Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Silêncio no 32135



Silêncio no 32135



Photo by Steve Marcus | Las Vegas Sun | Reuters. Fair Use.

O som de botas ritmadas ecoava compassado. Ramblambam-ramblambam. As luzes coloridas das ribaltas rasgava o céu acompanhando os acordes. Se fossem vistos dos altos prédios ao redor, ouviria-se apenas as notas saídas das caixas de som, mas não as vozes que se faziam coro, riam e se entregavam, chapéus à mão, transformados em mutidão. Ramblambam-ramblambam, soavam as botas no palco. Ramblambam-ramblambam, respondiam as botas da plateia contra o chão. Vinte e dois mil pares de botas. Vinte e duas mil vozes.

Ramblambam-ramblambam.

A trinta e dois andares acima ninguém notou as janelas quebradas.

Ramblambam-ramblambam.

Um par de botas, deitado no chão.

Ramblambambadabambadabambadabam.

O som das botas desencontradas ecoava descompassado. Os clarões dos projéteis rasgavam o céu acompanhando o caos. Vistos dos altos prédios ao redor, não se podia ouvir as vozes de choro, os gritos, não se podia ver os chapéus ao chão, o vermelho ao chão, uma ideia ao chão. Tudo é transformado em turbilhão.

Ramblambam.
Clack-cla;
bam.

Quando as botas dos homens de uniforme entram no 32135 já não havia som. Nem nos palcos, nem na platéia, nem nas janelas, nem nas tribunas e palanques.

No silêncio alguém perguntou "o que se há de fazer?" E a resposta soou automática, novamente, como havia soado tantas e tantas vezes, em todos os silêncios após rajadas, também automáticas.

E os ouvidos moucos esperaram que mais uma vez ela se perdesse no silêncio, junto com quase sessenta pares de botas ficariam sobre as ruas.

O que acontece lá, afinal, lá permanece.


sexta-feira, 27 de maio de 2011

Lá vem o velho

Lá vem o velho, puxando carroça. Tem um cachorro, o velho. Ou o cão é que o tem. Pouca diferença faz, tem-os a rua. Disse-me — o velho, não o cão — que deixou a roça, a mulher que pariu o filho de outro, a enxada na terra que não era sua. Trocou a roça pela carroça que veio puxar pela cidade. Lá, ele ia em cima, a carroça puxada à cavalo. Aqui o cavalo ganha carinho da moça bonita de olho azul. Aqui, a carroça ele mesmo tem que puxar. Mas quando a lembrança roça, ele coça, e ela se vai. Como se foi a roça, como se vai o rosto, como irá o resto.

Disse-me — agora o cão, não o velho, com os olhos mais brilhantes que já vi na cara de qualquer um, de quatro ou duas patas — que não deixou nada. Nem saudades. É daqui. Nasceu debaixo d'alguma ponte, ao lado desse rio. Depois daquela curva, atrás daquele morro, sobre algum barranco ainda não levado leito adentro, manchete afora. Dividiu o concreto, a poça d'água, a luz dos faróis com mais um tanto de gente, de bicho, de bichogente. Foi levado para casa uma vez, contou. Cresceu, a menina mimada cansou. Passeio de carro, nunca mais voltou.

Encontrou o velho ganindo, todo molhado em dia de chuva. Adotou o coitadinho. Tão bonitinho! Estava que era só sorriso. Parcos dentes sorridentes entre bambos beiços balouçantes. E contou para ele as histórias das ruas. Onde arranjar um osso, onde encontrar um teto, onde escapar do mundo. Onde farejar um motivo para balançar o rabo. Lá vem o velho, puxando carroça, junto ao cachorro. Lá vai o velho, puxando carroça. Lá vai o cachorro. Aqui fico eu.

O sinal abriu, ninguém se mexeu. Algum animal fechou o cruzamento no fim de tarde. As mãos na buzina uivando pra lua querendo surgir. Carlos Gomes começa a tocar me lembrando de desligar o rádio pelos comandos ao volante. Como cansa esticar o braço até o painel! Além do mais, a mão está ocupada na buzina. A outra, no botão para levantar o vidro escuro coberto de insulfilm para esconder os meus olhos baços do cachorro e do velho que se vão puxando carroça.

*Crônica originalmente publicada no Jornal de Santa Catarina, edição de 26 de maio de 2011.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Uma vela para Balzac

O século XIX certamente não teria sido o mesmo sem ele. Provavelmente, nem o XXI. Talvez, não fosse por ele, hoje nossas esposas, noivas e namoradas não se reuniriam no sofá ao redor de um pote de brigadeiro acompanhadas de um box de The Sex and the City. Senhores, a culpa por todos aqueles gritinhos, suspiros e risadas desenfreadas em frente à TV pode ser dele. O nome do irresponsável: Honoré de Balzac. Provavelmente mais conhecido por obras como “A Mulher de Trinta Anos” e “As Ilusões Perdidas”, o francês influenciou muito mais do que a possibilidade de séries de TV sobre novaiorquinas balzaquianas (entendeu agora de onde vem a expressão?).

Do compatriota Gustave Flaubert ao nosso brazuca Machado de Assis, muita gente passou por Balzac. O cineasta francês François Truffaut elevou o escritor ao ponto da idolatria juvenil no seu “Os incompreendidos” (Les quatre cents coups, 1959). Lá pelas tantas, no filme, o protagonista, um garoto de doze anos chamado Doinel, cria um altar em que acende uma vela para o autor, dentro de um pequeno apartamento. Resultado de tamanha dedicação: por pouco não põe fogo na casa inteira, é repreendido pelos pais e acaba desencadeando uma série de conflitos com as instituições estabelecidas da época, seja a família, a escola ou a polícia. Mas quem sabe essa seja possivelmente a melhor maneira de homenagear a um autor que incendiou as convenções da sociedade em que viveu, revolucionou a forma como a mulher era retratada e, principalmente, expôs a hipocrisia e a fragilidade moral da Paris de sua época.

Pergunto-me o que diria do nosso Vale que, se não se pretende Paris, então Munique, Berlim. O que escreveria se descobrisse que o nosso enxaimel tem telhado de vidro? Imagino a voracidade com que retrataria a nossa ânsia de não ser o que achamos que um dia já fomos. O volume da produção só seria equiparado à quantidade de antidepressivos saídos das nossas farmácias. Difícil considerar algo diferente nesse nosso Vale em que se consome muito mais Prozac que Balzac.

Amanhã é aniversário do escritor francês. Só não sei se devemos acender uma velinha ou atear fogo a alguma ideia.

* Crônica originalmente publicada no Jornal de Santa Catarina, no dia 19 de maio de 2011.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Troca Troca

Troca Troca

Uma universidade costuma reunir gente de todas as tribos e de vários lugares. Nerds, patricinhas, metaleiros, bichos-grilos, CDFs e toda sorte de pessoas reunidas num templo de conhecimento e reflexão. E, sejamos francos, de festa e azaração. A presença nos barzinhos é tão assídua quanto nas salas de aula. Quando cursei minha graduação conheci um sujeito que me ensinou uma lição importante.

Rapaz novo, vindo de outro município, recém-instalado em Blumenau e maravilhado com as belezas da cidade. Corrijo: o garoto estava muito mais interessado na beleza das garotas da cidade. Estava abobalhado, com aquela cara de lobo de desenho animado, uivando para cada rabo-de-saia que lhe passasse às vistas.

Muito do namorador, caiu na paquera feito cachorro atrás de raposa. Tentou uma, tentou duas, tentou três. Mas chegava final da noite e o galã não tinha saído do zero a zero. Não se conformava. Semana vai, semana vem, e o sujeito não emplacava uma bitoquinha sequer. Estava desesperado, não entendia o que estava acontecendo. Era boa pinta, bom de papo, tinha uma boa grana. Mas não tinha jeito. A popularidade do cidadão continuava caindo. Para minha surpresa, ele bolou uma solução bastante inusitada: resolveu mudar de nome. Ele tinha um nome meio esquisito e jurava que por causa disso não conseguia conquistar as meninas. Pesquisou um pouco e escolheu um que estava bem na moda, vindo lá dos states. Acertou a papelada e, de nome novo, voltou à luta (ou à caça, nesse caso).

Mas não teve jeito. Nada de o cidadão conquistar os corações das garotas. Mesmo com o novo nome, não havia maneira de alguém se interessar por ele. Depois de novos e recorrentes fracassos, chegou à conclusão que o motivo de sua falta de sorte só poderiam ser os amigos. Tentamos alertá-lo. Quem sabe devesse mudar de atitude, achar um novo discurso, mudar realmente. Mas não, ele insistia em manter o mesmo discurso e as mesmas atitudes. Estava determinado. Trocaria a nossa companhia para se unir a outros amigos. E, por via das dúvidas, iria mudar de nome mais uma vez, afinal, o atual já não estava dando muito certo mesmo.

Com o rompimento, não sei que fim levou esse colega, mas uma lição ele me deixou. Se você não mudar o discurso e, principalmente a atitude, de nada vai adiantar mudar de nome ou se unir a esses ou àqueles amigos na esperança de que as pessoas se sintam atraídas por você. Pensando nisso, bem que alguns dos nossos estimados representantes também poderiam levar um papo com esse meu colega.

* Crônica originalmente publicada no Jornal de Santa Catarina, edição de 12 de maio de 2011.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Tornatore à Blumenau

Tornatore à Blumenau

O título desta crônica não faz referência a nenhum prato da Festitalia. Aqueles que lembraram do autor do clássico de 1988 devem lembrar da magia dos primeiros contatos com a sétima arte. Lembro de ter entrado meio desconfiado no interior daquele prédio antigo, entranhas de um ventre escuro repleto por filas intermináveis de cadeiras. A inclinação do piso não era tão acentuada como a das salas modernas. O som provavelmente não guardava tanta fidelidade mas isso me escapa à memória. Dos sons daquela tarde na escuridão, o mais marcante seria o da repetição constante do passar do filme pelo projetor. Sentado em uma das fileiras mais ao fundo, vi aquele som parir um facho de luz contra uma tela que se iluminou. Hoje trago mais próxima as imagens da sala, do prédio, da experiência, do que a do próprio filme a que fui assistir, do qual não lembro sequer o nome. Mas lembro do clímax daquela experiência. Lembro de, após ter sido absorvido por aquele pavilhão escuro, caminhar por um corredor pouco iluminado, com uma leve inclinação sempre descendo, descendo, descendo. Até paradoxalmente emergir à luz de uma tarde clara e iluminada sobre a calçada de uma Alameda Rio Branco sem os pavers dos dias de hoje. Aquilo foi mágico, de alguma forma. À minha frente, um prédio enxaimel de esquina e, atrás de mim, as portas abertas e as paredes altas e escuras do Cine Busch. Aquele dia volta e meia torna-me à memória. Vejo quase diariamente aquelas mesmas paredes escuras que, ainda que não possam me transportar para o seu interior e me envolver na escuridão, ainda evocam aquelas lembranças de luz e magia. O meu Cinema Paradiso particular.

Hoje recordo e relato essa história para celebrar o fim de um hiato que há muito já se estendeu. Há mais de dois meses lembro de ter lido, aqui mesmo neste espaço, uma sentença auspiciosa: “Tenho certeza de que os dois meses de jejum não serão esquecidos com facilidade”. Naquele tempo, bem antes das férias de que agora desfruta, o titular dessa coluna questionava o vazio deixado pelas reformas das salas de cinema em Blumenau. Um pouco além das oito semanas previstas, o jejum parece finalmente ter chegado ao fim. Amanhã serão abertas ao público as novas salas de projeção de Blumenau. Com o retorno das salas escuras, a paixão pelo cinema parece readquirir fôlego entre as montanhas do Vale. A cicatriz, no entanto, ainda coça. Será que os olhos do Vale se voltaram às telas ausentes a ponto de evitar um novo hiato? Ou de perceber a importância daquilo que nos foi inacessível pelo bimestre passado? Pergunto-me se o augúrio de Tenfen se confirmará.

* Esse texto foi originalmente publicado no Jornal de Santa Catarina, do dia 05 de maio de 2011.
** Maicon Tenfen, cronista titular da coluna, está curtindo as merecidas férias. Fui convidado pelo jornal para, durante esse período, escrever as crônicas das quintas-feiras. Quatro outros escritores assumirão os demais dias da semana. Ao fim do período de férias Tenfen reassumirá a coluna. Ao passo que as novas crônicas forem ao ar, vejo se posto os textos aqui, posteriormente à publicação.