade), da mesma forma e o assaltante anônimo de Feliz Ano Novo pode ser (na visão destes mesmos leitores) um pobre qualquer. Há, em Feliz Ano Novo, uma profusão de nomes e apelidos, mas o narrador permanece anônimo. Pode ser qualquer um daqueles por quem as madames cruzam ou vêem de longe no dia-a-dia, qualquer um daqueles pobres nos sinais, qualquer um daqueles pobres à espreita. Bem poderia ser o pedinte de O Outro. Apesar de Feliz Ano Novo ser narrador supostamente pela ótica de seu narrador pobre, é a visão da classe dominante que é impressa na narrativa. E ela vê o pobre que “não tem dentes, é vesgo, preto”. Ela vê o pobre violento, sem honra ou moral, um bando violento e desordenado que os ameaça, como bárbaros nos portões de Roma. Ele vê um pobre que nutre o ódio contra a classe dominante. Ainda assim, esse mesmo protagonista pobre, avesso a esses ideais “burgueses”, redireciona esses mesmos preconceitos de superioridade da burguesia contra seus amigos, colocando-se superior porque tem ginásio, saber ler, escrever e fazer raiz quadrada, o que lhe dá o direito de “chutar a macumba que quiser”. Já em O Outro, o narrador é um “doutor” executivo, que é levado ao trabalho por um motorista e não precisa dar mais do que dez ou quinze passos. Aqui é ele que representa a classe dominante, com seus assistentes e secretárias. Apesar de puxar o gatilho e ser o veículo da violência mais explícita do conto, não é um personagem amoral. É, aos olhos do público que provavelmente lerá o conto, trabalhador, vítima do estresse que abala sua saúde e caridoso (ainda que não possamos dizer que as doações da personagem ao pedinte sejam fruto da caridade, igualmente, o conto não nos diz que não o é, ficando a cargo do leitor completar a lacuna. Leitor de classe alta, que se identifica com o narrador e estará, portanto, inclinado a ler, ao menos a primeira doação “espontânea”, como caridosa). Ainda que de forma menos maniqueísta, a tônica é a mesma: o medo da violência, o medo que a classe opressora nutre da classe oprimida.

Nos dois contos é o narrador o ator dos atos de violência mais emblemáticos. Sempre contra a classe antagonista. É o narrador o agente da violência. Em O Outro, o empresário que atira no homem/menino na porta de casa e, em Feliz Ano Novo, o narrador que fria e educadamente pede ao refém que se levante para disparar contra ele e desencadear a avalanche da violência. Mas ambos os narradores só libertam a sua fúria após o aparecimento de um estopim externo que coloca em contraste seus mundos ou os aproximando em demasia. Nos dois casos, o prelúdio da violência se dá quando o pobre vai à casa do rico. Essa invasão de privacidade, essa colisão de mundos aterroriza as classes mais altas. A violência não está mais apenas na cidade, não é vista só pela televisão como um voyeur. Ela é presente, invade o lar, o último bastião de defesa da classe dominante. Em O Outro é justamente essa presença do outro que gera a violência, que transforma a tolerância em intolerância, e está na descarga destruidora. Em Feliz Ano Novo essas cenas de contrastes se repetem, cada uma prenunciando a seguinte, num padrão semelhante ao sistema figurativo de Auerbach. Primeiro as lojas de artigos finos para comer e beber vendem todos os seus estoques, enquanto, vendo pela TV, o protagonista se planeja para comer restos de macumba. Dá-se aí a partida ao motor da violência. Em seguida o choque entre os banheiros: um com uma banheira de mármore, outro sem água; um todo perfumado, outro fedido. Gera-se a segunda onda de violência, quando o narrador defeca sobre a colcha da cama, retratando outro ponto comum às obras: a podridão e a sujeira da pobreza invadindo o mundo dos ricos. Em O Outro “o hálito azedo e podre de faminto” encostado bem junto ao corpo, aqui o defecar sobre a cama. Nota-se ainda no ato não só o desprezo da personagem, mas o reforço do universo imagético do banheiro, o foco às necessidades primárias – como a fome e o sexo, igualmente abordados no conto – e a destruição sem motivos. Se em princípio a violência tinha como fim o alimento (motivação para sair de casa, à caça), passou a ser roubar dinheiro e bens (ao confrontar com a casa tão diferente do conjunto habitacional onde mora o narrador) e agora já é gratuita, sem objetivo, sem trazer qualquer retorno. O próprio contraste já é suficiente para gerar a violência. O motor da violência acelera rumo a um moto contínuo, que é desencadeado quando as realidades colidem estrondosamente na cena das “moscas no açucareiro”, gerando uma resposta igualmente estrondosa. A violência tornou-se não apenas gratuita e banal, sem objetivos, mas em si mesma geradora da própria violência. O mesmo Sistema Figurativo onde cada passo prepara para um mais intenso é usado na alegoria ao erotismo e ao sexo. Primeiro a masturbação, depois o sexo negado e por fim o estupro consumado, com a vítima cedendo ao agressor. Em O Outro esse sistema não se repete com a mesma força, mas ainda assim vemos o pedinte dizer ao empresário “doutor, será que o senhor podia me ajudar?” e na mesma tarde o empresário vai ao cardiologista onde provavelmente proferiu as mesmas palavras. O tema da morte também se repete nos encontros: o quase enfarto, a mãe que está morrendo, a mãe que morreu e por fim o homicídio.

Tanto em Feliz Ano Novo como em O Outro, as descrições dos ambientes são superficiais, apenas pontuando um ou outro contraste, levando a narrativa a centrar seu foco nas personagens, nas pessoas. É nelas, mais do que nos banheiros de mármore, que estão as diferenças, os contrastes, e por conseqüência, o choque da violência.

Dado recorrente também nas duas narrativas é o emprego do dinheiro, por parte dos ricos, contra a violência (ou sua iminência) dos pobres. O rico, para proteger seu território, a si mesmo e a sua fortuna, lança mão de parte desta mesma fortuna para afastar os pobres. Não apenas na segurança das moradias, mas também no confronto pessoal. O executivo doa o dinheiro ao pedinte, não por caridade (ainda que já tenhamos comentado que isto pode depender da análise do leitor), mas para livrar-se dele, da mesma forma que Maurício tenta usar os produtos do saque e o banquete para se livrar dos invasores. No caso de O Outro, a artimanha acabou aproximando ainda mais os antagonistas, provocando o inevitável choque; em Feliz Ano Novo é o próprio motivo para o choque e o desencadear da violência.

O ciclo da violência também ocorre nas duas obras, mas de forma distinta. Em Feliz Ano Novo, no que chamei de “motor da violência” anteriormente, onde um ato violento lança patamares para o seguinte mais violento. Já em O Outro, o ciclo é mais focado na continuação e geração da violência pelo medo. A violência do pedinte amedronta o executivo que reage com violência. Aqui, esse medo, como qualquer medo, debilita os sentidos, desvirtuando a própria realidade e apresentando uma visão míope, nublada pelo medo onde um menino franzino assemelha-se a um homem forte. E o disparo, desferido contra aquele homem forte, acaba por atingir muitos meninos franzinos.

A maneira de ler a violência nos contos é também distinta. Em O Outro a tensão pré-disparo é construída durante o conto. A explosão da violência é evidente, mas de forma mais velada, sendo pressionado pelo medo até o arroubo final. Enquanto os fatos narrados encaminham o leitor à intolerância, a linguagem protege esse leitor até o momento derradeiro. Ele senta a angústia do narrador, talvez até o seu medo, mas não é vítima direta dessa violência. Já em Feliz Ano Novo, o próprio leitor se vê agredido. A linguagem crua, chula, a profusão de palavrões e detalhes escatológicos atenta diretamente contra o leitor. Ao mesmo tempo em que é agredido pelo narrador com seu ódio pelo status quo, o leitor é agredido pelo autor com sua escolha de palavras e foco nos detalhes que ressaltam essa violência. A linguagem de Rubem Fonseca nos obriga a ver a nu a violência, a ter contato com ela a cada linha. Não podemos, como em um filme, virar o rosto nas cenas fortes para não vê-las, aqui a violência permeia toda a obra, mesmo quando a cena, em si, não é violenta.

Enquanto um conto nos apresenta ricas personagens pobres, onde o próprio narrador toma o papel do pobre violento e do rico preconceituoso, e domina pela força a classe opressora, o outro nos apresenta os pobres ricos, encurralados, amedrontados, levados ao extremo. E entre ricos pobres e pobres ricos, há uma vida rica em violência, medo e contrastes.



[1] Alighieri, Dante. A Divina Comédia. Canto XII. L&PM, 2004, pg.46.