quinta-feira, 22 de maio de 2008

O Último Café de Peter.

Olá, Peter.

Hã...desculpa, nós nos conhecemos?

Sim, claro. Eu conheço você.

Como assim?

Peter, nós precisamos conversar. Você não se importa se eu me sentar com você, não é? Bom.

Olha, amigo, desculpa mas... tem alguma coisa que eu posso fazer por você?

Não, Peter. Infelizmente já não há nada que você possa fazer por mim. Nada.

Então com licença que o meu café tá esfriando, beleza?

Calma, rapaz. Eu só quero falar com você.

Mas eu não tenho certeza se quero falar com você. Nem te conheço e você já vem sentando na minha mesa. Dá pra fazer o favor de escolher outra mesa? O lugar tá vazio. Escolhe qualquer mesa. Aquela lá perto da janela. Aproveita e aprecia a vista.

Não. Eu prefiro aqui no canto. É bem mais aconchegante. E mais... discreto.

Péra lá! Você não tá me cantando, tá?

Ah, ah, ah! Não. Pode ficar tranqüilo, Peter. Não é nada disso.

Você vem aqui, senta na minha mesa e começa a falar um monte de coisas sem sentido. Dá pra fazer o favor de explicar? Eu to tentando tomar o meu café em paz. Aliás, como você sabe o meu nome?

Ah, Peter. Eu sei muitas coisas sobre você. Na verdade, acho que eu sei tudo sobre você.

Olha, cara. Não sei qual é a sua, mas se você não vai trocar de mesa, me dá licença que eu vou...

Sente-se! Sente-se e tome seu café. Você não vai a lugar nenhum.

Eu, er... olha, quem é você? Se é dinheiro que você quer...

Eu não quero dinheiro. Na verdade não quero mais nada de você. É por isso que estou aqui.

Olha, senhor, eu não tô entendendo nada. Quem é você, como me conhece, como sabe o meu nome?

Como eu disse, Peter, eu sei tudo sobre você. Do seu nome ao seu endereço. Sei que você gosta de duas colheres de açúcar no seu café. E sei que a segunda é sempre menos cheia do que a primeira. Sei que você vem aqui quase todos os dias ao fim da tarde, pede um café e fica lendo revistas. Eu sei tudo sobre você. Eu sei coisas sobre você que nem você sabe. Assim como no fundo eu sabia que eu dia nós teríamos que ter essa conversa.

Quem, quem é você? Você tá me seguindo?

Eu não preciso seguir você para saber dessas coisas. Peter, eu sou seu Criador.

Meu o quê!?

Eu sei que você não acredita em mim e acha que sou louco. Mas eu sei disso justamente porque eu o criei um cético. Fui eu quem criou você e todo esse mundo a sua volta.

Você quer dizer... você é... Deus? Rá! Eu devo estar maluco!

Hum... É, talvez seja assim que você me veja. Eu não esperava esse ponto de vista... Mas, não. Eu não sou Deus. Sou simplesmente seu Criador.

Criador? Como assim?

Esse café que você está tomando, você próprio, até esse corpo que eu estou usando agora. Tudo isso é obra minha. Minha criação. Você é minha criação. Eu criei você!

Ih, acho que não, hein! Quem me criou foi minha mãe, lá no Paraná.

Tem certeza?

Claro que sim. Do que você tá falando?

Essas suas lembranças... da sua infância, do seu passado... você tem certeza que as viveu? Que elas realmente aconteceram?

Claro, ué? Você acha que eu inventei isso?

De forma alguma. Eu sei que você não inventou nada. Eu as inventei. Fui eu quem criou essas suas memórias, o seu passado. Fui eu quem lhe implantou essas lembranças. Lembranças que você tem, mas jamais viveu. Lembranças que eu criei e lhe dei.

Hã?

As suas lembranças de criança, por exemplo. Cada passo seu foi arquitetado por mim. Eu criei essas lembranças para que você tivesse um passado. Peter, você nunca foi criança. Você nunca teve que aprender a andar, você nunca quebrou seu braço quando caiu do trepa-trepa na segunda série. De fato, você nunca caiu daquele trepa-trepa. Que por sinal, também nunca existiu. São apenas lembranças. Um passado criado por mim para você. Para que você tivesse uma história.

Do que você tá falando?! Você fez alguma coisa comigo? Algum tipo de experiência? É isso? Eu sou só um rato de laboratório pra você?

Não, não. Não foi nenhuma experiência. Essas lembranças já foram criadas com você. Veja: você não poderia existir sem um passado, sem uma história. Ninguém simplesmente existe. Por isso quando criei você também criei a sua história.

Tá. Você não é Deus, nem um cientista e também não parece nenhum alienígena que me abduziu. Quem é você, afinal?

Seu Criador.

Meu Criador.

Seu Criador.

E você também criou todo o resto.

Tudo que você conhece.

E você quer que eu acredite nisso?

Você não precisa acreditar. Mas sim, eu gostaria que você entendesse.

Como é que eu vou entender? O que é o “Criador”, afinal? Você é um tipo de força superior que criou a existência e agora está aqui tomando um café comigo.... peraí, da onde veio o seu café? A moça não trouxe.

Não ela não trouxe.

Então...

Sim. Eu criei isso também.

Por quê?

Porque eu gosto de café.

Não, não. Porque você me criou. Porque você criou o mundo, a existência, sei lá. E o que você tá fazendo aqui?

Na verdade o princípio é o mesmo. Eu criei tudo isso porque eu gosto. Porque me dá prazer. Assim como esse café. Porque simplesmente gosto de criar.

Então eu só sou um joguete num teatro cósmico?

Meio melodramático, você, não?

Ué, não foi você que me criou assim?

Talvez eu tenha exagerado na dose de sarcasmo. Mas sim. Que bom que você está começando a compreender.

Tudo bem. Digamos que eu engula esse papo todo, que você me criou, criou a existência...

Essa existência. A sua existência.

Então existem outras?

Mas é claro! Uma infinidade.

E você criou todas elas?

Não, não. Apenas algumas.

E quem criou as outras?

Não sei. Algumas delas foram criadas por outros como eu. Mas outras, ou ao menos outra, não sei quem criou.

Outra? Você quer dizer a sua?

Isso.

Então existem outros como você e outros ainda acima de você nessa história de criação, de existência e tudo mais?

Creio que sim, mas não sei se há como ter certeza.

E eu? Então eu sou a base da pirâmide? O último elo da cadeia?

Não necessariamente. Você também poderia ser um Criador.

Como assim? Tipo ter um aquário de peixes?

Não, nada disso. Veja: com um aquário, você estaria dando condições dos peixes viverem em um ambiente. Mas você não criou os peixes. Você apenas os colocaria no aquário.

Então como?

Você gosta de ler, certo?

Certo.

Qual seu escritor favorito?

Você já não deveria saber isso?

Eu já sei: Pedro Mondebaján. Só estava tentando criar um clima de conversa normal.

Desculpa aí, seu Criador, mas de normal essa conversa não tem nada.

Tem razão, deve ser bem estranho para você. Voltemos ao seu escritor favorito então, que também é uma criação minha, se é isso que você está imaginando.

Ele é?

É, mas isso não vem ao caso.

Quando Mondebaján escreve suas narrativas, ele cria sua própria história. Seu próprio universo, seus personagens, as personalidades destes personagens, toda aquela existência.

Quer dizer que se eu escrever uma narrativa, eu também seria um Criador?

Exatamente. Dentro daquele pequeno universo, daquela pequena existência, você seria o Criador. E seus personagens provavelmente veriam você assim como hoje você me vê.

Então os personagens de Pedro Mondebaján são criações dele? E ele é o criador daquele universo?

Em teoria. Mas veja, Pedro Mondebaján também é minha criação. Assim como a personalidade e a história dele. Logo as histórias criadas por ele, são na verdade, minha criação. Entendeu?

Putz, pior é que entendi. Então, se eu criar alguma coisa, um romance por exemplo, eu seria o Criador daquele universo, certo?

Isso.

Mas se, como você disse, você me criou, a minha imaginação, os meus anseios e personalidade, também seriam fruto da sua criação.

Você está pegando o jeito, Peter.

Logo as minhas criações são na verdade, suas criações!

Hum, de certa forma...

Logo eu não posso ser um Criador, porque minhas criações na verdade são suas.

Raciocínio interessante...

Você parece surpreso.

Na verdade estou um pouco.

Mas como? Se, teoricamente, foi você quem me criou? Você deveria saber que eu chegaria a esse raciocínio. Ou não?

Não sei... Talvez de alguma forma, as criações tenham certo livre-arbítrio afinal de contas...

Tipo, um destino não traçado?

Mais ou menos. Como se os personagens que criamos para viver as histórias criadas por nós, tivessem alguma forma de vida própria, uma pseudo-independência.

Você quer dizer que a relação é mais ou menos essa? Tipo, você como Criador, é como se fosse um escritor e eu, supostamente sua criação, seria um personagem que vive uma história que você criou?

Exatamente. Finalmente você entendeu.

Bom, confesso que ao menos é uma analogia interessante.

Não é não.

Não é?

Não.

Por quê?

Porque não é uma analogia.

?

Não é como se um fosse um escritor e você meu personagem. É exatamente isso. Você é um personagem. Não há analogia alguma nisso. Nenhuma metáfora nem qualquer outra figura de linguagem. Você é um de meus personagens.

Você quer dizer que você é um escritor e eu sou um personagem criado para algum romance.

Um texto, na verdade. Um diálogo de poucas páginas. Não sei se vai ser uma peça, um conto ou só mais um arquivo perdido no meu HD. Mas definitivamente não um romance.

Então quer dizer que eu não existo?

Olhe a sua volta. É claro que você existe!

Mas eu sou real?

Se você pensar bem, o que é real? A cor da minha roupa, por exemplo, chega a você através dos seus olhos, que enxerga os raios de luz refletidos nela como sendo marrons. Mas na verdade, você não tem como dizer se ela é de fato marrom, tem?

Acho que não?

Claro que não. Mas você diz que é real. Veja, quando eu coloco a sua colher dentro deste copo com água, (não faça essa cara. Eu já criei uma xícara de café na sua frente. Qual o problema de criar um copo d’água?) ela parece estar partida. Os seus olhos a enxergam partida. Mas será que ela realmente está?

Ilusão de ótica?

A idéia é essa. Mas estenda o conceito a todos os sentidos. A tudo. Digamos que assim como os seus olhos podem lhe enganar e faze-lo perceber as coisas diferentes, todos os sentidos façam o mesmo. Logo você não poderia saber se uma parede realmente é lisa, se o café realmente já esfriou, se seu cheiro realmente continua exalando ou se os sons que você ouve, são realmente como você os ouve. Dessa forma, o que é real?

Não entendi.

Você é tão real quanto qualquer coisa. Afinal, ninguém sabe o que é realmente real. Depende de como você, e qualquer objeto, interage com o universo no qual está inserido.

Então nada é real.

Nada, tudo. Qual a diferença? O que importa é que você é tão real quanto qualquer coisa.

Tanto quanto qualquer coisa neste universo, nessa existência, você quer dizer.

Pode ser.

Bom, se eu sou seu personagem, você deve ter me criado para viver alguma história.

Certamente.

Que tipo de história?

Esse é o problema. Na verdade é por isso que eu queria falar com você desde o começo.

Sobre a minha história?

Na verdade o problema é que não há história. Não consegui criar nenhuma história para você. Estou sem idéias. Pode chamar de um “bloqueio”.

Como assim? Tem que ter uma história, não tem? Não pode ter um personagem sem uma história, pode?

Receio que não, Peter. Sinto muito.

O que quer dizer? Que cara é essa?

Receio que sem histórias não possam haver personagens.

Ei! O que você vai fazer? Péra aí!

Sinto muito. Não é algo que eu queira fazer, Peter. Mas toda história precisa de um ponto final. Mesmo essa.

Espera! Não!

Adeus, Peter. Sinto Muito.

FIM.

domingo, 11 de maio de 2008

Fantasmas


Só pra postar mais uma ilustra e pôr um pouco mais de cor nesse blog. Tenho ilustrado mto pouco ultimamente. Mesmo esboços estão raros e são ainda mais raros aqueles de que gosto. Esse fantasminha aí já tem mais de um ano, feito bem descompromissado. Vou deixar ele um pouco por aqui pra defender esse espaço até que pintem mais ilustras bacanas. Até devo postar alguns rabiscos não tão bacanas e alguns textos, provavelmente do Duelo (tb to meio sem tempo pra escrever qq coisa que não seja de lá ou da pós).

sábado, 10 de maio de 2008

902

Esse está até daqui a pouco em votação no Duelo de Escritores. Provavelmente quando vc ler isso o resultado já deverá ter saído. Mas passa lá pra ver o próximo tema.

O hotel ficou fechado por três dias em luto pela morte do pai do proprietário. Às quinze para às seis da manhã Pedro chegou para trabalhar. Sabia que Seu Marcos não viria, estava acompanhando o inventário do pai. Pedro foi ao lobby e viu pela primeira vez o hotel vazio e desocupado. Na parede atrás do balcão o painel com todas as chaves penduradas, do 101 ao 1209. Um espaço no meio daquela parede de chaves chamou a atenção: 902. A única chave faltando. Procurou no balcão e nas gavetas, mas a chave não estava ali. Alguém esqueceu de colocar a chave de volta. Com certeza não havia hóspedes no hotel e só uns poucos funcionários. Mas nenhum deles ficaria com a chave. Depois de uns minutos organizando as coisas foi conferir se a chave não foi esquecida no quarto. Aos poucos o hotel voltava à vida com o vai e vem dos funcionários.

O número nove do botão do elevador se acendeu sob o indicador do funcionário. Um pequeno solavanco pôs o carro em movimento. Com um sinal sonoro o elevador parou de subir e as portas se abriram para o corredor estreito com papel de parede anos 70. O quarto 902 era o primeiro à esquerda. Porta fechada, aparentemente ninguém no andar. Testou em vão a maçaneta. Ninguém da limpeza estava com a chave. Procurou no bolso e lembrou que não trouxe a chave reserva. Retomou o elevador e desceu os nove andares. O botão T se apagou quando atingiu o térreo. As portas se abriram revelando uma fraca luz da manhã que começava a clarear o lobby. Foi à saleta onde ficavam as chaves reservas. Uma dúzia estava faltando, provavelmente com o pessoal da limpeza. Inclusive a do 902. Mas lá, ele sabia, não havia ninguém limpando.

Cogitou se algum dos hóspedes teria levado a chave por engano. Era improvável, mas não custava tentar. Buscou no sistema a relação de locações da última semana. Nenhum hóspede havia ficado no 902. Procurou nas semanas anteriores. Nada. Puxou pelo sistema todo o histórico. Em branco. O quarto 902 nunca recebeu hóspede algum.

O elevador pareceu lento para galgar novamente os nove andares. A chave-mestra balançava nervosa por entre os dedos. O elevador se abriu e ele lembrou daquela cena do O Iluminado e o rio de sangue. Livro do cacete, me deixou uma noite inteira sem dormir. Foi até a porta do 902. Redrum. Porra, que isso agora vai ficar na cabeça. Girou a chave e ouviu o mecanismo destravar. Girou a maçaneta, respirou fundo Overlook my ass e abriu a porta já imaginando um baile de máscaras. No lugar do quarto um corredor estreito com o mesmo papel de parede ultrapassado e, no fim, um elevador. Sem entender muito percorreu o caminho perpeplexo, ouvindo a porta se fechar atrás de si. Não quis olhar para trás. Seguiu até o elevador.

O T acendeu novamente e o elevador desceu. Mal tirou o dedo do botão já tinha chegado ao térreo. Desceu os nove andares como se fosse um ou dois. As portas se afastaram e ele estava novamente no lobby, já bem movimentado por hóspedes e funcionários. Meio perdido foi ao balcão coçando a cabeça como tenta encontrar alguma idéia entre os cabelos. Congelou de repente. Pendurada junto às outras chaves lá estava ela. A chave do 902. Num impulso pegou a chave e saiu correndo para o elevador, sob olhares surpresos de alguns hóspedes. Apertou repetidas vezes o número 9 até a porta se abrir no andar desejado. Voou pelo corredor e quando colocou a chave na porta essa se abriu leve. Pedro se precipitou no quarto, assustando a camareira que arrumava os lençóis.

— Credo, Pedro, quer me matar do coração?

— Desculpa, Madalena — E saiu de volta ao elevador, ainda mais confuso.

De volta ao elevador cutucou o T como se quisesse castigar aquela luzinha pela sua confusão.

No balcão, não satisfeito, abriu a lista de hospedagem do 902. Vários nomes de vários hóspedes apareceram. Como em qualquer quarto. Mas uma linha em branco no sistema chamou a atenção. Nenhum registro de locação no quarto 209. Atônito, voltou ao elevador tentando parecer normal. Paulo segurava a porta para ele. A luz do 6º estava acesa. Pressionou a do 2º e a porta se fechou.

— Ficou sabendo, Pedro? O pai do Seu Marcos faleceu. Parece que ele vai fechar o hotel em luto por uns dias.

(não pareça assustado, não pareça assustado, não pareça assustado)

— Que cara de susto é essa Pedro!?

(merda)

— Nada não. É que eu não tava sabendo. Coitado do Seu Marcos.

Mal abriu a porta do elevador ele saiu sem se despedir. Caminhou até a porta de madeira, colocou a chave-mestra na porta de número 209. Abriu, entrou e logo fechou a porta atrás de si. Estava novamente no corredor anos 70. Na sua frente, a porta do 903. Deu dois passos à frente, girou nos calcanhares e admirou a gravação 902 na porta amadeirada. Caminhou devagar ao elevador, apertou sem força o botão do térreo e quando as portas se abriram novamente atravessou o lobby atirando as chaves no balcão. Saiu pela porta de vidro que dava para a rua sem olhar para trás.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Silêncio

Outra do Duelo de Escritores, sob o tema silêncio. A votação tá rolando, se quiser participar, passa lá.



— Boa noite! — Abriu a porta e falou cantando, como de costume.

— Nossa, que dia puxado. Tô pregada!

Fechou a porta do quarto e foi guardando as coisas. Só aí o viu de fato.

— Ai, desculpa. Você também, né? Tá tudo bem? Não quer conversar?

Ele continuou esticado.

Sobre a cama, as pernas cruzadas, olhar disperso, expressão cansada.

Calado como sempre.

— Tudo bem, eu sempre falo por nós dois mesmo, né?

Riu e pousou a bolsa na penteadeira.

— O trânsito tava um caos de novo. Teve um acidente na marginal, o maior rolo. Tinha até uns moleques rondando a confusão, cara de que iam assaltar, sei lá. Ainda bem que não aconteceu nada. Ah, e lembra aquele projeto que eu falei semana passada? — Nem adianta fazer essa cara — Eu sei que você não põe muita fé, mas eu acho, ao menos achava, que ia dar certo. Enfim, o cliente pediu um monte de mudanças. Acho que não vai dar pra fazer nada esse fim de semana de novo. Fiquei de entregar o projeto alterado na segunda. Algum conselho?

Ele continuou quieto como sempre, cabeça baixa, cabelos pendentes. Era tarde, ela estava cansada e ele pelo visto não queria conversar hoje de novo. Seria melhor dormir mesmo. Quem sabe amanhã eles poderiam conversar. Quem sabe amanhã ele diria algo.

— Bom, se você não quer conversar acho que vou me trocar pra dormir.

Ele não esboçou nenhuma resposta. Por causa do frio, ela escolheu um moletom velho mesmo. Não achou que ele se importaria. Aproximou-se dele e olhou-o diretamente nos olhos. Nada. Apenas uma estátua. Sentou-se na beirada da cama, afastou as cobertas e deslizou para baixo dele. Sobre o corpo dela ele a olhava com aquele mesmo olhar triste e distante. Seminu, os braços abertos, encostado na parede. O rosto barbado com a coroa sangrando-lhe a testa. Como sempre, calado. Ele nunca dizia nada. Como se não estivesse lá. Em silêncio. Como sempre, em silêncio.

sábado, 19 de abril de 2008

Que olhos grandes você tem...


Ilustração de uma chapeuzinho vermelho. A base de um cartaz de festa, mas cuidei mais da ilustra mesmo, o fundo foi meio 'solto'. Não curti a luz das pernas, não consegui acertar no vetor e enchi o saco. De resto até curti.

domingo, 13 de abril de 2008

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Essa é uma análise da Cena da Barca, de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago. Foi apresentada como segue abaixo, durante a pós, à apreciação da Prof. Dr. Salma Ferraz, a mulher que manja tudo do tinhoso.


Antes de iniciar a análise da cena, é preciso esclarecer que esta estará fora de contexto, uma vez que o restante do livro ainda não foi lido. É possível que algumas das interpretações e leituras feitas a seguir sejam alteradas após a apreciação da obra completa, visto que os acontecimentos da Cena da Barca remetem e se relacionam a outras passagens do livro. Mas vamos à análise.

Toda história precisa de um cenário sobre a qual irá se desenrolar. Comecemos, pois, por aí. Manhã. A primeira palavra da cena já evidencia o início, o começo, a aurora de um novo momento para o protagonista. Algo está para acontecer, mas nem o próprio protagonista pode vislumbrar perfeitamente o quê. Um sentimento turvo, nublado, como a manhã de nevoeiro que inicia a cena. Na seqüência, Jesus deixa a vila de pescadores e parte sozinho, numa barca, para “o invisível que era o centro do mar” onde encontrará Deus e o Diabo. Essa transição da vila para mar nos remete a duas leituras: a) Jesus deixando os homens, e b) a troca dos elementos, da terra para a água, do visível ao invisível. Comecemos pela primeira. Jesus deixa os homens de forma semelhante à que abandonará a sua humanidade, abraçando sua divindade. É uma barca, qual a de Caronte, cujos homens não podem pegar. Ele cruza a fronteira – as águas, tais quais as do Aqueronte – que separa os homens de Deus. E quanto a nossa segunda leitura, vemos Jesus deixando a terra, sólida, firme, estável e partindo para a instabilidade, a insegurança, os caprichos do mar. Deixa a humanidade com a qual se identifica e entende, e passa a encarar a divindade, voluntariosa, instável, desconhecida e profunda como o mar. Jesus encontrou suas contrapartes no mar, sozinho, longe dos olhos do mundo, no silêncio. É no silêncio e na solidão que se encontra Deus. E o Diabo. Outro fato de destaque neste cenário, em que Jesus descobre o seu propósito – cena decisiva e de importância fundamental na história da personagem – é o fato de localizar-se no meio do mar e não no alto de alguma montanha ou colina, como seria de praxe nos relatos bíblicos. O mar, também, como o constata Deus, é como o deserto. E Jesus passa 40 dias no mar. Como foram os 40 dias no deserto. Em ambos os casos, 40 dias de tentações. Mas a diferença primordial: na Cena da Barca, Deus é o Tentador, não o Diabo. Outro detalhe relevante – determinante até – é o cuidado com que o autor constrói o ambiente da própria barca. Fazendo uma análise proxêmica da cena, temos Jesus se lançando ao mar, na barca, no início da narrativa. Ele senta-se no banco de proa (na parte da frente do barco) deixando o banco de popa vazio. Tomando os remos ele leva a barca em direção a seu destino. Remando, portanto, de costas para seu destino. Ele, apesar de se direcionar a Deus, mantém-se sempre voltado para a margem, para a terra, para os homens, dando as costas para Deus, para o mar, para sua divindade. Já no centro do mar, ele fica frente a frente com Deus – uma posição de interlocução e debate, bem diferente daquela com que está com Simão, seu amigo, lado a lado, ombro a ombro, na barca. Ele está frente a frente, encarando Deus e sua própria divindade. É o confronto de Cristo. Eis que, como leviatã, surge das águas – as mesmas aonde Jesus foi encontrar Deus - o Diabo. Mas mais importante: quando “se diria que ia chegar do outro lado”, inesperadamente, o Diabo chega por estibordo – o lado direito da embarcação. Ora, estando Deus no banco de popa, de frente para Jesus, voltado para a frente do barco, o Diabo chega pela direita de Deus, e ali se senta. É o Diabo que está “à direita de Deus-Pai Todo-Poderoso”, não Cristo. E o Diabo se instala na borda da barca. É tão pouco homem (que fica fora da barca, na margem) tão pouco Deus (que fica dentro da barca), está na borda, no limite entre ambos. Não bastasse, senta-se exatamente entre Jesus e Deus, entre homem (Jesus ainda não aceitou sua divindade) e Deus, o centro da balança, a parte neutra – e não má, visto que Bem e Mal ficam a cargo de Deus. E em sua neutralidade, nem a barca pende. Nem para um lado, nem para outro. E ficam na barca: Jesus, como um pescador; Deus, como um rico e ornamentado judeu; e o Diabo, como um pastor de roupas simples. Os três, numa paródia da Santíssima Trindade, completada pela terceira pessoa, Cristo. Quando Jesus retorna do mar, quando já aceitou sua divindade e seu papel nos planos de Deus, temos o inverso do início da cena. Jesus agora está voltado para o mar, para sua origem divina, para Deus e dá as costas às margens, à terra, a sua humanidade, à qual retorna agora como Filho de Deus.

Agora, com o cenário já desenhado, passemos a outro elemento essencial de qualquer narrativa: as personagens. As quais, por questões didáticas e de facilidade de leitura, tomaremos uma a uma, fazendo correlações quando necessário. Comecemos pelo protagonista.

Jesus começa tão homem quanto quaisquer dos pescadores. Levanta-se da esteira, olha o mar e fala à mulher. Já na barca, Jesus mostra-se sempre consciente do poder de Deus, mas não deixa de desafiá-lo, provocá-lo, numa insubmissão em busca de respostas, como a de Jó. Jesus admite sua “parte no contrato”. A palavra contrato, e termos legais como cláusula, lei, documento, pacto, acordo, aliança, tratado, surgem com freqüência, colocando Jesus no posição de negociador com Deus (a parte com a clara vantagem contratual) aos olhos do Diabo, que se interpõe quase como um mediador. Até o momento que se encontra na negociação, Jesus é muito mais humano que divino, afirmando inclusive, com as suas próprias palavras “Sou um homem”. A sua origem divina é posta em dúvida inclusive por Deus: “como não tinha nenhum (filho) no céu, tive de arranjá-lo na terra”. Por outro lado, na seqüência Deus diz que Jesus encarnou, como se fosse um ser celeste em corpo de homem. Essa dicotomia entre homem e deus é presente em toda a cena, mas se destaca no meio do mar, como um período transitório entre o Jesus-homem do início da manhã e o Filho de Deus depois dos 40 dias. Jesus se mostra, além de insubmisso, um astuto negociador, obrigando Deus a confrontar-se com o mal que causará aos homens, por páginas e páginas de martirizados e sofredores. Por fim, Jesus se mostra resignado e aceita as condições do acordo que não pode negar: morrerá na cruz, como seu pai José, para ampliar a influência de Deus (como morriam os cavaleiros feudais para ampliar as terras e influências de seus senhores) e em troca teria a glória da qual poderia se beneficiar no céu. Ainda assim, respondendo a Deus a cerca das mortes nas Cruzadas diz: “não valeu a pena o sacrifício”. A que sacrifício se referia: ao dos cruzados apenas ou ao seu próprio?

Quanto ao Diabo, se destaca por sua marginalidade, pelo seu trânsito entre os mundos. Ele vive à margem – e vem da margem (pág 367) – participando de maneira complementar aos desígnios de Deus. É até certo ponto adversário, mas nem de longe a encarnação ou fonte do Mal. Vejamos sua estréia na cena. Ele surge do silêncio, incógnito, de dentro do nevoeiro. Vem a nado, de dentro da água – a água aonde Jesus foi encontrar Deus, o elemento da divindade – mas ainda no mesmo parágrafo o autor cita “viera de tão longe, da margem, queremos dizer”. Margem onde se encontram os homens, onde a terra é firme, segura, o elemento da humanidade. Aqui fica outro detalhe para o complemento oportuno do autor. Quando cita que o Diabo veio de longe, esclarece: “da margem, queremos dizer”, supondo que o leitor poderia imaginar que este longe, fosse outro lugar (ou plano). Também fica claro, pela sua chega resfolegante, que o visitante não era assim tão íntimo do meio aquático (divino). Já falamos de sua chega à direita de Deus e de como senta-se entre este e Jesus, mas, quando vemos o Diabo surgir do nevoeiro, ao longe, o vemos em uma forma bestial – o “porco com as orelhas esticadas para fora da água”. Porco, o animal impuro para o judaísmo. Lembrando que Deus se apresenta aqui como um rico judeu. Mas a medida que se aproxima, percebe-se que o visitante se assemelha a um homem e, quando o vemos de perto, vemos que é a imagem e semelhança de Deus. E ao chegar diz “Cá estou eu também”. As mesmas palavras citadas por Jesus e Deus quando se encontraram, seguidas do “também”, mostrando que o Diabo, de alguma forma, já acompanhava a conversa. O Diabo, chamado de Pastor, pastoreou Jesus por quatro anos, em comum acordo com Deus, até que o mandou embora do rebanho. É ele, também, que fala a Jesus que é filho de Deus, como um anjo mensageiro. Jesus, com esse acordo, vê que os homens são sempre enganados tanto por Deus como pelo Diabo. O Diabo, afinal, ainda que não seja Deus, está sempre à margem deste, sempre junto, pois “tudo que interessa Deus, interessa o Diabo” e nem mesmo Deus pode afastar o Diabo propriamente dito, apenas as “arraias-miúdas que o Diabo tem a seu serviço”. Assim que se instala, Pastor parece não se interessar com a conversa, negando a afirmação de Deus e retomando, ao menos na aparência, o papel de antagonista, daquele que nega a Deus. Mas o Diabo, ao contrário de Deus, é quem se compadece de Jesus e dos homens, se mostra piedoso, chega a oferecer-se para salvar toda a humanidade do mal, do sofrimento, do pecado. Se coloca, ele e não Cristo, como o Salvador dos homens. Aqui diz finalmente: “Que não se diga que o Diabo não tentou um dia a Deus”, revelando sua face de Tentador, mas não dos homens; de Deus, como o fez em Jó.

Deus também se caracteriza como uma personagem complexa, com toque da construção helênica das divindades. Tem maneirismos humanos, seu poder, apesar de avassalador encontra limitações, rende-se a tentações de expansão, mostrando pouco importar-se com os mortais ou com os meios necessários para atingir seus objetivos. É o lado humano, tão presente nas divindades gregas, que também sustenta o Deus de Saramago. Este deixa de lado os vendavais e pirotecnias tão presentes na bíblia para mostrar-se – ao menos para Jesus e o Diabo – com a face dos homens, de um rico judeu. Apesar dos ornamentos requintados, calça sandálias rústicas, mostrando “que não deve ser pessoa de hábitos sedentários” (e, a considerar pelas matanças, catástrofes e sangue derramado, realmente não era). As primeiras trocas de palavras entre Jesus e Deus não têm a mesma importância dos assuntos tratados na presença do Diabo. Falam de banalidades ou coisas das quais ambos já têm ciência. Ao que parece Deus ganha tempo a espera do Pastor. Ainda antes da chegada deste, fala que precisava de um filho na terra, expondo algumas das limitações de seu poder, pois precisa dos homens; e uma falta de descaso com estes, que serão usados impunemente, à custa de suas dores, sangue e sofrimento. Deixa claro, ainda, que o sucesso ou a vitória dos deuses – note-se o plural – é conquistada pelos homens. Os deuses usam os homens como ferramentas, animais de carga, soldados descartáveis. Deus mente e manipula os homens, como o faz com sua própria lei, colocando em xeque a sua própria honra – se é que honra é algo que cabe aos deuses. Na ladainha das mortes Deus cita nomes como números de bingo, enfadado, falando “outros, outros, outros, idem, idem, idem”. Para o Deus maquiavélico de Saramago, que, como dá a entender o Pastor, “inventou o pecado e o castigo, e o medo que há neles sempre”, todos são iguais, indiferentes. Esse Deus não parece se tocar pela tristeza dos homens e só se mostra triste quando constata os limites de seus poderes: “a culpa tenho-a eu, que não alcanço a chegar onde me buscam”. “Mas Deus é Deus, não tem remorsos”. É um Deus que não permite que dele se duvide, que exige – como o Deus bíblico – sangue para alcançá-lo.

Após os cenários e personagens, a narrativa ainda precisa de um elemento para transpô-la aos códigos lingüísticos, literários ou de comunicação que darão corpo à história: o narrador. O texto de Saramago tem uma caracterização peculiar. Os diálogos são apresentados no corpo dos parágrafos, sem a devida pontuação, de forma quase descompromissada. Uma vez que o leitor habitua-se com a estrutura, ela, aliada ao diálogo coloquial das personagens, transmite uma fluidez que destoa da carga “apocalíptica” do assunto tratado pelo trio na barca. No lugar das longas e rebuscadas orações das Escrituras, os diálogos são dinâmicos, de frases curtas, como as usadas cotidianamente, afastando a história dos púlpitos dourados da Igreja e levando-a àquela vila de pescadores nevoenta. Tirando a capa cerimonial das personagens, elas se mostram vestidas de traços humanos, como os deuses, heróis e semi-deuses gregos. O texto ainda extrapola a obra em si, com citações e referências de outros autores como, obviamente, os livros bíblicos (em especial Jó), mitologia grega, referência ao Islã e notadamente a Fernando Pessoa e seus heterônimos. Pessoa, que era português, como Saramago, admirado pelo último e contra a clássica Igreja Romana, o que o encaixaria perfeitamente com o teor da obra de Saramago, que, em um de seus romances anteriores ao Evangelho, já havia escrito sobre um dos heterônimos de Pessoa.

A passagem onde emerge a figura de pessoa, no entanto, ainda me foge à compreensão. Talvez por não ser da área de letras ou simplesmente por não carregar a bagagem e as referências necessárias à compreensão (e por não ter lido ainda todo o Evangelho) me ficam ainda em aberto lacunas sobre as duas vozes misteriosas que se pronunciaram do nevoeiro e impuseram, até a Deus e o Diabo, medo. Aqui, sou eu que me encontro em meio ao nevoeiro. Talvez seja o último aspecto da narrativa a ser abordado. Após o cenário, as personagens, o autor e seus recursos literários, é preciso um leitor que também consiga decodificar os signos da narrativa.

domingo, 6 de abril de 2008

A Ilha sem Memória

Como falei lá no Duelo de Escritores, o tema Amnésia gera várias reflexões e tem ainda muita coisa pra escrever sobre Olvidar. Sistema penal, velhice, comércio, etc. Mas isso é ser feito com mais tempo e sem a preocupação de fazer um texto curto. Pretendo recomeçar a escrever isso direito, do zero, pra ver onde vai chegar. Mas aí embaixo está o que foi postado lá no Duelo.

Quando deixei Dublin no barco do Capitão Swift, esperava viver as aventuras que o fizeram famoso. Quando lhe disse que queria fazer uma viagem a um lugar inesquecível, ele apenas sorriu um sorriso irlandês e deixou o vento estufar as velas.

Chegamos a Olvidar em menos de duas semanas. A ilha não era grande e logo desembarcamos. A primeira surpresa já foi no porto. Livros. Em que outro porto do mundo os trabalhadores carregariam livros em seus afazeres? E, no entanto, lá estavam eles, consultando seus livros e cadernos no píer. Só mais tarde meu capitão me pôs a par dos fatos. Olvidar era uma ilha sem memória. Por alguma razão a população tinha dificuldade de registrar a memória recente. Pouco depois da puberdade essa habilidade ia definhando até tornar-se praticamente nula. Basta que durmam uma noite para esquecerem tudo o que viveram no dia anterior. Eis o porquê dos livros e cadernos. Cérebros de celulose, arquivos de memórias, agendas e diários. Passavam boa parte do dia anotando tudo o que lhes acontecia, fatos, pensamentos, intenções. E outra boa parte era gasta relendo o que já haviam escrito, consultando alguma memória mais antiga, seja de alguns dias ou vários anos. Era essa amnésia coletiva que ditava a vida em Olvidar.

Os relacionamentos, por exemplo, tornavam-se complicados, uma vez que não era possível lembrar-se do consorte no dia seguinte. Naquela ilha o amor tinha o ritmo intenso e efêmero das paixões. Uma vida sem bodas, mas repleta de primeiros encontros. Conheci um casal que, determinados a permanecerem juntos, criaram um engenhoso sistema. Toda noite dormiam juntos, nus, e com uma página de caderno que dizia que eram casados e contava sua história. Outra cópia dessa página ficava fixada na porta do quarto, que permanecia fechada. Ao acordarem, viam o companheiro ao lado e presumiam que haviam passado a noite juntos. Logo viam a página do caderno e lembravam, melhor seria “descobriam”, que eram casados. Se um deles não dormisse em casa, ao lado do outro, ou mesmo se um deles pegasse no sono por alguns minutos durante o dia, tudo se perderia e eles nem saberiam. Exceto talvez, por uma consulta fortuita em seus cadernos, talvez tarde demais para reatar um casamento esquecido. Ao menos eu devo imaginar que as mulheres não devem brigar com os maridos quando esses esquecem alguma data.

Não bastasse as dificuldades de relacionamento, ainda havia os resultados dessas relações. Não era incomum uma mulher acordar pela manhã e descobrir-se grávida de vários meses. E visto que era virtualmente impossível que os pais se lembrassem de seus filhos, todo cidadão de Olvidar era responsável por qualquer criança na ilha. Toda criança encontrada em casa, na rua, ou em qualquer outro lugar deveria ser protegida e educada como o próprio filho. Creches foram criadas para que as crianças pudessem ser levadas para maior segurança.

A medida que cresciam, as crianças, que ainda possuíam memória, é que ajudavam os adultos. Pela capacidade de ainda reter memórias, os indivíduos como maior potencial na ilha eram os jovens, entre 15 e 17 anos. Já desenvolvidos de corpo e ainda não desprovidos de memória. Alguns desses jovens se tornaram grandes heróis de seu povo, construindo ou atingindo grandes feitos para a o povo Olvidar. Claro que ninguém lembrava de seus feitos, nem mesmo eles. Igualmente havia aqueles que se aproveitavam dessas habilidades apenas em causa própria e se tornaram contraventores cujos crimes, em geral, acabavam esquecidos. Inclusive por eles.

Há muito ainda que escrever sobre esta ilha e seus costumes, mas já é tarde e o dia foi cansativo. Amanhã pela manhã retorno a esses escritos para contar um pouco mais sobre essa ilha inesquecível.

sábado, 29 de março de 2008

Quando chove no vale

Essa vai soar com uma daquelas histórias de acampamento. Contada ao redor de uma fogueira sobre amores impossíveis e acontecimentos fantásticos. Pessoalmente nunca fui uma pessoa de acampamentos, tampouco um contador de histórias. Desta, que agora transcrevo, não assino a autoria. Passo adiante tal qual me foi relatada, ou o mais próximo que minha memória o permita.
Cheguei ao ancionato, como de costume, logo após o almoço. Minhas tarefas da tarde transcorreram de forma normal e me parecia mais um dia enfadonho, preenchido pelas tarefas rotineiras e de pouca importância que vinha exercendo nessas duas semanas que me estabeleci em Blumenau e me vinculei ao meu atual emprego. Porém um encontro fortuito e uma história singular garantiram um passar das horas mais prazeroso dos que eu havia tido até então. Dentre todos aqueles senhores e senhoras de idades muito avançadas, na sua maioria descendentes de alemães (visto que fora essa a colonização da cidade) conheci um senhor cuja pele parda e olhos escuros e levemente puxados destoava das feições germânicas que pareciam povoar o pátio principal. Ele usava os cabelos grisalhos, finos e lisos à altura dos ombros e tinha no pescoço um colar de contas acastanhadas. Era claro, ao ver o homem, que sua origem indígena o colocava de forma diferente naquele meio. O encontrei só (não sei dizer se por opção ou exclusão) a ver as andorinhas que voavam baixo ao fim da tarde. Me aproximei e o cumprimentei perguntando se poderia me sentar ao seu lado. Ele assentiu com um meio-sorriso e um menear de cabeça, mas suas palavras foram: “— Trouxe um guarda-chuva?” Sentei-me na cadeira vaga e creio que minha expressão tenha explicitado minha surpresa.
“— Antes que você se vá, vai chover. É bom que tenha um guarda-chuva”.
Não pude deixar de pensar nos xamãs dos filmes americanos. Índios feiticeiros com chocalhos e peles de animais sobre as cabeças, dançando em volta de uma grande fogueira. Evidente, não era esse o caso do meu interlocutor. Ele prosseguiu:
“— As andorinhas, quando voam baixo assim, trazem a chuva dos morros”. E apontou para as montanhas que cercavam a cidade, onde havia uma tênue massa branco-acinzentada, que poderia realmente indicar chuva.
Aproveitando o rumo da conversa, perguntei, mais com o intuito de continuar o diálogo, como ele havia aprendido aquilo. Ele me respondeu que era uma história passada para todos de sua tribo no tempo de seus ancestrais, e que agora era contada aos mais jovens e aos amigos, para preservação da cultura que vem se perdendo rapidamente nas últimas décadas. Embalado pela curiosidade e pela ociosidade, solicitei àquele senhor que contasse então sua história. Ele sorriu ao ver meu interesse e começou seu pequeno conto enquanto um princípio de garoa bem fina começou a cair e as últimas andorinhas voavam, creio eu, a procura de seus ninhos.
Existe em Blumenau, diz ele, um morro ao qual os colonizadores nomearam Spitzkopf, algo como “cabeça pontiaguda”. Mas antes mesmo da colonização, que se deu há pouco mais de um século e meio, o morro havia sido terra dos Laklanõs, índios nativos da região, derivados de tribos Kaigang que habitavam os vales catarinenses na época. A tribo de seus antepassados vivia no topo do morro, a cerca de novecentos metros de altura. Lá de cima, podia-se ver ao longe por sobre o vale, até enxergar o mar que se estendia distante, ao longo da costa muito além das montanhas. Lá de cima, quando o sol nascia surgindo de dentro do mar como que em chamas, sua luz ofuscava e cegava quem quer que o visse. Segundo os costumes do povo, é nessa hora, quando o sol cruzava do mundo dos deuses para o dos homens, que o portal entre os mundos ficava aberto, dando passagem ao astro. A ofuscação impedia que se visse a face dos deuses, mas com o portal aberto, as divindades podiam ouvir as preces dos homens santos e líderes, e receber seus sacrifícios em forma de cereais e frutas que eram atiradas no precipício de centenas de metros. E nessa hora, se a prece fosse profunda como o oceano e pura como o mar, ela seria atendida. Por esse costume, eles se chamavam Laklanõs — a Gente do Sol.
Seu território, no topo do morro, os mantinham longe de conflitos com as outras tribos Kaigangs que viviam às margens dos rios no leito do vale. Mas os anos se sobrepuseram e finalmente chegou a invasão alemã. Com o início dos primeiros confrontos entre indígenas e imigrantes nos vales, alguns dos Kaigangs fugiram para as encostas dos morros. Uma dessas tribos fugitivas se instalou aos pés do morro dos Laklanõs. Depois de alguma hostilidade, uma certa paz reinou entre as duas tribos, ficando o Povo do Sol em seus domínios na parte mais elevada do morro, enquanto os novos habitantes se estabeleceram mais abaixo, respeitando ao mesmo tempo o território da tribo nativa e fora do alcance do homem branco.
O tempo transcorria enquanto essa frágil paz fora estabelecida e enquanto os europeus se dispersavam apenas nos vales. Mas os índios são homens. Homens são gananciosos. Homens são invejosos. O Povo-do-pé-do-morro, como o velho índio os nomeia, quis tomar o privilégio dos Laklanõs de estar com os deuses. Eles descobriram que todas as manhãs, ao nascer do dia, os homens santos faziam suas preces e oferendas aos deuses. Enviaram então um caçador, jovem de corpo e espírito, para pouco antes da aurora subir o morro e descobrir a localização do santuário da Gente do Sol. O caçador partiu em sua breve jornada armado apenas da escuridão de uma madrugada sem nuvens e das sombras da mata. A aurora se aproximava e as sombras abrandavam seu abraço. Ao raiar dos primeiros raios, um canto melodioso e fluido atingiu os ouvidos do caçador. Tão doce e sublime era o canto que o Kaigang acreditou ter encontrado com os próprios deuses. Seu coração se encheu de júbilo com a beleza divina que a ele se mostrava. Porém, atirou-se rápido em meio a vegetação molhada de orvalho, ao perceber que voz não era de deus algum, mas da beleza majestosa de uma mortal. De olhos tão negros e brilhantes quanto os dele, e que cantava para a mata verde que acordava devagar. Bastou um segundo de cruzar de olhos para desarmar o caçador e fazê-lo deixar seu esconderijo. As pinturas nos adornos da índia denunciavam as mãos dos artesãos Laklanõs. Mas naquele momento não existiam tribos nem santuários. A própria mata, o próprio morro se resumia a quatro olhos negros que brilhavam aos pares como brincos de ébano polido. Quiseram os deuses que aqueles olhos não mais se afastassem e pelas semanas que se seguiram, ela, dos Laklanõs e ele, dos Kaigangs-do-pé-do-morro, se encontravam entre as plantas e as árvores, na fronteira do território entre as duas tribos. Dia após dia, sempre antes do alvorecer, quando ela saía a cantar para a mata. Ele ouvia suas canções e a presenteava com ornamentos coloridos. Ela retribuía com os mais belos olhos que já habitaram a face humana.
O colorido dos presentes no entanto não impressionou apenas a jovem. Alguns guerreiros Laklanõs também repararam nas peças Kaigangs que ela usava e, impulsionados pelas suspeita, seguiram a índia na escuridão da madrugada enquanto os líderes da tribo se dirigiam para o local das oferendas aguardando o nascer do sol. Inebriado pelo canto adocicado de sua amante, o jovem-do-pé-do-morro não se deu conta dos guerreiros que o cercavam até que fosse tarde demais. Até que as pontas das lanças apontassem inquisidoras ao seu redor, como um júri condenando um réu. Os contraditores enamorados foram levados à presença dos líderes, que aguardavam a chegada do sol no santuário no alto do morro. A comitiva chegou aos líderes no momento em que a enorme esfera flamejante se erguia acobreada de dentro das águas no longínquo oceano. O Kaigang vislumbrava o objetivo que o lançara em sua empreitada. O portal se abria em chamas e os deuses estavam pela primeira vez ao seu alcance. Quisera ele haver sido outra sua sorte. Não só invadira território Laklanõ, como cortejara sem permissão uma filha do sol. E agora estava frente ao deuses no santuário, uma regalia apenas concedida aos líderes do Povo do Sol. A morte bailava ululante ao redor do jovem caçador, com seus dedos magros e frios tocando os cabelos do índio, convidando-o para uma última dança. O inevitável e supremo veredicto fora dado, e o jovem Kaigang fora lançado ao abraço da morte que aguardava de braços abertos como uma amante aguarda o consorte. A vida do jovem índio fora arremessada, precipício abaixo como sacrifício aos deuses que aguardavam a oferenda além do portal cuja luz intensa cegou e aqueceu toda a platéia daquele admirável espetáculo. A jovem índia, ainda que cega pelo brilho dos deuses, chorou e implorou aos Imortais pela vida do amado, que bailava com a morte num palco etéreo rumo ao chão. As suas lágrimas eram salgadas feito o mar e sua dor profunda como o oceano. E assim seu choro e sua prece cruzaram o portal e tocaram o coração dos deuses, que se apiedaram da tristeza e desespero da jovem. Então o brilho dos raios solares atingiram o ápice de seu fulgor e em meio às ofuscantes chamas brancas que cruzavam o ar, o Kaigang se despediu da morte e adiou aquela valsa. Seu corpo já não era o seu, plumas lhe cobriram os braços, que braços já não eram. Tão logo a claridade abrandou o céu foi cortado por uma andorinha veloz, que outrora vivera entra os homens, na tribo dos Kaigang do pé do morro hoje chamado Spitzkopf. E o sol deixou as águas e se lançou ao céu junto com aquela andorinha, acordando o morro e a mata para o dia que despertava ensolarado.
A índia, com os olhos cegos pela presença divina, não viu a resposta dos deuses à sua prece. Desamparada e ignorando a solitária andorinha que voava sobre o morro, partiu a correr pela a mata que um dia acolhera as suas juras de amor clandestinas. E correu até que deixou o dia para trás, e sob as estrelas se sentou no meio da mata, no mesmo lugar onde costumava se encontrar com aquele jovem que não mais iria andar entre os homens. E lá ela chorou. E chorou. E chorou. E o choro não cessava, e de suas lágrimas brotou um córrego, que escorreu triste morro abaixo. Um córrego salgado como as águas do mar e frio como o fundo melancólico do oceano. Mas assim como o choro, sua dor não cessava. Decidiu a índia, porém, que ela mesma a cessaria. E a morte se animou novamente. Vestiu-se de preto-baile e foi para o salão, pois a banda já tocava e lhe convidavam a bailar. A índia se atirou de costas no salgado regato e, vendo as estrelas, se pôs a cantar sua última canção enquanto a morte, com passos hábeis de bailarino, a embalava em seu balé noturno. E a canção ecoava na noite. A mesma canção que um dia entoou na mata e que embalou dois pares de olhos negros, amantes que não mais se veriam. E tão doce era sua voz que as águas do córrego, antes salgadas das lágrimas, se adocicaram com o soar daquela ária. E o regato desceu o morro até a tribo dos Kaigangs enquanto aquela canção sondava os céus escuros até seduzir uma andorinha, que voou esperançosa para reencontrar a alma enamorada que lhe salvara a vida. Quando chegou, porém, nada encontrou de sua amada. Apenas um regato que jamais vira no morro e que corria encosta abaixo. Voou baixinho seguindo o percurso d’água. Mas quando chegou aos pés do morro não havia mais canto. E no lugar dos brilhantes olhos negros que ansiava encontrar, um olhar vítreo e sem vida boiava num corpo afogado nas margens do arroio que formara um lago de tristeza na base do morro. E a andorinha voou baixo e chorou como jamais chorara. E outras andorinhas voaram baixo na noite e se compadeceram do trágico fim daquele sarau. E os homens que viram as andorinhas, pranteando sobre o lago de lágrimas também choraram, tão triste a sina que criara tal regato. E a tristeza se espalhou e a mata que já abrigara os amantes se juntou ao coro choroso. O próprio morro, que até então não vira tamanha tristeza, se apesarou. Tal pesar se condensou em comoção e se precipitou como lágrimas por todo o morro. E logo todo o vale chorava o triste epílogo daquele amor. E desde então, quando as andorinhas voam baixo, o vale se lembra de tal malfada história e chora junto com as aves, que um dia voaram baixo para o pé do morro, para se lamuriar da mais triste história que nesses morros aconteceu.

terça-feira, 25 de março de 2008

Chicano


Só pra postar mais uma ilustração. Esse é um rough pra um mexicano. Quem sabe um dia dou um trato melhor nele e colorizo o infeliz. Por enquanto fica o sombrero à grafite.

sexta-feira, 21 de março de 2008

MASCOTES DE MARCAS – PROSOPOPÉIA DE VALORES

Escrevi este artigo já há algum tempo e ele foi originalmente publicado no site da Universidade Tuiuti do Paraná - UTP e no site Tudocom.


Os estudos da linguagem apontam a Prosopopéia como a figura pela qual se dá vida, voz e ação a objetos inanimados. Personificação. O radical Prosop, do grego, significa “rosto, face”.
Esse é justamente o principal objetivo das mascotes de marca. Personificar, dar um rosto à imagem do anunciante e, se possível, ao seu principal benefício/característica. Tomemos os coelhos mascotes da marcas de pilhas Energizer e Duracell. Não só transmitem os valores da marca, mas representam o principal benefício do produto – pilhas de longa duração.
Não data de hoje a criação de mascotes para a publicidade. No período pós-guerra, publicitários e ilustradores já focavam seus esforços na criação de bonecas de cerâmica que tinham como objetivo identificar-se com uma marca determinada. Foi a forma de dinamizarem as marcas, de aproxima-las do consumidor num período marcado pela explosão de consumo que prenunciaria nossos dias atuais. Esse período foi marcado pelo surgimento de importantes mascotes, como o tigre Tony, dos cereais matinais Kellogg’s no início dos anos 50.
Mascotes são testemunhos. A personagem torna-se porta-voz da marca. A mensagem anunciada passa a não ser dita mais pela marca, mas por uma terceira pessoa (a personagem), agregando a si mais credibilidade, fator decisivo na criação de um estado psicológico menos defensivo por parte do público.
Fundamental na criação da mascote é a associação entre ela e a marca que representa. A associação deve ser imediata. Ronald McDonald, se transformou no embaixador da McDonald’s junto das crianças. Além de ser reconhecido imediatamente, também o é sua ligação com a rede de fast-food. Ao contrário, a imagem do coelho das pilhas de longa duração está dividida entre as marcas Energizer e Duracell. Uma disputa que obrigou as empresas a uma separação de mercados: nos Estados Unidos o coelho é usado pela Energizer, que foi a primeira a utilizar sua imagem no país (e diga-se de passagem, segundo o site da empresa foi eleito um dos “Top 5 Advertising Icons of the 20th Century”). No mercado Europeu, ocorreu o inverso, sendo a imagem da mascote atribuída a Duracell. Em tempo: o coelho da Energizer foi introduzido ao mercado em 1989, enquanto o da Duracell já estrelava comercias europeus desde 1974.
O uso de mascotes, porém, implica na necessidade de abordagens uniformes, consistentes e de interação contínua com o público, adotando a personagem como ícone – ou símbolo – tão precioso quanto o próprio logo da empresa. Diversos fatores ainda influenciam a criação e uso de mascotes, inclusive uma avaliação precisa se esta é, ou não, uma estratégia adequada; uma vez que uma mascote demanda grandes investimentos, cuidados e regularidade de exibição, sob pena de perder notoriedade, ligação com a marca ou sua própria personalidade. A aplicação de uma mascote deve, portanto, avaliar não só o budget, mas se esta tática se enquadra nas estratégias de comunicação traçadas.
O uso da prosopopéia está embasado não tanto na forma, que dá vida a animais ou objetos inanimados, mas no conteúdo destas personagens. Que digam Lewis Carroll, J.M. Barrie, Walt Disney e tantos outros – isso além da maioria de nossas fábulas infantis. Para as mascotes de marcas, assim como para qualquer personagem pública, um rostinho bonito apenas, já não basta.


quinta-feira, 13 de março de 2008

Morre Maira Maíra

Outra do Duelo. O tema era morte. É mais uma experimentação, tentando usar só palavras com a primeira letra M, de morte.


Maira Maíra morreu. Morte matada: matou-se. Mastigou mato maligno, minguou muda. Motivo? Mágoas mil, mas mágoa maior marcou-lhe Milton. Marido malandro, mentiroso. Mimava Márcia, morena matreira. Magra, madeixas marrons, mamas maravilhosas, maiô minúsculo. Mulher maravilha, mesmo. Maira Maíra, muda murchava. Mantinha mente mansa, mas mordia-se maltratada, moral minada, magoada. Melhor morrer, meditava.

Media métodos. Mutilação metia-lhe medo. Machucava muito. Mirava morte mais melancólica, menos moderna. Mítica, misteriosa. Mais marcante. Merecia melhor mortalha. Maquiou-se, meteu meias macias, malha marfim, melhores miçangas. Marchou.

Mediu meia milha marcando mata. Mãos miúdas mexiam moitas. Manipulavam morte. Mato mortal Maira Maíra mordeu. Mastigou mais. Movia molares mastigando morte. Menta maligna matava Maira. Maira morria.

Morreu, Maira Maíra.

domingo, 9 de março de 2008

Dormentes

Postado tb lá no Duelo de Escritores, sob o tema "Viagem de Trem". Dá um pulo lá e contribui com a votação, no texto que vc achar mais bacana. Por enquanto só om copiar colar do Duelo pq o PC tá na UTI e maior parte do conteúdo tá lá dentro. Lá vai o texto:

O sol mal subiu e você já estava na plataforma. Estação cheia. Um desfile de malas, mochilas e sacolas. Lá de trás uma fumaça preta anunciava a chegada. O povo se aproximou da beirada da plataforma. E lá no meio você. Com apenas uma maletinha de mão, praticamente vazia, embarcando numa viagem que sabe-se lá quanto tempo ia levar. Mas, enfim, você entrou. É bem verdade, meio assustado. Passar pelos corredores estreitos com um trem em movimento se balançando de um lado para o outro talvez não tenha sido o melhor dos começos. Mas logo você encontrou uma cabine com espaço. Lá dentro apenas um casal de uns trinta e poucos anos. Depois de instalado, você se apresentou. Ele era maestro, ela professora. Estavam em lua-de-mel. Talvez por isso tivessem bem mais bagagens que você. Eram um casal divertidos e fizeram os primeiros quilômetros da viagem passarem rápido. O único incômodo era a sensação de estar atrapalhando. Os dois ali, em lua-de-mel, e você atrapalhando ali na cabine. Mas eles pareciam não se importar. Pela janela você apreciava a paisagem exuberante na tarde ensolarada enquanto conversava e sentia o balanço dos vagões sobre os trilhos. Com o tempo, porém, a companhia do casal começou a ficar meio cansativa. Provavelmente pela proximidade constante. Com uma desculpa qualquer você pegou a mala e saiu a procura de outra cabine, prometendo voltar para retomar a conversa.

Passando pelas cabines você vê pela porta de vidro uma moça sozinha, olhando pela janela. O cabelo castanho amarrado para cima revelava a nuca e o pescoço longo e delicado. A bagagem parecia de apenas uma pessoa. Você estava com sorte. Com duas batidinhas no vidro, para não assustar a moça, você abre a porta e pergunta com umsorriso — que você acreditava sedutor e ela achou meio bobo — se o assento estava vago. Ela respondeu que sim com outro sorriso. Ela era uma estudante de música de pouco menos de trinta anos. Interessante, bonita. Vocês conversaram e logo se deram bem. Lá fora o sol continuava a iluminar a paisagem e dentro da cabine o clima estava ainda melhor. Você anda voltou algumas vezes a sua antiga cabine para visitar os recém-casados, mas quando o trem parou numa estação no meio do caminho e você viu, pela janela, os dois na plataforma de desembarque, uma tristeza repentina lhe apertou o peito. Eles acenaram cercados pela bagagem volumosa enquanto o trem se afastava seguindo viagem. Ao menos lhe restava ainda a companhia da sua nova colega de cabine. Masfaltavam ainda algumas estações para você descer quando ela disse que havia chegado a sua parada. Da plataforma da estação ela mandou-lhe um beijo e foi ficando para trás enquanto o vagão retomava a viagem. Na cabine apenas você e a sua mala, que afundava pesada no estofado do banco a sua frente. Olhando a paisagem, com a testa contra o vidro, você adormeceu ao embalo do trem. A paisagem continuava lá. Os túneis surgiram e se foram, escureceu e tornou a clarear. E a paisagem continuava lá. Mas você não percebeu porque havia adormecido. Só acordou quando um funcionário, de uniforme negro impecável, veio lhe chamar. Chegara a sua estação.

Você desceu meio desajeitado, com todas as suas malas, a bagagem caindo aqui e ali. Algumas provavelmente tinham até ficado para trás. Vendo a sua cara de atordoado na plataforma, cercado pela própria bagagem, o funcionário não se conteve e riu. “Pobre, homem. Não deve nem saber onde está”. Com o orgulho ferido e achando-se mais esperto você ainda respondeu “Ao menos posso ir aonde quiser, que não tenho trilho algum que seguir”. E só com a cabeçapara fora do trem o funcionário concluiu: “Meu senhor, esse trem não corre sobre trilhos”.Só então você percebeu a falta dos dormentes, do metal, da linha reta e previsível dos trilhos. E o trem saiu serpenteando em todas as direções, como se cada passageiro pudesse escolher o caminho a seguir. E você ficou na plataforma, cercado por toda a sua bagagem e coberto pela fumaça preta que saía da chaminé enquanto o trem ia se afastando.