Flores na cabeça
Começou quase imperceptível. Apenas uma sutil vibração, breve mas insistente, percorrendo a poeira da estrada de terra cercada de flores sob o céu azul primaveril. No cenário quase bucólico, as casas de tijolos à vista à beira da rua pareciam guardar segredos silentes por trás das fugas brancas das paredes e dos gramados cercados de pétalas, canteiros e aromas de bolos de banana com farofa. Foi só muito aos poucos, a lentos passos, que a melodia se fez, de fato, audível. Um assobio que saltitava alegre nas notas de diapasão, embalando as flores numa dança discreta na brisa suave que o vento soprava com cuidado exagerado.
O assobio nascia num vão entre um par de lábios volumosos de tom café, contornados por uma barba baixa que cobria um rosto de onde espiavam olhos curiosos. A mochila nas costas jingava com o andar cadenciado ditado pelos passos errantes das botas de solado grosso e couro resistente empoeirado. A camisa listrada retribuindo as cores das flores que margeavam o caminho.
Parou à sombra de uma árvore de copa recém podada, próxima a uma casinha de tijolos aparentes e floreiras nas janelas, admirando o telhado pontiagudo. Cessou o assobio ouvindo com prazer o silêncio da rua decorada e o som da brisa nas folhas. Sentou à beira da estrada, deitou ao chão a mochila e bebeu a água fresca de um cantil de alumínio, dividindo o espaço com as borboletas das flores junto à cerca, logo ao lado.
Se perdeu na delicadeza das asas e nem percebeu a chegada da criança loura que saltitava saindo do jardim bem aparado da casa. Foi o som do riso da menina que o despertou. Mas quando a criança o viu, hesitou desconfiada, parando junto ao portãozinho de madeira.
— Oi — Foi ele quem cumprimentou, jovial.
A criança não respondeu e ficou brincando à distância, lançando-lhe um olhar de soslaio vez por outra, um tanto ressabiada. Ele riu e retornou a atenção às borboletas, que vinham lhe brincar nos braços. Tocou com a ponta do dedo as asas coloridas e viu o inseto levantar voo até pousar-lhe na cabeça. Mais uma risada infantil lhe chamou a atenção.
— Parece um laço — Divertiu-se a menina loura de vestidinho, apontando para a borboleta na cabeça do forasteiro. Ele riu com o chiste e a menina se aproximou.
— Você é um vagabundo? — perguntou a criança.
Ele se espantou, em princípio, mas logo riu mais uma vez com vontade, fazendo voar a borboleta da cabeça. Mas não. Ele era apenas um viajante.
— E o que faz um viajante?
— Viaja — respondeu sorrindo.
Colheu uma flor amarela e colocou no cabelo louro da menina.
— Pronto. Agora você também tem um laço.
Ela sorriu. Mas em seguida dirigiu um olhar preocupado para a porta da casa de tijolos aparentes e disse:
— Meu pai não vai gostar disso. Ele diz que as flores têm que enfeitar o jardim.
— As flores ficam bonitas nos jardins, sim. Mas eu acho que elas deveriam enfeitar mais as cabeças das pessoas — respondeu o rapaz com calma.
— Ora, onde já se viu flor na cabeça? Lugar de flor é na rua. Ou na frente de casa. Minha mãe até chama um tio pra deixar elas bonitas ali perto da porta.
— Mas aí as borboletas não vão querer visitar a sua cabeça. No máximo vão passar pela sua rua, mas não vão querer pousar em você.
— Hum... Meu pai nunca falou nada sobre as borboletas.
— Deixa eu adivinhar: ele não tem flores na cabeça, tem?
— Não... Ele tem em volta de casa, tem na entrada da garagem, mas na cabeça nunca colocou, não... Mas você também não tem flor na cabeça e a borboleta pousou em você!
— É que quando você põe uma flor na cabeça uma vez, um pouquinho dela fica ali pra sempre. Como se fosse um perfume. Aí as borboletas percebem e acabam pousando em você.
— Eu queria ter mais flores na cabeça. Mas aí meu pai vai brigar. Elas tem que ficar aqui fora, pra deixar a fachada mais bonita e pra todo mundo ver que as borboletas passam por aqui.
— Talvez, se mais gente colocasse flores na cabeça, a gente não precisaria de tantas flores nas fachadas. As borboletas viriam da mesma forma e o perfume estaria sempre com a gente, em todos os lugares. Com as pessoas andando por aí, as flores iriam se espalhando pelas casas, pelas ruas, pelas outras pessoas. Haveriam flores e borboletas em todas as ruas.
— Ah! — a garota falou esperançosa, levantando o dedinho para o céu como quem lembrou de algo importante ou pede a vez para falar — Vou fazer como a minha mãe, então. Ela tem um arco de cabelo cheio de flores que nunca murcham. Vou usar sempre!
— Acho que esse não vai adiantar. As flores do arco são de plástico, não são de verdade. Por isso não murcham. Elas só parecem flores, mas se você olhar de perto vai perceber que elas não tem perfume, porque são de mentira. E as borboletas não vêm em flores de mentira. Quando uma flor é de verdade, ela pode até murchar algum dia, mas acaba deixando uma sementinha que vai fazer brotar outra flor. Assim elas se renovam e mantêm sempre o perfume.
— É melhor eu voltar pra dentro. Meu pai não gosta que eu fale com vagab... — com estranhos.
— Tudo bem. Foi legal conhecer você, viu?
A menina retirou a flor do cabelo com cuidado e a colocou no bolso do vestido. O rapaz sorriu tranquilo, sabendo que um pouco dela continuaria na cabeça da criança, que logo saiu correndo na direção da casa. O jovem levantou-se, colocou às costas a mochila e seguiu o caminho pela estrada de barro com algumas borboletas no seu encalço. Saiu assobiando a melodia alegre que ia desaparecendo da vizinhança das casas de tijolo à vista e cheiro de bolo de colono. A melodia foi baixando, baixando, sumindo, sumindo, até deixar no ar apenas aquela vibração quase imperceptível, que foi dando lugar ao som do vento nas folhas e o de alguma criança levando bronca por ter arrancado uma flor do jardim.
* Update: Conforme comentário meu do dia da postagem, esse texto acabou mesmo passando por uma pequena reedição. O título, do qual eu havia reclamado, ironicamente se manteve, mas nesta versão algumas construções mudaram e alguns trechos foram ajustados. Acabou ganhando um volume de texto um pouco maior também. A motivação para a atualização foi a publicação na próxima edição do jornal Expressão Universitária, do Sinsepes.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte Final (XII)
Não recebi nenhuma nova notícia sobre a contenção da inundação nos porões, mas parece que continuamos na mesma situação. O clima continua fechado e a chuva aumentou um pouco, mas ainda não há ventos para soprar para longe este nevoeiro que nos cerca. A temperatura continua baixa e, pela trajetória do Cirella à deriva, creio que devemos estar sob a ação de alguma corrente marítima. Nosso capitão passou por um período dando ordens quase que a esmo, até mesmo contraditórias, mas agora parece estar tentando ganhar novamente a confiança da tripulação e caminha entre os homens congratulando-os pelo trabalho, distribuindo pequenas bonificações e prometendo maior parte nos lucros. Eu mesmo tenho sido alvo freqüente destas iniciativas, mas as promessas continuam promessas, e o Cirella, ainda que sob os nossos esforços de reparação, continua à deriva. Rastani tem ficado mais tempo na cabine contabilizando nossos recursos restantes do que contribuindo para sanar os problemas e o Peregrino agora fica mais retirado do que nunca, e raramente dá as caras no convés ou junto aos marinheiros. Agora, para honrar as recentes baixas que tivemos e os companheiros que entregamos ao mar, devo retomar os meus relatos enquanto a efêmera estabilidade que nos acalenta se mantém presente.
Apesar dos ferimentos, dizia eu, continuávamos a postos encurralando os homens do Amret contra o restante de seus canhões, que miravam maliciosamente o Cirella. O impasse iluminado pelas tochas não dava sinais de ceder frente às negociações de nosso capitão com o comandante do Amret. Nós não abriríamos mão da conquista do porto e eles não aceitariam a derrota de mãos vazias. Naquela noite fora proclamado, sob as chamas inquisidoras das tochas, um acordo do qual jamais falaríamos novamente e do qual a ciência deveria ser sepultada ali, como um dos que padeceram em combate. O Amret e seus homens iriam poupar o Cirella do trágico fim e a nau inimiga não seria destruída por nossos adversários. Eles não mais ofereceriam resistência a nossa conquista do porto e nós poderíamos novamente nos pôr rumo ao nosso desejado destino. Em troca, o Capitão Tino cedera ao capitão do Amret parte da carga e das riquezas que transportávamos no Cirella e se comprometera em agraciar nossos antagonistas com a quinta parte de nossos lucros com as mercadorias do porto, mesmo os homens do Amret não tendo nenhuma participação nos trabalhos e viagens a nossa nova conquista. Um acordo que permaneceu obscuro naquele porão emprenhado pelo pó negro e por homens rubros e abatidos.
Lembro daquela aurora com um pesar ainda constante. Os raios do sol iluminaram o que restara de nossa embarcação e a fila de corpos cobertos pelos tecidos vulgares no nosso convés. Despedimo-nos de nossos companheiros silenciosamente e os deixamos aos cuidados do oceano para um sepultamento no leito daquele que fora o último campo de batalha em que eles adentraram. Passamos o restante do dia calados e tentando colocar o Cirella novamente em condições de navegar, ao menos até algum porto onde poderíamos fazer os reparos de forma mais segura. Naquele dia silencioso só se ouvia a voz de Sadiano se congratulando pela conquista e contabilizando as riquezas que iria tornar a acumular. Enquanto nós, silenciosos, contabilizávamos os danos sofridos pelo Cirella e pelos homens que por ele lutaram.
Acabo de retornar do convés. As novas que trago preencherão estas últimas linhas de mais infortúnios, como se ainda não tivesse relatado suficientes. Bogus reuniu os homens para dar a notícia. Nero sucumbiu há algumas horas. Nenhum de nós nutria muita esperança por sua recuperação, mas as histórias do velho marujo continuarão ecoando nos porões e entre os homens do Cirella.
Uma fina camada de cera separa agora a chama da mesa e o pavio negro pende torto, moribundo. Um silêncio percorre as câmaras restantes de nosso ataúde avariado, enquanto as ondas embalam o mudo Cirella. Um silêncio de luto. Não por aqueles que se foram, nem por aqueles que permanecem, mas pela chama que se extingue sepulta pela cera branca sobre o tampo amadeirado, deixando que a escuridão se apodere por completo da história do Cirella.
Apesar dos ferimentos, dizia eu, continuávamos a postos encurralando os homens do Amret contra o restante de seus canhões, que miravam maliciosamente o Cirella. O impasse iluminado pelas tochas não dava sinais de ceder frente às negociações de nosso capitão com o comandante do Amret. Nós não abriríamos mão da conquista do porto e eles não aceitariam a derrota de mãos vazias. Naquela noite fora proclamado, sob as chamas inquisidoras das tochas, um acordo do qual jamais falaríamos novamente e do qual a ciência deveria ser sepultada ali, como um dos que padeceram em combate. O Amret e seus homens iriam poupar o Cirella do trágico fim e a nau inimiga não seria destruída por nossos adversários. Eles não mais ofereceriam resistência a nossa conquista do porto e nós poderíamos novamente nos pôr rumo ao nosso desejado destino. Em troca, o Capitão Tino cedera ao capitão do Amret parte da carga e das riquezas que transportávamos no Cirella e se comprometera em agraciar nossos antagonistas com a quinta parte de nossos lucros com as mercadorias do porto, mesmo os homens do Amret não tendo nenhuma participação nos trabalhos e viagens a nossa nova conquista. Um acordo que permaneceu obscuro naquele porão emprenhado pelo pó negro e por homens rubros e abatidos.
Lembro daquela aurora com um pesar ainda constante. Os raios do sol iluminaram o que restara de nossa embarcação e a fila de corpos cobertos pelos tecidos vulgares no nosso convés. Despedimo-nos de nossos companheiros silenciosamente e os deixamos aos cuidados do oceano para um sepultamento no leito daquele que fora o último campo de batalha em que eles adentraram. Passamos o restante do dia calados e tentando colocar o Cirella novamente em condições de navegar, ao menos até algum porto onde poderíamos fazer os reparos de forma mais segura. Naquele dia silencioso só se ouvia a voz de Sadiano se congratulando pela conquista e contabilizando as riquezas que iria tornar a acumular. Enquanto nós, silenciosos, contabilizávamos os danos sofridos pelo Cirella e pelos homens que por ele lutaram.
Acabo de retornar do convés. As novas que trago preencherão estas últimas linhas de mais infortúnios, como se ainda não tivesse relatado suficientes. Bogus reuniu os homens para dar a notícia. Nero sucumbiu há algumas horas. Nenhum de nós nutria muita esperança por sua recuperação, mas as histórias do velho marujo continuarão ecoando nos porões e entre os homens do Cirella.
Uma fina camada de cera separa agora a chama da mesa e o pavio negro pende torto, moribundo. Um silêncio percorre as câmaras restantes de nosso ataúde avariado, enquanto as ondas embalam o mudo Cirella. Um silêncio de luto. Não por aqueles que se foram, nem por aqueles que permanecem, mas pela chama que se extingue sepulta pela cera branca sobre o tampo amadeirado, deixando que a escuridão se apodere por completo da história do Cirella.
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segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte XI
O céu nublado trouxe uma escuridão precoce quando o sol se pôs, e apenas dois pontos brilhantes chamejavam sobre as ondas baixas que embalavam os dois archotes a uma distância pequena demais para propiciar um descanso tranqüilo aos seus tripulantes. Sabíamos que aquela seria uma aurora violenta. O sol se ergueria vermelho do oceano e se confundiria com o nosso sangue que certamente tingiria as águas se entrássemos em um combate aberto contra o bem armado Amret. Jamais chegaríamos próximos o suficiente para abordar a embarcação inimiga à luz do dia. Se chegássemos ao alcance dos canhões adversários nosso casco não suportaria os danos e não nos seria possível engajar ao combate corpo-a-corpo. E o Cirella não possuía poderio suficiente para suplantar os canhões de bronze de nosso adversário no combate à distância. Era preciso que tomássemos a iniciativa da ofensiva na esperança de surpreender nossos inimigos, mesmo que isso significasse o risco de uma navegação às cegas na noite sombria daquelas águas desconhecidas. Preparamos nossas armas sob o convés procurando manter uma aparente rotina para o caso de estarmos sendo observados à distância pelos homens do Amret. Preparamos além das armas, vários metros de cordas e ganchos para uma abordagem ao convés inimigo. Apagamos as lanternas a bombordo deixando apenas iluminada a lateral do navio voltada ao Amret, a boreste. Encobertos pela escuridão, baixamos os botes ocultos dos olhos de nosso antagonista e os enchemos com nossos melhores combatentes e com as cordas devidamente preparadas. Os botes foram levados em silêncio e completa escuridão para próximo da nau inimiga e aguardaram o momento de agir. Os outros dentre nós que ficaram a bordo preparam o melhor possível o Cirella para uma investida noturna na esperança de que os vigias, em meio à escuridão, não percebessem nossa aproximação há tempo de preparar sua defesa ou ao menos que a precisão da artilharia inimiga fosse prejudicada. Assim que todos se colocaram a postos, apagamos todas as lanternas a bordo, envolvendo definitivamente o Cirella na escuridão da noite, e mudamos o curso para interceptar nosso adversário que reluzia solitário sobre as águas escuras e frias que aguardavam silenciosas o embate.
Entramos no alcance dos canhões inimigos e nenhum alarma aparentemente fora dado. Enquanto isso os botes, também envoltos pela noite se aproximavam sorrateiramente do casco do Amret, prontos para desovarem no convés um pequeno enxame de combatentes. Nosso subterfúgio, no entanto não fora suficiente para uma surpresa completa e logo os vigias inimigos deram pela falta de nossas lanternas ao longe e perscrutando a noite localizaram o Cirella se dirigindo a eles como um aríete obscuro. O alarma fora dado e a movimentação no convés inimigo se intensificava com a artilharia se preparando para a primeira salva, e a infantaria toda a bombordo pronta para repelir nossas amarras e tentativas de abordagem. Enquanto isso, a boreste do barco adversário, os botes começam a liberar homens que escalavam, com o auxílio das cordas, rumo ao convés inimigo. A primeira saraivada rasgou a noite com um uníssono trovejar que despejou o aço quente nas águas a nossa volta. A escuridão que nos protegia também não nos permitia ver os projéteis que nos procuravam nas trevas e a expectativa do impacto se tornava tão angustiante quanto o próprio arrematar das esferas metálicas. A segunda descarga cruzou perigosamente o inconseqüente e destemido Cirella e uns dos projéteis transpassou uma de nossas velas secundárias deixando em seu lugar um vão negro preenchido pelo céu escuro.
Antes que a próxima bateria se preparasse nossos homens haviam deixados os botes e arremeteram contra a artilharia inimiga, que surpreendida cedia sob a fumaça das pistolas, o cheiro da pólvora e as lâminas velozes. Com o caos perpetrado na nau inimiga, reacendemos as lanternas do Cirella iluminando nosso único e ultrapassado canhão de retrocarga. As recargas estavam preparadas e arma posicionada no bordo do Cirella, que já se posicionava para o tiro. Enquanto nossos homens enfrentavam o contra-ataque da infantaria do Amret no convés adversário, o Cirella cuspia esferas de ferro contra o mastro e as velas inimigas a fim de aleijar nosso antagonista. Mesmo com a artilharia severamente debilitada os canhões de bronze do Amret ainda eram uma ameaça, e à curta distância não demoraram a mostrar seu poderio. Logo o impacto do fogo inimigo avariou nossa embarcação causando estragos tanto ao Cirella como aos homens a bordo, que caíam sob os estilhaços do navio que voavam aos montes. Nossos homens debilitaram nosso inimigo o suficiente para que pudéssemos nos aproximar para a abordagem e logo as amarras voavam de um navio ao outro e as pranchas de madeira eram estendidas entre os conveses.
Investimos com o restante de nossos homens sobre o convés inimigo unindo nossas forças àquelas dos nossos companheiros que iniciaram o ataque. Àquela distância o Cirella era presa fácil para os canhões inimigos e o casco se rompia ante a ferocidade das armas. Ao Amret, com o mastro partido e deitado sobre o convés, não restava muito a não ser tentar suportar nossas forças no convés e continuar a punir nossa embarcação e os homens que nela haviam ficado tanto quanto fosse possível com o restante de sua artilharia. Ao mesmo tempo em que sobrepujávamos as forças inimigas, o Cirella se esfacelava sob uma nuvem de fumaça e poeira e ameaçava, vagarosamente, entregar suas forças e mergulhar ao leito do oceano. Nosso antigo canhão, de ferro fundido, explodiu durante um tiro, arrancando parte do bordo de nosso navio e a vida de pelo menos dois de nossos homens. No entanto, a bordo do também castigado Amret, já havíamos suplantado as forças opositoras que se entrincheiraram no convés inferior, junto à segunda linha de artilharia. Com o convés principal seguro, o Capitão Tino abordou a nau inimiga para exigir a rendição ou comandar o último ataque contra os sobreviventes. Apesar das várias baixas que tivemos e das várias que ainda teríamos devido aos ferimentos desta batalha, tínhamos na boca o gosto da vitória misturado ao do sangue. Mas os rumores sobre os ardis de nossos adversários não eram despropositados. Quando abordamos o convés inferior do Amret nos deparamos com todos os homens armados de tochas incandescentes e com toda a força da artilharia inimiga pronta e apontada contra o agonizante Cirella. Ao redor deles, barris de madeira abarrotavam o compartimento e preenchiam o ar com o cheiro da pólvora. O Cirella não suportaria outra salva a esta distância e estaria condenado caso nossos inimigos disparassem. E eles estavam prontos para sacrificar a conquista do porto, para sacrificar sua própria embarcação, para não serem derrotados. A tensão se tornava palpável e o bruxulear das tochas sobre os barris mostrava que aquela batalha não teria vencedores.
O pó negro exalava um cheiro forte no convés abarrotado. Muitos de nós estávamos feridos, mas continuávamos a postos no convés inferior junto com nossos companheiros. Nosso Imediato, Bogus Napolle, tinha a perna lacerada por uma lâmina inimiga e mancava terrivelmente. Eu mesmo, que havia acompanhado a segunda investida sobre o navio inimigo, naquele momento ainda portava o chumbo adversário no antebraço esquerdo. Admirando agora o ferimento recém cicatrizado à luz da vela que se encolhe enquanto escrevo, penso se Nero resistirá aos ferimentos que lhe foram impostos.
Nero Marquesia é um dos tripulantes mais velhos do Cirella. Quando me juntei à tripulação desta remendada embarcação não o conhecia, e o espírito reservado do marinheiro fez com que só após algum tempo no mar ele passasse e me contar as suas histórias com o sotaque marcante característico. E com o passar deste tempo eu percebia que este era um dos seus maiores passa-tempos sobre as ondas. E maior parte dos companheiros de convés também se aprazia com as histórias do velho marujo. Nas noites de calmaria, à luz de uma lanterna, os causos do velho Nero eram o divertimento da tripulação. E agora ele passa os seus dias em um leito tentando suportar aos ferimentos sofridos naquela noite belicosa. Quando nosso canhão explodiu em combate lançou ao ar estilhaços de madeira e metal que se espalharam por boa parte do convés. Nero fora atingido em diversas áreas do corpo por esses estilhaços e ao que parece por uma das câmaras de recarga lançadas pela explosão da arma. Os ferimentos o puseram inconsciente e, se não fosse pelos cuidados de Frei Renalier, possivelmente já teria sucumbido. Agora ele oscila entre períodos de consciência e inconsciência e é acometido quase que constantemente pela febre, possivelmente decorrente da inflação de um dos ferimentos. Nosso Frei se divide entre os cuidados de um cirurgião e as preces de um sacerdote, enquanto o resto de nós apenas torce para que ele resista. Infelizmente parece que nosso companheiro fará mais uso das preces do que dos ungüentos e dá sinais de que pode não agüentar nem mais uma semana nas precárias condições em que nos encontramos.
Entramos no alcance dos canhões inimigos e nenhum alarma aparentemente fora dado. Enquanto isso os botes, também envoltos pela noite se aproximavam sorrateiramente do casco do Amret, prontos para desovarem no convés um pequeno enxame de combatentes. Nosso subterfúgio, no entanto não fora suficiente para uma surpresa completa e logo os vigias inimigos deram pela falta de nossas lanternas ao longe e perscrutando a noite localizaram o Cirella se dirigindo a eles como um aríete obscuro. O alarma fora dado e a movimentação no convés inimigo se intensificava com a artilharia se preparando para a primeira salva, e a infantaria toda a bombordo pronta para repelir nossas amarras e tentativas de abordagem. Enquanto isso, a boreste do barco adversário, os botes começam a liberar homens que escalavam, com o auxílio das cordas, rumo ao convés inimigo. A primeira saraivada rasgou a noite com um uníssono trovejar que despejou o aço quente nas águas a nossa volta. A escuridão que nos protegia também não nos permitia ver os projéteis que nos procuravam nas trevas e a expectativa do impacto se tornava tão angustiante quanto o próprio arrematar das esferas metálicas. A segunda descarga cruzou perigosamente o inconseqüente e destemido Cirella e uns dos projéteis transpassou uma de nossas velas secundárias deixando em seu lugar um vão negro preenchido pelo céu escuro.
Antes que a próxima bateria se preparasse nossos homens haviam deixados os botes e arremeteram contra a artilharia inimiga, que surpreendida cedia sob a fumaça das pistolas, o cheiro da pólvora e as lâminas velozes. Com o caos perpetrado na nau inimiga, reacendemos as lanternas do Cirella iluminando nosso único e ultrapassado canhão de retrocarga. As recargas estavam preparadas e arma posicionada no bordo do Cirella, que já se posicionava para o tiro. Enquanto nossos homens enfrentavam o contra-ataque da infantaria do Amret no convés adversário, o Cirella cuspia esferas de ferro contra o mastro e as velas inimigas a fim de aleijar nosso antagonista. Mesmo com a artilharia severamente debilitada os canhões de bronze do Amret ainda eram uma ameaça, e à curta distância não demoraram a mostrar seu poderio. Logo o impacto do fogo inimigo avariou nossa embarcação causando estragos tanto ao Cirella como aos homens a bordo, que caíam sob os estilhaços do navio que voavam aos montes. Nossos homens debilitaram nosso inimigo o suficiente para que pudéssemos nos aproximar para a abordagem e logo as amarras voavam de um navio ao outro e as pranchas de madeira eram estendidas entre os conveses.
Investimos com o restante de nossos homens sobre o convés inimigo unindo nossas forças àquelas dos nossos companheiros que iniciaram o ataque. Àquela distância o Cirella era presa fácil para os canhões inimigos e o casco se rompia ante a ferocidade das armas. Ao Amret, com o mastro partido e deitado sobre o convés, não restava muito a não ser tentar suportar nossas forças no convés e continuar a punir nossa embarcação e os homens que nela haviam ficado tanto quanto fosse possível com o restante de sua artilharia. Ao mesmo tempo em que sobrepujávamos as forças inimigas, o Cirella se esfacelava sob uma nuvem de fumaça e poeira e ameaçava, vagarosamente, entregar suas forças e mergulhar ao leito do oceano. Nosso antigo canhão, de ferro fundido, explodiu durante um tiro, arrancando parte do bordo de nosso navio e a vida de pelo menos dois de nossos homens. No entanto, a bordo do também castigado Amret, já havíamos suplantado as forças opositoras que se entrincheiraram no convés inferior, junto à segunda linha de artilharia. Com o convés principal seguro, o Capitão Tino abordou a nau inimiga para exigir a rendição ou comandar o último ataque contra os sobreviventes. Apesar das várias baixas que tivemos e das várias que ainda teríamos devido aos ferimentos desta batalha, tínhamos na boca o gosto da vitória misturado ao do sangue. Mas os rumores sobre os ardis de nossos adversários não eram despropositados. Quando abordamos o convés inferior do Amret nos deparamos com todos os homens armados de tochas incandescentes e com toda a força da artilharia inimiga pronta e apontada contra o agonizante Cirella. Ao redor deles, barris de madeira abarrotavam o compartimento e preenchiam o ar com o cheiro da pólvora. O Cirella não suportaria outra salva a esta distância e estaria condenado caso nossos inimigos disparassem. E eles estavam prontos para sacrificar a conquista do porto, para sacrificar sua própria embarcação, para não serem derrotados. A tensão se tornava palpável e o bruxulear das tochas sobre os barris mostrava que aquela batalha não teria vencedores.
O pó negro exalava um cheiro forte no convés abarrotado. Muitos de nós estávamos feridos, mas continuávamos a postos no convés inferior junto com nossos companheiros. Nosso Imediato, Bogus Napolle, tinha a perna lacerada por uma lâmina inimiga e mancava terrivelmente. Eu mesmo, que havia acompanhado a segunda investida sobre o navio inimigo, naquele momento ainda portava o chumbo adversário no antebraço esquerdo. Admirando agora o ferimento recém cicatrizado à luz da vela que se encolhe enquanto escrevo, penso se Nero resistirá aos ferimentos que lhe foram impostos.
Nero Marquesia é um dos tripulantes mais velhos do Cirella. Quando me juntei à tripulação desta remendada embarcação não o conhecia, e o espírito reservado do marinheiro fez com que só após algum tempo no mar ele passasse e me contar as suas histórias com o sotaque marcante característico. E com o passar deste tempo eu percebia que este era um dos seus maiores passa-tempos sobre as ondas. E maior parte dos companheiros de convés também se aprazia com as histórias do velho marujo. Nas noites de calmaria, à luz de uma lanterna, os causos do velho Nero eram o divertimento da tripulação. E agora ele passa os seus dias em um leito tentando suportar aos ferimentos sofridos naquela noite belicosa. Quando nosso canhão explodiu em combate lançou ao ar estilhaços de madeira e metal que se espalharam por boa parte do convés. Nero fora atingido em diversas áreas do corpo por esses estilhaços e ao que parece por uma das câmaras de recarga lançadas pela explosão da arma. Os ferimentos o puseram inconsciente e, se não fosse pelos cuidados de Frei Renalier, possivelmente já teria sucumbido. Agora ele oscila entre períodos de consciência e inconsciência e é acometido quase que constantemente pela febre, possivelmente decorrente da inflação de um dos ferimentos. Nosso Frei se divide entre os cuidados de um cirurgião e as preces de um sacerdote, enquanto o resto de nós apenas torce para que ele resista. Infelizmente parece que nosso companheiro fará mais uso das preces do que dos ungüentos e dá sinais de que pode não agüentar nem mais uma semana nas precárias condições em que nos encontramos.
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sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte X
Como o Peregrino ficava em sua saleta nos porões do Cirella, a tripulação não lhe dedicou muita atenção a princípio. À medida que parávamos nos portos, percebemos que Tino se dedicava cada vez mais à venda das ervas do Peregrino em detrimento das mercadorias do Cirella. E os lucros de tais vendas ficavam restritos ao Capitão, seu conselheiro e, obviamente, ao ruivo com voz de criança. A tripulação apenas ganhava seu percentual das especiarias normalmente negociadas pelo Cirella, que diminuíram aos poucos, uma vez que os espaços nos porões da embarcação foram sendo tomados pelas plantas. Aos poucos, o nosso novo tripulante começou a se infiltrar no dia-a-dia do Cirella. Em pouco tempo havia se tornado conselheiro de Tino Sadiano, acima mesmo de Bogus Napolle, o Imediato do navio. Apenas Rastani Cain estava acima dele na embarcação. Com astúcia e promessas de enormes recompensas foi envenenando a mente já frágil e perturbada de nosso capitão a ponto de convencê-lo de que sua sala na ponte de comando do Cirella não era necessária para ele. Seria melhor se ele passasse seus dias mais próximo dos marujos, entre eles, de forma a melhor vigiar e perceber qualquer movimentação que pudesse oferecer risco ao seu comando. E, já que o Capitão estaria junto aos homens e sua sala na ponte de comando ficaria vazia e ociosa, o Peregrino se disponibilizou a ocupar o lugar. Tudo, é claro, para melhor estudar suas ervas e controlar os negócios, visando maiores lucros para ele e para o Capitão. Com o consentimento do comandante máximo da embarcação, o Peregrino passa agora seus dias não mais nos porões do navio, mas sim na cabine de comando.
Acabo de voltar do convés. Ouvi gritos dos homens chamando por ajuda. A água que já havia tomado um dos compartimentos inferiores voltou a se alastrar em nossos porões. Felizmente conseguimos conter a inundação a tempo, mas com isso isolamos o compartimento anterior e não podemos mais bombear a água para fora do navio. Perdemos boa parte da carga nesse ínterim e algumas sacas das ervas que carregamos. Com a chuva que volta a cair esperamos conseguir água potável o suficiente para nos mantermos por mais tempo. Quanto aos mantimentos que nos restam, decidimos começar a racionar, pois não sabemos quanto tempo ficaremos nesta situação. O Capitão pareceu preocupado com o estado de seu navio e mandou levar o dinheiro guardado e seus itens mais valiosos para a parte mais segura do Cirella, que ainda não foi afetada pelos estragos. Penso que se talvez nos livrássemos de parte do ouro ou das ervas nos porões deixaríamos a nau mais leve e poderíamos tentar manobrá-la com mais facilidade ou ao menos o suficiente para conseguir fazer os reparos de emergência. Mas estou certo de que nosso capitão não aceitara tal proposta. Devo retomar agora minha história dos últimos eventos antes que a água volte a nos colocar em perigo e interrompa definitivamente essas breves e desditosas memórias.
Com os porões emprenhados pelas ervas e o Capitão se dedicando cada vez mais ao comércio destas mercadorias, deixando quase que de lado os negócios do Cirella, velejamos por vários mares e cruzamos dezenas de fronteiras. A cada porto parecia que Tino e o Peregrino ficavam mais abastados enquanto o Cirella cada vez mais carente de cuidados, tendo apenas a tripulação olhando por ele. Mas uma esperança surgiu, em um mercado de um porto continental. Rastani Cain negociava os lucros com um dos comerciantes, e este lhe contara uma notícia que poderia colocar novamente o Cirella nas grandes rotas comerciais.
Quase a totalidade das cargas que chegavam àquela localidade era proveniente de um único e distante porto. As embarcações que até então traziam de lá as mercadorias iriam se lançar ao outro lado do mundo, deixando a rota livre para novos barcos. Com a grande demanda de carga exigida, não seriam muitos os barcos que teriam condições de comercializar estes produtos. Eram necessárias grandes dimensões para armazenar carga o suficiente para as viagens e uma grande equipe para conduzir o barco pelas águas bravias que permeavam a rota. A oportunidade despertou o interesse de Sadiano, que via a possibilidade de grandes lucros, e da tripulação que vislumbrava grandes viagens e aventuras. A notícia arrebatou a costa como o vento das monções e logo várias embarcações estavam se preparando para zarpar rumo ao longínquo porto e suas promessas de riquezas. Entre elas, o Cirella.
Nas semanas que se seguiram, todas as embarcações se colocaram em uma corrida rumo ao novo porto. Sabíamos que a maioria daqueles que zarparam jamais chegariam até lá. Mas era preciso não só que lá chegássemos, mas que o fizéssemos antes de nossos concorrentes. Foram semanas de disputas ferrenhas e não raro a corrida se transformava em combate, tingindo o mar de sangue para o deleite dos peixes que seguiam as naus. Para aquelas rotas o Cirella não era um barco a se desprezar e seu porte nos salvou algumas vezes de embates mais diretos, especialmente com embarcações menores ou de tripulação menos numerosa, uma vez que mesmo não sendo militares, nossos homens se faziam às armas quando preciso quase com a mesma intensidade com que se faziam ao mar em busca de aventuras. Nas últimas semanas fomos tomando distância das embarcações menores que iam ficando para trás ou sendo abatidas pelas naus maiores. Felizmente o Cirella sofrera poucas avarias nesses embates, e assim nos víamos em condições favoráveis para a conquista do porto. Nas últimas semanas só havíamos avistado três naus além da nossa. Uma delas pouco conhecíamos, mas identificamos pela bandeira que era uma embarcação originária das terras às quais objetivávamos. Assim, mesmo sendo um pouco menor do que suas concorrentes, conhecia bem as rotas daquela região e nos seguia de perto. Chegaram inclusive a atingir a distância de combate, mas com uma manobra rápida, aproveitando a mudança do vento, alteramos a rota do Cirella e cortamos a frente de nossos adversários. Para um navio de porte maior isso não seria problema, mas para nosso diminuto concorrente, as ondas provocadas por nossa passagem foram o suficiente para desestabilizar o barco, enquanto nós, aproveitando a mudança repentina dos ventos tomávamos distância.
Restavam então apenas dois adversários. Atrás de nós vinha o Amret. Ao contrário da embarcação que já havíamos deixado para trás, este era um concorrente maior que o Cirella e melhor armado. Mantínhamos uma distância segura do navio mas nem por um momento deixamos de vê-lo em nosso encalço. Enquanto isso seguíamos em busca do Reef, que havia despontado a nossa frente sem deixar sinais. A grande embarcação era a maior de nossos mares. Com uma tripulação quase duas vezes maior que a nossa e um barco de porte muito mais avantajado, seria preciso muito esforço para que alcançássemos o Reef a tempo, e ainda assim teríamos de derrotá-lo em combate, um feito que não era impossível, mas tampouco simples. E sem dúvidas não sairíamos ilesos de um confronto tanto contra o Amret quanto contra o Reef. Quem dirá enfrentar a ambos. Sob a pressão constante do Amret às nossas costas e sem sinal do Reef à nossa frente, o clima no Cirella ficava cada vez mais tenso. O capitão esbravejava ordens e estipulava metas em milhas a serem percorridas a cada dia. E a cada dia a diferenças entre ele e a tripulação cresciam. Várias vezes farpas foram trocadas diretamente entre o capitão e alguns dos tripulantes. Sob pressão em nosso próprio navio e sob àquela imposta pela sombra de nossos adversários, os sussurros de motins recomeçavam. Alguns dos homens desejosos de abandonar o Cirella, outros cercados de dúvidas. Mas finalmente avistamos o Reef no horizonte. A imagem do adversário inflamou os marinheiros e a distância entre nós começou a diminuir rapidamente. Apesar disso, seguindo nosso rastro branco no oceano vinha a proa do Amret, como um perdigueiro farejando a presa. A distância entre nosso navio e o Reef diminuía rápido demais e não tardou para que estivéssemos perto o suficiente para identificar o motivo. O mar possui um senso de humor negro e irônico. E agora estava novamente pregando mais uma de suas ardilosas surpresas em nosso azarado adversário. O Reef havia encalhado, ironicamente, em um recife de corais, não oferecendo mais nenhum risco para nós. Um fim apropriado para aquele que trazia pintado no casco o nome do algoz. O Cirella e o Amret, de calado menor que o Reef, não tiveram problemas para passar sobre os corais e seguiram rumo ao porto. Não conseguimos manter por muitos dias a distância que nos separava de nosso perseguidor e logo o Amret se aproximava perigosamente. O embate era iminente, teríamos de rechaçar a embarcação adversária para chegar ao porto em segurança. Teríamos de abordar e derrotar o Amret. E teríamos de fazê-lo em breve.
Acabo de voltar do convés. Ouvi gritos dos homens chamando por ajuda. A água que já havia tomado um dos compartimentos inferiores voltou a se alastrar em nossos porões. Felizmente conseguimos conter a inundação a tempo, mas com isso isolamos o compartimento anterior e não podemos mais bombear a água para fora do navio. Perdemos boa parte da carga nesse ínterim e algumas sacas das ervas que carregamos. Com a chuva que volta a cair esperamos conseguir água potável o suficiente para nos mantermos por mais tempo. Quanto aos mantimentos que nos restam, decidimos começar a racionar, pois não sabemos quanto tempo ficaremos nesta situação. O Capitão pareceu preocupado com o estado de seu navio e mandou levar o dinheiro guardado e seus itens mais valiosos para a parte mais segura do Cirella, que ainda não foi afetada pelos estragos. Penso que se talvez nos livrássemos de parte do ouro ou das ervas nos porões deixaríamos a nau mais leve e poderíamos tentar manobrá-la com mais facilidade ou ao menos o suficiente para conseguir fazer os reparos de emergência. Mas estou certo de que nosso capitão não aceitara tal proposta. Devo retomar agora minha história dos últimos eventos antes que a água volte a nos colocar em perigo e interrompa definitivamente essas breves e desditosas memórias.
Com os porões emprenhados pelas ervas e o Capitão se dedicando cada vez mais ao comércio destas mercadorias, deixando quase que de lado os negócios do Cirella, velejamos por vários mares e cruzamos dezenas de fronteiras. A cada porto parecia que Tino e o Peregrino ficavam mais abastados enquanto o Cirella cada vez mais carente de cuidados, tendo apenas a tripulação olhando por ele. Mas uma esperança surgiu, em um mercado de um porto continental. Rastani Cain negociava os lucros com um dos comerciantes, e este lhe contara uma notícia que poderia colocar novamente o Cirella nas grandes rotas comerciais.
Quase a totalidade das cargas que chegavam àquela localidade era proveniente de um único e distante porto. As embarcações que até então traziam de lá as mercadorias iriam se lançar ao outro lado do mundo, deixando a rota livre para novos barcos. Com a grande demanda de carga exigida, não seriam muitos os barcos que teriam condições de comercializar estes produtos. Eram necessárias grandes dimensões para armazenar carga o suficiente para as viagens e uma grande equipe para conduzir o barco pelas águas bravias que permeavam a rota. A oportunidade despertou o interesse de Sadiano, que via a possibilidade de grandes lucros, e da tripulação que vislumbrava grandes viagens e aventuras. A notícia arrebatou a costa como o vento das monções e logo várias embarcações estavam se preparando para zarpar rumo ao longínquo porto e suas promessas de riquezas. Entre elas, o Cirella.
Nas semanas que se seguiram, todas as embarcações se colocaram em uma corrida rumo ao novo porto. Sabíamos que a maioria daqueles que zarparam jamais chegariam até lá. Mas era preciso não só que lá chegássemos, mas que o fizéssemos antes de nossos concorrentes. Foram semanas de disputas ferrenhas e não raro a corrida se transformava em combate, tingindo o mar de sangue para o deleite dos peixes que seguiam as naus. Para aquelas rotas o Cirella não era um barco a se desprezar e seu porte nos salvou algumas vezes de embates mais diretos, especialmente com embarcações menores ou de tripulação menos numerosa, uma vez que mesmo não sendo militares, nossos homens se faziam às armas quando preciso quase com a mesma intensidade com que se faziam ao mar em busca de aventuras. Nas últimas semanas fomos tomando distância das embarcações menores que iam ficando para trás ou sendo abatidas pelas naus maiores. Felizmente o Cirella sofrera poucas avarias nesses embates, e assim nos víamos em condições favoráveis para a conquista do porto. Nas últimas semanas só havíamos avistado três naus além da nossa. Uma delas pouco conhecíamos, mas identificamos pela bandeira que era uma embarcação originária das terras às quais objetivávamos. Assim, mesmo sendo um pouco menor do que suas concorrentes, conhecia bem as rotas daquela região e nos seguia de perto. Chegaram inclusive a atingir a distância de combate, mas com uma manobra rápida, aproveitando a mudança do vento, alteramos a rota do Cirella e cortamos a frente de nossos adversários. Para um navio de porte maior isso não seria problema, mas para nosso diminuto concorrente, as ondas provocadas por nossa passagem foram o suficiente para desestabilizar o barco, enquanto nós, aproveitando a mudança repentina dos ventos tomávamos distância.
Restavam então apenas dois adversários. Atrás de nós vinha o Amret. Ao contrário da embarcação que já havíamos deixado para trás, este era um concorrente maior que o Cirella e melhor armado. Mantínhamos uma distância segura do navio mas nem por um momento deixamos de vê-lo em nosso encalço. Enquanto isso seguíamos em busca do Reef, que havia despontado a nossa frente sem deixar sinais. A grande embarcação era a maior de nossos mares. Com uma tripulação quase duas vezes maior que a nossa e um barco de porte muito mais avantajado, seria preciso muito esforço para que alcançássemos o Reef a tempo, e ainda assim teríamos de derrotá-lo em combate, um feito que não era impossível, mas tampouco simples. E sem dúvidas não sairíamos ilesos de um confronto tanto contra o Amret quanto contra o Reef. Quem dirá enfrentar a ambos. Sob a pressão constante do Amret às nossas costas e sem sinal do Reef à nossa frente, o clima no Cirella ficava cada vez mais tenso. O capitão esbravejava ordens e estipulava metas em milhas a serem percorridas a cada dia. E a cada dia a diferenças entre ele e a tripulação cresciam. Várias vezes farpas foram trocadas diretamente entre o capitão e alguns dos tripulantes. Sob pressão em nosso próprio navio e sob àquela imposta pela sombra de nossos adversários, os sussurros de motins recomeçavam. Alguns dos homens desejosos de abandonar o Cirella, outros cercados de dúvidas. Mas finalmente avistamos o Reef no horizonte. A imagem do adversário inflamou os marinheiros e a distância entre nós começou a diminuir rapidamente. Apesar disso, seguindo nosso rastro branco no oceano vinha a proa do Amret, como um perdigueiro farejando a presa. A distância entre nosso navio e o Reef diminuía rápido demais e não tardou para que estivéssemos perto o suficiente para identificar o motivo. O mar possui um senso de humor negro e irônico. E agora estava novamente pregando mais uma de suas ardilosas surpresas em nosso azarado adversário. O Reef havia encalhado, ironicamente, em um recife de corais, não oferecendo mais nenhum risco para nós. Um fim apropriado para aquele que trazia pintado no casco o nome do algoz. O Cirella e o Amret, de calado menor que o Reef, não tiveram problemas para passar sobre os corais e seguiram rumo ao porto. Não conseguimos manter por muitos dias a distância que nos separava de nosso perseguidor e logo o Amret se aproximava perigosamente. O embate era iminente, teríamos de rechaçar a embarcação adversária para chegar ao porto em segurança. Teríamos de abordar e derrotar o Amret. E teríamos de fazê-lo em breve.
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Rodrigo Oliveira
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte IX
Ali mesmo alguns dos homens, incluindo o abalado Fernão, se despediram de seus companheiros e desapareceram entre as ruelas do porto para nunca mais voltarem ao Cirella. Alguns foram contratados por outras embarcações, outros juntaram seus parcos investimentos para comprar pequenos barcos mascates para rotas menos lucrativas e menos arriscadas, e ainda alguns desistiram de vez da vida no mar, buscando novos empregos que não exigissem a incerteza do mar agitado, as constantes mudanças entre calmarias e tempestades e as inevitáveis batalhas que travam aqueles que vivem sobre um convés. Ficamos em terra por vários meses e poucos de nós se dirigiam ao capitão com a naturalidade que faziam antes de nossa última viagem. A avareza e a cobiça tomaram Sadiano e mesmo alguns dos marinheiros que tomaram parte na última viagem não receberam sua parte nos lucros. Mesmo assim Sadiano precisava de sua tripulação para retornar ao mar em busca de mais riquezas. Mas seu barco estava praticamente destruído e sua reputação completamente abalada. O Capitão Tino precisava de um artifício que convencesse seus comandados a embarcar novamente. Apesar das perdas recentes, o capitão não teve outra escolha a não ser arriscar. Foi em busca de grandes comerciantes e, empenhando sua palavra e futuras riquezas, conseguiu dinheiro para uma nova embarcação. O Cirella II.
Uma nau duas vezes maior que o barco anterior. O casco azul escuro ostentava as cores da bandeira do pavão que tremulava sobre um grande mastro ornamentado por esculturas de longas plumas em todo o seu comprimento. Na proa, uma águia se pronunciava de asas abertas, com as garras envoltas em plantas e ervas esculpidas no próprio casco. O castelo de popa se elevada muito acima das pequenas construções portuárias e o leme era dourado, lembrando a todos a rota que perseguia nosso capitão. Os grandes porões do novo Cirella acomodavam mais que o dobro de carga de nossa antiga embarcação e acima do convés, as enormes velas cinzentas aguardavam ordens para zarpar. As famosas carrancas do Cirella continuavam a adornar a nau, mas agora em número bem menor e de menores proporções. A bandeira da embarcação tremulava no topo do mastro e, agora, abaixo do escudo cinza com o pavão azul, um listel com a inscrição Aurum Omnia Vincit rezava o credo de Tino Sadiano.
O estratagema surtiu efeito. Os homens que estavam em dúvida quanto a sua permanência vislumbraram uma esperança na imponência do novo Cirella e mais uma vez se uniram sob o pavilhão azul e cinza de Tino Sadiano. Uniu-se ainda a nossa tripulação Oséas Sisar. Um velho ex-marujo, que vivera quase todos os seus anos no mar e agora passava a maior parte do tempo junto ao cais olhando as ondas e contando histórias para os novos marinheiros. A função do Velho Oséas seria então intermediar a delicada situação entre a equipe e o capitão, além de com sua experiência, indicar mudanças na maneira como o Capitão comandava o navio, estocagem de mercadorias, assessorando de modo geral Tino. Para suprir os homens que haviam abandonado o Cirella, foram contratados mais alguns marinheiros e depois de tudo acertado e vários meses em terra, nos fizemos mais uma vez ao mar. O Cirella, agora muito maior, partiu em um amanhecer nublado onde o sol espiava aqui e ali por entre as nuvens. A maioria dos homens estava feliz de voltar ao mar, sentir o vento salgado no rosto e o balanço das ondas, de se lançar em uma nova viagem. Mas ainda assim tinham a expressão nublada como o dia de nossa partida. Evidentemente, a confiança da tripulação ainda não havia sido reconquistada. Os dias foram passando e o Velho Oséas andava por todo o navio, conversava com a tripulação e contava suas histórias de aventuras as mais diversas. A tripulação, já desconfiada com todos os acontecimentos, demorou um pouco para acolhê-lo, mas depois todos já estavam torcendo para que o velho marinheiro realmente conseguisse desempenhar as suas funções da melhor maneira. Uma das primeiras melhorias sugeridas por Oséas Sisar foi quanto aos rumos e modo de navegação. Era de praxe sob o comando de nosso capitão que, uma vez definido nosso objetivo e traçadas as rotas ideais para chegar até ele, essas rotas fossem com freqüência mudadas, quase que a esmo ou aleatoriamente. Por isso era comum levarmos muito mais mantimentos do que o necessário para a viagem, devido ao tempo extra que perdíamos nestes desvios.
Igualmente, era deveras trabalhoso manter os registros de bordo precisos, uma vez que, aparentemente sem prerrogativa ou objetivo, Sadiano nos levava a mares e rotas desconhecidas que nada tinham com nossos objetivos inicias. Objetivos esses que também eram mudados com a mesma facilidade com que mudam os ventos. A sugestão de Oséas foi de que uma vez definidas as rotas, com base nos estudos cartográficos, dos ventos, astros e marés, essas rotas se mantivessem inalteradas tanto quanto possível. Com alguma resistência de sua parte e pressão por parte da tripulação, Tino acabou acatando as sugestões de Sisar e, por algum tempo, o Cirella navegou veloz pelo oceano, nos permitindo atingir novos portos. Infelizmente as mudanças não foram duradouras e em pouco tempo estávamos novamente errantes pelas ondas.
Assim os meses se passaram, de porto em porto, com Oséas fazendo as mudanças no Cirella e o Capitão Tino comprometendo estas mudanças. A credibilidade de nosso capitão voltava a cair e sua sede por riquezas a aumentar. E quanto mais ela aumentava, mais ele se distanciava de sua tripulação. Mesmo Bogus fora deixado de lado e tratado como mais um dos marujos. Logo a desconfiança se instalou a bordo do navio e o capitão, junto ao seu conselheiro Rastani, começava a demonstrar sinais de paranóias e neuroses. Era como se fossem assombrados por fantasmas que eles mesmos criaram. E com o tempo esses fantasmas se tornaram reais. Suas dúvidas o tornaram recluso e taciturno, seu ouro o tornara arrogante e avaro, seus medos o tornaram agressivo. Não demorou para começar a ver nos conselhos do Velho Oséas ameaças de sabotagem ao seu navio. E não demorou para que o pobre e velho marujo fosse dispensado numa ilha qualquer acusado de traição. A ponte se tornara o seu reduto, de onde, pelas frestas das escotilhas ficava espionando os marinheiros em seus afazeres e horas de folga. Incentivado por Rastani, espalhava rumores pelo navio, colocando os marinheiros uns contra os outros na esperança, creio eu, de enfraquecê-los e evitar um motim. Com freqüência os marinheiros recebiam apenas parte de seus pagamentos pelas viagens, sendo o restante pago muito depois. Os marinheiros, em mares tão longe de casa, não tinham outra opção a não ser aceitar e aguardar. O Capitão acusava baixos lucros, mas enquanto os marinheiros aguardavam seus dividendos, a cabine de Tino Sadiano era ornamentada cada vez mais e não lhe faltavam vinhos ou carnes em suas refeições. Nesse período Áspero com freqüência voava pelo convés e depois à cabide do Capitão. De vez em quando Rastani passava pelo convés acompanhando o trabalho com olhos atentos e os lábios mudos. À noite, podíamos jurar ouvir passos furtivos e olhares dissimulados nas sombras. O Cirella estava sob vigia.
Dessa forma chegamos ao início do inverno a uma península para reabastecer-nos de provisões. O povoado era grande e sua economia se concentrava no comércio de ervas para os mais variados propósitos. Passamos apenas um ou dois dias em terra, se bem me lembro, mas esse tempo foi suficiente para o Capitão levar mais um tripulante a bordo. Um comerciante de ervas que Sadiano conhecera naquela ilha. Um homem baixo de cabelos ruivos e olhos pequeninos que vestia quase sempre roupas verdes e tinha uma voz quase infantil. Usava adereços diversos em torno dos pulsos, pescoço e nos cabelos, e trazia sempre consigo um estojo com as ervas que comercializava. Os ornamentos chamaram a atenção do Capitão, que via no pequeno homem uma grande oportunidade para vender nossas especiarias. Tino abordou o pequenino que se apresentou com sua vozinha fina apenas como Peregrino, e disse que vivia caminhando e vendendo suas ervas por onde fosse. Tinha mesmo, segundo disse, vários mascates que vendiam seus produtos por ele e que ele ganhava assim muito dinheiro. Nosso capitão disse que entendia perfeitamente, uma vez que também tinha vários marinheiros que trabalhavam no grande Cirella para seu próprio benefício. O pequeno Peregrino retrucou, dizendo que de forma alguma se tratava da mesma coisa. Segundo ele, os mascates que vendiam suas ervas não eram seus contratados. Eles lucravam diretamente com suas negociações, sendo que apenas enviavam parte dos lucros ao Peregrino, que cultivava as ervas em locais ermos longe do alcance de todos. Dessa maneira, segundo o herborista mercador, ganhava volumosas recompensas, assim como seus mascates. Seduzido pelos ornamentos, pelos argumentos e pela promessa de grandes lucros do Peregrino, nosso capitão, em vez de vender nossas especiarias, abarrotou os porões do Cirella com as ervas compradas do herborista e lhe concedeu livre tráfego em sua embarcação para levar suas ervas aos mais distantes portos. Assim, quando deixamos a península, boa parte da capacidade do Cirella fora comprometida com o espaço nos porões reservados para os novos negócios de Tino Sadiano, e uma pequena saleta foi improvisada nos porões de nossa nau para acomodar o novo tripulante. Enquanto isso Rastani fazia as contas dos possíveis futuros lucros.
Uma nau duas vezes maior que o barco anterior. O casco azul escuro ostentava as cores da bandeira do pavão que tremulava sobre um grande mastro ornamentado por esculturas de longas plumas em todo o seu comprimento. Na proa, uma águia se pronunciava de asas abertas, com as garras envoltas em plantas e ervas esculpidas no próprio casco. O castelo de popa se elevada muito acima das pequenas construções portuárias e o leme era dourado, lembrando a todos a rota que perseguia nosso capitão. Os grandes porões do novo Cirella acomodavam mais que o dobro de carga de nossa antiga embarcação e acima do convés, as enormes velas cinzentas aguardavam ordens para zarpar. As famosas carrancas do Cirella continuavam a adornar a nau, mas agora em número bem menor e de menores proporções. A bandeira da embarcação tremulava no topo do mastro e, agora, abaixo do escudo cinza com o pavão azul, um listel com a inscrição Aurum Omnia Vincit rezava o credo de Tino Sadiano.
O estratagema surtiu efeito. Os homens que estavam em dúvida quanto a sua permanência vislumbraram uma esperança na imponência do novo Cirella e mais uma vez se uniram sob o pavilhão azul e cinza de Tino Sadiano. Uniu-se ainda a nossa tripulação Oséas Sisar. Um velho ex-marujo, que vivera quase todos os seus anos no mar e agora passava a maior parte do tempo junto ao cais olhando as ondas e contando histórias para os novos marinheiros. A função do Velho Oséas seria então intermediar a delicada situação entre a equipe e o capitão, além de com sua experiência, indicar mudanças na maneira como o Capitão comandava o navio, estocagem de mercadorias, assessorando de modo geral Tino. Para suprir os homens que haviam abandonado o Cirella, foram contratados mais alguns marinheiros e depois de tudo acertado e vários meses em terra, nos fizemos mais uma vez ao mar. O Cirella, agora muito maior, partiu em um amanhecer nublado onde o sol espiava aqui e ali por entre as nuvens. A maioria dos homens estava feliz de voltar ao mar, sentir o vento salgado no rosto e o balanço das ondas, de se lançar em uma nova viagem. Mas ainda assim tinham a expressão nublada como o dia de nossa partida. Evidentemente, a confiança da tripulação ainda não havia sido reconquistada. Os dias foram passando e o Velho Oséas andava por todo o navio, conversava com a tripulação e contava suas histórias de aventuras as mais diversas. A tripulação, já desconfiada com todos os acontecimentos, demorou um pouco para acolhê-lo, mas depois todos já estavam torcendo para que o velho marinheiro realmente conseguisse desempenhar as suas funções da melhor maneira. Uma das primeiras melhorias sugeridas por Oséas Sisar foi quanto aos rumos e modo de navegação. Era de praxe sob o comando de nosso capitão que, uma vez definido nosso objetivo e traçadas as rotas ideais para chegar até ele, essas rotas fossem com freqüência mudadas, quase que a esmo ou aleatoriamente. Por isso era comum levarmos muito mais mantimentos do que o necessário para a viagem, devido ao tempo extra que perdíamos nestes desvios.
Igualmente, era deveras trabalhoso manter os registros de bordo precisos, uma vez que, aparentemente sem prerrogativa ou objetivo, Sadiano nos levava a mares e rotas desconhecidas que nada tinham com nossos objetivos inicias. Objetivos esses que também eram mudados com a mesma facilidade com que mudam os ventos. A sugestão de Oséas foi de que uma vez definidas as rotas, com base nos estudos cartográficos, dos ventos, astros e marés, essas rotas se mantivessem inalteradas tanto quanto possível. Com alguma resistência de sua parte e pressão por parte da tripulação, Tino acabou acatando as sugestões de Sisar e, por algum tempo, o Cirella navegou veloz pelo oceano, nos permitindo atingir novos portos. Infelizmente as mudanças não foram duradouras e em pouco tempo estávamos novamente errantes pelas ondas.
Assim os meses se passaram, de porto em porto, com Oséas fazendo as mudanças no Cirella e o Capitão Tino comprometendo estas mudanças. A credibilidade de nosso capitão voltava a cair e sua sede por riquezas a aumentar. E quanto mais ela aumentava, mais ele se distanciava de sua tripulação. Mesmo Bogus fora deixado de lado e tratado como mais um dos marujos. Logo a desconfiança se instalou a bordo do navio e o capitão, junto ao seu conselheiro Rastani, começava a demonstrar sinais de paranóias e neuroses. Era como se fossem assombrados por fantasmas que eles mesmos criaram. E com o tempo esses fantasmas se tornaram reais. Suas dúvidas o tornaram recluso e taciturno, seu ouro o tornara arrogante e avaro, seus medos o tornaram agressivo. Não demorou para começar a ver nos conselhos do Velho Oséas ameaças de sabotagem ao seu navio. E não demorou para que o pobre e velho marujo fosse dispensado numa ilha qualquer acusado de traição. A ponte se tornara o seu reduto, de onde, pelas frestas das escotilhas ficava espionando os marinheiros em seus afazeres e horas de folga. Incentivado por Rastani, espalhava rumores pelo navio, colocando os marinheiros uns contra os outros na esperança, creio eu, de enfraquecê-los e evitar um motim. Com freqüência os marinheiros recebiam apenas parte de seus pagamentos pelas viagens, sendo o restante pago muito depois. Os marinheiros, em mares tão longe de casa, não tinham outra opção a não ser aceitar e aguardar. O Capitão acusava baixos lucros, mas enquanto os marinheiros aguardavam seus dividendos, a cabine de Tino Sadiano era ornamentada cada vez mais e não lhe faltavam vinhos ou carnes em suas refeições. Nesse período Áspero com freqüência voava pelo convés e depois à cabide do Capitão. De vez em quando Rastani passava pelo convés acompanhando o trabalho com olhos atentos e os lábios mudos. À noite, podíamos jurar ouvir passos furtivos e olhares dissimulados nas sombras. O Cirella estava sob vigia.
Dessa forma chegamos ao início do inverno a uma península para reabastecer-nos de provisões. O povoado era grande e sua economia se concentrava no comércio de ervas para os mais variados propósitos. Passamos apenas um ou dois dias em terra, se bem me lembro, mas esse tempo foi suficiente para o Capitão levar mais um tripulante a bordo. Um comerciante de ervas que Sadiano conhecera naquela ilha. Um homem baixo de cabelos ruivos e olhos pequeninos que vestia quase sempre roupas verdes e tinha uma voz quase infantil. Usava adereços diversos em torno dos pulsos, pescoço e nos cabelos, e trazia sempre consigo um estojo com as ervas que comercializava. Os ornamentos chamaram a atenção do Capitão, que via no pequeno homem uma grande oportunidade para vender nossas especiarias. Tino abordou o pequenino que se apresentou com sua vozinha fina apenas como Peregrino, e disse que vivia caminhando e vendendo suas ervas por onde fosse. Tinha mesmo, segundo disse, vários mascates que vendiam seus produtos por ele e que ele ganhava assim muito dinheiro. Nosso capitão disse que entendia perfeitamente, uma vez que também tinha vários marinheiros que trabalhavam no grande Cirella para seu próprio benefício. O pequeno Peregrino retrucou, dizendo que de forma alguma se tratava da mesma coisa. Segundo ele, os mascates que vendiam suas ervas não eram seus contratados. Eles lucravam diretamente com suas negociações, sendo que apenas enviavam parte dos lucros ao Peregrino, que cultivava as ervas em locais ermos longe do alcance de todos. Dessa maneira, segundo o herborista mercador, ganhava volumosas recompensas, assim como seus mascates. Seduzido pelos ornamentos, pelos argumentos e pela promessa de grandes lucros do Peregrino, nosso capitão, em vez de vender nossas especiarias, abarrotou os porões do Cirella com as ervas compradas do herborista e lhe concedeu livre tráfego em sua embarcação para levar suas ervas aos mais distantes portos. Assim, quando deixamos a península, boa parte da capacidade do Cirella fora comprometida com o espaço nos porões reservados para os novos negócios de Tino Sadiano, e uma pequena saleta foi improvisada nos porões de nossa nau para acomodar o novo tripulante. Enquanto isso Rastani fazia as contas dos possíveis futuros lucros.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte VIII
Era como se o dia seguinte não houvesse chegado. A tempestade continuava e o sol não conseguia se mostrar entre as nuvens. No entanto, próximo ao meio dia, uma movimentação no cais nos chamou a atenção. Junto a alguns de meus companheiros segui os homens que corriam pelo porto e fomos surpreendidos pela imagem alquebrada do Pope Arug que chegava. O mar bravio e o estado lastimável do cais dificultavam a atracação. Aguardamos alguns minutos até que as amarras estivessem seguras e o barco bem preso, possibilitando o desembarque. Era surpreendente como depois de tantos golpes o navio conseguira retornar sozinho em tão pouco tempo. Logo fomos à procura de Fernão, mas os marujos não sabiam nada ao seu respeito. Bogus interpelou o capitão Arug e Frei Renalier o cirurgião da embarcação, mas nenhum deles sabia de nosso companheiro. Parecia que eles não haviam visto o que acontecera com Fernão e nós não poderíamos partir em uma operação de busca até que o mar estivesse menos revolto, pois teríamos que ir em barcos bem menores, uma vez que o Cirella não se encontrava em condições de navegar, tampouco o Pope Arug. A tempestade passou quando o crepúsculo já cobria o cais e não poderíamos nos fazer ao mar com barcos tão frágeis durante a noite. Era mais uma noite que Fernão passaria, na melhor das hipóteses, sozinho na ilha sem mantimentos.
Na manhã posterior, antes da aurora iluminar o dia, já estávamos todos a postos para partir em um pequeno barco pesqueiro. Nossa tripulação era composta de dois pescadores, que nos levariam até lá; eu, que havia marcado o ponto exato da queda e determinado as áreas de busca; Bogus e mais dois marinheiros, além de Frei Renalier, armado pelos seus instrumentos médicos e medicamentos. Chegamos ao local de nosso choque com o Pope Arug. Na esperança de que Fernão tivesse conseguido chegar à ilha, descemos um bote e remamos até os bancos de areia que fechavam a entrada do canal. As buscas felizmente não demoraram, e logo achamos nosso companheiro. Encontrava-se em uma situação lastimável, abatido, de olhos vidrados olhando fixo para o horizonte. Nem percebeu quando nos aproximamos. Estava sentado na areia, os joelhos recolhidos junto ao peito e abraçado em uma tábua de madeira, provavelmente um destroço do acidente. Quando chegamos não respondia a nossas vozes, parecia alheio a tudo. Só com algumas sacudidas conseguimos sua atenção, mas devido ao estado de choque, não conseguimos mais do que fazê-lo retornar conosco ao barco. Não dizia uma palavra e mal parecia nos reconhecer. Levamos Fernão até o pesqueiro e o envolvemos com um cobertor enquanto Frei Renalier examinava nosso amigo. Voltamos ao cais com a ajuda dos pescadores e com a culpa nos pesando sobre os ombros.
Fernão ainda ficou dois dias de cama e quando não estava dormindo ficava parado com os olhos abertos fitando o teto. Mal respondia a nossas perguntas, balbuciando apenas algumas palavras que frequentemente soavam desconexas ou frases inacabadas. O capitão Tino Sadiano passou uma vez para ver como estava seu marujo e para perguntar ao Frei Renalier quando ele poderia retornar a navegar. O frei respondeu que em mais dois dias poderia sair da cama, mas não poderia responder quando ele poderia voltar ao trabalho, o que chateou nosso capitão. Como se não bastasse, o prêmio da aposta que nos colocara naquela situação não estava em nossas mãos, como esperava Sadiano. Arug se recusava a ceder o mapa, acusando o Cirella de trapaça. A aposta dizia contornar a ilha e não cortar caminho por dentro dela. Por mais que pudéssemos tentar contestar essa afirmação, não seria possível contestar a de jogáramos nossa embarcação contra o Pope Arug, afinal nosso concorrente ainda tinha o casco adornado por uma de nossas carrancas que lá se cravara. Aqueles que foram chamados para presidir um júri concordaram em unanimidade que o Cirella havia trapaceado e que o vencedor seria o Capitão Arug (creio que vários destes votos se deram pela inimizade criada por nosso capitão, pela soberba com que tratara seu barco, pelo descaso com nosso companheiro e pela arrogância que demonstrara na noite da aposta). Ainda que a muito contragosto, Tino Sadiano entregou ao Capitão Arug o mapa e nós perdemos definitivamente nosso novo mercado. Ele agora pertencia ao Pope Arug.
Ficamos naquela ilha por dois dias a mais do que o necessário para a recuperação de Fernão, pois nossa nau precisava de uma recuperação também. Depois de quase uma semana de reparos, conseguimos deixar o Cirella em condições mínimas de regressar ao continente. Embarcamos todos no deplorável Cirella e iniciamos nossa viagem de volta ao lar. O barco navegava manco pelas ondas e a viajem demorou muito mais do que gostaríamos. Fernão passava seus dias em sua cabine sem falar com ninguém, os homens estavam mudos e o ar pesado. Muitos estavam decididos a não embarcar novamente ao Cirella uma vez que aportássemos. O capitão percebera o clima hostil que se criara entre ele e seus homens e temendo piorar a situação a ponto de ser amotinado, ficou recluso em sua cabine com Rastani. Só o bater de asas apressado de Áspero percorria o convés de um lado para o outro. Depois de cerca de dezoito meses no mar, regressamos ao nosso porto de partida. Fatigados, alquebrados e com um futuro incerto pela frente.
Na manhã posterior, antes da aurora iluminar o dia, já estávamos todos a postos para partir em um pequeno barco pesqueiro. Nossa tripulação era composta de dois pescadores, que nos levariam até lá; eu, que havia marcado o ponto exato da queda e determinado as áreas de busca; Bogus e mais dois marinheiros, além de Frei Renalier, armado pelos seus instrumentos médicos e medicamentos. Chegamos ao local de nosso choque com o Pope Arug. Na esperança de que Fernão tivesse conseguido chegar à ilha, descemos um bote e remamos até os bancos de areia que fechavam a entrada do canal. As buscas felizmente não demoraram, e logo achamos nosso companheiro. Encontrava-se em uma situação lastimável, abatido, de olhos vidrados olhando fixo para o horizonte. Nem percebeu quando nos aproximamos. Estava sentado na areia, os joelhos recolhidos junto ao peito e abraçado em uma tábua de madeira, provavelmente um destroço do acidente. Quando chegamos não respondia a nossas vozes, parecia alheio a tudo. Só com algumas sacudidas conseguimos sua atenção, mas devido ao estado de choque, não conseguimos mais do que fazê-lo retornar conosco ao barco. Não dizia uma palavra e mal parecia nos reconhecer. Levamos Fernão até o pesqueiro e o envolvemos com um cobertor enquanto Frei Renalier examinava nosso amigo. Voltamos ao cais com a ajuda dos pescadores e com a culpa nos pesando sobre os ombros.
Fernão ainda ficou dois dias de cama e quando não estava dormindo ficava parado com os olhos abertos fitando o teto. Mal respondia a nossas perguntas, balbuciando apenas algumas palavras que frequentemente soavam desconexas ou frases inacabadas. O capitão Tino Sadiano passou uma vez para ver como estava seu marujo e para perguntar ao Frei Renalier quando ele poderia retornar a navegar. O frei respondeu que em mais dois dias poderia sair da cama, mas não poderia responder quando ele poderia voltar ao trabalho, o que chateou nosso capitão. Como se não bastasse, o prêmio da aposta que nos colocara naquela situação não estava em nossas mãos, como esperava Sadiano. Arug se recusava a ceder o mapa, acusando o Cirella de trapaça. A aposta dizia contornar a ilha e não cortar caminho por dentro dela. Por mais que pudéssemos tentar contestar essa afirmação, não seria possível contestar a de jogáramos nossa embarcação contra o Pope Arug, afinal nosso concorrente ainda tinha o casco adornado por uma de nossas carrancas que lá se cravara. Aqueles que foram chamados para presidir um júri concordaram em unanimidade que o Cirella havia trapaceado e que o vencedor seria o Capitão Arug (creio que vários destes votos se deram pela inimizade criada por nosso capitão, pela soberba com que tratara seu barco, pelo descaso com nosso companheiro e pela arrogância que demonstrara na noite da aposta). Ainda que a muito contragosto, Tino Sadiano entregou ao Capitão Arug o mapa e nós perdemos definitivamente nosso novo mercado. Ele agora pertencia ao Pope Arug.
Ficamos naquela ilha por dois dias a mais do que o necessário para a recuperação de Fernão, pois nossa nau precisava de uma recuperação também. Depois de quase uma semana de reparos, conseguimos deixar o Cirella em condições mínimas de regressar ao continente. Embarcamos todos no deplorável Cirella e iniciamos nossa viagem de volta ao lar. O barco navegava manco pelas ondas e a viajem demorou muito mais do que gostaríamos. Fernão passava seus dias em sua cabine sem falar com ninguém, os homens estavam mudos e o ar pesado. Muitos estavam decididos a não embarcar novamente ao Cirella uma vez que aportássemos. O capitão percebera o clima hostil que se criara entre ele e seus homens e temendo piorar a situação a ponto de ser amotinado, ficou recluso em sua cabine com Rastani. Só o bater de asas apressado de Áspero percorria o convés de um lado para o outro. Depois de cerca de dezoito meses no mar, regressamos ao nosso porto de partida. Fatigados, alquebrados e com um futuro incerto pela frente.
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Rodrigo Oliveira
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte VII
Nestes mesmos dois dias, um outro acordo também selaria outra grande perda para nós. Através de mapas encontrados por acaso, o capitão Tino Sadiano achara uma nova rota para uma pequenina ilha vulcânica extremamente fértil. Seus moradores produziam de tudo. Era um verdadeiro celeiro. E uma grande oportunidade para qualquer bom mercador. Ainda que não fosse tão lucrativo, esse novo mercado garantia visibilidade ao Cirella com seus produtos exóticos e raros, desejados pela burguesia emergente. Na segunda noite de nossa estada, enquanto bebia com oficiais de outras embarcações, nosso capitão contou suas proezas com o Cirella, inclusive como driblara, ele mesmo, os recifes de corais, manobrando o navio. Um destes oficiais, no entanto, já havia ouvido sobre essa nossa história e fez um comentário que, ainda que indireto, era pouco elogioso ao nosso capitão. Comentou ainda que os danos que ele havia visto em nosso barco pareciam consideráveis, visto que a embarcação era relativamente pequena e o capitão não tão experiente. Tino Sadiano não se conteve ao ouvir tais palavras e começou a exaltar as qualidades de sua nau, que ela era muito superior a qualquer outra que se interpunha em suas rotas e que desafiaria qualquer um em velocidade e maestria nas manobras. Um dos oficiais na mesa, capitão de outro barco, disse-lhe em tom irônico que se não fossem as avarias no casco de nossa “pequena embarcação” ele aceitaria o desafio. Acuado frente à pilhéria nosso capitão ousou afrontar diretamente o oficial propondo a seguinte aposta. Na manhã seguinte, os dois zarpariam com seus barcos rumo a uma ilhota a um dia de distância. A primeira embarcação que contornasse a ilhota e retornasse ao cais seria a vencedora. O capitão da outra embarcação aceitou a proposta e disse ainda que se perdesse a aposta daria ao capitão Tino um mapa de um canal ao norte que levaria a uma mina de grandes riquezas. Para chegar lá era preciso navegar cuidadosamente por um pequeno rio de águas negras e, para tanto, seria necessário o tal mapa. Em troca, nosso capitão empenhou o mapa de nosso novo mercado. O vencedor levaria tudo. O perdedor deixaria o cais de mãos vazias. Tudo acertado, o capitão retornou ao Cirella atracado e mandou acordar todos os homens. As ordens eram claras: devíamos restaurar e preparar o Cirella para a manhã seguinte para zarpar na contenda.
O casco estava praticamente consertado, mas a quilha ainda precisava de reparos finais. Além disso, teríamos que virar a noite para deixar tudo pronto para a partida. Fernão, que já havia ficado de vigília na noite anterior, apresentava as olheiras de uma noite insone e mesmo ele não foi poupado. Desci à minha cabine e passei a noite sobre os mapas, estudando as correntes para tentar aproveitar ao máximo as chances que nos poderiam ser dadas pelo mar. Lá em cima eu ouvi as vozes dos homens trabalhando sob os gritos do capitão e o grasnar nervoso de Áspero. Rastani Cain enviou Frei Renalier para descobrir qual seria o barco adversário que enfrentaríamos. Quando retornou, o sacerdote parecia um pouco preocupado. O Pope Arug era um grande navio cuja tripulação era, na maioria, de homens do sul liderados por um experiente capitão chamado Arug. As informações que nosso bom frei conseguiu foram que o capitão não tinha tanta experiência quanto nós nestas águas, o que poderia nos dar uma vantagem por conhecer melhor o terreno e as armadilhas da rota. Mas o Pope Arug era visivelmente maior e mais preparado que o Cirella, além de contar com muito mais homens a bordo. A noite se passou ao som das marteladas e do preparo das velas e, na manhã seguinte, estávamos todos cansados — aqueles que ficaram de vigília, como Fernão, exaustos. Mas o Cirella estava pronto.
Com o reflexo do nascente sobre a água, os dois barcos deixaram o cais. Ao sinal as velas foram desfraldas e o vento soprando forte deu início à corrida. As primeiras horas nós fomos seguidos de perto pelo Pope Arug e a dianteira nos deixava confiantes e esperançosos. Mas, uma vez deixando as águas rasas, nosso adversário começou a ganhar velocidade e víamos a nau se aproximando em uma rota praticamente paralela a nossa. As velas latinas da nau impulsionavam a embarcação que ganhava terreno com velocidade. O Capitão ficava cada vez mais nervoso, andando de um lado para o outro, coçando repetidamente as costas da mão e outros locais os quais não me atrevo a relatar para preservar o próprio Sadiano. Menos de uma hora se passou até que o Pope Arug estivesse lado a lado com o Cirella, o casco rasgando as ondas a menos de cem metros de nós. Não demorou para que navegássemos perseguindo o leme de nosso adversário. Ao fim do dia chegamos à ilhota que marcava o ponto de retorno e perdemos de vista nosso concorrente, que já contornava a ilha. Bogus reuniu os homens para traçarmos uma estratégia para reverter nossa situação. Um estratagema igualmente ousado e arriscado. A ilha era cortada por um rio de águas salgadas que a singrava de ponta a ponta. Quando a maré enchia o mar avançava sobre o rio e era possível atravessar a ilha pelo rio. Quando a maré baixa, os bancos de areia se tornam aparentes fechando o canal. Nossa estratégia era entrar rapidamente no canal e, antes que a maré baixasse para fechar nosso caminho, atravessar a ilha saindo à frente do Pope Arug. Aproveitamos que nosso concorrente estava fora de vista para dar início a nossa estratégia.
Com a maré ainda alta não foi difícil adentrar a foz do canal, que era relativamente grande. Uma vez dentro deste rio, lançamos mão dos remos para impulsionar o barco. Era preciso fazer todo o percurso extremamente rápido, do contrário ficaríamos presos na ilha por mais um dia inteiro. Com as árvores que nos cercavam no leito do rio, os ventos perderam força, mas apoiado pela corrente, pelo pouco vento que nos restava e por nossos remos conseguimos imprimir um bom ritmo, o que nos dava esperanças novamente. Neste momento Bogus já não era um Imediato, apenas mais um marujo. Isso acontecia com freqüência e não me cabe aqui julgar se acontecia para melhor ou para pior. O fato é que realmente precisávamos de mais braços para remar, de modo que mesmo o leitor sendo um experimentado capitão, não iria censurar nosso Imediato naquela situação. O estandarte do pavão em azul e cinza ainda tremulava na noite e a única luz provinha de nossos archotes e das estrelas. Passamos a noite toda nestes esforços e a tripulação teve pouco descanso. Mesmo o Frei Renalier ajudou na propulsão do navio e, sob as ordens de nosso capitão, nosso cozinheiro veio gentilmente servir os homens que remavam para que estes não precisassem parar seu trabalho. Nas horas em que o Capitão se retirava para descansar, víamos vez por outro Áspero voando entre os remadores como se verificando a tripulação. Depois ele voltava ao seu poleiro para passados alguns minutos voar novamente pelo convés, com aquelas penas verdes espalhando migalhas de biscoitos sobre nós. Já havíamos vencido metade do rio quando um elevado de rochas se interpôs interrompendo de vez o vento. A velocidade do barco caiu vertiginosamente e a propulsão ficara apenas por conta da corrente e de nossos remos. Já víamos a foz do canal que nos daria passagem para o mar, mas as águas baixavam e, sem o vento, teríamos dificuldades em vencer os bancos de areia. Empregamos todos os homens e todas as forças para ultrapassar os rochedos e retomar os ventos enquanto o céu começava a trocar de cor, do negro para um azul escuro, prenunciando a manhã. Por sobre as árvores, Fernão, que estava no alto do mastro à procura de nosso adversário localizou o que pareciam ser as luzes da embarcação ao longe na noite. Até nosso cozinheiro passou aos remos deixando apenas o capitão, que controlava o navio e Fernão, que vigiava nossos adversários e os bancos de areia de fora.
Com muito esforço passamos os rochedos e os leves ventos começaram a encher nossas velas novamente. Apagamos nossas próprias lanternas para surpreender o Pope Arug na saída do rio e à medida que os ventos inflavam as velas, ganhávamos velocidade. A maré, porém, baixava rapidamente e o risco de ficarmos presos na ilha crescia a cada minuto. Na foz daquele rio saímos na escuridão quase lado a lado com nossos antagonistas. Eles navegavam rente à costa e estávamos perigosamente próximos deles a ponto de poder ver a cara de espanto de Arug ao ver o Cirella empinando por sobre os bancos de areia e se chacoalhando sobre as ondas que se encontravam com o rio sob seu casco. No momento em que cruzamos os bancos de areia, o vento matutino que soprava na costa golpeou as velas com tal violência que não pudemos controlar nossa embarcação que se lançava sobre nosso oponente. Manobrando o melhor que pudemos, conseguimos apenas evitar uma colisão frontal. O Cirella abalroou o casco de nosso adversário e o impacto acabou por danificar as duas embarcações. O Pope Arug, apesar do seu porte, sofreu mais com o acidente devido as carrancas gigantescas que ornamentavam o Cirella. Uma delas, em forma de uma águia grotescamente esculpida, rachou da amurada de nossa nau e cravou-se no casco de nossos adversários, causando grande estrago. Muito menos avariado que o que o barco do Capitão Arug, o Cirella foi ganhando terreno em meio as imprecações que ecoavam do Pope Arug e das comemorações do nosso convés. Só depois de alguns minutos e da euforia inicial é que nos demos por falta de Fernão, que no momento do impacto devia estar no alto do mastro. Avisamos Bogus assim que percebemos o que ocorrera e lhe dissemos que avisasse o capitão para que retornássemos e resgatássemos nosso companheiro que, imaginávamos, teria sido lançado de nosso mastro ou ao mar ou ao barco de nossos concorrentes. No entanto o capitão temia que o Cirella não agüentasse muito tempo com suas avarias e que devia levar nosso barco o quanto antes ao cais. Disse que Fernão estaria bem, uma vez que certamente os homens de Arug não deixariam um marinheiro no mar e que ele seria bem tratado até a volta, que faríamos no dia seguinte para resgatar nosso companheiro e nossos adversários.
Bogus ficou irremediavelmente irritado, dizia que era claro que a pressa de nosso capitão era em busca do prêmio e de derrotar seu adversário. Porém, ainda assim, ele não poderia ignorar as ordens do capitão sem ser acusado de começar um motim. Frei Renalier o acalmou o melhor que pôde e todos os homens se determinaram a levar o Cirella até o cais e imediatamente, com outro barco se necessário, partir para o resgate de Fernão. Com as avarias nosso retorno foi bem mais lento e durante todo o trajeto nenhum de nós dirigimos a palavra a Sadiano. Na maioria, evitávamos estar no aposento que ele. O clima era pesado e, se a palavra motim já havia passado pela cabeça de alguns, talvez já tivesse sido sussurrada por outros. Pouco antes de nossa chegada, uma tempestade se abateu sobre nós. Já víamos a costa e seguimos até ela com o Cirella fazendo água e rangendo em cada uma de suas tábuas. O mastro principal estava danificado e algumas das amarras das velas haviam se rompido. Com a amurada quebrada, várias partes do convés eram perigosas e manobrar o barco se tornou uma tarefa hercúlea. Chegando ao cais, em vez de atracarmos nos chocamos contra ele. Um dos pilares de sustentação cedeu danificando o cais e nosso casco. Com a ajuda de marinheiros e estivadores de outros barcos conseguimos nos pôr a salvos e fomos levados a algum lugar onde pudéssemos nos recompor. Aquela noite não havia mais nada a fazer por Fernão ou pelos tripulantes do Pope Arug. Apenas o capitão Tino Sadiano mantinha um brilho vivo no olhar, enquanto os outros estavam amuados. Nós chegáramos ao cais antes de nossos adversários.
O casco estava praticamente consertado, mas a quilha ainda precisava de reparos finais. Além disso, teríamos que virar a noite para deixar tudo pronto para a partida. Fernão, que já havia ficado de vigília na noite anterior, apresentava as olheiras de uma noite insone e mesmo ele não foi poupado. Desci à minha cabine e passei a noite sobre os mapas, estudando as correntes para tentar aproveitar ao máximo as chances que nos poderiam ser dadas pelo mar. Lá em cima eu ouvi as vozes dos homens trabalhando sob os gritos do capitão e o grasnar nervoso de Áspero. Rastani Cain enviou Frei Renalier para descobrir qual seria o barco adversário que enfrentaríamos. Quando retornou, o sacerdote parecia um pouco preocupado. O Pope Arug era um grande navio cuja tripulação era, na maioria, de homens do sul liderados por um experiente capitão chamado Arug. As informações que nosso bom frei conseguiu foram que o capitão não tinha tanta experiência quanto nós nestas águas, o que poderia nos dar uma vantagem por conhecer melhor o terreno e as armadilhas da rota. Mas o Pope Arug era visivelmente maior e mais preparado que o Cirella, além de contar com muito mais homens a bordo. A noite se passou ao som das marteladas e do preparo das velas e, na manhã seguinte, estávamos todos cansados — aqueles que ficaram de vigília, como Fernão, exaustos. Mas o Cirella estava pronto.
Com o reflexo do nascente sobre a água, os dois barcos deixaram o cais. Ao sinal as velas foram desfraldas e o vento soprando forte deu início à corrida. As primeiras horas nós fomos seguidos de perto pelo Pope Arug e a dianteira nos deixava confiantes e esperançosos. Mas, uma vez deixando as águas rasas, nosso adversário começou a ganhar velocidade e víamos a nau se aproximando em uma rota praticamente paralela a nossa. As velas latinas da nau impulsionavam a embarcação que ganhava terreno com velocidade. O Capitão ficava cada vez mais nervoso, andando de um lado para o outro, coçando repetidamente as costas da mão e outros locais os quais não me atrevo a relatar para preservar o próprio Sadiano. Menos de uma hora se passou até que o Pope Arug estivesse lado a lado com o Cirella, o casco rasgando as ondas a menos de cem metros de nós. Não demorou para que navegássemos perseguindo o leme de nosso adversário. Ao fim do dia chegamos à ilhota que marcava o ponto de retorno e perdemos de vista nosso concorrente, que já contornava a ilha. Bogus reuniu os homens para traçarmos uma estratégia para reverter nossa situação. Um estratagema igualmente ousado e arriscado. A ilha era cortada por um rio de águas salgadas que a singrava de ponta a ponta. Quando a maré enchia o mar avançava sobre o rio e era possível atravessar a ilha pelo rio. Quando a maré baixa, os bancos de areia se tornam aparentes fechando o canal. Nossa estratégia era entrar rapidamente no canal e, antes que a maré baixasse para fechar nosso caminho, atravessar a ilha saindo à frente do Pope Arug. Aproveitamos que nosso concorrente estava fora de vista para dar início a nossa estratégia.
Com a maré ainda alta não foi difícil adentrar a foz do canal, que era relativamente grande. Uma vez dentro deste rio, lançamos mão dos remos para impulsionar o barco. Era preciso fazer todo o percurso extremamente rápido, do contrário ficaríamos presos na ilha por mais um dia inteiro. Com as árvores que nos cercavam no leito do rio, os ventos perderam força, mas apoiado pela corrente, pelo pouco vento que nos restava e por nossos remos conseguimos imprimir um bom ritmo, o que nos dava esperanças novamente. Neste momento Bogus já não era um Imediato, apenas mais um marujo. Isso acontecia com freqüência e não me cabe aqui julgar se acontecia para melhor ou para pior. O fato é que realmente precisávamos de mais braços para remar, de modo que mesmo o leitor sendo um experimentado capitão, não iria censurar nosso Imediato naquela situação. O estandarte do pavão em azul e cinza ainda tremulava na noite e a única luz provinha de nossos archotes e das estrelas. Passamos a noite toda nestes esforços e a tripulação teve pouco descanso. Mesmo o Frei Renalier ajudou na propulsão do navio e, sob as ordens de nosso capitão, nosso cozinheiro veio gentilmente servir os homens que remavam para que estes não precisassem parar seu trabalho. Nas horas em que o Capitão se retirava para descansar, víamos vez por outro Áspero voando entre os remadores como se verificando a tripulação. Depois ele voltava ao seu poleiro para passados alguns minutos voar novamente pelo convés, com aquelas penas verdes espalhando migalhas de biscoitos sobre nós. Já havíamos vencido metade do rio quando um elevado de rochas se interpôs interrompendo de vez o vento. A velocidade do barco caiu vertiginosamente e a propulsão ficara apenas por conta da corrente e de nossos remos. Já víamos a foz do canal que nos daria passagem para o mar, mas as águas baixavam e, sem o vento, teríamos dificuldades em vencer os bancos de areia. Empregamos todos os homens e todas as forças para ultrapassar os rochedos e retomar os ventos enquanto o céu começava a trocar de cor, do negro para um azul escuro, prenunciando a manhã. Por sobre as árvores, Fernão, que estava no alto do mastro à procura de nosso adversário localizou o que pareciam ser as luzes da embarcação ao longe na noite. Até nosso cozinheiro passou aos remos deixando apenas o capitão, que controlava o navio e Fernão, que vigiava nossos adversários e os bancos de areia de fora.
Com muito esforço passamos os rochedos e os leves ventos começaram a encher nossas velas novamente. Apagamos nossas próprias lanternas para surpreender o Pope Arug na saída do rio e à medida que os ventos inflavam as velas, ganhávamos velocidade. A maré, porém, baixava rapidamente e o risco de ficarmos presos na ilha crescia a cada minuto. Na foz daquele rio saímos na escuridão quase lado a lado com nossos antagonistas. Eles navegavam rente à costa e estávamos perigosamente próximos deles a ponto de poder ver a cara de espanto de Arug ao ver o Cirella empinando por sobre os bancos de areia e se chacoalhando sobre as ondas que se encontravam com o rio sob seu casco. No momento em que cruzamos os bancos de areia, o vento matutino que soprava na costa golpeou as velas com tal violência que não pudemos controlar nossa embarcação que se lançava sobre nosso oponente. Manobrando o melhor que pudemos, conseguimos apenas evitar uma colisão frontal. O Cirella abalroou o casco de nosso adversário e o impacto acabou por danificar as duas embarcações. O Pope Arug, apesar do seu porte, sofreu mais com o acidente devido as carrancas gigantescas que ornamentavam o Cirella. Uma delas, em forma de uma águia grotescamente esculpida, rachou da amurada de nossa nau e cravou-se no casco de nossos adversários, causando grande estrago. Muito menos avariado que o que o barco do Capitão Arug, o Cirella foi ganhando terreno em meio as imprecações que ecoavam do Pope Arug e das comemorações do nosso convés. Só depois de alguns minutos e da euforia inicial é que nos demos por falta de Fernão, que no momento do impacto devia estar no alto do mastro. Avisamos Bogus assim que percebemos o que ocorrera e lhe dissemos que avisasse o capitão para que retornássemos e resgatássemos nosso companheiro que, imaginávamos, teria sido lançado de nosso mastro ou ao mar ou ao barco de nossos concorrentes. No entanto o capitão temia que o Cirella não agüentasse muito tempo com suas avarias e que devia levar nosso barco o quanto antes ao cais. Disse que Fernão estaria bem, uma vez que certamente os homens de Arug não deixariam um marinheiro no mar e que ele seria bem tratado até a volta, que faríamos no dia seguinte para resgatar nosso companheiro e nossos adversários.
Bogus ficou irremediavelmente irritado, dizia que era claro que a pressa de nosso capitão era em busca do prêmio e de derrotar seu adversário. Porém, ainda assim, ele não poderia ignorar as ordens do capitão sem ser acusado de começar um motim. Frei Renalier o acalmou o melhor que pôde e todos os homens se determinaram a levar o Cirella até o cais e imediatamente, com outro barco se necessário, partir para o resgate de Fernão. Com as avarias nosso retorno foi bem mais lento e durante todo o trajeto nenhum de nós dirigimos a palavra a Sadiano. Na maioria, evitávamos estar no aposento que ele. O clima era pesado e, se a palavra motim já havia passado pela cabeça de alguns, talvez já tivesse sido sussurrada por outros. Pouco antes de nossa chegada, uma tempestade se abateu sobre nós. Já víamos a costa e seguimos até ela com o Cirella fazendo água e rangendo em cada uma de suas tábuas. O mastro principal estava danificado e algumas das amarras das velas haviam se rompido. Com a amurada quebrada, várias partes do convés eram perigosas e manobrar o barco se tornou uma tarefa hercúlea. Chegando ao cais, em vez de atracarmos nos chocamos contra ele. Um dos pilares de sustentação cedeu danificando o cais e nosso casco. Com a ajuda de marinheiros e estivadores de outros barcos conseguimos nos pôr a salvos e fomos levados a algum lugar onde pudéssemos nos recompor. Aquela noite não havia mais nada a fazer por Fernão ou pelos tripulantes do Pope Arug. Apenas o capitão Tino Sadiano mantinha um brilho vivo no olhar, enquanto os outros estavam amuados. Nós chegáramos ao cais antes de nossos adversários.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte VI
Um grito esganiçado acordou os homens aos sustos na manhã de nossa partida. Primeiro pensei que fosse o grito irritante de Rastani dando algum toque de alvorada desafinado, mas logo percebi que se tratava do grasnar de alguma ave. No momento atribuí ao sono, mas podia jurar que a tal ave gritava “oportunidades, grah, oportunidades”. Só quando me fiz ao convés com os homens é que fomos descobrir o motivo da algazarra. O grasnar era do novo animal de estimação que o Capitão havia conseguido naquela ilha (parece que trocara o bicho por meio garrafão de azeite). Era um papagaio magricela de penas verdes eriçadas, que corria de um lado para o outro em um poleiro instalado no convés. Pelas penas eriçadas que lhe davam um aspecto “espinhado”, e pelas migalhas de biscoitos que viviam em sua penugem, o pequeno grasnador foi apelidado pela tripulação de Áspero. Por vezes o papagaio parecia desaparecer da vista de todos, passando quase despercebido. E quando você se virava lá estava ele, com o pescoço magro esticado e os olhos curiosos vendo o que você estava fazendo. Chegou a correr um boato, mais tarde entre os marujos, que o capitão treinara a ave para vigiar a tripulação e lhe contar o que via. De minha parte não sei se creio em boatos, mas no mar não se descarta nenhuma história, pois algum dia ela pode voltar com a maré. Mas por fim, Áspero acabou de certo modo divertindo a tripulação. Quando alguém se aproximava da ave ela ficava visivelmente estressada. Começava a andar nervosamente de um lado para o outro em seu poleiro e, quando falavam diretamente a ele, o papagaio começava a dar pequenos grasnados. Os marinheiros divertiam-se falando rispidamente à ave, que parecia entrar em pânico e gritar palavras desconexas andando de um lado para o outro com as penas eriçadas e tremendo. Apesar da crueldade, realmente era uma cena deveras engraçada. Até hoje a ave vive em seu poleiro no convés e acompanha a nós, os condenados do Cirella, em nossa bem menos engraçada situação.
Há cerca de vinte minutos fui informado que entre nossas avarias perdemos a âncora e o leme está extremamente danificado. Alguns dos homens estão checando a situação e estamos torcendo para que haja alguma maneira de consertá-lo com o equipamento que temos a bordo. Por hora estamos totalmente à deriva, com o casco fragilmente remendado a bombordo e perdemos parte de nossa carga. O clima está esfriando e me pergunto se já não estamos sendo levados muito ao sul pelas correntes. Parte de meus equipamentos também se avariaram e o céu continua encoberto nesta águas desconhecidas. Com os mapas e os instrumentos que me restam posso apenas fazer suposições muito mal aproximadas de nossa localização. Ainda assim deixarei as anotações anexas a este diário para o caso que alguém o localizar e realizar uma busca por sobreviventes. O Cirella apenas bóia com seu casco inclinado, mas creio que temos mantimentos suficientes para nos mantermos ainda por um bom tempo nesta situação. A tripulação tenta se manter unida e firme, mas já é possível ver que alguns de nós começamos a fraquejar e dar sinais de perder as esperanças. Se o Cirella algum dia voltar a navegar suavemente pelas ondas ou a aportar em algum cais, creio que dificilmente todos ainda estejamos a bordo. Alguns já se foram. Vários deixaram a embarcação pelos portos por que passamos, outros não suportaram as agruras de nossas desventuras e outros poucos o mar recebeu. Não sei ao certo o que nos levou ao nosso atual e calamitoso estado. Creio que seria infiel à verdade se citasse apenas um motivo como responsável. Várias situações foram se somando até nos trazerem aqui. Já faz algumas horas que não tenho notícias de nosso capitão. A sua ausência vem como um alívio ao resto da tripulação, e ajuda a cada um de nós a recuperarmos um pouco de nossas forças e nos colocarmos novamente em condições de buscarmos uma solução para nossa delicada situação.
Voltando ao meu relato, não sei ao certo quando as coisas mudaram tão violentamente de rumo. Acho que aos poucos tudo foi mudando, as excentricidades de nosso capitão se acentuando, mas, como os fatos se desenvolviam lentamente, acho que nenhum de nós percebemos até que fosse tarde demais. Os primeiros sinais, creio eu, surgiram já ao final de 1666. Até então as manias do Capitão Tino haviam se limitado a colocar os homens para esculpir suas famosas carrancas cada vez maiores, adornando o barco com mais destas estátuas de madeira. Não havíamos perdido nenhum homem em combate ou por doenças e desde que eu ocupava meu posto a tripulação só crescera. Mas naquele final de ano tivemos nossas primeiras baixas como equipe. As ordens do Capitão começaram a destoar naquela época. Ele transmitia suas ordens ao seu Imediato, que as levava à equipe e, quando esta estava em plena atividade, o Capitão surgia dando novas ordens. Era evidente o descontentamento de Bogus nessas horas, mas ele acatava as novas ordens e a equipe era obrigada a redobrar seus esforços para cumprir a tarefa. Igualmente por mais de uma vez navegamos por rotas menos seguras ou desnecessariamente longas por motivo do capitão mudar meus traçados de navegação. Não que eu fosse avesso à intromissão de outros, com freqüência discutia as melhores rotas debruçado sobre os mapas com Bogus e o capitão, mas quando essas mudanças surgiam repetidamente era bastante complicado manter os registros do Cirella corretos e nosso barco no rumo adequado. Além do que o Capitão já me quebrara um compasso e um sextante tentando traçar rotas. A nossa primeira baixa foi justamente no final daquele ano. Saíamos de um canal desviando dos bancos de areia. Ainda era cedo, pouco depois da aurora. Mais adiante avistamos uma cadeia de corais perigosamente em nosso caminho. Minha sugestão era navegarmos a bolina contornando os corais para evitar manobrar entre eles, uma vez que eu temia que o calado do Cirella fosse demasiado profundo para uma passagem direta. O Capitão, no entanto, queria ganhar tempo e aproveitar os ventos para cruzar por entre os corais. E a sua vontade prevaleceu. Sob o comando de Bogus aproamos em direção dos corais e toda a tripulação se preparou para a empresa. Ouvíamos os gritos desesperados de Áspero que parecia prever o pior. Frei Renalier preparou seus aparelhos e praguejou baixinho contra Tino Sadiano, depois se benzendo para se redimir. À medida que nos aproximávamos dos corais a dificuldade de manter o rumo do Cirella aumentava. Os caminhos eram estreitos e o casco rangia ao toque sob a água. Era um jogo de azar. E as apostas não estavam favoráveis. Um bingo dourado sob o sol daquela manhã. Um bingo que iríamos perder. Era uma questão de tempo e não demorou a acontecer. A quilha do Cirella chocou-se aos corais danificando o casco e atirando ao mar um dos marinheiros. Felizmente o mar calmo facilitou o resgate de nosso companheiro e os danos não foram excessivamente grandes. Mesmo assim tivemos que parar no próximo porto para reparos adequados. O marinheiro foi avaliado pelo nosso bom frei e, fora algumas escoriações, não sofreu maiores ferimentos. O Capitão ainda teve a infelicidade de apelidar nosso companheiro de “Caimar”, pelo incidente. Nosso companheiro não achou a mesma graça no apelido que nosso capitão lhe dera e, acusando-o de descaso, deixou o Cirella naquele mesmo porto. No mesmo par de dias que ficamos a reparar nosso navio, Caimar, como apelidou o capitão, acertou seus serviços em uma nau muito maior que estava ancorada ali. Um grupo de boticários e alquimistas que comercializam uma fórmula acinzentada que produziam em uma aprazível ilha no atlântico. Depois daquele episódio nosso companheiro jamais tornara a embarcar no Cirella.
Há cerca de vinte minutos fui informado que entre nossas avarias perdemos a âncora e o leme está extremamente danificado. Alguns dos homens estão checando a situação e estamos torcendo para que haja alguma maneira de consertá-lo com o equipamento que temos a bordo. Por hora estamos totalmente à deriva, com o casco fragilmente remendado a bombordo e perdemos parte de nossa carga. O clima está esfriando e me pergunto se já não estamos sendo levados muito ao sul pelas correntes. Parte de meus equipamentos também se avariaram e o céu continua encoberto nesta águas desconhecidas. Com os mapas e os instrumentos que me restam posso apenas fazer suposições muito mal aproximadas de nossa localização. Ainda assim deixarei as anotações anexas a este diário para o caso que alguém o localizar e realizar uma busca por sobreviventes. O Cirella apenas bóia com seu casco inclinado, mas creio que temos mantimentos suficientes para nos mantermos ainda por um bom tempo nesta situação. A tripulação tenta se manter unida e firme, mas já é possível ver que alguns de nós começamos a fraquejar e dar sinais de perder as esperanças. Se o Cirella algum dia voltar a navegar suavemente pelas ondas ou a aportar em algum cais, creio que dificilmente todos ainda estejamos a bordo. Alguns já se foram. Vários deixaram a embarcação pelos portos por que passamos, outros não suportaram as agruras de nossas desventuras e outros poucos o mar recebeu. Não sei ao certo o que nos levou ao nosso atual e calamitoso estado. Creio que seria infiel à verdade se citasse apenas um motivo como responsável. Várias situações foram se somando até nos trazerem aqui. Já faz algumas horas que não tenho notícias de nosso capitão. A sua ausência vem como um alívio ao resto da tripulação, e ajuda a cada um de nós a recuperarmos um pouco de nossas forças e nos colocarmos novamente em condições de buscarmos uma solução para nossa delicada situação.
Voltando ao meu relato, não sei ao certo quando as coisas mudaram tão violentamente de rumo. Acho que aos poucos tudo foi mudando, as excentricidades de nosso capitão se acentuando, mas, como os fatos se desenvolviam lentamente, acho que nenhum de nós percebemos até que fosse tarde demais. Os primeiros sinais, creio eu, surgiram já ao final de 1666. Até então as manias do Capitão Tino haviam se limitado a colocar os homens para esculpir suas famosas carrancas cada vez maiores, adornando o barco com mais destas estátuas de madeira. Não havíamos perdido nenhum homem em combate ou por doenças e desde que eu ocupava meu posto a tripulação só crescera. Mas naquele final de ano tivemos nossas primeiras baixas como equipe. As ordens do Capitão começaram a destoar naquela época. Ele transmitia suas ordens ao seu Imediato, que as levava à equipe e, quando esta estava em plena atividade, o Capitão surgia dando novas ordens. Era evidente o descontentamento de Bogus nessas horas, mas ele acatava as novas ordens e a equipe era obrigada a redobrar seus esforços para cumprir a tarefa. Igualmente por mais de uma vez navegamos por rotas menos seguras ou desnecessariamente longas por motivo do capitão mudar meus traçados de navegação. Não que eu fosse avesso à intromissão de outros, com freqüência discutia as melhores rotas debruçado sobre os mapas com Bogus e o capitão, mas quando essas mudanças surgiam repetidamente era bastante complicado manter os registros do Cirella corretos e nosso barco no rumo adequado. Além do que o Capitão já me quebrara um compasso e um sextante tentando traçar rotas. A nossa primeira baixa foi justamente no final daquele ano. Saíamos de um canal desviando dos bancos de areia. Ainda era cedo, pouco depois da aurora. Mais adiante avistamos uma cadeia de corais perigosamente em nosso caminho. Minha sugestão era navegarmos a bolina contornando os corais para evitar manobrar entre eles, uma vez que eu temia que o calado do Cirella fosse demasiado profundo para uma passagem direta. O Capitão, no entanto, queria ganhar tempo e aproveitar os ventos para cruzar por entre os corais. E a sua vontade prevaleceu. Sob o comando de Bogus aproamos em direção dos corais e toda a tripulação se preparou para a empresa. Ouvíamos os gritos desesperados de Áspero que parecia prever o pior. Frei Renalier preparou seus aparelhos e praguejou baixinho contra Tino Sadiano, depois se benzendo para se redimir. À medida que nos aproximávamos dos corais a dificuldade de manter o rumo do Cirella aumentava. Os caminhos eram estreitos e o casco rangia ao toque sob a água. Era um jogo de azar. E as apostas não estavam favoráveis. Um bingo dourado sob o sol daquela manhã. Um bingo que iríamos perder. Era uma questão de tempo e não demorou a acontecer. A quilha do Cirella chocou-se aos corais danificando o casco e atirando ao mar um dos marinheiros. Felizmente o mar calmo facilitou o resgate de nosso companheiro e os danos não foram excessivamente grandes. Mesmo assim tivemos que parar no próximo porto para reparos adequados. O marinheiro foi avaliado pelo nosso bom frei e, fora algumas escoriações, não sofreu maiores ferimentos. O Capitão ainda teve a infelicidade de apelidar nosso companheiro de “Caimar”, pelo incidente. Nosso companheiro não achou a mesma graça no apelido que nosso capitão lhe dera e, acusando-o de descaso, deixou o Cirella naquele mesmo porto. No mesmo par de dias que ficamos a reparar nosso navio, Caimar, como apelidou o capitão, acertou seus serviços em uma nau muito maior que estava ancorada ali. Um grupo de boticários e alquimistas que comercializam uma fórmula acinzentada que produziam em uma aprazível ilha no atlântico. Depois daquele episódio nosso companheiro jamais tornara a embarcar no Cirella.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte V
Com ventos tão favoráveis e com todos os meus instrumentos à mão, não me foi difícil manter o Cirella na rota, mesmo em águas desconhecidas. As noites estreladas facilitavam o uso do sextante e constância dos ventos foi tanta que não nos foi preciso nem mesmo navegar à bolina uma única vez. Nesse ritmo chegamos facilmente ao nosso primeiro destino, no qual seria decidido meu futuro em relação ao Cirella. Contornamos a ilha até uma enseada de águas calmas onde lançamos âncora. Dada às ordens para preparar o desembarque para o dia seguinte, pois atingimos a enseada já após o pôr-do-sol, fui chamado à presença do Capitão. Fui até a ponte onde o encontrei junto ao leme olhando para os luzeiros na costa. O capitão Tino me cumprimentou pelo trabalho realizado até então, mas me alertou que maiores desafios ainda estavam por ser enfrentados. Disse-me que falaria com Bogus a meu respeito e a respeito de meu trabalho nesta primeira viagem com a tripulação e que, junto com o Imediato, decidiria pela minha permanência ou não abordo do Cirella. Conversamos ainda alguns minutos e me despedi de meu capitão indo ajudar os demais a preparar o desembarque. A viagem havia sido tranqüila e acho que por isso eu acreditava que não teria motivos para que eu não continuasse junto aos meus novos companheiros. Ainda assim, confesso que a expectativa da decisão já sondava minha mente há alguns dias e adormeci esperando que a nova manhã trouxesse boas novidades.
Na manhã seguinte descemos os botes e fomos à terra depois de quase um mês no mar. O arquipélago era formado por três ilhas principais e mais algumas muito menores. A principal cidade era localizada às margens da enseada, uma vez que o arquipélago vivia quase que exclusivamente do comércio com barcos mercantes. Os grãos que compraríamos eram em parte trazidos por outros navios e em parte cultivados em uma das outras duas ilhas maiores. Da terceira ilha partiam os pescadores e baleeiros, dos quais esperávamos comprar boas quantidades de óleo a um preço justo. O primeiro dia em terra foi gasto com contatos nos mercados a procura de boas oportunidades de negócios. “Oportunidades, homens! Oportunidades!” bradava o capitão com olhos ávidos aos mercadores. Enquanto o capitão se concentrava na busca de oportunidades na cidade, um pequeno destacamento foi à outra ilha para negociar os barris de óleo. Frei Renalier foi em busca de um boticário conhecido seu para renovar seus estoques de alabastro, ainda que aquele arquipélago não pudesse muito oferecer neste quesito. Eu ajudei os marinheiros arranjando para que tudo estivesse preparado para as negociações e o carregamento e, depois, junto com o Imediato Bogus Napolle, fomos à estalagem mais próxima para conferir que distrações a cidade oferecia aos que nela aportavam. Rastani ficara a bordo contando e recontando as estimativas dos lucros.
Na própria estalagem nos reunimos para beber. Era a primeira vez que me reunia com os homens apenas para beber e matar tempo. Acho que foi ali que percebi que me daria bem com aquela tripulação. Já me sentia à vontade, talvez por causa dos copos de vinho que teimam em chegar, e me divertia com eles. Foi-me grata a surpresa de ver Bogus entre os homens. Ali ele era apenas Bogus. E não o Imediato Bogus Napolle, segundo em comando no Navio Mercante Cirella. Era um de nós. Claro, o gosto pelo mar lhe corria nas veias e, embalado pelas ondas do vinho e lembranças do mar, nos contava histórias de quando cruzara os mares até chegar ao porto do Cirella. O jeito ranzinza e a voz abafada se confundiam com um contador de histórias que era na verdade um homem do mar. Se sentia à vontade entre os marujos. Daí a receptividade com que eles seguiam seu comando. Provavelmente acima mesmo de nosso capitão. Ficamos algumas horas sendo regados pelo vinho e por histórias. O vinho, apesar de correr farto em nossa mesa, não parecia suficiente para aplacar a sede de todos. Especialmente de Fernão. Um sujeito típico das ondas. Provavelmente nativo de alguma costa meridional, ele tinha os traços de anos no mar, mesmo sendo um dos mais jovens dentre nós. A barba espessa encobria uma pequena cicatriz no queixo e meia dúzia de brincos reluziam na orelha esquerda, fazendo companhia a um dente de ouro que espiava para fora da boca quando ele sorria. E Fernão sempre sorria. Diziam os companheiros que certa vez enfrentaram uma tormenta que ameaçava virar o Cirella. Quando foram amainar, a vela principal não se recolheu, presa no alto do mastro. Com uma faca entre os dentes Fernão galgou o mastro sob chuva e ventos, em meio às ondas, e conseguiu cortar as amarradas para fazer descer a vela. Depois sentou-se lá no alto, com um dos braços agarrado ao mastro e o outro acenando com a faca para a tempestade. Gritava e cantava alguma das músicas barulhentas de seu povo, enquanto os marinheiros recolhiam a vela e lhe chamavam para a segurança do convés. Mas só após terminar a canção o jovem marujo, segurando a faca entre os dentes novamente, se fez mastro abaixo. Nos últimos metros, a embarcação foi sacudida por uma onda e ele golpeado no rosto pelo próprio mastro. Ganhara o dente de ouro para suplantar o que havia perdido neste golpe.
Já embriagado me despedi de meus companheiros e fui me recolher em um dos quartos da estalagem já preparados para nós, enquanto Fernão começava a subir numa das mesas para dançar.
No outro dia lembro de ter sido acordado por uma dor de cabeça logo de manhã. Juntei-me aos homens e fomos ao mercado onde as negociações estavam sendo feitas. O capitão Tino, assessorado por Rastani, checava as mercadorias de um dos comerciantes locais. Gesticulava exageradamente e imprimia um ar excessivamente solene ao seu discurso. Às vezes parecia mesmo que se esquecia do seu interlocutor. O mercador intervia em intervalos de alguns minutos entre uma fala e outra, mas passava a maior parte do tempo apenas ouvindo nosso capitão. Apesar de a distância me proibir de ouvir o que era dito, era clara a desenvoltura de nosso líder. Alguém que tanto tempo discorre sobre cinco sacas de cevada deve realmente conhecer seu ofício.
No período da tarde, após negociarmos várias outras mercadorias, retornaram os homens com o óleo da outra ilha. Barris e mais barris eram carregadas em uma pequena carroça puxada por um burro. O carregamento foi levado aos botes e depois enviado ao Cirella. Ficamos naquelas ilhas por quatro dias e nem o capitão Tino, nem Bogus haviam me chamado para dar uma resposta a cerca de meu destino. Começava a me preocupar, afinal precisava de uma resposta para providenciar um barco para retornar ao continente, caso fosse decidido que eu não seguiria com o Cirella. Achei por bem apenas aguardar uma resposta, afinal, neste um mês não pude me inteirar de todos os procedimentos do barco e a demora podia ser perfeitamente normal. Ao final do quarto dia ajudei no carregamento das últimas cargas e passei aos meus estudos com meus mapas e instrumentos, avaliando a melhor rota para que o Cirella seguisse para seus destinos, independente da minha presença ou não. Mais a noite o Capitão juntou os homens e disse que partiríamos com os primeiros raios da aurora. Ainda, nada a meu respeito. Dormimos todos abordo para garantir que não haveria nenhum imprevisto. Pelo visto eu ficaria mesmo com meus novos companheiros. Pelo visto eu fazia parte da tripulação do Cirella.
Na manhã seguinte descemos os botes e fomos à terra depois de quase um mês no mar. O arquipélago era formado por três ilhas principais e mais algumas muito menores. A principal cidade era localizada às margens da enseada, uma vez que o arquipélago vivia quase que exclusivamente do comércio com barcos mercantes. Os grãos que compraríamos eram em parte trazidos por outros navios e em parte cultivados em uma das outras duas ilhas maiores. Da terceira ilha partiam os pescadores e baleeiros, dos quais esperávamos comprar boas quantidades de óleo a um preço justo. O primeiro dia em terra foi gasto com contatos nos mercados a procura de boas oportunidades de negócios. “Oportunidades, homens! Oportunidades!” bradava o capitão com olhos ávidos aos mercadores. Enquanto o capitão se concentrava na busca de oportunidades na cidade, um pequeno destacamento foi à outra ilha para negociar os barris de óleo. Frei Renalier foi em busca de um boticário conhecido seu para renovar seus estoques de alabastro, ainda que aquele arquipélago não pudesse muito oferecer neste quesito. Eu ajudei os marinheiros arranjando para que tudo estivesse preparado para as negociações e o carregamento e, depois, junto com o Imediato Bogus Napolle, fomos à estalagem mais próxima para conferir que distrações a cidade oferecia aos que nela aportavam. Rastani ficara a bordo contando e recontando as estimativas dos lucros.
Na própria estalagem nos reunimos para beber. Era a primeira vez que me reunia com os homens apenas para beber e matar tempo. Acho que foi ali que percebi que me daria bem com aquela tripulação. Já me sentia à vontade, talvez por causa dos copos de vinho que teimam em chegar, e me divertia com eles. Foi-me grata a surpresa de ver Bogus entre os homens. Ali ele era apenas Bogus. E não o Imediato Bogus Napolle, segundo em comando no Navio Mercante Cirella. Era um de nós. Claro, o gosto pelo mar lhe corria nas veias e, embalado pelas ondas do vinho e lembranças do mar, nos contava histórias de quando cruzara os mares até chegar ao porto do Cirella. O jeito ranzinza e a voz abafada se confundiam com um contador de histórias que era na verdade um homem do mar. Se sentia à vontade entre os marujos. Daí a receptividade com que eles seguiam seu comando. Provavelmente acima mesmo de nosso capitão. Ficamos algumas horas sendo regados pelo vinho e por histórias. O vinho, apesar de correr farto em nossa mesa, não parecia suficiente para aplacar a sede de todos. Especialmente de Fernão. Um sujeito típico das ondas. Provavelmente nativo de alguma costa meridional, ele tinha os traços de anos no mar, mesmo sendo um dos mais jovens dentre nós. A barba espessa encobria uma pequena cicatriz no queixo e meia dúzia de brincos reluziam na orelha esquerda, fazendo companhia a um dente de ouro que espiava para fora da boca quando ele sorria. E Fernão sempre sorria. Diziam os companheiros que certa vez enfrentaram uma tormenta que ameaçava virar o Cirella. Quando foram amainar, a vela principal não se recolheu, presa no alto do mastro. Com uma faca entre os dentes Fernão galgou o mastro sob chuva e ventos, em meio às ondas, e conseguiu cortar as amarradas para fazer descer a vela. Depois sentou-se lá no alto, com um dos braços agarrado ao mastro e o outro acenando com a faca para a tempestade. Gritava e cantava alguma das músicas barulhentas de seu povo, enquanto os marinheiros recolhiam a vela e lhe chamavam para a segurança do convés. Mas só após terminar a canção o jovem marujo, segurando a faca entre os dentes novamente, se fez mastro abaixo. Nos últimos metros, a embarcação foi sacudida por uma onda e ele golpeado no rosto pelo próprio mastro. Ganhara o dente de ouro para suplantar o que havia perdido neste golpe.
Já embriagado me despedi de meus companheiros e fui me recolher em um dos quartos da estalagem já preparados para nós, enquanto Fernão começava a subir numa das mesas para dançar.
No outro dia lembro de ter sido acordado por uma dor de cabeça logo de manhã. Juntei-me aos homens e fomos ao mercado onde as negociações estavam sendo feitas. O capitão Tino, assessorado por Rastani, checava as mercadorias de um dos comerciantes locais. Gesticulava exageradamente e imprimia um ar excessivamente solene ao seu discurso. Às vezes parecia mesmo que se esquecia do seu interlocutor. O mercador intervia em intervalos de alguns minutos entre uma fala e outra, mas passava a maior parte do tempo apenas ouvindo nosso capitão. Apesar de a distância me proibir de ouvir o que era dito, era clara a desenvoltura de nosso líder. Alguém que tanto tempo discorre sobre cinco sacas de cevada deve realmente conhecer seu ofício.
No período da tarde, após negociarmos várias outras mercadorias, retornaram os homens com o óleo da outra ilha. Barris e mais barris eram carregadas em uma pequena carroça puxada por um burro. O carregamento foi levado aos botes e depois enviado ao Cirella. Ficamos naquelas ilhas por quatro dias e nem o capitão Tino, nem Bogus haviam me chamado para dar uma resposta a cerca de meu destino. Começava a me preocupar, afinal precisava de uma resposta para providenciar um barco para retornar ao continente, caso fosse decidido que eu não seguiria com o Cirella. Achei por bem apenas aguardar uma resposta, afinal, neste um mês não pude me inteirar de todos os procedimentos do barco e a demora podia ser perfeitamente normal. Ao final do quarto dia ajudei no carregamento das últimas cargas e passei aos meus estudos com meus mapas e instrumentos, avaliando a melhor rota para que o Cirella seguisse para seus destinos, independente da minha presença ou não. Mais a noite o Capitão juntou os homens e disse que partiríamos com os primeiros raios da aurora. Ainda, nada a meu respeito. Dormimos todos abordo para garantir que não haveria nenhum imprevisto. Pelo visto eu ficaria mesmo com meus novos companheiros. Pelo visto eu fazia parte da tripulação do Cirella.
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte IV
Era uma curiosa tripulação aquela do Cirella. Era formada por homens de diversas localidades, umas mais próximas de nosso porto, outras mais distantes. Alguns de outros países, o que era uma fonte de orgulho do capitão Tino, que se vangloriava do fato vez por outra. Dentre os marinheiros, eles variavam bastante em termos de experiência. Junto a homens cujas faces marcadas e mãos calejadas denunciavam os anos no mar, vi vários que aparentavam uma inexperiência quase infantil que, à minha primeira impressão, foram tomados por aprendizes nos ofícios a bordo de um navio. Alguns dentre a tripulação ainda se mostravam jovens valores e, apesar da aparente pouca idade, se mostravam extremante habilidosos no manejo dos cordames, ajustes das velas e nas tarefas diárias. Dentre eles ainda se destacavam homens distintos que claramente aproveitaram suas viagens para carregar e enriquecer suas mentes além dos porões dos navios em que trabalharam, e alguns cujos braços, mãos e pernas eram mais exigidos do que uma mente afiada. Uma tripulação variada e sem dúvida alguma superior em número, experiência e qualidade, às quais eu já trabalhara até então. Dentre eles não poderei me deter para apresentar todos, mas caso o mar que agora nos ameaça e o nevoeiro que agora nos cega não nos sejam complacentes, é preciso que se faça justiça e que se lembre do nome de alguns de meus companheiros. Se o tempo me permitir irei aos poucos apresentando os diversos personagens com quem convivi nesses meus três anos a bordo do Cirella. Se não me for possível, espero que estes homens sejam lembrados por aqueles que deixamos para trás, seguros em terra firme.
Além de Tino Sadiano, o capitão desta amaldiçoada embarcação, um homem aparece como seu braço direito e homem de confiança: Rastani Cain. Um homem carrancudo e diminuto, de compleição física frágil e um rosto fino coberto por uma rala barba acinzentada. O queixo adunco e os olhos fundos marcam os contornos do crânio por sob a pele do rosto. Lembro que já então o homem se mostrava frio no contato com quase todos na embarcação e, segundo diziam meus companheiros, fora dela também. Rastani e Sadiano eram parceiros de anos e isso conferia, desde então, mais poder à voz fina e esganiçada do conselheiro. Apesar disso, Rastani não passava de uma sombra de seu capitão. Como fui descobrir com o passar dos anos, o homem não estava qualificado para os exigentes trabalhos no mar, em que por vezes, é preciso ficar por diversos meses sem aportar, ou lutar contra ondas bravias, ou manobrar heroicamente em combate ou em fuga de corsários. O mar é exigente com aqueles que acolhe. O homem que pretende viver sobre as ondas precisa ser talhado para isso. Rastani Cain não é um destes homens. Quase tudo do pouco que sabe sobre a vida em um barco mercante aprendeu a bordo do Cirella. Mas isso não abala a confiança de nosso capitão em seu conselheiro. De fato, de algum modo, creio que a fortalece, deixando Rastani como o responsável pelo controle dos lucros do Cirella, controlando entrada e saída de mercadorias e valores. Com o passar do primeiro ano entre meus companheiros, aprendi a conviver com a sombra de Rastani se esgueirando pelo navio e apenas vez por outra me pegava praguejando contra ele. Na verdade, naquele primeiro ano e no início do ano seguinte, não tive muito contato com Rastani. Passava a maior parte dos meus dias junto aos marinheiros. Além destes homens o Cirella conta com marujos responsáveis pela carga e mantimentos; um cozinheiro; nosso experiente cirurgião, Frei Renalier; e o Imediato Bogus Napolle, um homem do mar, que comanda os marinheiros e responde pelo navio na falta do capitão. A embarcação não conta com apoio militar, sendo que em caso de necessidade, a própria tripulação se põe às armas, procedimento comum na marinha mercante que faz as rotas do Cirella. Felizmente não foram muitas as vezes em que se fez necessário empunhar armas a bordo, de modo que nosso bom Frei Renalier se ocupava mais com seus sermões e com as pequenas enfermidades cotidianas do que com ferimentos de batalha. No entanto, temo que nossa situação atual ainda vá dar muito trabalho ao nosso sacerdote. Se não cuidando dos enfermos, orando por nossas almas.
Além de Tino Sadiano, o capitão desta amaldiçoada embarcação, um homem aparece como seu braço direito e homem de confiança: Rastani Cain. Um homem carrancudo e diminuto, de compleição física frágil e um rosto fino coberto por uma rala barba acinzentada. O queixo adunco e os olhos fundos marcam os contornos do crânio por sob a pele do rosto. Lembro que já então o homem se mostrava frio no contato com quase todos na embarcação e, segundo diziam meus companheiros, fora dela também. Rastani e Sadiano eram parceiros de anos e isso conferia, desde então, mais poder à voz fina e esganiçada do conselheiro. Apesar disso, Rastani não passava de uma sombra de seu capitão. Como fui descobrir com o passar dos anos, o homem não estava qualificado para os exigentes trabalhos no mar, em que por vezes, é preciso ficar por diversos meses sem aportar, ou lutar contra ondas bravias, ou manobrar heroicamente em combate ou em fuga de corsários. O mar é exigente com aqueles que acolhe. O homem que pretende viver sobre as ondas precisa ser talhado para isso. Rastani Cain não é um destes homens. Quase tudo do pouco que sabe sobre a vida em um barco mercante aprendeu a bordo do Cirella. Mas isso não abala a confiança de nosso capitão em seu conselheiro. De fato, de algum modo, creio que a fortalece, deixando Rastani como o responsável pelo controle dos lucros do Cirella, controlando entrada e saída de mercadorias e valores. Com o passar do primeiro ano entre meus companheiros, aprendi a conviver com a sombra de Rastani se esgueirando pelo navio e apenas vez por outra me pegava praguejando contra ele. Na verdade, naquele primeiro ano e no início do ano seguinte, não tive muito contato com Rastani. Passava a maior parte dos meus dias junto aos marinheiros. Além destes homens o Cirella conta com marujos responsáveis pela carga e mantimentos; um cozinheiro; nosso experiente cirurgião, Frei Renalier; e o Imediato Bogus Napolle, um homem do mar, que comanda os marinheiros e responde pelo navio na falta do capitão. A embarcação não conta com apoio militar, sendo que em caso de necessidade, a própria tripulação se põe às armas, procedimento comum na marinha mercante que faz as rotas do Cirella. Felizmente não foram muitas as vezes em que se fez necessário empunhar armas a bordo, de modo que nosso bom Frei Renalier se ocupava mais com seus sermões e com as pequenas enfermidades cotidianas do que com ferimentos de batalha. No entanto, temo que nossa situação atual ainda vá dar muito trabalho ao nosso sacerdote. Se não cuidando dos enfermos, orando por nossas almas.
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sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte III
Em resumo, naquela entrevista, o capitão Tino me disse que já conhecera um pouco do meu trabalho nas embarcações menores na qual eu trabalhara e que eu havia sido muito bem recomendado pelo seu ex-contramestre. Relatou-me os feitos do Cirella sob sua tutela e me fez uma descrição pormenorizada das qualidades da embarcação. Destacou o valor da equipe sob seu comando e seus próprios méritos em unir tais homens. Por fim me levou a cada canto de seu navio me apresentando cada detalhe, cada câmara e seu funcionamento. Deixei o convés sob uma lua alta refletida nas águas e, após me despedir do capitão Tino Sadiano, caminhei pelo cais por algum tempo rememorando o que vira a bordo do Cirella e os rumos que iam tomando minha vida nas rotas mascates. Os dias se passaram e meu contato com o Cirella e seus tripulantes se mantiveram um pouco mais próximos a partir daquela visita. Cruzava com marujos e, volta e meia, com o próprio capitão em tavernas ou no próprio cais enquanto acompanhava o carregamento de especiarias para as viagens. Cerca de um ano se passou e esta rotina se manteve mais ou menos inalterada. Neste ínterim, me mantive a par das notícias das viagens do Cirella e, tendo amigos que trabalhavam no navio, não me foi custoso acompanhar o desenvolvimento dos negócios do capitão Tino. Mas foi apenas no sexto mês do ano seguinte que eu deixaria definitivamente o barco no qual eu trabalhara até então e iria me juntar à tripulação do Cirella. As conversas e negociações não duraram mais do que uma semana e logo eu estava contratado. Na época, ficara acertado que eu acompanharia a embarcação na condição de cartógrafo em uma viagem a um pequeno arquipélago onde seriam comprados grãos e óleo. Nesta experiência, que deveria durar não mais de um mês, eu seria avaliado. Caso o capitão se arrependesse de minha contratação ou algum atrito impedisse minha continuidade no Cirella, eu retornaria, por minha própria conta, em uma embarcação menor que conseguiria em uma das ilhas. Porém, caso minhas habilidades se mostrassem úteis durante esta viagem e minha adaptação a estas novas rotas fosse satisfatória, eu seguiria sob as ordens do capitão e junto à tripulação para o oriente, onde a carga seria vendida por valores mais rentáveis e eu passaria então a fazer parte definitivamente da tripulação, como cartógrafo e navegador. Meus ganhos ficaram acertados um pouco acima do eu ganhava nas rotas mascates, mas o que realmente me impulsionava era o mar. Lançar velas em novas rotas, embalado por novos ventos e conhecer novos portos. Naquele momento, o horizonte me pareceu mais tangível. E eu iria ao seu encontro.
No dia do embarque fui novamente apresentado à embarcação, que já mostrava algumas melhorias e benfeitorias desde que eu a vira pela última vez. Fui também oficialmente apresentado à tripulação, que de modo geral me recebeu muito bem, até porque dentre os homens, alguns eu já conhecia e de outros já me tornara amigo em tempos passados. Dois dias depois, com o Cirella já preparado e com ventos favoráveis zarpamos e deixamos o cais. Com as grandes velas enfunadas a embarcação logo atingiu uma velocidade que dificilmente se manteria por muito tempo nos barcos menores nos quais eu trabalhara anteriormente. A nau vencia as ondas com rapidez e logo adentraríamos águas até então novas para mim. O sol se fazia alto, mas com o vento do oceano a temperatura era realmente agradável. Como me era prazerosa a sensação! O cheiro salgado do mar, o manto verde se estendendo até o horizonte, o sol brilhando em um céu sem nuvens. O mar. Ao qual me lançara tantas vezes e ao qual sempre soube que sempre retornaria. No alto do mastro principal, acima das velas, o estandarte do Cirella tremulava ao vento. A bandeira trazia um grande escudo cinza sobre o fundo azul escuro. E sobre este escudo, no mesmo tom azul da bandeira, a imagem de uma ave majestosa balançava ao vento, com a enorme cauda de longas penas, o longo e delgado pescoço e a cabeça encimada por um pequeno penacho. E assim o Cirella seguia. Com o céu limpo, ventos a favor e mar calmo, eu não tinha muitos problemas em traçar as melhores rotas nem em determinar nossa localização. Aos poucos eu ia conhecendo melhor meus companheiros de navio, enquanto atingíamos águas ainda não exploradas por mim.
No dia do embarque fui novamente apresentado à embarcação, que já mostrava algumas melhorias e benfeitorias desde que eu a vira pela última vez. Fui também oficialmente apresentado à tripulação, que de modo geral me recebeu muito bem, até porque dentre os homens, alguns eu já conhecia e de outros já me tornara amigo em tempos passados. Dois dias depois, com o Cirella já preparado e com ventos favoráveis zarpamos e deixamos o cais. Com as grandes velas enfunadas a embarcação logo atingiu uma velocidade que dificilmente se manteria por muito tempo nos barcos menores nos quais eu trabalhara anteriormente. A nau vencia as ondas com rapidez e logo adentraríamos águas até então novas para mim. O sol se fazia alto, mas com o vento do oceano a temperatura era realmente agradável. Como me era prazerosa a sensação! O cheiro salgado do mar, o manto verde se estendendo até o horizonte, o sol brilhando em um céu sem nuvens. O mar. Ao qual me lançara tantas vezes e ao qual sempre soube que sempre retornaria. No alto do mastro principal, acima das velas, o estandarte do Cirella tremulava ao vento. A bandeira trazia um grande escudo cinza sobre o fundo azul escuro. E sobre este escudo, no mesmo tom azul da bandeira, a imagem de uma ave majestosa balançava ao vento, com a enorme cauda de longas penas, o longo e delgado pescoço e a cabeça encimada por um pequeno penacho. E assim o Cirella seguia. Com o céu limpo, ventos a favor e mar calmo, eu não tinha muitos problemas em traçar as melhores rotas nem em determinar nossa localização. Aos poucos eu ia conhecendo melhor meus companheiros de navio, enquanto atingíamos águas ainda não exploradas por mim.
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Rodrigo Oliveira
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte II
Meu primeiro contato com o Cirella se deu cerca de um ano antes de meu embarque junto aos homens da nau. 1665 já passava da metade quando conheci pessoalmente o capitão Tino Sadiano. A notícia de que o capitão pretendia lançar-se a novas águas e tinha necessidade de um cartógrafo a bordo me chegou numa noite em uma taverna pelo ex-contramestre do Cirella. Curioso em conhecer a tal embarcação e já pensando em a quais mares ela iria se lançar, fui ao ancoradouro em um fim de tarde para falar com o capitão, o qual eu tivera o cuidado de avisar de minha chegada através de um dos estivadores que trabalhava no carregamento do navio. Fui recebido por um marinheiro sem patente, visto que os oficiais estavam em terra e aguardei até ser chamado à cabine de comando do Cirella. Lá fora o sol estava se pondo no mar calmo e uma brisa fraca soprava do oceano para a terra. No alto do mastro principal a bandeira azul e cinza adormecia pendurada pela falta de ventos mais fortes. As velas dos dois grandes mastros estavam recolhidas e apenas algumas lanternas iluminavam o convés. Através das janelas eu podia ver o bruxulear das luzes no interior da cabine, mas não ouvia som algum vindo de lá. Aguardei do lado de fora e me detive observando o convés e as carrancas de adornavam o mastro principal logo abaixo da bandeira. Na proa uma enorme carranca se projetava à frente da nau lembrando um galo levemente disforme de bico aberto e um pescoço curvo e longo que seguia à frente do navio até mergulhar nas águas sob o casco. No castelo de popa se elevava uma pequena amurada de madeira adornada por entalhes que lembravam penas da cauda de um pavão, que se estendiam por todo o castelo. Fui desperto pelo abrir da porta da cabine, ao que o marinheiro que havia me recebido fez-me sinal para entrar. Obedeci e, passando por ele, a porta se fechou atrás de mim, deixando o marujo do lado de fora. A cabine do capitão era relativamente grande para um barco daquele tamanho e era adornada por objetos visivelmente valiosos, mas dispostos de forma tal que o conjunto da decoração parecia embaralhado, bagunçado e confuso. As paredes eram adornadas por desenhos e pinturas náuticas, um espelho retangular e um quadro com a imagem do próprio capitão em trajes finos e usando um chapéu escuro que se destacava por uma longa pena verde que se projetava para cima e para trás, como é moda dos menestréis teutônicos. Próxima à parede imediatamente à frente da porta pela qual eu entrara se encontrava uma pesada mesa de madeira que guarnecia uma muito bem acabada cadeira de espaldar alto, recoberta por uma grossa manta anil sobre a qual se sentava a autoridade máxima dentro do Cirella. O capitão vestia uma nobre capa de cor escura. As calças que trajava, no entanto, não contribuíam para a imagem que eu esperava de um homem em sua posição. Por sob a mesa se percebiam as barras curtas mal cortadas que deixavam à mostra as canelas pelo vão entre a barra da calça e o cano da bota, que se mostrava baixo demais para cobrir devidamente as pernas. Botas que eram adornadas por grossas fivelas que lembravam o ouro, mas que se encontravam em estado de conservação já prejudicado, apresentando abrasões e escoriações aqui e ali. O homem tinha a barba bem feita e os olhos escuros como os cabelos. O nariz um tanto alargado, a pele escurecida pelo sol e os olhos levemente puxados lembravam os índios nativos do Novo Mundo, apesar de que eu duvide de alguma descendência daquele povo. Com o ar mais solene que pôde o capitão indicou uma cadeira à frente de sua mesa, na qual me sentei. O capitão Tino se recostou em sua cadeira, inclinando-a para trás e, pousando uma mão sobre o abdômen, começou uma explanação que levou cerca de quase vinte minutos ininterruptos, a qual não relatarei na integridade a fim de preservar o tempo que me escorre rapidamente como a água que está sendo bombeada para fora deste navio. Meu auxiliar acaba de me confirmar que o alagamento foi estancado, mas as avarias foram graves e já perdemos um homem na operação de contenção de danos. Meus companheiros parecem perder as esperanças aos poucos. Na nossa embarcação e especialmente em nosso capitão. Creio que só o que nos mantém ainda lutando, só o que temos, é uns aos outros. E se for para ser tragado pelo oceano, não poderia pensar em companhia mais louvável do que os homens com quem divido meus dias a bordo do Cirella. O tempo urge e a cera da minha vela escorrendo me lembra que as horas que me restam fazem o mesmo. Voltemos pois a história.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Meus dias a bordo do Cirella - Parte I
Esse texto foi escrito há bastante tempo. Não lembro há quantos anos. É um pouco extenso, apesar de ter sido escrito praticamente numa paulada só, por isso vou postá-lo aos poucos. Provavelmente não vai fazer sentido para a maioria, por falta de contexto, mas é tb um pouco esse o objetivo. Segue aí. E na sequência posto as "cenas dos próximos capítulos".
Não sei quanto tempo nos resta. A água já tomou um dos compartimentos inferiores e os homens lutam para impedir que ela se alastre enquanto o avariado Cirella balança à deriva nessas águas desconhecidas. A noite escura como eu jamais vi e o denso nevoeiro que nos cobre há quase uma semana impedem-me de reportar a localização precisa deste cárcere flutuante. Receio pela sanidade do capitão Tino e creio que o diário de bordo do Cirella já não faça justiça aos passos que nos trouxeram até aqui. Portanto transcrevo apressadamente os eventos que culminaram nesta malfadada e fria hora na esperança de que aqueles que, por ventura ou acaso, encontrarem estas palavras façam justiça à memória das almas que se encerram nesta sombria embarcação. Se por acaso não me for possível terminar estes relatos antes do fim, despeço-me já de meu leitor. Adeus. A chama consome a vela e devo logo começar minha história.
Três anos se completarão desde que me juntei à tripulação do Cirella. Porém, mesmo antes daquela época já havia ouvido falar do barco mercante, ainda que muito superficialmente. Apesar de não se comparar em tamanho ou em viagens com os barcos das principais rotas e que traziam as melhores mercadorias, o Cirella estava naquela época entre as maiores e principais embarcações da região. Em todos os casos, consideravelmente maior do que o barco mascate no qual eu trabalhara no par de anos anterior. Pelo seu porte, a embarcação do capitão Tino Sadiano também podia se lançar em rotas mais vantajosas e aportar em paragens onde negociam-se as mercadorias por valores mais rentáveis. O Cirella também era conhecido pelas carrancas que exibia na proa e nos mastros. Esculpidas em madeira em tamanhos desproporcionalmente grandes para a nau, as peças empregavam uma aparência quase cômica à embarcação, sendo inclusive, motivo de piadas entre alguns dos marinheiros de outras embarcações, estivadores e trabalhadores que viviam às voltas nos portos próximos. Diziam, porém, que as carrancas eram motivo de orgulho especial para o capitão, a despeito da aparência estapafúrdia de algumas das esculturas. Quanto ao capitão do Cirella, também pouco o conhecia, exceto por alguns boatos sussurrados entre as docas e estalagens próximas ao porto. Contava-se que o capitão havia se lançado à vida ao mar há não muitos anos e que neste pouco tempo havia conseguido algum sucesso que o colocava entre os principais navios daquelas águas, alguns com capitães vários anos mais experientes. Naquela época, enquanto ainda era segundo em comando em uma embarcação mascate, eu soubera que o temperamento do meu futuro capitão já lhe trouxera alguns pequenos atritos com capitães de outras embarcações e em alguns portos. Porém, como soube, nenhum de maior importância. Exceto por um que agora me vem à memória. Contava-se que antes de comandar o Cirella o capitão Tino trabalhava como marinheiro em outra embarcação com vários outros homens na mesma posição. Alguns dos quais, também se tornaram capitães de seus próprios navios, alguns mercantes, outros baleeiros, outros de guerra. Dentre estes estava o atual capitão do baleeiro O Caçador, Earl Dymath. Contam os marujos destas bandas, que durante a vigília do então marinheiro Tino Sadiano, este acordava frequentemente os companheiros aos gritos por avistar algo entre as ondas, apenas para depois verificar-se que de nada se tratava. Àqueles pelos quais ouvi a história, não sabiam dizer se esses avisos falsos eram propositais ou apenas confusões do então marujo. O que se conta é que, cansado dos constantes avisos infundados, Dymath fora tirar satisfações com Tino e que logo se engalfinharam em um combate de violência tal que o atual capitão do O Caçador fez-se ao mar, e foi preciso um grande esforço para que ele não se perdesse entre as ondas. Desde então esta história corre de porto em porto, de embarcação em embarcação e, ao que parece, a inimizade perdura entre ambos os capitães desde então. Mas verdade seja dita, boatos e histórias tendem a crescer ao som do mar e as bocas não são tão confiáveis como os olhos, especialmente as dos marinheiros. Portanto deixemos de lado as histórias colhidas por estes ouvidos, e passemos àquelas vislumbradas por estes olhos.
Não sei quanto tempo nos resta. A água já tomou um dos compartimentos inferiores e os homens lutam para impedir que ela se alastre enquanto o avariado Cirella balança à deriva nessas águas desconhecidas. A noite escura como eu jamais vi e o denso nevoeiro que nos cobre há quase uma semana impedem-me de reportar a localização precisa deste cárcere flutuante. Receio pela sanidade do capitão Tino e creio que o diário de bordo do Cirella já não faça justiça aos passos que nos trouxeram até aqui. Portanto transcrevo apressadamente os eventos que culminaram nesta malfadada e fria hora na esperança de que aqueles que, por ventura ou acaso, encontrarem estas palavras façam justiça à memória das almas que se encerram nesta sombria embarcação. Se por acaso não me for possível terminar estes relatos antes do fim, despeço-me já de meu leitor. Adeus. A chama consome a vela e devo logo começar minha história.
— Roderico Ferolli. Cartógrafo e navegador do Cirella.
Três anos se completarão desde que me juntei à tripulação do Cirella. Porém, mesmo antes daquela época já havia ouvido falar do barco mercante, ainda que muito superficialmente. Apesar de não se comparar em tamanho ou em viagens com os barcos das principais rotas e que traziam as melhores mercadorias, o Cirella estava naquela época entre as maiores e principais embarcações da região. Em todos os casos, consideravelmente maior do que o barco mascate no qual eu trabalhara no par de anos anterior. Pelo seu porte, a embarcação do capitão Tino Sadiano também podia se lançar em rotas mais vantajosas e aportar em paragens onde negociam-se as mercadorias por valores mais rentáveis. O Cirella também era conhecido pelas carrancas que exibia na proa e nos mastros. Esculpidas em madeira em tamanhos desproporcionalmente grandes para a nau, as peças empregavam uma aparência quase cômica à embarcação, sendo inclusive, motivo de piadas entre alguns dos marinheiros de outras embarcações, estivadores e trabalhadores que viviam às voltas nos portos próximos. Diziam, porém, que as carrancas eram motivo de orgulho especial para o capitão, a despeito da aparência estapafúrdia de algumas das esculturas. Quanto ao capitão do Cirella, também pouco o conhecia, exceto por alguns boatos sussurrados entre as docas e estalagens próximas ao porto. Contava-se que o capitão havia se lançado à vida ao mar há não muitos anos e que neste pouco tempo havia conseguido algum sucesso que o colocava entre os principais navios daquelas águas, alguns com capitães vários anos mais experientes. Naquela época, enquanto ainda era segundo em comando em uma embarcação mascate, eu soubera que o temperamento do meu futuro capitão já lhe trouxera alguns pequenos atritos com capitães de outras embarcações e em alguns portos. Porém, como soube, nenhum de maior importância. Exceto por um que agora me vem à memória. Contava-se que antes de comandar o Cirella o capitão Tino trabalhava como marinheiro em outra embarcação com vários outros homens na mesma posição. Alguns dos quais, também se tornaram capitães de seus próprios navios, alguns mercantes, outros baleeiros, outros de guerra. Dentre estes estava o atual capitão do baleeiro O Caçador, Earl Dymath. Contam os marujos destas bandas, que durante a vigília do então marinheiro Tino Sadiano, este acordava frequentemente os companheiros aos gritos por avistar algo entre as ondas, apenas para depois verificar-se que de nada se tratava. Àqueles pelos quais ouvi a história, não sabiam dizer se esses avisos falsos eram propositais ou apenas confusões do então marujo. O que se conta é que, cansado dos constantes avisos infundados, Dymath fora tirar satisfações com Tino e que logo se engalfinharam em um combate de violência tal que o atual capitão do O Caçador fez-se ao mar, e foi preciso um grande esforço para que ele não se perdesse entre as ondas. Desde então esta história corre de porto em porto, de embarcação em embarcação e, ao que parece, a inimizade perdura entre ambos os capitães desde então. Mas verdade seja dita, boatos e histórias tendem a crescer ao som do mar e as bocas não são tão confiáveis como os olhos, especialmente as dos marinheiros. Portanto deixemos de lado as histórias colhidas por estes ouvidos, e passemos àquelas vislumbradas por estes olhos.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Treze de Agosto
Olhava para o céu de agosto procurando algo entre a poluição e os vãos do viaduto sobre a cabeça. O pescoço levantado revelava uma barba mal feita e as roupas esfarrapadas tinham a cidade impregnada nas tramas. E a cidade, por sua vez, impregnava-se deles, entre os pés coloridos e pichados "veado" dos viadutos. Mas Seu Coelho não era veado. Só era pobre. Tinha o que lhe cabia na sacola de lona e as cores do viaduto.
— Olhando o quê, Seu Coelho?
Sempre lhe chamavam Seu Coelho. Nem era velho, mal passava dos quarenta. Mas a verdade é que aparentava mais, e ninguém nunca lhe perguntou sua idade.
— Lua cheia hoje. Não dá de ver por causa da fumaça, mas tá mais claro lá, ó. Lua cheia.
— E daí?
— É bonito, só. Mais bonito que o viaduto ao menos.
— Sai daí, homem, que tá ficando frio.
E Seu Coelho saiu e foi se juntar aos outros esfarrapados aos pés coloridos dos viadutos, em volta de uma sopa rala, surrupiada do abrigo cuja funcionária fez vista grossa por pena.
O farol alto de um carro projetou na parede as sombras negras dos esfarrapados. Animais acuados, alguns fugiram assustados, outros paralisaram. Os faróis baixaram, deixando só as luzes de cidade acesas. O capô trazia um felino prateado à frente. Seu Coelho, de orelhas em pé, junto aos outros homens, aguardou. A porta do motorista se abriu. Um homem magro saiu, metido num terno preto. Conferiu nas mãos uma folha de papel, olhando para os homens por cima das lentes dos óculos apoiados sobre o proeminente nariz adunco. Mirando Seu Coelho com olhos de rapina citou em uma voz gentilmente treinada:
— Senhor Jeremias Antônio Coelho.
O motorista revelava, nas mãos, para os homens curiosos, uma fotocópia da ficha do abrigo, com os dados médicos, cadastrais e uma fotografia 3X4 recente de Seu Coelho.
O homem coçou os já prateados fios da barba, adiantou-se, conferiu a ficha. De fato, era a ficha do abrigo. Levantou os olhos ao magro motorista, com o ronronar do carro ao fundo.
— Não se preocupe — disse o homem abrindo a porta traseira do automóvel — Ah! — continuou — antes que me esqueça, o abrigo pediu para entregar isso. Disseram que era para o custeio da viagem. Acho que faz parte do intercâmbio.
Seu Coelho abriu o envelope que lhe foi entregue, dentro, poucas notas de cinquenta reais. No interior do carro, o calor e o aroma de alguma massa recém assada pareciam convidativos.
— Vamos? Perguntou o homem de óculos.
Seu Coelho olhou para o céu e, entre vias de concreto e lufadas de fumaça, viu por um momento a lua espiar por trás das nuvens. Deu um suspiro profundo, quase de entrega, colocou o envelope no bolso, deu de ombros e entrou no carro. O mundo lhe passava pela cabeça.
Dentro do carro de bancos de couro, uma embalagem de uma pizzaria próxima o aguardava no banco traseiro.
O motorista olhou para trás por sobre o banco:
— A viagem não deve demorar muito, mas achei que poderia estar com fome. Peguei agora mesmo. Espero que não se importe, mas peguei um pedaço.
Seu Coelho balançou a cabeça, mas, antes que pudesse dizer "não tem problema", uma lâmina opaca subiu entre ele e a cabine do motorista. Só então percebeu que as janelas eram igualmente opacas. Uma música suave tocou enquanto o carro se pôs em movimento. Seu Coelho, lá dentro, abriu a embalagem de pizza, com uma fatia a menos, e tratou de aplacar o estômago ruidoso.
O carro rodava sem solavancos. Ao contrário da cabeça de Seu Coelho. Não sabia se deveria crer no motorista sobre o intercâmbio do abrigo. Já se imaginava atirado na entrada de outra cidade, jogado de novo no mundo para sair à procura de outro viaduto de pés pintados noutra urbe poluída para impregnar-lhe as roupas rotas. Imaginou-se, jogado na rua, já sem vida, um resto esfarrapado de gente. “Vazio de vida, mas ao menos de bucho cheio”, pensou. Deixou o pensamento pairar-lhe à mente sem medo e perguntou-se se já não estaria de todo esvaziado da vida. Já não ligava, apenas deixava-se levar, ao som da música, o embalar do couro, o sabor e o cheiro da pizza. Era o melhor momento que lhe havia aparecido há muito. Que viesse o que fosse, que ali lhe valiam os anos todos sob o concreto à caça de algo para comer. O felino prateado puxava o carro pela autoestrada guiado por uma lua cheia de agosto, que Seu Coelho não podia ver.
O som de cascalho sob as rodas e as curvas sinuosas revelaram que o motorista saíra da via principal. Seu Coelho imaginou um terreno ermo onde seu corpo descansaria coberto por ervas daninhas sem deixar saudade. Ignorou o pensamento e deixou-se invadir pela música. Recostou-se nos bancos macios e permitiu-se quase cochilar. A viagem de pouco de mais de uma hora fora o momento de maior conforto e prazer — e paz até — que havia tido nos últimos anos na rua. A mente estava calma, sublimando para um estado de sonolência, quando os freios suaves fizeram o carro parar.
Ouviu a porta do motorista se abrir. Passos do lado de fora. A porta traseira finalmente abriu para uma noite clara e iluminada por uma lua cheia brilhante num céu estrelado de poucas nuvens. O homem de óculos falou apenas "Chegamos, Senhor Jeremias".
Seu Coelho saiu do carro. Os sapatos velhos deram num chão de terra batida, cercado de um gramado bem aparado e um lago brilhante distante. A estrada se perdia numa espécie de pasto. Ao longe era possível ver a silhueta de uma cerca de madeira e ouvir o relinchar de algum cavalo. Uma casa grande, à frente, o aguardava. As paredes eram de pedra até cerca de um metro de altura. Acima disso, eram chapas de madeira nobre que se erguiam até o telhado de telhas acinzentadas. Um perdigueiro grande de cara escorrida veio cheirar-lhe as vestes. Num movimento brusco, retirou o focinho aguçado, agredido pelos restos de cidade agarrados às fibras puídas, e retornou para algum lugar atrás da construção. O motorista abriu a porta principal e fez um gesto convidando o passageiro a entrar na casa.
O assoalho rangeu em boas-vindas, dócil. Das arandelas escorria pela parede uma luz amarelada e a um canto, uma lareira crepitava confortavelmente com uma velha espingarda de caça decorando a chaminé.
— A sua estada, tenho certeza, será bastante confortável. Venha, deve haver um banho aguardando o senhor.
O motorista de nariz adunco acompanhou Seu Coelho até uma porta, que se abria para um banheiro coberto com uma parede coberta de arabescos e pastilhas de vidro ao redor do box. Do outro lado, uma banheira cheia de uma espuma fumegante aguardava.
— Fique à vontade. Chamarei alguém para... — fez uma pausa proposital — deixá-lo mais à vontade.
O homem saiu, deixando Seu Coelho só no banheiro. Um cheiro de eucalipto cobria o fedor das suas roupas. Pela estreita janela basculante, o luar espiava curioso. Não havia tranca na porta. Mas poucos pudores restavam para quem já tão pouco tinha. Seu Coelho tirou as vestes sujas, jogou-as a um canto, empilhadas, e meteu as pernas cansadas na água quente, submergindo o corpo castigado pelos anos na rua sob a espuma branca e perfumada. Recostou-se na banheira e pensou que se o jogassem morto e indigente num barranco qualquer não se importaria. Relaxou lembrando com certo humor que a espuma lembrava àquela que boiava fedida nos rios sob as pontes em que ele, também fedido, morava. Nem mesmo quando a maçaneta da porta desceu, ele saiu do seu estado de conforto. Só quando viu a mulher de branco entrar é que algum espanto lhe chegou.
Ajeitou-se o melhor que pôde, cobrindo-se com a espuma abundante. A loira devia ter uns 30 anos, tinha o cabelo liso amarrado em um coque atravessado por uma vareta de plástico, também branca. Ela olhou com um sorriso benevolente, mostrando-lhe nas mãos um roupão longo e branco, semelhante ao que ela usava. Pendurou a peça num cabide próximo sob o olhar atento de Seu Coelho. Abaixou-se para pegar o monte de roupas sujas revelando, pela fenda de seu roupão, uma perna longa e bem cuidada e um sugerido contorno de seio aparentemente nu, espiando pelo decote. Ela saiu fechando a porta atrás de si. Seu Coelho mirou o roupão pendurado, tentou relaxar na água quente e mergulhou, lavando os cabelos pastosos.
Passaram-se mais uns cinco minutos, talvez um pouco mais, até que a mulher retornou. Seu Coelho ajeitou-se na banheira, ainda sob a espuma, agora com os cabelos bem menos sebosos e sem o cheiro da cidade na pele. Ela se aproximou com passos curtos, ajoelhou-se ao lado da banheira e pegou a bucha sobre o aparador. Ensaboou o objeto, molhou-o na água e fez menção de esfregar as costas do homem.
— Não precisa. Adiantou-se Seu Coelho, preservando os pudores da moça.
Ela parou por um momento, olhou para ele, e pressionou a esponja contra o seu dorso puído. A esponja quente percorreu os ombros maltratados com suavidade, em movimentos lentos. Subiu o pescoço tisnado do sol, volta e meia retornando às águas quentes e espumosas da banheira. Seu Coelho foi deixando-se relaxar ao toque sutil da esponja, ao eventual toque das pontas alvas dos dedos longos. Dividiu com a mulher um silêncio cúmplice. Ela arregaçou a manga do roupão revelando um braço esguio e bonito. Mergulhou-o na espuma, percorrendo com a esponja cada vértebra das costas de Seu Coelho, contornando-lhe a lombar. Sob a espuma, o corpo desacostumado com um toque gentil ameaçava relembrar a virilidade que há tempo não provava.
A moça empurrou-lhe o peito delicadamente com a ponta dos dedos, para que se recostasse, molhou a esponja na água e começou a ensaboar-lhe o tórax.
Ele sorriu, apenas. Sentiu a esponja descer-lhe pelo abdômen, percorrer-lhe a lateral do tronco, esfregar-lhe a coxa. Sob a água, as mãos dos dois se encontraram. Ao toque, ela mirou-lhe os olhos pardos com os azuis dela. Sorriu — ou riu — sem pudores, mas parou o movimento. Ele, devagar, puxou-lhe a mão até sentir o toque da esponja onde queria. Ela roçou-lhe suavemente com a esponja. Levantou-se, olhou, de pé, para o homem deitado na banheira, soltou o cordão que amarrava o roupão e deixou a peça correr pelos ombros até cair no chão. Meteu as pernas longas dentro da banheira, uma depois da outra, e mergulhou a nudez nas águas quentes, contornando, por baixo da espuma, as pernas dele com as dela. Olhou por um momento para o homem a sua frente, pegou novamente a esponja e começou a ensaboar o próprio corpo, ignorando o companheiro de banheira. Seu Coelho ficou poucos minutos observando a moça de cabelos presos e corpo mergulhado na mesma água que o cercava. Com as mãos tocou-lhe as pernas lisas. Ela apenas o olhou e continuou a banhar-se. Ele se desencostou da banheira, levando as mãos às coxas da moça. Tudo para receber apenas mais um olhar, com o canto do olho. Num movimento quase brusco, com a paciência de quem vive à míngua sob os viadutos sem receber sequer um olhar de uma mulher como aquela, Seu Coelho tomou-lhe a esponja, espirrando com a violência do braço, um pouco de água para fora da banheira. O suficiente para espalhar a espuma, revelando um seio delicado coroado por uma auréola rosada e decorado com uma pequena tatuagem de um arco rebuscado ao lado de uma flecha, ornamentados por motivos tribais. Cobriu o seio da moça com a esponja, fazendo-a percorrer devagar, para baixo, o corpo arrepiado. Viu-a deitar a cabeça para trás e arquear as costas enquanto a esponja se perdia entre a espuma e as pernas da mulher.
Com um pulo, Seu Coelho projetou-se sobre a loira, transbordando a água a cada investida, transbordando emoções represadas, anos suprimidos, rugas precoces. A moça, capturada, subjugava-se às investidas brutas, à barba áspera, ao sabor das ruas que persistia na pele agora limpa. A cidade fica impregnada fundo, onde a água não alcança. Mas agora ela vinha à tona. Transbordava-lhe pelos poros, desprendia-se pelos pêlos, emergia-lhe à pele. A moça agarrou-lhe o pescoço com os braços, envolveu-lhe o lombo com as pernas e sentiu-se transbordar como a banheira. Seu Coelho continuou as investidas até que toda a cidade, toda a rua, toda a vida represada transbordasse também de si. E naufragou exausto nas águas que se acalmavam. Depois de uns dois minutos a moça levantou, em silêncio, vestiu o roupão novamente e saiu pingando pela porta sem tranca do banheiro.
Seu Coelho aguardou uns cinco minutos. Levantou-se, secou o corpo murcho, já não sabia se pela água ou pela vida, e vestiu o roupão branco com um pequeno gamo bordado no lado esquerdo do peito. Abriu, sem muita certeza, a porta do banheiro. No chão, a sua frente, ruas roupas aguardavam empilhadas e dobradas. Pegou-as, retornou ao banheiro e um minuto depois tornou a sair, vestindo as próprias vestes, cobertas com alguma nova essência que desconhecia, mas de aroma bem mais agradável. O homem magro de terno preto o aguardava na sala, em frente à lareira.
— Ah, Senhor Jeremias. — Disse sem emoção na voz ou no rosto. — Seu jantar está servido.
Acompanhou o homem a uma sala lateral onde uma refeição simples mas farta o aguardava. Seu Coelho já não perguntava nada, não esperava nada, não se importava com nada. Comeu com a pressa que se aprende na rua. Ao terminar, o mesmo homem de terno re-apareceu.
— Senhor Jeremias, acompanhe-me.
Seu Coelho obedeceu. Seguiu o homem até a sala onde este abriu a porta da rua. Seu Coelho parou por um momento. O homem de olhar de rapina fez um movimento de confirmação com a cabeça. Seu Coelho saiu pela porta e encontrou o mesmo carro que o trouxe, com a porta traseira aberta. O homem fez sinal para que entrasse no veículo. A lua alta brilhava cheia, retornando com uma lufada de vento o suspiro de Seu Coelho.
O carro serpenteou as curvas levando no ventre Seu Coelho que, lá dentro, não sabia o que pensar. Apreendeu-se imaginando que fim lhe esperava. Não creu na história do abrigo, mas tentava se tranquilizar relembrando que o que quer que o aguardasse, não poderia ser pior que retornar à rua. E de todo modo, havia valido a pena. Viveu numa noite o que não vivera sobrevivendo nos últimos anos. Ouviu com certo espanto o ruído familiar da cidade. O carro parou. Uma sirene soou não muito longe dali. A cidade, à noite, expirava ressonante e insone. A porta se abriu. Seu Coelho saiu e deu com um bairro distante, na periferia. O homem de nariz adunco cerrou a porta traseira, retornou ao posto de motorista e partiu seguindo o felino prateado que puxava o carro.
Uma hora depois, Seu Coelho chegava, a pé, junto aos pés coloridos escrito "veado" do viaduto que lhe servia por teto. Ao mesmo tempo em que, num casarão distante com um Jaguar estacionado em frente, um homem de terno negro e olhos de águia batia à porta de um quarto. Dentro do quarto a mulher loira, sentada na cama sob as caras cobertas, ajustou o robe cobrindo o seio tatuado e pôs de lado um balancete financeiro de uma filial empresarial. Retirando os óculos e colocando-os ao lado do cálice de vinho no criado-mudo, disse:
— Pode entrar.
O homem de terno abriu uma fresta na porta do quarto e polidamente perguntou:
— Senhorita Diana, estou indo me recolher. A senhorita deseja algo mais?
— Não, Tulius. Está tudo bem, obrigada. Boa noite.
— Obrigado. Boa noite, madame.
— Olhando o quê, Seu Coelho?
Sempre lhe chamavam Seu Coelho. Nem era velho, mal passava dos quarenta. Mas a verdade é que aparentava mais, e ninguém nunca lhe perguntou sua idade.
— Lua cheia hoje. Não dá de ver por causa da fumaça, mas tá mais claro lá, ó. Lua cheia.
— E daí?
— É bonito, só. Mais bonito que o viaduto ao menos.
— Sai daí, homem, que tá ficando frio.
E Seu Coelho saiu e foi se juntar aos outros esfarrapados aos pés coloridos dos viadutos, em volta de uma sopa rala, surrupiada do abrigo cuja funcionária fez vista grossa por pena.
O farol alto de um carro projetou na parede as sombras negras dos esfarrapados. Animais acuados, alguns fugiram assustados, outros paralisaram. Os faróis baixaram, deixando só as luzes de cidade acesas. O capô trazia um felino prateado à frente. Seu Coelho, de orelhas em pé, junto aos outros homens, aguardou. A porta do motorista se abriu. Um homem magro saiu, metido num terno preto. Conferiu nas mãos uma folha de papel, olhando para os homens por cima das lentes dos óculos apoiados sobre o proeminente nariz adunco. Mirando Seu Coelho com olhos de rapina citou em uma voz gentilmente treinada:
— Senhor Jeremias Antônio Coelho.
O motorista revelava, nas mãos, para os homens curiosos, uma fotocópia da ficha do abrigo, com os dados médicos, cadastrais e uma fotografia 3X4 recente de Seu Coelho.
O homem coçou os já prateados fios da barba, adiantou-se, conferiu a ficha. De fato, era a ficha do abrigo. Levantou os olhos ao magro motorista, com o ronronar do carro ao fundo.
— Não se preocupe — disse o homem abrindo a porta traseira do automóvel — Ah! — continuou — antes que me esqueça, o abrigo pediu para entregar isso. Disseram que era para o custeio da viagem. Acho que faz parte do intercâmbio.
Seu Coelho abriu o envelope que lhe foi entregue, dentro, poucas notas de cinquenta reais. No interior do carro, o calor e o aroma de alguma massa recém assada pareciam convidativos.
— Vamos? Perguntou o homem de óculos.
Seu Coelho olhou para o céu e, entre vias de concreto e lufadas de fumaça, viu por um momento a lua espiar por trás das nuvens. Deu um suspiro profundo, quase de entrega, colocou o envelope no bolso, deu de ombros e entrou no carro. O mundo lhe passava pela cabeça.
Dentro do carro de bancos de couro, uma embalagem de uma pizzaria próxima o aguardava no banco traseiro.
O motorista olhou para trás por sobre o banco:
— A viagem não deve demorar muito, mas achei que poderia estar com fome. Peguei agora mesmo. Espero que não se importe, mas peguei um pedaço.
Seu Coelho balançou a cabeça, mas, antes que pudesse dizer "não tem problema", uma lâmina opaca subiu entre ele e a cabine do motorista. Só então percebeu que as janelas eram igualmente opacas. Uma música suave tocou enquanto o carro se pôs em movimento. Seu Coelho, lá dentro, abriu a embalagem de pizza, com uma fatia a menos, e tratou de aplacar o estômago ruidoso.
O carro rodava sem solavancos. Ao contrário da cabeça de Seu Coelho. Não sabia se deveria crer no motorista sobre o intercâmbio do abrigo. Já se imaginava atirado na entrada de outra cidade, jogado de novo no mundo para sair à procura de outro viaduto de pés pintados noutra urbe poluída para impregnar-lhe as roupas rotas. Imaginou-se, jogado na rua, já sem vida, um resto esfarrapado de gente. “Vazio de vida, mas ao menos de bucho cheio”, pensou. Deixou o pensamento pairar-lhe à mente sem medo e perguntou-se se já não estaria de todo esvaziado da vida. Já não ligava, apenas deixava-se levar, ao som da música, o embalar do couro, o sabor e o cheiro da pizza. Era o melhor momento que lhe havia aparecido há muito. Que viesse o que fosse, que ali lhe valiam os anos todos sob o concreto à caça de algo para comer. O felino prateado puxava o carro pela autoestrada guiado por uma lua cheia de agosto, que Seu Coelho não podia ver.
O som de cascalho sob as rodas e as curvas sinuosas revelaram que o motorista saíra da via principal. Seu Coelho imaginou um terreno ermo onde seu corpo descansaria coberto por ervas daninhas sem deixar saudade. Ignorou o pensamento e deixou-se invadir pela música. Recostou-se nos bancos macios e permitiu-se quase cochilar. A viagem de pouco de mais de uma hora fora o momento de maior conforto e prazer — e paz até — que havia tido nos últimos anos na rua. A mente estava calma, sublimando para um estado de sonolência, quando os freios suaves fizeram o carro parar.
Ouviu a porta do motorista se abrir. Passos do lado de fora. A porta traseira finalmente abriu para uma noite clara e iluminada por uma lua cheia brilhante num céu estrelado de poucas nuvens. O homem de óculos falou apenas "Chegamos, Senhor Jeremias".
Seu Coelho saiu do carro. Os sapatos velhos deram num chão de terra batida, cercado de um gramado bem aparado e um lago brilhante distante. A estrada se perdia numa espécie de pasto. Ao longe era possível ver a silhueta de uma cerca de madeira e ouvir o relinchar de algum cavalo. Uma casa grande, à frente, o aguardava. As paredes eram de pedra até cerca de um metro de altura. Acima disso, eram chapas de madeira nobre que se erguiam até o telhado de telhas acinzentadas. Um perdigueiro grande de cara escorrida veio cheirar-lhe as vestes. Num movimento brusco, retirou o focinho aguçado, agredido pelos restos de cidade agarrados às fibras puídas, e retornou para algum lugar atrás da construção. O motorista abriu a porta principal e fez um gesto convidando o passageiro a entrar na casa.
O assoalho rangeu em boas-vindas, dócil. Das arandelas escorria pela parede uma luz amarelada e a um canto, uma lareira crepitava confortavelmente com uma velha espingarda de caça decorando a chaminé.
— A sua estada, tenho certeza, será bastante confortável. Venha, deve haver um banho aguardando o senhor.
O motorista de nariz adunco acompanhou Seu Coelho até uma porta, que se abria para um banheiro coberto com uma parede coberta de arabescos e pastilhas de vidro ao redor do box. Do outro lado, uma banheira cheia de uma espuma fumegante aguardava.
— Fique à vontade. Chamarei alguém para... — fez uma pausa proposital — deixá-lo mais à vontade.
O homem saiu, deixando Seu Coelho só no banheiro. Um cheiro de eucalipto cobria o fedor das suas roupas. Pela estreita janela basculante, o luar espiava curioso. Não havia tranca na porta. Mas poucos pudores restavam para quem já tão pouco tinha. Seu Coelho tirou as vestes sujas, jogou-as a um canto, empilhadas, e meteu as pernas cansadas na água quente, submergindo o corpo castigado pelos anos na rua sob a espuma branca e perfumada. Recostou-se na banheira e pensou que se o jogassem morto e indigente num barranco qualquer não se importaria. Relaxou lembrando com certo humor que a espuma lembrava àquela que boiava fedida nos rios sob as pontes em que ele, também fedido, morava. Nem mesmo quando a maçaneta da porta desceu, ele saiu do seu estado de conforto. Só quando viu a mulher de branco entrar é que algum espanto lhe chegou.
Ajeitou-se o melhor que pôde, cobrindo-se com a espuma abundante. A loira devia ter uns 30 anos, tinha o cabelo liso amarrado em um coque atravessado por uma vareta de plástico, também branca. Ela olhou com um sorriso benevolente, mostrando-lhe nas mãos um roupão longo e branco, semelhante ao que ela usava. Pendurou a peça num cabide próximo sob o olhar atento de Seu Coelho. Abaixou-se para pegar o monte de roupas sujas revelando, pela fenda de seu roupão, uma perna longa e bem cuidada e um sugerido contorno de seio aparentemente nu, espiando pelo decote. Ela saiu fechando a porta atrás de si. Seu Coelho mirou o roupão pendurado, tentou relaxar na água quente e mergulhou, lavando os cabelos pastosos.
Passaram-se mais uns cinco minutos, talvez um pouco mais, até que a mulher retornou. Seu Coelho ajeitou-se na banheira, ainda sob a espuma, agora com os cabelos bem menos sebosos e sem o cheiro da cidade na pele. Ela se aproximou com passos curtos, ajoelhou-se ao lado da banheira e pegou a bucha sobre o aparador. Ensaboou o objeto, molhou-o na água e fez menção de esfregar as costas do homem.
— Não precisa. Adiantou-se Seu Coelho, preservando os pudores da moça.
Ela parou por um momento, olhou para ele, e pressionou a esponja contra o seu dorso puído. A esponja quente percorreu os ombros maltratados com suavidade, em movimentos lentos. Subiu o pescoço tisnado do sol, volta e meia retornando às águas quentes e espumosas da banheira. Seu Coelho foi deixando-se relaxar ao toque sutil da esponja, ao eventual toque das pontas alvas dos dedos longos. Dividiu com a mulher um silêncio cúmplice. Ela arregaçou a manga do roupão revelando um braço esguio e bonito. Mergulhou-o na espuma, percorrendo com a esponja cada vértebra das costas de Seu Coelho, contornando-lhe a lombar. Sob a espuma, o corpo desacostumado com um toque gentil ameaçava relembrar a virilidade que há tempo não provava.
A moça empurrou-lhe o peito delicadamente com a ponta dos dedos, para que se recostasse, molhou a esponja na água e começou a ensaboar-lhe o tórax.
Ele sorriu, apenas. Sentiu a esponja descer-lhe pelo abdômen, percorrer-lhe a lateral do tronco, esfregar-lhe a coxa. Sob a água, as mãos dos dois se encontraram. Ao toque, ela mirou-lhe os olhos pardos com os azuis dela. Sorriu — ou riu — sem pudores, mas parou o movimento. Ele, devagar, puxou-lhe a mão até sentir o toque da esponja onde queria. Ela roçou-lhe suavemente com a esponja. Levantou-se, olhou, de pé, para o homem deitado na banheira, soltou o cordão que amarrava o roupão e deixou a peça correr pelos ombros até cair no chão. Meteu as pernas longas dentro da banheira, uma depois da outra, e mergulhou a nudez nas águas quentes, contornando, por baixo da espuma, as pernas dele com as dela. Olhou por um momento para o homem a sua frente, pegou novamente a esponja e começou a ensaboar o próprio corpo, ignorando o companheiro de banheira. Seu Coelho ficou poucos minutos observando a moça de cabelos presos e corpo mergulhado na mesma água que o cercava. Com as mãos tocou-lhe as pernas lisas. Ela apenas o olhou e continuou a banhar-se. Ele se desencostou da banheira, levando as mãos às coxas da moça. Tudo para receber apenas mais um olhar, com o canto do olho. Num movimento quase brusco, com a paciência de quem vive à míngua sob os viadutos sem receber sequer um olhar de uma mulher como aquela, Seu Coelho tomou-lhe a esponja, espirrando com a violência do braço, um pouco de água para fora da banheira. O suficiente para espalhar a espuma, revelando um seio delicado coroado por uma auréola rosada e decorado com uma pequena tatuagem de um arco rebuscado ao lado de uma flecha, ornamentados por motivos tribais. Cobriu o seio da moça com a esponja, fazendo-a percorrer devagar, para baixo, o corpo arrepiado. Viu-a deitar a cabeça para trás e arquear as costas enquanto a esponja se perdia entre a espuma e as pernas da mulher.
Com um pulo, Seu Coelho projetou-se sobre a loira, transbordando a água a cada investida, transbordando emoções represadas, anos suprimidos, rugas precoces. A moça, capturada, subjugava-se às investidas brutas, à barba áspera, ao sabor das ruas que persistia na pele agora limpa. A cidade fica impregnada fundo, onde a água não alcança. Mas agora ela vinha à tona. Transbordava-lhe pelos poros, desprendia-se pelos pêlos, emergia-lhe à pele. A moça agarrou-lhe o pescoço com os braços, envolveu-lhe o lombo com as pernas e sentiu-se transbordar como a banheira. Seu Coelho continuou as investidas até que toda a cidade, toda a rua, toda a vida represada transbordasse também de si. E naufragou exausto nas águas que se acalmavam. Depois de uns dois minutos a moça levantou, em silêncio, vestiu o roupão novamente e saiu pingando pela porta sem tranca do banheiro.
Seu Coelho aguardou uns cinco minutos. Levantou-se, secou o corpo murcho, já não sabia se pela água ou pela vida, e vestiu o roupão branco com um pequeno gamo bordado no lado esquerdo do peito. Abriu, sem muita certeza, a porta do banheiro. No chão, a sua frente, ruas roupas aguardavam empilhadas e dobradas. Pegou-as, retornou ao banheiro e um minuto depois tornou a sair, vestindo as próprias vestes, cobertas com alguma nova essência que desconhecia, mas de aroma bem mais agradável. O homem magro de terno preto o aguardava na sala, em frente à lareira.
— Ah, Senhor Jeremias. — Disse sem emoção na voz ou no rosto. — Seu jantar está servido.
Acompanhou o homem a uma sala lateral onde uma refeição simples mas farta o aguardava. Seu Coelho já não perguntava nada, não esperava nada, não se importava com nada. Comeu com a pressa que se aprende na rua. Ao terminar, o mesmo homem de terno re-apareceu.
— Senhor Jeremias, acompanhe-me.
Seu Coelho obedeceu. Seguiu o homem até a sala onde este abriu a porta da rua. Seu Coelho parou por um momento. O homem de olhar de rapina fez um movimento de confirmação com a cabeça. Seu Coelho saiu pela porta e encontrou o mesmo carro que o trouxe, com a porta traseira aberta. O homem fez sinal para que entrasse no veículo. A lua alta brilhava cheia, retornando com uma lufada de vento o suspiro de Seu Coelho.
O carro serpenteou as curvas levando no ventre Seu Coelho que, lá dentro, não sabia o que pensar. Apreendeu-se imaginando que fim lhe esperava. Não creu na história do abrigo, mas tentava se tranquilizar relembrando que o que quer que o aguardasse, não poderia ser pior que retornar à rua. E de todo modo, havia valido a pena. Viveu numa noite o que não vivera sobrevivendo nos últimos anos. Ouviu com certo espanto o ruído familiar da cidade. O carro parou. Uma sirene soou não muito longe dali. A cidade, à noite, expirava ressonante e insone. A porta se abriu. Seu Coelho saiu e deu com um bairro distante, na periferia. O homem de nariz adunco cerrou a porta traseira, retornou ao posto de motorista e partiu seguindo o felino prateado que puxava o carro.
Uma hora depois, Seu Coelho chegava, a pé, junto aos pés coloridos escrito "veado" do viaduto que lhe servia por teto. Ao mesmo tempo em que, num casarão distante com um Jaguar estacionado em frente, um homem de terno negro e olhos de águia batia à porta de um quarto. Dentro do quarto a mulher loira, sentada na cama sob as caras cobertas, ajustou o robe cobrindo o seio tatuado e pôs de lado um balancete financeiro de uma filial empresarial. Retirando os óculos e colocando-os ao lado do cálice de vinho no criado-mudo, disse:
— Pode entrar.
O homem de terno abriu uma fresta na porta do quarto e polidamente perguntou:
— Senhorita Diana, estou indo me recolher. A senhorita deseja algo mais?
— Não, Tulius. Está tudo bem, obrigada. Boa noite.
— Obrigado. Boa noite, madame.
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Literatura - Prosa,
Rodrigo Oliveira
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