sábado, 26 de março de 2022

Autorretrato

 

Mais autorretrato pra fazer ao menos uma postagem este ano.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

blowin' in the wind

 blowin' in the wind

Cruzou pela porta e entrou no apartamento com a cabeça leve, não tanto pelas cervejas, mais pelos momentos. Trancou a porta atrás de si com um certo pesar. Com uma saudade, talvez.  Como quem olha pelo vidro molhado da janela numa tarde de chuva. Deixou tocar uma música que há muito não ouvia, mas que sempre carregava consigo. Abriu a geladeira, já há algum tempo vazia, que soprou-lhe um bafo frio de confirmação. Da estante próxima sacou um Jack London que tanto combinava com a trilha, sem mesmo ter certeza de a que trilha se referia. É difícil ter alguma certeza quando elas são sopradas pelo girar de um catavento.

A lembrança do brinquedo lhe prendeu a atenção. Estava na carroça do mesmo homem de quem já escrevera em uma matéria para o jornal. Achou, na ocasião, que apresentava o velho ao mundo que passava por ele sem o perceber. Recebeu congratulações do editor, tapinhas nas costas, achou que havia encontrado algo.  Ele, que se deteve sobre o velho com uma perspicácia imaginária e costumazmente arrogante, nunca havia lhe reparado o catavento amarelo. Mas ela reparou. Tomou-o pela mão e disse: "olha". Ele olhou, e sentiu, e viu o catavento soprar tanta coisa naquele céu que ela disse ter tanto dela. Pensou dizer algo mas o catavento soprou aquilo também para o céu. O que quer que fosse, ficou lá, pregado no escuro feito estrela sobre o rio.

Sob uma sombra ali perto, o velho sorria despercebido. Vendo seu catavento admirado, achou a cena bonita.


sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Tardes de Mornas

 

B.Léza - Morna
Imagem do Expresso das Ilhas

 

Tardes de Mornas

Tardes mornas
de mornas
do Verde.

Cantando a memória
do muxoxo das ondas a quebrar
nos cascos de pedra
da nau que deixei para trás.

Cabo de mornas
    e morenas

Que choram as saudades
das saudades
do Cabo Verde. 


domingo, 24 de outubro de 2021

Gota a Gota

 

Gota

 

 Gota a gota

cada
gota
cai
feito a lágrima de quem ficou

feito fonte

onde a falta é farta
onde o afeto escapa

por entre os dedos

que restaram
que procuram
os que se foram

e a palma vazia
tenta reter
algo que se esgota
                      gota
                      a
                      gota
                      a
                      gota
                      a
                      gota


sábado, 18 de setembro de 2021

Canto Flamenco

Para acompanhar a ilustra do mês da passado.

 

Canto Flamenco

Me miras así
hecho serpiente.

[empieza el palmear flamenco]

Pero no soy presa.
Un pecho andaluz
no acepta corriente.

Oye!
entonces mi palmear
Oye entonces
el tablao redoblar

Soy hija del sur
hija de la mar
Mi canto gitano
és mi llorar.

Soy hija del sur
hija de la mar
Mi taconeo
...
hace el mundo sonar.

Oye!
entonces mi palmear
Oye entonces
el tablao redoblar!
 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Flamenca

Flamenca
Porque é agosto

 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Chanson à le vent froid

Chanson à le vent froid

tous les jours
j'entends le vent froid
me demander où est tu
pas ici, pourquoi?

et toujours
que j'entends le vent froid
chanter ta chanson
je me demande: pourquoi?


Où est elle, vent froid
cherchez elle lá-bàs
et dit elle
que je manque sa voix

Où est elle, vent froid
cherchez elle lá-bàs
l'amenez ici
j'attends chez moi


au fin du jour
quand je suis chez moi
je me souvient que tu
ne rentrera pas

au fin de tout
quand je suis lá
je regarde la pierre
je suis chez toi

donc j'entends le vent froid
ensemble, nous sommes lá
on pleure sur toi
nous sommes seules dejà

 

 

Mais uma vez não sei bem o que tô fazendo. Correções são aceitas :)

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Areias de um Coliseu Tropical

Viegas Fernandes da Costa

Quando adentrei este Coliseu Tropical, achei que pisava as areias de uma arena. Quando saí, percebi que eram as areias de uma ampulheta.

Coliseu Tropical é o mais recente livro de Viegas Fernandes da Costa. Traz a mesma prosa poética comum aos trabalhos anteriores do autor, na maioria das vezes abrindo mão dos versos. A obra conta com um interessante trabalho gráfico da Editora Kotter, mas o ponto frágil fica por conta de escolhas de diagramação e soluções de tipografia que provavelmente passaram pela revisão, e “arranharam” um pouco a estética do miolo do livro. A bonita capa e o projeto gráfico compensam em parte estes — na visão deste leitor — deslizes. Mas tirando uns poucos momentos de quebra na imersão da leitura, o texto não chega a sofrer muito com isso.

O livro é uma obra sem dúvida atual e se propõe a combater (n)o seu tempo. Mas esse Coliseu que digladia com seu presente, ganha mais vida quando se entrega às reminiscências. Como no antigo palco romano, é por baixo da luta que se escondem as engrenagens e a riqueza que sustenta a arena.

A obra inicia agressiva com o tom crítico que parece guiar o livro, apontando ora os desgovernos que regem este conturbado 2021, ora as desigualdades que (já não) nos surpreendem em cada esquina, apontando chagas ou ideias incinerados sob uma lua de fogo.

Deste primeiro grupo de textos destaco justamente o tocante Lua de Fogo com as cinzas de um Pantanal ardente, e o sensível O Coveiro, que exuma a poesia do menino que sonhava “plantar pessoas na terra”. Apesar do lirismo, mesmo nestas peças o tom crítico e o olhar contemporâneo é presente. A partir da metade do livro, no entanto, ainda que o eco deste tom inicial frequentemente se faça ouvido, Coliseu Tropical tende a se voltar mais para dentro, e a obra parece crescer.

Reflexo de paisagens do Vale e do Litoral Catarinense, sótãos e velhas máquinas de escrever tomam as areias deste Coliseu, lembrando as areias que correm em uma ampulheta. “A memória”, diz o autor, “é, de algum modo, a falta que se faz presente”. E ela se faz presente em aforismos, poucos versos e na lembrança de personagens conhecidos daqueles que acompanham a obra do autor, como Ernesto ou o Onitorrinco, que aparecem “como barco insepulto ancorado na areia de um deserto que já fora mar”.

Como o homem de areia que dá título a um dos textos, é das areias que se ergue este Coliseu Tropical. Mas como o personagem, não cabe na ampulheta e vê a poesia nascida dos intestinos do mundo enquanto todos a buscavam na paisagem do horizonte. Viegas encontra poesia na paisagem da memória antes que ela, inevitavelmente, se dissolva no vazio. Como o homem de areia.

domingo, 30 de maio de 2021

O poema perdido

A caminho de casa, perdi um poema.
Culpa, não ponha na moça de pernas bonitas,
que é toda ela um poema.
Tampouco no velho olhando pra cima, cigarro na mão,
que procurava, ele também, nos galhos da árvore,
um poema maduro a colher.

Onde foi — onde foi — que deixei cair o poema?

Olho na boca-de-lobo pra ver se um verso não se foi na sarjeta.
Tento lembrar se não foi a buzina que me estilhaçou as estrofes.
Se não se perdeu no emaranhado de fios no topo do poste
que enfeia esse céu onde despontam as estrelas primeiras.

Como fui — como fui — perder um poema?

Se há tanto não me cruza um!

Poema, esses dias, põe-se raro.
Diz, quem entende, que é a perda do habitat.
A gente entra com máquina, trabalho e barulho.
Estafa, trabalho e entulho.
E logo o poema já não tem onde viver.

Mas eu vi — eu vi — um poema.

Aonde foi, por onde se meteu, como se perdeu,
não sei.

Agora passo os dias, repasso os passos,
e torço para que em alguma esquina lhe calhe de novo aparecer.
Para que eu tenha ao menos
a chance de lhe dizer
adeus.

sábado, 17 de abril de 2021

O Diário da Loba


 Mais rabiscos enquanto não nascem mais textos.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Coralice

 

Mais uma ilustra do cadeninho pra atualizar aqui.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Um deus


 

Enquanto eu não me decido a encerrar esse espaço, mais uma ilustra pra tapar buraco aqui: um deus (ou um psicólogo muito badass).

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Silêncio

eu acesso aquela página
onde te encontrei
o teu silêncio ecoa o meu
silêncio entoa
o teu

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Pequeno Príncipe

 


sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Cabelos

 

 

Só pra não passar o mês sem publicar nada.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

encruzilhada

 

Foto de Victor Garcia no Unsplash


eu sou a encruzilhada
por onde passam histórias
sem nem dar
umas pelas outras

vêm e se vão
tão fugidias que
nem bem as percebo
já lá não estão

mas acontece de
vez por outra
alguma mais desatenta
se deixar pegar

com pretensão
lhe corto a cabeça
para meter na parede
        ou no papel
à guisa de troféu

em geral acabo só
com uma carcaça disforme
        um arremedo taxidérmico
do que um dia foi

uma encruzilhada onde jazem
restos, fragmentos, sangue, pedaços
do que por lá passou

até que um dia venha um diabo a visitar
e perguntar
que infernos se passou ali


sexta-feira, 24 de julho de 2020

Javali

Mais um exercício de achar desenhos no meio dos rabiscos. Agora digital.
Embaixo o passo a passo.

Quem aí pediu torresmo?


segunda-feira, 15 de junho de 2020

despertador


sob estas cobertas
sob estes sete graus
sob estas sete horas
da manhã que me impelem cama a fora

maldigo a razão do despejo
sem nem pensar
no moço triste que desde às cinco
que desde os cinco
    [graus
já curva os anos verdes
costurando etiquetas
costurando etiquetas
costurando etiquetas no galpão que mistura no ar
a condensação do hálito
a condensação do hábito
a fiapos de algodão

olho lá fora esta manhã cinza
que o moço triste não vê
porque mantém os olhos na linha
porque mantém a vida na linha
porque esta linha é tudo
que o mantém a si

da janela do coletivo
embaçada
vejo a cidade
embaçada
sem nem pensar no moço triste que leva a vida
embasada
em etiquetas por minuto
tiquetaqueando contra o relógio
contra a agulha
torcendo pra linha não quebrar
sem nem pensar
no tipo triste que desde às sete
vê a cidade embaçada
na janela do coletivo que mistura no ar
a condensação do hálito
a condensação do hábito
a fiapos de ilusão


quarta-feira, 6 de maio de 2020

Plague Doctors



Mais uma dos tempos de covid-19.

terça-feira, 7 de abril de 2020

A quarentena e A Peste






A quarentena e A Peste
Lendo o clássico de Camus durante a pandemia de Covid-19

“Sempre houve no mundo pestes e guerras;
entretanto pestes e guerras nos acham desprevenidos”.


Era o início da segunda quinzena de abril de 2020, eu havia recém escolhido Dom Casmurro na estante e lido os primeiros capítulos. Na TV as notícias do alastramento da Covid-19 na Europa começavam a preocupar de verdade os brasileiros. No dia seguinte, confirmado o início da quarentena brasileira, Machado acabou voltando pra estante. A Peste iria começar no dia posterior.

No primeiro dia das minhas férias forçadas, antes de começar o teletrabalho que viria pela frente, comecei o livro, com as notícias da TV e as pessoas já levando mais a sério a pandemia, palavra que tinha entrado, quase que do dia para a noite, no vocabulário da população. A obra do prêmio Nobel já foi muito debatida sob o viés de uma analogia à ocupação nazista na França, mas lendo durante esta quarentena foi impossível não enxergar um paralelo mais próximo a nossa própria realidade empesteada.

O povo de Orã, cidade costeira da Argélia dos anos quarenta, em que se passa A Peste, não teve o mesmo aviso prévio que nós brasileiros. Os primeiros sinais vieram dos ratos, começando a morrer em profusão nas ruas, uma flor de sangue a lhes brotar dos focinhos. O problema, no primeiro momento, era de ordem prática de limpeza pública, uma pequena comoção contra a prefeitura por conta dos roedores mortos expostos nas ruas. Uma indecência virem assim morrer em público. O governo local, bastante solícito, iniciou seu plano de recolhimento dos animais mortos às dezenas, depois centenas, diariamente.

Coube ao protagonista, Dr. Rieux, e alguns poucos outros as maiores preocupações acerca daqueles sinais. Sinais claros e inequívocos que eram, enquanto possível, ignorados. Fazendo com que, quando a epidemia de fato se instalara, a cidade tenha sido pega desprevenida. Como diz o próprio narrador:

“As calamidades são com efeito ordinárias, mas dificilmente acreditamos nelas quando nos chegam. Sempre houve no mundo pestes e guerras; entretanto pestes e guerras nos acham desprevenidos”.

Reagir de prontidão à peste é torná-la pública. Imagine-se a comoção, o inconveniente. No caso d’A Peste de Camus, era bem mais que um inconveniente: a prefeitura de Orã estava frente a uma epidemia da Peste Negra, muitíssimo mais letal que o nosso Coronavírus. Mas não pense aqui o leitor que o comentário é um amenizante de um brasileiro privilegiado em uma cidade com ainda poucas dezenas de infectados entrando na terceira semana de quarentena. Todos aqueles que sucumbiram frente à doença ou que por conta dela sofreram merecem ser honrados dando-se o devido respeito e importância à situação. Qualquer baixa causada por um aperto de mão, espirro descuidado ou negligência é um número alto demais.

Negligência, aliás, é o primeiro impulso das autoridades de Orã. O medo da repercussão, o medo de espalhar o caos, que acaba por ajudar a espalhar a doença. Enquanto eu lia isso, um sem fim de conhecidos minimizavam as iniciativas preventivas nas redes sociais. A experiência, talvez por isso, tenha sido tão interessante. Ler A Peste era como um olhar a um futuro próximo. Cada página passada se repetia de certa forma poucos dias depois, na nossa quarentena. O isolamento, o desrespeito ao isolamento; a falta de médicos, os hospitais de campanha nos estádios de futebol; as preocupações individuais frente ao concernimento público.

Com a cidade completamente fechada em quarentena, os moradores de Orã reclamavam das medidas restritivas que, talvez pelo protocolo dos anos 40, me pareceram mais suaves que as atuais, especialmente levando em conta a maior gravidade da calamidade da obra, com exceção talvez pelo fechando total dos portões da cidade, do acesso ao porto e à praia, lacrando completamente a cidade do mundo exterior. De fato, após a mortandade dos ratos ter atingido seu ápice e os roedores deixado de aparecer mortos nas ruas, o povo insistia em prosseguir suas vidas normais, abarrotando templos e cafés da mesma forma que eu via, pela TV ou pela janela, concidadãos indo a praias, parques ou usar qualquer desculpa para sair de casa.

Esse provavelmente é o ponto mais interessante da obra de Camus. Mesmo que às vezes os relatos da peste ou as aventuras de seus personagens sejam bastante explícitos, é sobre a quarentena e o isolamento que o autor se debruça. Na saudade de Rambert, o repórter preso por acaso na cidade por conta do fechamento dos portões, pensando em sua amada e em uma maneira de voltar para ela, e como essa espera e convivência com a doença, a cidade e as pessoas o transforma. Na obstinação de Rieux, que enquanto tem a esposa afastada da cidade tratando uma tuberculose que piora, mantém-se lutando horas infindáveis contra um inimigo avassalador sem esperanças de sucesso, simplesmente por “decência”. O incansável Tarrou, vivendo o isolamento e a doença de perto, seguindo resoluto seu trabalho com Rieux em um misto de entrega e inércia. Os conflitos dos personagens entre agir pelo bem-estar coletivo ou segundo seus impulsos individuais.

“O primeiro efeito da brutal invasão da epidemia foi obrigar habitantes a proceder como se estivessem destituídos de sentimentos individuais”, cita o narrador a um momento.

O tempo passa, as liberdades individuais diminuem, o isolamento se agrava. Enquanto alguns como o padre Paneloux veem a peste como um castigo ou prova divina, Rieux — e com ele o leitor — é obrigado a acompanhar em vigília a luta e derrocada lenta, dolorosa, sofrida, de uma criança inocente sendo mortalmente castigada pela doença. Ao que Rieux conclui:

“Paneloux é um homem de estudo. Não viu muita gente morrer, por isso fala em nome de uma verdade. O mais insignificante padre do interior, amigo dos paroquianos e que tenha ouvido a respiração de um moribundo, pensa como eu e tentaria suprimir a miséria antes de provar as suas vantagens”.

A quarentena no entanto, se ressalta as nossas diferenças, ao mesmo tempo pode aproximar opostos, mesmo Rieux e Paneloux, que acabam atuando juntos contra a epidemia.

Surgem ainda os beneficiados pela crise, como Cottard que, com a paralisação da vida normal da cidade, teve a punição por seus delitos temporariamente suspensa e vive sempre tenso com a possibilidade do fim da peste e da volta à normalidade.

“Apesar do espetáculo anormal, os habitantes tinham dificuldades em perceber o que sucedia. Alguns sentimentos eram comuns, a separação ou o medo, por exemplo, mas as preocupações pessoais venciam tudo. Ninguém se convencia da realidade”.

Um contraste importante tanto na nossa epidemia como na de A Peste em relação a outras calamidades como guerras ou uma enchente, por exemplo, é a falta de um horizonte visível. Enquanto vemos um exército ou as águas avançar ou retroceder, não vemos o afastar de uma epidemia. Pode durar mais uma semana, mais um mês, um ano. O não saber torna a possibilidade da morte iminente uma constante, no caso da Peste Bubônica, e torna difícil programar as medidas de segurança com impactos econômicos e sociais. Como um Cottard às avessas, estar n’A Peste é estar no seio de um inimigo invisível sem saber-se, talvez, já derrotado. Muito se compara a obra e a doença de Orã à guerra, em especial à ocupação nazista, mas essa morte à espreita constante, esse fim iminente e definitivo, também é comum a um outro estado bastante conhecido: a vida. Vivemos sempre a possibilidade de um fim precoce, mas sem uma quarentena normalmente nem percebemos e ficamos, como o povo de Orã, mecanicamente vivendo — sobrevivendo — sem nos darmos conta. Foi preciso uma quarentena para Rieux e Tarrou subirem ao terraço de um velho asmático para apreciar o mar se encontrar com o céu no horizonte. Precisaram lançar mão de suas prerrogativas oficiais para tomar um banho de mar e esquecer, mesmo que por um momento, a doença. Tanto a Peste Negra como a Covid-19 nos revelam alguns dos privilégios e prazeres que tínhamos como garantidos. Se a baixa mortalidade do nosso atual algoz não nos faz respeitar as ordens públicas e não nos preocupa como a praga de Orã, que ao menos nos faça enxergar que o absurdo da vida não está apenas na sua fugaz fragilidade, mas em não reparar na beleza que isso pode representar.

O conflito da obra de Albert Camus, e dos nosso tempos, talvez tenha sido melhor definida por João Tarrou junto a Rieux no terraço sobre a cidade empesteada:

“Sabe que o pelotão de fuzilamento se coloca a um metro e cinquenta do condenado? (...) Sabe que, nessa curta distância, os fuziladores concentram o fogo no coração e fazem, com balas grossas, um buraco onde a gente poderia meter a mão fechada? (...) são pormenores que ninguém fala. O sono dos homens é mais precioso que a vida das criaturas empestadas. Não devemos perturbar o sono das pessoas honestas”.

São lições que brotam nos tempos de peste como ratos dos esgotos. Que tomam as ruas, os telejornais, as página da internet e as redes sociais. Mas quando os ratos deixam de surgir mortos nas portas das casas, quando os mortos não podem ser vistos ou o inimigo não pode ser sentido, esquecemos tão facilmente os tempos de reclusão. Como provavelmente faremos assim que a quarentena for levantada.

Mas o bacilo da peste, lembra Rieux, “não morre nem desaparece, fica dezenas de anos a dormir nos móveis e nas roupas, espera com paciência nos quartos, nos porões, nas malas, nos papéis, nos lenços — e chega talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acorda os ratos e os manda morrer numa cidade feliz”.

Que vivamos, pois, nossa cidade feliz enquanto não chegam os ratos. E que não seja preciso uma calamidade para relembrarmos o encontro do céu e o do mar visto sobre um terraço de uma cidade empesteada.