<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><rss xmlns:atom='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' version='2.0'><channel><atom:id>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233</atom:id><lastBuildDate>Thu, 24 Dec 2009 13:04:56 +0000</lastBuildDate><title>Rodrigo Oliveira</title><description>Loucura não é enxergar os gigantes, mas sim, não enfrentar os moinhos.</description><link>http://roferoli.blogspot.com/</link><managingEditor>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</managingEditor><generator>Blogger</generator><openSearch:totalResults>111</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-158581489187842217</guid><pubDate>Thu, 24 Dec 2009 11:57:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-12-24T11:04:56.633-02:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Artigos e Ensaios</category><title>A terra vazia e vaga de Werner Neuert</title><description>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_vCOMq7tNmLA/SzNmvwM9JlI/AAAAAAAAAD4/GkEOtkaHmHQ/s1600-h/a_terra_estava_vazia_e_vaga.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer; width: 113px; height: 156px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_vCOMq7tNmLA/SzNmvwM9JlI/AAAAAAAAAD4/GkEOtkaHmHQ/s320/a_terra_estava_vazia_e_vaga.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5418787747235964498" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:85%;" &gt;"Não adianta nada ficar escrevendo&lt;br /&gt;se não desvendar os fragmentos podres&lt;br /&gt;ou a luz mais branca."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:85%;" &gt;— Werner Neuert&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei um exemplar de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Terra estava vazia e vaga&lt;/span&gt;, de Werner Neuert, em um sebo no centro da cidade. Já havia ouvido o nome do autor em um comentário aqui, outro ali, por um e outro amigo que também insistem em ler o que pelo Vale se escreve. Mas não conhecia nada a respeito do autor. Peguei o volume de capa negra sem ao menos saber que se tratava de um livro de contos. A orelha me dizia que Neuert era um autor do Vale — amigos haviam dito, de Indaial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na contracapa, branco sobre o preto, estava o que julguei ser um breve excerto de um conto do livro. Traçava a curiosa história de um protagonista sem nome, cidadão aparentemente exemplar, que um dia vai ao parque e encontra São Francisco de Assis. Conversa com o santo e, por isso mesmo, termina posto, pela família, em um hospital psiquiátrico. O santo também acaba lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trecho me fez subir as orelhas — se uma pessoa pudesse fazê-lo, como os animais, eu teria certamente feito. Pouco mais tarde vim a descobrir: o breve trecho não era trecho. Era um conto completo. E não dos menores do livro. Em &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Terra estava...&lt;/span&gt; Neuert é assim. Nunca tarda ao leitor encontrar o ponto final. Mas em muitos dos contos, não se engane o leitor, o texto continua muito além do último ponto. Há sempre algo que segue narrando, nesses textos de Neuert.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A obra traz retratos de tipos cotidianos. O cidadão anônimo cuja história muitas vezes se resume à sua miudeza. Ao seu viver e morrer e amar insignificantes. No conto de número 37 — que a maior parte dos contos são assim, anônimos, números apenas, talvez como quem os lê — lemos, na íntegra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;blockquote style="font-style: italic;"&gt;"Quando soube que teria pouco tempo de vida, foi correndo comprar flores para Luíza, há muito tempo desejava dar flores a ela".&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Assim Neuert, com seus mini e microcontos volta e meia nos põe em xeque, nos volta a nós mesmos, refletidos em pálidos e breves momentos entre os tantos afazeres de nossas vidas irrelevantes. Como no 39º conto, em que conhecemos o trabalhador que ao abrir a marmita todos os dias ao meio-dia lembrava da amante e perguntava a si mesmo: "— Será que ela também faria comida pra eu trazer?" É o tipo simples, ou apenas indigno de nota, que parece mais atrair o autor. O esquisito da praça ou estação de qualquer cidade, como seu "Chapéu-de-Flores" (conto 87) que passa o dia a distribuir flores a desconhecidos, ou o homem que realiza o sonho ao comprar uma kombi que passa mais tempo na oficina do que circulando, o outro traído mas que ama incondicionalmente a esposa, o transeunte, o qualquer um, que vive, que goza, que se irrita. Que passa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neuert divide sua obra em várias partes temáticas, mas o livro pode ser dividido em dois grandes momentos. O primeiro comporta os 129 micro e minicontos sem título. Destes, destaca-se o humor mordaz de 91, em uma única frase: "— Opção sexual o cassete, se eu pudesse optar, seria hetero". A mesma estrutura de piada, simples como um conto de boteco, se repete em 31 e, mais rebuscada, no humor mais ácido de 25, onde um João, preso na ilha de Patmos, resolve, apenas para espantar o tédio, escrever "uns negócio aí", ao que é aconselhado: "—Não vá inventar polêmica". Esse diálogo da ironia ou do sarcasmo com o sacro é também recorrente, em &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Terra estava...&lt;/span&gt; Retorna, por exemplo, em 76, com o espectador da missa de olhos fixos no Cristo crucificado, para mais tarde, ao retornar ao carro, comentar com a esposa "—Visse que o Jesus tá com o nariz torto?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais humanos e viscerais, talvez sejam o conto de número 40, tangenciando a pedofilia dentro de casa, ou o conto 55 com a insegurança e falsa moral falocrática. Dentre esses breves contos, é preciso ainda destacar os de número 65 e 66, sobre livros, letras e diplomas; o encorpado 108 onde o filho orgulhoso apresenta a mãe sua tese de doutorado para receber em resposta "— Para que tantas palavras, meu filho?" e o mais explicitamente metaliterário 83, um dos mais poéticos e destaque deste trecho do livro, que reproduzo na íntegra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote style="font-style: italic;"&gt;"Abre essas palavras. Arranca o que tem lá dentro. Não adianta nada ficar escrevendo se não desvendar os fragmentos podres ou a luz mais branca. Aperta, esmaga com raiva até tirar toda a essência. Depois bebe com serenidade, como um santo. Bebe até cair ou despertar. Mas primeiro: abre essas palavras."&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;A Terra estava vazia e vaga conta ainda com um segundo momento, onde apresenta contos pouco mais longos, alguns ultrapassando a primeira página. Os contos deixam de ser anônimos, ganham título, ganham nome. Muitos, de pessoas. Aqui o autor parece lançar mão de um texto melhor estruturado, com grande força de imagens, muitas na fonte do surreal ou do fantástico. Neuert troca o impacto pelo envolvimento. O golpe direto e seco pelo enlevo da narrativa. Alguns dos temas se repetem, como em &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Kombi &lt;/span&gt;e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Kombi II&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Negão&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Pedro&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;José&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Luci &lt;/span&gt;ou &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Bach e Putas&lt;/span&gt;. Mas o destaque é força com que trabalha o surreal. Ótimos são &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Coceira &lt;/span&gt;com sua protagonista que na falta de um amor, ama-se a si própria até consumir-se; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Bom dia borboletas&lt;/span&gt;, que traz o dia em que as pessoas começaram a expelir borboletas ao falar; o intrigante &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Azul &lt;/span&gt;onde um homem passa a ver tudo, de repente, em tons de azul. Tudo exceto a morte, que enxerga em cores normais, no cadáver na rua, no pôr-do-sol, na barata morta. O belíssimo e angustiante &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Seis bilhões&lt;/span&gt;, com toda sua falta de espaço, de tempo, de vida, repleto de excessos de tudo, exceto talvez, de paz e de si mesmo. Todos estes, de uma beleza imagética tocante, onde o autor lança mão de mais recursos poéticos e mostra que pode trafegar igualmente entre lagartas e borboletas. Como aquela que, colorida na capa negra criada por Denise Patrício para o volume, se esconde, ainda lagarta, dentro da crisálida. Ou como aquelas, na contracapa do livro, já lepidópteros alados metamorfoseados em cor sobre o fundo negro. A Terra de Neuert é vazia, vaga, mas cheia de borboletas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-158581489187842217?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/12/terra-vazia-e-vaga-de-werner-neuert.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_vCOMq7tNmLA/SzNmvwM9JlI/AAAAAAAAAD4/GkEOtkaHmHQ/s72-c/a_terra_estava_vazia_e_vaga.jpg' height='72' width='72'/><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-5634799365570270348</guid><pubDate>Sun, 20 Dec 2009 17:52:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-12-20T15:54:13.377-02:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Verso</category><title>Declamações</title><description>&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Declamações&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nos teus ouvidos&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;....&lt;/span&gt;falo em romance&lt;br /&gt;nos teus lábios&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;....&lt;/span&gt;falo em riste&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-5634799365570270348?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/12/declamacoes.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-8136950530021833007</guid><pubDate>Tue, 08 Dec 2009 15:09:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-12-08T13:09:49.765-02:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Retorno em vermelho e azul</title><description>Azul e vermelho. Azul e vermelho. Azul e vermelho. As cores se intercalavam na paisagem vista através do vidro fechado. O barulho, já nem ouvia mais. Lembrava a última vez que vira a paisagem naquelas cores, através daquele vidro. Já não sentia ódio — há algum tempo não sentia — estava como que adormecido. Havia algo no peito, no entanto, que pesava. Não identificou em princípio. Há muito não o sentia. Há anos. E lembrou da última vez. Também estava lá, apertando o peito, apesar de tudo. E lembrou-se. E sentiu, como não poderia deixar de ser, inevitável e fatídica, saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro alugado em um quase desmanche do subúrbio não era o mais discreto. Não importava muito. Era um carro velho, barato e desconhecido. Provavelmente nem se importariam muito com alguma avaria. Até com a falta, vai saber. Olhou no retrovisor sem reflexo. Só um borrão manchado no espelho velho. Um espectro que dava apenas para imaginar onde ficariam os olhos bem mais enrugados do que há anos, uma barba não muito bem feita. Ao menos a roupa não estava tão mal. Era, na verdade, a melhor roupa que usava desde muito tempo. Desde vários anos. A sensação de usar uma roupa que não fosse igual a de todos os outros lhe causava um certo prazer desfrutado em silêncio, numa íntima satisfação de um agradável segredo. Olhou o relógio que já lhe incomodava o pulso — tanto tempo sem usá-lo! — conferiu as horas sem se importar muito, não tinha muito mais que o fazer. Ficari ali pelo tempo que fosse necessário, como havia feito nos últimos dias. A casinha azulada do lado de fora do carro era simples, mas bonitinha. Ou ela teria adquirido algum bom gosto, afinal, ou o marido que escolhera. A segunda opção, provavelmente. Ela deveria ter simplesmente ido morar com o coitado. Demorou algum tempo, mas eventualmente teriam de terminar. O rapaz havia entrado há já quase uma hora. Finalmente, a porta da frente se abriu e fechou-se em seguida, rapidamente, tempo apenas suficiente para deixar sair apressado um rapaz — surpreendentemente novo, por certo apenas alguns anos mais velho que ela — que logo se pôs em marcha apressada e distraída rua abaixo, ainda acertando a camisa por dentro do cós da calça. Saiu feliz, leve, como das outras vezes. Irritantemente leve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motor fez o capô trepidar, assustando apenas uns poucos pássaros na árvore ao lado que projetava uma sombra vasta na rua vazia de subúrbio. Colocou o carro em marcha e acelerou suavemente, medindo a distância. O carro foi ganhando velocidade devagar, sem despertar muito a atenção. Chegando aos setenta quilômetros por hora estabilizou o ponteiro tremulante do velocímetro. O pneu deu um solavanco quando acertou o meio fio, arremessando o carro alguns centímetros para o alto. O som assustou o rapaz, mas ele nem teve tempo de se virar. Antes que pudesse terminar o movimento, um farol arredondado lhe entrava pelas costelas enquanto um para-choque de metal lhe separava o joelho. Rolou por sobre o capô até atingir a coluna do para-brisas, no instante em que o carro fazia a curva para retornar à rua, deixando a calçada. Foi arremessado por sobre a cerca baixa de uma das casas próximas, indo aterrissar atrás das plantas do quintal. Só seria descoberto, provavelmente no outro dia, coberto de sereno e sujo de grama, um pé pra cá outro pra lá, numa posição de boneco de pano estropiado. O carro seguiu a rua e dobrou à direita na primeira quadra. Parou no outro lado em frente a uma entrada de garagem abandonada, sem um farol e com o para-brisas trincado. A chave, na ignição; a porta apenas encostada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Azul e vermelho. Azul e vermelho. Azul e vermelho. A praça, trocando de cor, fez com que lembrasse do pobre do marido. Provavelmente pela estátua careca e de óculos entre as hortências. Careca tingida pela luz vermelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem lembrava muito bem como, mas ela estava de roupão — ou era um hobby não tão fino — azul. Os cabelos estavam molhados e cheirosos. Já não cheiravam ao rapaz, àquelas horas atirado num quintal vizinho. Nem ao marido, certamente. Nem a ele. A infeliz e irremediável certeza: há muito tempo não cheiravam a ele. Ela tinha a boca vermelha. Não era batom; não, não era. Era um corte no lábio inferior. Não no nariz, dessa vez, mas no carnudo, vermelho, lábio inferior, que ela deixava meio pendente da boca entreaberta de dentes pequenos. Ah, como ele lembrava daquele sorriso de dentes pequenos e boca vermelha! O sangue o fez lembrar da última vez em que beijou aqueles lábios. Ainda tinham sangue quando treparam no chão da cozinha da casa que já não era dele, naquela vida que já não era dele. Ela não sorria, agora, mas tinha nos olhos aquela mesma doçura quente, encolhida próxima à cabeceira da cama. O roupão deixava escapar uma perna bonita e bem depilada. Devia ter se preparado à espera do rapaz. Subiu os olhos pelas pernas imaginando o que mais aquele roupão escondia que ela havia preparado para o rapaz jogado num quintal próximo, casas abaixo. Semiaberta, a vestimenta revelava o arredondar dos seios já mais crescidos. O pescoço já não mantinha toda a vida da juventude, nem o rosto, ainda bonito, mas já aparentando uma mulher. Não era mais uma adolescente. Mas quando ela esboçou um pequeno sorriso, foi como se a mesma menina ressurgisse daquele ar jovial, fresco, pronto para ser colhido doce, úmido e suculento, sumo que escorria na boca e derretia por dentro, com todo o sabor de uma safra de apenas catorze anos. Ah, como ele se lembrava! Aproximava-se da cama devagar, a chave de rodas que trouxera do carro já pendia na mão ao lado do corpo, sem tensão, baixa, praticamente inerte. Perdia aos poucos a força. A determinação. Estava inebriado pelas lembranças e pelo reencontro com aquele corpo jovem e fresco que ele ainda via naquela, jovem, mas já, mulher. Despertou do transe apenas quando a porta se escancarou brusca. O homem careca de camisa polo e óculos abriu a porta. Chegou já raivoso. Com certa surpresa, viu a mulher seminua, coberta apenas pelo roupão, encolhida contra a cabeceira da cama enquanto o homem com a chave de rodas, de pé, ia em sua direção. Não sentia ódio pelo marido. Pena, no máximo. Era um pobre coitado, tinha certeza. Como ele havia sido. Mas não pôde fazer nada. O homem investiu contra ele. Atirou-o contra a parede, nem ligou para a chave de rodas que trouxera. Esta ensandecido. Qualquer um que passasse na rua veria pela janela a cena. Não teve muita opção. Se não fizesse nada o marido o atiraria janela a fora. Ergueu e depois baixou veloz a chave de rodas. Depois de dois golpes o homem estava caído aos seus pés, a careca vertendo sangue, tingindo de vermelho os poucos cabelos que lhe rodeavam. Não era tão velho, deveria ter sua idade, mais ou menos. A careca prematura sujando o chão de vermelho, dando tempo apenas de pronunciar, baixo, contra o chão um nome ou apelido de apenas duas sílabas idênticas. Não pôde suportar ouvir aquele nome saindo dos lábios de outro homem. Baixou mais uma vez a chave de rodas que ficou de pé, presa na careca vermelha. Olhou para a moça na cama sem saber o que dizer. Nos olhos dela, também não conseguia ler nada além de dúvida e curiosidade. E um corpo ofegante sob o roupão azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era manhã, a rua movimentada apenas pelos carros saindo das garagens levando os donos aos trabalhos no centro. Ele já estava parado lá há algum tempo, como das outras vezes. O carro velho sob a árvore, não longe da casa. Não foi tão difícil assim achar a casa. Bastou uma busca na internet para descobrir, em um site de relacionamentos, Sara, a amiga que sempre visitava e ia tomar banho de piscina enquanto ele observava, ouvindo o gelo estalar ao uísque, as adolescentes se divertirem. Na lista de amigos da moça, lá estava ela. O sobrenome era outro, mas era ela, com certeza. Ao lado da foto, alguns dados. E o nome da loja onde trabalhava. Tinha até currículo. Ela não havia estudado muito, mas até que não se deu tão mal. Tinha casado, estava no perfil. Por isso o sobrenome estranho. No mínimo com alguém mais velho, podia apostar. Por volta da sua idade, provavelmente. Ou da idade que tinha quando se despediu dela pela última vez. De todo modo, não era nele que estava interessado. Precisava vê-la de novo. Aproximar-se dela de novo. Acertar as contas com aquele demônio curvilíneo que o mandou ao inferno. Foi à loja e ficou observando a fachada de longe. Viu quando ela saiu. Um pouco mais velha do que lembrava. Bom. Sabia que não poderia com ela se ainda tivesse todo o viço da juventude, esfregando-lhe na cara aquela doçura que o deixava desarmado e de pernas bambas. As roupas, no entanto, eram coloridas e conferiam-lhe algo daquele ar infantil-sensual maldito. Afastou os pensamentos. Pensou em correr até ela naquele mesmo instante e apertar-lhe o pescoço já não tão delicado. Ver-lhe os olhinhos arregalarem-se e aquele sorriso macabro que não lhe saía da memória desaparecer. Mas não poderia. Não suportaria retornar àquele lugar. Nem mesmo por causa dela. Estava agora se acostumando a usar roupas comuns. A ver-se vestido diferente das outras pessoas ao redor. Estava se acostumando a ver o lado externo dos muros, os sons da cidade. Não retornaria jamais. Nem por ela. Seguiu-a, então, a distância, até que ela entrou na casinha azul. Sorriu para si mesmo. Bastava entrar ali e enterrar-lhe a mão no nariz delicado e perfeito, ouvir o rebentar da boca deliciosa e o suspiro cortado pelo estalar de uma traqueia partida. Mas havia o sobrenome. Ele estaria ali, ou para chegar. Teria de esperar. Não hoje. E saiu com o número e a fachada da casa gravados na memória, sabendo que retornaria ali algumas vezes ainda, antes de tomar qualquer porvidência. Era um prato que se comia frio, diziam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vermelho e azul. Vermelho e azul. A paisagem ia mudando do lado de fora do carro. Os dois homens no banco da frente em silêncio. Haviam insultado-o o suficiente. Viajavam agora calados. Anoitecia enquanto o carro se destinava para a área mais afastada da cidade, onde se escondia àqueles dos quais se queriam esquecer. Azul e vermelha a estrada passava. Como ele e ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela, sobre a cama, de azul-roupão sobre o corpo mal coberto. Ele, salpicado de vermelho. Ao chão um homem com uma chave de rodas na cabeça. Nos olhos dela, curiosidade macabra e excitada. Nos dele, dúvida e uma mistura de tesão, ódio, saudade e — sim, por que não? — amor. O corpo dele sobrepujando-se devagar ao dela. Ela, se afastando inutilmente contra a cabeceira da cama, mas com os olhos sempre nos dele. Ele agarrou a gola do roupão e a puxou para si. Ela ficou ali, meio pendurada pelo colarinho. Assustada, ofegante, olhos brilhando, um seio arquejante se denunciando pela abertura do roupão. Maior, mais arredondado, mas ainda firme, tenaz, o mamilo eriçado em rosa. Subindo e descendo, subindo e descendo com a respiração acelerada de hálito doce. Agarrou-lhe com a outra mão o pescoço. Ainda lhe cabia fácil na mão. Pressionou até que ela vertesse aquele hálito que há anos não sentia. Sentiu-o próximo ao rosto. O cheiro atingiu o cérebro como um dardo. Chegou a cambalear e apertou a mão contra o pescoço da moça como para se segurar e não cair. Ela emitiu um leve gemido que o trouxe de volta. E trouxe de volta as lembranças dos gemidos de outrora. Lembrou-se das tardes de antanho quando não estavam a mãe nem a empregada. Puxou-a, pelo pescoço mesmo, para mais perto de si. Hipnotizado. Azul e vermelho. Ele vermelho. Ela azul. A parede azul e vermelha, azul e vermelha, azul e vermelha pela janela aberta ao fim da tarde. Despertou quando percebeu que ela também admirava as cores projetadas nas paredes. Largou-lhe o pescoço, espiou pela janela. As luzes no teto do carro lá embaixo brilhavam azuis e vermelhas. Dois homens saindo do carro, armas nas mãos. Falando com alguém fora da sua visão e se dirigindo à casa. Lembrou dos uniformes. E dos uniformes. E dos dias e meses e anos. Lembrou da última vez. Do gosto do beijo e do sangue. Do olhar quente, do sorriso macabro. E dessa vez nem havia trepado. Há quanto tempo não trepava? Não voltaria. Não assim. Não sem ao menos dar o troco. Arrancou o abajur da tomada e, com um puxão arrancou-lhe o fio. Enrolou uma ponta em cada mão, deixando-o estendido firme. Levantou os olhos e viu os delas, já mais assustados. Foi rápido em sua direção, deu uma volta com o fio no seu pescoço e puxou-lhe para cima, tirando-a praticamente toda da cama, só as pernas penduradas. O roupão já quase todo aberto, os seios roçando-lhe o peito, os lábios em frente aos seus. Seu corpo de homem envelhecido se dividindo entre ódio e prazer. Uma perna depilada levantou-se e tocou-lhe, leve e sem querer, a virilha. A vontade fraquejou-lhe. Afrouxou o fio. Deixou a moça retornar à cama. Voltou à janela, olhou para baixo. Os dois homens uniformizados já junto à porta, forçando a entrada. Olhou para ela, olhou para os homens, para o vermelho e azul brilhando nas paredes. Suspirou abatido. Não podia mais fazer aquilo. Mas não podia, também, voltar. Não suportaria. Amarrou o cordão no parapeito da janela, sentou na beirada e enrolou o fio ao redor do pescoço. Não voltaria por nada. Nem por ela. Ela o olhava com um sorriso macabro. Aquele sorriso macabro de olhos quentes e doces. Passou os dedos de leve no pescoço meio machucado, desceu o dedo seguindo o decote do roupão já aberto, com um ar provocante. Ela levantou o dedo, apontou para corda no pescoço e fez sinal que não. Apontou para o chão para que ele descesse. Ele o fez, tirou o cordão do redor do pescoço, segurando-o nas mãos sem saber o que fazer. Quando a porta se abriu sob o peso da botina, a moça encolheu-se contra a cabeceira da cama, deixando escapar um assustado "Jorge, não!" dos lábios maliciosos. Os dois homens apontaram as armas. Acabaria, afinal, retornando para lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Azul e vermelho, azul e vermelho, azul e vermelho. A paisagem já noturna se iluminava colorida enquanto ele, no banco traseiro, as mãos às costas, relembrava. Saindo pela porta do quarto, a moça fechando o roupão, sendo auxiliada pelo outro policial de cacetete rijo pendurado à cintura. Por baixo do roupão imaginava o corpo arrepiado, os bicos dos seios em pé, as lembranças de anos atrás antes que tudo aquilo tivesse acontecido pela primeira vez. Nos olhos, aquele mesmo olhar excitante. Através do vidro do carro em movimento, olhava a paisagem com um só sentimento. Saudade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-8136950530021833007?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/12/retorno-em-vermelho-e-azul.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-8598784551100610848</guid><pubDate>Thu, 26 Nov 2009 00:18:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-11-25T22:18:45.118-02:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>O outro</title><description>Deixe que eu fale, que esse peito que me deste é por demais pequeno é já lhe falta espaço. Deixe que fale. Ao menos assim, quem sabe, terei certeza da minha própria e duvidosa existência. Sim, eu sei. Eu existo. Ao menos é o que parece. Mas se existo, existo apenas no outro. Ou pelo outro, quem sabe? Existo como uma imagem construída por mim, das imagens que imagino que outros façam de mim. E da imagem que eu, por minha vez, faço destes mesmos outros que pusestes aqui, comparados a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por meio do outro que existo. Ou que me sei como eu. Se sou magro demais é porque o outro não o é. Se uso barba é porque o outro não a usa. Se me chamas pelo meu nome, é porque não chamas o outro. Se sou eu mesmo é, simplesmente, porque o outro não o é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou senão no outro.&lt;br /&gt;Sem o outro, talvez eu nem mesmo exista.&lt;br /&gt;Talvez apenas... esteja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me peguei a pensar de quando não havia outro. Mas se houve não é verdade. Eu nunca fui sem que outro antes não tivesse sido. Se a serpente se arrasta é porque eu não o faço. Se o leão ruge é, de novo, simplesmente, porque eu não o faço. Se a árvore se ergue majestosa é, sim, mais uma vez, porque eu não o faço. Sempre que fui, foi no outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas houve um tempo, não? Houve um tempo, antes, bem antes de mim, que não houve outro. Um tempo imemorial em que o outro simplesmente não existia. Tu lembras, não lembra? Só tu poderia lembrar deste tempo de que falo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia apenas um. Recorda. Um e nada mais. Mas não somos senão no outro, não é? Tu naquele tempo, não havia outro. Tu sem o outro... foi por isso, não foi? Não é por isso que estou eu aqui agora, erguido pelo outro, por ti, para ser, justamente, o outro. O teu outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu que talvez, sem mim, sem o outro, não existia. Estavas, apenas. E nada mais. Um potencial eterno e nulo. Um tudo preso num nada. A potência inexistente sem uma impotência que existisse. Foi por isso, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criastes a outra para que eu existisse de fato. Mas foi só quando criastes a mim que, tu, passou, por tua vez, a existir de fato. Criastes um outro para ti, para que tu pudeste de fato existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se tu existe, não te zangues, é por este outro que o sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, certamente. Não te zangues que pode castigar até os rasos limites meus. Mas não te desfaças de mim. Que te desfarias de ti. Sim, me vou. Tomarei a que me destes. Para que eu também exista, distante de ti. Vou-me com ela, se é assim que preferes. Tens, no fundo, razão. Novamente e como sempre tivestes. É preciso que me vá. Porque para que este lugar exista, é preciso, bem sabes, que haja outro. Que aqui é, só o é pelo outro. Como eu, como tu, como este fruto que só está inteiro porque este, vê — nhac — não está mais. Se és completo, é porque não o sou. Se és um, é porque sou dois. E assim há de ser. Vou-me. Há um lugar que tenho  de visitar. Qual? Outro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-8598784551100610848?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/11/o-outro.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-4430683909205093626</guid><pubDate>Fri, 13 Nov 2009 20:12:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-11-13T18:12:53.554-02:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Verso</category><title>Verso no ventre nu</title><description>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Verso no ventre nu&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;imprime&lt;br /&gt;no meu ventre&lt;br /&gt;o teu&lt;br /&gt;verso&lt;br /&gt;nu&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-4430683909205093626?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/11/verso-no-ventre-nu.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-5051909837422360644</guid><pubDate>Thu, 05 Nov 2009 23:33:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-11-05T21:35:35.637-02:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>A Gárgula de Saint Romain</title><description>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Arquitetura Gótica do Interior da França - Gárgulas e Quimeras&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Posfácio (ou, originalmente, Anexo III)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O presente posfácio é um adendo que me permiti acrescentar a este livro. Seria o Anexo III de minha monografia. Porém, junto a meu orientador, achei por bem suprimir este conteúdo do trabalho original, uma fez que carecia de bases científicas ou históricas comprovadas e tratava mais de uma interessante curiosidade do que, de fato, do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;corpus &lt;/span&gt;tratado por meu trabalho de conclusão de curso. Mas como uma publicação como esta, que agora tem às mãos o leitor, permite mais ao autor do que uma monografia acadêmica, deixo como um relato dos fatos que me chegaram, ao acaso, enquanto pesquisava as gárgulas e quimeras da arquitetura do interior da França.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde que me detive, nos primeiros semestres do curso de arquitetura, sobre a estética gótica da arquitetura francesa, especialmente sobre um impressionante &lt;span style="font-style: italic;"&gt;slide &lt;/span&gt;da Catedral de Notre-Dame, fui arrebatado por aquela riqueza de detalhes e pelo mistério daquelas construções pontiagudas envoltas por ainda mais misteriosas esculturas. Durante todo o curso, guardei uma especial atenção àquelas construções e, muito tempo antes do esperado, já havia definido que o tema de minha monografia seria este. Com auxílio de meu orientador, reduzi meu foco com especial atenção às esculturas presentes na arquitetura gótica. Com auxílio do mesmo orientador, defini meu campo de atuação — um pouco a contragosto — excluindo o objeto mais óbvio para análise: a tão admirada Notre-Dame. Ao contrário, defini, pelo bem do projeto e buscando um pouco de ineditismo, estudar as esculturas das contruções góticas no interior da França para, posteriormente, fazer uma comparação estilística com aquelas presentes na capital. Terminadas as aulas regulares, então, com a ajuda de meus tios que moram próximo de Paris e bancado por meus pais, mudei por cinco meses para a França, que já havia visitado uma vez em férias, na casa desses mesmos tios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro mês, não pude evitar passar na capital francesa e nas suas ruas e deslumbrantes construções. Logo, porém, decidi rumar para o interior e iniciar minhas pesquisas&lt;span style="font-style: italic;"&gt; in loco&lt;/span&gt;. Conversando com conhecidos e pesquisando na internet, acabei chegando a um interessante relato, uma pequena lenda francesa que tocava no assunto das gárgulas muito por acaso. A tal lenda relata a história de Saint Romain, bispo de Rouen durante o reinado do rei merovíngio Clotaire II. Num breve resumo, a lenda relata como o bispo derrotara uma gárgula de Paris (na verdade um dragão que vivia no rio Sena, chamado Gargouille). Nas minhas conversas, ouvi da Igreja de Saint Romain, nos arredores de Rouen, que teria um profusão de gárgulas e quimeras que poderiam ser de valor para o meu estudo. Estimulado por um provável corpus de análise para o meu trabalho e pela peculiar lenda da gárgula, resolvi dirigir-me a Rouen para conhecer a tal igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi difícil encontrar o templo. Ficava um pouco retirado da cidade, mas foi fácil me informar e chegar até à bela construção em homenagem ao bispo matador de monstros. De fato, das trabalhadas cornijas e dos beirais, se projetavam rebuscadas gárgulas com ricos adornos, variando de formas animalescas, humanóides e monstruosas, guardando os pontiagudos telhados apontados para o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Circundei a trabalhada construção com curiosidade e sem pressa, observando os detalhes de uma rica e belíssima escola arquitetônica. Fiz algumas fotos despretensiosas, mais para lembrança do que para análise e me deixei primeiramente apreciar a construção sem nenhuma ótica acadêmica ou analítica. Apenas de deleite. Aqui, a variedade de motivos das gárgulas e das quimeras era mais abundante do que nas construções da capital francesa. Além das características figuras das gárgulas de aspectos demoníacos ou animalescos, haviam algumas imagens mais humanóides. Nem dei por mim, estava observando com certo fascínio uma gárgula em formato de padre ou monge, dependurada do beiral com a cabeça raspada, olhar rapino e boca aberta, por onde certamente corria a águas das calhas do telhado em caso de chuva. A gárgula era cercada por duas quimeras, essas sim, mais ao estilo clássico-monstruoso que eu tanto admirava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um movimento próximo me capturou a atenção. Não muito distante, um sacerdote com um ancinho se aproximava com ar jovial. Cumprimentou-me com cordialidade e, percebendo o meu sotaque, acredito, perguntou se eu era português. Disse que era um estudante brasileiro de arquitetura, ao que ele sorriu com entusiasmo. Disse-me que não sabia falar português mas que havia morado muitos anos em uma comunidade espanhola e sabia falar um espanhol razoável, segundo ele. Eu disse que não seria necessário e ele, gentilmente, passou a falar um francês mais pausado. Perguntou-me se havia me interessado pelas gárgulas. Confirmei e perguntei-lhe, para certificar minhas suspeitas, se a imagem do monge na gárgula seria Saint Romain. Ele negou, sorridente. Disse que dentro da igreja sim, eu poderia ver uma imagem do santo bispo. Aquela gárgula era uma homenagem a um dos primeiros sacerdotes da igreja e um entusiasta do estilo arquitetônico da época. Irmão Fontaine, que buscava, com as gárgulas, trazer um pouco da mítica da grande Notre-Dame para o interior. Há muitos anos, o clero local achou por justiça erguer uma gárgula com a imagem do padre, em homenagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendo o pároco como guia, percorri todo o exterior da igreja, tirando fotos, tomando notas breves, observando detalhes e ouvindo histórias da vida nos arredores da Igreja de Saint Romain. Sobre a lenda do duelo entre o bispo que dava nome à igreja e a gárgula do Sena, o pároco confirmou que de fato Saint Roman havia acabado com muitos monstros da comunidade parisiense da época, mas que a gárgula — serpente do Sena, ele me corrigiu — era uma rica metáfora, para sempre lembrada como lição de nossos monstros internos, representados nas paredes dos templos góticos. Prevendo o fim da tarde, despedi-me do simpático padre e retornei a Rouen para o meu albergue, com a promessa de que voltaria outro dia para continuar as conversas e pesquisas. No chão, o sol poente projetava longilíneas sombras de gárgulas monstruosas ladeando a figura do Irmão Fontaine.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na biblioteca local, encontrei mais algumas informações sobre a história da igreja e de Saint Romain. Algumas informações sobre a construção do templo em Rouen, sobre fundos de arrecadação para ornamentar o prédio, algumas pesquisas superficiais sobre a arquitetura na qual a igreja se inspirava — que muito me interessaram — e uma curiosa notícia que destoava das demais. Um garoto local, que servia de pajem ou algo que o valha nos serviços do templo, teria sido, ao menos a suspeita tinha sido levantada, vítima de abusos por parte de um padre local. Lendo a reportagem com mais calma, surpreendi-me em ver que o padre era justamente o irmão Thierry Fontaine, homenageado na fachada da igreja. A acusação havia gerado comoção pública na comunidade próxima à igreja. Os principais membros do clero local tomaram parte para esclarecer o ocorrido e, ao que parece, o garoto teria sido vítima apenas de um bom safanão do padre, por ficar brincando entre as gárgulas no beiral. A honra do padre tinha se mantido imaculada, tanto que, após o ocorrido e das desculpas dos pais da criança, de pronto aceitas pela congregação, o irmão Fontaine teria sido indicado para ocupar um posto na própria Notre-Dame, cuidando do conjunto arquitetônico do local. E na igreja nos arredores de Rouen, em sua homenagem, fora projetada a sua gárgula, para proteger a comunidade e, brincaram as pessoas na época, para espantar garotos levados do meio das estátuas, de onde poderiam cair ou danificar os ornamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi retornar a igreja para continuar o estudo das gárgulas e observar as variantes arquitetônicas de sua concepção, já pensando em perguntar ao pároco que havia me recebido no dia anterior sobre a história que eu havia encontrado na biblioteca. A questão que mais me intrigou, no entanto, foi que pesquisando o acervo sobre a Notre-Dame, especialmente nas questões de arquitetura, em nenhum momento foi encontrado o nome do padre Thierry Fontaine.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, segui para os arredores da cidade e encontrei o mesmo sacerdote, que me recebeu com um "buenos dias" rapidamente respondido com um "bon jour" de minha parte. Admirei os detalhes arquitetônicos mais de perto desta vez e consegui consentimento de averiguar as gárgulas e quimeras com mais cuidado. Acompanhado do meu guia subi ao alto da contrução, próximo aos telhados, pontiagudos como chifres, e entreti-me com as detalhadas esculturas. Algumas gastas pelo tempo, mas em geral todas muito bem conservadas, ainda que, faça-se justiça, por mais bem executadas que fossem não poderiam ser comparadas estilisticamente à arquitetura da grande catedral de Paris. Fotografei algumas das estátuas e fiz alguns esboços no papel enquanto o padre, que já se cansara de me acompanhar, fazia suas tarefas ali próximo, livrando o campanário de alguma sujeira ou ninho de ave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me inclinava, apoiado em uma das quimeras, para conseguir uma foto em close do rosto da gárgula do irmão Fontaine, que certamente seria destaque do trabalho, vista a rica história que trazia, meu pé vacilou sobre a cornija e me vi precipitado do alto da igreja. Teria sido um trágico fim, espatifar-me no chão sob a sombra daquelas gárgulas me olhando, não fossem as garras da quimera em que eu me apoiava. Consegui agarrar-me ao pé do monstro e, ainda que assustado e bastante esfolado contra a pedra, evitei o pior. A minha câmera estilhaçou-se contra o chão e os meus papéis voaram ao redor da igreja. O padre, que limpava o sino, ao ouvir meu grito saiu em disparada ao meu socorro, deixando que o campanário soasse algumas badaladas não previstas e retumbantes. O padre, já não tinha o ar jovial de antes. Quando olhou por cima da amurada estava branco feito gesso, esperando me ver estatelado aos pés do prédio. Ao ver-me dependurado, mas firme, aos pés da quimera, ao lado da gárgula de Fontaine, deu um suspiro aliviado. E disse, passando os pés por sobre a amurada para poder me içar de volta à segurança:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Parece que o irmão Fontaine está mesmo olhando por você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi justamente sobre a gárgula do padre que ele caminhou para me alcançar. Foi quando ele se abaixou, agarrado com uma mão ao rosto de pedra da gárgula e estendendo a outra para mim, que ouvi o estalo. Durou um segundo entre o som e o esfarelar da base da gárgula. Pouco mais que isso para ver o rosto do irmão Fontaine passar por mim com o olhar de pedra, seguido pelo rosto do padre que viera me salvar, com olhar de pânico. Os dois passaram rente a mim, descendo rápido e ainda hoje sinto não ter podido fazer nada. Mas pendurado às garras da quimera, bastava que eu estendesse a mão para ter o mesmo fim do meu guia. Lá embaixo, sob o olhar das quimeras e das gárgulas que restaram, estava uma gárgula partida e um padre morto. Deu com a cabeça contra a cabeça de pedra da gárgula. Pior para a sua, que era de osso e agora esvaziava-se de sangue manchando a grama. Já sem forças para içar-me, fiquei lá pendurado por mais vários minutos vendo a vida do alegre padre ir-se rubra pelo crânio quebrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hora julguei que fosse pelo esforço, pelo susto ou pela vertigem, mas eu jurava que via dois crânios abertos ao chão. Alguns ossos expostos e muito sangue. Lembro de ter pensado que a gárgula teria atingido alguém. Assustado como estava, só lembro de ter sido içado, um pouco mais tarde, por um par de franceses jovens. Eles eram irmãos e haviam vindo instigados pelas badaladas fora de hora, que dera sem querer o padre ao vir me salvar. Ao verem a cena, correram ao meu resgate enquanto uma garota que estava com eles, que imagino sua irmã, foi chamar mais alguém. As pessoas já deveriam estar próximas porque quando cheguei ao lado de fora da igreja, amparado pelos rapazes que me tiraram das garras da quimera, já eram vários os que estavam ali, mais atrás chegando até alguma autoridade local. Só me aproximando do local da queda percebi que havia mais motivo de comoção. Haviam de fato dois crânios e vários osso em meio ao sangue. Mas muitos ossos e um dos crânios estavam, aparentemente há muito, descarnados. Era possível ver, de dentro da gárgula, ainda incrustado no interior da pedra, uma ossada de pernas recolhidas, braços cruzado junto ao peito protejendo um livro de couro velho com tranca, como os antigos diários, e um crânio, agora com a mandíbula partida e caída ao chão. A parte intacta da caveira ainda recoberta pela cabeça de pedra que fora a gárgula do irmão Fontaine. O sangue, esse parecia todo do já não tão jovial padre que me recebera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não soube muito mais sobre o ocorrido, uma vez que fui levado ao hospital e não pude acompanhar o desenrolar da história. Soube por meio de um jornal local, que li já na casa dos meus tios, que a ossada dentro da gárgula, era, segundo o DNA, do próprio Thierry Fontaine e o livro carcomido de capa de couro era seu diário pessoal, que havia sido enviado para análise. Nunca soube o que continha o tal diário. Disseram os meus tios, que corriam boatos em Rouen que o clero local havia reclamado o mesmo, visto que pertenciam, de certa forma, à congregação. Como a ossada do padre Fontaine foi parar dentro de sua gárgula, ninguém sabia, mas o delegado do distrito responsável já tinha iniciado uma investigação, mesmo sofrendo ameças de excomunhão por parte do clero local.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até o fim deste trabalho, não recebi notícias do resultado dos inquéritos. Presteis os devidos depoimentos, consegui, obviamente completar minha monografia, e agora editá-la no formato deste livro que tem às mãos o leitor. Este posfácio traz estas palavras que não caberiam em um discurso acadêmico, mas que me pareceram importantes vir à tona. Termino este livro então, com esta breve narrativa, este Anexo III que, acredito, serve para reforçar a aura de mistério e mítica que envolve estes ícones arquitetônicos de uma época, estes seres de pedra e mito. Termino aqui um estudo. Começa aqui, parece, uma história.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-5051909837422360644?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/11/gargula-de-saint-romain.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-5791977398400880300</guid><pubDate>Sat, 31 Oct 2009 00:05:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-10-30T22:06:22.264-02:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Verso</category><title>Maria Fumaça</title><description>&lt;div style="margin-left: 200px;"&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Fumaça&lt;/b&gt;&lt;/u&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;maria fumaça&lt;br /&gt;olho de brasa&lt;br /&gt;boca de tição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;maria fumaça&lt;br /&gt;da cor do carvão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;maria fumaça&lt;br /&gt;boca de fornalha&lt;br /&gt;corpo de carvão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;maria fumaça&lt;br /&gt;maria trovão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;troveja maria&lt;br /&gt;troveja&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;maria fumaça&lt;br /&gt;(maria)&lt;br /&gt;olho de brasa&lt;br /&gt;(maria)&lt;br /&gt;canto de névoa&lt;br /&gt;(maria)&lt;br /&gt;maria fumaça&lt;br /&gt;(mania)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;maria fumaça&lt;br /&gt;cheia de graça&lt;br /&gt;louca emotiva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;locomotiva&lt;br /&gt;maria pirraça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;apita maria&lt;br /&gt;apita&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aperta maria&lt;br /&gt;aperta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cospe fumaça&lt;br /&gt;maria fumaça&lt;br /&gt;anel de fumaça&lt;br /&gt;maria da graça&lt;br /&gt;maria fumaça&lt;br /&gt;ameaça, desgraça&lt;br /&gt;coração destroça&lt;br /&gt;fumaça e troça&lt;br /&gt;maria fumaça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;queima quem brinca&lt;br /&gt;com fogo, maria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;anel de madeira&lt;br /&gt;(anel de fumaça)&lt;br /&gt;em cada orelha&lt;br /&gt;(acima da telha)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;maria fumaça&lt;br /&gt;maria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(fumaça!)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-5791977398400880300?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/10/maria-fumaca.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>7</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-5931551954003266623</guid><pubDate>Thu, 22 Oct 2009 15:56:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-11-02T19:13:32.373-02:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Amor Pornô</title><description>Não fazia nem uma hora aquelas portas velhas e largas estavam expelindo os tipos habituais que, pouco antes, lhe habitavam as entranhas. Saíam aos borbotões, se distanciando rápido, se espargindo pelos arredores, ejaculados porta a fora. Alguns mais elétricos, outros mais leves, todos distantes de si e do mundo. Pequenas gotas brancas de ilusão. Velhos solitários com nada além de suspensórios e lembranças como companhia, tipos esquisitões engordurados, gordos demais, magros demais, sozinhos demais. Grupos de garotos espinhentos no cio, uivando de excitação verde não colhida. Umas poucas putas, travestis ou oportunistas esperançosos. Todos com a solidão viscosa a escorrer-lhes pelos rostos, pelos peitos a dentro, enquanto a palavra “privê” piscava em curto no letreiro iluminado do Cine L’amour.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro bordô subia a ladeira, agora menos movimentada, passando pelas paredes pichadas com sua carenagem de pintura queimada de sol. O interior, que havia sido luxuoso há uns dez anos, abrigava o homem de blazer apertado, perfume de pós-barba e careca mal coberta pelos cabelos molhados. O veículo parou em frente ao cinema e o potente motor silenciou. O homem conferiu as costeletas bem aparadas no retrovisor, saiu do carro, destrancou a porta da frente do velho prédio, e entrou no Cine L’amour.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá dentro, o funcionário ainda uniformizado arranjava os produtos na bomboniére, separando as balas, as camisinhas, os chocolates e refrigerantes. Deixava o hall pronto para a próxima sessão, que só viria algumas horas mais tarde. A mocinha recém contratada já terminara de limpar a sala de cinema — mais rápido que a funcionária anterior, faça-se justiça — e já tinha ido embora. Só mais tarde retornaria. O painel interno trazia elencados cartazes de clássicos que haviam desfilado nas telas do L’amour. Debbie does Dallas, com Bambi no característico chapéu de cowboy e um decote levemente insinuante sobre uma estrela azul; a gulosa Linda Lovelace destacando-se boquiaberta sobre o fundo amarelo vibrante do cartaz; Miss Jones em todo o seu esplendor tipográfico preto e vermelho; e um elenco de estrelas de penteados ultrapassados e beleza e lascívia eternizadas em vinte e quatro quadros por segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem recém chegado cumprimentou o rapazote que terminava seu trabalho, chamando-o pelo nome que trazia no crachá preso à lapela. Gil, estava lá escrito. E Gil respondeu ao patrão com a mesma simpatia, e talvez mais uma inflexão quase imperceptível, mas que sempre há na voz quando esta parte de um jovem funcionário ao patrão. Patrão conferiu, muito por cima, o trabalho e parabenizou o rapaz com um tapinha nas costas. O rapaz disse que estava quase terminando e que já ia sair para sua folga. Voltaria depois para a outra sessão. Graça, ele lembrou, já tinha saído. Mas já terminara todo o serviço. “Rápida essa mocinha, não? Acho que foi uma boa contratação”. Foi o que disse Patrão, tanto para si quanto para o funcionário, que sorriu afirmativamente em retorno. “Então tudo certo. Se todo mundo já foi, pode ir para a sua folga. Eu fico aqui até vocês voltarem. Vai aproveitar a vida que depois que você ficar velho não vai dar mais”, Patrão disse rindo. “Tudo bem”, o jovem respondeu, “mas de qualquer jeito, o Seu Genaro ainda está aí, mesmo” e foi saindo em direção à porta. “Ainda?”. “É, deve estar na sala de projeção”, disse o rapaz sem ligar para o tom de surpresa na voz patronal. Nem ouviu o homem no terno apertado deixar escapar por entre os dentes um “outra vez?” E já estava do lado de fora quando, balançando a cabeça, Patrão falou em voz baixa “velho safado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O suculento lábio inferior escondia o seu vermelho por trás do branco dos incisivos superiores. Os olhos sombreados, levemente fechados, deixavam escapar por entre os cílios longos o verde das íris. Uma gota de suor escorria pelo pescoço esguio e feminino, até chegar a um peito arfante, pingado de suor que descia pelos seios nus, fartos, balançando ritmados pelo movimento imposto pelo rapaz fora de cena. A câmera abre revelando o casal. Ela reclinada para frente com os braços apoiados na penteadeira, rosto refletido no espelho que refletia também o rapaz, de pé, atrás dela. Os cabelos colados no suor das costas, cintura curvada para trás, nádegas empinadas, as pernas bem lapidadas, abertas. A cena era toda dela. Dois corpos engalfinhados num espetáculo particular para o deleite de um velho sentado numa cadeira de madeira ao lado do maquinário ultrapassado. Os cabelos grisalhos e o olhar vago repetiam a figura do crachá pendurado no bolso do uniforme bordado “Cine L’amour”. De dentro da penumbra da sala de projeção só nascia o som companheiro da película passando pelos rolos do projetor antigo, naquele gemido baixo tão conhecido e confidente. O auditório visto além da janela de projeção permanecia vazio e limpo, no escuro. A única luz provinha do telão iluminado pelos corpos nus gigantescos e por um lampejo rememorado na mente, como uma reprise por demais repetida. O áudio do filme vinha lá de fora, junto com a pouca luz do auditório, trazendo gemidos gulosos, pedidos libidinosos e memórias insaciáveis para a sala de projeção escura. A porta se abriu de repente, mas sem violência. O homem de terno apertado entrou e acendeu as luzes balançando a cabeça de um lado para o outro, mais para si do que para o velho, que rapidamente desligou o projetor interrompendo um gemido e uma cara de dor mal interpretada na grande tela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Outra vez, seu Genaro?" Foi com um suspiro que o patrão falou. E o velho soube na hora que aquele suspiro significava mais que a própria frase. Baixou a cabeça envergonhado, triste e saudoso. De um tempo que foi e de um tempo que estava para ir, para sempre. Patrão puxou uma cadeira, colocou-a à frente do mais velho funcionário e sentou-se. Os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos unidas em meditação, a cabeça baixa revelando para o velho uma careca ainda mais evidente desta posição. Inspirou o ar como se fosse pesado e deixou que lhe saísse pelas narinas com o mesmo peso, como se abandonasse uma carga por demais carregada. Levantou o tronco e falou para o velho, que mantinha o olhar baixo, fitando as pontas desgastadas dos próprios sapatos de bicos arredondados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Seu Genaro, há quanto tempo o senhor trabalha aqui? Sempre foi um funcionário tão exemplar! Discreto, sempre no horário. E eu não retribuí direitinho tudo isso? Sempre paguei o senhor em dia, sempre tratei com respeito, volta e meia até lhe dava um bônus, não é? E eu nunca liguei de o senhor, ou qualquer outro, vez ou outra assistir a um filme por aqui, desde que deixasse tudo limpinho, não incomodasse ninguém, que fosse sempre discreto. Mas já não está dando mais, seu Genaro! Esses últimos anos está demais. É todo dia, homem de deus! Nem deve ser saudável pra um homem da sua idade. Eu até entendo que um homem vez por outra precise relaxar, se divertir, se dar o direito. Às vezes a gente tá meio sozinho, eu sei como é isso. Mas já está afetando o trabalho! Eu já avisei o senhor outras vezes, mas agora não posso mais ficar fazendo de conta que não estou vendo. Eu vou acertar todas as contas certinho com o senhor, vou até lhe adiantar o salário cheio do mês, mas vou ter que dispensar o senhor, seu Genaro. Não tem outro jeito."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho manteve os olhos no chão durante todo o discurso. Não sabia o que dizer. Apenas largou, por sua vez, um suspiro longo, levantou a cabeça e olhou para o patrão com os olhos baços. "Olhe, se quiser lhe faço uma carta de recomendação", Patrão disse antes que se pronunciasse. "Obrigado, patrão". Foi tudo o que disse o velho. Patrão levantou-se da cadeira, apoiou a mão no ombro do funcionário e saiu, fechando a porta atrás de si. O velho ficou um tempo olhando pela janela de projeção a tela branca, imaginando na sua mente as cenas que vira ali tantas vezes. Os corpos, os gozos, os sexos. A saudade. Tirou o crachá do uniforme e o colocou ao lado do projetor. Tocou o corpo metálico do equipamento percorrendo-o com o dedo de unha comprida, como se fosse corpo de amante. Abriu a porta e deixou a sala apagando a luz. A porta se fechou devagar enquanto o velho Genaro descia os degraus, passando pelas cadeiras forradas de vinil, pela grande tela branca, pela porta dupla, pela última vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento lá fora trazia um cheiro de chuva que ainda não chegou. O dia estava cinza mas ainda seco. Genaro seguiu as paredes pichadas, as portas metálicas das garagens, as bancas dos ambulantes. Deu à rua principal com a cabeça baixa, parando na esquina esperando o sinal abrir. Olhou por sobre o ombro e viu, uma quadra abaixo, o Cine L'amour lhe piscando um adeus privê. O homenzinho verde apareceu e os carros pararam. Genaro se perdia entre as faixas brancas pintadas no asfalto, o cheiro de escapamento e o ronco dos motores. Caminhava até o ponto de ônibus mesmo sabendo que o seu já tinha passado e o próximo demoraria ainda uns quarenta minutos. Sentou-se no banco velho que o recebeu, como os velhos, com um rangido, que suas articulações prontamente responderam em reconhecimento. Assistiu os carros passarem, as pessoas passarem, a vida passar, como se fosse um filme sem graça, sem gozo. Barulhos demais, sussurros de menos. Saudades demais. Depois de quinze minutos viu, no outro lado da rua, a menina recém contratada do L'amour chegar. Graça, era o nome dela, parece. Que nada tinha a ver com a moça, pensou o velho Genaro — Seu Genaro — ela dizia. Ele não dizia nada, que graça não via na moça. Ela dobrou a esquina e desceu a rua pichada. Genaro via as pernas finas, as ancas magras balançarem forçadamente de uma lado para o outro. Trabalhadora, dizia Patrão. Gil também confirmava, dizia que seu Genaro é que estava ficando amargo. Genaro estava, é verdade, mas mesmo assim não simpatizava com a moça que trabalhava ligeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Genaro conhecia o L'amour. De quando chegou, anos antes. Os negócios iam bem, Patrão tinha comprado um novo carro, tinha mais cabelo e um terno menos apertado. As costeletas, já as tinha bem aparadas àquela época. Genaro cuidava de tudo. Limpeza e projeção. Mas Patrão decidiu pôr alguém pra ajudar Genaro. "Seu Genaro, o senhor fique apenas com a projeção. Que eu vou arrumar alguém para lhe ajudar nos trabalhos mais pesados". Patrão arrumou. Deixou o velho Genaro mais folgado, cuidando dos filmes e das sessões apenas. E já contratou logo mais gente. Tinha um rapaz bem novo, no lugar de Gil. Genaro não lembrava mais o nome dele, lembrava que ele um dia não apareceu mais, simplesmente. Foi daí que Patrão contratou Gil. E tinha a Dona Cida. Maria Aparecida, o nome dela. Ela também, velha em idade mas não tão velha quanto Genaro. Devia ter uns quinze, dez anos menos, provavelmente. Genaro nunca havia perguntado. Uma pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus chegou ruidoso, despertando o velho com um susto. Com esforço subiu os altos degraus e embarcou, enquanto a luz dos postes começava a acender prematuramente, prevendo a noite que se adensava. Sentou num acento vago no fundo do ônibus. O mesmo de sempre, velho conhecido, que fazia o caminho aos bairros distantes que abrigavam velhos sozinhos em quitinetes de azulejos dos anos sessenta. Barulhento, expelia baforadas negras como dum cachimbo sujo enquanto vencia os buracos da cidade resmungando como um velho chato e rabugento. Lá dentro, nos últimos bancos, outro velho, menos rabugento, se perdia entre os demais passageiros. Nenhum tão velho quanto ele. Talvez aquela senhora dormindo, de cabelos brancos e rugas nordestinas nas faces, com a cabeça quase tocando a janela e uma roupa florida combinando com a bolsa de crochê. Será que iria ela também para uma quitinete de azulejos velhos? Genaro não se importava. Já mal reparava na mulher. Os primeiros pingos começavam a tocar de leve as janelas do ônibus que, embaçadas, lembravam uma tela branca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tela branca que recebia cenas obscenas e belas, ejaculadas de um projetor que gemia gracioso para uma platéia desconhecida. A sala, nunca muito cheia, como convinha. Bastante espaço para que os clientes aproveitassem o filme preservando suas identidades e seus pudores sem um cotovelo desconhecido ao lado ou o cruzar com um rosto não tão desconhecido. Raros casais sentados nos cantos com mãos ligeiras. Velhos sozinhos rememorando ou fantasiando. Garotos em hordas que não deveriam estar ali. Solitários e oportunistas na esperança de encontrar um par sob a luz dos pares - ou trios, ou grupos - que copulavam na tela iluminada. Lá embaixo, na porta ao lado da primeira fileira, vazia como sempre, Dona Cida aguardava com a vassoura, os panos e as luvas o fim da sessão, olhando a tela, disfarçadamente a plateia, ou o rastro de luz que entrava pela janelinha de projeção, atrás de todos, até tocar o projetor lá dentro, bem lá no fundo, assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chuva aumentou e Genaro despertou de suas lembranças. Só então percebeu que a velha tinha acordado e ido embora. Seu olhar de velho despedido permanecia cravado na janela onde, há pouco, uma cabeça esbranquiçada e sonolenta quase batia. Aguardou mais uns minutos e saltou no mesmo ponto onde saltava todos os dias ao cair da noite. A cobertura de zinco fazendo barulho sob a chuva. Abriu o guarda-chuva e caminhou uma quadra até a entrada de sua casa. Subiu a escadinha externa anexa ao prédio, abriu a porta de sua quitinete e entrou, deixando do lado de fora um dia choroso que chegava ao fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apartamento escuro lembrando uma sala de projeção vazia, onde poderiam estar sentados dois velhos uniformizados olhando uma tela branca onde uma loira de maquiagem borrada era penetrada por trás por um rapaz tatuado enquanto aplicava uma sessão de sexo oral a outro a sua frente, num sofá de couro ao som de suspiros, gemidos e um ou outro tapa de leve nas nádegas arredondadas. Assistindo aos esforços da moça, estariam os dois velhos lado a lado, em silêncio, apenas olhando a tela. Nenhum deles prestaria  muita atenção ao filme. Os olhares perdidos nas cenas provocantes apenas disfarçariam os demais sentidos, conectados naquela presença eletrizante ao lado. Como uma fonte de calor ou uma estática que se percebe sem mesmo se ver. Disfarçando o indisfarçável. E nessa falsidade dividida, cientemente falsa e dividida, deixariam-se estar na prazerosa companhia um do outro. Até que a tira de filme chegasse ao fim e a tela se cobrisse toda de um branco viscoso. Naquele o tempo o prazer se alcançava com apenas trinta e cinco milímetros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao acender do abajur, nada passava de uma quitinete escura de azulejos antigos. Genaro foi ao banheiro, retirou as calças de barras molhadas, ligou o chuveiro quente e deixou que a água lhe lavasse o resto de dia que escondia-se entre as rugas de seu corpo. Caminhou sua flacidez nua até a cama no quarto-sala-cozinha, vestiu o pijama e os chinelos apeluciados, num raro momento de prazer verdadeiro. No fogão requentou a sopa de ontem e foi tomar sua refeição no sofá em frente ao aparelho de tevê de poucos canais. A pequena tela brilhante lhe parecia débil quando comparada à enorme tela do L'amour, que preenchia de vida alguns corpos carentes, dela ou de algo mais. Esticou o cotovelo para o lado num movimento quase automático, esperando que esbarrasse em outro cotovelo. Esbarrou, ao contrário, numa ausência há um bom tempo presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma ausência que o acompanhava desde a última vez que teve alguém ao seu lado na sala escura do Cine L'amour. Quando todos iam-se embora e ela, Aparecida do nada, surgia a limpar as poltronas de vinil e os corredores de sal, pipocas e sujidades mais. Ele lhe sorria com os lábios murchos dele. Ela lhe sorria com os dentes falsos dela. E eram os sorrisos mais firmes e sinceros que aquela tela haveria de presenciar. Ele colocava o filme a passar de novo, com a desculpa de entreter o trabalho — e outro tipo de filme não havia no L'amour — e ela consentia com indisfarçado contentamento. Ele ficava ao seu lado, lhe fazendo companhia. Pouco conversavam. Conversar mal era preciso para quem já tinha conversado uma vida toda. Quando ela terminava, sentavam lado a lado na sala pouco iluminada até que o filme e os gemidos acabassem e que a tela orgásmica cobrisse-se novamente de branco. Ele então guardava os rolos, desligava o projetor e iam embora até despedirem-se no ponto de ônibus. Aos poucos a estática entre eles ia diminuindo e, instintivamente, aproximavam-se mais um pouco até que aquela vibração invisível ou aquele calor de corpo velho voltasse a se estabelecer entre eles. Um dia os cotovelos enrugados encontraram-se. Os olhares  então deixaram a tela onde uma ruiva muito nova masturbava um homem de bronzeado artificial que devia ser bem mais atraente quando mais jovem. Cida, encabulada, mais pelo toque dos cotovelos do que pelo filme. Genaro lhe estendeu a mão, que ela aceitou. Ficaram de mãos dadas assistindo a ruiva receber aos seios o membro viril do homem bronzeado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No televisor não havia ruivas nuas ou bronzeados depilados. Apenas uma apresentadora de telejornal comportadamente vestida. Quanto a Genaro, ao seu lado havia apenas aquela ausência tão presente nos últimos anos. Levou o prato fundo à pia e decidiu não lavá-lo, mesmo que fosse pouco o trabalho. Meteu-se embaixo das cobertas e apagou as luzes. Sentado ainda na cama, viu o televisor desligado, a pia com a louça suja, a janela da sala mostrando o riscar da chuva lá fora. Deitou com a chuva de dentro represada. Na manhã seguinte acordaria só. O Cine L'amour desaparecera de sua vida. Também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dormiu um sono agitado. Sonhou-se sentado nas poltronas de vinil, mãos dadas com Dona Cida. Maria Aparecida. À sua frente, sexos gigantes se encontrando, se penetrando, se lambuzando numa grande tela luminosa, com gemidos escorrendo densos e um calor nas palmas das mãos velhas e suadas de dedos entrelaçados. Sonhou que seu colchão velho tinha recebido o dorso manchado de uma velha de dentes falsos e sorriso verdadeiro. Com seu membro inerte mostrando alguma vida e rememorando a juventude perdida, entre pernas magras idosas. Depois com o descansar de dois velhos entregues novamente à companhia um do outro. Todos os dias de mãos dadas, numa cópula de dedos entrelaçados, de palmas confidentes. Sonhou com o primeiro dia em que reprisou o filme e o assistiu sozinho. Dona Cida não aparecera. Gil o ajudara na limpeza aquele dia. No dia seguinte também. No outro, novamente. Na semana seguinte, com Dona Cida desaparecida, Patrão teve de contratar Graça. Quase mês depois, veio saber, Dona Cida havia falecido. Foi visitar uma prima doente e nunca mais voltara. Acabou que Graça ficara em definitivo no L'amour. Rápida, a moça, de fato. Terminava o serviço quase na metade do tempo. Ainda assim Genaro não gostava muito dela. Depois que ela saía, ficava na sala de projeção escura e ligava o projetor que gemia baixo ao seu lado, acompanhando as cenas do último filme que assistira com uma mão na sua. E revia, todos os dias, na grande tela, a morena voluptuosa de cabelos negros ser possuída por um mexicano enquanto acariciava uma loira de seios enormes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou lembrando aquele último dia. As luzes acesas da sala de projeção, Patrão à sua frente, a sala do cinema limpa e vazia, no escuro. A tela, naquele dia, não havia ficado branca ao fim do filme. Naquele dia, após a limpeza, ao ter o filme interrompido, a tela do Cine L'amour havia ficado negra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-5931551954003266623?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/10/amor-porno.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>5</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-1205315696803661258</guid><pubDate>Thu, 15 Oct 2009 14:54:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-10-15T11:54:53.270-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Verso</category><title>À Mainha Morta</title><description>eu rio&lt;br /&gt;do rio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pruquê&lt;br /&gt;o rio tá na vala, mainha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;padinho diz&lt;br /&gt;que quâno rio inchê&lt;br /&gt;vai dá di vê meu riflexo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas já dá, padinho&lt;br /&gt;que o rio é marrom e rachado&lt;br /&gt;qui nem minha cara di sertão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;até meus óio verve mais água qu'esse rio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu cuspo&lt;br /&gt;pelo buraco onde tinha um dente&lt;br /&gt;pra vê se o rio enche di novo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ai di mim, mainha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o poço secô&lt;br /&gt;tu já morreu&lt;br /&gt;painho sumiu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;padin diz que foi pro rio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas eu tô no rio&lt;br /&gt;e&lt;br /&gt;o rio secô&lt;br /&gt;o rio rachô&lt;br /&gt;e painho não tá&lt;br /&gt;no rio, mainha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'que o rio tá seco&lt;br /&gt;e velho&lt;br /&gt;que nem eu&lt;br /&gt;vazio&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-1205315696803661258?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/10/mainha-morta.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-4570122637046074803</guid><pubDate>Sun, 04 Oct 2009 21:04:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-10-04T18:12:11.079-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Verso</category><title>Desmetrica Mente</title><description>tanto tempo&lt;br /&gt;tantintento&lt;br /&gt;tem totanto&lt;br /&gt;me livrar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;da forma&lt;br /&gt;(a que dá forma)&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;........&lt;/span&gt;[a queda à forma]&lt;br /&gt;que disforma&lt;br /&gt;que deforma&lt;br /&gt;que conforma&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;........&lt;/span&gt;com forma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;transtorno&lt;br /&gt;transtorno&lt;br /&gt;transpiro&lt;br /&gt;expiro&lt;br /&gt;esporro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;preso à pressa&lt;br /&gt;à prece à prensa&lt;br /&gt;preso à porra da madrerrima&lt;br /&gt;spiritum sanctum do verso nostrum&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;........&lt;/span&gt;[vade-mécum&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;........&lt;/span&gt;(vá de retro)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Relicário velho&lt;br /&gt;Relicário relho&lt;br /&gt;Reles cárie&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;........&lt;/span&gt;(extração)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;me afeta&lt;br /&gt;o afeto&lt;br /&gt;infecto&lt;br /&gt;incerto inseto&lt;br /&gt;inserto goelabaixo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e&lt;br /&gt;me apego&lt;br /&gt;me apago&lt;br /&gt;no pirófagafago&lt;br /&gt;de línguas de fogo&lt;br /&gt;do verso pagão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;enterro interno&lt;br /&gt;o verso beato&lt;br /&gt;com uma pá de terra&lt;br /&gt;duas pás de cal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e um punhado de pretérita certeza&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-4570122637046074803?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/10/desmetrica-mente.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-6837261131693811136</guid><pubDate>Mon, 28 Sep 2009 15:23:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-10-05T14:48:13.884-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Flores na cabeça</title><description>Começou quase imperceptível. Só uma vibração entre a estrada de terra cercada de flores e o céu azul primaveril. As casas de tijolos à vista à beira da rua guardavam segredos silentes cercados de pétalas e canteiros e aromas de bolos de banana com farofa. Foi muito aos poucos que a melodia se fez, de fato, audível. Um assobio que saltitava alegre nas notas de diapasão, embalando as flores numa dança discreta na brisa suave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O assobio nascia num vão entre lábios volumosos de tom café, contornados por uma barba baixa que cobria um rosto de olhos curiosos. A mochila nas costas jingava com o andar cadenciado guiado por passos certeiros de botas de solado grosso e couro resistente. A camisa listrada retribuindo as cores das flores que escoltavam o caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parou à sombra de uma árvore próxima a uma casinha de tijolos aparentes e floreiras nas janelas, admirando o telhado pontiagudo. Cessou o assobio ouvindo com prazer o silêncio da rua decorada e o som da brisa nas folhas. Sentou à beira da estrada, deitou ao chão a mochila e bebeu a água fresca de um cantil de alumínio, dividindo o espaço com as borboletas nas flores logo ao lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se perdeu na delicadeza das asas que nem percebeu a chegada da criança loura que saltitava saindo do jardim bem aparado da casa. Foi o riso da menina que o despertou. Quando a criança o viu, hesitou desconfiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oi. Foi ele quem cumprimentou, jovial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criança não respondeu e ficou brincando à distância. Ele riu e retornou a atenção às borboletas, que vinham lhe brincar nos braços. Tocou com a ponta do dedo as asas coloridas e viu o inseto levantar voo até pousar-lhe na cabeça. Mais uma risada infantil lhe chamou a atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parece um laço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Divertiu-se a menina loura, apontando para a borboleta na cabeça do forasteiro. Ele riu com o chiste e a menina se aproximou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você é um vagabundo? - perguntou a criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele espantou-se mas riu mais uma vez. Mas não. Ele era um viajante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o que faz um viajante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Viaja - respondeu sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colheu uma flor amarela e colocou no cabelo louro da menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pronto. Agora você também tem um laço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorriu. Mas com olhar preocupado para a porta da casa de tijolos aparentes disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu pai não vai gostar disso. Ele diz que as flores tem que enfeitar a estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As flores ficam bonitas nas estradas sim. Mas eu digo que elas deveriam enfeitar mais as cabeças - respondeu o rapaz com calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora, onde já se viu flor na cabeça. Lugar de flor é na rua. Ou na frente de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas aí as borboletas não vão querer visitar a sua cabeça. No máximo vão passar pela sua rua, mas não vão pousar em você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hum... Meu pai nunca falou nada sobre borboletas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele não tem flores na cabeça, tem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não... Mas você também não tem flor na cabeça e a borboleta pousou em você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É que quando você põe uma flor na cabeça, um pouquinho dela fica ali pra sempre. Como se fosse o perfume. E as borboletas percebem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu queria ter mais flores na cabeça. Mas aí meu pai vai brigar. Elas tem que ficar na rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez, se mais gente colocasse flores na cabeça, não precisasse tantas flores na rua. As borboletas viriam da mesma forma. E o perfume ia estar sempre com a gente. E de tanto a gente andar por aí, com flores na cabeça, elas iam acabar espalhando pólen mesmo. E daí, sem a gente nem perceber, logo iam ter flores espalhadas por todas as ruas. E a gente nem ia perceber que plantou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou fazer como a minha mãe, então. Ela tem um arco de cabelo cheio de flores. Vou usar sempre!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas aí não adianta. No arco as flores são de plástico. Não são de verdade. Elas só parecem flores. Mas se você olhar de perto, vê que elas não tem perfume. E as borboletas não vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É melhor eu voltar pra dentro. Meu pai não gosta que eu fale com vag - estranhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tudo bem. Foi legal conhecer você, viu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina saiu correndo em direção a casa. O rapaz levantou-se, colocou às costas a mochila e seguiu o caminho pela estrada de barro com algumas borboletas no seu encalço. Saiu assobiando a melodia alegre que ia desaparecendo da vizinhança das casas de tijolo à vista e cheiro de bolo de colono. A melodia foi baixando, baixando, sumindo, sumindo até deixar no ar só aquela vibração quase imperceptível, deixando ouvir o som do vento nas folhas e de uma criança levando bronca por ter arrancado uma flor do jardim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-6837261131693811136?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/09/flores-na-cabeca.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-105075860281421611</guid><pubDate>Thu, 24 Sep 2009 22:03:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-24T19:05:35.861-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte Final (XII)</title><description>Não recebi nenhuma nova notícia sobre a contenção da inundação nos porões, mas parece que continuamos na mesma situação. O clima continua fechado e a chuva aumentou um pouco, mas ainda não há ventos para soprar para longe este nevoeiro que nos cerca. A temperatura continua baixa e, pela trajetória do Cirella à deriva, creio que devemos estar sob a ação de alguma corrente marítima. Nosso capitão passou por um período dando ordens quase que a esmo, até mesmo contraditórias, mas agora parece estar tentando ganhar novamente a confiança da tripulação e caminha entre os homens congratulando-os pelo trabalho, distribuindo pequenas bonificações e prometendo maior parte nos lucros. Eu mesmo tenho sido alvo freqüente destas iniciativas, mas as promessas continuam promessas, e o Cirella, ainda que sob os nossos esforços de reparação, continua à deriva. Rastani tem ficado mais tempo na cabine contabilizando nossos recursos restantes do que contribuindo para sanar os problemas e o Peregrino agora fica mais retirado do que nunca, e raramente dá as caras no convés ou junto aos marinheiros. Agora, para honrar as recentes baixas que tivemos e os companheiros que entregamos ao mar, devo retomar os meus relatos enquanto a efêmera estabilidade que nos acalenta se mantém presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar dos ferimentos, dizia eu, continuávamos a postos encurralando os homens do Amret contra o restante de seus canhões, que miravam maliciosamente o Cirella. O impasse iluminado pelas tochas não dava sinais de ceder frente às negociações de nosso capitão com o comandante do Amret. Nós não abriríamos mão da conquista do porto e eles não aceitariam a derrota de mãos vazias. Naquela noite fora proclamado, sob as chamas inquisidoras das tochas, um acordo do qual jamais falaríamos novamente e do qual a ciência deveria ser sepultada ali, como um dos que padeceram em combate. O Amret e seus homens iriam poupar o Cirella do trágico fim e a nau inimiga não seria destruída por nossos adversários. Eles não mais ofereceriam resistência a nossa conquista do porto e nós poderíamos novamente nos pôr rumo ao nosso desejado destino. Em troca, o Capitão Tino cedera ao capitão do Amret parte da carga e das riquezas que transportávamos no Cirella e se comprometera em agraciar nossos antagonistas com a quinta parte de nossos lucros com as mercadorias do porto, mesmo os homens do Amret não tendo nenhuma participação nos trabalhos e viagens a nossa nova conquista. Um acordo que permaneceu obscuro naquele porão emprenhado pelo pó negro e por homens rubros e abatidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro daquela aurora com um pesar ainda constante. Os raios do sol iluminaram o que restara de nossa embarcação e a fila de corpos cobertos pelos tecidos vulgares no nosso convés. Despedimo-nos de nossos companheiros silenciosamente e os deixamos aos cuidados do oceano para um sepultamento no leito daquele que fora o último campo de batalha em que eles adentraram. Passamos o restante do dia calados e tentando colocar o Cirella novamente em condições de navegar, ao menos até algum porto onde poderíamos fazer os reparos de forma mais segura. Naquele dia silencioso só se ouvia a voz de Sadiano se congratulando pela conquista e contabilizando as riquezas que iria tornar a acumular. Enquanto nós, silenciosos, contabilizávamos os danos sofridos pelo Cirella e pelos homens que por ele lutaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo de retornar do convés. As novas que trago preencherão estas últimas linhas de mais infortúnios, como se ainda não tivesse relatado suficientes. Bogus reuniu os homens para dar a notícia. Nero sucumbiu há algumas horas. Nenhum de nós nutria muita esperança por sua recuperação, mas as histórias do velho marujo continuarão ecoando nos porões e entre os homens do Cirella.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma fina camada de cera separa agora a chama da mesa e o pavio negro pende torto, moribundo. Um silêncio percorre as câmaras restantes de nosso ataúde avariado, enquanto as ondas embalam o mudo Cirella. Um silêncio de luto. Não por aqueles que se foram, nem por aqueles que permanecem, mas pela chama que se extingue sepulta pela cera branca sobre o tampo amadeirado, deixando que a escuridão se apodere por completo da história do Cirella.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-105075860281421611?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/09/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-final.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-3869731556494384130</guid><pubDate>Tue, 22 Sep 2009 01:52:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-21T22:55:12.014-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte XI</title><description>O céu nublado trouxe uma escuridão precoce quando o sol se pôs, e apenas dois pontos brilhantes chamejavam sobre as ondas baixas que embalavam os dois archotes a uma distância pequena demais para propiciar um descanso tranqüilo aos seus tripulantes. Sabíamos que aquela seria uma aurora violenta. O sol se ergueria vermelho do oceano e se confundiria com o nosso sangue que certamente tingiria as águas se entrássemos em um combate aberto contra o bem armado Amret. Jamais chegaríamos próximos o suficiente para abordar a embarcação inimiga à luz do dia. Se chegássemos ao alcance dos canhões adversários nosso casco não suportaria os danos e não nos seria possível engajar ao combate corpo-a-corpo. E o Cirella não possuía poderio suficiente para suplantar os canhões de bronze de nosso adversário no combate à distância. Era preciso que tomássemos a iniciativa da ofensiva na esperança de surpreender nossos inimigos, mesmo que isso significasse o risco de uma navegação às cegas na noite sombria daquelas águas desconhecidas. Preparamos nossas armas sob o convés procurando manter uma aparente rotina para o caso de estarmos sendo observados à distância pelos homens do Amret. Preparamos além das armas, vários metros de cordas e ganchos para uma abordagem ao convés inimigo. Apagamos as lanternas a bombordo deixando apenas iluminada a lateral do navio voltada ao Amret, a boreste. Encobertos pela escuridão, baixamos os botes ocultos dos olhos de nosso antagonista e os enchemos com nossos melhores combatentes e com as cordas devidamente preparadas. Os botes foram levados em silêncio e completa escuridão para próximo da nau inimiga e aguardaram o momento de agir. Os outros dentre nós que ficaram a bordo preparam o melhor possível o Cirella para uma investida noturna na esperança de que os vigias, em meio à escuridão, não percebessem nossa aproximação há tempo de preparar sua defesa ou ao menos que a precisão da artilharia inimiga fosse prejudicada. Assim que todos se colocaram a postos, apagamos todas as lanternas a bordo, envolvendo definitivamente o Cirella na escuridão da noite, e mudamos o curso para interceptar nosso adversário que reluzia solitário sobre as águas escuras e frias que aguardavam silenciosas o embate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos no alcance dos canhões inimigos e nenhum alarma aparentemente fora dado. Enquanto isso os botes, também envoltos pela noite se aproximavam sorrateiramente do casco do Amret, prontos para desovarem no convés um pequeno enxame de combatentes. Nosso subterfúgio, no entanto não fora suficiente para uma surpresa completa e logo os vigias inimigos deram pela falta de nossas lanternas ao longe e perscrutando a noite localizaram o Cirella se dirigindo a eles como um aríete obscuro. O alarma fora dado e a movimentação no convés inimigo se intensificava com a artilharia se preparando para a primeira salva, e a infantaria toda a bombordo pronta para repelir nossas amarras e tentativas de abordagem. Enquanto isso, a boreste do barco adversário, os botes começam a liberar homens que escalavam, com o auxílio das cordas, rumo ao convés inimigo. A primeira saraivada rasgou a noite com um uníssono trovejar que despejou o aço quente nas águas a nossa volta. A escuridão que nos protegia também não nos permitia ver os projéteis que nos procuravam nas trevas e a expectativa do impacto se tornava tão angustiante quanto o próprio arrematar das esferas metálicas. A segunda descarga cruzou perigosamente o inconseqüente e destemido Cirella e uns dos projéteis transpassou uma de nossas velas secundárias deixando em seu lugar um vão negro preenchido pelo céu escuro.&lt;br /&gt;Antes que a próxima bateria se preparasse nossos homens haviam deixados os botes e arremeteram contra a artilharia inimiga, que surpreendida cedia sob a fumaça das pistolas, o cheiro da pólvora e as lâminas velozes. Com o caos perpetrado na nau inimiga, reacendemos as lanternas do Cirella iluminando nosso único e ultrapassado canhão de retrocarga. As recargas estavam preparadas e arma posicionada no bordo do Cirella, que já se posicionava para o tiro. Enquanto nossos homens enfrentavam o contra-ataque da infantaria do Amret no convés adversário, o Cirella cuspia esferas de ferro contra o mastro e as velas inimigas a fim de aleijar nosso antagonista. Mesmo com a artilharia severamente debilitada os canhões de bronze do Amret ainda eram uma ameaça, e à curta distância não demoraram a mostrar seu poderio. Logo o impacto do fogo inimigo avariou nossa embarcação causando estragos tanto ao Cirella como aos homens a bordo, que caíam sob os estilhaços do navio que voavam aos montes. Nossos homens debilitaram nosso inimigo o suficiente para que pudéssemos nos aproximar para a abordagem e logo as amarras voavam de um navio ao outro e as pranchas de madeira eram estendidas entre os conveses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Investimos com o restante de nossos homens sobre o convés inimigo unindo nossas forças àquelas dos nossos companheiros que iniciaram o ataque. Àquela distância o Cirella era presa fácil para os canhões inimigos e o casco se rompia ante a ferocidade das armas. Ao Amret, com o mastro partido e deitado sobre o convés, não restava muito a não ser tentar suportar nossas forças no convés e continuar a punir nossa embarcação e os homens que nela haviam ficado tanto quanto fosse possível com o restante de sua artilharia. Ao mesmo tempo em que sobrepujávamos as forças inimigas, o Cirella se esfacelava sob uma nuvem de fumaça e poeira e ameaçava, vagarosamente, entregar suas forças e mergulhar ao leito do oceano. Nosso antigo canhão, de ferro fundido, explodiu durante um tiro, arrancando parte do bordo de nosso navio e a vida de pelo menos dois de nossos homens. No entanto, a bordo do também castigado Amret, já havíamos suplantado as forças opositoras que se entrincheiraram no convés inferior, junto à segunda linha de artilharia. Com o convés principal seguro, o Capitão Tino abordou a nau inimiga para exigir a rendição ou comandar o último ataque contra os sobreviventes. Apesar das várias baixas que tivemos e das várias que ainda teríamos devido aos ferimentos desta batalha, tínhamos na boca o gosto da vitória misturado ao do sangue. Mas os rumores sobre os ardis de nossos adversários não eram despropositados. Quando abordamos o convés inferior do Amret nos deparamos com todos os homens armados de tochas incandescentes e com toda a força da artilharia inimiga pronta e apontada contra o agonizante Cirella. Ao redor deles, barris de madeira abarrotavam o compartimento e preenchiam o ar com o cheiro da pólvora. O Cirella não suportaria outra salva a esta distância e estaria condenado caso nossos inimigos disparassem. E eles estavam prontos para sacrificar a conquista do porto, para sacrificar sua própria embarcação, para não serem derrotados. A tensão se tornava palpável e o bruxulear das tochas sobre os barris mostrava que aquela batalha não teria vencedores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pó negro exalava um cheiro forte no convés abarrotado. Muitos de nós estávamos feridos, mas continuávamos a postos no convés inferior junto com nossos companheiros. Nosso Imediato, Bogus Napolle, tinha a perna lacerada por uma lâmina inimiga e mancava terrivelmente. Eu mesmo, que havia acompanhado a segunda investida sobre o navio inimigo, naquele momento ainda portava o chumbo adversário no antebraço esquerdo. Admirando agora o ferimento recém cicatrizado à luz da vela que se encolhe enquanto escrevo, penso se Nero resistirá aos ferimentos que lhe foram impostos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nero Marquesia é um dos tripulantes mais velhos do Cirella. Quando me juntei à tripulação desta remendada embarcação não o conhecia, e o espírito reservado do marinheiro fez com que só após algum tempo no mar ele passasse e me contar as suas histórias com o sotaque marcante característico. E com o passar deste tempo eu percebia que este era um dos seus maiores passa-tempos sobre as ondas. E maior parte dos companheiros de convés também se aprazia com as histórias do velho marujo. Nas noites de calmaria, à luz de uma lanterna, os causos do velho Nero eram o divertimento da tripulação. E agora ele passa os seus dias em um leito tentando suportar aos ferimentos sofridos naquela noite belicosa. Quando nosso canhão explodiu em combate lançou ao ar estilhaços de madeira e metal que se espalharam por boa parte do convés. Nero fora atingido em diversas áreas do corpo por esses estilhaços e ao que parece por uma das câmaras de recarga lançadas pela explosão da arma. Os ferimentos o puseram inconsciente e, se não fosse pelos cuidados de Frei Renalier, possivelmente já teria sucumbido. Agora ele oscila entre períodos de consciência e inconsciência e é acometido quase que constantemente pela febre, possivelmente decorrente da inflação de um dos ferimentos. Nosso Frei se divide entre os cuidados de um cirurgião e as preces de um sacerdote, enquanto o resto de nós apenas torce para que ele resista. Infelizmente parece que nosso companheiro fará mais uso das preces do que dos ungüentos e dá sinais de que pode não agüentar nem mais uma semana nas precárias condições em que nos encontramos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-3869731556494384130?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/09/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-xi.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-3097838430288892855</guid><pubDate>Fri, 18 Sep 2009 23:32:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-18T20:33:22.770-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte X</title><description>Como o Peregrino ficava em sua saleta nos porões do Cirella, a tripulação não lhe dedicou muita atenção a princípio. À medida que parávamos nos portos, percebemos que Tino se dedicava cada vez mais à venda das ervas do Peregrino em detrimento das mercadorias do Cirella. E os lucros de tais vendas ficavam restritos ao Capitão, seu conselheiro e, obviamente, ao ruivo com voz de criança. A tripulação apenas ganhava seu percentual das especiarias normalmente negociadas pelo Cirella, que diminuíram aos poucos, uma vez que os espaços nos porões da embarcação foram sendo tomados pelas plantas. Aos poucos, o nosso novo tripulante começou a se infiltrar no dia-a-dia do Cirella. Em pouco tempo havia se tornado conselheiro de Tino Sadiano, acima mesmo de Bogus Napolle, o Imediato do navio. Apenas Rastani Cain estava acima dele na embarcação. Com astúcia e promessas de enormes recompensas foi envenenando a mente já frágil e perturbada de nosso capitão a ponto de convencê-lo de que sua sala na ponte de comando do Cirella não era necessária para ele. Seria melhor se ele passasse seus dias mais próximo dos marujos, entre eles, de forma a melhor vigiar e perceber qualquer movimentação que pudesse oferecer risco ao seu comando. E, já que o Capitão estaria junto aos homens e sua sala na ponte de comando ficaria vazia e ociosa, o Peregrino se disponibilizou a ocupar o lugar. Tudo, é claro, para melhor estudar suas ervas e controlar os negócios, visando maiores lucros para ele e para o Capitão. Com o consentimento do comandante máximo da embarcação, o Peregrino passa agora seus dias não mais nos porões do navio, mas sim na cabine de comando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo de voltar do convés. Ouvi gritos dos homens chamando por ajuda. A água que já havia tomado um dos compartimentos inferiores voltou a se alastrar em nossos porões. Felizmente conseguimos conter a inundação a tempo, mas com isso isolamos o compartimento anterior e não podemos mais bombear a água para fora do navio. Perdemos boa parte da carga nesse ínterim e algumas sacas das ervas que carregamos. Com a chuva que volta a cair esperamos conseguir água potável o suficiente para nos mantermos por mais tempo. Quanto aos mantimentos que nos restam, decidimos começar a racionar, pois não sabemos quanto tempo ficaremos nesta situação. O Capitão pareceu preocupado com o estado de seu navio e mandou levar o dinheiro guardado e seus itens mais valiosos para a parte mais segura do Cirella, que ainda não foi afetada pelos estragos. Penso que se talvez nos livrássemos de parte do ouro ou das ervas nos porões deixaríamos a nau mais leve e poderíamos tentar manobrá-la com mais facilidade ou ao menos o suficiente para conseguir fazer os reparos de emergência. Mas estou certo de que nosso capitão não aceitara tal proposta. Devo retomar agora minha história dos últimos eventos antes que a água volte a nos colocar em perigo e interrompa definitivamente essas breves e desditosas memórias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com os porões emprenhados pelas ervas e o Capitão se dedicando cada vez mais ao comércio destas mercadorias, deixando quase que de lado os negócios do Cirella, velejamos por vários mares e cruzamos dezenas de fronteiras. A cada porto parecia que Tino e o Peregrino ficavam mais abastados enquanto o Cirella cada vez mais carente de cuidados, tendo apenas a tripulação olhando por ele. Mas uma esperança surgiu, em um mercado de um porto continental. Rastani Cain negociava os lucros com um dos comerciantes, e este lhe contara uma notícia que poderia colocar novamente o Cirella nas grandes rotas comerciais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase a totalidade das cargas que chegavam àquela localidade era proveniente de um único e distante porto. As embarcações que até então traziam de lá as mercadorias iriam se lançar ao outro lado do mundo, deixando a rota livre para novos barcos. Com a grande demanda de carga exigida, não seriam muitos os barcos que teriam condições de comercializar estes produtos. Eram necessárias grandes dimensões para armazenar carga o suficiente para as viagens e uma grande equipe para conduzir o barco pelas águas bravias que permeavam a rota. A oportunidade despertou o interesse de Sadiano, que via a possibilidade de grandes lucros, e da tripulação que vislumbrava grandes viagens e aventuras. A notícia arrebatou a costa como o vento das monções e logo várias embarcações estavam se preparando para zarpar rumo ao longínquo porto e suas promessas de riquezas. Entre elas, o Cirella.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas semanas que se seguiram, todas as embarcações se colocaram em uma corrida rumo ao novo porto. Sabíamos que a maioria daqueles que zarparam jamais chegariam até lá. Mas era preciso não só que lá chegássemos, mas que o fizéssemos antes de nossos concorrentes.  Foram semanas de disputas ferrenhas e não raro a corrida se transformava em combate, tingindo o mar de sangue para o deleite dos peixes que seguiam as naus. Para aquelas rotas o Cirella não era um barco a se desprezar e seu porte nos salvou algumas vezes de embates mais diretos, especialmente com embarcações menores ou de tripulação menos numerosa, uma vez que mesmo não sendo militares, nossos homens se faziam às armas quando preciso quase com a mesma intensidade com que se faziam ao mar em busca de aventuras. Nas últimas semanas fomos tomando distância das embarcações menores que iam ficando para trás ou sendo abatidas pelas naus maiores. Felizmente o Cirella sofrera poucas avarias nesses embates, e assim nos víamos em condições favoráveis para a conquista do porto. Nas últimas semanas só havíamos avistado três naus além da nossa. Uma delas pouco conhecíamos, mas identificamos pela bandeira que era uma embarcação originária das terras às quais objetivávamos. Assim, mesmo sendo um pouco menor do que suas concorrentes, conhecia bem as rotas daquela região e nos seguia de perto. Chegaram inclusive a atingir a distância de combate, mas com uma manobra rápida, aproveitando a mudança do vento, alteramos a rota do Cirella e cortamos a frente de nossos adversários. Para um navio de porte maior isso não seria problema, mas para nosso diminuto concorrente, as ondas provocadas por nossa passagem foram o suficiente para desestabilizar o barco, enquanto nós, aproveitando a mudança repentina dos ventos tomávamos distância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Restavam então apenas dois adversários. Atrás de nós vinha o Amret. Ao contrário da embarcação que já havíamos deixado para trás, este era um concorrente maior que o Cirella e melhor armado. Mantínhamos uma distância segura do navio mas nem por um momento deixamos de vê-lo em nosso encalço. Enquanto isso seguíamos em busca do Reef, que havia despontado a nossa frente sem deixar sinais. A grande embarcação era a maior de nossos mares. Com uma tripulação quase duas vezes maior que a nossa e um barco de porte muito mais avantajado, seria preciso muito esforço para que alcançássemos o Reef a tempo, e ainda assim teríamos de derrotá-lo em combate, um feito que não era impossível, mas tampouco simples. E sem dúvidas não sairíamos ilesos de um confronto tanto contra o Amret quanto contra o Reef. Quem dirá enfrentar a ambos. Sob a pressão constante do Amret às nossas costas e sem sinal do Reef à nossa frente, o clima no Cirella ficava cada vez mais tenso. O capitão esbravejava ordens e estipulava metas em milhas a serem percorridas a cada dia. E a cada dia a diferenças entre ele e a tripulação cresciam. Várias vezes farpas foram trocadas diretamente entre o capitão e alguns dos tripulantes. Sob pressão em nosso próprio navio e sob àquela imposta pela sombra de nossos adversários, os sussurros de motins recomeçavam. Alguns dos homens desejosos de abandonar o Cirella, outros cercados de dúvidas. Mas finalmente avistamos o Reef no horizonte. A imagem do adversário inflamou os marinheiros e a distância entre nós começou a diminuir rapidamente. Apesar disso, seguindo nosso rastro branco no oceano vinha a proa do Amret, como um perdigueiro farejando a presa. A distância entre nosso navio e o Reef diminuía rápido demais e não tardou para que estivéssemos perto o suficiente para identificar o motivo. O mar possui um senso de humor negro e irônico. E agora estava novamente pregando mais uma de suas ardilosas surpresas em nosso azarado adversário. O Reef havia encalhado, ironicamente, em um recife de corais, não oferecendo mais nenhum risco para nós. Um fim apropriado para aquele que trazia pintado no casco o nome do algoz. O Cirella e o Amret, de calado menor que o Reef, não tiveram problemas para passar sobre os corais e seguiram rumo ao porto. Não conseguimos manter por muitos dias a distância que nos separava de nosso perseguidor e logo o Amret se aproximava perigosamente. O embate era iminente, teríamos de rechaçar a embarcação adversária para chegar ao porto em segurança. Teríamos de abordar e derrotar o Amret. E teríamos de fazê-lo em breve.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-3097838430288892855?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/09/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-x.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-4152160316617619753</guid><pubDate>Wed, 16 Sep 2009 23:41:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-16T20:41:58.288-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte IX</title><description>Ali mesmo alguns dos homens, incluindo o abalado Fernão, se despediram de seus companheiros e desapareceram entre as ruelas do porto para nunca mais voltarem ao Cirella. Alguns foram contratados por outras embarcações, outros juntaram seus parcos investimentos para comprar pequenos barcos mascates para rotas menos lucrativas e menos arriscadas, e ainda alguns desistiram de vez da vida no mar, buscando novos empregos que não exigissem a incerteza do mar agitado, as constantes mudanças entre calmarias e tempestades e as inevitáveis batalhas que travam aqueles que vivem sobre um convés. Ficamos em terra por vários meses e poucos de nós se dirigiam ao capitão com a naturalidade que faziam antes de nossa última viagem. A avareza e a cobiça tomaram Sadiano e mesmo alguns dos marinheiros que tomaram parte na última viagem não receberam sua parte nos lucros. Mesmo assim Sadiano precisava de sua tripulação para retornar ao mar em busca de mais riquezas. Mas seu barco estava praticamente destruído e sua reputação completamente abalada. O Capitão Tino precisava de um artifício que convencesse seus comandados a embarcar novamente. Apesar das perdas recentes, o capitão não teve outra escolha a não ser arriscar. Foi em busca de grandes comerciantes e, empenhando sua palavra e futuras riquezas, conseguiu dinheiro para uma nova embarcação. O Cirella II.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma nau duas vezes maior que o barco anterior. O casco azul escuro ostentava as cores da bandeira do pavão que tremulava sobre um grande mastro ornamentado por esculturas de longas plumas em todo o seu comprimento. Na proa, uma águia se pronunciava de asas abertas, com as garras envoltas em plantas e ervas esculpidas no próprio casco. O castelo de popa se elevada muito acima das pequenas construções portuárias e o leme era dourado, lembrando a todos a rota que perseguia nosso capitão. Os grandes porões do novo Cirella acomodavam mais que o dobro de carga de nossa antiga embarcação e acima do convés, as enormes velas cinzentas aguardavam ordens para zarpar. As famosas carrancas do Cirella continuavam a adornar a nau, mas agora em número bem menor e de menores proporções. A bandeira da embarcação tremulava no topo do mastro e, agora, abaixo do escudo cinza com o pavão azul, um listel com a inscrição Aurum Omnia Vincit rezava o credo de Tino Sadiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estratagema surtiu efeito. Os homens que estavam em dúvida quanto a sua permanência vislumbraram uma esperança na imponência do novo Cirella e mais uma vez se uniram sob o pavilhão azul e cinza de Tino Sadiano. Uniu-se ainda a nossa tripulação Oséas Sisar. Um velho ex-marujo, que vivera quase todos os seus anos no mar e agora passava a maior parte do tempo junto ao cais olhando as ondas e contando histórias para os novos marinheiros. A função do Velho Oséas seria então intermediar a delicada situação entre a equipe e o capitão, além de com sua experiência, indicar mudanças na maneira como o Capitão comandava o navio, estocagem de mercadorias, assessorando de modo geral Tino. Para suprir os homens que haviam abandonado o Cirella, foram contratados mais alguns marinheiros e depois de tudo acertado e vários meses em terra, nos fizemos mais uma vez ao mar. O Cirella, agora muito maior, partiu em um amanhecer nublado onde o sol espiava aqui e ali por entre as nuvens. A maioria dos homens estava feliz de voltar ao mar, sentir o vento salgado no rosto e o balanço das ondas, de se lançar em uma nova viagem. Mas ainda assim tinham a expressão nublada como o dia de nossa partida. Evidentemente, a confiança da tripulação ainda não havia sido reconquistada. Os dias foram passando e o Velho Oséas andava por todo o navio, conversava com a tripulação e contava suas histórias de aventuras as mais diversas. A tripulação, já desconfiada com todos os acontecimentos, demorou um pouco para acolhê-lo, mas depois todos já estavam torcendo para que o velho marinheiro realmente conseguisse desempenhar as suas funções da melhor maneira. Uma das primeiras melhorias sugeridas por Oséas Sisar foi quanto aos rumos e modo de navegação. Era de praxe sob o comando de nosso capitão que, uma vez definido nosso objetivo e traçadas as rotas ideais para chegar até ele, essas rotas fossem com freqüência mudadas, quase que a esmo ou aleatoriamente. Por isso era comum levarmos muito mais mantimentos do que o necessário para a viagem, devido ao tempo extra que perdíamos nestes desvios.&lt;br /&gt;Igualmente, era deveras trabalhoso manter os registros de bordo precisos, uma vez que, aparentemente sem prerrogativa ou objetivo, Sadiano nos levava a mares e rotas desconhecidas que nada tinham com nossos objetivos inicias. Objetivos esses que também eram mudados com a mesma facilidade com que mudam os ventos. A sugestão de Oséas foi de que uma vez definidas as rotas, com base nos estudos cartográficos, dos ventos, astros e marés, essas rotas se mantivessem inalteradas tanto quanto possível. Com alguma resistência de sua parte e pressão por parte da tripulação, Tino acabou acatando as sugestões de Sisar e, por algum tempo, o Cirella navegou veloz pelo oceano, nos permitindo atingir novos portos. Infelizmente as mudanças não foram duradouras e em pouco tempo estávamos novamente errantes pelas ondas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim os meses se passaram, de porto em porto, com Oséas fazendo as mudanças no Cirella e o Capitão Tino comprometendo estas mudanças. A credibilidade de nosso capitão voltava a cair e sua sede por riquezas a aumentar. E quanto mais ela aumentava, mais ele se distanciava de sua tripulação. Mesmo Bogus fora deixado de lado e tratado como mais um dos marujos. Logo a desconfiança se instalou a bordo do navio e o capitão, junto ao seu conselheiro Rastani, começava a demonstrar sinais de paranóias e neuroses. Era como se fossem assombrados por fantasmas que eles mesmos criaram. E com o tempo esses fantasmas se tornaram reais. Suas dúvidas o tornaram recluso e taciturno, seu ouro o tornara arrogante e avaro, seus medos o tornaram agressivo. Não demorou para começar a ver nos conselhos do Velho Oséas ameaças de sabotagem ao seu navio. E não demorou para que o pobre e velho marujo fosse dispensado numa ilha qualquer acusado de traição. A ponte se tornara o seu reduto, de onde, pelas frestas das escotilhas ficava espionando os marinheiros em seus afazeres e horas de folga. Incentivado por Rastani, espalhava rumores pelo navio, colocando os marinheiros uns contra os outros na esperança, creio eu, de enfraquecê-los e evitar um motim. Com freqüência os marinheiros recebiam apenas parte de seus pagamentos pelas viagens, sendo o restante pago muito depois. Os marinheiros, em mares tão longe de casa, não tinham outra opção a não ser aceitar e aguardar. O Capitão acusava baixos lucros, mas enquanto os marinheiros aguardavam seus dividendos, a cabine de Tino Sadiano era ornamentada cada vez mais e não lhe faltavam vinhos ou carnes em suas refeições. Nesse período Áspero com freqüência voava pelo convés e depois à cabide do Capitão. De vez em quando Rastani passava pelo convés acompanhando o trabalho com olhos atentos e os lábios mudos. À noite, podíamos jurar ouvir passos furtivos e olhares dissimulados nas sombras. O Cirella estava sob vigia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa forma chegamos ao início do inverno a uma península para reabastecer-nos de provisões. O povoado era grande e sua economia se concentrava no comércio de ervas para os mais variados propósitos. Passamos apenas um ou dois dias em terra, se bem me lembro, mas esse tempo foi suficiente para o Capitão levar mais um tripulante a bordo. Um comerciante de ervas que Sadiano conhecera naquela ilha. Um homem baixo de cabelos ruivos e olhos pequeninos que vestia quase sempre roupas verdes e tinha uma voz quase infantil. Usava adereços diversos em torno dos pulsos, pescoço e nos cabelos, e trazia sempre consigo um estojo com as ervas que comercializava. Os ornamentos chamaram a atenção do Capitão, que via no pequeno homem uma grande oportunidade para vender nossas especiarias. Tino abordou o pequenino que se apresentou com sua vozinha fina apenas como Peregrino, e disse que vivia caminhando e vendendo suas ervas por onde fosse. Tinha mesmo, segundo disse, vários mascates que vendiam seus produtos por ele e que ele ganhava assim muito dinheiro. Nosso capitão disse que entendia perfeitamente, uma vez que também tinha vários marinheiros que trabalhavam no grande Cirella para seu próprio benefício. O pequeno Peregrino retrucou, dizendo que de forma alguma se tratava da mesma coisa. Segundo ele, os mascates que vendiam suas ervas não eram seus contratados. Eles lucravam diretamente com suas negociações, sendo que apenas enviavam parte dos lucros ao Peregrino, que cultivava as ervas em locais ermos longe do alcance de todos. Dessa maneira, segundo o herborista mercador, ganhava volumosas recompensas, assim como seus mascates. Seduzido pelos ornamentos, pelos argumentos e pela promessa de grandes lucros do Peregrino, nosso capitão, em vez de vender nossas especiarias, abarrotou os porões do Cirella com as ervas compradas do herborista e lhe concedeu livre tráfego em sua embarcação para levar suas ervas aos mais distantes portos. Assim, quando deixamos a península, boa parte da capacidade do Cirella fora comprometida com o espaço nos porões reservados para os novos negócios de Tino Sadiano, e uma pequena saleta foi improvisada nos porões de nossa nau para acomodar o novo tripulante. Enquanto isso Rastani fazia as contas dos possíveis futuros lucros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-4152160316617619753?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/09/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-ix.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-1373275794290897202</guid><pubDate>Tue, 15 Sep 2009 01:20:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-14T22:21:57.968-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte VIII</title><description>Era como se o dia seguinte não houvesse chegado. A tempestade continuava e o sol não conseguia se mostrar entre as nuvens. No entanto, próximo ao meio dia, uma movimentação no cais nos chamou a atenção. Junto a alguns de meus companheiros segui os homens que corriam pelo porto e fomos surpreendidos pela imagem alquebrada do Pope Arug que chegava. O mar bravio e o estado lastimável do cais dificultavam a atracação. Aguardamos alguns minutos até que as amarras estivessem seguras e o barco bem preso, possibilitando o desembarque. Era surpreendente como depois de tantos golpes o navio conseguira retornar sozinho em tão pouco tempo. Logo fomos à procura de Fernão, mas os marujos não sabiam nada ao seu respeito. Bogus interpelou o capitão Arug e Frei Renalier o cirurgião da embarcação, mas nenhum deles sabia de nosso companheiro. Parecia que eles não haviam visto o que acontecera com Fernão e nós não poderíamos partir em uma operação de busca até que o mar estivesse menos revolto, pois teríamos que ir em barcos bem menores, uma vez que o Cirella não se encontrava em condições de navegar, tampouco o Pope Arug. A tempestade passou quando o crepúsculo já cobria o cais e não poderíamos nos fazer ao mar com barcos tão frágeis durante a noite. Era mais uma noite que Fernão passaria, na melhor das hipóteses, sozinho na ilha sem mantimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã posterior, antes da aurora iluminar o dia, já estávamos todos a postos para partir em um pequeno barco pesqueiro. Nossa tripulação era composta de dois pescadores, que nos levariam até lá; eu, que havia marcado o ponto exato da queda e determinado as áreas de busca; Bogus e mais dois marinheiros, além de Frei Renalier, armado pelos seus instrumentos médicos e medicamentos. Chegamos ao local de nosso choque com o Pope Arug. Na esperança de que Fernão tivesse conseguido chegar à ilha, descemos um bote e remamos até os bancos de areia que fechavam a entrada do canal. As buscas felizmente não demoraram, e logo achamos nosso companheiro. Encontrava-se em uma situação lastimável, abatido, de olhos vidrados olhando fixo para o horizonte. Nem percebeu quando nos aproximamos. Estava sentado na areia, os joelhos recolhidos junto ao peito e abraçado em uma tábua de madeira, provavelmente um destroço do acidente. Quando chegamos não respondia a nossas vozes, parecia alheio a tudo. Só com algumas sacudidas conseguimos sua atenção, mas devido ao estado de choque, não conseguimos mais do que fazê-lo retornar conosco ao barco. Não dizia uma palavra e mal parecia nos reconhecer. Levamos Fernão até o pesqueiro e o envolvemos com um cobertor enquanto Frei Renalier examinava nosso amigo. Voltamos ao cais com a ajuda dos pescadores e com a culpa nos pesando sobre os ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernão ainda ficou dois dias de cama e quando não estava dormindo ficava parado com os olhos abertos fitando o teto. Mal respondia a nossas perguntas, balbuciando apenas algumas palavras que frequentemente soavam desconexas ou frases inacabadas. O capitão Tino Sadiano passou uma vez para ver como estava seu marujo e para perguntar ao Frei Renalier quando ele poderia retornar a navegar. O frei respondeu que em mais dois dias poderia sair da cama, mas não poderia responder quando ele poderia voltar ao trabalho, o que chateou nosso capitão. Como se não bastasse, o prêmio da aposta que nos colocara naquela situação não estava em nossas mãos, como esperava Sadiano. Arug se recusava a ceder o mapa, acusando o Cirella de trapaça. A aposta dizia contornar a ilha e não cortar caminho por dentro dela. Por mais que pudéssemos tentar contestar essa afirmação, não seria possível contestar a de jogáramos nossa embarcação contra o Pope Arug, afinal nosso concorrente ainda tinha o casco adornado por uma de nossas carrancas que lá se cravara. Aqueles que foram chamados para presidir um júri concordaram em unanimidade que o Cirella havia trapaceado e que o vencedor seria o Capitão Arug (creio que vários destes votos se deram pela inimizade criada por nosso capitão, pela soberba com que tratara seu barco, pelo descaso com nosso companheiro e pela arrogância que demonstrara na noite da aposta). Ainda que a muito contragosto, Tino Sadiano entregou ao Capitão Arug o mapa e nós perdemos definitivamente nosso novo mercado. Ele agora pertencia ao Pope Arug.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos naquela ilha por dois dias a mais do que o necessário para a recuperação de Fernão, pois nossa nau precisava de uma recuperação também. Depois de quase uma semana de reparos, conseguimos deixar o Cirella em condições mínimas de regressar ao continente. Embarcamos todos no deplorável Cirella e iniciamos nossa viagem de volta ao lar. O barco navegava manco pelas ondas e a viajem demorou muito mais do que gostaríamos. Fernão passava seus dias em sua cabine sem falar com ninguém, os homens estavam mudos e o ar pesado. Muitos estavam decididos a não embarcar novamente ao Cirella uma vez que aportássemos.  O capitão percebera o clima hostil que se criara entre ele e seus homens e temendo piorar a situação a ponto de ser amotinado, ficou recluso em sua cabine com Rastani. Só o bater de asas apressado de Áspero percorria o convés de um lado para o outro. Depois de cerca de dezoito meses no mar, regressamos ao nosso porto de partida. Fatigados, alquebrados e com um futuro incerto pela frente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-1373275794290897202?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/09/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-viii.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-1128591405586391043</guid><pubDate>Fri, 11 Sep 2009 23:45:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-11T20:47:10.420-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte VII</title><description>Nestes mesmos dois dias, um outro acordo também selaria outra grande perda para nós. Através de mapas encontrados por acaso, o capitão Tino Sadiano achara uma nova rota para uma pequenina ilha vulcânica extremamente fértil. Seus moradores produziam de tudo. Era um verdadeiro celeiro. E uma grande oportunidade para qualquer bom mercador. Ainda que não fosse tão lucrativo, esse novo mercado garantia visibilidade ao Cirella com seus produtos exóticos e raros, desejados pela burguesia emergente. Na segunda noite de nossa estada, enquanto bebia com oficiais de outras embarcações, nosso capitão contou suas proezas com o Cirella, inclusive como driblara, ele mesmo, os recifes de corais, manobrando o navio. Um destes oficiais, no entanto, já havia ouvido sobre essa nossa história e fez um comentário que, ainda que indireto, era pouco elogioso ao nosso capitão. Comentou ainda que os danos que ele havia visto em nosso barco pareciam consideráveis, visto que a embarcação era relativamente pequena e o capitão não tão experiente. Tino Sadiano não se conteve ao ouvir tais palavras e começou a exaltar as qualidades de sua nau, que ela era muito superior a qualquer outra que se interpunha em suas rotas e que desafiaria qualquer um em velocidade e maestria nas manobras. Um dos oficiais na mesa, capitão de outro barco, disse-lhe em tom irônico que se não fossem as avarias no casco de nossa “pequena embarcação” ele aceitaria o desafio. Acuado frente à pilhéria nosso capitão ousou afrontar diretamente o oficial propondo a seguinte aposta. Na manhã seguinte, os dois zarpariam com seus barcos rumo a uma ilhota a um dia de distância. A primeira embarcação que contornasse a ilhota e retornasse ao cais seria a vencedora. O capitão da outra embarcação aceitou a proposta e disse ainda que se perdesse a aposta daria ao capitão Tino um mapa de um canal ao norte que levaria a uma mina de grandes riquezas. Para chegar lá era preciso navegar cuidadosamente por um pequeno rio de águas negras e, para tanto, seria necessário o tal mapa. Em troca, nosso capitão empenhou o mapa de nosso novo mercado. O vencedor levaria tudo. O perdedor deixaria o cais de mãos vazias. Tudo acertado, o capitão retornou ao Cirella atracado e mandou acordar todos os homens. As ordens eram claras: devíamos restaurar e preparar o Cirella para a manhã seguinte para zarpar na contenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casco estava praticamente consertado, mas a quilha ainda precisava de reparos finais. Além disso, teríamos que virar a noite para deixar tudo pronto para a partida. Fernão, que já havia ficado de vigília na noite anterior, apresentava as olheiras de uma noite insone e mesmo ele não foi poupado. Desci à minha cabine e passei a noite sobre os mapas, estudando as correntes para tentar aproveitar ao máximo as chances que nos poderiam ser dadas pelo mar. Lá em cima eu ouvi as vozes dos homens trabalhando sob os gritos do capitão e o grasnar nervoso de Áspero. Rastani Cain enviou Frei Renalier para descobrir qual seria o barco adversário que enfrentaríamos. Quando retornou, o sacerdote parecia um pouco preocupado. O Pope Arug era um grande navio cuja tripulação era, na maioria, de homens do sul liderados por um experiente capitão chamado Arug. As informações que nosso bom frei conseguiu foram que o capitão não tinha tanta experiência quanto nós nestas águas, o que poderia nos dar uma vantagem por conhecer melhor o terreno e as armadilhas da rota. Mas o Pope Arug era visivelmente maior e mais preparado que o Cirella, além de contar com muito mais homens a bordo. A noite se passou ao som das marteladas e do preparo das velas e, na manhã seguinte, estávamos todos cansados — aqueles que ficaram de vigília, como Fernão, exaustos. Mas o Cirella estava pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o reflexo do nascente sobre a água, os dois barcos deixaram o cais. Ao sinal as velas foram desfraldas e o vento soprando forte deu início à corrida. As primeiras horas nós fomos seguidos de perto pelo Pope Arug e a dianteira nos deixava confiantes e esperançosos. Mas, uma vez deixando as águas rasas, nosso adversário começou a ganhar velocidade e víamos a nau se aproximando em uma rota praticamente paralela a nossa. As velas latinas da nau impulsionavam a embarcação que ganhava terreno com velocidade. O Capitão ficava cada vez mais nervoso, andando de um lado para o outro, coçando repetidamente as costas da mão e outros locais os quais não me atrevo a relatar para preservar o próprio Sadiano. Menos de uma hora se passou até que o Pope Arug estivesse lado a lado com o Cirella, o casco rasgando as ondas a menos de cem metros de nós. Não demorou para que navegássemos perseguindo o leme de nosso adversário. Ao fim do dia chegamos à ilhota que marcava o ponto de retorno e perdemos de vista nosso concorrente, que já contornava a ilha. Bogus reuniu os homens para traçarmos uma estratégia para reverter nossa situação. Um estratagema igualmente ousado e arriscado. A ilha era cortada por um rio de águas salgadas que a singrava de ponta a ponta. Quando a maré enchia o mar avançava sobre o rio e era possível atravessar a ilha pelo rio. Quando a maré baixa, os bancos de areia se tornam aparentes fechando o canal. Nossa estratégia era entrar rapidamente no canal e, antes que a maré baixasse para fechar nosso caminho, atravessar a ilha saindo à frente do Pope Arug. Aproveitamos que nosso concorrente estava fora de vista para dar início a nossa estratégia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a maré ainda alta não foi difícil adentrar a foz do canal, que era relativamente grande. Uma vez dentro deste rio, lançamos mão dos remos para impulsionar o barco. Era preciso fazer todo o percurso extremamente rápido, do contrário ficaríamos presos na ilha por mais um dia inteiro. Com as árvores que nos cercavam no leito do rio, os ventos perderam força, mas apoiado pela corrente, pelo pouco vento que nos restava e por nossos remos conseguimos imprimir um bom ritmo, o que nos dava esperanças novamente. Neste momento Bogus já não era um Imediato, apenas mais um marujo. Isso acontecia com freqüência e não me cabe aqui julgar se acontecia para melhor ou para pior. O fato é que realmente precisávamos de mais braços para remar, de modo que mesmo o leitor sendo um experimentado capitão, não iria censurar nosso Imediato naquela situação. O estandarte do pavão em azul e cinza ainda tremulava na noite e a única luz provinha de nossos archotes e das estrelas. Passamos a noite toda nestes esforços e a tripulação teve pouco descanso. Mesmo o Frei Renalier ajudou na propulsão do navio e, sob as ordens de nosso capitão, nosso cozinheiro veio gentilmente servir os homens que remavam para que estes não precisassem parar seu trabalho. Nas horas em que o Capitão se retirava para descansar, víamos vez por outro Áspero voando entre os remadores como se verificando a tripulação. Depois ele voltava ao seu poleiro para passados alguns minutos voar novamente pelo convés, com aquelas penas verdes espalhando migalhas de biscoitos sobre nós. Já havíamos vencido metade do rio quando um elevado de rochas se interpôs interrompendo de vez o vento. A velocidade do barco caiu vertiginosamente e a propulsão ficara apenas por conta da corrente e de nossos remos. Já víamos a foz do canal que nos daria passagem para o mar, mas as águas baixavam e, sem o vento, teríamos dificuldades em vencer os bancos de areia. Empregamos todos os homens e todas as forças para ultrapassar os rochedos e retomar os ventos enquanto o céu começava a trocar de cor, do negro para um azul escuro, prenunciando a manhã. Por sobre as árvores, Fernão, que estava no alto do mastro à procura de nosso adversário localizou o que pareciam ser as luzes da embarcação ao longe na noite. Até nosso cozinheiro passou aos remos deixando apenas o capitão, que controlava o navio e Fernão, que vigiava nossos adversários e os bancos de areia de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com muito esforço passamos os rochedos e os leves ventos começaram a encher nossas velas novamente. Apagamos nossas próprias lanternas para surpreender o Pope Arug na saída do rio e à medida que os ventos inflavam as velas, ganhávamos velocidade. A maré, porém, baixava rapidamente e o risco de ficarmos presos na ilha crescia a cada minuto. Na foz daquele rio saímos na escuridão quase lado a lado com nossos antagonistas. Eles navegavam rente à costa e estávamos perigosamente próximos deles a ponto de poder ver a cara de espanto de Arug ao ver o Cirella empinando por sobre os bancos de areia e se chacoalhando sobre as ondas que se encontravam com o rio sob seu casco. No momento em que cruzamos os bancos de areia, o vento matutino que soprava na costa golpeou as velas com tal violência que não pudemos controlar nossa embarcação que se lançava sobre nosso oponente. Manobrando o melhor que pudemos, conseguimos apenas evitar uma colisão frontal. O Cirella abalroou o casco de nosso adversário e o impacto acabou por danificar as duas embarcações. O Pope Arug, apesar do seu porte, sofreu mais com o acidente devido as carrancas gigantescas que ornamentavam o Cirella. Uma delas, em forma de uma águia grotescamente esculpida, rachou da amurada de nossa nau e cravou-se no casco de nossos adversários, causando grande estrago. Muito menos avariado que o que o barco do Capitão Arug, o Cirella foi ganhando terreno em meio as imprecações que ecoavam do Pope Arug e das comemorações do nosso convés. Só depois de alguns minutos e da euforia inicial é que nos demos por falta de Fernão, que no momento do impacto devia estar no alto do mastro. Avisamos Bogus assim que percebemos o que ocorrera e lhe dissemos que avisasse o capitão para que retornássemos e resgatássemos nosso companheiro que, imaginávamos, teria sido lançado de nosso mastro ou ao mar ou ao barco de nossos concorrentes. No entanto o capitão temia que o Cirella não agüentasse muito tempo com suas avarias e que devia levar nosso barco o quanto antes ao cais. Disse que Fernão estaria bem, uma vez que certamente os homens de Arug não deixariam um marinheiro no mar e que ele seria bem tratado até a volta, que faríamos no dia seguinte para resgatar nosso companheiro e nossos adversários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bogus ficou irremediavelmente irritado, dizia que era claro que a pressa de nosso capitão era em busca do prêmio e de derrotar seu adversário. Porém, ainda assim, ele não poderia ignorar as ordens do capitão sem ser acusado de começar um motim. Frei Renalier o acalmou o melhor que pôde e todos os homens se determinaram a levar o Cirella até o cais e imediatamente, com outro barco se necessário, partir para o resgate de Fernão. Com as avarias nosso retorno foi bem mais lento e durante todo o trajeto nenhum de nós dirigimos a palavra a Sadiano. Na maioria, evitávamos estar no aposento que ele. O clima era pesado e, se a palavra motim já havia passado pela cabeça de alguns, talvez já tivesse sido sussurrada por outros. Pouco antes de nossa chegada, uma tempestade se abateu sobre nós. Já víamos a costa e seguimos até ela com o Cirella fazendo água e rangendo em cada uma de suas tábuas. O mastro principal estava danificado e algumas das amarras das velas haviam se rompido. Com a amurada quebrada, várias partes do convés eram perigosas e manobrar o barco se tornou uma tarefa hercúlea. Chegando ao cais, em vez de atracarmos nos chocamos contra ele. Um dos pilares de sustentação cedeu danificando o cais e nosso casco. Com a ajuda de marinheiros e estivadores de outros barcos conseguimos nos pôr a salvos e fomos levados a algum lugar onde pudéssemos nos recompor. Aquela noite não havia mais nada a fazer por Fernão ou pelos tripulantes do Pope Arug. Apenas o capitão Tino Sadiano mantinha um brilho vivo no olhar, enquanto os outros estavam amuados. Nós chegáramos ao cais antes de nossos adversários.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-1128591405586391043?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/09/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-vii.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-1026705891349353953</guid><pubDate>Thu, 10 Sep 2009 00:46:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-09T21:47:02.391-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte VI</title><description>Um grito esganiçado acordou os homens aos sustos na manhã de nossa partida. Primeiro pensei que fosse o grito irritante de Rastani dando algum toque de alvorada desafinado, mas logo percebi que se tratava do grasnar de alguma ave. No momento atribuí ao sono, mas podia jurar que a tal ave gritava “oportunidades, grah, oportunidades”. Só quando me fiz ao convés com os homens é que fomos descobrir o motivo da algazarra. O grasnar era do novo animal de estimação que o Capitão havia conseguido naquela ilha (parece que trocara o bicho por meio garrafão de azeite). Era um papagaio magricela de penas verdes eriçadas, que corria de um lado para o outro em um poleiro instalado no convés. Pelas penas eriçadas que lhe davam um aspecto “espinhado”, e pelas migalhas de biscoitos que viviam em sua penugem, o pequeno grasnador foi apelidado pela tripulação de Áspero. Por vezes o papagaio parecia desaparecer da vista de todos, passando quase despercebido. E quando você se virava lá estava ele, com o pescoço magro esticado e os olhos curiosos vendo o que você estava fazendo. Chegou a correr um boato, mais tarde entre os marujos, que o capitão treinara a ave para vigiar a tripulação e lhe contar o que via. De minha parte não sei se creio em boatos, mas no mar não se descarta nenhuma história, pois algum dia ela pode voltar com a maré. Mas por fim, Áspero acabou de certo modo divertindo a tripulação. Quando alguém se aproximava da ave ela ficava visivelmente estressada. Começava a andar nervosamente de um lado para o outro em seu poleiro e, quando falavam diretamente a ele, o papagaio começava a dar pequenos grasnados. Os marinheiros divertiam-se falando rispidamente à ave, que parecia entrar em pânico e gritar palavras desconexas andando de um lado para o outro com as penas eriçadas e tremendo. Apesar da crueldade, realmente era uma cena deveras engraçada. Até hoje a ave vive em seu poleiro no convés e acompanha a nós, os condenados do Cirella, em nossa bem menos engraçada situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há cerca de vinte minutos fui informado que entre nossas avarias perdemos a âncora e o leme está extremamente danificado. Alguns dos homens estão checando a situação e estamos torcendo para que haja alguma maneira de consertá-lo com o equipamento que temos a bordo. Por hora estamos totalmente à deriva, com o casco fragilmente remendado a bombordo e perdemos parte de nossa carga. O clima está esfriando e me pergunto se já não estamos sendo levados muito ao sul pelas correntes. Parte de meus equipamentos também se avariaram e o céu continua encoberto nesta águas desconhecidas. Com os mapas e os instrumentos que me restam posso apenas fazer suposições muito mal aproximadas de nossa localização. Ainda assim deixarei as anotações anexas a este diário para o caso que alguém o localizar e realizar uma busca por sobreviventes. O Cirella apenas bóia com seu casco inclinado, mas creio que temos mantimentos suficientes para nos mantermos ainda por um bom tempo nesta situação. A tripulação tenta se manter unida e firme, mas já é possível ver que alguns de nós começamos a fraquejar e dar sinais de perder as esperanças. Se o Cirella algum dia voltar a navegar suavemente pelas ondas ou a aportar em algum cais, creio que dificilmente todos ainda estejamos a bordo. Alguns já se foram. Vários deixaram a embarcação pelos portos por que passamos, outros não suportaram as agruras de nossas desventuras e outros poucos o mar recebeu. Não sei ao certo o que nos levou ao nosso atual e calamitoso estado. Creio que seria infiel à verdade se citasse apenas um motivo como responsável. Várias situações foram se somando até nos trazerem aqui. Já faz algumas horas que não tenho notícias de nosso capitão. A sua ausência vem como um alívio ao resto da tripulação, e ajuda a cada um de nós a recuperarmos um pouco de nossas forças e nos colocarmos novamente em condições de buscarmos uma solução para nossa delicada situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando ao meu relato, não sei ao certo quando as coisas mudaram tão violentamente de rumo. Acho que aos poucos tudo foi mudando, as excentricidades de nosso capitão se acentuando, mas, como os fatos se desenvolviam lentamente, acho que nenhum de nós percebemos até que fosse tarde demais. Os primeiros sinais, creio eu, surgiram já ao final de 1666. Até então as manias do Capitão Tino haviam se limitado a colocar os homens para esculpir suas famosas carrancas cada vez maiores, adornando o barco com mais destas estátuas de madeira. Não havíamos perdido nenhum homem em combate ou por doenças e desde que eu ocupava meu posto a tripulação só crescera. Mas naquele final de ano tivemos nossas primeiras baixas como equipe. As ordens do Capitão começaram a destoar naquela época. Ele transmitia suas ordens ao seu Imediato, que as levava à equipe e, quando esta estava em plena atividade, o Capitão surgia dando novas ordens. Era evidente o descontentamento de Bogus nessas horas, mas ele acatava as novas ordens e a equipe era obrigada a redobrar seus esforços para cumprir a tarefa. Igualmente por mais de uma vez navegamos por rotas menos seguras ou desnecessariamente longas por motivo do capitão mudar meus traçados de navegação. Não que eu fosse avesso à intromissão de outros, com freqüência discutia as melhores rotas debruçado sobre os mapas com Bogus e o capitão, mas quando essas mudanças surgiam repetidamente era bastante complicado manter os registros do Cirella corretos e nosso barco no rumo adequado. Além do que o Capitão já me quebrara um compasso e um sextante tentando traçar rotas. A nossa primeira baixa foi justamente no final daquele ano. Saíamos de um canal desviando dos bancos de areia. Ainda era cedo, pouco depois da aurora. Mais adiante avistamos uma cadeia de corais perigosamente em nosso caminho. Minha sugestão era navegarmos a bolina contornando os corais para evitar manobrar entre eles, uma vez que eu temia que o calado do Cirella fosse demasiado profundo para uma passagem direta. O Capitão, no entanto, queria ganhar tempo e aproveitar os ventos para cruzar por entre os corais. E a sua vontade prevaleceu. Sob o comando de Bogus aproamos em direção dos corais e toda a tripulação se preparou para a empresa.  Ouvíamos os gritos desesperados de Áspero que parecia prever o pior. Frei Renalier preparou seus aparelhos e praguejou baixinho contra Tino Sadiano, depois se benzendo para se redimir. À medida que nos aproximávamos dos corais a dificuldade de manter o rumo do Cirella aumentava. Os caminhos eram estreitos e o casco rangia ao toque sob a água. Era um jogo de azar. E as apostas não estavam favoráveis. Um bingo dourado sob o sol daquela manhã. Um bingo que iríamos perder. Era uma questão de tempo e não demorou a acontecer. A quilha do Cirella chocou-se aos corais danificando o casco e atirando ao mar um dos marinheiros. Felizmente o mar calmo facilitou o resgate de nosso companheiro e os danos não foram excessivamente grandes. Mesmo assim tivemos que parar no próximo porto para reparos adequados. O marinheiro foi avaliado pelo nosso bom frei e, fora algumas escoriações, não sofreu maiores ferimentos. O Capitão ainda teve a infelicidade de apelidar nosso companheiro de “Caimar”, pelo incidente. Nosso companheiro não achou a mesma graça no apelido que nosso capitão lhe dera e, acusando-o de descaso, deixou o Cirella naquele mesmo porto. No mesmo par de dias que ficamos a reparar nosso navio, Caimar, como apelidou o capitão, acertou seus serviços em uma nau muito maior que estava ancorada ali. Um grupo de boticários e alquimistas que comercializam uma fórmula acinzentada que produziam em uma aprazível ilha no atlântico. Depois daquele episódio nosso companheiro jamais tornara a embarcar no Cirella.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-1026705891349353953?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/09/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-vi.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-5781149504246893718</guid><pubDate>Mon, 07 Sep 2009 21:11:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-07T18:13:21.773-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte V</title><description>Com ventos tão favoráveis e com todos os meus instrumentos à mão, não me foi difícil manter o Cirella na rota, mesmo em águas desconhecidas. As noites estreladas facilitavam o uso do sextante e constância dos ventos foi tanta que não nos foi preciso nem mesmo navegar à bolina uma única vez. Nesse ritmo chegamos facilmente ao nosso primeiro destino, no qual seria decidido meu futuro em relação ao Cirella. Contornamos a ilha até uma enseada de águas calmas onde lançamos âncora. Dada às ordens para preparar o desembarque para o dia seguinte, pois atingimos a enseada já após o pôr-do-sol, fui chamado à presença do Capitão. Fui até a ponte onde o encontrei junto ao leme olhando para os luzeiros na costa. O capitão Tino me cumprimentou pelo trabalho realizado até então, mas me alertou que maiores desafios ainda estavam por ser enfrentados. Disse-me que falaria com Bogus a meu respeito e a respeito de meu trabalho nesta primeira viagem com a tripulação e que, junto com o Imediato, decidiria pela minha permanência ou não abordo do Cirella. Conversamos ainda alguns minutos e me despedi de meu capitão indo ajudar os demais a preparar o desembarque. A viagem havia sido tranqüila e acho que por isso eu acreditava que não teria motivos para que eu não continuasse junto aos meus novos companheiros. Ainda assim, confesso que a expectativa da decisão já sondava minha mente há alguns dias e adormeci esperando que a nova manhã trouxesse boas novidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte descemos os botes e fomos à terra depois de quase um mês no mar. O arquipélago era formado por três ilhas principais e mais algumas muito menores. A principal cidade era localizada às margens da enseada, uma vez que o arquipélago vivia quase que exclusivamente do comércio com barcos mercantes. Os grãos que compraríamos eram em parte trazidos por outros navios e em parte cultivados em uma das outras duas ilhas maiores. Da terceira ilha partiam os pescadores e baleeiros, dos quais esperávamos comprar boas quantidades de óleo a um preço justo. O primeiro dia em terra foi gasto com contatos nos mercados a procura de boas oportunidades de negócios. “Oportunidades, homens! Oportunidades!” bradava o capitão com olhos ávidos aos mercadores. Enquanto o capitão se concentrava na busca de oportunidades na cidade, um pequeno destacamento foi à outra ilha para negociar os barris de óleo. Frei Renalier foi em busca de um boticário conhecido seu para renovar seus estoques de alabastro, ainda que aquele arquipélago não pudesse muito oferecer neste quesito. Eu ajudei os marinheiros arranjando para que tudo estivesse preparado para as negociações e o carregamento e, depois, junto com o Imediato Bogus Napolle, fomos à estalagem mais próxima para conferir que distrações a cidade oferecia aos que nela aportavam. Rastani ficara a bordo contando e recontando as estimativas dos lucros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na própria estalagem nos reunimos para beber. Era a primeira vez que me reunia com os homens apenas para beber e matar tempo. Acho que foi ali que percebi que me daria bem com aquela tripulação. Já me sentia à vontade, talvez por causa dos copos de vinho que teimam em chegar, e me divertia com eles. Foi-me grata a surpresa de ver Bogus entre os homens. Ali ele era apenas Bogus. E não o Imediato Bogus Napolle, segundo em comando no Navio Mercante Cirella. Era um de nós. Claro, o gosto pelo mar lhe corria nas veias e, embalado pelas ondas do vinho e lembranças do mar, nos contava histórias de quando cruzara os mares até chegar ao porto do Cirella. O jeito ranzinza e a voz abafada se confundiam com um contador de histórias que era na verdade um homem do mar. Se sentia à vontade entre os marujos. Daí a receptividade com que eles seguiam seu comando. Provavelmente acima mesmo de nosso capitão. Ficamos algumas horas sendo regados pelo vinho e por histórias. O vinho, apesar de correr farto em nossa mesa, não parecia suficiente para aplacar a sede de todos. Especialmente de Fernão. Um sujeito típico das ondas. Provavelmente nativo de alguma costa meridional, ele tinha os traços de anos no mar, mesmo sendo um dos mais jovens dentre nós. A barba espessa encobria uma pequena cicatriz no queixo e meia dúzia de brincos reluziam na orelha esquerda, fazendo companhia a um dente de ouro que espiava para fora da boca quando ele sorria. E Fernão sempre sorria. Diziam os companheiros que certa vez enfrentaram uma tormenta que ameaçava virar o Cirella. Quando foram amainar, a vela principal não se recolheu, presa no alto do mastro. Com uma faca entre os dentes Fernão galgou o mastro sob chuva e ventos, em meio às ondas, e conseguiu cortar as amarradas para fazer descer a vela. Depois sentou-se lá no alto, com um dos braços agarrado ao mastro e o outro acenando com a faca para a tempestade. Gritava e cantava alguma das músicas barulhentas de seu povo, enquanto os marinheiros recolhiam a vela e lhe chamavam para a segurança do convés. Mas só após terminar a canção o jovem marujo, segurando a faca entre os dentes novamente, se fez mastro abaixo. Nos últimos metros, a embarcação foi sacudida por uma onda e ele golpeado no rosto pelo próprio mastro. Ganhara o dente de ouro para suplantar o que havia perdido neste golpe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já embriagado me despedi de meus companheiros e fui me recolher em um dos quartos da estalagem já preparados para nós, enquanto Fernão começava a subir numa das mesas para dançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia lembro de ter sido acordado por uma dor de cabeça logo de manhã. Juntei-me aos homens e fomos ao mercado onde as negociações estavam sendo feitas. O capitão Tino, assessorado por Rastani, checava as mercadorias de um dos comerciantes locais. Gesticulava exageradamente e imprimia um ar excessivamente solene ao seu discurso. Às vezes parecia mesmo que se esquecia do seu interlocutor. O mercador intervia em intervalos de alguns minutos entre uma fala e outra, mas passava a maior parte do tempo apenas ouvindo nosso capitão. Apesar de a distância me proibir de ouvir o que era dito, era clara a desenvoltura de nosso líder. Alguém que tanto tempo discorre sobre cinco sacas de cevada deve realmente conhecer seu ofício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No período da tarde, após negociarmos várias outras mercadorias, retornaram os homens com o óleo da outra ilha. Barris e mais barris eram carregadas em uma pequena carroça puxada por um burro. O carregamento foi levado aos botes e depois enviado ao Cirella. Ficamos naquelas ilhas por quatro dias e nem o capitão Tino, nem Bogus haviam me chamado para dar uma resposta a cerca de meu destino. Começava a me preocupar, afinal precisava de uma resposta para providenciar um barco para retornar ao continente, caso fosse decidido que eu não seguiria com o Cirella. Achei por bem apenas aguardar uma resposta, afinal, neste um mês não pude me inteirar de todos os procedimentos do barco e a demora podia ser perfeitamente normal. Ao final do quarto dia ajudei no carregamento das últimas cargas e passei aos meus estudos com meus mapas e instrumentos, avaliando a melhor rota para que o Cirella seguisse para seus destinos, independente da minha presença ou não. Mais a noite o Capitão juntou os homens e disse que partiríamos com os primeiros raios da aurora. Ainda, nada a meu respeito. Dormimos todos abordo para garantir que não haveria nenhum imprevisto. Pelo visto eu ficaria mesmo com meus novos companheiros. Pelo visto eu fazia parte da tripulação do Cirella.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-5781149504246893718?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/09/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-v.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-612770060050609593</guid><pubDate>Mon, 31 Aug 2009 23:57:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-31T20:58:01.951-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte IV</title><description>Era uma curiosa tripulação aquela do Cirella. Era formada por homens de diversas localidades, umas mais próximas de nosso porto, outras mais distantes. Alguns de outros países, o que era uma fonte de orgulho do capitão Tino, que se vangloriava do fato vez por outra. Dentre os marinheiros, eles variavam bastante em termos de experiência. Junto a homens cujas faces marcadas e mãos calejadas denunciavam os anos no mar, vi vários que aparentavam uma inexperiência quase infantil que, à minha primeira impressão, foram tomados por aprendizes nos ofícios a bordo de um navio. Alguns dentre a tripulação ainda se mostravam jovens valores e, apesar da aparente pouca idade, se mostravam extremante habilidosos no manejo dos cordames, ajustes das velas e nas tarefas diárias. Dentre eles ainda se destacavam homens distintos que claramente aproveitaram suas viagens para carregar e enriquecer suas mentes além dos porões dos navios em que trabalharam, e alguns cujos braços, mãos e pernas eram mais exigidos do que uma mente afiada. Uma tripulação variada e sem dúvida alguma superior em número, experiência e qualidade, às quais eu já trabalhara até então. Dentre eles não poderei me deter para apresentar todos, mas caso o mar que agora nos ameaça e o nevoeiro que agora nos cega não nos sejam complacentes, é preciso que se faça justiça e que se lembre do nome de alguns de meus companheiros. Se o tempo me permitir irei aos poucos apresentando os diversos personagens com quem convivi nesses meus três anos a bordo do Cirella. Se não me for possível, espero que estes homens sejam lembrados por aqueles que deixamos para trás, seguros em terra firme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além de Tino Sadiano, o capitão desta amaldiçoada embarcação, um homem aparece como seu braço direito e homem de confiança: Rastani Cain. Um homem carrancudo e diminuto, de compleição física frágil e um rosto fino coberto por uma rala barba acinzentada. O queixo adunco e os olhos fundos marcam os contornos do crânio por sob a pele do rosto. Lembro que já então o homem se mostrava frio no contato com quase todos na embarcação e, segundo diziam meus companheiros, fora dela também. Rastani e Sadiano eram parceiros de anos e isso conferia, desde então, mais poder à voz fina e esganiçada do conselheiro. Apesar disso, Rastani não passava de uma sombra de seu capitão. Como fui descobrir com o passar dos anos, o homem não estava qualificado para os exigentes trabalhos no mar, em que por vezes, é preciso ficar por diversos meses sem aportar, ou lutar contra ondas bravias, ou manobrar heroicamente em combate ou em fuga de corsários. O mar é exigente com aqueles que acolhe. O homem que pretende viver sobre as ondas precisa ser talhado para isso. Rastani Cain não é um destes homens. Quase tudo do pouco que sabe sobre a vida em um barco mercante aprendeu a bordo do Cirella. Mas isso não abala a confiança de nosso capitão em seu conselheiro. De fato, de algum modo, creio que a fortalece, deixando Rastani como o responsável pelo controle dos lucros do Cirella, controlando entrada e saída de mercadorias e valores. Com o passar do primeiro ano entre meus companheiros, aprendi a conviver com a sombra de Rastani se esgueirando pelo navio e apenas vez por outra me pegava praguejando contra ele. Na verdade, naquele primeiro ano e no início do ano seguinte, não tive muito contato com Rastani. Passava a maior parte dos meus dias junto aos marinheiros. Além destes homens o Cirella conta com marujos responsáveis pela carga e mantimentos; um cozinheiro; nosso experiente cirurgião, Frei Renalier; e o Imediato Bogus Napolle, um homem do mar, que comanda os marinheiros e responde pelo navio na falta do capitão. A embarcação não conta com apoio militar, sendo que em caso de necessidade, a própria tripulação se põe às armas, procedimento comum na marinha mercante que faz as rotas do Cirella. Felizmente não foram muitas as vezes em que se fez necessário empunhar armas a bordo, de modo que nosso bom Frei Renalier se ocupava mais com seus sermões e com as pequenas enfermidades cotidianas do que com ferimentos de batalha. No entanto, temo que nossa situação atual ainda vá dar muito trabalho ao nosso sacerdote. Se não cuidando dos enfermos, orando por nossas almas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-612770060050609593?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/08/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-iv.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-371828955574172899</guid><pubDate>Sat, 29 Aug 2009 00:06:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-28T21:07:52.654-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte III</title><description>Em resumo, naquela entrevista, o capitão Tino me disse que já conhecera um pouco do meu trabalho nas embarcações menores na qual eu trabalhara e que eu havia sido muito bem recomendado pelo seu ex-contramestre. Relatou-me os feitos do Cirella sob sua tutela e me fez uma descrição pormenorizada das qualidades da embarcação. Destacou o valor da equipe sob seu comando e seus próprios méritos em unir tais homens. Por fim me levou a cada canto de seu navio me apresentando cada detalhe, cada câmara e seu funcionamento. Deixei o convés sob uma lua alta refletida nas águas e, após me despedir do capitão Tino Sadiano, caminhei pelo cais por algum tempo rememorando o que vira a bordo do Cirella e os rumos que iam tomando minha vida nas rotas mascates. Os dias se passaram e meu contato com o Cirella e seus tripulantes se mantiveram um pouco mais próximos a partir daquela visita. Cruzava com marujos e, volta e meia, com o próprio capitão em tavernas ou no próprio cais enquanto acompanhava o carregamento de especiarias para as viagens. Cerca de um ano se passou e esta rotina se manteve mais ou menos inalterada. Neste ínterim, me mantive a par das notícias das viagens do Cirella e, tendo amigos que trabalhavam no navio, não me foi custoso acompanhar o desenvolvimento dos negócios do capitão Tino. Mas foi apenas no sexto mês do ano seguinte que eu deixaria definitivamente o barco no qual eu trabalhara até então e iria me juntar à tripulação do Cirella. As conversas e negociações não duraram mais do que uma semana e logo eu estava contratado. Na época, ficara acertado que eu acompanharia a embarcação na condição de cartógrafo em uma viagem a um pequeno arquipélago onde seriam comprados grãos e óleo. Nesta experiência, que deveria durar não mais de um mês, eu seria avaliado. Caso o capitão se arrependesse de minha contratação ou algum atrito impedisse minha continuidade no Cirella, eu retornaria, por minha própria conta, em uma embarcação menor que conseguiria em uma das ilhas. Porém, caso minhas habilidades se mostrassem úteis durante esta viagem e minha adaptação a estas novas rotas fosse satisfatória, eu seguiria sob as ordens do capitão e junto à tripulação para o oriente, onde a carga seria vendida por valores mais rentáveis e eu passaria então a fazer parte definitivamente da tripulação, como cartógrafo e navegador. Meus ganhos ficaram acertados um pouco acima do eu ganhava nas rotas mascates, mas o que realmente me impulsionava era o mar. Lançar velas em novas rotas, embalado por novos ventos e conhecer novos portos. Naquele momento, o horizonte me pareceu mais tangível. E eu iria ao seu encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia do embarque fui novamente apresentado à embarcação, que já mostrava algumas melhorias e benfeitorias desde que eu a vira pela última vez. Fui também oficialmente apresentado à tripulação, que de modo geral me recebeu muito bem, até porque dentre os homens, alguns eu já conhecia e de outros já me tornara amigo em tempos passados. Dois dias depois, com o Cirella já preparado e com ventos favoráveis zarpamos e deixamos o cais. Com as grandes velas enfunadas a embarcação logo atingiu uma velocidade que dificilmente se manteria por muito tempo nos barcos menores nos quais eu trabalhara anteriormente. A nau vencia as ondas com rapidez e logo adentraríamos águas até então novas para mim. O sol se fazia alto, mas com o vento do oceano a temperatura era realmente agradável. Como me era prazerosa a sensação! O cheiro salgado do mar, o manto verde se estendendo até o horizonte, o sol brilhando em um céu sem nuvens. O mar. Ao qual me lançara tantas vezes e ao qual sempre soube que sempre retornaria. No alto do mastro principal, acima das velas, o estandarte do Cirella tremulava ao vento. A bandeira trazia um grande escudo cinza sobre o fundo azul escuro. E sobre este escudo, no mesmo tom azul da bandeira, a imagem de uma ave majestosa balançava ao vento, com a enorme cauda de longas penas, o longo e delgado pescoço e a cabeça encimada por um pequeno penacho. E assim o Cirella seguia. Com o céu limpo, ventos a favor e mar calmo, eu não tinha muitos problemas em traçar as melhores rotas nem em determinar nossa localização. Aos poucos eu ia conhecendo melhor meus companheiros de navio, enquanto atingíamos águas ainda não exploradas por mim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-371828955574172899?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/08/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-iii.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-1413792652212762173</guid><pubDate>Sat, 22 Aug 2009 00:00:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-21T21:02:13.005-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte II</title><description>Meu primeiro contato com o Cirella se deu cerca de um ano antes de meu embarque junto aos homens da nau. 1665 já passava da metade quando conheci pessoalmente o capitão Tino Sadiano. A notícia de que o capitão pretendia lançar-se a novas águas e tinha necessidade de um cartógrafo a bordo me chegou numa noite em uma taverna pelo ex-contramestre do Cirella. Curioso em conhecer a tal embarcação e já pensando em a quais mares ela iria se lançar, fui ao ancoradouro em um fim de tarde para falar com o capitão, o qual eu tivera o cuidado de avisar de minha chegada através de um dos estivadores que trabalhava no carregamento do navio. Fui recebido por um marinheiro sem patente, visto que os oficiais estavam em terra e aguardei até ser chamado à cabine de comando do Cirella. Lá fora o sol estava se pondo no mar calmo e uma brisa fraca soprava do oceano para a terra. No alto do mastro principal a bandeira azul e cinza adormecia pendurada pela falta de ventos mais fortes. As velas dos dois grandes mastros estavam recolhidas e apenas algumas lanternas iluminavam o convés. Através das janelas eu podia ver o bruxulear das luzes no interior da cabine, mas não ouvia som algum vindo de lá. Aguardei do lado de fora e me detive observando o convés e as carrancas de adornavam o mastro principal logo abaixo da bandeira. Na proa uma enorme carranca se projetava à frente da nau lembrando um galo levemente disforme de bico aberto e um pescoço curvo e longo que seguia à frente do navio até mergulhar nas águas sob o casco. No castelo de popa se elevava uma pequena amurada de madeira adornada por entalhes que lembravam penas da cauda de um pavão, que se estendiam por todo o castelo. Fui desperto pelo abrir da porta da cabine, ao que o marinheiro que havia me recebido fez-me sinal para entrar. Obedeci e, passando por ele, a porta se fechou atrás de mim, deixando o marujo do lado de fora. A cabine do capitão era relativamente grande para um barco daquele tamanho e era adornada por objetos visivelmente valiosos, mas dispostos de forma tal que o conjunto da decoração parecia embaralhado, bagunçado e confuso. As paredes eram adornadas por desenhos e pinturas náuticas, um espelho retangular e um quadro com a imagem do próprio capitão em trajes finos e usando um chapéu escuro que se destacava por uma longa pena verde que se projetava para cima e para trás, como é moda dos menestréis teutônicos. Próxima à parede imediatamente à frente da porta pela qual eu entrara se encontrava uma pesada mesa de madeira que guarnecia uma muito bem acabada cadeira de espaldar alto, recoberta por uma grossa manta anil sobre a qual se sentava a autoridade máxima dentro do Cirella. O capitão vestia uma nobre capa de cor escura. As calças que trajava, no entanto, não contribuíam para a imagem que eu esperava de um homem em sua posição. Por sob a mesa se percebiam as barras curtas mal cortadas que deixavam à mostra as canelas pelo vão entre a barra da calça e o cano da bota, que se mostrava baixo demais para cobrir devidamente as pernas. Botas que eram adornadas por grossas fivelas que lembravam o ouro, mas que se encontravam em estado de conservação já prejudicado, apresentando abrasões e escoriações aqui e ali. O homem tinha a barba bem feita e os olhos escuros como os cabelos. O nariz um tanto alargado, a pele escurecida pelo sol e os olhos levemente puxados lembravam os índios nativos do Novo Mundo, apesar de que eu duvide de alguma descendência daquele povo. Com o ar mais solene que pôde o capitão indicou uma cadeira à frente de sua mesa, na qual me sentei. O capitão Tino se recostou em sua cadeira, inclinando-a para trás e, pousando uma mão sobre o abdômen, começou uma explanação que levou cerca de quase vinte minutos ininterruptos, a qual não relatarei na integridade a fim de preservar o tempo que me escorre rapidamente como a água que está sendo bombeada para fora deste navio. Meu auxiliar acaba de me confirmar que o alagamento foi estancado, mas as avarias foram graves e já perdemos um homem na operação de contenção de danos. Meus companheiros parecem perder as esperanças aos poucos. Na nossa embarcação e especialmente em nosso capitão. Creio que só o que nos mantém ainda lutando, só o que temos, é uns aos outros. E se for para ser tragado pelo oceano, não poderia pensar em companhia mais louvável do que os homens com quem divido meus dias a bordo do Cirella. O tempo urge e a cera da minha vela escorrendo me lembra que as horas que me restam fazem o mesmo. Voltemos pois a história.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-1413792652212762173?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/08/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-ii.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-8630792733937403490</guid><pubDate>Tue, 18 Aug 2009 01:56:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-17T23:06:49.680-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Meus dias a bordo do Cirella - Parte I</title><description>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Esse texto foi escrito há bastante tempo. Não lembro há quantos anos. É um pouco extenso, apesar de ter sido escrito praticamente numa paulada só, por isso vou postá-lo aos poucos. Provavelmente não vai fazer sentido para a maioria, por falta de contexto, mas é tb um pouco esse o objetivo. Segue aí. E na sequência posto as "cenas dos próximos capítulos".&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei quanto tempo nos resta. A água já tomou um dos compartimentos inferiores e os homens lutam para impedir que ela se alastre enquanto o avariado Cirella balança à deriva nessas águas desconhecidas. A noite escura como eu jamais vi e o denso nevoeiro que nos cobre há quase uma semana impedem-me de reportar a localização precisa deste cárcere flutuante. Receio pela sanidade do capitão Tino e creio que o diário de bordo do Cirella já não faça justiça aos passos que nos trouxeram até aqui. Portanto transcrevo apressadamente os eventos que culminaram nesta malfadada e fria hora na esperança de que aqueles que, por ventura ou acaso, encontrarem estas palavras façam justiça à memória das almas que se encerram nesta sombria embarcação. Se por acaso não me for possível terminar estes relatos antes do fim, despeço-me já de meu leitor. Adeus. A chama consome a vela e devo logo começar minha história.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;— Roderico Ferolli. Cartógrafo e navegador do Cirella.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três anos se completarão desde que me juntei à tripulação do Cirella. Porém, mesmo antes daquela época já havia ouvido falar do barco mercante, ainda que muito superficialmente. Apesar de não se comparar em tamanho ou em viagens com os barcos das principais rotas e que traziam as melhores mercadorias, o Cirella estava naquela época entre as maiores e principais embarcações da região. Em todos os casos, consideravelmente maior do que o barco mascate no qual eu trabalhara no par de anos anterior. Pelo seu porte, a embarcação do capitão Tino Sadiano também podia se lançar em rotas mais vantajosas e aportar em paragens onde negociam-se as mercadorias por valores mais rentáveis. O Cirella também era conhecido pelas carrancas que exibia na proa e nos mastros. Esculpidas em madeira em tamanhos desproporcionalmente grandes para a nau, as peças empregavam uma aparência quase cômica à embarcação, sendo inclusive, motivo de piadas entre alguns dos marinheiros de outras embarcações, estivadores e trabalhadores que viviam às voltas nos portos próximos. Diziam, porém, que as carrancas eram motivo de orgulho especial para o capitão, a despeito da aparência estapafúrdia de algumas das esculturas. Quanto ao capitão do Cirella, também pouco o conhecia, exceto por alguns boatos sussurrados entre as docas e estalagens próximas ao porto. Contava-se que o capitão havia se lançado à vida ao mar há não muitos anos e que neste pouco tempo havia conseguido algum sucesso que o colocava entre os principais navios daquelas águas, alguns com capitães vários anos mais experientes. Naquela época, enquanto ainda era segundo em comando em uma embarcação mascate, eu soubera que o temperamento do meu futuro capitão já lhe trouxera alguns pequenos atritos com capitães de outras embarcações e em alguns portos. Porém, como soube, nenhum de maior importância. Exceto por um que agora me vem à memória. Contava-se que antes de comandar o Cirella o capitão Tino trabalhava como marinheiro em outra embarcação com vários outros homens na mesma posição. Alguns dos quais, também se tornaram capitães de seus próprios navios, alguns mercantes, outros baleeiros, outros de guerra. Dentre estes estava o atual capitão do baleeiro O Caçador, Earl Dymath. Contam os marujos destas bandas, que durante a vigília do então marinheiro Tino Sadiano, este acordava frequentemente os companheiros aos gritos por avistar algo entre as ondas, apenas para depois verificar-se que de nada se tratava. Àqueles pelos quais ouvi a história, não sabiam dizer se esses avisos falsos eram propositais ou apenas confusões do então marujo. O que se conta é que, cansado dos constantes avisos infundados, Dymath fora tirar satisfações com Tino e que logo se engalfinharam em um combate de violência tal que o atual capitão do O Caçador fez-se ao mar, e foi preciso um grande esforço para que ele não se perdesse entre as ondas. Desde então esta história corre de porto em porto, de embarcação em embarcação e, ao que parece, a inimizade perdura entre ambos os capitães desde então. Mas verdade seja dita, boatos e histórias tendem a crescer ao som do mar e as bocas não são tão confiáveis como os olhos, especialmente as dos marinheiros. Portanto deixemos de lado as histórias colhidas por estes ouvidos, e passemos àquelas vislumbradas por estes olhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-8630792733937403490?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/08/meus-dias-bordo-do-cirella-parte-i.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-5664931232651026572</guid><pubDate>Sat, 08 Aug 2009 01:58:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-07T23:00:12.146-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Prosa</category><title>Treze de Agosto</title><description>Olhava para o céu de agosto procurando algo entre a poluição e os vãos do viaduto sobre a cabeça. O pescoço levantado revelava uma barba mal feita e as roupas esfarrapadas tinham a cidade impregnada nas tramas. E a cidade, por sua vez, impregnava-se deles, entre os pés coloridos e pichados "veado" dos viadutos. Mas Seu Coelho não era veado. Só era pobre. Tinha o que lhe cabia na sacola de lona e as cores do viaduto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Olhando o quê, Seu Coelho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre lhe chamavam Seu Coelho. Nem era velho, mal passava dos quarenta. Mas a verdade é que aparentava mais, e ninguém nunca lhe perguntou sua idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Lua cheia hoje. Não dá de ver por causa da fumaça, mas tá mais claro lá, ó. Lua cheia.&lt;br /&gt;— E daí?&lt;br /&gt;— É bonito, só. Mais bonito que o viaduto ao menos.&lt;br /&gt;— Sai daí, homem, que tá ficando frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Seu Coelho saiu e foi se juntar aos outros esfarrapados aos pés coloridos dos viadutos, em volta de uma sopa rala, surrupiada do abrigo cuja funcionária fez vista grossa por pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O farol alto de um carro projetou na parede as sombras negras dos esfarrapados. Animais acuados, alguns fugiram assustados, outros paralisaram. Os faróis baixaram, deixando só as luzes de cidade acesas. O capô trazia um felino prateado à frente. Seu Coelho, de orelhas em pé, junto aos outros homens, aguardou. A porta do motorista se abriu. Um homem magro saiu, metido num terno preto. Conferiu nas mãos uma folha de papel, olhando para os homens por cima das lentes dos óculos apoiados sobre o proeminente nariz adunco. Mirando Seu Coelho com olhos de rapina citou em uma voz gentilmente treinada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Senhor Jeremias Antônio Coelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motorista revelava, nas mãos, para os homens curiosos, uma fotocópia da ficha do abrigo, com os dados médicos, cadastrais e uma fotografia 3X4 recente de Seu Coelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem coçou os já prateados fios da barba, adiantou-se, conferiu a ficha. De fato, era a ficha do abrigo. Levantou os olhos ao magro motorista, com o ronronar do carro ao fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não se preocupe — disse o homem abrindo a porta traseira do automóvel — Ah! — continuou — antes que me esqueça, o abrigo pediu para entregar isso. Disseram que era para o custeio da viagem. Acho que faz parte do intercâmbio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Coelho abriu o envelope que lhe foi entregue, dentro, poucas notas de cinquenta reais. No interior do carro, o calor e o aroma de alguma massa recém assada pareciam convidativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Vamos? Perguntou o homem de óculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Coelho olhou para o céu e, entre vias de concreto e lufadas de fumaça, viu por um momento a lua espiar por trás das nuvens. Deu um suspiro profundo, quase de entrega, colocou o envelope no bolso, deu de ombros e entrou no carro. O mundo lhe passava pela cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do carro de bancos de couro, uma embalagem de uma pizzaria próxima o aguardava no banco traseiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motorista olhou para trás por sobre o banco:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— A viagem não deve demorar muito, mas achei que poderia estar com fome. Peguei agora mesmo. Espero que não se importe, mas peguei um pedaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Coelho balançou a cabeça, mas, antes que pudesse dizer "não tem problema", uma lâmina opaca subiu entre ele e a cabine do motorista. Só então percebeu que as janelas eram igualmente opacas. Uma música suave tocou enquanto o carro se pôs em movimento. Seu Coelho, lá dentro, abriu a embalagem de pizza, com uma fatia a menos, e tratou de aplacar o estômago ruidoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro rodava sem solavancos. Ao contrário da cabeça de Seu Coelho. Não sabia se deveria crer no motorista sobre o intercâmbio do abrigo. Já se imaginava atirado na entrada de outra cidade, jogado de novo no mundo para sair à procura de outro viaduto de pés pintados noutra urbe poluída para impregnar-lhe as roupas rotas. Imaginou-se, jogado na rua, já sem vida, um resto esfarrapado de gente. “Vazio de vida, mas ao menos de bucho cheio”, pensou. Deixou o pensamento pairar-lhe à mente sem medo e perguntou-se se já não estaria de todo esvaziado da vida. Já não ligava, apenas deixava-se levar, ao som da música, o embalar do couro, o sabor e o cheiro da pizza. Era o melhor momento que lhe havia aparecido há muito. Que viesse o que fosse, que ali lhe valiam os anos todos sob o concreto à caça de algo para comer. O felino prateado puxava o carro pela autoestrada guiado por uma lua cheia de agosto, que Seu Coelho não podia ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som de cascalho sob as rodas e as curvas sinuosas revelaram que o motorista saíra da via principal. Seu Coelho imaginou um terreno ermo onde seu corpo descansaria coberto por ervas daninhas sem deixar saudade. Ignorou o pensamento e deixou-se invadir pela música. Recostou-se nos bancos macios e permitiu-se quase cochilar. A viagem de pouco de mais de uma hora fora o momento de maior conforto e prazer — e paz até — que havia tido nos últimos anos na rua. A mente estava calma, sublimando para um estado de sonolência, quando os freios suaves fizeram o carro parar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviu a porta do motorista se abrir. Passos do lado de fora. A porta traseira finalmente abriu para uma noite clara e iluminada por uma lua cheia brilhante num céu estrelado de poucas nuvens. O homem de óculos falou apenas "Chegamos, Senhor Jeremias".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Coelho saiu do carro. Os sapatos velhos deram num chão de terra batida, cercado de um gramado bem aparado e um lago brilhante distante. A estrada se perdia numa espécie de pasto. Ao longe era possível ver a silhueta de uma cerca de madeira e ouvir o relinchar de algum cavalo. Uma casa grande, à frente, o aguardava. As paredes eram de pedra até cerca de um metro de altura. Acima disso, eram chapas de madeira nobre que se erguiam até o telhado de telhas acinzentadas. Um perdigueiro grande de cara escorrida veio cheirar-lhe as vestes. Num movimento brusco, retirou o focinho aguçado, agredido pelos restos de cidade agarrados às fibras puídas, e retornou para algum lugar atrás da construção. O motorista abriu a porta principal e fez um gesto convidando o passageiro a entrar na casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O assoalho rangeu em boas-vindas, dócil. Das arandelas escorria pela parede uma luz amarelada e a um canto, uma lareira crepitava confortavelmente com uma velha espingarda de caça decorando a chaminé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— A sua estada, tenho certeza, será bastante confortável. Venha, deve haver um banho aguardando o senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motorista de nariz adunco acompanhou Seu Coelho até uma porta, que se abria para um banheiro coberto com uma parede coberta de arabescos e pastilhas de vidro ao redor do box. Do outro lado, uma banheira cheia de uma espuma fumegante aguardava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Fique à vontade. Chamarei alguém para... — fez uma pausa proposital — deixá-lo mais à vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem saiu, deixando Seu Coelho só no banheiro. Um cheiro de eucalipto cobria o fedor das suas roupas. Pela estreita janela basculante, o luar espiava curioso. Não havia tranca na porta. Mas poucos pudores restavam para quem já tão pouco tinha. Seu Coelho tirou as vestes sujas, jogou-as a um canto, empilhadas, e meteu as pernas cansadas na água quente, submergindo o corpo castigado pelos anos na rua sob a espuma branca e perfumada. Recostou-se na banheira e pensou que se o jogassem morto e indigente num barranco qualquer não se importaria. Relaxou lembrando com certo humor que a espuma lembrava àquela que boiava fedida nos rios sob as pontes em que ele, também fedido, morava. Nem mesmo quando a maçaneta da porta desceu, ele saiu do seu estado de conforto. Só quando viu a mulher de branco entrar é que algum espanto lhe chegou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajeitou-se o melhor que pôde, cobrindo-se com a espuma abundante. A loira devia ter uns 30 anos, tinha o cabelo liso amarrado em um coque atravessado por uma vareta de plástico, também branca. Ela olhou com um sorriso benevolente, mostrando-lhe nas mãos um roupão longo e branco, semelhante ao que ela usava. Pendurou a peça num cabide próximo sob o olhar atento de Seu Coelho. Abaixou-se para pegar o monte de roupas sujas revelando, pela fenda de seu roupão, uma perna longa e bem cuidada e um sugerido contorno de seio aparentemente nu, espiando pelo decote. Ela saiu fechando a porta atrás de si. Seu Coelho mirou o roupão pendurado, tentou relaxar na água quente e mergulhou, lavando os cabelos pastosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram-se mais uns cinco minutos, talvez um pouco mais, até que a mulher retornou. Seu Coelho ajeitou-se na banheira, ainda sob a espuma, agora com os cabelos bem menos sebosos e sem o cheiro da cidade na pele. Ela se aproximou com passos curtos, ajoelhou-se ao lado da banheira e pegou a bucha sobre o aparador. Ensaboou o objeto, molhou-o na água e fez menção de esfregar as costas do homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não precisa. Adiantou-se Seu Coelho, preservando os pudores da moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela parou por um momento, olhou para ele, e pressionou a esponja contra o seu dorso puído. A esponja quente percorreu os ombros maltratados com suavidade, em movimentos lentos. Subiu o pescoço tisnado do sol, volta e meia retornando às águas quentes e espumosas da banheira. Seu Coelho foi deixando-se relaxar ao toque sutil da esponja, ao eventual toque das pontas alvas dos dedos longos. Dividiu com a mulher um silêncio cúmplice. Ela arregaçou a manga do roupão revelando um braço esguio e bonito. Mergulhou-o na espuma, percorrendo com a esponja cada vértebra das costas de Seu Coelho, contornando-lhe a lombar. Sob a espuma, o corpo desacostumado com um toque gentil ameaçava relembrar a virilidade que há tempo não provava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça empurrou-lhe o peito delicadamente com a ponta dos dedos, para que se recostasse, molhou a esponja na água e começou a ensaboar-lhe o tórax.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu, apenas. Sentiu a esponja descer-lhe pelo abdômen, percorrer-lhe a lateral do tronco, esfregar-lhe a coxa. Sob a água, as mãos dos dois se encontraram. Ao toque, ela mirou-lhe os olhos pardos com os azuis dela. Sorriu — ou riu — sem pudores, mas parou o movimento. Ele, devagar, puxou-lhe a mão até sentir o toque da esponja onde queria. Ela roçou-lhe suavemente com a esponja. Levantou-se, olhou, de pé, para o homem deitado na banheira, soltou o cordão que amarrava o roupão e deixou a peça correr pelos ombros até cair no chão. Meteu as pernas longas dentro da banheira, uma depois da outra, e mergulhou a nudez nas águas quentes, contornando, por baixo da espuma, as pernas dele com as dela. Olhou por um momento para o homem a sua frente, pegou novamente a esponja e começou a ensaboar o próprio corpo, ignorando o companheiro de banheira. Seu Coelho ficou poucos minutos observando a moça de cabelos presos e corpo mergulhado na mesma água que o cercava. Com as mãos tocou-lhe as pernas lisas. Ela apenas o olhou e continuou a banhar-se. Ele se desencostou da banheira, levando as mãos às coxas da moça. Tudo para receber apenas mais um olhar, com o canto do olho. Num movimento quase brusco, com a paciência de quem vive à míngua sob os viadutos sem receber sequer um olhar de uma mulher como aquela, Seu Coelho tomou-lhe a esponja, espirrando com a violência do braço, um pouco de água para fora da banheira. O suficiente para espalhar a espuma, revelando um seio delicado coroado por uma auréola rosada e decorado com uma pequena tatuagem de um arco rebuscado ao lado de uma flecha, ornamentados por motivos tribais. Cobriu o seio da moça com a esponja, fazendo-a percorrer devagar, para baixo, o corpo arrepiado. Viu-a deitar a cabeça para trás e arquear as costas enquanto a esponja se perdia entre a espuma e as pernas da mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um pulo, Seu Coelho projetou-se sobre a loira, transbordando a água a cada investida, transbordando emoções represadas, anos suprimidos, rugas precoces. A moça, capturada, subjugava-se às investidas brutas, à barba áspera, ao sabor das ruas que persistia na pele agora limpa. A cidade fica impregnada fundo, onde a água não alcança. Mas agora ela vinha à tona. Transbordava-lhe pelos poros, desprendia-se pelos pêlos, emergia-lhe à pele. A moça agarrou-lhe o pescoço com os braços, envolveu-lhe o lombo com as pernas e sentiu-se transbordar como a banheira. Seu Coelho continuou as investidas até que toda a cidade, toda a rua, toda a vida represada transbordasse também de si. E naufragou exausto nas águas que se acalmavam. Depois de uns dois minutos a moça levantou, em silêncio, vestiu o roupão novamente e saiu pingando pela porta sem tranca do banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Coelho aguardou uns cinco minutos. Levantou-se, secou o corpo murcho, já não sabia se pela água ou pela vida, e vestiu o roupão branco com um pequeno gamo bordado no lado esquerdo do peito. Abriu, sem muita certeza, a porta do banheiro. No chão, a sua frente, ruas roupas aguardavam empilhadas e dobradas. Pegou-as, retornou ao banheiro e um minuto depois tornou a sair, vestindo as próprias vestes, cobertas com alguma nova essência que desconhecia, mas de aroma bem mais agradável. O homem magro de terno preto o aguardava na sala, em frente à lareira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ah, Senhor Jeremias. — Disse sem emoção na voz ou no rosto. — Seu jantar está servido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acompanhou o homem a uma sala lateral onde uma refeição simples mas farta o aguardava. Seu Coelho já não perguntava nada, não esperava nada, não se importava com nada. Comeu com a pressa que se aprende na rua. Ao terminar, o mesmo homem de terno re-apareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Senhor Jeremias, acompanhe-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Coelho obedeceu. Seguiu o homem até a sala onde este abriu a porta da rua. Seu Coelho parou por um momento. O homem de olhar de rapina fez um movimento de confirmação com a cabeça. Seu Coelho saiu pela porta e encontrou o mesmo carro que o trouxe, com a porta traseira aberta. O homem fez sinal para que entrasse no veículo. A lua alta brilhava cheia, retornando com uma lufada de vento o suspiro de Seu Coelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro serpenteou as curvas levando no ventre Seu Coelho que, lá dentro, não sabia o que pensar. Apreendeu-se imaginando que fim lhe esperava. Não creu na história do abrigo, mas tentava se tranquilizar relembrando que o que quer que o aguardasse, não poderia ser pior que retornar à rua. E de todo modo, havia valido a pena. Viveu numa noite o que não vivera sobrevivendo nos últimos anos. Ouviu com certo espanto o ruído familiar da cidade. O carro parou. Uma sirene soou não muito longe dali. A cidade, à noite, expirava ressonante e insone. A porta se abriu. Seu Coelho saiu e deu com um bairro distante, na periferia. O homem de nariz adunco cerrou a porta traseira, retornou ao posto de motorista e partiu seguindo o felino prateado que puxava o carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma hora depois, Seu Coelho chegava, a pé, junto aos pés coloridos escrito "veado" do viaduto que lhe servia por teto. Ao mesmo tempo em que, num casarão distante com um Jaguar estacionado em frente, um homem de terno negro e olhos de águia batia à porta de um quarto. Dentro do quarto a mulher loira, sentada na cama sob as caras cobertas, ajustou o robe cobrindo o seio tatuado e pôs de lado um balancete financeiro de uma filial empresarial. Retirando os óculos e colocando-os ao lado do cálice de vinho no criado-mudo, disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pode entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem de terno abriu uma fresta na porta do quarto e polidamente perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Senhorita Diana, estou indo me recolher. A senhorita deseja algo mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não, Tulius. Está tudo bem, obrigada. Boa noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Obrigado. Boa noite, madame.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-5664931232651026572?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/08/treze-de-agosto.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-3424099067433539233.post-936068060149276202</guid><pubDate>Fri, 31 Jul 2009 01:15:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-07-30T22:26:19.382-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>Literatura - Verso</category><title>Se pudesse hoje</title><description>Se pudesse, hoje&lt;br /&gt;te queria assim,&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;bem louca.&lt;br /&gt;De rasgar a roupa&lt;br /&gt;e estourar botão&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;[e estourar botão]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pudesse, hoje&lt;br /&gt;te queria assim,&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;bem prosa.&lt;br /&gt;Decifrar teu verso&lt;br /&gt;colher tua rosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;[Rósea rosa violácea&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que se abre já colhida&lt;br /&gt;desabrocha já na mão]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pudesse, hoje&lt;br /&gt;te queria assim,&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;assim.&lt;br /&gt;colher teu orvalho&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;[gota a gota]&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;gota&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;.................&lt;/span&gt;a&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;............    ....&lt;/span&gt;gota&lt;br /&gt;te colher pra mim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pudesse, hoje&lt;br /&gt;te queria assim,&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;sem roupa.&lt;br /&gt;Toda mãos e toda boca&lt;br /&gt;toda pernas&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;[toda vinhas&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;trepadeira]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pudesse, hoje&lt;br /&gt;te queria assim,&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;lasciva.&lt;br /&gt;te amassar o fruto&lt;br /&gt;pra te verter o sumo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;reduzir-te a meu consumo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pudesse,&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 255, 204);"&gt;...........    &lt;/span&gt;hoje.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3424099067433539233-936068060149276202?l=roferoli.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://roferoli.blogspot.com/2009/07/se-pudesse-hoje.html</link><author>noreply@blogger.com (Rodrigo Oliveira)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>7</thr:total></item></channel></rss>